7 de julho de 2026

Cosmogonia Hindu

۞ ADM Sleipnir

A Cosmogonia Hindu reúne diferentes explicações sobre a origem do universo, dos deuses e da ordem cósmica. Ao contrário de tradições que apresentam uma única narrativa de criação, o hinduísmo possui várias versões preservadas em textos védicos, épicos, purânicos e filosóficos. Essas versões não precisam ser entendidas como relatos concorrentes, mas como formas distintas de expressar a origem, a organização e a renovação do cosmos.

Em muitas tradições hindus, o universo não é criado uma única vez de maneira definitiva. Ele passa por ciclos de criação, preservação, dissolução e recriação. Essa visão cíclica é uma das características mais marcantes da cosmologia hindu.

Hinos védicos sobre a criação

Entre os textos mais antigos ligados à criação está o Nasadiya Sukta, hino do Rigveda conhecido como “Hino da Criação”. Esse texto não apresenta uma narrativa simples sobre um deus criando o mundo. Em vez disso, descreve um estado primordial misterioso, anterior à distinção entre existência e não existência. O hino questiona a origem do universo e sugere que talvez nem mesmo os deuses conheçam plenamente o início de tudo, pois eles próprios teriam surgido depois da criação.

Essa abordagem torna o Nasadiya Sukta uma das reflexões mais filosóficas da tradição védica. Seu foco não está em explicar todos os detalhes da criação, mas em apresentar a origem do cosmos como um mistério profundo, diante do qual até o conhecimento divino pode ser limitado.

Outro hino importante é o Hiranyagarbha Sukta, também do Rigveda. Nele aparece a ideia de Hiranyagarbha, termo geralmente traduzido como “embrião dourado”, “germe dourado” ou “ventre dourado”. Essa ideia representa um princípio primordial do qual surgem o mundo, os deuses e a ordem cósmica. Em tradições posteriores, essa noção foi aproximada da ideia do ovo cósmico, símbolo comum em diferentes mitologias para representar o nascimento do universo.

Purusha e o sacrifício cósmico

Outra explicação védica importante aparece no Purusha Sukta, hino que descreve Purusha, o "Ser Cósmico Primordial". Segundo essa tradição, o universo surge a partir do sacrifício de Purusha. De seu corpo são formadas partes do cosmos, como o céu, a terra, os seres vivos e a organização da sociedade.

Essa narrativa apresenta a criação como um ato sacrificial. O mundo não surge apenas por fabricação ou comando divino, mas pela transformação de um ser primordial em realidade cósmica. Por isso, Purusha representa tanto a totalidade do universo quanto a origem simbólica de sua ordem.

A criação nos Puranas

Nos Puranas, textos religiosos compostos em períodos posteriores, a criação costuma ser narrada de forma mais mitológica e visual. Uma das imagens mais conhecidas apresenta Narayana, identificado em muitas tradições com Vishnu, repousando sobre a serpente cósmica Ananta ou Shesha, em meio às águas primordiais. Nessa cena, Vishnu/Narayana aparece como o princípio divino que antecede a criação manifestada. De seu umbigo nasce um lótus, e sobre esse lótus surge Brahma, que recebe a função de organizar e criar o mundo.

Nessa tradição, Brahma é frequentemente descrito como o criador do universo manifestado, Vishnu como o preservador da ordem cósmica e Shiva como a divindade associada à dissolução ou transformação do cosmos. Essa divisão é conhecida como Trimurti, embora diferentes correntes hindus interpretem esses deuses de maneiras diversas.

Nas tradições vaishnavas, Vishnu pode ser entendido como o ser supremo do qual a criação depende. Nas tradições shaivas, esse papel supremo pode ser atribuído a Shiva. Já nas tradições shaktas, a realidade primordial pode ser identificada com Devi, “a Deusa”, ou Shakti, a energia divina feminina. Nesse contexto, “a Deusa” não se refere necessariamente a uma única figura fixa, mas ao princípio feminino supremo, que pode ser cultuado sob formas como Durga, Kali, Parvati, Lakshmi ou outras manifestações divinas.

Tempo cíclico e dissolução do universo

A cosmogonia hindu também se destaca pela ideia de tempo cíclico. O universo não é visto como uma criação única e definitiva, mas como parte de um processo contínuo de manifestação, preservação, dissolução e recriação. Dentro dessa visão, um grande ciclo de tempo é dividido em quatro eras chamadas yugas, que se sucedem em uma ordem de declínio moral, espiritual e cósmico. Na cronologia tradicional, essas quatro eras possuem durações simbólicas muito longas: o Satya Yuga dura 1.728.000 anos; o Treta Yuga, 1.296.000 anos; o Dvapara Yuga, 864.000 anos; e o Kali Yuga, 432.000 anos. Juntas, elas formam um mahayuga, ou “grande yuga”.

A primeira era é o Satya Yuga, também chamado Krita Yuga. Ele é descrito como a idade da verdade e da plenitude, quando a ordem cósmica, ou dharma, estaria plenamente estabelecida. Nessa fase, a humanidade viveria em maior harmonia com o sagrado e com a justiça.

Depois vem o Treta Yuga, período em que essa perfeição começa a diminuir. A ordem ainda existe, mas já não se manifesta de forma completa. Em muitas tradições hindus, essa era é associada ao tempo de grandes reis, sábios e acontecimentos míticos, incluindo narrativas ligadas ao Ramayana.

A terceira era é o Dvapara Yuga. Nela, o declínio se torna mais evidente, e a humanidade se afasta ainda mais da ordem ideal. Esse período é frequentemente relacionado às tradições do Mahabharata e ao contexto mítico em que aparece Krishna.

A quarta e última era é o Kali Yuga, considerado a era atual segundo a cronologia tradicional hindu. Ele é descrito como um período de conflito, confusão, decadência moral e afastamento do dharma. Apesar disso, o Kali Yuga não representa o fim absoluto da existência, mas a etapa final de um ciclo que será seguido por dissolução e renovação.

Ao fim de grandes ciclos cósmicos, ocorre o pralaya, isto é, a dissolução do universo manifestado. Depois desse período de repouso cósmico, uma nova criação tem início. Assim, a criação não é entendida como um evento isolado no passado, mas como parte de um movimento eterno de surgimento, duração, dissolução e renascimento.

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6 de julho de 2026

Pentachikoro Oyashi

۞ ADM Sleipnir

Pentachikoro Oyashi (japonês ペンタチコロオヤシ) é um yokai do folclore dos ainus de Sacalina, região historicamente habitada por comunidades ainu no extremo norte da Ásia Oriental. Seu nome deriva da expressão pentachi-koro-oyashi, que pode ser traduzida como “fantasma que carrega uma tocha”.

De acordo com a tradição, o Pentachikoro Oyashi aparece durante a noite, caminhando com uma tocha acesa e provocando medo ou acontecimentos estranhos entre as pessoas que passam pelos caminhos. Sua imagem está associada ao ambiente frio e nevado de Sacalina, onde a luz da tocha refletida na neve tornaria a paisagem noturna clara como se fosse dia.

Arte de Mahoraga

Lenda

Uma das histórias mais conhecidas sobre essa criatura se passa na costa leste de Sacalina, em uma aldeia chamada Toyukushi. Certa noite, o chefe dessa aldeia precisou viajar com urgência até outra vila chamada Kotankeshi. Durante o trajeto, percebeu que estava sendo seguido pelo Pentachikoro Oyashi. Assustado, chegou à aldeia vizinha e contou ao chefe local que havia sido perseguido por um monstro.

O chefe de Kotankeshi, conhecido por sua coragem, decidiu enfrentar a criatura. Armado com sua espada, partiu em direção a Toyukushi. Depois de caminhar por algum tempo, sentiu que algo se aproximava por trás. Ao olhar discretamente, viu o Pentachikoro Oyashi vindo em sua direção. Quando o ser tentou tocá-lo, o chefe o golpeou com a espada. A criatura começou a se debater violentamente, e o próprio chefe, abalado pela cena, acabou desmaiando.

Na manhã seguinte, os habitantes da aldeia foram verificar o local do confronto. Em vez de encontrarem um monstro, descobriram o corpo de um grande corvo atravessado pela espada. Assim, concluiu-se que o Pentachikoro Oyashi era, na verdade, um corvo mal-intencionado que havia assumido forma sobrenatural para assustar as pessoas.


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5 de julho de 2026

Camaxtli

۞ ADM Sleipnir

Arte de Amauri Esmarq

Camaxtli (também grafado Camaxtle) era uma das principais divindades dos tlaxcaltecas e de outros povos teochichimecas que habitavam o México Central antes da colonização espanhola. Associado à caça, à guerra e à origem do fogo, o deus desempenhava um papel central nos mitos de origem e de migração desses povos. Para os tlaxcaltecas, Camaxtli era a divindade tutelar e protetora, legitimando sua identidade, história e a posse de seu território, além de ser reverenciado como um ancestral que guiou o povo até a terra onde se estabeleceram.

Relação com Mixcóatl

Camaxtli é frequentemente associado a Mixcóatl, cujo nome em náuatle significa "serpente de nuvem". Mixcóatl era o deus mesoamericano da caça, das estrelas e da Via Láctea, considerado pai de Quetzalcóatl em algumas tradições. Embora as duas figuras compartilhem características de deuses caçadores e guerreiros, Camaxtli possuía um caráter mais local e específico de Tlaxcala. Além disso, algumas fontes coloniais aproximam Camaxtli do chamado Tezcatlipoca Vermelho (Tlatlauhqui Tezcatlipoca), um dos aspectos do deus Tezcatlipoca que reforça seus atributos ligados ao poder político e à autoridade militar.

Representação de Mixcoatl-Camaxtli no Códice Tovar (c. 1585)


Deus da caça, da guerra e do fogo

Como divindade da caça e da guerra, Camaxtli era representado com pinturas corporais listradas e portando armas como arco, flechas, dardos e uma rede ou cesto para carregar presas. Na Mesoamérica antiga, a caça ia além da subsistência e possuía também um caráter ritual e militar: a captura de animais selvagens podia ser comparada à captura de prisioneiros em batalha. Camaxtli também era relacionado ao fogo. Segundo algumas tradições, o fogo teria sido obtido por meio da fricção de madeira, técnica associada a Camaxtli e Mixcóatl, o que vinculava o deus a um dos recursos mais importantes para a vida humana.

Camaxtli e a origem dos tlaxcaltecas

Nas crônicas coloniais, como os relatos do historiador mestiço Diego Muñoz Camargo, Camaxtli é descrito como o guia dos antepassados chichimecas. De acordo com a tradição, o deus orientou o povo em sua longa jornada a partir de Chicomoztoc, o mítico lugar das sete cavernas, até o vale onde se estabeleceu a confederação de Tlaxcala. Essa função de guia mítico consolidou Camaxtli como o pilar da memória histórica, da legitimidade dos governantes e da coesão política tlaxcalteca frente a povos rivais, como os astecas.

Culto e rituais

O culto a Camaxtli envolvia jejuns, autosacrifícios, oferendas de alimentos, queima de copal e grandes caçadas rituais organizadas nos principais centros de Tlaxcala, como Tepeticpac e Ocotelulco. Essas práticas se relacionavam à veintena de Quecholli, período de vinte dias do calendário ritual associado a Mixcóatl no mundo mexica e, por extensão, a Camaxtli em Tlaxcala. Durante esse período, realizavam-se caçadas, preparavam-se flechas e ocorriam cerimônias em honra às divindades da caça e da guerra.

Mural "Fiestas Rituales en Homenaje a Camaxtli", no Palácio de Governo de Tlaxcala,
retratando o deus.


Os sacrifícios humanos também faziam parte do ritualismo dedicado a Camaxtli, com o objetivo de manter o equilíbrio cósmico e garantir o sucesso militar. A maior parte das descrições dessas cerimônias provém de crônicas de missionários católicos espanhóis, que costumavam registrar os ritos nativos sob uma perspectiva de condenação religiosa.

Integração no panteão mesoamericano

Embora Camaxtli fosse uma das divindades centrais de Tlaxcala, ele não era o único deus cultuado pelos tlaxcaltecas. Seu panteão incluía Tláloc (deus da chuva), Ehécatl (deus do vento), Xochiquétzal (deusa do amor, beleza e artes), Quetzalcóatl (a serpente emplumada), Tezcatlipoca (o espelho fumegante) e Xipe Tótec (associado à agricultura e à renovação da terra). A veneração de Camaxtli ao lado desses deuses demonstra como os povos nahuas do México Central compartilhavam um repertório religioso comum, no qual cada cidade-estado adaptava e priorizava certas divindades de acordo com sua própria história, identidade e alianças.


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4 de julho de 2026

Glycon

۞ ADM Sleipnir

Imagem: CristianChirita / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Glycon, também grafado Glykon, foi uma divindade-serpente venerada no mundo greco-romano durante o século II d.C. Seu culto ficou associado a Alexandre de Abonoteico, profeta ativo na Paflagônia, região da Ásia Menor. A principal fonte literária sobre Glycon é a obra  Alexandre, ou o Falso Profeta, de Luciano de Samósata, autor que descreve Alexandre de forma satírica e hostil. Além do relato de Luciano, moedas, inscrições e achados arqueológicos indicam que o culto teve existência histórica e alcançou certa difusão no mundo romano.



Origem do culto

Segundo Luciano, Alexandre anunciou a chegada de uma nova manifestação de Asclépio, deus associado à cura. A aparição teria sido encenada com uma pequena serpente escondida em um ovo de ganso, apresentada ao público como o nascimento do deus. Mais tarde, Alexandre teria exibido uma grande serpente adquirida na Macedônia, combinada com uma cabeça artificial de aparência humana. Dessa forma, Glycon foi apresentado como uma serpente divina com traços humanos, ligada à cura, à profecia e à autoridade religiosa de Alexandre.

O culto de Glycon se desenvolveu em Abonoteico, cidade que mais tarde passou a ser conhecida como Ionópolis. Diferentemente de alguns santuários tradicionais de Asclépio, voltados principalmente para cura e incubação ritual, o centro de Glycon destacou-se sobretudo como oráculo. Pessoas consultavam o deus sobre doenças, futuro, decisões pessoais e questões políticas. Luciano acusa Alexandre de manipular essas consultas e de usar recursos mecânicos para fazer parecer que o próprio deus respondia aos fiéis.

Difusão no mundo romano

Apesar do tom crítico de Luciano, o culto alcançou notoriedade fora de Abonoteico. No século II, há indícios de que fórmulas atribuídas ao oráculo de Glycon foram usadas contra a peste, em contexto compatível com a peste antonina. O culto também atraiu pessoas de posição elevada, como Públio Múmio Sisena Rutiliano, governador romano mencionado por Luciano como protetor do oráculo e genro de Alexandre.

Moedas provinciais, inscrições e pequenas imagens indicam que a veneração de Glycon se espalhou por diferentes regiões do mundo romano, especialmente entre áreas ligadas ao Danúbio, ao Mar Negro e à Ásia Menor. Essas evidências mostram que o culto sobreviveu à morte de Alexandre, ocorrida por volta de 170 d.C., e permaneceu ativo pelo menos até o século III.

A estátua de Tomis

Uma das representações mais conhecidas atribuídas a Glycon é a estátua de mármore encontrada em 1962 em Constanța, antiga Tomis, na atual Romênia. A peça, datada do fim do século II ou início do século III d.C., representa uma serpente com cabeça humana e integra o conjunto conhecido como Tesouro de Esculturas de Tomis, preservado pelo Museu de História Nacional e Arqueologia de Constanța.


Cultura Popular

Na cultura moderna, Glycon aparece principalmente em referências ligadas ao ocultismo contemporâneo e à cultura geek. O escritor britânico Alan Moore declarou interesse pela divindade e passou a tratá-la de forma simbólica e irônica em sua prática mágica. Glycon também aparece ligado ao projeto The Moon and Serpent Bumper Book of Magic, obra de Alan Moore e Steve Moore sobre magia e ocultismo, que inclui uma narrativa relacionada a Alexandre de Abonoteico e ao deus-serpente.

Nos jogos eletrônicos, o nome Glykon aparece em Destiny 2, na nave Glykon Volatus, cenário da missão Presage. Já em Marvel Contest of Champions, o personagem Glykhan, líder da organização Ouroboros, tem seu nome inspirado em Glycon. 

Glykhan (Marvel Contest of Champions)


fontes:
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3 de julho de 2026

A Jornada ao Oeste: Capítulo LXXIV

۞ ADM Sleipnir


CAPÍTULO LXXIV:

LI CHANGGENG FALA SOBRE O PERIGO QUE OS DEMÔNIOS REPRESENTAM. O PEREGRINO EXIBE OS SEUS PODERES DE METAMORFOSE.

Desejos e sentimentos nascem da mesma fonte. Embora sejam naturais ao ser humano, aqueles que abraçaram a pobreza e seguiram o caminho do Zen devem aprender a abandoná-los. Só assim poderão alcançar a pureza da lua que brilha no alto do céu. Quanto maiores forem os méritos acumulados, maior deve ser o cuidado para evitar erros. É preciso lembrar sempre que apenas a perfeição absoluta conduz à iluminação eterna.
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2 de julho de 2026

Telepinu

۞ ADM Sleipnir

Telepinu (também escrito como Telipinu, Telepinus, Talipinu ou Talapinu) foi uma divindade da antiga Anatólia, cultuada no contexto religioso dos hititas. Ele é mais conhecido como um deus ligado à fertilidade, à agricultura, ao crescimento das plantações e à reprodução dos rebanhos. Seu mito mais famoso conta como sua ausência mergulhou o mundo em fome, seca e esterilidade, até que os deuses conseguissem encontrá-lo e acalmar sua ira.

Telepinu fazia parte do conjunto de divindades herdadas ou assimiladas pelos hititas a partir de tradições religiosas mais antigas da Anatólia, especialmente do ambiente hático. Em alguns textos, aparece como filho de Taru, o deus da tempestade e do clima e uma das principais divindades do mundo hitita. Essa ligação com Taru ajuda a explicar sua relação com a fertilidade da terra, já que a vida agrícola dependia das chuvas, das estações e da estabilidade da natureza.

Características

Telepinu era associado à força vital que permite à terra produzir alimento. Sua presença garantia o crescimento do trigo e da cevada, a multiplicação dos animais, a abundância dos campos e a continuidade da vida. Por isso, embora seja lembrado principalmente como um deus agrícola, sua função era mais ampla: ele representava a prosperidade da comunidade e o equilíbrio entre os deuses, os seres humanos e a natureza.

Nos textos hititas, Telepinu não aparece como um deus guerreiro ou criador do mundo, mas como uma divindade cuja ausência ameaça toda a ordem existente. Quando ele se afasta, a vida deixa de seguir seu curso normal. Quando retorna, a fertilidade e a estabilidade são restauradas.

O mito do desaparecimento

O principal mito envolvendo Telepinu é conhecido como Mito de Telepinu ou Mito do Deus Desaparecido. No catálogo moderno dos textos hititas, essa narrativa é identificada como CTH 324. O início do texto chegou até nós danificado, por isso não se sabe com certeza o motivo que levou o deus a ficar furioso. O que se preservou, porém, mostra que sua raiva teve consequências desastrosas.

Tomado pela ira, Telepinu abandona sua terra. Em algumas versões, ele parte de maneira confusa, chegando a calçar os sapatos nos pés errados, detalhe que reforça o estado de desordem causado por sua cólera. Ao desaparecer, ele leva consigo a fertilidade do mundo. Os campos deixam de produzir, os cereais não crescem, os rios e fontes secam, os animais não se reproduzem e mães passam a rejeitar seus filhos. A crise atinge tanto os seres humanos quanto os deuses, pois a ausência de Telepinu rompe o equilíbrio natural e religioso.

Os deuses tentam encontrá-lo. Primeiro, o deus Sol envia uma águia para procurar Telepinu, mas a ave não consegue localizá-lo. Depois, outros deuses também participam da busca, sem sucesso. Por fim, a deusa-mãe Hannahanna envia uma pequena abelha. Apesar de sua fragilidade, é ela quem encontra Telepinu adormecido sob a vegetação. A abelha o desperta picando suas mãos e seus pés, além de ungir seus olhos e membros com cera.

O despertar, porém, não resolve imediatamente o problema. Telepinu fica ainda mais irritado e sua raiva ameaça causar novas destruições. Para que a ordem seja restaurada, é necessário realizar rituais de purificação e encantamentos. Nesse momento, entra em cena Kamrušepa, deusa associada à magia e à cura. Por meio de fórmulas rituais, ela afasta a ira de Telepinu e a envia para o mundo subterrâneo, onde não poderá mais prejudicar a terra.

Depois que a cólera do deus é removida, a vida volta ao normal. Os campos tornam a produzir, os animais reconhecem seus filhotes, os altares recuperam sua função e a prosperidade retorna. O mito termina com a restauração da abundância e da ordem.

Culto

Telepinu foi mencionado em textos rituais e orações hititas. Uma das composições conhecidas é a Oração de Muršili II a Telepinu, na qual o rei pede a proteção do deus para si, para seus súditos e para a terra de Hatti. A oração associa Telepinu à saúde, à prosperidade do reino e à vitória contra inimigos. Esse ripo de registro indica que Telepinu era mais do que um personagem mítico. Ele era uma divindade cultuada e invocada em situações ligadas ao bem-estar do reino, à fertilidade da terra e à estabilidade política. Em uma sociedade dependente da agricultura, uma divindade associada à abundância possuía grande importância religiosa.

Telepinu e os deuses desaparecidos

O mito de Telepinu pertence a um grupo maior de narrativas hititas sobre deuses que desaparecem. Nessas histórias, a ausência de uma divindade provoca uma crise no mundo, seguida por uma busca e por rituais destinados a restaurar a ordem. Esse tema aparece em outros textos da tradição hitita, mas o caso de Telepinu é o mais conhecido e um dos mais bem preservados.

A recorrência desse tipo de narrativa mostra como os hititas concebiam a relação entre religião e natureza. A fertilidade dos campos, o nascimento dos animais, a estabilidade do rei e o funcionamento dos cultos faziam parte de uma mesma ordem. Quando essa ordem era rompida, era preciso restabelecê-la por meio da ação divina e ritual.

Não confundir com o rei Telipinu

Telepinu, o deus, não deve ser confundido com Telipinu ou Telepinus, rei hitita do Antigo Reino. O rei Telipinu governou no século XVI a.C. e ficou conhecido pelo chamado Edito de Telipinu, documento importante para a organização política e sucessória do reino hitita. Apesar da semelhança do nome, trata-se de uma figura histórica diferente da divindade agrícola da mitologia hitita.

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1 de julho de 2026

Fura-pés

۞ ADM Sleipnir

O Fura-pés é uma criatura cuja lenda é atribuída à região de Dom Inocêncio, no sul do Piauí. Segundo a tradição local, trata-se de um pequeno diabrete que vive debaixo da terra, abrindo passagens subterrâneas por onde se move sem ser visto. Ele é descrito como um ser malicioso, que se diverte causando sofrimento aos desavisados. Suas principais vítimas são aqueles que caminham descalços, especialmente em áreas abertas, trilhas ou terrenos afastados. Ao perceber a aproximação de alguém, o Fura-pés ergue as pontas dos chifres para fora da terra e perfura os pés da pessoa. Depois do ataque, desaparece novamente em suas passagens subterrâneas. 

O ferimento causado pelo Fura-pés não seria um machucado comum. Segundo o relato popular, o furo provocado por seus chifres poderia infeccionar, causando febre, tremores, delírios e alucinações. Em versões mais assustadoras, a vítima poderia até morrer. Por isso, a lenda também pode ser entendida como uma advertência contra o hábito de andar descalço. Em terrenos rurais ou de solo exposto, cortes, espinhos, pedras, insetos e infecções representam perigos reais. Assim, a história do Fura-pés transforma esse risco cotidiano em uma assombração fácil de lembrar.

Há quem diga que tudo não passa de uma história inventada pelos mais velhos para convencer as crianças a usarem calçados. Ainda assim, como acontece em muitas lendas populares, existem pessoas que afirmam conhecer vítimas da entidade e até relatam marcas nos pés como prova do encontro.


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30 de junho de 2026

Kōrobesama

۞ ADM Sleipnir

Kōrobesama (japonês  首様 ou こうろべさま, “Venerável Cabeça de Cavalo” ou “Senhor da Cabeça de Cavalo”), também chamado de Kōbesama, Umano-kōbe (“cabeça de cavalo”) e, em contextos religiosos, Komyōjin, é um yokai do folclore japonês associada à ilha de Miyake, no arquipélago de Izu. Sua forma mais conhecida é a de uma cabeça de cavalo que aparece de maneira misteriosa e está ligada a antigas crenças sobre tabus, castigos divinos e cultos locais.

Tradições e crenças

Na região de Kamitsuki, existia o costume de observar um dia de tabu no vigésimo quarto dia do Ano Novo. Nessa data, os moradores limpavam suas casas e, ao cair da noite, fechavam as portas, evitavam fazer barulho e se recolhiam cedo. Segundo a tradição, era nessa noite que o Kōrobesama descia do Monte Kōrobe para percorrer a aldeia. As mulheres eram especialmente aconselhadas a permanecer dentro de casa, e a simples menção da criatura bastava para assustar as crianças e fazê-las obedecer.

Os moradores diziam que o Kōrobesama surgia na forma de uma cabeça de cavalo rolando pelas ruas do vilarejo. Enquanto se movia, produzia um som estranho, comparado ao barulho do arroz sendo lavado.

Arte de TYZ yokai

Origem da lenda

A origem do Kōrobesama está ligada à família sacerdotal Mibu, responsável pelo culto do santuário Mishima Myōjin. De acordo com um antigo registro genealógico da família, no ano de 898 nasceu um cavalo com um único chifre. O animal teria sido posteriormente divinizado sob o nome de Komyōjin e venerado em um santuário localizado no Monte Kōrobe.

Uma das versões mais conhecidas da lenda conta que o cavalo sagrado do santuário Mishima se apaixonou por uma jovem da família Mibu. Obcecado por ela, o animal tornou-se agressivo e passou a exigir que a moça lhe fosse entregue. Tentando evitar isso, o pai da jovem declarou que só aceitaria o pedido se o cavalo conseguisse fazer nascer um chifre em sete dias e sete noites. Para surpresa de todos, o animal retornou no sétimo dia com um chifre na testa. 

Sem poder voltar atrás na promessa, a família envolveu a jovem em panos brancos e a ofereceu ao cavalo. Porém, em vez de levá-la consigo, o animal a matou ao perfurá-la com o chifre. Depois da tragédia, a cabeça do cavalo foi consagrada como Kōrobesama, enquanto a jovem passou a ser venerada como uma divindade local.

Outra narrativa afirma que o cavalo se apaixonou pela esposa de um membro da família Mibu após vê-la em um momento de intimidade. Assim como na versão anterior, o animal tornou-se violento e exigiu que a mulher lhe fosse entregue. A família tentou escondê-la, mas a insistência do cavalo acabou tornando impossível manter a situação sob controle. Por fim, a mulher foi envolta em tecidos e oferecida ao animal. Mesmo assim, ele rasgou as suas vestes e a matou. Depois do ocorrido, os membros da família mataram o cavalo, removeram seu chifre e o consagraram como objeto de culto. Essa versão inclui ainda um detalhe curioso: quando era criança, a mulher costumava ser ameaçada pela mãe com a frase: “Se não obedecer, será entregue a um cavalo.”

Relatos posteriores

Histórias envolvendo o Kōrobesama continuaram a circular na ilha mesmo em tempos mais recentes. Uma delas tem como protagonista um morador chamado Asanuma EtsutarōCerta madrugada, durante um dos dias de tabu, ele voltava para casa quando ouviu um som incomum vindo do lado de fora. O ruído chamou sua atenção porque não havia vento nem qualquer outra explicação aparente. Ao chegar em casa, descobriu que sua esposa também havia escutado o mesmo barulho.

O casal procurou uma anciã da comunidade, que afirmou tratar-se da passagem do Kōrobesama. Mais tarde, uma sacerdotisa realizou uma adivinhação e concluiu que a entidade estava descontente com o estado de conservação de seu santuário. Segundo a interpretação, o Kōrobesama desejava que o local fosse restaurado e purificado.

fonte:

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