4 de novembro de 2026

Eshnuwerta

۞ ADM Sleipnir

Eshnuwerta (também chamada Ashnuwerta) é uma divindade feminina da tradição religiosa dos Yshyr, povo indígena conhecido também como Chamacoco, habitante do Chaco Boreal, no Paraguai. Associada à água, é considerada uma Grande Mãe e uma das principais autoridades do mundo sobrenatural. Nos mitos Chamacoco, está relacionada à origem da ordem social, à transmissão dos conhecimentos e à instituição de cerimônias tradicionais.

Eshnuwerta também é conhecida como a "Doadora das Palavras", pois seus ensinamentos estabeleceram normas e costumes que orientavam a vida dos seres humanos. Sua figura reúne aspectos benéficos e destrutivos: além de transmitir conhecimentos, pode provocar inundações, tempestades e doenças quando suas determinações são desrespeitadas.

Eshnuwerta e os anábsoro

Na mitologia Chamacoco, os anábsoro são seres sobrenaturais que tiveram contato com os antepassados humanos e lhes ensinaram conhecimentos necessários à vida em sociedade. Eshnuwerta ocupa uma posição de autoridade entre essas entidades, sendo considerada sua mãe ou matriarca. Os anábsoro ensinaram aos humanos diferentes práticas, incluindo técnicas de caça, utilização de instrumentos e costumes. Eshnuwerta participou desse processo de transmissão cultural, estabelecendo regras e conhecimentos que passaram a orientar a organização da sociedade.

Uma das histórias mais importantes envolvendo a divindade é sua relação com ser humano chamado Syr. Em determinada versão, Eshnuwerta estabeleceu uma aliança com ele e revelou o segredo que permitiria aos homens derrotar os anábsoro. Esses seres possuíam uma região vulnerável próxima ao tornozelo, que funcionava como uma espécie de órgão respiratório. Ao descobrir essa fraqueza, os humanos conseguiram matá-los.

Depois da morte dos seres sobrenaturais, Eshnuwerta determinou que os homens continuassem representando os anábsoro em cerimônias tradicionais. Essa determinação deu origem ao Debylyby, também conhecido como "Grande Cerimônia", durante o qual os participantes reproduziam a aparência, os movimentos e os comportamentos das antigas entidades. Os homens utilizavam pinturas corporais, vestimentas e adornos de penas para representar os seres sobrenaturais. A cerimônia também estava relacionada à transmissão dos conhecimentos religiosos aos jovens durante os rituais de iniciação masculina.

A origem da ordem social

Eshnuwerta também é associada à instituição das regras que organizam a sociedade Yshyr. Seus ensinamentos estabeleceram normas relacionadas à organização dos clãs, aos casamentos, às relações sociais, às vestimentas e às obrigações cerimoniais. Esse conjunto de determinações é conhecido como Ashnuwerta a'woso, expressão traduzida como "A Palavra de Ashnuwerta". Mais do que simples ensinamentos, suas palavras fundamentam costumes e normas que orientam a vida comunitária e religiosa.

A divindade também está relacionada à instituição do tobich, espaço sagrado de iniciação masculina, onde os jovens recebiam conhecimentos sobre as tradições e os costumes do povo.

Relação com Nemur e Ashnuwysta

Eshnuwerta mantém uma relação importante com Nemur, outra figura sobrenatural da mitologia Chamacoco. Enquanto ela estabelece as normas e transmite os conhecimentos, Nemur é associado à fiscalização e à punição daqueles que desrespeitam suas determinações. Ele também recebe títulos como "Grande Fiscal", "Vingador" e "Guardião do tobich".

Eshnuwerta também apresenta ainda uma contraparte sombria chamada Ashnuwysta, interpretada pelo pesquisador Ticio Escobar como outra manifestação da própria Eshnuwerta. Essa dualidade é associada principalmente às cores: enquanto Ashnuwerta representa o vermelho, o esplendor e a luminosidade, Ashnuwysta está relacionada ao negro e à escuridão. As duas manifestações expressam aspectos distintos da divindade, que pode tanto favorecer os seres humanos quanto castigá-los.

Senhora das Águas e do Fogo

Além de sua atuação na organização social e religiosa, Eshnuwerta está associada à água, ao fogo e aos fenômenos atmosféricos. Sua figura aparece relacionada às chuvas, às tempestades e às inundações, que podem ocorrer como forma de punição.

Uma das histórias atribuídas à divindade conta que ela provocou uma grande inundação no rio Paraguai como vingança pela morte dos anábsoro. O episódio teria causado a morte de jovens durante uma cerimônia de iniciação realizada após a derrota dos seres sobrenaturais. Eshnuwerta também é associada a doenças e epidemias, que aparecem em suas manifestações punitivas.

Aparência e representações

Não existe uma representação física única e estabelecida de Eshnuwerta. Entretanto, os registros etnográficos associam sua figura à cor vermelha e ao uso de adornos de penas avermelhadas. Esses elementos estão relacionados à sua representação ritual e ao significado atribuído ao seu nome. Segundo interpretações recolhidas por Ticio Escobar, seu nome pode significar algo próximo de "aquela do esplendor vermelho" ou "aquela da crista vermelha". Sua representação também está relacionada à Via Láctea, considerada sua morada celestial em uma interpretação registrada pelo pesquisador.


fontes:

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3 de novembro de 2026

Hongatar

۞ ADM Sleipnir


Hongatar é uma figura feminina da tradição mitológica e folclórica finlandesa, associada à floresta e à proteção dos ursos. Em cantos tradicionais, aparece como mãe ou ama desses animais. Também é invocada em encantamentos para ajudar caçadores a localizar abrigos de ursos e proteger o gado contra seus ataques.

Seu nome é relacionado à palavra finlandesa honka, que designa um pinheiro antigo ou de grande porte, acrescida do sufixo feminino -tar. A denominação pode ser interpretada como “Senhora dos Pinheiros”. As formas Hongotar e Honkatar também aparecem nos registros da tradição.

Origem e características

As referências a Hongatar encontram-se em cantos e registros da tradição finlandesa e careliana. Uma das primeiras documentações conhecidas está em Cantio Ursina, canto registrado em 1675 na região de Rautalampi. Outro texto foi recolhido em Viitasaari depois de 1750. Há ainda ocorrências reunidas na coleção Suomen Kansan Vanhat Runot (SKVR), dedicada à preservação da poesia popular finlandesa.

Em Mythologia Fennica (1789), Christfrid Ganander descreveu Hongatar como um espírito  feminino da floresta, relacionado à proteção dos pinheiros e ao cuidado dos ursos. O autor também menciona Hongonen como seu marido e pai do urso. Hongatar também aparece em encantamentos destinados a proteger os rebanhos contra ataques de ursos e a auxiliar na localização dos abrigos desses animais.


Hongatar e o nascimento do urso

Os cantos tradicionais finlandeses apresentam diferentes versões sobre a origem do urso. Em algumas narrativas, o animal tem origem celeste e é associado à região da Ursa Maior; em outras, nasce na floresta. Hongatar aparece em determinadas versões como sua mãe ou protetora, mas não é a única figura feminina relacionada a esse papel.

Entre as personagens associadas ao nascimento e à proteção do urso estão Mielikki, Petäjätär e a Senhora de Pohjola. Elas desempenham funções semelhantes em diferentes cantos. Em uma composição recolhida em Kuusamo, por exemplo, o urso é associado ao “ninho de Petäjätär” e à “morada de Hongatar”, aproximando as duas figuras na narrativa.

Relação com a floresta e os rituais do urso

A ligação de Hongatar com os pinheiros também aparece nos estudos sobre as práticas cerimoniais dedicadas ao urso. Em Suomalainen mytologia (1967), Martti Haavio examinou a associação entre a personagem e o pinheiro utilizado em rituais envolvendo o crânio do animal. 

Em algumas tradições finlandesas e carelianas, após a caça, o crânio do urso era pendurado em uma árvore, enquanto os ossos podiam ser enterrados junto às raízes. Essas práticas estavam relacionadas à crença na regeneração do animal e em seu retorno. A pesquisa de Vesa Matteo Piludu sobre o cerimonialismo do urso finno-careliano aborda a relação entre a caça, o tratamento ritual dos restos do animal e a paisagem florestal.

Hongatar no Kalevala

No Kalevala, poema épico compilado por Elias Lönnrot, Hongatar é chamada de hyvä emäntä, expressão que pode ser traduzida como “boa senhora” ou “boa anfitriã”. No canto 32, seu nome aparece ao lado dos de Katajatar, Pihlajatar e Tuometar. A passagem identifica Tuometar como filha de Tapio.

Os registros tradicionais não apresentam uma descrição física uniforme de Hongatar. A personagem é caracterizada principalmente por sua relação com os pinheiros, os ursos e a floresta, conforme aparece nos cantos e encantamentos.


fontes:
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2 de novembro de 2026

Itqiirpak

۞ ADM Sleipnir

Itqiirpak é uma criatura sobrenatural das tradições orais dos Yupik do Alasca, particularmente associada à região de Scammon Bay. Seu nome é traduzido como “grande fogo” e a criatura é descrita como uma mão gigantesca que emerge do oceano, com uma boca na palma e outra na extremidade de cada dedo. Em alguns relatos, também aparece associada a uma luz avermelhada sobre o mar.

Em uma narrativa Yup’ik apresentada pela antropóloga Birgitte Sonne, com referência aos registros da antropóloga Ann Fienup-Riordan, algumas crianças brincavam sozinhas no qasgiq, a casa comunal tradicional dos homens, quando Itqiirpak surgiu do oceano e começou a devorá-las. Um menino conseguiu escapar ao se esconder sob uma abertura no chão, próxima à entrada. 

Quando os adultos retornaram, perceberam a presença da criatura e fizeram barulho para atraí-la. Em seguida, cortaram seus dedos, fazendo com que ela desaparecesse. Ao amanhecer, encontraram apenas gelo no local onde a mão havia surgido. A narrativa tem sido interpretada em relação aos perigos do inverno no ambiente ártico, especialmente a escuridão e a escassez de alimentos. Sonne sugere que histórias desse tipo também poderiam funcionar como advertências às crianças para que não fizessem barulho no qasgiq, evitando afugentar os animais caçados. Essas interpretações, contudo, não representam necessariamente um significado único ou definitivo atribuído à criatura pelos Yupik.

Uma possível representação de Itqiirpak foi identificada em uma colher de madeira yupik preservada no Museu Nacional de História Natural do Smithsonian. A peça apresenta a figura de uma mão vermelha com uma abertura na palma, na qual são visíveis dentes pontiagudos. O catálogo considera possível que a decoração represente a criatura, mas também admite outras interpretações, como um aviso contra o roubo de alimentos.

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29 de outubro de 2026

Atavaka

۞ ADM Sleipnir


Atavaka (sânscrito  आटवक,  Āṭavaka, literalmente "Senhor da Floresta", em páli, Āḷavaka) é uma figura do budismo associada tanto às tradições mais antigas quanto ao budismo Mahāyāna e esotérico. Nos textos do Cânone Páli, aparece como um poderoso yakṣa antropófago que foi convertido por Sidarta Gautama, o Buda. Com a difusão do budismo pela Ásia, sua imagem passou por um processo de transformação, tornando-se a de uma divindade protetora e de um Rei da Sabedoria. No Japão, é conhecido principalmente pelo nome Daigensui Myōō (大元帥明王), sendo venerado como guardião do Estado e defensor do Dharma.

História

As fontes budistas mais antigas situam Aṭavaka na floresta de Āṭavī, onde habitava sob uma grande figueira-de-bengala. Segundo a tradição, ele havia recebido de Vaiśravaṇa (um dos Guardiões das Direções, deidades budistas que controlam e protegem os quatro pontos cardeais) a permissão para capturar e devorar qualquer pessoa que entrasse na sombra de sua morada.

Certa vez, o rei de Āṭavī passou pelo local durante uma caçada. Para escapar da morte, comprometeu-se a fornecer criminosos condenados como alimento para o yakṣa. Com o tempo, porém, os prisioneiros tornaram-se insuficientes para atender às exigências da criatura, e os habitantes da região passaram a sacrificar seus próprios filhos. Após anos dessa prática, restava apenas o filho do próprio rei, o príncipe Āṭavaka Kumāra. Quando o jovem estava prestes a ser entregue ao demônio, o Buda tomou conhecimento da situação por meio de seus poderes sobrenaturais e dirigiu-se à residência do yakṣa.

Naquele momento, Aṭavaka encontrava-se nos Himalaias participando de uma assembleia de yakṣas. Aproveitando sua ausência, o Buda entrou em sua morada e sentou-se em seu trono. Ao retornar, o yakṣa tentou expulsá-lo utilizando seus poderes e armas mágicas, mas sem sucesso. Nem mesmo o Dussāvudha, arma considerada uma das mais poderosas do mundo segundo a tradição budista, foi capaz de mover o Buda. Diante do fracasso de suas tentativas, Aṭavaka passou a questioná-lo sobre temas como riqueza, felicidade, verdade, sabedoria e libertação. O Buda respondeu a todas as perguntas, ensinando que a fé constitui a maior riqueza, que a verdade é o mais elevado dos valores e que o discernimento conduz à purificação espiritual.

Convencido pela sabedoria do Buda, Aṭavaka abandonou sua conduta violenta e tornou-se seu seguidor. Os comentários budistas afirmam que ele alcançou o estágio de sotāpanna, o primeiro grau de realização espiritual.

Na manhã seguinte, os servos do rei chegaram trazendo o príncipe destinado ao sacrifício. Em vez de reclamar sua vítima, Aṭavaka entregou o menino ao Buda, que o abençoou e o devolveu em segurança à família real. O príncipe passou a ser conhecido como Hastaka Aṭavaka e mais tarde tornou-se um dos mais respeitados discípulos leigos do budismo.

A conversão de Aṭavaka marcou o fim dos sacrifícios realizados em sua homenagem. Segundo a tradição, os habitantes de Āṭavī construíram para ele uma nova residência e passaram a reverenciá-lo como protetor do Dharma.


Desenvolvimento nas tradições Mahāyāna

Com a expansão do budismo para a Ásia Central, a China e o Japão, a figura de Aṭavaka foi gradualmente reinterpretada. O antigo yakṣa convertido deixou de ser lembrado apenas como personagem de uma narrativa exemplar e passou a ocupar uma posição de destaque entre as divindades protetoras do budismo. Nas tradições Mahāyāna e Vajrayāna, ele é identificado como um dos Oito Grandes Generais Yakṣas subordinados a Vaiśravaṇa. Nesses contextos, recebe frequentemente o título de Aṭavaka Mahāyakṣasenāpati, "Grande General Yakṣa Aṭavaka", e é venerado como protetor dos ensinamentos budistas.

No Leste Asiático, especialmente no Japão, tornou-se conhecido como Daigensui Myōō. Sob essa forma, passou a integrar o grupo dos Reis da Sabedoria, divindades ferozes que simbolizam a força necessária para derrotar a ignorância e proteger a Lei Budista.

Culto no Japão

No Japão, Daigensui Myōō tornou-se particularmente associado à proteção do Estado. Desde o período Heian, a Corte Imperial realizava rituais conhecidos como Taigensui no Hō, destinados a afastar epidemias, desastres naturais, rebeliões e ameaças estrangeiras. A devoção a Daigensui Myōō permaneceu ligada principalmente às escolas esotéricas Shingon e Tendai. Diversos templos preservam imagens e tradições associadas à divindade, incluindo o Akishino-dera, em Nara, e complexos religiosos ligados ao Tō-ji e ao Daigo-ji, em Quioto.

Um episódio frequentemente citado ocorreu nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial. Em janeiro de 1945, monges da escola Shingon realizaram rituais dedicados a Daigensui Myōō com o objetivo de derrotar os inimigos do Japão. Após a morte do presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt, em abril daquele ano, alguns participantes atribuíram o acontecimento à eficácia dessas cerimônias.

Estátua de Daigensui Myo-o no templo Jikoh-in em Toyama


Iconografia

A iconografia de Aṭavaka varia conforme a época e a tradição religiosa. Algumas representações mostram-no com uma única cabeça e quatro braços, enquanto outras lhe atribuem múltiplas cabeças e numerosos braços, ressaltando seu caráter sobrenatural. Como outros Reis da Sabedoria, ele costuma ser retratado com expressão ameaçadora, cercado por chamas e empunhando armas e implementos rituais. Sua pele pode aparecer nas cores azul, vermelha ou negra. Em certas imagens, serpentes nāga envolvem seus membros como símbolo de poder e proteção.

Poderes e atributos

As fontes budistas atribuem a Aṭavaka capacidades sobrenaturais extraordinárias. Seu grito de guerra era considerado tão poderoso que podia ser ouvido por toda Jambudvīpa, o continente habitado pelos seres humanos segundo a cosmologia budista.

Sua principal arma, o Dussāvudha, figura entre as quatro armas mais poderosas da tradição budista. Os textos afirmam que ela poderia provocar secas prolongadas, destruir toda a vegetação, secar oceanos e até mesmo despedaçar o monte Sumeru, a montanha central da cosmologia budista.

Aṭavaka também é mencionado no Atānātiya Sutta entre os yakṣas protetores invocados para defender praticantes budistas contra influências malignas e perigos sobrenaturais.

Mantras e práticas esotéricas

Diversos mantras, dhāraṇīs, selos rituais e talismãs são atribuídos a Aṭavaka na literatura esotérica budista. Esses elementos aparecem principalmente no Sūtra da Dhāraṇī de Aṭavaka e são empregados em rituais voltados à proteção, à cura, ao afastamento de calamidades e à neutralização de forças consideradas nocivas.

Interpretação

O estudioso japonês Kaigyoku Watanabe classificou a história de Aṭavaka entre as chamadas narrativas de Kalmāsapāda, um conjunto de relatos presentes na literatura budista e indiana. Essas histórias costumam apresentar um yakṣa antropófago, um governante que busca apaziguá-lo por meio de concessões ou sacrifícios e, por fim, a transformação da criatura após o encontro com uma figura espiritualmente iluminada.

A narrativa de Aṭavaka é considerada um dos exemplos mais conhecidos desse motivo literário e ilustra um tema recorrente no budismo: a possibilidade de conversão e transformação mesmo dos seres mais violentos e perigosos.


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28 de outubro de 2026

Velha Barrageira

۞ ADM Sleipnir

A Velha Barrageira é uma personagem de uma lenda urbana brasileira associada ao município de Ilha Solteira, no estado de São Paulo. Segundo a tradição popular, trata-se do espírito de uma mulher idosa que aparece em estradas da região, sobretudo durante a noite, e desaparece misteriosamente após receber carona de motoristas. Sua história está ligada à construção da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, empreendimento iniciado na década de 1960 que provocou profundas transformações na paisagem e na ocupação do território.

A lenda

Uma das versões mais conhecidas conta que a Velha Barrageira teria sido uma mulher idosa que vivia em uma propriedade rural situada nas terras destinadas à implantação da usina hidrelétrica. Com o avanço das obras, ela teria se recusado a abandonar o lugar onde havia passado grande parte da vida. Algumas narrativas afirmam que acabou sendo retirada de sua propriedade, enquanto outras sustentam que permaneceu no local e morreu afogada quando as águas do reservatório inundaram a região.

Desde então, segundo a tradição, seu espírito passou a vagar pelas estradas próximas a Ilha Solteira. Os relatos descrevem encontros com uma senhora de aparência humilde, geralmente vestida com roupas simples e, em determinadas versões, inteiramente de branco. Suas aparições ocorreriam principalmente em trechos pouco movimentados, onde costuma pedir carona a caminhoneiros e outros motoristas que viajam sozinhos.

O acontecimento mais característico da lenda ocorre durante o trajeto. Após entrar no veículo e permanecer algum tempo ao lado do motorista, a mulher desaparece repentinamente, sem abrir a porta ou deixar qualquer vestígio de sua presença. Em algumas narrativas, o desaparecimento acontece quando o veículo se aproxima dos acessos à cidade.

Origem e registros da tradição

A origem da lenda está associada ao período de construção da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, no rio Paraná. Iniciada na década de 1960, a obra mobilizou um grande contingente de trabalhadores, conhecidos como barrageiros, e contribuiu diretamente para a formação do núcleo urbano que deu origem ao município. As mudanças provocadas pelo empreendimento, incluindo a ocupação de novas áreas e a transformação da paisagem, constituem o contexto histórico em que a narrativa se desenvolveu. Entretanto, não existem registros independentes que permitam identificar a mulher descrita na lenda ou comprovar as circunstâncias atribuídas à sua morte.

Um dos relatos escritos foi publicado em 2011 pelo escritor Oldack Mendes, no portal Recanto das Letras. O autor descreve uma experiência que afirma ter vivido em junho de 1970, quando trabalhava na região durante a construção da usina. Segundo seu testemunho, uma figura feminina idosa teria aparecido misteriosamente em seu veículo e desaparecido pouco depois.

Outras versões da lenda

Como ocorre com diversas narrativas transmitidas oralmente, a história da Velha Barrageira apresenta variações que modificam aspectos de sua origem, aparência e comportamento. Em certos relatos, a personagem teria morrido durante a inundação das terras; em outros, seu desaparecimento estaria relacionado à retirada de moradores das áreas ocupadas pelas obras.

Uma narrativa de características semelhantes também foi divulgada em Manaus, no Amazonas, associada ao antigo Tropical Hotel, localizado na região da Ponta Negra, às margens do rio Negro. Segundo essa versão, uma mulher teria vivido no terreno onde o estabelecimento foi posteriormente construído. Após sua morte, seu espírito passaria a aparecer para hóspedes e funcionários, manifestando-se ocasionalmente com a aparência de uma mulher jovem. A história foi registrada em publicações populares, entre elas uma matéria divulgada em 2017 pelo portal No Amazonas é Assim.

Representações na cultura popular

A Velha Barrageira ultrapassou os limites da tradição oral e passou a integrar diferentes manifestações artísticas, especialmente na música, na literatura e no teatro. O compositor e escritor Hugo Brasarock, natural de Ilha Solteira, dedicou à personagem a canção Velha Barrageira, na qual a narrativa tradicional recebe elementos de fantasia e suspense. A composição apresenta uma interpretação mais ameaçadora da figura sobrenatural, atribuindo-lhe, entre outras características, a capacidade de hipnotizar suas vítimas.

No teatro, a personagem aparece entre as histórias incorporadas ao espetáculo Terra Abaixo, Rio Acima, da Cia. Cênica, de São José do Rio Preto. Concebida em 2016, a montagem aborda acontecimentos e memórias ligados à construção da usina, combinando referências históricas com relatos transmitidos pela população. O espetáculo integrou a programação do Circuito Sesc de Artes de 2019.

A lenda também inspirou o livro infantojuvenil A Lenda da Velha Barrageira, publicado pelo autor em 2021, pela Editora Autografia. A obra acompanha um grupo de sete garotos envolvidos na investigação do mistério, utilizando a história regional como ponto de partida para uma narrativa de aventura e suspense.


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27 de outubro de 2026

Jeokyeomgwi

۞ ADM Sleipnir

Jeokyeomgwi (적염귀; 赤髥鬼, “fantasma da barba vermelha”) é uma figura sobrenatural associada a uma narrativa atribuída ao Yongjae Chonghwa, compilação literária coreana escrita por Seong Hyeon (1439–1504), durante o início da dinastia Joseon. O relato relaciona a profanação de uma sepultura à intervenção sobrenatural e à punição dos responsáveis.

Segundo a história, um alto funcionário de sobrenome Kwon decidiu sepultar o pai em um túmulo já ocupado. O espírito associado à sepultura tentou impedi-lo, explicando que o local guardava os restos mortais de seu próprio pai e advertindo que a violação traria consequências. Kwon ignorou o aviso, mandou abrir o túmulo, retirou o caixão e descartou o corpo.

Na mesma noite, o geomante Lee, que havia indicado o local do sepultamento, sonhou com um homem de barba vermelha. A figura o responsabilizou pelo ocorrido e golpeou seu peito. Ao despertar, Lee sentiu uma dor intensa, começou a sangrar e morreu pouco depois. Posteriormente, Kwon também foi executado, e sua família foi arruinada. Segundo o relato, essas desgraças foram consequências da violação do túmulo.


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26 de outubro de 2026

As Filhas de Aegir

۞ ADM Sleipnir

Arte de YunaXD

As Filhas de Aegir (em nórdico antigo, Ægisdœtr) são nove figuras da mitologia nórdica, filhas de Aegir, associado ao mar, e de Rán, relacionada aos perigos marítimos. Associadas às ondas, elas aparecem em textos da tradição nórdica, especialmente na Edda em Prosa, de Snorri Sturluson.

Nomes e função poética

As nove filhas são chamadas Himinglæva, Dúfa, Blóðughadda, Hefring, Uðr, Hrönn, Bylgja, Dröfn e Kólga. Em uma lista alternativa registrada em Nafnaþulur, o nome Bára aparece no lugar de Dröfn.

Seus nomes estão relacionados a aspectos do mar e ao movimento das ondas. Blóðughadda pode ser traduzido como “cabelos ensanguentados”; Bylgja e Hrönn estão associados a ondas; Hefring sugere elevação ou movimento ascendente; e Uðr pode ser interpretado como “onda espumante”. Himinglæva recebeu a interpretação de “aquela através da qual se pode ver o céu”, enquanto Kólga é traduzido em algumas fontes como “a fria”. Os significados exatos, porém, variam conforme as interpretações linguísticas adotadas.

As filhas de Aegir também aparecem na poesia escáldica, na qual seus nomes são empregados como expressões poéticas relacionadas ao mar. Na Edda em Prosa, o ouro é associado poeticamente a Aegir, a Rán e às suas filhas, sendo descrito como o fogo, a luz ou o brilho dessas figuras.

Ægir, Rán e suas nove filhas preparam um enorme tonel de cerveja. Arte de uma tradução sueca da Edda Poética datada do século XIX.



 


Referências nas Eddas

Na seção Skáldskaparmál, da Edda em Prosa, são apresentados os nomes das nove filhas e exemplos de seu uso na poesia escáldica. A obra também explica expressões poéticas que relacionam o mar a Aegir e Rán, além de registrar a associação entre o ouro e o brilho das filhas do casal.

Na Edda Poética, o poema Helgakviða Hundingsbana I descreve uma travessia marítima enfrentada por Helgi durante uma tempestade. A passagem menciona as “irmãs de Kólga” e, em seguida, as filhas de Aegir, retratadas como uma ameaça às embarcações. Nesse contexto, as figuras estão associadas às ondas e aos perigos da navegação.

"As nove filhas de Aegir e Ran". Pintura de Hans Dahl (1849-1937)

Relação com as mães de Heimdall

Algumas interpretações propõem uma possível relação entre as nove filhas de Aegir e as nove mães de Heimdall, guardião dos deuses e da ponte Bifröst. A hipótese se baseia principalmente no número de figuras e em possíveis associações entre passagens da tradição eddica.

No entanto, as fontes medievais não afirmam explicitamente que as filhas de Aegir sejam as mães de Heimdall. Essa identificação permanece uma hipótese interpretativa, e não um fato estabelecido nos textos mitológicos.

Arte de @runar.hall

fontes:
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23 de outubro de 2026

Melu

۞ ADM Sleipnir

Melu (também registrado como Mele) é uma figura criadora presente nas tradições dos Blaan, povo indígena do sul da ilha de Mindanao, nas Filipinas. Também chamados de Bila-an ou Bilaan em fontes mais antigas, os Blaan vivem principalmente em regiões como South Cotabato, Sarangani e Davao.

Narrativas sobre Melu foram registradas por pesquisadores no início do século XX e apresentam diferentes versões sobre a origem da Terra, dos seres humanos e de outros seres espirituais. Uma das principais fontes é The Wild Tribes of Davao District, Mindanao, publicada em 1913 pelo antropólogo Fay-Cooper Cole. 

Melu e Tau Tana

Em uma das narrativas registradas, Melu é descrito como um ser de tamanho extraordinário que vivia sobre as nuvens. Seus dentes eram de ouro e sua pele era branca. Segundo o relato, Melu esfregava continuamente o próprio corpo e acumulava a matéria que dele se desprendia. Quando essa quantidade se tornou muito grande, utilizou-a para formar a Terra.

Depois de criar o mundo, decidiu produzir seres semelhantes a ele, mas menores. Enquanto moldava os primeiros humanos, surgiu Tau Tana, também registrado como Funtana ou Tau Dalom Tana, um ser que vivia debaixo da Terra. Tau Tana insistiu em participar da criação e ficou responsável pelos narizes. No entanto, colocou-os de cabeça para baixo.

Mais tarde, uma forte chuva caiu sobre a Terra. Como os narizes estavam invertidos, a água que escorria pela cabeça ameaçava entrar pelas narinas. Melu percebeu o problema e voltou para corrigir sua posição. As pessoas agradeceram por terem sido salvas e disseram que se sentiam sozinhas. Melu então pediu que guardassem cabelos e resíduos de pele de seus corpos, que seriam utilizados para formar outros seres humanos.

A variante dos quatro seres

Outra narrativa apresenta quatro seres existentes no princípio: Melu, Fiuweigh, Dwata e Saweigh. Eles viviam em uma pequena ilha onde não existiam árvores ou outras formas de vida, com exceção de um pássaro chamado Baswit. O pássaro foi enviado para explorar as águas e retornou trazendo terra e materiais vegetais. Melu utilizou a terra para formar o mundo e plantou as sementes trazidas por Baswit, dando origem à vegetação.

Os quatro seres decidiram então criar habitantes para o novo mundo. A primeira tentativa foi feita com cera, mas as figuras derreteram ao serem aproximadas do fogo. Em seguida, passaram a utilizar terra. Nesta versão, Melu e Fiuweigh participam da criação humana. Fiuweigh coloca os narizes de cabeça para baixo, apesar do aviso de Melu de que as pessoas poderiam se afogar daquela maneira. Quando Fiuweigh se afasta, Melu corrige rapidamente os narizes. Segundo a narrativa, a pressão de seus dedos sobre a argila ainda macia teria deixado a depressão existente entre o nariz e a testa humana. Os primeiros seres humanos são chamados Adnato e Andawi.

As fontes registram outras versões da criação Blaan. Em uma delas, Melu e Dwata criam Fiuweigh e Seweigh, que posteriormente participam da formação dos seres humanos. O pássaro Baswit também reaparece em algumas dessas narrativas, trazendo terra ou elementos vegetais utilizados na formação do mundo.
 
Melu nas crenças Blaan

Além das narrativas de criação, Fay-Cooper Cole descreveu Melu, ou Mele, como o mais poderoso entre determinados espíritos associados ao mundo natural nas comunidades que estudou. Sua ajuda era procurada especialmente em situações de calamidade ou em acontecimentos considerados importantes. Cole também menciona Dwata, registrada sob diferentes grafias, geralmente como companheira ou esposa de Melu e dotada de poder semelhante ao dele. Fiuweigh e Seweigh também aparecem como seres espirituais importantes, embora suas origens e funções variem entre as diferentes versões.

Em 1916, Mabel Cook Cole observou semelhanças entre alguns episódios Blaan e narrativas bíblicas e sugeriu uma possível influência externa. Essa interpretação, porém, permanece uma hipótese e não estabelece a origem dessas tradições.



fontes:
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