12 de abril de 2026

Elbst

۞ ADM Sleipnir

O Elbst é uma criatura aquática pertencente ao folclore suíço que, segundo a lenda, habita as profundezas do lago Selisbergsee, no cantão de Uri. Os primeiros relatos sobre a criatura remontam a 1584, persistindo por mais de três séculos até pelo menos 1926, com descrições que variam significativamente ao longo do tempo.

As testemunhas nunca chegaram a um consenso sobre a sua aparência. Alguns a descrevem como uma serpente colossal de cabeça imponente e quatro patas munidas de garras afiadas, assemelhando-se a um dragão. Outras narrativas pintam um ser de corpulência descomunal, comparável ao tamanho de dois barcos, com uma cabeça que lembra a de um javali. Há ainda versões que o retratam não como um réptil, mas como um "peixe monstruoso" dotado de membros.

Sua ferocidade não se limitava ao ambiente aquático. A tradição popular conta que o Elbst emergia do lago durante a noite para invadir os pastos alpinos, onde atacava e mutilava rebanhos de ovelhas, espalhando pavor entre os moradores das redondezas. No lago, sua presença era igualmente aterradora. A criatura tinha o hábito de surgir subitamente ao lado de embarcações, emergindo das profundezas para assombrar tripulantes e pescadores, para depois desaparecer tão rapidamente quanto aparecia. Este comportamento súbito e agressivo era interpretado pelos locals não como um mero acidente, mas como um presságio sombrio de tempestades que se avizinhavam.

Para uma população profundamente religiosa, a natureza inexplicável e violenta do Elbst ia além de uma simples fera; era vista como uma manifestação do sobrenatural. Muitos acreditavam piamente que a criatura era a própria Besta do Apocalipse, um sinal divino de advertência ou punição.


fonte:

  • ‌ROSE, C. Giants, monsters, and dragons : an encyclopedia of folklore, legend, and myth. New York: Norton, 2001.

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11 de abril de 2026

Bahnkauv

۞ ADM Sleipnir

Arte de Evgeny Shvenk

O Bahnkauv é uma criatura mítica do folclore da cidade de Aachen, na Alemanha, e da região da Renânia. Geralmente descrito como um monstro semelhante a um bezerro deformado, o Bahkauv está tradicionalmente associado a cursos d’água urbanos e a narrativas envolvendo homens embriagados. Ao longo dos séculos, tornou-se uma das figuras folclóricas mais conhecidas da cidade.

Etimologia

O nome Bahkauv deriva do dialeto local e pode ser interpretado como “bezerro do riacho” ou “bezerro do córrego”, refletindo tanto a aparência da criatura quanto sua ligação com canais, fontes e sistemas de esgoto.

Descrição física

Os relatos sobre a aparência do Bahkauv variam, mas apresentam elementos recorrentes. A criatura é geralmente descrita como um bezerro alongado ou deformado, com pelagem espessa e desgrenhada, olhos brilhantes, presas ou dentes afiados e uma longa cauda que se arrastava pelo chão. Algumas versões mencionam patas semelhantes às de um urso, terminando em garras, além de correntes presas ao pescoço e às pernas, cujo tilintar anunciaria sua presença nas proximidades da água.


Habitat

Segundo a tradição, o Bahkauv habitava fontes, riachos, poços e os antigos sistemas de esgoto de Aachen, incluindo áreas associadas às nascentes termais sob a cidade. Canais de drenagem antigos, como os ligados às fontes de Büchel e Kaiser, também são citados como possíveis moradias da criatura.

Comportamento e lendas

O Bahkauv é descrito como uma criatura essencialmente noturna e mais associada a travessuras do que a violência letal. Embora existam relatos isolados de mordidas — inclusive no pescoço —, a criatura não costumava matar suas vítimas. Seu comportamento mais conhecido consistia em atacar homens bêbados durante a noite: o monstro saltava sobre as costas da vítima e a obrigava a carregá-lo até em casa. Ao chegar ao destino, o Bahkauv simplesmente se soltava e desaparecia.

Uma característica recorrente das lendas afirma que o peso da criatura variava conforme o comportamento da vítima. Caso o homem tentasse rezar enquanto carregava o Bahkauv, este se tornava progressivamente mais pesado; se o xingasse ou blasfemasse, tornava-se mais leve.

Relações com outros mitos

O Bahkauv integra um motivo folclórico mais amplo presente em diversas regiões da Europa: o do ser sobrenatural que salta nas costas das pessoas e exige ser carregado. Na Alemanha, esse papel aparece em outras narrativas nas figuras do Aufhocker e do Bieresel. Outras variações de países vizinhos incluem o Ganipote (França), Uhaml (Boêmia) ou bruxas lupinas.

Interpretações modernas

Pesquisadores contemporâneos levantaram a hipótese de que essas lendas possam estar relacionadas a fenômenos neurológicos, como a sensação ilusória de carregar um peso, associada à ativação da junção temporoparietal do cérebro. Essa interpretação tem sido utilizada para explicar a recorrência desse tema em contos folclóricos de diferentes culturas.

Desaparecimento e legado

De acordo com a tradição local, o Bahkauv teria desaparecido quando as entradas para os cursos d’água subterrâneos de Aachen foram seladas, aprisionando a criatura em seu suposto habitat. Em 1902, a cidade ergueu uma estátua do Bahkauv sobre um antigo poço associado ao monstro. A escultura original foi derretida durante a Segunda Guerra Mundial, mas uma nova estátua foi inaugurada em 1967 e permanece até hoje como símbolo do folclore local.

Foto por Dom Broadley


fontes:


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9 de abril de 2026

Flidais

۞ ADM Sleipnir


Flidais (também grafada como Flidas, Fliodhas ou Fliodhais), às vezes chamada pelo epíteto Foltchaín (“a de belos cabelos”), é uma importante deusa da mitologia celta/irlandesa. Associada às feras, à fertilidade e à abundância, ela representa a ligação entre o mundo doméstico e a natureza selvagem. Por isso, é vista tanto como senhora dos rebanhos quanto como soberana dos animais da floresta, especialmente os cervos. Em várias tradições, Flidais é descrita viajando em uma carruagem puxada por cervos.

Flidais aparece em várias fontes antigas da literatura irlandesa. No Metrical Dindshenchas, ela é citada como mãe de Fand (consorte do deus do mar Manannán mac Lir). Já o Lebor Gabála Érenn atribui a ela outros filhos, como Argoen, Bé Téite, Dinand e Bé Chuille. Duas dessas filhas, Dinand e Bé Chuille, mostram aspectos contraditórios: em um texto são descritas como "agricultoras", mas em outro, durante a Segunda Batalha de Moytura,  surgem como feiticeiras poderosas, prometendo usar magia para transmutar árvores, pedras e o solo em um exército contra os Fomorianos.


No glossário medieval Cóir Anmann (“A Adequação dos Nomes”), Flidais é apresentada como consorte do grande rei Adamair e mãe de Nia Segamain. O nome de seu filho, que pode ser entendido como “Campeão das Corças”, ajuda a explicar os poderes da deusa: graças à herança de Flidais, Nia Segamain conseguia ordenhar corças selvagens como se fossem vacas domésticas, o que reforça o domínio de sua mãe sobre os animais da floresta.

Flidais possui um papel de destaque no Ciclo de Ulster. No conto Táin Bó Flidhais (“A Incursão ao Gado de Flidais”), ela abandona o marido Ailill Finn para se unir ao herói Fergus mac Róich. Outro texto, o Scéla Conchobair (“As Notícias de Conchobar”), afirma que Fergus, famoso por sua força e vigor sexual, precisava de sete mulheres para satisfazê-lo, exceto quando estava com Flidais. Durante os eventos do Táin Bó Cúailnge, o rebanho mágico da deusa, liderado por sua vaca Maol. fornecia leite suficiente para sustentar todo o exército de Fergus e da rainha Medb.


fontes:
  • MONAGHAN, P. Encyclopedia of goddesses and heroines. Novato, California: New World Library, 2014.
  • MONAGHAN, P. The encyclopedia of Celtic mythology and folklore. New York, N.Y.: Checkmark Books, 2008.


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8 de abril de 2026

Porco Preto

۞ ADM Sleipnir

O Porco Preto é uma entidade do folclore brasileiro associada a narrativas populares das regiões Sul e Sudeste, com registros no município de Campo Largo, no estado do Paraná, e em São Luís do Paraitinga, no estado de São Paulo. Trata-se de uma criatura descrita como um porco de grandes proporções, de coloração negra intensa, que surge em estradas durante noites escuras.

Em Campo Largo, acredita-se que o Porco Preto aparece em estradas ermas, onde persegue pessoas e animais de forma agressiva. É considerado invulnerável a ataques físicos, não sendo afetado por paus, pedras ou disparos de arma de fogo. Segundo os relatos, a perseguição persiste até que a vítima alcance uma área habitada, momento em que a entidade desaparece subitamente. Já em São Luís do Paraitinga, no antigo beco do Império (atual rua da Ponte), sobre o rio Paraitinga, a tradição descreve a aparição de um grande porco negro que, à meia-noite, atravessa repetidamente a estrada de um lado a outro, sem jamais ser capturado. Nessa variante, a entidade apresenta um caráter mais elusivo do que agressivo, ressaltando sua natureza misteriosa e inatingível.


fontes:
  • ALCEU MAYNARD ARAÚJO. Estórias e lendas de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Ed. Literat. 1962;
  • CASCUDO, L. DA C. Dicionario do folclore brasileiro. 9° Edição. 2000.

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7 de abril de 2026

Geochinyeo

۞ ADM Sleipnir

Geochinyeo (coreano: 거치녀; hanja: 鋸齒女, literalmente “mulher de dentes serrilhados”) é uma criatura do folclore coreano registrada em obras históricas como o Gieon (1) (coreano 기언, “Registros de Palavras”) e o Yeollyeosil Gisul (2) (coreano 연려실기술, “Registros do Pavilhão da Lamparina"). É descrita como uma figura feminina monstruosa, caracterizada por dentes semelhantes a lâminas de serra e uma aparência aterradora. Em algumas fontes, também é chamada de Gapsan-gwae (coreano 갑산괴, “monstro de Gapsan”), em referência ao local onde teria sido avistada.

Registros históricos

O principal relato envolvendo a Geochinyeo data do ano de 1583, durante o reinado do rei Seonjo, na dinastia Joseon. Nesse período, o erudito Heo Bong (1551–1588), após ser alvo de intrigas políticas, foi exilado para a região de Gapsan, na província de Hamgyeong.

Segundo a tradição, naquele verão surgiu na região uma figura feminina monstruosa, descrita como possuidora de grandes dentes serrilhados e cabelos desgrenhados. A entidade carregava um arco na mão esquerda e fogo na mão direita, compondo uma imagem incomum e aterradora. Os soldados locais teriam conseguido expulsá-la por meio de práticas rituais e militares, como o toque de tambores e o disparo de flechas.


Após o ocorrido, Heo Bong teria composto um texto de caráter apotropaico conhecido como Chukryeomun (coreano 축려문, “Texto para Expulsar Espíritos Malignos”), destinado a afastar influências malignas. Ao tomar conhecimento desse episódio, o erudito Park Jihwa (1513–1592) teria interpretado a aparição como um presságio, prevendo que, dentro de dez anos, uma grande calamidade surgiria a partir do sul.

Interpretação

A aparição da Geochinyeo é frequentemente interpretada, nas fontes tradicionais, como um presságio da Guerra Imjin (1592–1598), conflito que marcou a invasão japonesa da Coreia. A associação simbólica decorre, em parte, da análise do caractere chinês 倭 (wae), utilizado para designar os japoneses, cuja composição gráfica foi interpretada como evocando elementos semelhantes a um arco e ao fogo — atributos que a criatura portava.

Uma explicação semelhante pode ser encontrada no romance militar anônimo Imjinrok (coreano 임진록,“Registro da Guerra Imjin” ou “Crônicas do Ano Imjin”), no qual eventos sobrenaturais são frequentemente apresentados como sinais precursores de grandes acontecimentos históricos.

Notas:

  • (1) Uma coleção de poemas e prosa de Heo Mok, um funcionário público e erudito do final da Dinastia Joseon, compilada e publicada em 1689;
  • (2) Um livro de história escrito pelo falecido estudioso da Dinastia Joseon, Yi Geung-ik, que descreve a política, a sociedade e a cultura da Dinastia Joseon em forma de narrativa.

fontes:

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6 de abril de 2026

Bila

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Bila (também registrada como Belah) é a personificação do sol na mitologia do povo Adnyamathanha, da região da Cordilheira de Flinders, no sul da Austrália. Ela é descrita como uma deusa solar, refletindo uma característica comum a muitas tradições aborígenes australianas, nas quais o Sol é concebido como uma entidade feminina.

Na mitologia Adnyamathanha, Bila é retratada como uma figura perigosa e canibal. Segundo os relatos, ela iluminava o mundo ao assar suas vítimas sobre uma fogueira, sendo o fogo a origem da luz solar. Para capturar essas vítimas, Bila enviava cães negros e vermelhos, que as arrastavam até ela, e algumas narrativas afirmam que suas ações resultaram até mesmo na destruição completa de aldeias inteiras.

Esses atos despertaram a indignação dos Homens-Lagarto, figuras míticas associadas aos répteis. Entre eles destacam-se Kudnu, o goanna (lagarto-monitor), e Muda, a lagartixa. Horrorizados com o comportamento de Bila, eles a atacaram, e durante o confronto Kudnu a feriu com um bumerangue. Como consequência, Bila fugiu, retirando o Sol do céu e mergulhando o mundo na escuridão. 

Para restaurar a luz, Kudnu lançou seu bumerangue em diferentes direções. Primeiro para o norte, depois para o oeste e para o sul, sem obter sucesso. Por fim, ao arremessá-lo para o leste, o bumerangue capturou Bila e a obrigou a percorrer um arco lento pelo céu, elevando-se acima do horizonte e retornando em direção ao oeste. Esse movimento passou a explicar o trajeto diário do Sol no firmamento e o retorno da luz ao mundo. Como reconhecimento pelo feito de Kudnu e pela salvação da humanidade, os Adnyamathanha passaram a tratar com respeito os lagartos, especialmente os goannas e as lagartixas, que não devem ser mortos. 

fontes:


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Ruby