28 de outubro de 2026

Velha Barrageira

۞ ADM Sleipnir

A Velha Barrageira é uma personagem de uma lenda urbana brasileira associada ao município de Ilha Solteira, no estado de São Paulo. Segundo a tradição popular, trata-se do espírito de uma mulher idosa que aparece em estradas da região, sobretudo durante a noite, e desaparece misteriosamente após receber carona de motoristas. Sua história está ligada à construção da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, empreendimento iniciado na década de 1960 que provocou profundas transformações na paisagem e na ocupação do território.

A lenda

Uma das versões mais conhecidas conta que a Velha Barrageira teria sido uma mulher idosa que vivia em uma propriedade rural situada nas terras destinadas à implantação da usina hidrelétrica. Com o avanço das obras, ela teria se recusado a abandonar o lugar onde havia passado grande parte da vida. Algumas narrativas afirmam que acabou sendo retirada de sua propriedade, enquanto outras sustentam que permaneceu no local e morreu afogada quando as águas do reservatório inundaram a região.

Desde então, segundo a tradição, seu espírito passou a vagar pelas estradas próximas a Ilha Solteira. Os relatos descrevem encontros com uma senhora de aparência humilde, geralmente vestida com roupas simples e, em determinadas versões, inteiramente de branco. Suas aparições ocorreriam principalmente em trechos pouco movimentados, onde costuma pedir carona a caminhoneiros e outros motoristas que viajam sozinhos.

O acontecimento mais característico da lenda ocorre durante o trajeto. Após entrar no veículo e permanecer algum tempo ao lado do motorista, a mulher desaparece repentinamente, sem abrir a porta ou deixar qualquer vestígio de sua presença. Em algumas narrativas, o desaparecimento acontece quando o veículo se aproxima dos acessos à cidade.

Origem e registros da tradição

A origem da lenda está associada ao período de construção da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira, no rio Paraná. Iniciada na década de 1960, a obra mobilizou um grande contingente de trabalhadores, conhecidos como barrageiros, e contribuiu diretamente para a formação do núcleo urbano que deu origem ao município. As mudanças provocadas pelo empreendimento, incluindo a ocupação de novas áreas e a transformação da paisagem, constituem o contexto histórico em que a narrativa se desenvolveu. Entretanto, não existem registros independentes que permitam identificar a mulher descrita na lenda ou comprovar as circunstâncias atribuídas à sua morte.

Um dos relatos escritos foi publicado em 2011 pelo escritor Oldack Mendes, no portal Recanto das Letras. O autor descreve uma experiência que afirma ter vivido em junho de 1970, quando trabalhava na região durante a construção da usina. Segundo seu testemunho, uma figura feminina idosa teria aparecido misteriosamente em seu veículo e desaparecido pouco depois.

Outras versões da lenda

Como ocorre com diversas narrativas transmitidas oralmente, a história da Velha Barrageira apresenta variações que modificam aspectos de sua origem, aparência e comportamento. Em certos relatos, a personagem teria morrido durante a inundação das terras; em outros, seu desaparecimento estaria relacionado à retirada de moradores das áreas ocupadas pelas obras.

Uma narrativa de características semelhantes também foi divulgada em Manaus, no Amazonas, associada ao antigo Tropical Hotel, localizado na região da Ponta Negra, às margens do rio Negro. Segundo essa versão, uma mulher teria vivido no terreno onde o estabelecimento foi posteriormente construído. Após sua morte, seu espírito passaria a aparecer para hóspedes e funcionários, manifestando-se ocasionalmente com a aparência de uma mulher jovem. A história foi registrada em publicações populares, entre elas uma matéria divulgada em 2017 pelo portal No Amazonas é Assim.

Representações na cultura popular

A Velha Barrageira ultrapassou os limites da tradição oral e passou a integrar diferentes manifestações artísticas, especialmente na música, na literatura e no teatro. O compositor e escritor Hugo Brasarock, natural de Ilha Solteira, dedicou à personagem a canção Velha Barrageira, na qual a narrativa tradicional recebe elementos de fantasia e suspense. A composição apresenta uma interpretação mais ameaçadora da figura sobrenatural, atribuindo-lhe, entre outras características, a capacidade de hipnotizar suas vítimas.

No teatro, a personagem aparece entre as histórias incorporadas ao espetáculo Terra Abaixo, Rio Acima, da Cia. Cênica, de São José do Rio Preto. Concebida em 2016, a montagem aborda acontecimentos e memórias ligados à construção da usina, combinando referências históricas com relatos transmitidos pela população. O espetáculo integrou a programação do Circuito Sesc de Artes de 2019.

A lenda também inspirou o livro infantojuvenil A Lenda da Velha Barrageira, publicado pelo autor em 2021, pela Editora Autografia. A obra acompanha um grupo de sete garotos envolvidos na investigação do mistério, utilizando a história regional como ponto de partida para uma narrativa de aventura e suspense.


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27 de outubro de 2026

Jeokyeomgwi

۞ ADM Sleipnir

Jeokyeomgwi (적염귀; 赤髥鬼, “fantasma da barba vermelha”) é uma figura sobrenatural associada a uma narrativa atribuída ao Yongjae Chonghwa, compilação literária coreana escrita por Seong Hyeon (1439–1504), durante o início da dinastia Joseon. O relato relaciona a profanação de uma sepultura à intervenção sobrenatural e à punição dos responsáveis.

Segundo a história, um alto funcionário de sobrenome Kwon decidiu sepultar o pai em um túmulo já ocupado. O espírito associado à sepultura tentou impedi-lo, explicando que o local guardava os restos mortais de seu próprio pai e advertindo que a violação traria consequências. Kwon ignorou o aviso, mandou abrir o túmulo, retirou o caixão e descartou o corpo.

Na mesma noite, o geomante Lee, que havia indicado o local do sepultamento, sonhou com um homem de barba vermelha. A figura o responsabilizou pelo ocorrido e golpeou seu peito. Ao despertar, Lee sentiu uma dor intensa, começou a sangrar e morreu pouco depois. Posteriormente, Kwon também foi executado, e sua família foi arruinada. Segundo o relato, essas desgraças foram consequências da violação do túmulo.


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26 de outubro de 2026

As Filhas de Aegir

۞ ADM Sleipnir

Arte de YunaXD

As Filhas de Aegir (em nórdico antigo, Ægisdœtr) são nove figuras da mitologia nórdica, filhas de Aegir, associado ao mar, e de Rán, relacionada aos perigos marítimos. Associadas às ondas, elas aparecem em textos da tradição nórdica, especialmente na Edda em Prosa, de Snorri Sturluson.

Nomes e função poética

As nove filhas são chamadas Himinglæva, Dúfa, Blóðughadda, Hefring, Uðr, Hrönn, Bylgja, Dröfn e Kólga. Em uma lista alternativa registrada em Nafnaþulur, o nome Bára aparece no lugar de Dröfn.

Seus nomes estão relacionados a aspectos do mar e ao movimento das ondas. Blóðughadda pode ser traduzido como “cabelos ensanguentados”; Bylgja e Hrönn estão associados a ondas; Hefring sugere elevação ou movimento ascendente; e Uðr pode ser interpretado como “onda espumante”. Himinglæva recebeu a interpretação de “aquela através da qual se pode ver o céu”, enquanto Kólga é traduzido em algumas fontes como “a fria”. Os significados exatos, porém, variam conforme as interpretações linguísticas adotadas.

As filhas de Aegir também aparecem na poesia escáldica, na qual seus nomes são empregados como expressões poéticas relacionadas ao mar. Na Edda em Prosa, o ouro é associado poeticamente a Aegir, a Rán e às suas filhas, sendo descrito como o fogo, a luz ou o brilho dessas figuras.

Ægir, Rán e suas nove filhas preparam um enorme tonel de cerveja. Arte de uma tradução sueca da Edda Poética datada do século XIX.



 


Referências nas Eddas

Na seção Skáldskaparmál, da Edda em Prosa, são apresentados os nomes das nove filhas e exemplos de seu uso na poesia escáldica. A obra também explica expressões poéticas que relacionam o mar a Aegir e Rán, além de registrar a associação entre o ouro e o brilho das filhas do casal.

Na Edda Poética, o poema Helgakviða Hundingsbana I descreve uma travessia marítima enfrentada por Helgi durante uma tempestade. A passagem menciona as “irmãs de Kólga” e, em seguida, as filhas de Aegir, retratadas como uma ameaça às embarcações. Nesse contexto, as figuras estão associadas às ondas e aos perigos da navegação.

"As nove filhas de Aegir e Ran". Pintura de Hans Dahl (1849-1937)

Relação com as mães de Heimdall

Algumas interpretações propõem uma possível relação entre as nove filhas de Aegir e as nove mães de Heimdall, guardião dos deuses e da ponte Bifröst. A hipótese se baseia principalmente no número de figuras e em possíveis associações entre passagens da tradição eddica.

No entanto, as fontes medievais não afirmam explicitamente que as filhas de Aegir sejam as mães de Heimdall. Essa identificação permanece uma hipótese interpretativa, e não um fato estabelecido nos textos mitológicos.

Arte de @runar.hall

fontes:
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23 de outubro de 2026

Melu

۞ ADM Sleipnir

Melu (também registrado como Mele) é uma figura criadora presente nas tradições dos Blaan, povo indígena do sul da ilha de Mindanao, nas Filipinas. Também chamados de Bila-an ou Bilaan em fontes mais antigas, os Blaan vivem principalmente em regiões como South Cotabato, Sarangani e Davao.

Narrativas sobre Melu foram registradas por pesquisadores no início do século XX e apresentam diferentes versões sobre a origem da Terra, dos seres humanos e de outros seres espirituais. Uma das principais fontes é The Wild Tribes of Davao District, Mindanao, publicada em 1913 pelo antropólogo Fay-Cooper Cole. 

Melu e Tau Tana

Em uma das narrativas registradas, Melu é descrito como um ser de tamanho extraordinário que vivia sobre as nuvens. Seus dentes eram de ouro e sua pele era branca. Segundo o relato, Melu esfregava continuamente o próprio corpo e acumulava a matéria que dele se desprendia. Quando essa quantidade se tornou muito grande, utilizou-a para formar a Terra.

Depois de criar o mundo, decidiu produzir seres semelhantes a ele, mas menores. Enquanto moldava os primeiros humanos, surgiu Tau Tana, também registrado como Funtana ou Tau Dalom Tana, um ser que vivia debaixo da Terra. Tau Tana insistiu em participar da criação e ficou responsável pelos narizes. No entanto, colocou-os de cabeça para baixo.

Mais tarde, uma forte chuva caiu sobre a Terra. Como os narizes estavam invertidos, a água que escorria pela cabeça ameaçava entrar pelas narinas. Melu percebeu o problema e voltou para corrigir sua posição. As pessoas agradeceram por terem sido salvas e disseram que se sentiam sozinhas. Melu então pediu que guardassem cabelos e resíduos de pele de seus corpos, que seriam utilizados para formar outros seres humanos.

A variante dos quatro seres

Outra narrativa apresenta quatro seres existentes no princípio: Melu, Fiuweigh, Dwata e Saweigh. Eles viviam em uma pequena ilha onde não existiam árvores ou outras formas de vida, com exceção de um pássaro chamado Baswit. O pássaro foi enviado para explorar as águas e retornou trazendo terra e materiais vegetais. Melu utilizou a terra para formar o mundo e plantou as sementes trazidas por Baswit, dando origem à vegetação.

Os quatro seres decidiram então criar habitantes para o novo mundo. A primeira tentativa foi feita com cera, mas as figuras derreteram ao serem aproximadas do fogo. Em seguida, passaram a utilizar terra. Nesta versão, Melu e Fiuweigh participam da criação humana. Fiuweigh coloca os narizes de cabeça para baixo, apesar do aviso de Melu de que as pessoas poderiam se afogar daquela maneira. Quando Fiuweigh se afasta, Melu corrige rapidamente os narizes. Segundo a narrativa, a pressão de seus dedos sobre a argila ainda macia teria deixado a depressão existente entre o nariz e a testa humana. Os primeiros seres humanos são chamados Adnato e Andawi.

As fontes registram outras versões da criação Blaan. Em uma delas, Melu e Dwata criam Fiuweigh e Seweigh, que posteriormente participam da formação dos seres humanos. O pássaro Baswit também reaparece em algumas dessas narrativas, trazendo terra ou elementos vegetais utilizados na formação do mundo.
 
Melu nas crenças Blaan

Além das narrativas de criação, Fay-Cooper Cole descreveu Melu, ou Mele, como o mais poderoso entre determinados espíritos associados ao mundo natural nas comunidades que estudou. Sua ajuda era procurada especialmente em situações de calamidade ou em acontecimentos considerados importantes. Cole também menciona Dwata, registrada sob diferentes grafias, geralmente como companheira ou esposa de Melu e dotada de poder semelhante ao dele. Fiuweigh e Seweigh também aparecem como seres espirituais importantes, embora suas origens e funções variem entre as diferentes versões.

Em 1916, Mabel Cook Cole observou semelhanças entre alguns episódios Blaan e narrativas bíblicas e sugeriu uma possível influência externa. Essa interpretação, porém, permanece uma hipótese e não estabelece a origem dessas tradições.



fontes:
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21 de outubro de 2026

Kullervo

۞ ADM Sleipnir


Kullervo é um personagem da mitologia finlandesa e uma das figuras centrais do Kalevala, a epopeia nacional da Finlândia compilada por Elias Lönnrot no século XIX a partir de antigos cantos da tradição oral fino-careliana. Sua história ocupa os cantos 31 a 36 da obra e narra a vida de um homem marcado por tragédias sucessivas, desde a destruição de sua família ainda antes de seu nascimento até sua morte voluntária.

Entre todos os personagens do Kalevala, Kullervo é geralmente considerado o mais trágico. Sua trajetória é marcada pela violência, pela escravidão, pela vingança e pelo isolamento, temas que o distinguem de heróis como Väinämöinen e Ilmarinen. Por essa razão, tornou-se uma das figuras mais estudadas da literatura finlandesa e um dos personagens mais conhecidos do folclore dos povos báltico-fínicos.

Origem e tradição oral

A história de Kullervo é muito mais antiga que o Kalevala. Ela faz parte de um conjunto de cantos rúnicos preservados durante séculos pela tradição oral da Finlândia, da Carélia, da Íngria e da Estônia. Esses poemas eram transmitidos de geração em geração por cantores populares e constituíam uma das principais formas de preservação da memória cultural dos povos fino-úgricos. Nas versões mais antigas, Kullervo aparece como filho de Kaleva ou Kalervo, nomes que variam conforme a região e a tradição local. A narrativa gira em torno de uma disputa sangrenta entre duas famílias aparentadas, conflito que termina com a destruição quase completa de um dos clãs. O único sobrevivente é uma criança ainda não nascida, destinada a crescer sob o peso da vingança.

Os cantos tradicionais descrevem Kullervo como alguém dotado de capacidades sobrenaturais desde a infância. Em diferentes variantes da lenda, ele é capaz de resistir ao fogo, controlar elementos da natureza, convocar animais selvagens ou lançar maldições sobre seus inimigos. Esses traços refletem antigas concepções xamânicas presentes no folclore fino-careliano, nas quais determinados indivíduos possuíam uma ligação especial com forças sobrenaturais.

Os diferentes poemas tradicionais utilizados na construção da história de Kullervo apresentam variações significativas quanto aos acontecimentos, aos personagens e às circunstâncias de seus conflitos. Isso ocorre porque o ciclo apresentado no Kalevala foi elaborado a partir da combinação de narrativas que originalmente possuíam relativa independência. Na versão organizada por Elias Lönnrot, esses diferentes materiais foram reunidos em uma sequência trágica que envolve a destruição de sua família, a escravidão, a vingança contra a esposa de Ilmarinen, o encontro incestuoso com a irmã, a destruição do povo de Untamo e, finalmente, a morte voluntária do protagonista. Essa organização literária contribuiu para transformar Kullervo em uma das figuras trágicas mais reconhecidas da tradição finlandesa.

Quando Elias Lönnrot organizou os cantos tradicionais que serviriam de base para o Kalevala, reuniu diferentes narrativas da tradição oral fino-careliana, combinando episódios e personagens que originalmente pertenciam a poemas independentes. O ciclo de Kullervo, apresentado de maneira mais desenvolvida na edição de 1849, resulta desse trabalho de seleção, adaptação e reorganização literária. Para sua elaboração, Lönnrot utilizou tanto materiais recolhidos durante suas expedições quanto registros realizados por outros pesquisadores, especialmente Daniel Europaeus, cujas coletas na Íngria e na Carélia contribuíram significativamente para a construção da tragédia do personagem.

Kullervo no Kalevala

Nascimento e infância

Kullervo marca seu nome em uma árvore. Arte de Väinö Blomstedt

A narrativa começa com a rivalidade entre os irmãos Kalervo e Untamo, inicialmente marcada por disputas relacionadas à pesca e à posse de recursos. O conflito se intensifica quando os animais de Untamo invadem a plantação de Kalervo, provocando uma reação violenta que agrava ainda mais a hostilidade entre ambos. Consumido pela raiva e pelo desejo de vingança, Untamo reúne seus guerreiros e inicia um ataque devastador contra o povo de seu irmão. A comunidade é destruída, e uma mulher grávida sobrevive ao massacre, sendo levada como prisioneira. Durante seu cativeiro, ela dá à luz Kullervo.

Desde os primeiros meses de vida, o menino demonstra possuir uma natureza incomum. Ainda no berço, profere palavras de vingança e promete destruir aqueles que exterminaram sua família. Assustado com as profecias da criança, Untamo tenta eliminá-la repetidas vezes. Kullervo é lançado às águas, colocado em uma fogueira e pendurado em uma árvore, mas sobrevive a todas as tentativas. Cada fracasso reforça a ideia de que sua vida está protegida por forças superiores e que seu destino não pode ser alterado.

À medida que cresce, Kullervo revela um temperamento impulsivo e difícil de controlar. Nenhuma tarefa doméstica lhe convém, e sua presença passa a ser vista como um problema. Incapaz de lidar com ele, Untamo decide vendê-lo como escravo ao ferreiro divino Ilmarinen.

Escravidão na casa de Ilmarinen

A passagem pela casa de Ilmarinen representa um dos momentos mais importantes da formação do personagem. Embora o ferreiro não seja retratado como particularmente cruel nesse episódio, sua esposa demonstra profundo desprezo pelo jovem escravo. Certo dia, ela o envia para pastorear o gado e lhe entrega um pão preparado de forma maliciosa. Escondida no interior da massa está uma pedra. Quando Kullervo tenta cortar o alimento, a pedra quebra sua faca, uma relíquia herdada de seu pai e um dos únicos objetos que preservavam a memória de sua antiga família.

Arte de pixlepete

A perda da faca desencadeia uma explosão de fúria. Tomado pelo desejo de vingança, Kullervo utiliza encantamentos para convocar lobos e ursos da floresta. Em seguida, faz com que os animais selvagens assumam a aparência do rebanho e os conduz de volta à propriedade. Ao tentar ordenhar os animais, a esposa de Ilmarinen é atacada e morta pelas criaturas. O episódio marca uma das primeiras grandes vinganças de Kullervo e revela a dimensão destrutiva de seus poderes quando guiados pela raiva e pelo ressentimento.

Arte de Nikolai Kochergin

O reencontro com a família

Depois de abandonar a casa de Ilmarinen, Kullervo passa a vagar por diferentes regiões até descobrir, inesperadamente, que parte de sua família ainda está viva, apesar da destruição descrita no início de sua história. Essa aparente contradição resulta da combinação de diferentes cantos da tradição oral realizada por Elias Lönnrot durante a elaboração do Kalevala. Ao reunir narrativas originalmente independentes, o compilador preservou acontecimentos que nem sempre apresentam uma continuidade inteiramente lógica.

O reencontro com os pais constitui um raro momento de felicidade na trajetória de Kullervo. Sua mãe o recebe com alegria e lhe conta sobre os sofrimentos vividos durante os anos de separação, revelando também que uma de suas irmãs havia desaparecido ainda jovem e nunca mais fora encontrada.

Apesar da acolhida, Kullervo permanece emocionalmente distante. As experiências de violência, escravidão e rejeição que marcaram sua infância e juventude dificultam sua adaptação à convivência familiar. Mesmo entre os próprios parentes, o personagem demonstra incapacidade de encontrar tranquilidade e pertencimento.

O encontro com a irmã

Durante uma viagem de retorno à casa de seus pais, após cumprir uma tarefa relacionada ao pagamento de tributos, Kullervo encontra algumas jovens desconhecidas pelo caminho e tenta convencê-las a acompanhá-lo em seu trenó. Após ser rejeitado pelas primeiras, encontra uma terceira jovem que também recusa seu convite. Diante da resistência, Kullervo a arrasta à força para o veículo. Apesar dos protestos da moça, mostra-lhe suas riquezas e oferece-lhe objetos valiosos, acontecimentos que antecedem a relação sexual entre os dois, marcada desde o início pela coerção e pelo desconhecimento de seus verdadeiros laços familiares.

Na manhã seguinte, durante uma conversa sobre suas origens, descobrem que são irmãos, separados desde a infância. A jovem revela ser filha de Kalervo e conta que havia desaparecido quando ainda era criança, ao se perder na floresta enquanto colhia frutos silvestres. A descoberta provoca profundo desespero em ambos, transformando aquele encontro em um dos episódios mais trágicos de toda a narrativa.

Incapaz de suportar a situação, a jovem abandona o trenó e lança-se nas águas turbulentas de um rio, onde morre afogada. O episódio representa um ponto de ruptura definitivo na vida de Kullervo. Dominado pela culpa, ele lamenta ter sobrevivido às tentativas de assassinato sofridas quando criança e passa a considerar a própria existência uma sequência de infortúnios. Ao retornar à casa de seus pais, conta à mãe o que aconteceu e manifesta o desejo de morrer. Ela procura consolá-lo e sugere que se afaste por alguns anos, até que a passagem do tempo possa amenizar sua dor. Entretanto, Kullervo rejeita essa possibilidade e decide retomar o antigo propósito de vingança contra Untamo.

A vingança contra Untamo

Arte de Akseli Gallen-Kallela

Após a morte da irmã, Kullervo decide cumprir a promessa de vingança que havia feito ainda no berço. Desconsiderando os apelos de sua mãe para que abandone seus planos, prepara-se para enfrentar Untamo e seu povo, considerados responsáveis pela destruição de sua família e pelos sofrimentos que marcaram sua existência. Sua mãe tenta convencê-lo a permanecer em casa, advertindo-o sobre os perigos da guerra. Kullervo, porém, demonstra estar disposto a enfrentar a morte no campo de batalha, considerando a vingança mais importante do que a própria segurança.

Durante sua jornada em direção às terras de Untamo, recebe sucessivas notícias da morte de seus familiares. Mensageiros comunicam o falecimento de seu pai, de seu irmão, de sua irmã e, por último, de sua mãe. Embora inicialmente demonstre indiferença diante dessas perdas, a notícia da morte materna desperta nele uma profunda tristeza. Kullervo recorda os cuidados recebidos durante a infância e lamenta não ter estado presente nos últimos momentos de sua mãe. Ainda assim, recusa-se a abandonar a jornada, determinado a cumprir sua vingança.

Ao aproximar-se do confronto, invoca Ukko, a principal divindade celeste da mitologia finlandesa, solicitando uma espada extraordinária, capaz de enfrentar numerosos inimigos. Seu pedido é atendido, e o jovem recebe uma arma de grande poder. A narrativa descreve uma destruição implacável. Empunhando a espada recebida após sua invocação a Ukko, Kullervo extermina o povo de Untamo e incendeia suas habitações, deixando para trás apenas ruínas.

Entretanto, a vitória não lhe proporciona a paz esperada. Ao retornar à antiga morada de sua família, encontra a propriedade deserta e confirma a ausência definitiva de seus entes queridos. O silêncio da casa, a ausência de seus familiares e o abandono dos lugares que antes representavam alguma possibilidade de acolhimento tornam evidente a dimensão de sua perda. A vingança, que durante tantos anos havia orientado suas ações, perde completamente o sentido. Sem os vínculos familiares que poderiam oferecer-lhe algum conforto, Kullervo encontra-se novamente diante da solidão, do sofrimento e da ausência de perspectivas para sua existência.

Morte

Sem família, sem propósito e consumido pelo remorso, Kullervo retorna à antiga propriedade de seus pais, onde encontra apenas um cão negro chamado Musti. Em uma passagem de caráter sobrenatural, a voz de sua mãe falecida lhe indica que o animal ainda permanece vivo e aconselha o filho a levá-lo consigo para a floresta.

Acompanhado de Musti, Kullervo passa a caminhar pelas regiões arborizadas até chegar ao local onde havia se relacionado com a própria irmã, episódio que desencadeara uma das maiores tragédias de sua existência.A paisagem parece compartilhar sua dor. A vegetação daquele lugar permanece marcada pelo acontecimento: as plantas lamentam a desgraça da jovem e o solo parece incapaz de recuperar sua antiga vitalidade.

Tomado pela culpa e pelo desespero, Kullervo dirige-se à própria espada e pergunta se ela estaria disposta a tirar sua vida. A arma responde que já havia derramado tanto o sangue de inocentes quanto o de culpados e que não recusaria o seu. Diante dessa resposta, Kullervo apoia o punho da espada contra o solo, volta a lâmina em direção ao próprio peito e lança-se sobre ela, encerrando tragicamente sua existência.

Arte de Seb McKinnon


Após sua morte, Väinämöinen apresenta a conclusão moral da narrativa. O velho sábio adverte sobre os perigos de criar crianças com negligência, violência e maus-tratos, enfatizando a importância da educação e dos cuidados durante a formação dos indivíduos. Essa reflexão final confere à tragédia de Kullervo uma dimensão moral que ultrapassa os acontecimentos individuais do personagem, transformando sua história em uma advertência sobre as consequências de uma infância marcada pelo sofrimento e pela ausência de orientação adequada.

Interpretações

A história de Kullervo permite diferentes interpretações literárias, psicológicas e folclóricas, especialmente quando analisada à luz das relações entre sofrimento, violência e comportamento humano. Sob uma perspectiva literária, o personagem pode ser compreendido como um herói trágico ou mesmo como um anti-herói, pois, apesar de possuir força extraordinária e capacidades sobrenaturais, demonstra dificuldades em controlar seus impulsos e lidar com as consequências de suas ações. Sua trajetória estabelece um contraste significativo com a figura de Väinämöinen, frequentemente associada à sabedoria, à experiência e ao domínio dos conhecimentos tradicionais.

A narrativa de Kullervo também pode ser interpretada como uma reflexão sobre as consequências da violência durante a infância, dos maus-tratos, da exclusão social e da ausência de vínculos familiares seguros. Desde seus primeiros anos, o personagem é submetido a situações de sofrimento, rejeição e exploração, experiências que contribuem para a construção de sua personalidade e para os conflitos que marcam sua trajetória. Sob essa perspectiva, sua história ultrapassa os limites de uma simples narrativa mitológica, permitindo reflexões sobre os efeitos da violência na formação humana e sobre a maneira como o sofrimento pode alimentar novos ciclos de destruição.

Outro aspecto que permite uma análise aprofundada da história de Kullervo é a tensão entre o destino e o livre-arbítrio. Desde seu nascimento, o personagem enfrenta circunstâncias adversas que parecem orientar sua existência para uma sucessão de acontecimentos trágicos. Entretanto, suas próprias decisões, especialmente aquelas motivadas pela raiva e pelo desejo de vingança, contribuem diretamente para o agravamento de seu sofrimento. Dessa forma, a narrativa pode ser interpretada como uma reflexão sobre os limites da liberdade individual diante das condições impostas pela vida, aproximando-se, em determinados aspectos, das grandes tragédias da literatura clássica.

A tragédia de Kullervo também permite estabelecer aproximações literárias com personagens da tradição clássica, como Édipo, da mitologia grega. Embora pertençam a contextos culturais distintos, ambos protagonizam histórias marcadas pelo desconhecimento de suas origens familiares, pela descoberta de relações incestuosas e pelas consequências devastadoras dessas revelações. Essa comparação evidencia a presença de temas semelhantes em diferentes tradições literárias, especialmente aqueles relacionados à identidade, à responsabilidade individual, ao sofrimento e à impossibilidade de desfazer determinados acontecimentos.

Legado cultural

A figura de Kullervo exerceu uma influência significativa sobre a cultura finlandesa moderna, especialmente no contexto do despertar nacional e da valorização das tradições populares durante o século XIX. Sua história, marcada pelo sofrimento, pela perda e pela resistência diante das adversidades, passou a integrar o repertório simbólico e artístico associado à construção da identidade cultural finlandesa. O personagem inspirou importantes manifestações artísticas, incluindo as pinturas de Akseli Gallen-Kallela, a peça teatral Kullervo, escrita por Aleksis Kivi, e a composição sinfônico-coral Kullervo, de Jean Sibelius, apresentada pela primeira vez em 1892. Essas obras contribuíram para consolidar a presença do personagem na literatura, nas artes visuais e na música, ampliando o alcance de sua tragédia para além das tradições orais que lhe deram origem.

A influência de Kullervo ultrapassou as fronteiras da Finlândia. No início do século XX, J. R. R. Tolkien estudou o Kalevala e produziu uma adaptação inacabada da história intitulada The Story of Kullervo. Muitos elementos da narrativa serviram posteriormente de inspiração para a criação de Túrin Turambar, um dos personagens mais trágicos da Terra-média.

Arte de  Nikolai Kochergin



fontes:
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19 de outubro de 2026

Gigantes de Voronezh

۞ ADM Sleipnir

Os Gigantes de Voronezh, também conhecidos como Extraterrestres de Voronezh, são figuras associadas a um suposto encontro extraterrestre ocorrido em setembro de 1989, na cidade de Voronezh, então pertencente à União Soviética. Segundo testemunhos divulgados pela imprensa local, criaturas humanoides de aproximadamente três metros de altura teriam desembarcado de um objeto voador em um parque, diante de um grupo de crianças.

O caso ganhou repercussão internacional em outubro daquele ano, após a agência soviética de notícias TASS divulgar os relatos. Os seres foram descritos como gigantes de três olhos, vestidos com roupas metálicas e acompanhados de um pequeno robô. Embora amplamente noticiado, o acontecimento não foi comprovado cientificamente e passou a integrar as narrativas ufológicas contemporâneas.

Esboços dos OVNIs e dos robôs ou seres feitos por algumas das testemunhas. O desenho superior esquerdo, que representa um OVNI e um robô, foi feito por Roma Torshin, aluno do sexto ano, enquanto o desenho superior direito é de Genya Blinov. (Crédito: Hesemann / Jacques Vallée)

Origem e contexto histórico

Em 1989, a União Soviética atravessava um período de transformações políticas e sociais durante o governo de Mikhail Gorbachev. A política de glasnost, caracterizada por maior abertura informativa, ampliou o espaço na imprensa para assuntos como fenômenos paranormais e supostos avistamentos de objetos voadores não identificados (OVNIs).

Nesse contexto, em 3 de outubro de 1989, o jornal regional Kommuna publicou a reportagem Футбол с пришельцами (Futbol s prisheltsami), traduzida como “Futebol com extraterrestres”. O texto, atribuído ao jornalista Alexander Mosolov, reunia depoimentos de crianças que afirmavam ter presenciado um acontecimento incomum no Parque Yuzhny, também conhecido como Parque do Sul, na região de Mashmet, em Voronezh.

A data do suposto encontro permanece incerta. A versão inicial mencionava 27 de setembro de 1989, enquanto declarações posteriores atribuídas a Mosolov situavam o episódio principal no dia 23 do mesmo mês.

O suposto encontro no parque

De acordo com a reportagem do Kommuna, um grupo de crianças brincava de futebol quando percebeu um brilho rosado no céu. Pouco depois, teria surgido uma grande esfera avermelhada, que se aproximou do solo, desapareceu momentaneamente e retornou. Durante uma dessas aparições, o objeto supostamente pousou, permitindo a saída de uma criatura humanoide. O ser foi descrito como tendo aproximadamente três metros de altura, cabeça relativamente pequena e três olhos. Algumas versões posteriores mencionaram uma estatura próxima de quatro metros. A criatura vestiria um macacão prateado, botas de coloração bronze e carregaria um objeto circular no peito. Estaria acompanhada de um pequeno ser semelhante a um robô.

Segundo os testemunhos, um menino teria ficado imóvel após a criatura dirigir o olhar em sua direção. Outro acontecimento envolvia um adolescente de aproximadamente 16 anos, que supostamente desapareceu quando o gigante apontou para ele um dispositivo semelhante a uma arma, reaparecendo posteriormente.

Esses acontecimentos não foram confirmados por evidências independentes. As descrições físicas e as capacidades atribuídas aos seres permanecem restritas aos relatos divulgados na época.


A repercussão internacional

Em 9 de outubro de 1989, a agência soviética TASS divulgou informações sobre o suposto encontro, destacando a presença dos humanoides gigantes e as investigações realizadas no parque. A notícia foi reproduzida por veículos internacionais, incluindo a United Press International e o The Washington Post. 

O correspondente Vladimir Lebedev, associado à cobertura da TASS, esclareceu posteriormente que não havia presenciado o suposto pouso e que suas informações haviam sido obtidas por meio de entrevistas com aproximadamente dez jovens. Também surgiram divergências sobre o número de testemunhas. Uma das notícias iniciais mencionava cerca de quarenta adultos que teriam observado as criaturas, mas essa informação foi posteriormente revista pela imprensa local, sem confirmação independente.

A ampla divulgação do caso contribuiu para sua notoriedade, embora a repercussão jornalística não representasse uma confirmação da existência dos supostos visitantes.

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As investigações e as evidências contestadas

Após a publicação das primeiras reportagens, pesquisadores interessados em fenômenos anômalos examinaram o parque em busca de possíveis vestígios do pouso. Foram mencionadas marcas no terreno e materiais inicialmente considerados incomuns, levando algumas notícias a sugerir que cientistas soviéticos haviam encontrado evidências da presença extraterrestre. Entretanto, essas interpretações foram questionadas. O pesquisador Genrikh Silanov contestou a maneira como determinadas informações haviam sido divulgadas. 

Segundo uma análise publicada por Paul Kurtz em 1990, um material inicialmente apresentado como extraordinário foi posteriormente identificado como hematita, um mineral terrestre conhecido. Outras alegações envolveram o uso de biolocalização, técnica baseada em supostas percepções capazes de detectar objetos ou fenômenos, sem validação científica adequada para comprovar um pouso extraterrestre. Kurtz também reuniu informações sobre verificações realizadas por uma comissão investigadora soviética. Conforme a documentação jornalística citada pelo autor, análises radiométricas, microbiológicas, espectroquímicas e do solo não identificaram anomalias físicas que confirmassem a presença dos supostos visitantes. Embora essas verificações não esclareçam a origem dos testemunhos, tampouco sustentam a alegação de que uma nave extraterrestre tenha pousado no parque.

Diferentes versões do acontecimento

As descrições dos visitantes variaram entre as fontes. Enquanto a reportagem inicial do Kommuna destacava a esfera luminosa, o humanoide de três olhos e os acontecimentos envolvendo as crianças, a cobertura internacional enfatizava a estatura das criaturas e os possíveis vestígios do pouso. Nas semanas seguintes, surgiram outros testemunhos sobre objetos luminosos na região. Algumas descrições mencionavam figuras verdes ou marrons, seres de diferentes tamanhos e roupas de cores variadas. Não é possível determinar se esses relatos se referiam ao mesmo acontecimento.

Em recontagens posteriores, a aparência dos gigantes tornou-se mais padronizada, frequentemente associada a humanoides de três olhos, equipamentos tecnológicos e capacidades de imobilizar ou fazer pessoas desaparecerem. Parte dessas características já aparecia nas notícias de 1989, mas algumas interpretações modernas acrescentaram detalhes sem confirmação documental.

Cultura popular

O interesse pelo caso continuou após 1989. No ano seguinte, investigadores locais publicaram o livro НЛО в Воронеже (OVNI em Voronezh), reunindo materiais relacionados aos supostos avistamentos e depoimentos. A obra, com 176 páginas, está registrada no catálogo da Biblioteca Eletrônica Nacional da Rússia.

A história também foi retomada em documentários e programas dedicados à ufologia. Em 2021, a Komsomolskaya Pravda publicou uma retrospectiva sobre as testemunhas e as controvérsias do caso. Em 2024, uma publicação regional relacionada ao Kommuna voltou ao assunto por ocasião dos 35 anos de sua divulgação.

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fontes:
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15 de outubro de 2026

Mokyo

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O Mokyo (coreano 목요, chinês 木妖, literalmente "espírito da madeira") é uma criatura sobrenatural descrita no Seonghosaseol, obra do estudioso coreano Yi Ik (1681–1763). Segundo o relato, habita o interior de árvores antigas e apodrecidas e apresenta características físicas incomuns: não possui pelos, tem um único olho e seu corpo lembra uma mistura de gato e cavalo. A descrição também menciona seu movimento contorcido e associa seu desenvolvimento ao interior da árvore.

De acordo com o texto, a criatura é vulnerável enquanto jovem, podendo morrer caso saia da árvore antes de completar seu desenvolvimento. Quando cresce, torna-se maior e mais forte, passando a perseguir e atacar pessoas ou animais. O relato está associado a Yi Man, membro da família real Wansung, que teria encontrado a criatura na região de Jeonju.

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14 de outubro de 2026

Tereza Bicuda

۞ ADM Sleipnir


Tereza Bicuda é uma personagem do folclore de Jaraguá, município de Goiás, conhecida por uma lenda de assombração transmitida pela tradição oral. Nas versões mais recorrentes, é apresentada como uma mulher que maltratava a própria mãe e que, após morrer, não conseguiu encontrar descanso. Sua narrativa está associada à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, às antigas ruas da cidade e à Serra de Jaraguá.

Nome e origem da tradição

A grafia Tereza Bicuda, com z, aparece em estudos acadêmicos e publicações sobre a lenda. A forma Teresa Bicuda, com s, também é utilizada em materiais educacionais e institucionais. A origem do apelido Bicuda é desconhecida. Uma hipótese o relaciona aos lábios grandes ou protuberantes atribuídos à personagem; outra sugere uma derivação do sobrenome Bicudo.

A lenda está ligada à história de Jaraguá, município cuja formação remonta ao período da mineração em Goiás. Um dos principais locais associados à narrativa é a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, construída em 1776. Entre 1981 e 1983, o Centro de Estudos da Cultura Popular da Universidade Federal de Goiás recolheu relatos de moradores da região. O trabalho resultou no livro Histórias Populares de Jaraguá — Tereza Bicuda, publicado em 1983, que reúne nove versões da lenda.

A lenda

Na narrativa mais recorrente, Tereza vivia com a mãe em Jaraguá e a submetia a maus-tratos. As descrições de sua personalidade e de seu comportamento variam entre os relatos. Ela aparece como uma mulher violenta e agressiva, que bebia, rejeitava a religião ou contrariava as normas sociais da comunidade. Outras versões a descrevem como rica e orgulhosa, prostituta, louca ou possuída por forças malignas. O elemento mais constante é a violência contra a mãe, uma mulher idosa que Tereza teria obrigado a pedir esmolas. Quando ela não conseguia dinheiro ou mantimentos suficientes, era castigada pela filha.

O episódio mais conhecido da lenda ocorre quando Tereza coloca arreios ou um freio de cavalo na mãe, monta em suas costas e a conduz pelas ruas da cidade. Algumas versões situam a cena nas proximidades da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Após a agressão, a mãe teria amaldiçoado a filha. Em outros relatos, teria também a excomungado, condenando-a a não encontrar descanso depois da morte.


Morte e assombração

Após morrer, Tereza teria sido sepultada na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos ou em suas proximidades. Os relatos divergem quanto ao local exato: alguns mencionam uma capela ou um cemitério, enquanto outros afirmam que o corpo foi enterrado dentro da igreja. Nas noites seguintes ao sepultamento, os moradores teriam ouvido gemidos, gritos e pedidos para que o corpo fosse retirado do local. Em determinadas versões, Tereza afirmava não poder permanecer em solo sagrado por causa da maldição materna.

A assombração também teria aparecido pelas ruas de Jaraguá, geralmente à meia-noite. Algumas narrativas descrevem sua presença acompanhada de fogo, cheiro de enxofre ou roupas em chamas. Em outras, manifesta-se apenas por meio de uma voz ou de uma aparição fantasmagórica. Para pôr fim às manifestações, os moradores teriam retirado o corpo do sepultamento original e levado os restos mortais para a Serra de Jaraguá.

Os relatos apresentam diferentes desfechos para o novo sepultamento. Em uma versão, nenhuma planta crescia sobre a sepultura, como se a terra recusasse o corpo. Em outra, nascia um cajueiro cercado por abelhas ou marimbondos, que impediam a aproximação das pessoas. Há também versões segundo as quais o espírito de Tereza ficou preso a uma árvore ou se transformou em marimbondo, fogo, chuva ou ventania. Em alguns relatos, a transferência do corpo encerra as aparições na cidade; em outros, a assombração apenas muda de lugar e continua associada à serra.


Interpretações culturais

A lenda apresenta um caráter moralizante: o sofrimento atribuído a Tereza após a morte é associado aos maus-tratos contra a mãe, à desobediência religiosa e à transgressão das normas sociais. Alguns estudos comparam a personagem ao Corpo-Seco, figura do folclore brasileiro cujo corpo é rejeitado pela terra e não encontra repouso após a morte em determinadas versões. Apesar da semelhança, as duas figuras pertencem a tradições distintas.

Pesquisas acadêmicas também analisam como Tereza Bicuda é representada como uma mulher que contrariava as normas sociais. As descrições que a apresentam como louca, irreligiosa, prostituta ou possuída podem ser relacionadas às concepções de comportamento feminino presentes na sociedade em que os relatos circularam. Essa leitura complementa a interpretação moral da lenda, na qual os maus-tratos contra a mãe constituem o principal motivo da condenação da personagem.

Possível origem histórica

Pesquisadores locais levantaram a hipótese de que a lenda tenha sido inspirada em uma mulher real. Um estudo menciona registros de batismo, casamento e sepultamento que poderiam estar relacionados a uma mulher chamada Tereza, descrita como negra e filha de pessoas escravizadas. Também foi sugerida uma ligação com Lourenço Bicudo e a família Bicudo de Andrade. Não há, contudo, elementos suficientes para confirmar que essa mulher seja a personagem da tradição oral.

Durante a restauração da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, foram encontradas ossadas com mais de duzentos anos. A descoberta documenta a existência de sepultamentos antigos no local, mas não há evidências que relacionem os restos mortais a Tereza Bicuda.

Presença na cultura de Jaraguá

A lenda é tema de pesquisas universitárias, projetos escolares, livros, registros audiovisuais e produções artísticas. A Universidade Estadual de Goiás mantém o Memorial Teresa Bicuda, que reúne estudos, versões tradicionais, manuscritos e outros materiais relacionados à personagem. Entre os documentos preservados está uma narrativa manuscrita atribuída à transmissão de Juca de Oliveira e registrada por Dona Santa.

Em 1988, Ciça Fittipaldi publicou Tereza Bicuda, livro ilustrado que adapta a tradição popular. A personagem também aparece em projetos de teatro, cinema, artes visuais e design. Na Serra de Jaraguá, uma trilha recebeu seu nome.

fontes:

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