16 de setembro de 2026

Kurangaituku

۞ ADM Sleipnir

Arte de PookaPuck

Kurangaituku é uma personagem sobrenatural das tradições Māori da Nova Zelândia, especialmente conhecida por sua relação com Hatupatu, herói associado ao povo Te Arawa e à região de Rotorua. Em alguns relatos, aparece como uma mulher com características de ave; em outros, como uma mulher capaz de assumir a forma de um pássaro.

A grafia Kurungaituku também é encontrada, especialmente na tradição publicada pela Raukawa Charitable Trust. As diferenças vão além do nome: enquanto algumas versões apresentam Kurangaituku como uma figura temível que captura Hatupatu e o persegue durante sua fuga, a tradição de Raukawa a descreve como uma guardiã da floresta e dos animais.

Kurangaituku e Hatupatu

Uma das versões mais antigas da história publicadas em forma impressa aparece em 1855, na obra Polynesian Mythology and Ancient Traditional History of the New Zealanders, de George Grey. Nessa versão, Hatupatu encontra Kurangaituku, que consegue capturá-lo e levá-lo para sua morada. A personagem possui características incomuns. O relato menciona asas nos braços e uma forma peculiar de caçar: Kurangaituku atingia os pássaros com os próprios lábios.

Em sua morada havia numerosos pássaros e outros animais mantidos por ela, além de mantos e objetos que despertam o interesse de Hatupatu. Quando Kurangaituku sai para caçar, o jovem permanece sozinho. Ele começa a matar os animais e reúne objetos que pretende levar consigo. Um pequeno pássaro consegue escapar e procura Kurangaituku para avisá-la do ocorrido. Ao retornar e encontrar seus animais mortos, ela parte imediatamente em perseguição a Hatupatu.

Arte de Munro Te Whata (@munro.tw)

A fuga e a rocha de Hatupatu

Durante a perseguição, Hatupatu percebe que Kurangaituku está se aproximando rapidamente. Diante do perigo, recorre a um encantamento para pedir abrigo a uma rocha. A pedra se abre, permitindo que ele entre em seu interior, e volta a se fechar enquanto Kurangaituku o procura do lado de fora.

A fuga é tradicionalmente relacionada à paisagem de Rotorua. Uma formação conhecida como Hatupatu's Rock, ou Rocha de Hatupatu, é identificada como o lugar onde o herói teria se escondido. Algumas versões também associam à pedra marcas atribuídas às garras de Kurangaituku.

A chamada Rocha de Hatupatu

Depois de deixar seu esconderijo, Hatupatu continua fugindo. A perseguição chega à área geotérmica de Whakarewarewa, conhecida por suas fontes e águas quentes. Hatupatu atravessa o local evitando as áreas perigosas, enquanto Kurangaituku tenta acompanhá-lo. Na versão difundida pela tradição de Te Arawa e registrada por Grey, ela acaba caindo nas águas escaldantes e morre.

A guardiã da floresta

Outra tradição apresenta Kurungaituku de maneira bastante diferente. Em Kurungaituku, The Guardian of the Forest, publicação da Raukawa Charitable Trust baseada na tradição de Raukawa, ela é apresentada como uma mulher idosa associada à proteção das florestas e dos animais na região entre Ātiamuri e Te Pae-o-Raukawa. Kurungaituku cuida dos seres pertencentes ao domínio de Tāne, incluindo pássaros feridos ou doentes, e possui a capacidade de assumir a forma de uma ave.

Nessa versão, ela encontra Hatupatu gravemente ferido. Kurungaituku o leva para sua caverna, trata seus ferimentos, inclusive com folhas de kawakawa, e fornece alimento durante sua recuperação. Hatupatu, porém, captura e mata alguns dos pássaros protegidos por sua anfitriã para se alimentar. Ao descobrir o ocorrido, Kurungaituku transforma-se em pássaro e passa a persegui-lo. Mais uma vez, Hatupatu procura proteção na rocha, que se abre para escondê-lo. Ele consegue escapar, mas, ao contrário do relato anterior, Kurungaituku não morre nas fontes termais.

A tradição publicada por Raukawa registra ainda a crença de algumas pessoas de que seu espírito permanece nas florestas próximas de Ātiamuri, onde continua a proteger os seres daquele território.

Uma personagem com diferentes versões

A aparência de Kurangaituku varia de acordo com a tradição. Na versão publicada por George Grey, ela possui asas nos braços e consegue alcançar Hatupatu durante a perseguição. Outras descrições históricas mencionam características associadas às aves, como garras e plumagem. Na tradição de Raukawa, porém, Kurungaituku é apresentada como uma mulher capaz de assumir a forma de um pássaro.

Algumas obras antigas em língua inglesa também descrevem Kurangaituku como uma “ogressa”. O termo, porém, pertence à forma como determinados autores europeus interpretaram a personagem. Para abranger melhor as diferentes tradições, “mulher-pássaro” ou “entidade sobrenatural” são descrições mais adequadas.

 "Hatupatu e a mort e de Kurangaituku" (2007), gravura em linóleo criada pelo artista maori neozelandês Cliff Whiting.

fontes:
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14 de setembro de 2026

14 Anos de Portal dos Mitos!

Hoje o Portal dos Mitos completa 14 anos de existência.

Embora atingir essa marca me deixe muito feliz — afinal, não é tão fácil quanto alguns pensam —, não estou tão feliz quanto gostaria. Neste mês em particular, quando todos os anos me esforço para trazer posts todos os dias, não pude fazê-lo como de costume, tanto por conta do meu trabalho, que tem exigido muito da minha atenção, quanto por estar me sentindo desmotivado a continuar.

Tem sido muito trabalho e os tempos são outros. Ninguém quer ler mais; querem tudo mastigado em vídeos que falam acelerado e ficam piscando imagens e letras na cara. Eu não sei fazer isso e, sinceramente, também não gosto de consumir esse tipo de conteúdo.

Sigo fazendo este trabalho porque realmente gosto e já não espero obter algum ganho com ele. Vez ou outra, alguns leitores contribuem com um Pix, e aproveito para agradecer a cada um deles. Agradeço também a todos que acompanham o blog, independentemente de colaborarem ou não, seja desde o começo ou há menos tempo.

As visualizações do blog chegam a picos de 10 mil a 12 mil visitas por dia, mas, infelizmente, não vejo isso se convertendo de forma positiva, seja na forma de auxílio ou de comentários.

Outra coisa que tem me deixado chateado é o projeto de tradução de A Jornada ao Oeste estar parado. Faz tempo que não posto nada novo, e não é porque eu não quero. A tradução realmente toma muito tempo e, como já disse, tenho um emprego que tem demandado muito do meu tempo e dedicação. Afinal, é de onde realmente tiro o meu sustento.

Mas isso não significa que o projeto não terá continuidade. O próximo capítulo deve sair em breve; a tradução já está bem encaminhada.

Deixando a negatividade de lado, espero continuar com este trabalho e ter forças para chegar ao próximo ano mais ativo do que nunca.

E espero que todos vocês venham comigo.

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9 de setembro de 2026

Opletai

۞ ADM Sleipnir

Arte de Ruslan Svobodin

Opletai (russo: Оплетай, também transliterado como Opletay) é uma criatura sobrenatural do folclore russo da Sibéria, registrada no século XIX em tradições do sul da região e da antiga província de Tomsk. As fontes apresentam versões diferentes: em uma delas, é um ser de aparência humana que ataca viajantes e se alimenta de sangue; em outra, aparece como uma criatura formada por metade de um corpo humano. O seu nome está relacionado ao verbo russo оплетать (opletat’), associado a sentidos como envolver ou entrelaçar. Por isso, “o Enlaçador” pode ser usado como aproximação de seu significado, embora não seja uma tradução tradicional estabelecida.

O Opletai que ataca viajantes

Uma das descrições mais antigas foi registrada por Stepan Gulyaev, em 1848, nos Ensaios etnográficos da Sibéria Meridional. Nessa versão, o Opletai possui aparência semelhante à humana e permanece sobre árvores à espera da passagem de viajantes. Ao atacar, lança-se sobre a vítima, envolve-a com os braços e as pernas e, depois de imobilizá-la, morde seu pescoço e suga seu sangue.

Arte de Misha Tarasov

Gulyaev comparou a criatura ao upyr, figura associada ao vampirismo no folclore russo. Marina Vlasova, porém, observa que o hábito de envolver fisicamente a vítima não é característico das tradições mais difundidas sobre os upyri. O Opletai, portanto, não deve ser considerado simplesmente uma variante do upyr.

Os Opletai de meio corpo

Uma tradição registrada por Grigori Potanin, publicada em 1864 e relacionada à parte sudoeste da antiga província de Tomsk, descreve os Opletai como seres formados por apenas metade de uma pessoa. Cada um teria uma perna, um braço e um olho e, quando sozinho, não seria considerado muito perigoso. Dois Opletai, entretanto, poderiam unir-se, formando juntos algo semelhante a um corpo completo. Nessa condição, tornavam-se extremamente rápidos, a ponto de, segundo a tradição, uma pessoa não conseguir escapar deles nem mesmo a cavalo. Essa descrição pertence a uma variante diferente daquela registrada por Gulyaev. 

As fontes não permitem afirmar que os Opletai de meio corpo também se escondiam em árvores ou se alimentavam de sangue. As duas descrições correspondem, portanto, a variantes distintas da tradição.. Os registros disponíveis também não indicam uma origem mítica, função religiosa ou aparência única para a criatura.

Créditos ao /LandOfDiffusion

fontes:

Mais uma idéia de post da minha filha, Lara. Espero que um dia ela tome conta dessa missão em meu lugar.

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8 de setembro de 2026

Nkala

۞ ADM Sleipnir

Arte de Veronica Mazzaro

O Nkala é uma entidade sobrenatural das tradições dos Lunda e de povos relacionados da atual Zâmbia. É descrito como uma criatura semelhante a um enorme caranguejo, associada à feitiçaria e ligada a uma pessoa que poderia utilizá-la para causar a morte de outras.

Uma das descrições mais detalhadas do Nkala foi registrada em 1923 por Frank Hulme Melland, a partir das informações fornecidas por um ng'anga, especialista ligado a práticas rituais e de adivinhação. Embora a obra de Melland trate principalmente dos Kaonde, o autor atribui especificamente essa crença aos Lunda. Segundo o relato, o Nkala viveria nos rios e seria capaz de matar uma pessoa ao devorar sua sombra.

Aparência e comportamento

De acordo com Melland, o Nkala teria cerca de 1,2 metro de comprimento e seria quase tão largo quanto comprido. Apesar de ser comparado a um caranguejo, possuiria características incomuns. A criatura teria uma cabeça em cada extremidade do corpo, semelhantes às de um hipopótamo e com protuberâncias próximas aos olhos, além de grandes pinças.

Os Nkala viveriam nos rios e poderiam ser usados para matar pessoas por meios sobrenaturais. Ao encontrar uma vítima, a criatura utilizaria suas duas cabeças para devorar sua sombra pelas duas extremidades. A pessoa morreria depois que a sombra fosse consumida. Os detalhes desse ataque são conhecidos principalmente pelo relato recolhido por Melland.

Relação com a feitiçaria

Nas fontes, o Nkala aparece como uma entidade ligada a uma pessoa que poderia utilizá-la para praticar magia destrutiva. Alguns pesquisadores classificaram seres desse tipo como “familiares”, termo usado para entidades sobrenaturais vinculadas a alguém e capazes de agir em seu benefício ou cumprir suas ordens.

Em 1948, C. M. N. White mencionou o Nkala em um estudo sobre crenças relacionadas à feitiçaria e à magia entre povos da região de Balovale. O antropólogo Victor Turner também o associou a esse tipo de familiar sobrenatural. Segundo as crenças descritas por Turner, entidades como o Nkala poderiam ser criadas por meios mágico-rituais e depois adquirir existência própria, mantendo uma ligação estreita com a vida de seu proprietário.

Como o Nkala era combatido

Melland também registrou uma forma de localizar e matar um Nkala. Segundo o ng'anga consultado por ele, eram preparadas substâncias contendo partes de outros Nkala e colocadas dentro de chifres de duíquer, um pequeno antílope africano. Um dos chifres seria fechado com cera, enquanto outro, preenchido apenas parcialmente, seria utilizado como uma espécie de instrumento de sopro. O som produ
zido serviria para atrair o Nkala para fora do rio.

Quando a criatura aparecesse, os homens que acompanhavam o especialista deveriam matá-la. Depois disso, partes de seu corpo, especialmente as grandes pinças e algumas protuberâncias das cabeças, seriam recolhidas e utilizadas na preparação de substâncias destinadas a localizar outros Nkala.


fontes:

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7 de setembro de 2026

Atalanta

۞ ADM Sleipnir

Arte de stevce lazarevski

Atalanta (grego antigo: Ἀταλάντη, Atalántē, "igual em peso") é uma heroína da mitologia grega, conhecida principalmente por suas habilidades como caçadora, arqueira, corredora e lutadora. Ligada sobretudo às tradições da Arcádia e da Beócia, aparece em diferentes ciclos míticos, especialmente na caçada ao Javali Calidônio e na história da corrida em que seus pretendentes disputavam sua mão em casamento.

As fontes antigas apresentam versões diferentes sobre sua origem. Segundo Pseudo-Apolodoro, Atalanta era filha de Íaso e Clímene, filha de Mínias. O mesmo autor registra, porém, outras genealogias: Hesíodo a considerava filha de Esqueneu, enquanto Eurípides a apresentava como filha de Mênalo. Essas divergências refletem diferentes tradições locais associadas à heroína.

Infância e vida como caçadora

Segundo Pseudo-Apolodoro, o pai de Atalanta desejava filhos homens e, por esse motivo, abandonou-a ainda bebê. Uma ursa encontrou-a e passou a amamentá-la até que caçadores encontraram a criança e a criaram entre eles. Já adulta, Atalanta decidiu permanecer virgem e passou a viver como caçadora nas regiões selvagens, sempre armada.

Sua ligação com Ártemis, deusa da caça e das regiões selvagens, é antiga. No Hino a Ártemis, Calímaco chama Atalanta de filha do arcadiano Íaso e afirma que a deusa admirava sua velocidade e lhe ensinara a caça com cães e o manejo do arco.  A atividade de caça e a decisão de permanecer virgem aproximam a heroína de características tradicionalmente associadas a Ártemis.

Pseudo-Apolodoro também relata que os centauros Reco e Hileu tentaram violentar Atalanta enquanto ela caçava nas regiões selvagens. A heroína reagiu e matou ambos com suas flechas. O episódio também era conhecido por Calímaco e aparece posteriormente em outras fontes antigas, como Eliano.

A caçada ao Javali Calidônio

O episódio mais conhecido de Atalanta é sua participação na caçada ao Javali Calidônio. A história do animal já aparece no Livro IX da Ilíada, embora Homero não mencione Atalanta entre os caçadores. Segundo o poema, Eneu, rei de Cálidon, deixou de oferecer a Ártemis as primícias da colheita, embora tivesse homenageado os demais deuses. Irritada, a deusa enviou um enorme javali que devastou os campos e pomares da região. Meleagro, filho de Eneu, reuniu caçadores e cães de várias cidades e matou o animal. Após a caçada, surgiu uma disputa entre os etólios e os curetes pela cabeça e pela pele do javali.

Meleagro oferece a cabeça do Javali Calidônio a Atalanta, por Giovanni Battista Crosato, c. 1747   

Em versões posteriores, Atalanta passa a integrar o grupo de caçadores e assume um papel central no episódio. Pseudo-Apolodoro menciona entre os participantes Teseu, Jasão, Castor e Pólux, Peleu, Telamon, Pirítoo, Anfiarau, Cefeu e Anceu, além de outros heróis. Cefeu, Anceu e alguns companheiros inicialmente se recusaram a participar da caçada ao lado de uma mulher, mas Meleagro os obrigou a aceitá-la. O mitógrafo acrescenta que Meleagro desejava ter um filho com Atalanta, apesar de já ser casado com Cleópatra, filha de Idas e Marpessa.

A caçada teve consequências fatais para alguns participantes. Segundo Pseudo-Apolodoro, o javali matou Hileu e Anceu, enquanto Peleu atingiu acidentalmente Eurítion com sua lança. Esse Hileu, participante da caçada, não deve ser confundido com o centauro de nome semelhante que, em outro episódio, tentou atacar Atalanta e foi morto por ela.

Atalanta foi a primeira a ferir o javali, acertando-lhe as costas com uma flecha. Anfiarau foi o segundo a atingi-lo, com uma flecha no olho, e Meleagro finalmente matou o animal com um golpe no flanco. Como prêmio pela morte do javali, Meleagro recebeu sua pele e decidiu entregá-la a Atalanta. Os filhos de Téstio, irmãos de Alteia, mãe de Meleagro, recusaram-se a aceitar que uma mulher recebesse o troféu. Alegaram também que, caso Meleagro abrisse mão do prêmio, a pele lhes pertenceria por direito de parentesco. Eles então tomaram o troféu de Atalanta. Enfurecido, Meleagro matou os filhos de Téstio e devolveu a pele à caçadora. Segundo uma das versões transmitidas por Pseudo-Apolodoro, Alteia, tomada pela dor após a morte dos irmãos, queimou uma madeira à qual a vida de Meleagro estava magicamente ligada, provocando sua morte. O mesmo autor registra outra tradição, próxima em alguns aspectos do relato homérico, na qual o conflito pela pele desencadeia uma guerra entre os calidônios e os curetes. Nessa versão, Meleagro acaba morrendo em combate.

Nas Metamorfoses, Ovídio desenvolve de maneira mais extensa a relação entre Atalanta e Meleagro. O herói se apaixona por ela assim que a vê entre os caçadores. Durante a caçada, Atalanta é novamente a primeira a ferir o javali, atingindo-o com uma flecha abaixo da orelha. Meleagro é o primeiro a perceber o sangue e chama a atenção dos demais para a façanha da caçadora. Depois de matar o animal, entrega a Atalanta sua pele e sua cabeça. Os filhos de Téstio, Plexipo e Toxeu, tomam-lhe os troféus, e Meleagro os mata em seguida.

Diodoro Sículo preserva uma variante diferente. Em seu relato, Meleagro é o primeiro a atingir o javali com sua lança e recebe, por decisão dos participantes, a pele do animal como prêmio de bravura. Apaixonado por Atalanta, ele abre mão tanto do troféu quanto da honra da vitória em favor dela. Os filhos de Téstio consideram a decisão uma afronta aos laços familiares e, quando Atalanta retorna à Arcádia, armam uma emboscada e tomam-lhe a pele. Meleagro, indignado com o tratamento dado à caçadora, mata-os.

Atalanta e Meleagro, arte de Ivan-Laio Ruíz - Díaz Dausà

Atalanta como atleta

Além de caçadora, Atalanta era conhecida por sua força e velocidade. Pseudo-Apolodoro afirma que ela participou dos jogos funerários realizados em homenagem a Pélias, rei de Iolco. Durante as competições, enfrentou Peleu, futuro pai de Aquiles, em uma luta e o derrotou. O episódio também foi representado na cerâmica grega antiga, mostrando que a imagem de Atalanta como lutadora não se restringia à literatura.

Sua fama como atleta aparece ainda no Livro X da República, de Platão. No chamado Mito de Er, as almas escolhem as vidas que terão em uma nova existência. A alma de Atalanta, atraída pelas honras associadas à vida de um atleta, escolhe essa condição para sua próxima vida.

A corrida e o casamento

A Corrida entre Hipómenes e Atalanta, por Noël Hallé, 1765, Museu do Louvre

As tradições antigas também apresentam diferentes versões sobre o casamento de Atalanta. Segundo Pseudo-Apolodoro, depois de reencontrar seus pais, Atalanta foi pressionada pelo pai a se casar. Para afastar os pretendentes, estabeleceu uma condição: eles deveriam enfrentá-la em uma corrida. O pretendente recebia uma vantagem inicial e partia antes dela. Atalanta o perseguia enquanto corria armada. Se o alcançasse, ele seria morto; se conseguisse chegar ao fim sem ser alcançado, receberia sua mão em casamento. Muitos pretendentes morreram antes que alguém conseguisse derrotá-la.

Na versão de Pseudo-Apolodoro, o vencedor é Melânion. Apaixonado por Atalanta, ele pediu ajuda a Afrodite, que lhe deu maçãs de ouro. Durante a corrida, Melânion lançava as frutas ao chão sempre que Atalanta se aproximava. A heroína parava para recolhê-las e acabou perdendo tempo suficiente para que ele vencesse. Outras tradições identificam o vencedor como Hipômenes. O próprio Pseudo-Apolodoro registra que Eurípides utilizava esse nome, que também aparece nas Metamorfoses de Ovídio.

Na versão ovidiana, Atalanta havia recebido de um oráculo uma advertência para evitar o casamento. Hipômenes inicialmente observa as corridas e não compreende por que tantos jovens estão dispostos a arriscar a vida por ela. Depois de vê-la, porém, decide participar também. Hipômenes pede auxílio a Afrodite e recebe três maçãs de ouro. Durante a corrida, Atalanta demonstra certa atração por ele e chega a reduzir sua velocidade em alguns momentos. Ainda assim, consegue alcançá-lo repetidamente. Hipômenes então lança as maçãs, fazendo com que ela se desvie para recolhê-las. Na última delas, a intervenção de Afrodite aumenta a vantagem do jovem e permite sua vitória.

A tradição da corrida também foi associada a lugares específicos. Pausânias afirma que, nas proximidades de Esqueno, na Arcádia, eram mostrados locais conhecidos como os “percursos de corrida de Atalanta”. A região era ligada a Esqueneu, considerado pai da heroína em algumas versões.

Arte de Arthur Le Normand


Transformação em leões

O destino de Atalanta e de seu marido também possui versões diferentes. Segundo Pseudo-Apolodoro, Atalanta e Melânion entraram durante uma caçada em um recinto sagrado de Zeus e mantiveram relações sexuais no local. Como punição pelo sacrilégio, foram transformados em leões.

Ovídio apresenta uma versão diferente. Depois de vencer a corrida graças à ajuda de Afrodite, Hipômenes deixa de agradecer à deusa. Ofendida, ela desperta no casal um desejo sexual enquanto os dois estão próximos de um santuário da Mãe dos Deuses, identificada com Reia ou Cibele. Após profanarem o local, ambos são transformados em leões. Essas versões pertencem a tradições diferentes e explicam por que as fontes variam tanto quanto ao nome do marido, à divindade ofendida e às circunstâncias da transformação.

Atalanta e Hipômenes transformados em leões (1732), pintura de Jean-Baptiste Oudry (1686-1755)

Partenopeu

Atalanta também é apresentada como mãe de Partenopeu, um dos guerreiros que participaram da expedição conhecida como os Sete contra Tebas. A identidade de seu pai varia conforme a fonte. Pseudo-Apolodoro afirma que Partenopeu seria filho de Melânion ou do deus Ares, enquanto outras tradições o apresentam como filho de Meleagro.

Em autores posteriores, especialmente na Tebaida de Estácio, a relação entre Atalanta e Partenopeu recebe maior desenvolvimento. O jovem é descrito como um guerreiro veloz, estabelecendo uma continuidade entre suas habilidades e a fama atlética da mãe.

Atalanta e os Argonautas

A participação de Atalanta na expedição dos Argonautas, liderada por Jasão em busca do Velocino de Ouro, também varia conforme a fonte. Pseudo-Apolodoro a inclui entre os participantes da viagem. Já Apolônio de Rodes, na Argonáutica, afirma que Atalanta desejava integrar a expedição, mas Jasão não permitiu que ela embarcasse, temendo que a presença de uma mulher entre tantos homens provocasse disputas.

Atalanta na Arcádia e em Tégea

A associação de Atalanta com a Arcádia não se limitava aos relatos literários. Pausânias registra tradições e objetos ligados à heroína e à Caçada Calidônia na cidade de Tégea. No Templo de Atena Alea, reconstruído no século IV a.C. segundo projeto do escultor e arquiteto Escopas de Paros, um dos frontões representava a Caçada ao Javali Calidônio. O animal ocupava a posição central, cercado por Atalanta, Meleagro, Teseu, Telamon, Peleu, Pólux, Anfiarau, Pirítoo e outros personagens.

O templo também conservava aquilo que os habitantes identificavam como a pele do javali calidônio. Quando Pausânias visitou o local, no século II d.C., afirmou que a pele ainda era exibida, embora estivesse deteriorada e já não conservasse os pelos. As presas do animal também teriam sido mantidas em Tégea. Segundo Pausânias, o imperador Augusto levou-as para Roma juntamente com uma antiga imagem de Atena Alea. Uma delas ainda era exibida nos jardins imperiais durante a época do escritor. A tradição é anterior a Pausânias. Calímaco já mencionava que os troféus da Caçada Calidônia haviam sido levados para a Arcádia e que as presas do javali eram conservadas na região.

Atalanta na arte

Atalanta aparece com frequência na arte grega antiga, principalmente em cenas relacionadas à caça e às competições atléticas. Uma de suas representações mais importantes encontra-se no Vaso François, grande cratera ática de figuras negras produzida por Ergótimo e pintada por Clítias no século VI a.C. Uma das faixas decorativas representa a Caçada ao Javali Calidônio, com vários participantes identificados por inscrições. Atalanta aparece entre os caçadores, mostrando que sua participação no episódio já estava estabelecida na iconografia do período arcaico.

Outra representação era encontrada na chamada Arca de Cípselo, obra descrita por Pausânias no santuário de Olímpia. Entre suas numerosas cenas mitológicas apareciam Melânion e Atalanta, esta segurando um jovem cervo. A luta entre Atalanta e Peleu nos jogos em homenagem a Pélias também foi representada na cerâmica grega. 


fontes:
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2 de setembro de 2026

Teseu

۞ ADM Sleipnir


Teseu (grego antigo: Θησεύς, Thēseús) é um dos principais heróis da mitologia grega e uma figura especialmente associada a Atenas e à região da Ática. Nas tradições antigas, é apresentado como filho de Etra e de Egeu, rei de Atenas, embora algumas versões também atribuam sua paternidade ao deus Poseidon. Entre seus feitos mais conhecidos estão a viagem de Trezena a Atenas, durante a qual derrota vários adversários, a captura do Touro de Maratona e a morte do Minotauro no Labirinto de Creta.
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30 de agosto de 2026

Balendik

۞ ADM Sleipnir


O Balendik é uma criatura registrada entre grupos Dumagat/Agta da costa nordeste da ilha de Luzon, nas Filipinas. Fontes do final do século XIX o descrevem como um ser de coloração esbranquiçada, com cabeça de cavalo e pernas longas e finas. Também seria associado às árvores, onde supostamente viveria.

A criatura aparece em registros antigos sobre as crenças dessas populações indígenas. Ferdinand Blumentritt menciona o Balendik em seu Diccionario mitológico de Filipinas, publicado em 1895. No ano seguinte, Friedrich Ratzel também se refere à criatura ao descrever costumes e crenças dos Negritos de Luzon. No mesmo contexto, Ratzel registra que, ao abater um animal, os caçadores lançavam um pedaço da carne para o alto como oferenda, acompanhado de palavras equivalentes a “Isto é para ti”. A prática também foi mencionada por Frederic H. Sawyer em The Inhabitants of the Philippines, publicado em 1900. Embora esse costume seja frequentemente associado ao Balendik em compilações posteriores, as fontes históricas disponíveis não explicam em detalhes a finalidade da oferenda, nem afirmam de forma clara que ela teria relação com a abundância de animais na floresta.

Algumas compilações modernas aproximam o Balendik do Tikbalang, outra criatura do folclore filipino conhecida por suas características equinas e associação com áreas florestais. No entanto, as fontes históricas mais antigas sobre o Balendik não estabelecem uma relação direta entre essas duas figuras.


fontes:
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28 de agosto de 2026

Vanaras

۞ ADM Sleipnir


Os Vanaras (sânscrito: वानर, vānara, “macaco” ou “símio”) são seres míticos de aparência símia da mitologia hindu, conhecidos principalmente por sua presença no Ramayana, um dos grandes épicos da Índia antiga, tradicionalmente atribuído ao sábio Valmiki. Sua origem mítica é apresentada no Bala Kanda (Bālakāṇḍa), o primeiro livro do épico, dedicado ao nascimento e à juventude de Rama e aos acontecimentos que antecedem sua vida adulta. Sua participação direta na narrativa ganha destaque no Kishkindha Kanda (Kiṣkindhākāṇḍa), o quarto livro, no qual Rama e Lakshmana chegam ao reino de Kishkindha e estabelecem uma aliança com Sugriva e os vanaras. A partir desse ponto, eles passam a desempenhar papel central na busca por Sita e na guerra contra Ravana.

Embora sejam frequentemente chamados de “macacos”, os vanaras do épico não são animais comuns. Possuem fala e inteligência, organizam-se sob reis e comandantes, realizam missões diplomáticas e militares e, em muitos casos, demonstram força e capacidades sobrenaturais.

Sugriva


Origem mítica

Segundo o Bala Kanda, quando Vishnu nasce como Rama para enfrentar Ravana, Brahma determina que deuses e outros seres celestes gerem auxiliares capazes de ajudá-lo. Surgem assim numerosos vanaras dotados de grande força, velocidade, inteligência e capacidade de assumir diferentes formas.

Vários dos personagens de maior destaque possuem ascendência divina. Vali é apresentado como filho de Indra, enquanto Sugriva é filho de Surya, o deus Sol. Nala é filho de Vishvakarma, o arquiteto divino, e Nila de Agni, o deus do fogo. Hanuman é filho de Vayu, o deus do vento.

O relato também descreve o surgimento de numerosos outros guerreiros semelhantes, destinados a formar as forças que mais tarde auxiliariam Rama. Apesar dessa origem sobrenatural, os vanaras aparecem no restante da narrativa como habitantes de florestas e montanhas, reunidos em diferentes grupos sob chefes e reis.

Kishkindha e a aliança com Rama

Vali e Sugriva

Kishkindha é o principal centro político dos vanaras no episódio que marca sua entrada na narrativa de Rama. O reino é governado por Vali, mas uma disputa entre ele e seu irmão Sugriva leva este último ao exílio. Durante a busca por Sita, Rama e Lakshmana encontram Hanuman, que os conduz até Sugriva. Os dois lados estabelecem uma aliança: Rama ajudaria Sugriva a recuperar o trono, enquanto Sugriva colocaria seus seguidores a serviço da procura por Sita.

Rama posteriormente mata Vali durante o confronto entre os irmãos. Antes de morrer, Vali questiona as circunstâncias e a justificativa da ação de Rama, dando origem a um diálogo moral importante dentro do próprio épico. Sugriva então assume o governo de Kishkindha e mobiliza os vanaras para cumprir sua parte do acordo.

A organização política e militar dos vanaras torna-se especialmente visível nesse momento. Sugriva exerce a realeza, enquanto Hanuman atua como ministro e emissário. Angada, filho de Vali, ocupa uma das principais posições de liderança entre os guerreiros: comanda a expedição enviada ao sul em busca de Sita e, durante a guerra, participa de conselhos militares, atua como emissário de Rama diante de Ravana e se destaca em combate contra importantes guerreiros rakshasas. Nila também figura entre os principais comandantes das forças vanaras e assume funções de liderança durante a campanha contra Lanka.

Arte de Saulabh Salunke

A busca por Sita

Sugriva envia grupos de vanaras em diferentes direções para procurar Sita. A expedição que segue para o sul é liderada por Angada e inclui Hanuman e Jambavan, um antigo líder dos ursos que, embora não seja vanara, atua como um dos principais aliados do grupo. Durante a busca, eles encontram Sampati, irmão de Jatayu, que revela que Sita havia sido levada por Ravana para Lanka. Diante da necessidade de atravessar o oceano, Jambavan recorda Hanuman de suas próprias capacidades, levando-o a assumir a missão.

Hanuman atravessa o oceano sozinho e entra em Lanka, onde encontra Sita mantida prisioneira. Apresenta-se como mensageiro de Rama e lhe entrega o anel de Rama como prova de sua identidade e de sua missão. 

Poderes e habilidades

Os vanaras são descritos como guerreiros de força e mobilidade excepcionais. Algumas passagens lhes atribuem a capacidade de mudar de forma, realizar enormes saltos e deslocar-se rapidamente por grandes distâncias. Em combate, utilizam principalmente árvores, pedras e rochas, além das próprias garras e dentes. Essas capacidades não aparecem de maneira idêntica em todos os personagens. Hanuman é o exemplo mais desenvolvido: durante sua viagem a Lanka, altera o tamanho do próprio corpo conforme as circunstâncias e realiza feitos que ultrapassam aqueles atribuídos à maioria dos demais vanaras.

Arte de Aritra Aich

Depois de ser capturado em Lanka, sua cauda é envolvida em tecido e incendiada por ordem de Ravana. Hanuman consegue escapar e utiliza as próprias chamas para atear fogo a diversas partes da cidade antes de retornar aos seus companheiros. Durante a guerra, ele também é enviado em busca de ervas medicinais necessárias para tratar guerreiros gravemente feridos. Incapaz de identificar as plantas procuradas, transporta a elevação onde elas crescem para que possam ser utilizadas.

A ponte para Lanka

Depois que a localização de Sita é confirmada, as forças de Rama chegam à costa diante de Lanka. Para atravessar o oceano, os vanaras constroem uma grande ponte sob a direção de Nala, cuja habilidade é relacionada à sua ascendência de Vishvakarma. Numerosos vanaras transportam árvores, troncos e grandes rochas e trabalham coletivamente na construção. O Yuddha Kanda (Yuddhakāṇḍa) atribui a obra especialmente a Nala e também se refere a ela como Nala Setu, a “ponte de Nala”.


Concluída a passagem, Rama, Lakshmana, Sugriva e o exército aliado atravessam para Lanka, onde os vanaras constituem a maior parte das forças de Rama na guerra contra Ravana, com diferentes chefes liderando contingentes e enfrentando os guerreiros rakshasas.

Vanaras e rakshasas

A guerra de Lanka coloca as forças vanaras principalmente contra os rakshasas que permanecem sob o comando de Ravana. Essa divisão, porém, não representa uma oposição moral absoluta entre as duas categorias de seres. Vibhishana, irmão de Ravana e também um rakshasa, condena as decisões do rei de Lanka e procura a proteção de Rama. Após ser aceito entre seus aliados, fornece informações importantes sobre Ravana e suas forças e participa da campanha contra o próprio irmão.

Influência cultural

A difusão do Ramayana levou os vanaras a numerosas tradições literárias e artísticas do sul e do sudeste da Ásia. Personagens como Hanuman, Sugriva, Vali e Angada aparecem em pinturas, esculturas, danças, espetáculos teatrais, teatro de marionetes e adaptações regionais do épico.

Suas representações variam consideravelmente. Em muitas tradições artísticas, aparecem como guerreiros que combinam corpo ou vestimentas
humanas com rosto, cabeça, cauda ou outros atributos de macaco. Essas convenções não são uniformes e assumiram formas próprias em tradições indianas, tailandesas, cambojanas, indonésias e de outras regiões.

Hanuman alcançou uma importância particularmente ampla. Além de permanecer como um dos personagens centrais do Ramayana, tornou-se objeto de uma extensa tradição devocional no hinduísmo, na qual é especialmente associado à força, à lealdade e à devoção a Rama.

Arte de Vineet Kumar

fontes:
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