13 de outubro de 2026

Máscara dos Oito Deuses do Trovão (Hachiraijin-men)

۞ ADM Sleipnir

A Máscara dos Oito Deuses do Trovão (japonês 八雷神面, Hachiraijin-men) é uma máscara religiosa preservada pelo templo Gangō-ji da seita Kegon, situado no local da antiga torre do templo, em Nara, Japão. A peça é datada entre os séculos XVI e XVII, período correspondente ao final do período Muromachi e ao início do período Edo, e possui cerca de 50 centímetros de altura.

A tradição associada à máscara está relacionada à figura lendária de Dōjō Hōshi, conhecida principalmente por meio do Nihon Ryōiki, coletânea japonesa de narrativas budistas compilada pelo monge Kyōkai por volta de 822. O episódio referente ao personagem aparece no terceiro relato do primeiro volume da obra.

Dōjō Hōshi e o demônio do Gangō-ji

Segundo o Nihon Ryōiki, durante o reinado do imperador Bidatsu, um agricultor da província de Owari encontrou uma manifestação do trovão e preparou-se para golpeá-la. A entidade pediu para ser poupada e prometeu, em troca, que o homem teria um filho dotado de força extraordinária. 

Dōjō Hōshi enfrentando a manifestação do trovão

Segundo o relato, posteriormente nasceu um menino com uma serpente enrolada duas vezes em torno da cabeça. Desde jovem, ele demonstrava força física excepcional. Mais tarde, tornou-se um dōji, termo usado para designar um jovem servidor ou acólito do Gangō-ji. Quando um ser demoníaco passou a atacar pessoas nas proximidades do campanário do templo, o jovem decidiu enfrentá-lo. Durante a luta, agarrou o ser pelos cabelos e tentou dominá-lo. 

Dōjō Hōshi agarrando o demônio pelos cabelos

Após o confronto, o demônio conseguiu fugir, deixando para trás os cabelos que haviam sido arrancados. Em episódios posteriores da narrativa, o jovem continuou demonstrando força extraordinária. Mais tarde recebeu ordenação religiosa e passou a ser conhecido como Dōjō Hōshi. O Nihon Ryōiki não menciona a máscara atualmente preservada nem afirma explicitamente que Dōjō Hōshi tenha assumido durante o combate a aparência representada nela. A associação entre o personagem e a Máscara dos Oito Deuses do Trovão desenvolveu-se posteriormente na tradição religiosa do Gangō-ji.

Formação da tradição de Hachiraijin

Ao longo dos séculos, Dōjō Hōshi passou a ser associado ao poder do trovão e à capacidade de derrotar seres considerados maléficos. Na tradição posterior do Gangō-ji, sua figura foi divinizada sob designações como Hachiraijin (八雷神), lido localmente como Yaoi-kazuchi-no-kami, e Gangōshin (元興神). Essa tradição não deve ser confundida diretamente com os oito deuses do trovão mencionados no Kojiki, uma das mais antigas compilações mitológicas do Japão. Nessa obra, os Hachiraijin são oito divindades que aparecem no episódio de Izanami no mundo subterrâneo de Yomi e possuem identidades próprias.

Em tradições posteriores do Gangō-ji, a Máscara dos Oito Deuses do Trovão passou a representar a manifestação sobrenatural associada ao poder de Dōjō Hōshi e à sua vitória sobre o demônio do campanário.

Características da máscara

A máscara possui uma estrutura incomum, formada por elementos tradicionalmente interpretados como oito faces ou manifestações. Além do grande rosto principal, a composição apresenta uma pequena figura de aspecto demoníaco na parte superior, um dragão, duas faces laterais e três faces ocultas. Estas últimas tornam-se visíveis quando a parte superior da máscara é removida. A interpretação desses elementos como um conjunto de oito manifestações faz parte da tradição iconográfica e religiosa associada ao objeto.

Culto protetor e talismãs

Durante o período Edo, a máscara tornou-se objeto de culto relacionado à proteção contra calamidades. Segundo a tradição preservada pelo Gangō-ji, atribuía-se à sua veneração a capacidade de afastar epidemias e infortúnios, proteger contra raios e incêndios e repelir espíritos e outras entidades consideradas maléficas. Nesse contexto foi produzido o Hachiraijinmen Ryaku Engi, texto destinado a explicar a origem da máscara e os poderes protetores que lhe eram atribuídos. Também foram confeccionadas matrizes de madeira destinadas à impressão de talismãs com sua imagem. Duas dessas matrizes do período Edo, uma maior e outra menor, permanecem preservadas no templo.

Segundo a tradição do Gangō-ji, o monge Mizuno Keishin, envolvido na recuperação do templo durante os períodos Meiji e Taishō, retomou posteriormente a distribuição desses talismãs utilizando antigas matrizes. No século XIX, a máscara também foi utilizada em cerimônias relacionadas a pedidos de chuva. Registros preservados pelo templo indicam que comunidades rurais da região de Nara solicitaram seu empréstimo para essas práticas. O magistrado Kawaji Toshiakira também registrou a existência da máscara durante uma visita, descrevendo-a como guardada em um zushi, pequeno armário, nicho ou relicário destinado à preservação de imagens e objetos religiosos.

Registros históricos

A máscara aparece em registros literários do período Edo. A obra Nanpō Yūgen, associada ao escritor Ōta Nanpo e compilada por Bunpōtei, contém uma seção dedicada à chamada “máscara demoníaca do Gangō-ji”, acompanhada de ilustração. Esse registro mostra que a máscara já era conhecida e descrita em obras do período Edo.

Incêndios e preservação

O antigo complexo do Gangō-ji sofreu diversas perdas ao longo de sua história. Em 1451, durante uma revolta, um incêndio atingiu o templo e destruiu o Kondō, principal salão de culto, o Zenjō-in e outras estruturas. Em 1859, outro grande incêndio destruiu a pagoda de cinco andares e o Kannon-dō, salão dedicado ao bodisatva Kannon. Uma imagem de Kannon de onze faces venerada no edifício foi perdida.

Segundo a tradição histórica preservada pelo atual Gangō-ji Kegon, a imagem de Yakushi Nyorai, o Buda da Medicina, e a Máscara dos Oito Deuses do Trovão foram retiradas do local e sobreviveram ao desastre.

Museu Nacional de Nara e retorno ao templo

Em 1950, a máscara foi depositada no Museu Nacional de Nara. Em 2025, integrou a exposição comemorativa dos 130 anos do museu, Chō Kokuhō — Inori no Kagayaki, sendo registrada no catálogo como uma obra pertencente ao Gangō-ji e produzida entre os séculos XVI e XVII. Após intervenções realizadas no templo para melhorar as condições de preservação da peça, a máscara retornou ao Gangō-ji Kegon em 24 de março de 2026, aproximadamente 76 anos depois de ter sido depositada no Museu Nacional de Nara. A peça foi novamente instalada e venerada no salão principal, onde passou a ser apresentada aos visitantes nos períodos de abertura do templo.

No mesmo contexto, foi produzida uma nova matriz destinada à impressão de uma versão contemporânea do talismã da Máscara dos Oito Deuses do Trovão. Conhecida como versão Reiwa, em referência à atual era imperial japonesa, a iniciativa deu continuidade à tradição dos antigos talismãs produzidos por meio de matrizes de madeira.


fontes:

✦ Apoie o Portal dos Mitos ✦

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

12 de outubro de 2026

Aromo-rubi

۞ ADM Sleipnir


Os Aromo-rubi são seres mitológicos associados ao céu, às nuvens e ao trovão nas tradições dos Kiwai, povo da região da Papua-Nova Guiné. Uma descrição dessas figuras aparece na coletânea "Contos e mitos dos papuas Kiwai" (russo: Сказки и мифы папуасов киваи), publicada em russo em 1977. Segundo a descrição apresentada na coletânea, os Aromo-rubi são seres antropomórficos de pequena estatura e membros grandes que habitam o firmamento. Eles lançam cordas do céu e descem por elas até a terra. Seu modo de vida é semelhante ao dos seres humanos, incluindo atividades como a caça e a pesca.

Outras explicações para o trovão

Na coletânea russa, os Aromo-rubi são associados ao trovão. Segundo uma das explicações registradas, o fenômeno ocorre quando esses seres derrubam árvores no céu. Eles também são relacionados às nuvens, que conduziriam pelo firmamento com o auxílio de uma vara comprida. A mesma obra apresenta outras explicações tradicionais para o trovão, incluindo golpes de machados de pedra e ações atribuídas a Bigama e Vauri, dois ancestrais míticos. 

Uma referência aos Aromo aparece em The Folk-Tales of the Kiwai Papuans, coletânea publicada por Gunnar Landtman em 1917. Em uma das narrativas, Ganümi, figura associada à Lua, e sua mãe chegam à morada celeste dos Aromo. Lá, são recebidos por Güruru, associado ao trovão, e por Pepéa e Maséruo, associados a dois tipos de relâmpago. Landtman, porém, utiliza o nome Aromo, não Aromo-rubi. Embora os relatos estejam relacionados a seres celestes da mitologia Kiwai, as fontes consultadas não confirmam que os dois nomes designem exatamente as mesmas figuras.


fontes:

  • LANDTMAN, Gunnar. The Folk-Tales of the Kiwai Papuans. Helsingfors: Finnish Society of Sciences and Letters, 1917. Disponível em: <https://archive.org/details/actasocietatissc47suom/page/488/mode/2up>;
  • СКАЗКИ И МИФЫ ПАПУАСОВ КИВАИ [Contos e mitos dos papuas Kiwai]. Moscou: Nauka, 1977. p. 17;
  • Аромо-руби. Bestiary.us. Disponível em: <https://www.bestiary.us/aromo-rubi>.

✦ Apoie o Portal dos Mitos ✦

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

9 de outubro de 2026

Obscurium: terror e folclore BR em um promissor roguelike

۞ ADM Sleipnir


O folclore brasileiro reúne algumas das criaturas mais misteriosas e assustadoras da tradição popular. Entre florestas, rios e antigas histórias transmitidas de geração em geração, encontram-se entidades que continuam despertando medo, curiosidade e fascínio. É nesse universo que nasce Obscurium, um jogo independente desenvolvido pelo estúdio brasileiro Wild Pepper Games, que combina elementos de terror sobrenatural, estratégia e batalhas com cartas para apresentar uma releitura sombria de seres lendários do Brasil.

Com lançamento previsto para 2027, o projeto busca transformar histórias tradicionais em uma experiência interativa, explorando personagens do folclore nacional que raramente recebem destaque nos videogames


Uma jornada entre a morte e o sobrenatural

Em Obscurium, a morte é apenas o começo da aventura. Depois de morrer, o protagonista encontra uma entidade misteriosa conhecida como Patrono, que lhe oferece a chance de voltar à vida. Para isso, porém, ele precisa cumprir um pacto: caçar criaturas sobrenaturais que escaparam para o mundo dos vivos e aprisioná-las em um poderoso grimório.

A partir daí, o jogador percorre uma versão sombria do Brasil, enfrentando seres lendários e descobrindo mais sobre o acordo que tornou sua jornada possível. A premissa combina elementos de fantasia sombria e terror, usando o sobrenatural como ponto de partida para os desafios da aventura.


Criaturas do folclore brasileiro

Um dos aspectos mais interessantes de Obscurium é a escolha das criaturas que fazem parte de seu universo. O jogo recorre a personagens presentes em narrativas regionais brasileiras e adapta suas características para a proposta de terror e estratégia.

Capelobo: o predador das florestas

O Capelobo é uma criatura do folclore brasileiro associada principalmente à região Norte. Suas descrições variam entre as versões da lenda, mas frequentemente apresentam um ser monstruoso com características humanas e animais. Em alguns relatos, ele possui traços de tamanduá e é descrito como uma criatura violenta.

Em Obscurium, o Capelobo aparece como um adversário sobrenatural, incorporando ao jogo uma figura pouco explorada em produções de grande alcance.

Pisadeira: o terror durante o sono

A Pisadeira é uma figura do folclore brasileiro conhecida por atormentar pessoas enquanto dormem. Em relatos populares, ela costuma aparecer como uma presença que pressiona o peito de quem está deitado, provocando a sensação de sufocamento e a incapacidade de se movimentar. Essas descrições lembram os sintomas da paralisia do sono, fenômeno em que a pessoa desperta ou adormece sem conseguir mover o corpo por alguns instantes. Essa associação ajuda a explicar por que a Pisadeira é uma figura tão adequada a uma proposta de terror.

No jogo, a personagem recebe uma interpretação sombria, aproveitando o medo associado a essas experiências noturnas.

Caboclo d’Água: o perigo dos rios

Associado principalmente às tradições ribeirinhas do Rio São Francisco, o Caboclo d’Água é um ser lendário que habitaria as profundezas dos rios. Segundo algumas narrativas, ele ameaça pescadores, assusta moradores e pode provocar acidentes com embarcações. As carrancas colocadas nas proas de barcos tradicionais também são associadas, em determinadas interpretações populares, à proteção contra seres perigosos das águas.

Em Obscurium, o Caboclo d’Água integra o conjunto de adversários inspirados no folclore brasileiro, levando para o jogo uma lenda ligada à vida e às crenças das comunidades ribeirinhas.

Estratégia, cartas e grimórios


Além de suas referências folclóricas, Obscurium aposta em um sistema de combate estratégico baseado na construção de baralhos, conhecido como deckbuilding. Durante as batalhas, o jogador utiliza cartas para invocar espíritos, realizar sacrifícios e executar ações em um tabuleiro ritualístico dividido em quatro posições. O planejamento é parte importante dos confrontos, já que as criaturas possuem características próprias e podem influenciar as estratégias disponíveis. Não basta, portanto, reunir cartas poderosas: é preciso considerar como utilizá-las durante cada batalha.

O jogo também incorpora elementos de roguelike. Nesse modelo, uma derrota encerra a tentativa em andamento, levando o jogador a recomeçar a jornada. Parte do conhecimento registrado no grimório, entretanto, permanece entre as tentativas, permitindo experimentar novas estratégias nas partidas seguintes.

A direção visual segue a proposta sombria da aventura, com ilustrações inspiradas nas xilogravuras brasileiras, grimórios antigos e símbolos ritualísticos. Essa combinação ajuda a estabelecer uma identidade visual ligada tanto ao horror quanto ao imaginário popular que serve de inspiração para o jogo.


Uma nova abordagem para o folclore brasileiro

O uso de lendas brasileiras em videogames não é uma novidade, mas Obscurium aposta em uma combinação particularmente interessante: reunir essas referências a um universo de terror e a um sistema de combate estratégico. A escolha de criaturas como o Capelobo, a Pisadeira e o Caboclo d’Água também merece destaque por trazer personagens que nem sempre recebem a mesma atenção dedicada às figuras mais populares. Para quem conhece essas lendas, o jogo oferece a oportunidade de reencontrá-las em outro contexto. Para quem ainda não as conhece, pode servir como ponto de partida para descobrir histórias de diferentes regiões do país.

É importante lembrar, porém, que o jogo apresenta uma interpretação ficcional dessas tradições. Aparências, poderes e comportamentos podem ser modificados para atender à narrativa e às mecânicas, de modo que nem todos os elementos vistos na tela correspondem necessariamente às versões tradicionais das lendas.

Quando Obscurium será lançado?

De acordo com a página oficial do jogo na Steam, Obscurium tem lançamento previsto para 2027. Até o momento, não há uma data específica confirmada.

O título está sendo desenvolvido para computadores e tem suporte anunciado para português brasileiro e inglês. Quem quiser acompanhar as novidades pode visitar as páginas oficiais do projeto.

Assita ao Trailer Teaser do jogo:




Página oficial do jogo:

Notícias e atualizações da desenvolvedora:

E você? Qual criatura do folclore brasileiro gostaria de encontrar em Obscurium?


✦ Apoie o Portal dos Mitos ✦

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

7 de outubro de 2026

Wuwuru

۞ ADM Sleipnir


Wuwuru (também registrado como Wüwürü ou Würürü) é um ser associado ao buritizal na tradição dos Ticuna, povo indígena do Alto Solimões. A principal fonte publicada sobre o personagem é O Livro das Árvores, produzido pela Organização Geral dos Professores Ticuna Bilíngues (OGPTB).

Na obra, Wuwuru é apresentado como um bicho que vive no meio do buritizal e é o dono do buriti. Ele passa o tempo limpando o local e recolhendo os frutos. Sua aparência é descrita com dentes fortes, cabeça parcialmente sem pelos, unhas grandes e esporões nos pés. Segundo a narrativa, os mais velhos dizem que Wuwuru pode matar pessoas fazendo cócegas nelas e depois devorá-las.

Wuwuru e o caçador

Uma narrativa presente no Livro das Árvores conta o encontro entre Wuwuru e um caçador que queria conhecer o dono do buritizal. O homem subiu em um buritizeiro e esperou. Quando Wuwuru apareceu, começou a atirar caroços de buriti contra sua cabeça. Inicialmente, Wuwuru pensou que os objetos fossem marianitas, aves mencionadas na narrativa.

Ao perceber o caçador, Wuwuru obrigou-o a descer e começou a fazer-lhe cócegas. O homem, temendo ser morto, disse que seu irmão estava chegando. Quando o irmão apareceu, os dois homens lutaram contra Wuwuru. Depois de se cansarem, pediram que ele não os matasse e o chamaram de “pai”. Wuwuru então permitiu que permanecessem no buritizal. Ele explicou que era o dono daquele lugar e disse que, quando envelhecesse, os dois cuidariam dos buritis. Também afirmou que eles receberiam seu espírito e se transformariam nele. Os dois permaneceram com Wuwuru até sua morte.

Outros registros

Existe um registro publicado em 1994 pela Folha de São Paulo no qual o nome aparece como Würürü. Nesse registro, ele é chamado de “pai dos buritis” e descrito como um ser invisível que pode aparecer para determinadas pessoas. A matéria também afirma que quem conseguisse arrancar um fio de seu cabelo teria sorte para sempre.

Representação em máscara

Uma publicação do Museu Internacional da Máscara, em Mons, Bélgica, registra uma máscara identificada como representação de Würürü, proveniente do Alto Solimões e datada do século XX. A publicação apresenta a máscara juntamente com a narrativa do caçador e sua relação com os buritis.


fontes:

✦ Apoie o Portal dos Mitos ✦

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

6 de outubro de 2026

Ganiagwaihegowa

۞ ADM Sleipnir

Ganiagwaihegowa é um monstro das tradições narrativas dos seneca, povo indígena integrante da Confederação Haudenosaunee. Ele descrito como um grande urso dotado de poderes sobrenaturais e extraordinária resistência a ataques. Em algumas narrativas, apresenta comportamento antropófago, enquanto outras atribuem a ele o hábito de devorar outros ursos. Os relatos sobre Ganiagwaihegowa foram registrados por Jeremiah Curtin (1835–1906), folclorista, linguista e tradutor norte-americano que trabalhou como pesquisador de campo do Bureau of American Ethnology, e posteriormente organizados e editados por J. N. B. Hewitt (1859–1937), linguista e etnógrafo especializado nas línguas e tradições dos povos iroqueses. 

De acordo com a narrativa registrada por Jeremiah, um guerreiro senaca desaparece e seus companheiros encontram grandes pegadas que conduzem a uma caverna. Quando a criatura sai de seu esconderijo, os homens atiram flechas contra ela, mas os projéteis não conseguem feri-la. A narrativa atribui essa resistência ao seu orenda, termo usado nas tradições iroquesas para designar um poder ou força sobrenatural.

Apesar de sua resistência, Ganiagwaihegowa possui uma vulnerabilidade específica: as solas das patas dianteiras. Segundo a narrativa, sua vida estaria localizada nessa região, tornando-a o único ponto do corpo que poderia ser atingido. Em outro relato, os personagens Hadentheni e Hanigongendatha utilizam esse conhecimento para preparar uma armadilha contra o monstro. Durante sua jornada, Hadentheni e Hanigongendatha recebem instruções de um ser chamado Gadjiqsa sobre como derrotar Ganiagwaihegowa. Eles constroem duas efígies humanas, feitas de madeira de tília, e as colocam diante de uma cabana. As figuras são preparadas de modo que pareçam pessoas armadas com arcos e flechas. Os dois também derrubam árvores no caminho para criar obstáculos.

Ganiagwaihegowa se aproxima das figuras e avança contra elas. Ao passar pelos obstáculos, ergue as patas dianteiras, permitindo que os dois homens atinjam suas solas com flechas. Depois de ser atingido, o monstro cai morto. Os dois então destroem seu corpo pelo fogo. Segundo a narrativa, era necessário que os restos e os ossos fossem completamente queimados, pois a permanência de fragmentos poderia permitir que Ganiagwaihegowa voltasse à vida. A pele também deveria ser completamente defumada para impedir seu retorno.


fontes:
  • CURTIN, Jeremiah; HEWITT, J. N. B. Seneca fiction, legends, and myths. In: Thirty-second annual report of the Bureau of American Ethnology to the Secretary of the Smithsonian Institution, 1910–1911. Washington, D.C.: Government Printing Office, 1918. p. 37–813. Disponível em: <https://repository.si.edu/items/3476acaa-b31c-48a5-8b9e-1f236ab2a770>;
  • ROSE, Carol. Giants, monsters, and dragons: an encyclopedia of folklore, legend, and myth. Santa Barbara: ABC-CLIO, 2000. 428 p. ISBN 0-87436-988-6.
✦ Apoie o Portal dos Mitos ✦

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

5 de outubro de 2026

Kushikiroku

۞ ADM Sleipnir

O Kushikiroku (ou Kushiki-roku; 九色鹿, “Cervo das Nove Cores”) é uma figura presente em narrativas budistas transmitidas da Índia para a China e posteriormente para o Japão. O personagem aparece em histórias relacionadas aos Jātakas, conjunto de relatos sobre as vidas anteriores de Siddhārtha Gautama antes de alcançar a iluminação e tornar-se o Buda histórico.

A narrativa encontra-se registrada em textos budistas como o Fo shuo Jiuse lu jing  (佛説九色鹿経, "Sutra do Cervo das Nove Cores") e o Liudu jijing (六度集経, “Coleção das Seis Perfeições”). Também foi representada nos murais das Grutas de Mogao, em Dunhuang, na China. No Japão, versões da história aparecem em coleções medievais como o Konjaku Monogatari-shū (今昔物語集, “Coletânea de Histórias de Agora e de Antigamente”) e o Uji Shūi Monogatari (宇治拾遺物語, “Coletânea de Histórias Recolhidas em Uji”).

Narrativa

Uma das versões japonesas mais conhecidas encontra-se no volume 5 do Konjaku Monogatari-shū, em um relato cujo título pode ser traduzido como “História do cervo de nove cores que vivia nas montanhas, foi até a margem de um rio e salvou um homem”. Segundo essa versão, em tempos antigos vivia nas montanhas da Índia um cervo extraordinário, cuja pelagem apresentava nove cores e cujos chifres eram brancos como a neve. Próximo ao local corria um rio, onde também vivia um corvo que mantinha amizade com o cervo havia muitos anos.

Certo dia, um homem caiu no rio e começou a ser arrastado pela correnteza. Prestes a se afogar, clamou pela ajuda das divindades. Ao ouvir seus gritos, o cervo entrou na água, permitiu que o homem subisse em suas costas e o levou em segurança até a margem. Agradecido, o homem perguntou como poderia recompensá-lo. O cervo pediu apenas que jamais revelasse sua existência nem o lugar onde vivia, explicando que sua pelagem e seus chifres excepcionais certamente despertariam a cobiça dos homens e poderiam levá-lo à morte. O homem prometeu guardar o segredo e retornou ao seu povoado.

Arte de liziye

Algum tempo depois, a rainha daquele reino sonhou com um cervo de nove cores e chifres brancos como a neve. Fascinada pelo animal, passou a desejar sua pele e seus chifres. Seu desejo tornou-se tão intenso que ela adoeceu e pediu ao rei que ordenasse sua captura. O monarca anunciou então uma grande recompensa em ouro, prata e outros tesouros para quem encontrasse o cervo. Ao tomar conhecimento da promessa, o homem anteriormente salvo pelo animal cedeu à cobiça e revelou ao rei seu esconderijo. O rei reuniu numerosos soldados e partiu para a montanha, tendo o homem como guia.

Ao perceber a aproximação das tropas, o corvo voou até a caverna onde o cervo dormia e tentou alertá-lo. Quando o animal despertou, porém, o vale já estava cercado e suas rotas de fuga haviam sido bloqueadas. Em vez de fugir, o cervo dirigiu-se ao palanquim do rei. Os soldados prepararam-se para abatê-lo, mas o monarca, impressionado com seu comportamento, ordenou que ninguém disparasse.

Diante do rei, o cervo perguntou como seu esconderijo havia sido descoberto. Ao saber que o homem que acompanhava a comitiva fora responsável por revelar sua localização, reconheceu nele aquele que havia salvo do afogamento. O cervo então contou ao rei que havia arriscado a própria vida para salvar aquele homem e, em troca, pedira apenas que seu esconderijo permanecesse em segredo. Segundo a narrativa, uma marca havia surgido no rosto do traidor, interpretada como consequência de sua quebra de promessa. Confrontado pelo cervo, o homem permaneceu sem resposta.

Comovido pelo relato, o rei decidiu poupar o animal e retirou suas tropas. Em seguida, promulgou uma ordem proibindo a matança de cervos em todo o reino e estabelecendo severas punições para quem a desobedecesse. A narrativa afirma que, após esses acontecimentos, o reino passou a desfrutar de chuvas regulares, ausência de ventos destrutivos e epidemias, colheitas abundantes e prosperidade.

O Konjaku Monogatari-shū encerra a história ressaltando o contraste entre a ingratidão humana e a compaixão demonstrada pelo animal, afirmando, em essência, que entre os homens pode haver quem esqueça os benefícios recebidos, enquanto entre os animais pode haver quem salve seres humanos, e que tais acontecimentos existem tanto no passado quanto no presente.

Arte de Leo Li

Identificação dos personagens

Como ocorre em numerosos Jātakas, os personagens da narrativa são associados a figuras que posteriormente aparecem na tradição relativa à vida de Gautama Buda:
  • o Cervo das Nove Cores é identificado como uma existência anterior de Gautama Buda;
  • o corvo, como uma existência anterior de Ānanda, um de seus principais discípulos;
  • a rainha, como Sundarī, uma mulher associada a episódios da tradição sobre a vida de Buda;
  • o homem salvo do afogamento, como uma existência anterior de Devadatta, tradicionalmente apresentado em textos budistas como adversário do Buda.
Essas identificações inserem o episódio no contexto das relações cármicas que, segundo a tradição budista, ligariam os personagens de vidas anteriores à existência histórica de Gautama.

Variantes e versões

A aparência do cervo varia conforme a fonte. Embora seja geralmente descrito com uma pelagem de nove cores e chifres brancos como a neve, algumas versões lhe atribuem coloração dourada. Narrativas japonesas relacionadas, incluindo variantes preservadas no Uji Shūi Monogatari, também mencionam cervos de cinco cores, além de tradições populares envolvendo um “grande cervo de cores extraordinárias” ou grupos de “cinco cervos”.

O Sutra do Cervo das Nove Cores apresenta diferenças em relação à versão do Konjaku Monogatari-shū. Entre elas está uma cena em que o rei repreende diretamente o homem que revelou o esconderijo do cervo. No encerramento, milhares de outros cervos reúnem-se em torno do Cervo das Nove Cores e passam a acompanhá-lo.

Nessa tradição, o animal desempenha o papel de bodisatva, representando uma existência anterior do Buda dedicada à prática da compaixão e das virtudes conducentes à iluminação.

Representações em Dunhuang

A narrativa tornou-se particularmente conhecida por sua representação nas Grutas de Mogao, em Dunhuang, importante complexo budista situado na atual província chinesa de Gansu. Uma das pinturas murais apresenta diferentes episódios da história em uma composição contínua, incluindo o salvamento do homem, sua traição e o encontro do cervo com o rei. O mural constitui um exemplo da circulação e da transmissão visual de narrativas budistas pelas regiões conectadas às rotas que posteriormente seriam conhecidas coletivamente como Rota da Seda.

fontes:

✦ Apoie o Portal dos Mitos ✦

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

28 de setembro de 2026

Gnowee

۞ ADM Sleipnir

Gnowee é uma figura solar feminina registrada entre povos indígenas do oeste do atual estado de Victoria, na Austrália. Seu nome está associado ao Sol e aparece principalmente em tradições dos Boorong, grupo ligado à nação Wergaia, além de uma versão atribuída aos Wotjobaluk.

As fontes preservam duas histórias principais sobre Gnowee. Entre os Boorong, ela está ligada à origem do Sol por meio de um ovo de emu lançado ao céu. Em outra tradição, aparece como a Mulher-Sol que percorre o firmamento enquanto procura o filho desaparecido.

Gnowee entre os Boorong

Os Boorong viviam na região próxima ao lago Tyrrell, no noroeste de Victoria. Parte de seus conhecimentos sobre o céu foi registrada no século XIX por William Edward Stanbridge. 

Nos registros de Stanbridge, Gnowee corresponde ao Sol. Segundo a tradição Boorong, o mundo encontrava-se inicialmente na escuridão. Pupperimbul, um dos antigos seres mencionados nesses relatos, preparou um ovo de emu e o lançou ao céu. O ovo era Gnowee. Ao alcançar o alto, o ovo deu origem ao Sol e passou a iluminar a Terra. 

Gnowee e o filho perdido

Outra tradição, atribuída aos Wotjobaluk de Victoria, apresenta Gnowee de maneira diferente. Nessa versão, ela era uma mulher que vivia quando o mundo ainda era escuro. Depois que seu filho desapareceu, Gnowee iniciou uma busca para encontrá-lo. Carregando uma tocha feita de casca de árvore, Gnowee passou a percorrer o mundo à procura da criança. Sua luz está associada ao Sol, e Gnowee aparece como a Mulher-Sol, cujo percurso pelo céu está ligado à busca pelo filho desaparecido.

Gnowee e os astros

Na tradição Boorong, Gnowee fazia parte de um conjunto mais amplo de personagens associados aos corpos celestes. Uma dessas figuras é Chargee Gnowee, identificada com o planeta Vênus e descrita como irmã de Gnowee. Apesar da semelhança entre os nomes, Chargee Gnowee não é outra denominação do Sol.

Os registros também relacionam Chargee Gnowee a Ginabong-bearp, identificado com Júpiter. Essas relações faziam parte do conhecimento astronômico Boorong, no qual corpos celestes podiam ser associados a personagens ligados por relações de parentesco.

Arte de @echoingmultiverse

fontes:

✦ Apoie o Portal dos Mitos ✦

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

25 de setembro de 2026

A Jornada ao Oeste: Capítulo LXXV

۞ ADM Sleipnir


CAPÍTULO LXXV:

O MACACO DA MENTE PERFURA O JARRO DO YIN E DO YANG. O REI DEMÔNIO RETORNA AO VERDADEIRO TAO.

Dizíamos que o Grande Sábio havia entrado corajosamente na caverna. À medida que avançava, deparava-se com montes de esqueletos que pareciam verdadeiras colinas e com tantos ossos que formavam uma floresta. Cabeças e cabelos humanos haviam sido pisoteados até se transformarem numa espécie de feltro; pele e carne apodrecidas misturavam-se à lama e à poeira. Tendões humanos estavam enrolados nos troncos das árvores, secos e reluzentes como prata. Por toda parte havia montanhas de cadáveres e mares de sangue, dos quais se desprendia um mau cheiro insuportável. No lado oriental, os demônios menores arrancavam a carne de vítimas ainda vivas; no lado ocidental, outros cozinhavam e fritavam carne humana fresca. Qualquer mortal com menos coragem que o Belo Rei dos Macacos teria dado meia-volta imediatamente. Ele, porém, continuou avançando, como se todo aquele horror não fosse capaz de fazê-lo recuar.
✦ Apoie o Portal dos Mitos ✦

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.