7 de julho de 2026

Cosmogonia Hindu

۞ ADM Sleipnir

A Cosmogonia Hindu reúne diferentes explicações sobre a origem do universo, dos deuses e da ordem cósmica. Ao contrário de tradições que apresentam uma única narrativa de criação, o hinduísmo possui várias versões preservadas em textos védicos, épicos, purânicos e filosóficos. Essas versões não precisam ser entendidas como relatos concorrentes, mas como formas distintas de expressar a origem, a organização e a renovação do cosmos.

Em muitas tradições hindus, o universo não é criado uma única vez de maneira definitiva. Ele passa por ciclos de criação, preservação, dissolução e recriação. Essa visão cíclica é uma das características mais marcantes da cosmologia hindu.

Hinos védicos sobre a criação

Entre os textos mais antigos ligados à criação está o Nasadiya Sukta, hino do Rigveda conhecido como “Hino da Criação”. Esse texto não apresenta uma narrativa simples sobre um deus criando o mundo. Em vez disso, descreve um estado primordial misterioso, anterior à distinção entre existência e não existência. O hino questiona a origem do universo e sugere que talvez nem mesmo os deuses conheçam plenamente o início de tudo, pois eles próprios teriam surgido depois da criação.

Essa abordagem torna o Nasadiya Sukta uma das reflexões mais filosóficas da tradição védica. Seu foco não está em explicar todos os detalhes da criação, mas em apresentar a origem do cosmos como um mistério profundo, diante do qual até o conhecimento divino pode ser limitado.

Outro hino importante é o Hiranyagarbha Sukta, também do Rigveda. Nele aparece a ideia de Hiranyagarbha, termo geralmente traduzido como “embrião dourado”, “germe dourado” ou “ventre dourado”. Essa ideia representa um princípio primordial do qual surgem o mundo, os deuses e a ordem cósmica. Em tradições posteriores, essa noção foi aproximada da ideia do ovo cósmico, símbolo comum em diferentes mitologias para representar o nascimento do universo.

Purusha e o sacrifício cósmico

Outra explicação védica importante aparece no Purusha Sukta, hino que descreve Purusha, o "Ser Cósmico Primordial". Segundo essa tradição, o universo surge a partir do sacrifício de Purusha. De seu corpo são formadas partes do cosmos, como o céu, a terra, os seres vivos e a organização da sociedade.

Essa narrativa apresenta a criação como um ato sacrificial. O mundo não surge apenas por fabricação ou comando divino, mas pela transformação de um ser primordial em realidade cósmica. Por isso, Purusha representa tanto a totalidade do universo quanto a origem simbólica de sua ordem.

A criação nos Puranas

Nos Puranas, textos religiosos compostos em períodos posteriores, a criação costuma ser narrada de forma mais mitológica e visual. Uma das imagens mais conhecidas apresenta Narayana, identificado em muitas tradições com Vishnu, repousando sobre a serpente cósmica Ananta ou Shesha, em meio às águas primordiais. Nessa cena, Vishnu/Narayana aparece como o princípio divino que antecede a criação manifestada. De seu umbigo nasce um lótus, e sobre esse lótus surge Brahma, que recebe a função de organizar e criar o mundo.

Nessa tradição, Brahma é frequentemente descrito como o criador do universo manifestado, Vishnu como o preservador da ordem cósmica e Shiva como a divindade associada à dissolução ou transformação do cosmos. Essa divisão é conhecida como Trimurti, embora diferentes correntes hindus interpretem esses deuses de maneiras diversas.

Nas tradições vaishnavas, Vishnu pode ser entendido como o ser supremo do qual a criação depende. Nas tradições shaivas, esse papel supremo pode ser atribuído a Shiva. Já nas tradições shaktas, a realidade primordial pode ser identificada com Devi, “a Deusa”, ou Shakti, a energia divina feminina. Nesse contexto, “a Deusa” não se refere necessariamente a uma única figura fixa, mas ao princípio feminino supremo, que pode ser cultuado sob formas como Durga, Kali, Parvati, Lakshmi ou outras manifestações divinas.

Tempo cíclico e dissolução do universo

A cosmogonia hindu também se destaca pela ideia de tempo cíclico. O universo não é visto como uma criação única e definitiva, mas como parte de um processo contínuo de manifestação, preservação, dissolução e recriação. Dentro dessa visão, um grande ciclo de tempo é dividido em quatro eras chamadas yugas, que se sucedem em uma ordem de declínio moral, espiritual e cósmico. Na cronologia tradicional, essas quatro eras possuem durações simbólicas muito longas: o Satya Yuga dura 1.728.000 anos; o Treta Yuga, 1.296.000 anos; o Dvapara Yuga, 864.000 anos; e o Kali Yuga, 432.000 anos. Juntas, elas formam um mahayuga, ou “grande yuga”.

A primeira era é o Satya Yuga, também chamado Krita Yuga. Ele é descrito como a idade da verdade e da plenitude, quando a ordem cósmica, ou dharma, estaria plenamente estabelecida. Nessa fase, a humanidade viveria em maior harmonia com o sagrado e com a justiça.

Depois vem o Treta Yuga, período em que essa perfeição começa a diminuir. A ordem ainda existe, mas já não se manifesta de forma completa. Em muitas tradições hindus, essa era é associada ao tempo de grandes reis, sábios e acontecimentos míticos, incluindo narrativas ligadas ao Ramayana.

A terceira era é o Dvapara Yuga. Nela, o declínio se torna mais evidente, e a humanidade se afasta ainda mais da ordem ideal. Esse período é frequentemente relacionado às tradições do Mahabharata e ao contexto mítico em que aparece Krishna.

A quarta e última era é o Kali Yuga, considerado a era atual segundo a cronologia tradicional hindu. Ele é descrito como um período de conflito, confusão, decadência moral e afastamento do dharma. Apesar disso, o Kali Yuga não representa o fim absoluto da existência, mas a etapa final de um ciclo que será seguido por dissolução e renovação.

Ao fim de grandes ciclos cósmicos, ocorre o pralaya, isto é, a dissolução do universo manifestado. Depois desse período de repouso cósmico, uma nova criação tem início. Assim, a criação não é entendida como um evento isolado no passado, mas como parte de um movimento eterno de surgimento, duração, dissolução e renascimento.

fontes:

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Um comentário:

  1. Poderia fazer mais posts sobre a religião védica e as suas diferenças do Hinduísmo atual

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