
Goumang (chinês 句芒, Gōu Máng, também chamado Jumang) é uma divindade da mitologia chinesa ligada à primavera, ao crescimento da vida, à agricultura e à região leste do mundo. Ele representa o momento em que a natureza desperta após o inverno, quando as plantas brotam e a vida começa um novo ciclo. Por isso, seu culto sempre esteve associado ao plantio, à fertilidade da terra e aos rituais que marcam o início do ano agrícola.
Nos textos antigos, Goumang aparece de duas maneiras: como um deus propriamente dito e como um cargo ritual, conhecido como Oficial da Madeira (chinês 木正, Muzheng), dentro do sistema cosmológico dos Cinco Elementos (Wuxing). Essa dupla interpretação reflete a visão chinesa antiga de que o universo funcionava como uma grande ordem organizada, semelhante a um império governado por leis rituais. Além disso, Goumang é descrito como um shen (神), um espírito divino, ou como um si (司), um oficial responsável por administrar forças naturais específicas sob a autoridade de soberanos míticos.
Identidade e funções
Goumang é visto como o deus que garante o crescimento das plantas, a fertilidade da terra e a renovação da vida. O elemento madeira, ao qual ele está ligado, simboliza nascimento, expansão e vitalidade. Ao governar a primavera, Goumang assegura que o ciclo natural se renove e que a vida continue seu curso.
Por estar associado ao leste, direção do nascer do sol, ele também é considerado o regente do Oriente, ligado ao ritmo do tempo e às mudanças das estações. Em algumas tradições posteriores, Goumang é relacionado ao planeta Júpiter, que na astronomia chinesa regula os calendários e o fluxo do tempo, reforçando seu papel como guardião da ordem natural.

Origem e natureza divina
As fontes antigas não apresentam uma versão única sobre a origem de Goumang. Em uma tradição, ele é descrito como descendente do imperador mítico Shaohao (少昊, também chamado Di Zhi 帝摯), figura associada à organização do mundo e das direções cósmicas. Em outra interpretação, “Goumang” não seria originalmente um nome divino, mas o título de um cargo sagrado, o de Oficial da Madeira, exercido por um personagem chamado Zhong (重), parente — ou, segundo algumas fontes, filho — de Shaohao.
O texto histórico Zuozhuan (左傳) identifica Goumang com Zhong e afirma que ele era um dos quatro tios do imperador Shaohao. Já o comentário Zhouli zhushu (周禮注疏) diz que Zhong governava especificamente tudo o que dizia respeito ao elemento madeira. Com o tempo, essas versões se fundiram, fazendo com que Goumang fosse visto tanto como um deus independente quanto como uma função dentro da ordem divina do cosmos.
Aparência e iconografia
A descrição mais antiga de Goumang aparece no Shan Hai Jing (山海經, "Clássico das Montanhas e Mares"). Ele é apresentado como uma figura híbrida, com corpo de ave e rosto humano. Em algumas versões, suas pernas são formadas por dois dragões, símbolos do movimento, da força vital e das águas que alimentam a fertilidade da terra.
Essa aparência reflete crenças muito antigas, ligadas ao xamanismo e ao culto das aves, vistas como mensageiras entre o Céu e o mundo humano. Com o passar dos séculos, porém, sua imagem foi se tornando mais próxima do cotidiano. A partir da dinastia Qing, Goumang passou a ser retratado como um jovem pastor montado em um boi, segurando um chicote de salgueiro, símbolo do despertar da primavera e do início do trabalho no campo.

Relação com Fuxi
Goumang mantém uma ligação estreita com Fuxi (伏羲), também conhecido como Taihao (太皞), um dos grandes heróis culturais da tradição chinesa. Enquanto Fuxi é lembrado como um civilizador — inventor de técnicas, regras sociais e símbolos — Goumang aparece como seu auxiliar, ajudando a governar o leste e a estação da primavera.
Algumas lendas afirmam que ambos reinavam no extremo oriental do mundo, próximo à árvore sagrada Fusang (扶桑), local mítico onde o sol nasce. Em representações simbólicas, Goumang e Fuxi seguram instrumentos como o compasso, imagem da ordem cósmica e do equilíbrio entre natureza, tempo e sociedade.
Goumang como deus da vida
Além de sua ligação com a vegetação, Goumang também está associado à vida humana e à continuidade das famílias. O livro Mozi (墨子) relata um episódio em que Goumang aparece a um governante virtuoso e lhe apresenta uma filha de Taihao, prometendo-lhe muitos descendentes. Comentários posteriores esclarecem que esse governante era o Duque Mu de Qin, e não o de Zheng, como se pensava inicialmente.
Esse relato reforça a imagem de Goumang como uma divindade ligada à fertilidade, à prosperidade dos reinos e à legitimidade do poder. Em outras tradições, ele também recompensa governantes justos com longa vida, ampliando seu papel como símbolo do florescimento da vida em todos os sentidos.
Desde a dinastia Han, Goumang passou a integrar os rituais oficiais do Estado, especialmente aqueles realizados no início da primavera. Sacrifícios eram feitos no lado oriental das capitais para pedir boas colheitas e manter a harmonia entre o Céu, a Terra e os seres humanos.
Com o tempo, sobretudo a partir da dinastia Song, sua figura se popularizou e passou a fazer parte das tradições do povo. Um dos rituais mais conhecidos era o açoite simbólico do boi da primavera, uma encenação que marcava o início do trabalho agrícola e celebrava o despertar das forças vitais da natureza.

- YANG, L.; AN, D.; JESSICA ANDERSON TURNER. Handbook of Chinese mythology. [s.l.] Oxford [U.A.] Oxford University Press, 2008;
- STRASSBERG, R. E. A Chinese bestiary : strange creatures from the guideways through mountains and seas = [Shan hai jing]. Berkeley: University Of California Press, 2018;
- 句芒. Disponível em: <https://baike.baidu.com/item/%E5%8F%A5%E8%8A%92/4382>;
- 维基媒体项目贡献者. 句芒. Disponível em: <https://zh.wikipedia.org/wiki/%E5%8F%A5%E8%8A%92>;
- THEOBALD, U. Gou Mang 句芒 (www.chinaknowledge.de). Disponível em: <http://www.chinaknowledge.de/History/Myth/personsgoumang.html>.
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