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A Bruxa do Arco do Teles é uma personagem lendária associada ao antigo Largo do Paço, atual Praça XV, no Centro Histórico do Rio de Janeiro. Também conhecida como Bárbara dos Prazeres, Bárbara Onça ou simplesmente Onça, tornou-se uma das figuras mais conhecidas do folclore urbano carioca. A tradição a descreve como uma mulher ligada a assassinatos, banhos de sangue e práticas de feitiçaria. Em registros antigos, o nome do local também aparece grafado como Arco do Telles.
Embora seu nome apareça em publicações do século XIX, não há documentos contemporâneos que confirmem os crimes atribuídos à personagem. Assim, sua história é considerada uma lenda urbana ligada à memória histórica da cidade.
Contexto histórico
A lenda situa Bárbara dos Prazeres na região do antigo Largo do Paço, uma das áreas mais movimentadas do Rio de Janeiro oitocentista. Frequentado por pessoas de diferentes grupos sociais, o local tornou-se cenário de diversas histórias populares. Sua arquitetura colonial, os becos estreitos e a intensa circulação de pessoas contribuíram para o surgimento de narrativas sobre crimes, mistérios e assombrações.
Estudos históricos incluem Bárbara entre as figuras populares associadas ao Largo do Paço. Ela costuma ser descrita como prostituta e como uma mulher conhecida na região. No entanto, sua origem, identidade civil e relações familiares permanecem incertas. Informações presentes em versões modernas, como o nome Bárbara Vicente de Urpia, sua suposta origem portuguesa ou um casamento com Antonio de Urpia, não são confirmadas pelos registros conhecidos do século XIX.
A lenda
Segundo a tradição, Bárbara era uma mulher de grande beleza cuja aparência teria sido deformada por doenças, descritas em algumas narrativas como varíola ou lepra. Na tentativa de recuperar a juventude ou curar o próprio corpo, teria começado a banhar-se no sangue de animais e, mais tarde, no de seres humanos.
Um dos primeiros registros conhecidos dessa narrativa está no folhetim Historia da Onça, publicado em 1889 como parte da série Mystérios do Rio de Janeiro. O texto já relacionava Bárbara a banhos de sangue de animais e de crianças, demonstrando que essa versão da história circulava no fim do século XIX. Outras narrativas lhe atribuem o sequestro de crianças, incluindo bebês da Roda dos Expostos da Santa Casa — instituição criada para acolher crianças abandonadas —, além do assassinato de parentes, amantes ou de um suposto marido. Nenhum desses episódios possui confirmação documental.

O apelido Onça também aparece nas publicações oitocentistas, que descrevem Bárbara como uma mulher violenta e de aparência grotesca. Essas representações refletem o sensacionalismo da imprensa da época, que frequentemente explorava histórias de violência e retratava pessoas marginalizadas de forma estigmatizada. Embora o apelido Onça seja antigo, a identificação da personagem como bruxa parece ter surgido posteriormente, quando a tradição passou a enfatizar seu caráter sobrenatural.
Também não existe uma versão única sobre seu destino. Algumas narrativas afirmam que ela desapareceu sem deixar vestígios, enquanto outras relatam que seu corpo foi encontrado na Baía de Guanabara. A ausência de um desfecho definido favoreceu o surgimento da crença de que seu espírito continuaria assombrando o Arco do Teles, onde ainda seria visto ou ouvido durante a noite.
Registros históricos e formação da lenda
Pesquisas sobre o sensacionalismo, a criminalidade e a prostituição no Rio de Janeiro do século XIX identificaram referências à personagem em jornais publicados em 1857 e 1889. O registro mais conhecido é o folhetim Historia da Onça, publicado em 26 de janeiro de 1889 no Diario do Commercio e atribuído a Leo Junius. Nele, Bárbara dos Prazeres já aparece associada ao Arco do Teles, ao apelido Onça e às histórias de banhos de sangue. Essas publicações demonstram que a lenda já circulava no século XIX, mas misturam memória urbana, literatura de mistério e sensacionalismo. Seu principal valor está em registrar a difusão da tradição, e não em comprovar os acontecimentos narrados.
Estudos históricos interpretam a personagem como resultado da combinação entre possíveis lembranças de uma mulher real, tradição oral, literatura popular e preconceitos sociais da época, que frequentemente associavam mulheres marginalizadas à prostituição, à doença, à violência e à feitiçaria. Apesar do apelido de bruxa, não há registros que relacionem Bárbara a práticas religiosas ou tradições mágicas específicas. Sua suposta bruxaria restringe-se aos elementos presentes na própria lenda.
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| O Arco do Teles nos dias atuais |
fontes:
- DIÁRIO DO COMMERCIO. Mystérios do Rio de Janeiro: historia da onça. Rio de Janeiro, n. 54, p. 1, 26 jan. 1889. Disponível em: <https://hemeroteca-pdf.bn.gov.br/248070/per248070_1889_00054.pdf>;
- ENGEL, Magali Gouveia. Os delírios da razão: médicos, loucos e hospícios — Rio de Janeiro, 1830–1930. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2001. Disponível em: <https://books.scielo.org/id/7htrv>;
- FORNI, Luísa da Silva. O fascínio pelo sangue: um caso de sensacionalismo, crime e prostituição no Rio de Janeiro oitocentista. In: ENCONTRO REGIONAL DE HISTÓRIA DA ANPUH-RIO, 21., 2024, Rio de Janeiro. Anais [...]. Rio de Janeiro: ANPUH-Rio, 2024. Disponível em: <https://www.encontro2024.rj.anpuh.org/resources/anais/15/anpuh-rjerh2024/1721416569_ARQUIVO_d171267526116c49db7311c9751ea60c.pdf>;
- INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Acervo Digital: Arco do Teles/Beco do Comércio. [S. l.]: IPHAN, [20--?]. Disponível em: <https://acervodigital.iphan.gov.br/xmlui/discover?filter=Morros+da+Cidade+do+Rio+de+Janeiro&filter_0=Morros+do+Distrito+Federal&filter_1=Tombamento&filter_relational_operator=equals&filter_relational_operator_0=equals&filter_relational_operator_1=equals&filtertype=titleAlternative&filtertype_0=title&filtertype_1=subject&query=faculdade+de+direito+do+recife>;
- SAMPAIO, Daniel. A história de Bárbara dos Prazeres, a ‘Bruxa do Arco do Teles’. In: Veja Rio: Coluna Daniel Sampaio. Rio de Janeiro, 31 out. 2020. Disponível em: <https://vejario.abril.com.br/coluna/daniel-sampaio/bruxa-arco-do-teles/>.






























