10 de março de 2017

O Gigante Adormecido da Baía de Guanabara

۞ ADM Sleipnir


Ao chegar ao Rio de Janeiro pelo mar, e ver de longe a formação montanhosa que circunda a baía de Guanabara, tem-se a impressão de que ela forma o vulto imenso de um homem deitado. Olhando para a paisagem, é possível distinguir perfeitamente a cabeça, o peito, as pernas e os pés. Esta formação montanhosa se estende por sete bairros (Barra da Tijuca, São Conrado, Leblon, Ipanema, Copacabana, Botafogo e Urca) e seu comprimento se estende por cerca de 18 quilômetros.

Uma foto antiga da região

Uma foto atual

De acordo com uma antiga lenda, este vulto é na verdade o corpo de um gigante que há milhares de anos, guardava a baía de Guanabara, e que após ter assassinado uma bela índia, foi transformado por Deus em pedra. 
Uma história contada por pescadores diz que o gigante de pedra ás vezes se levanta e "vai passear". Para isso, ele invoca as nuvens e cobre os morros com um forte nevoeiro, para que assim ninguém note a sua ausência. Esta história em particular é contada pelos seguintes versos de Wilson Rodrigues: 

Dizem os homens do mar
Que, quando o gigante dorme, 
 Parece que sonha com o sol! 
Nos dias de muita luz, 
Quando saem para pescar, 
Lá vêem, deitado na serra,  
O gigante a sonhar. 
Ai! quando há nevoeiro, 
O gigante nos abandona.
 Para onde o gigante vai? 
Vai pelo caminho das estrelas? 
Vai pelos vales distantes? 
Ninguém sabe para onde ele vai...
 Mas, o nevoeiro passa, 
E o gigante volta 
Para dormir sobre a serra,
 Bem junto do mar... 
Volta, gigante de pedra,
 Dorme, que a luz do sol é o teu luar!

Essa lenda também inspirou a famosa propaganda da Johnnie Walker:



fontes:
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20 de fevereiro de 2017

Ticê

۞ ADM Sleipnir

Arte de Natalie Duarte

Ticê
é a deusa do submundo na mitologia tupi-guarani, e consorte do deus do submundo Anhangá. De acordo com a lenda, Ticê foi uma feiticeira muito poderosa e temida pelos grandes conhecimentos que possuía e por seu domínio sobre a maldade e a inveja. 

Uma lenda conta que ela usou seus encantos para não ser atingida pela loucura e morte que eram causados pelos olhos de Anhangá. Assim, ambos puderam olhar para os olhos um do outro e acabaram se apaixonando. Anhangá então levou Ticê para reinar ao seu lado no submundo, tornando-a uma deusa.

Arte de Natalie Duarte


fontes:

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6 de fevereiro de 2017

Gorjala

۞ ADM Sleipnir

Arte de Rock Siles Barcellos

O Gorjala é uma espécie de gigante negro, com um só olho e com a boca escancarada, pertencente ao folclore das regiões Norte e Nordeste do Brasil. De acordo com as lendas, ele atua como um guardião das florestas, perseguindo e devorando qualquer um que invada os seus domínios. 
Ele costuma ocultar-se nas serras e nos penhascos cobertos de fraturas e escarpas pois adora, nos seus momentos de ação, empreender longas caminhadas sobre os abismos e os precipícios, vencendo-os em largas passadas como se nada fossem.

Conta-se que o Gorjala possui o hábito de colocar a sua presa debaixo do sovaco e ir comendo-a aos poucos. Suas presas são geralmente caçadores perdidos, e para o Gorjala, seus gritos de socorro soam como o canto dos pássaros.

Sua figura é certamente uma importação das lendas de gigantes e ciclopes europeus, trazida para o Brasil e adaptada ao nosso folclore. O próprio nome Gorjala remete à indumentária medieval europeia: gorjal era uma peça da armadura dos cavaleiros andantes, destinada a proteger a garganta, ou a gorja, como se dizia arcaicamente (“Mentes pela gorja, vilão!”, era um dos reptos preferidos das velhas gestas portuguesas). Dessa associação, passou-se inevitavelmente à imagem de um ser com a boca desproporcional. 

Imagem do livro O Mais Assustador do Folclore - Monstros da Mitologia Brasileira, de Luciana Garcia



fonte: 
  • Livro As 100 Melhores Lendas Do Folclore Brasileiro, de A. S. Franchini
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27 de janeiro de 2017

Mão de Cabelo

۞ ADM Sleipnir



Arte de Mikael Quites

Mão de Cabelo
é o nome de uma entidade pertencente ao folclore do sul de Minas Gerais. Trata-se de uma espécie de fantasma vestindo uma roupa branca ou coberto por um lençol branco, e com as mãos bastante peludas, que segundo as histórias visita as crianças (especialmente os meninos) todas as noites e verifica se elas urinaram na cama.

Para aqueles que tem o hábito de urinar na cama, costuma-se falar a seguinte frase, com o intuito de intimidá-los a não fazê-lo: "...Oia, si neném mijá na cama, mão de cabelo vem ti pegá e corta a minhoquinha de neném....."


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16 de setembro de 2016

Cupendiepes, os Índios Morcegos

۞ ADM Sleipnir

Arte de LozanoX
De acordo com o folclore da tribo Apinajé, os Cupendiepes (ou Kupen-Dyep) eram uma tribo de índios com asas de morcego. Eles habitavam no sertão de São Vicente, próximo ao rio Araguaia, em uma caverna num local conhecido como a "rocha do Morcego".

De acordo com uma lenda, um Apinajé flechara um veado perto da rocha do Morcego e acampara ali a noite porque já era tarde. Mas, enquanto ele dormia, os Cupendiepes  vieram voando esmagando seu crânio com seus machados.

Como ele já estivesse há muito tempo ausente, seus parentes seguiram as suas pegadas e acharam seu cadáver. Em torno dele, viram também muitas pegadas, mas nenhum traço da chegada ou partida dos malfeitores.

Por causa disso, durante muito tempo os Apinajés evitaram passar a noite naquela região, até que um dia dois caçadores e um menino decidiram acampar ao pé da rocha do Morcego. Depois do anoitecer, ouviram cantos vindos de dentro da montanha. Então o menino ficou assustado e se escondeu em uma moita longe do acampamento dos dois homens. Logo após, os morcegos vieram voando e mataram os dois caçadores, mas o menino escapou, e na aldeia contou o que ocorrera.

Então os guerreiros Apinajés de todas as quatro aldeias saíram juntos para destruir os Cupendiepes . Quando eles chegaram à rocha do Morcego, imediatamente ocuparam a entrada da caverna, onde amontoaram lenha. Enquanto isso, outros procuravam fazer uma volta para alcançar a janela da caverna. Mas isto era mais difícil do que haviam suposto, e eles ainda não tinham alcançado o seu objetivo, quando aqueles que tomavam conta da entrada puseram fogo à pilha. Assim os Cupendiepes voaram em atropelo pela abertura superior, sem serem feridos pelas setas dos Apinajés. Eles voaram pra o Sul, e diz-se que ainda estão vivendo em algum lugar por lá.

Arte de LozanoX
Quando a fumaça diminuiu, os guerreiros Apinajés penetraram na caverna, achando um grande número de machados abandonados pelos Cupendiepes em sua fuga. Bem no fundo da caverna, escondido por uma pedra, um menino de cerca de seis anos de idade. De início, eles queriam mata-lo, mas um índio decidiu criá-lo e levou-o consigo.

Quando os Apinajés em sua viagem fizeram seus leitos de folhas de palmeiras no chão, determinaram também o lugar onde deveria dormir o pequeno cupendiepe, mas ele não ficou deitado: chorava e olhava constantemente para o céu. Como não queria deitar-se de modo algum, seu dono teve subitamente uma idéia. Lembrou-se de que na morada dos Cupendiepes não havia camas no chão nem tão pouco postes para dependurar redes, mas havia muitas vigas horizontais. Trouxe um varapau e o colocou horizontamente apoiado nas forquilhas de galhos de duas pequenas árvores vizinhas. Logo que o menino viu isso, trepou em uma das árvores de tal modo que se dependurou no vara pau pelos joelhos, a cabeça para baixo. Encolheu a cabeça, cobriu o rosto com os braços cruzados, e então dormiu calmamente nesta posição.

Este menino viveu pouco tempo entre os Apinajés, pois morreu logo. Um dia eles o observaram deitado no chão cantando. “U-ua Klunã Klocire! Klud pecetire!” Então, ele agarrou o cangote com as mãos. Quando os Apinajés perguntaram-lhe sobre isto, disse que seus companheiros de tribo dançavam daquele modo. Os Apinajés ainda cantam a canção do Cupendiepes.

Arte de Cole Munro-Chitty

fontes:

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19 de agosto de 2016

Akuanduba

۞ ADM Sleipnir

Arte de Bianca Duarte

Akuanduba é uma divindade oriunda da mitologia dos índios araras, que habitam a margem esquerda do rio Iriri, no estado do Pará. De acordo com a mitologia, Akuanduba tocava sua flauta para trazer ordem ao mundo. Um dia, por causa da desobediência dos seres humanos, eles foram lançados na água. Os poucos sobreviventes tiveram que aprender do zero como dar continuidade à vida.

Lenda


No começo havia somente o céu e a água que o circundava. Uma casca separava o céu da água e servia de chão para seus habitantes. Os seres humanos, então estrelas, presididos por Akuanduba, aí viviam apenas a fazer coisas simples e boas: comer, beber, namorar e dormir. Quando havia excessos, a divindade, tocando uma flauta, chamava a atenção de todos e os trazia à boa ordem.

Do lado de fora da casca, na água, havia somente seres atrozes e maléficos. Um dia, porém, houve uma grande briga motivada por roubo e/ou egoísmo e, por mais que Akuanduba tocasse a sua flauta, não conseguia apaziguar aqueles que teimosamente insistiam em pelejar. Tanto fizeram que a casca do céu se rompeu e todos foram lançados na água.


Velhos e crianças morreram afogados ou com o choque da queda. Uns poucos homens e menos ainda mulheres sobraram. As aves psitacídeos levaram alguns de volta para o céu, onde voltaram a ser estrelas. A própria Lua, que havia despencado, foi levada de volta a muito custo por uma curica que, depois de tão grande trabalho, bicou um canto do astro, cuja marca ainda hoje se vê de certo ângulo, proporcionado pelo movimento dos pedaços de casca do céu que flutuam nas águas, habitados pelos homens. Ainda hoje os índios araras, o “povo das araras”, ainda assobiam para essas aves quando passam aos bandos. Elas, porém, achando-os grandes demais, nem tentam levá-los.

Os seres maléficos que já existiam nas águas antes da catástrofe se transfiguraram nos índios hostis aos araras (caiapós, jurunas, xipaias, assurinis e quiçá os mundurucus) Outros seres apareceram, que penetram o corpo humano para comer-lhe ou queimar-lhe as entranhas. A própria divindade se transformou na terrível onça preta e também se manifesta sob a forma de outros felinos. 

O bicho-preguiça aliviou a desgraça dos humanos. Ensinou-lhes a primeira festa, destinada a trazer-lhes novos filhos, a fazer flautas, a cantar, a tecer fibras de algodão e palhas, e povoou a mata com animais comestíveis. Da lontra os araras roubaram o fogo. O bicho-preguiça, tendo encomendado uma festa aos araras, acabou por zangar-se, porque a bebida, que ele mesmo consumira em grande quantidade, havia terminado. Voltou sozinho para a floresta e perdeu tudo o que tinha. Envelheceu e morreu, indo para o que restou dos céus, lugar que aguarda também os humanos após a morte.

Arte de Gabriel Scavariello


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27 de junho de 2016

A Princesa Encantada de Jericoacoara

۞ ADM Sleipnir



A Princesa Encantada de Jericoacoara é uma lenda famosa do estado do Ceará. Jericoacoara é uma pequena localidade litorânea pertencente ao município de Jijoca, situado ao norte do estado do Ceará, e está localizada na enseada que tem o mesmo nome, em cuja ponta ergue-se um farol. Segundo a lenda, debaixo do morro do farol local existe uma gruta repleta de tesouros, e dentro desta gruta vive uma uma linda princesa encantada.

Perto da praia, quando a maré está baixa, há uma furna onde só se pode entrar agachado. Esta furna de fato existe. Só se pode entrar pela boca da caverna, mas não se pode percorrê-la, porque, está bloqueada por um enorme portão de ferro. A gruta e a princesa estariam além daquele portão. A princesa foi transformada através de magia numa serpente de escamas de ouro, só tendo a cabeça e os pés de mulher



O encanto da princesa só pode ser quebrado com sangue humano, e esse sangue deve ser obtido através de um sacrifício, que deve ser feito junto ao portão que impede a penetração na parte mais funda da gruta. Assim, no dia em que alguém for sacrificado junto do portão, abrir-se-á a entrada para um reino maravilhoso. Com o sangue, deve ser feita uma cruz no dorso da serpente, e então o encanto terá fim, surgindo assim a princesa com toda sua beleza, cercada de tesouros inimagináveis, e a cidade com suas torres douradas, finalmente poderá ser vista. Então, o felizardo responsável pelo desencantamento, poderá casar com a princesa cuja beleza é sem igual nesse mundo. Mas, como até hoje não apareceu ninguém disposto a quebrar esse encanto, a princesa, metade mulher e metade serpente, com seus tesouros e sua cidade encantada, continua na gruta a espera desse "heroí".

No estado de Pernambuco, na cidade de Serra Talhada, antiga Vila Bela, existe uma lenda similar que também fala de uma gruta encantada, onde supostamente mora uma princesa serpente. Outros afirmam que esta gruta, seria na verdade, o Reino de Pedra Bonita, que ficava no sítio de Pedra Bonita, na mesma cidade, e onde viveu um povo muito místico e cruel. 




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13 de maio de 2016

Maire-monan e os Três Dilúvios

۞ ADM Sleipnir



Os tupinambás creem que houve, nos primórdios do tempo, um ser chamado Monan. Segundo alguns etnógrafos, ele podia não ser exatamente um deus, mas aquilo que se convencionou chamar de um "herói civilizador".

Deus ou não, o fato é que Monan criou os céus e a Terra, e também os animais. Ele viveu entre os homens, num clima de cordialidade e harmonia, até o dia em que eles deixaram de ser justos e bons. Então, Monan investiu-se de um furor divino e mandou um dilúvio de fogo sobre a Terra.

Até ali a Terra tinha sido um lugar plano. Depois do fogo, a superfície do planeta tornou-se enrugada como um papel queimado, cheia de saliências e sulcos que os homens, mais adiante, chamariam de montanhas e abismos. 



Desse apocalipse indígena sobreviveu um único homem, Irin-magé, que foi morar no céu. Ali, em vez de conformar-se com o papel de favorito dos céus, ele preferiu converter-se em defensor obstinado da humanidade, conseguindo, após muitas súplicas, amolecer o coração de Monan.

Segundo Irin-magé, a terra não poderia ficar do jeito que estava, arrasada e sem habitantes.

-Está bem, repovoarei aquele lugar amaldiçoado! - disse Monan, afinal.

A história, como vemos, é tão velha quanto o mundo: um ser superior cria uma raça e logo depois a extermina, tomando, porém, o cuidado de poupar um ou mais exemplares dela, a fim de recomeçar tudo outra vez.

E foi exatamente o que aconteceu: Monan mandou um dilúvio à Terra para apagar o fogo (aqui o dilúvio é reparador) e a tornou novamente habitável, autorizando o seu repovoamento.

Irin-magé foi encarregado de repovoar a Terra com o auxílio de uma mulher criada especialmente para isto, e desta união surgiu outro personagem mítico fundamental da mitologia tupinambá: Maire-monan.

Esse Maire-monan tinha poderes semelhantes aos do primeiro Monan, e foi graças a isto que pôde criar uma série de outros seres - os animais -, espalhando-os depois sobre a Terra.

Apesar de ser uma espécie de monge e gostar de viver longe das pessoas, ele estava sempre cercado por uma corte de admiradores e de pedintes. Ele também tinha o dom de se metamorfosear em criança. Quando o tempo estava muito seco e as colheitas tornavam-se escassas, bastava dar umas palmadas na criança-mágica e a chuva voltava a descer copiosamente dos céus. Além disso, Maire-monan fez muitas outras coisas úteis para a humanidade, ensinando-lhe o plantio da mandioca e de outros alimentos, além de autorizar o uso do fogo, que até então estava oculto nas espáduas da preguiça.

Um dia, porém, a humanidade começou a murmurar.

- Este Maire-monan é um feiticeiro! - dizia o cochicho intenso das ocas. - Assim como criou vegetais e animais, esse bruxo há de criar monstros e Tupã sabe o que mais!

Então, certo dia, os homens decidiram aprontar uma armadilha para esse novo semideus. Maire-monan foi convidado para uma festa, na qual lhe foram feitos três desafios.

- Bela maneira de um anfitrião receber um convidado! - disse Maire-monan, desconfiado.

- É simples, na verdade - disse o chefe dos conspiradores. - Você só terá de transpor, sem queimar-se, estas três fogueiras. Para um ser como você, isso deve ser muito fácil!

Instigado pelos desafiantes, e talvez um pouco por sua própria vaidade, Maire-monan acabou aceitando o desafio.

- Muito bem, vamos a isso! - disse ele, querendo pôr logo um fim à comédia.

Maire-monan passou incólume pela primeira fogueira, mas na segunda a coisa foi diferente: tão logo pisou nela, grandes labaredas o envolveram. Diante dos olhos de todos os índios, Maire-monan foi consumido pelas chamas, e sua cabeça explodiu. Os estilhaços do seu cérebro subiram aos céus, dando origem aos raios e aos trovões que são o principal atributo de Tupã, o deus tonante dos tupinambás que os jesuítas, ao chegarem ao Brasil, converteram por conta própria no Deus das sagradas escrituras.

Desses raios e trovões originou-se um segundo dilúvio, desta vez arrasador.


No fim de tudo, porém, as nuvens se desfizeram e por detrás delas surgiu, brilhando, uma estrela resplandecente, que era tudo quanto restara do corpo de Maire-monan, ascendido aos céus.

Depois que o mundo se recompôs de mais um cataclismo, o tempo passou e vieram à Terra dois descendentes de Maire-monan: eles eram filhos de um certo Sommay, e se chamavam Tamendonare e Ariconte.

Como normalmente acontece nas lendas e na vida real, a rivalidade cedo se estabeleceu entre os dois irmãos, e não tardou para que a fogueira da discórdia acirrasse os ânimos na tribo onde viviam.

Tamendonare era bonzinho e pacífico, pai de família exemplar, enquanto Ariconte era amante da guerra e tinha o coração cheio de inveja. Seu sonho era reduzir todos os índios, inclusive seu irmão, à condição de escravos.

Depois de diversos incidentes, aconteceu um dia de Ariconte invadir a choça de seu irmão e lançar sobre o chão um troféu de guerra.

Tamendonare podia ser bom, mas sua bondade não ia ao extremo de suportar uma desfeita dessas. Erguendo-se, o irmão afrontado golpeou o chão com o pé e logo começou a brotar da rachadura um fino veio de água.

Ao ver aquela risquinha inofensiva de água brotar do solo, Ariconte pôs-se a rir debochadamente.

Acontece que a risquinha rapidamente converteu-se num jorro d'água, e num instante o chão sob os pés dos dois, bem como os de toda a tribo, rachou-se como a casca de um ovo, deixando subir à tona um verdadeiro mar impetuoso.

Aterrorizado, o irmão perverso correu com sua esposa até um jenipapeiro, e ambos começaram a escalá-lo como dois macacos. Tamendonare fez o mesmo e, depois de tomar a esposa pela mão, subiu com ela numa pindoba (uma espécie de coqueiro).

E assim permaneceram os dois casais, cada qual trepado no topo da sua árvore, enquanto as águas cobriam pela terceira vez o mundo - ou, pelo menos, a aldeia deles.

Quando as águas baixaram, os dois casais desceram à Terra e repovoaram outra vez o mundo. De Tamendonare se originou a tribo dos Tupinambás, e de Ariconte brotaram os Temininó.

fonte: 
  • Livro "As 100 Melhores Lendas do Folclore Brasileiro", de A.S. Franchini

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1 de abril de 2016

Pé-de-Garrafa

۞ ADM Sleipnir



O Pé-de-garrafa é uma misteriosa criatura das matas, pertencente ao folclore do sertão brasileiro, principalmente nos estados do Mato Grosso do Sul, Piauí e Maranhão, além de ser conhecido também como Bicho-Homem em MInas Gerais.

Apesar de ser raramente visto, o Pé-de-Garrafa possui várias descrições, que variam bastante de acordo com a região. Ele é geralmente descrito como um ser humanóide, com o corpo coberto de pelos (exceto na região do umbigo), e possuidor de apenas um pé no formato de um fundo de garrafa. Alguns afirmam que ele possui um rosto de cavalo com um só olho no meio da testa, já outros juram que ele tem cara de gorila e, outros ainda dizem que ele tem cara de cachorro. 

Por ter apenas um pé, o Pé-de-Garrafa se locomove pulando de um lado para o outro, deixando para trás um rastro de buracos profundos no chão, que lembram perfeitamente o fundo de uma garrafa. 

O Pé-de-Garrafa possui uma fluidez que permite com que ele desapareça ou mude de tamanho, agigantando-se ou reduzindo-se conforme a situação. Ele também é capaz de imitar as vozes das pessoas, além de emitir gritos assustadores. Aqueles capturados por um Pé-de-Garrafa ou tem sua alma aprisionada em seu pé ou são devorados pelo mesmo. As únicas formas de fugir dele é atravessar um curso de água corrente ou atingir o seu umbigo, que é a única parte vulnerável do seu corpo. Ao se sentir ameaçado, ele faz de tudo para proteger seu umbigo de ser atingido.


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22 de fevereiro de 2016

Boiúna (Cobra-Grande)

۞ ADM Sleipnir


A Boiúna (de mboi, "cobra" e una, "negra", também conhecida como Boiaçu, de mboi e açu, "grande", ou ainda Cobra-Grande) é, segundo Câmara Cascudo, o mais poderoso e complexo dos mitos amazônicos, exercendo ampla influência nas populações às margens do rio Amazonas e seus afluentes.

Faz parte do ciclo dos mitos d'água, de que a cobra é um dos símbolos mais antigos e universais. Senhora dos elementos, a cobra-grande tinha poderes cosmogônicos, explicando a origem de animais, aves, peixes, o dia e a noite. Mágica, irresistível, polimórfica, aterradora, a cobra-grande tem, a princípio, a forma de uma sucuri ou uma jibóia comum. Com o tempo, adquire grande volume, abandona a floresta e vai para o rio. Os sulcos que deixa à sua passagem transformam-se em igarapés. Habita a parte mais funda do rio, os poções, aparecendo vez por outra na superície. É descrita como tendo de 20 metros a 45 metros.


Martius (Viagem pelo Brasil) registrou a força assombrosa do medo que os indígenas tinham do monstro, com as dimensões multiplicadas pelo terror. Chamavam-no de Mãe-d'água e Mãe-do-rio, mas as histórias só mencinavam a voracidade da cobra-grande, arrebatando crianças e adultos que se banhavam. Recusavam-se a matar a cobra, porque então era certa a própria ruína, bem como de toda a tribo.

Esse registro, de 1819, denuncia a existência de um outro mito entrevisto e anotado por Barbosa Rodrigues (Poranduba Amazonense), o da constelação do Serpentário (Ofiúco), que aparece no céu em setembro, o tempo das roças, princípio do tempo de Coaraci, o Sol. Couto de Magalhães ouviu a lenda de como a noite apareceu, numa época em que não havia noite, e a filha de Cobra-grande pediu a noite ao pai como presente de casamento.

Há ocasião em que nenhum pescador se atreve a sair para o rio à noite, pois duas vezes seguidas foi avistada uma Cobra-grande... pelos olhos que alumiavam como tochas. Os pescadores foram perseguidos até a praia, somente escapando porque o corpo muito grande encalhou na areia. Esses pescadores ficaram doentes de pânico e medo da experiência que relatavam com real emoção. (Eduardo Galvão, Santos e Visagens, Brasiliana, São Paulo, 1955).


Algumas lendas envolvendo a Boiúna:
  • Em Belém, há uma velha crença de que existe uma cobra-grande adormecida embaixo de parte da cidade, cuja cabeça estaria sob o altar-mor da Basílica de Nazaré e o final da cauda debaixo da Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Outros já dizem que a tal cobra-grande está com a cabeça debaixo da Igreja da Sé, a Catedral Metropolitana de Belém, e sua cauda debaixo da Basílica de Nazaré: é o percurso da tradicional procissão do Círio de Nazaré, com 3,3 quilômetros de extensão. Os mais antigos dizem que se algum dia a cobra acordar ou mesmo tentar se mexer, a cidade toda poderá desabar. Por isso, em 1970 quando houve um tremor de terra na capital paraense, dizia-se que a tal cobra havia se mexido. Os mais folclóricos iam mais longe: "imagine se ela se acorda e tenta sair de lá!".
  • Em Roraima, conta-se que Cunhã Poranga ("índia bela") apaixonou-se pelo rio Branco e, por isso, Muiraquitã ficou com ciúme. Para se vingar, Muiraquitã transformou a bela índia na imensa cobra que todos passaram a chamar de Boiúna. Como ela tinha um bom coração, passou a ter a função de proteger as águas de seu amado rio Branco.
  • Entre as populações que habitam as margens dos rios Solimões e Negro, no Amazonas, acredita-se que quando uma mulher engravida de uma visagem, a criança fruto desse terrível cruzamento está predestinada a ser uma cobra-grande.
  • Há quem acredite que a cobra-grande pode nascer de um ovo de mutum.
  • Segundo uma lenda mais comum no Acre, uma cobra-grande se transforma numa bela morena nas noites de luar do mês de junho, para seduzir os homens durante os arraiais de festas juninas, como se fosse a versão feminina do boto.
  • O folclorista Walcyr Monteiro conta que em Barcarena (PA) existe o lugar conhecido como "Buraco da Cobra-Grande", atração turística do local.
  • Misabel Pedrosa diz que a Cobra-grande mora debaixo do cemitério do Pacoval, na ilha de Marajó.
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18 de novembro de 2015

Papa-figo

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O Papa-figo é uma figura lendária do folclore brasileiro, conhecida principalmente em Pernambuco. Seu nome é a contração de papa-fígado, sua principal característica. Em geral, ele é descrito como um homem idoso, sujo e com o corpo coberto de chagas. Pode também ser alto, magro, pálido e com a barba por fazer. Às vezes, carrega um saco. Costuma andar pelas ruas no final da tarde, durante o crepúsculo, à procura de crianças desacompanhadas, atraindo-as com o intuito de raptá-las para depois devorar seus fígados.

Ao lado do negro velho e do homem do saco, integra o ciclo do pavor infantil. Segundo versão paraibana registrada por Ademar Vidal, autor de Lendas e Superstições (1949), a fim de não cometer injustiças, o papa-figo restringe sua caça apenas aos meninos mal-comportados, desobedientes, teimosos ou chorões.


Em tempos antigos, acreditava-se que a lepra era uma doença de pele causada pelo mau funcionamento do fígado, órgão que, diziam, era o produtor do sangue. A cura estaria no consumo do órgão sadio. Mas somente o fígado infantil teria pureza e força suficientes para aliviar o sofrimento dos hansenianos. E sempre haveria alguém disposto a pagar qualquer preço por tão poderoso e raro lenitivo. O papa-figo era, portanto, em algumas versões, o próprio doente em busca de cura ou, outras vezes, o encarregado de conseguir a mercadoria para tal tipo de comércio.


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2 de outubro de 2015

Begorotire, o Senhor da Chuva

 ۞ ADM Sleipnir


Begorotire, arte de Laura Sardinha
Begorotire é um deus da chuva, dos grãos e da abundância da tribo Caiapó. De acordo com a lenda, ele era um índio da tribo que certo dia decidiu ir embora de sua aldeia e buscar um novo local para viver, após se sentir injustiçado com a divisão de uma caça. Ele cortou o cabelo da esposa e da filha, pintou toda a família com uma tinta preta feita com jenipapo e criou a primeira borduna Caiapó (um tipo de porrete). Levando toda sua família, Begorotire subiu no topo de uma montanha, e com sua raiva, começou a gritar, levantando sua borduna. Seus gritos foram tão intensos que soaram como trovões, da ponta de sua arma irromperam raios.

Em meio ao barulho e às luzes, Begorotire subiu aos céus. Os índios assustados atiraram suas flechas, mas nada conseguiu impedir que o índio desaparecesse no firmamento. As nuvens, também assustadas, derramaram chuva. Por isso Begorotire tornou-se o homem chuva. Tempos depois, levou toda a família para o céu, onde se tornaram muito prósperos, tendo extensas e ricas plantações de vários tipos. Apesar de ter deixado sua tribo, ele não os abandona de fato, enviando uma de suas filhas dentro de uma cabaça, para levar novas sementes aos Caiapó. 


A filha do Senhor da Chuva é encontrada por um jovem, que a tira de dentro da cabaça, magra e com os cabelos muito longos, pelo extenso tempo que ficou presa, e a leva de volta à aldeia. A donzela entrega as sementes enviadas pelo pai e se casa com o jovem que a encontrou, passando a viver na terra. Algum tempo depois, a filha do Senhor da Chuva vai visitar seus pais e retorna trazendo toda a família de volta à tribo. Begorotire traz vários cestos cheios de bananas e diversas frutas silvestres e ensina a todos como cultivar as sementes e e cuidar das plantações.


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2 de setembro de 2015

Maria Degolada

۞ ADM Sleipnir



Maria Francelina Trenes, mais conhecida como Maria Degolada (Alemanha, c. 1878 - Porto Alegre, 12 de novembro de 1899), foi uma prostituta que, após ser morta pelo namorado, se tornou parte do folclore de Porto Alegre, no Brasil, e centro de um culto popular. 

Quase nada se sabe sobre sua vida. O que consta nos autos do processo judicial subsequente ao seu assassinato é que tinha origem alemã e ganhava a vida como prostituta. Seguindo, declara-se que em 12 de novembro de 1899 ela e o namorado, um soldado da Brigada Militar chamado Bruno Soares Bicudo, estavam fazendo um piquenique com amigos no Morro do Hospício. A certa altura o casal de afastou dos outros e começou a discutir. Maria atacou o namorado com um pedaço de lenha e depois com um cano de ferro, após o que ele a matou cortando seu pescoço com uma faca. Disso vem seu apelido.
O assassinato ganhou grande destaque na imprensa e pela sua brutalidade causou horror na população. O soldado foi preso e condenado. Circularam várias versões sobre o caso e logo os locais passaram a venerá-la. No local onde foi morta ergueu-se uma pequena capela em sua homenagem, identificando-a com Nossa Senhora da Conceição e, por isso, sendo também chamada de Maria da Conceição.

Certidão de Óbito de Maria Francelina Trenes
A passagem de prostituta a santa não é inédita na tradição católica, e, segundo o antropólogo José Carlos Pereira, "ela faz parte do grupo das chamadas 'santas de cemitério' que corresponde, na maioria dos casos, a alguém que sofreu morte violenta, seja por acidente, assassinato ou tortura seguida de morte". Para a historiadora Sandra Pesavento, "ao ser morta ela pode virar santa pois é vítima, e era a loura mártir de um mestiço analfabeto e mal encarado, personificando o drama de uma realidade de excluídos da qual ambos faziam parte.... em uma Porto Alegre muito violenta". A transformação foi facilitada pela crença de muitos populares de que ela na verdade não era uma prostituta, mas uma moça de boa família.

Seus devotos a consideram uma santa milagrosa, mas de acordo com a tradição ela não atende a preces de policiais. Seu nome batiza o antigo Morro do Hospício, hoje chamado Morro da Maria Degolada sobre o qual formou-se uma comunidade, a Vila Maria da Conceição, que se identifica com sua santa.

O folclore que a cercou desde o início continua em desenvolvimento, e novas versões sobre seu assassinato continuam a surgir, acrescentando muitos detalhes fantasiosos sobre sua vida. Ao mesmo tempo, sendo morta por um policial, ela se tornou um símbolo de resistência contra a exclusão social e a opressão do poder público, numa comunidade pobre que se autodefine como "periférica" e "marginal".

O Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul lançou uma publicação sobre o personagem, Maria Degolada: mito ou realidade (1998); foi tema de um livro de Hércules Grecco, intitulado Maria Degolada (2002), adaptado como peça de teatro, e de outro escrito por Caio Riter para o público infantil, Maria Degolada: santa assombrada (2010). Também deu nome a uma cerveja da cervejaria Anner Bier, foi tema de músicas e de um cordel escrito por Gilbamar de Oliveira.Em 2012 a sua capela foi reconhecida como patrimônio da comunidade.



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25 de agosto de 2015

Onça-boi

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Arte de  Yuri Saluceste 
A Onça-boi (ou Onça Pé-de-boi) é um animal fantástico presente no folclore amazônico, que muitos pescadores, caçadores e mateiros que se aventuram pelas florestas juram já ter visto. Segundo os relatos, ela seria uma espécie de onça que possui cascos de boi no lugar de suas patas. 

De acordo com o folclore, ela caça sua presa sempre em pares (em contraste com as onças reais, que sempre caçam sozinhas e não formam casais permanentes, unindo-se somente para as relações sexuais). Dessa forma, elas encurralam sua presa (geralmente caçadores), fazendo com que ela sua uma árvore na tentativa de escapar. Elas iram se revezar na vigilância da presa, até que a mesma caia da árvore, devido ao sono ou fome. 

O único meio de sobreviver ao ataque da Onça-boi é matar uma delas, tão logo sejam avistadas. Alguns dizem que deve-se matar o macho, e assim a fêmea fugirá. Outros dizem que a fêmea deve ser morta, e então o macho fugirá. 


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7 de agosto de 2015

Cabeça de Cuia

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O Cabeça de Cuia é um personagem folclórico da região nordeste do Brasil, tendo sua origem no estado do Piauí. De acordo com o folclore, ele é um garoto chamado Crispim que foi amaldiçoado pela própria mãe por tê-la matado, e após a própria morte tornou-se um monstro aquático devorador de virgens. 

Lenda

Crispim era um jovem que morava nas margens do rio Parnaíba juntamente com sua família. Sua família era bastante humilde e passava por muitas dificuldades, sendo comum até mesmo passarem fome. Seu pai era pescador mas acabou morrendo muito cedo, quando Crispim ainda era um bebê, deixando ele e a pobre mãe sozinhos no mundo. Crispim cresceu, e decidiu seguir os passos do pai, tornando-se também um pescador. Mas infelizmente o rio não estava para peixe naquela época e Crispim não conseguia alimentar sua mãe nem a si próprio. 

Certo dia, após mais uma noite de pescaria fraca, Crispim voltou para o almoço, e sua mãe lhe serviu, como de costume, uma sopa rala com sobras e ossos secos (já que era comum faltar carne nas refeições). Porém, neste dia Crispim estava muito irado com a situação de fome que a família estava passando e em um surto de raiva arremessou o osso da sopa na cabeça de sua pobre mãe, matando-a quase instantaneamente. Em seus últimos suspiros , a mãe de Crispim lançou uma maldição sobre ele, dizendo-lhe que por tê-la matado, ele deveria vagar nas margens do rio a procura de restos de peixes e animais mortos para comer. Sua mãe disse ainda antes de morrer que aquela maldição iria se perpetuar até o dia em que ele conseguisse devorar sete mulheres virgens e que se chamassem "Maria". Tomado pelo medo da maldição e no desespero ao tomar consciência de sua ação, Crispim correu para o rio e acabou morrendo afogado. Seu corpo nunca foi encontrado. 


De acordo com os ribeirinhos, por causa da maldição, Crispim não teria morrido realmente, tendo se transformado em uma terrível criatura aquática com uma cabeça enorme, no formato de cuia. Dizem que o tamanho de sua cabeça deve-se ao enorme peso na consciência que ele carregava desde a morte da mãe.

Por causa dessa lenda, muitas mulheres antigamente evitavam lavar as roupas ou se banharem ás margens do Rio Parnaíba. Muitos pescadores contam relatos apavorantes sobre uma criatura com uma enorme cabeça que rasga suas redes e vira seus barcos. Muitas mulheres que tiveram a coragem de lavar suas roupas nas margens do rio contam terem visto a criatura sair da água para atacá-las. Mas apesar de já terem sido atribuídos ao Cabeça de Cuia vários desaparecimentos de mulheres, dizem que ele jamais conseguiu devorar nenhuma mulher chamada Maria, muito menos que fosse virgem.

A Prefeitura da cidade de Teresina instituiu, no ano de 2003, o Dia do Cabeça de Cuia, a ser comemorado na última sexta-feira do mês de abril. Existe uma estátua sobre a lenda do Cabeça de Cuia na cidade de Teresina, no bairro do Poti Velho, local onde supostamente a família de Crispim morava.


fonte:
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Ruby