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O Kushikiroku (ou Kushiki-roku; 九色鹿, “Cervo das Nove Cores”) é uma figura presente em narrativas budistas transmitidas da Índia para a China e posteriormente para o Japão. O personagem aparece em histórias relacionadas aos Jātakas, conjunto de relatos sobre as vidas anteriores de Siddhārtha Gautama antes de alcançar a iluminação e tornar-se o Buda histórico.
A narrativa encontra-se registrada em textos budistas como o Fo shuo Jiuse lu jing (佛説九色鹿経, "Sutra do Cervo das Nove Cores") e o Liudu jijing (六度集経, “Coleção das Seis Perfeições”). Também foi representada nos murais das Grutas de Mogao, em Dunhuang, na China. No Japão, versões da história aparecem em coleções medievais como o Konjaku Monogatari-shū (今昔物語集, “Coletânea de Histórias de Agora e de Antigamente”) e o Uji Shūi Monogatari (宇治拾遺物語, “Coletânea de Histórias Recolhidas em Uji”).
Narrativa
Uma das versões japonesas mais conhecidas encontra-se no volume 5 do Konjaku Monogatari-shū, em um relato cujo título pode ser traduzido como “História do cervo de nove cores que vivia nas montanhas, foi até a margem de um rio e salvou um homem”. Segundo essa versão, em tempos antigos vivia nas montanhas da Índia um cervo extraordinário, cuja pelagem apresentava nove cores e cujos chifres eram brancos como a neve. Próximo ao local corria um rio, onde também vivia um corvo que mantinha amizade com o cervo havia muitos anos.
Certo dia, um homem caiu no rio e começou a ser arrastado pela correnteza. Prestes a se afogar, clamou pela ajuda das divindades. Ao ouvir seus gritos, o cervo entrou na água, permitiu que o homem subisse em suas costas e o levou em segurança até a margem. Agradecido, o homem perguntou como poderia recompensá-lo. O cervo pediu apenas que jamais revelasse sua existência nem o lugar onde vivia, explicando que sua pelagem e seus chifres excepcionais certamente despertariam a cobiça dos homens e poderiam levá-lo à morte. O homem prometeu guardar o segredo e retornou ao seu povoado.
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| Arte de liziye |
Algum tempo depois, a rainha daquele reino sonhou com um cervo de nove cores e chifres brancos como a neve. Fascinada pelo animal, passou a desejar sua pele e seus chifres. Seu desejo tornou-se tão intenso que ela adoeceu e pediu ao rei que ordenasse sua captura. O monarca anunciou então uma grande recompensa em ouro, prata e outros tesouros para quem encontrasse o cervo. Ao tomar conhecimento da promessa, o homem anteriormente salvo pelo animal cedeu à cobiça e revelou ao rei seu esconderijo. O rei reuniu numerosos soldados e partiu para a montanha, tendo o homem como guia.
Ao perceber a aproximação das tropas, o corvo voou até a caverna onde o cervo dormia e tentou alertá-lo. Quando o animal despertou, porém, o vale já estava cercado e suas rotas de fuga haviam sido bloqueadas. Em vez de fugir, o cervo dirigiu-se ao palanquim do rei. Os soldados prepararam-se para abatê-lo, mas o monarca, impressionado com seu comportamento, ordenou que ninguém disparasse.
Diante do rei, o cervo perguntou como seu esconderijo havia sido descoberto. Ao saber que o homem que acompanhava a comitiva fora responsável por revelar sua localização, reconheceu nele aquele que havia salvo do afogamento. O cervo então contou ao rei que havia arriscado a própria vida para salvar aquele homem e, em troca, pedira apenas que seu esconderijo permanecesse em segredo. Segundo a narrativa, uma marca havia surgido no rosto do traidor, interpretada como consequência de sua quebra de promessa. Confrontado pelo cervo, o homem permaneceu sem resposta.
Comovido pelo relato, o rei decidiu poupar o animal e retirou suas tropas. Em seguida, promulgou uma ordem proibindo a matança de cervos em todo o reino e estabelecendo severas punições para quem a desobedecesse. A narrativa afirma que, após esses acontecimentos, o reino passou a desfrutar de chuvas regulares, ausência de ventos destrutivos e epidemias, colheitas abundantes e prosperidade.
O Konjaku Monogatari-shū encerra a história ressaltando o contraste entre a ingratidão humana e a compaixão demonstrada pelo animal, afirmando, em essência, que entre os homens pode haver quem esqueça os benefícios recebidos, enquanto entre os animais pode haver quem salve seres humanos, e que tais acontecimentos existem tanto no passado quanto no presente.
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| Arte de Leo Li |
Identificação dos personagens
- o Cervo das Nove Cores é identificado como uma existência anterior de Gautama Buda;
- o corvo, como uma existência anterior de Ānanda, um de seus principais discípulos;
- a rainha, como Sundarī, uma mulher associada a episódios da tradição sobre a vida de Buda;
- o homem salvo do afogamento, como uma existência anterior de Devadatta, tradicionalmente apresentado em textos budistas como adversário do Buda.
Variantes e versões
A aparência do cervo varia conforme a fonte. Embora seja geralmente descrito com uma pelagem de nove cores e chifres brancos como a neve, algumas versões lhe atribuem coloração dourada. Narrativas japonesas relacionadas, incluindo variantes preservadas no Uji Shūi Monogatari, também mencionam cervos de cinco cores, além de tradições populares envolvendo um “grande cervo de cores extraordinárias” ou grupos de “cinco cervos”.
O Sutra do Cervo das Nove Cores apresenta diferenças em relação à versão do Konjaku Monogatari-shū. Entre elas está uma cena em que o rei repreende diretamente o homem que revelou o esconderijo do cervo. No encerramento, milhares de outros cervos reúnem-se em torno do Cervo das Nove Cores e passam a acompanhá-lo.
Nessa tradição, o animal desempenha o papel de bodisatva, representando uma existência anterior do Buda dedicada à prática da compaixão e das virtudes conducentes à iluminação.
Representações em Dunhuang
A narrativa tornou-se particularmente conhecida por sua representação nas Grutas de Mogao, em Dunhuang, importante complexo budista situado na atual província chinesa de Gansu. Uma das pinturas murais apresenta diferentes episódios da história em uma composição contínua, incluindo o salvamento do homem, sua traição e o encontro do cervo com o rei. O mural constitui um exemplo da circulação e da transmissão visual de narrativas budistas pelas regiões conectadas às rotas que posteriormente seriam conhecidas coletivamente como Rota da Seda.

fontes:
- DIGITAL DUNHUANG. Mogao Cave 257 (莫高窟第257窟). Dunhuang: Dunhuang Academy, [s. d.]. Disponível em: <https://e-dunhuang.com/cave/10.0001/0001.0001.0257>;
- DUNHUANG ACADEMY. Mogao Cave 257 (莫高窟第257窟). Dunhuang: Dunhuang Academy, [s. d.]. Disponível em: <https://www.dha.ac.cn/info/1425/3548.htm>;
- IM, Eun Ae. A study on the “Deer in five colors” story of 92st in Uji-Shui Monogatari: Japan and South Korea in terms of comparative literature. Bunkagaku Nenpō, [S. l.], n. 65, p. 627–662, 2016. Disponível em: <https://cir.nii.ac.jp/crid/1390853649846618880>;
- KANG SENGHUI. Liudu jijing (六度集經): Coleção das Seis Perfeições. In: CBETA: Chinese Buddhist Electronic Text Association. Taishō Tripiṭaka, T0152, [20--?]. Disponível em: <https://tripitaka.zensoul.org/T/T0152/>;
- KONJAKU MONOGATARI-SHŪ. Maki 5, dai 18-wa: Mi no iro kokonotsu-iro naru shika, yama ni sumi, kawa no hotori ni idete hito o tasuketa hanashi (巻5第18話 身色九色鹿住山出河辺助人語). In: Yatagarasu Navi. [S. l.: s. n.], [20--?]. Disponível em: <https://yatanavi.org/text/k_konjaku/k_konjaku5-18>;
- NATIONAL INSTITUTE OF JAPANESE LITERATURE. Konjaku Monogatari-shū (今昔物語集). Tóquio: NIJL, [s. d.]. Disponível em: <https://www.nijl.ac.jp/etenji/bungakushi/contents/detail/detail02-03_009.html>;
- NATIONAL INSTITUTE OF JAPANESE LITERATURE. Uji Shūi Monogatari (宇治拾遺物語). Tóquio: NIJL, [s. d.]. Disponível em: <https://www.nijl.ac.jp/etenji/bungakushi/contents/detail/detail03-01_011.html>;
- TERA. Kushikiroku: Cervo das Nove Cores (九色鹿). In: Yōkai Zukan: Nova Edição TYZ (妖怪図鑑 新版TYZ). [S. l.: s. n.], 31 dez. 2019. Disponível em: <https://tyz-yokai.blog.jp/archives/1076296180.html>;
- UJI SHŪI MONOGATARI. Goshiki no shika no koto (五色鹿事): História do Cervo de Cinco Cores. In: Uji Shūi Monogatari (宇治拾遺物語). Tóquio: Imperial Household Agency, [20--?]. Disponível em: <https://shoryobu.kunaicho.go.jp/Toshoryo/Detail/1000508250004>;
- ZHI QIAN. Fo shuo Jiuse lu jing (佛説九色鹿経): Sutra do Cervo das Nove Cores. In: CBETA: Chinese Buddhist Electronic Text Association. Taishō Tripiṭaka, T0181a, [20--?]. Disponível em: <https://deerpark.app/cbeta/T0181a>.








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