19 de março de 2026

Bunjil

۞ ADM Sleipnir


Bunjil (também grafado Bundjil, Boonjil ou Bun-jil) é uma divindade criadora e herói cultural na mitologia dos povos aborígenes da nação Kulin, uma aliança de cinco grupos no centro-sul de Victoria, na Austrália. Ele é considerado o criador do mundo e um guardião contínuo da natureza, de seu povo e de suas tradições. Frequentemente representado como uma águia-de-cauda-em-cunha (Aquila audax), a maior ave de rapina australiana, Bunjil teria assumido essa forma após concluir sua obra de criação. Ele é também um dos dois ancestrais da metade clânica dos Kulin, sendo o outro o corvo trapaceiro Waang (também Waa ou Wahn).

Bunjil possui duas esposas (associadas ao cisne-negro em algumas versões), um filho chamado Binbeal (o arco-íris) e um irmão chamado Balayang ou Pailian (o morcego). Ele é auxiliado por seis wirmums (xamãs ou “rapazes” ancestrais que representam clãs da metade clânica Eaglehawk), com grafias variantes conforme o povo: Djurt-djurt/Djart-djart (peneireiro-nanquim), Thara (falcão-codorniz ou milhafre-de-ombros-negros), Yukope (periquito), Dantum/Dantun/Lar-guk (papagaio), Walert/Tadjeri (gambá-de-cauda-espessa ou pequeno marsupial predador conhecido como fascolgale) e Turnong/Turnung/Yurran (gambá-planador).

Bunjil (direita) e Waang (esquerda)

Lendas

Uma tradição do povo Boonwurrung relata um tempo de conflito entre as nações Kulin, quando as pessoas passaram a discutir e lutar entre si, negligenciando suas famílias e a terra. O caos crescente e a desunião enfureceram o mar, que começou a subir até cobrir as planícies e ameaçar inundar todo o território. Desesperado, o povo recorreu a Bunjil e pediu sua ajuda para impedir que as águas continuassem a subir. Bunjil concordou em ajudá-los, mas apenas sob a condição de que mudassem seu comportamento, respeitando as leis e uns aos outros. Em seguida, ele caminhou até o mar, ergueu sua lança e ordenou que as águas parassem de subir.

Segundo outra tradição, após criar as montanhas, rios, plantas, animais e as leis que deveriam guiar a vida humana, Bunjil reuniu suas esposas e filhos. Então pediu a Waang, guardião dos ventos, que abrisse suas bolsas e deixasse o vento escapar. Waang abriu uma das bolsas onde guardava redemoinhos, liberando um ciclone que arrancou árvores pela raiz. Bunjil pediu então um vento ainda mais forte. Waang obedeceu, e a rajada poderosa ergueu Bunjil e seu povo para o céu. O próprio Bunjil transformou-se na estrela Altair, enquanto suas duas esposas, associadas aos cisnes-negros, tornaram-se estrelas situadas de cada lado dele.

Algumas tradições também afirmam que Bunjil deixou o mundo dos humanos a partir da ilha de Deen Maar, um local considerado sagrado em certas narrativas aborígenes.

‘Heaven Comes Down’ – Arte de Safina Stewart


Abrigo de Bunjil (Bunjil's Shelter)

Durante o Tempo do Sonho (período mítico da criação no qual os ancestrais moldaram o mundo), os Kulin creem que Bunjil se abrigou em uma caverna na região de Gariwerd (conhecida hoje como Grampians), parte da Reserva Cênica Black Range, perto de Stawell, em Victoria. O sítio contém antigas pinturas rupestres que representam Bunjil acompanhado por dois dingos, sendo atualmente uma atração turística e um dos principais locais de arte aborígene da região.

O local possui grande importância cultural para os Povos Tradicionais da região de Gariwerd, do Wimmera e do sudoeste de Victoria, que mantêm vínculos históricos e espirituais com esse patrimônio ancestral.



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18 de março de 2026

Mimirã

۞ ADM Sleipnir

Mimirã é uma figura do folclore do povo Macuxi, grupo indígena que habita a região de Roraima, no norte do Brasil. A entidade aparece em narrativas tradicionais associadas ao medo e a experiências inquietantes em ambientes fechados. No dialeto macuxi, o nome mimirã costuma ser interpretado como algo próximo de “louco babão”, expressão que faz referência ao comportamento perturbador atribuído à criatura nas histórias populares.

Descrição

Nas narrativas da tradição oral, o Mimirã é descrito como uma criatura humanoide de aparência pálida, magra e desengonçada, frequentemente retratada com traços físicos deformados ou grotescos. A entidade estaria ligada sobretudo a espaços confinados, como cabanas ou outros locais fechados, onde sua presença seria percebida por meio de sensações de medo, inquietação ou perturbação entre aqueles que permanecem nesses lugares.

Origem da lenda

Uma versão da história conta que o Mimirã teria sido, em vida, um jovem macuxi que acabou sendo expulso de sua comunidade por apresentar comportamentos considerados perturbadores. Durante um ritual de passagem para a vida adulta, realizado nas proximidades do Monte Roraima, o jovem teria afirmado estar sendo perseguido por uma entidade chamada “Mãe da Lua”.

Mesmo assim, ele completou o ritual, que incluía subir até o topo do monte. Quando voltou à aldeia, no entanto, seu comportamento e sua aparência teriam mudado de forma estranha, o que passou a assustar os outros membros da comunidade. Diante disso, os líderes da aldeia decidiram expulsá-lo.

Morte e transformação

Segundo a lenda, o jovem deixou a aldeia levando apenas alguns de seus poucos pertences e seguiu sozinho pela floresta. Em determinado momento, teria sido capturado por forasteiros, que o aprisionaram em uma caverna nas proximidades do Monte Roraima. Ali ele teria morrido algum tempo depois, vítima de fome, sede e ferimentos.

Após sua morte, seu espírito teria passado a vagar pela região. De acordo com as histórias contadas na tradição popular, esse espírito tornou-se o Mimirã, uma entidade que assombra lugares fechados e perturba aqueles que se encontram nesses espaços.

Interpretações

Como muitas lendas da tradição oral, a história do Mimirã pode ter diferentes versões e interpretações. Em alguns casos, ela é vista como um relato sobre o medo do desconhecido ou sobre pessoas que eram consideradas diferentes dentro da comunidade. Também pode funcionar como uma história de advertência, usada para explicar sensações de medo ou desconforto em lugares isolados ou confinados.

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17 de março de 2026

Crom Cruach

۞ ADM Sleipnir

Arte de Ken Duerksen

Crom Cruach (irlandês antigo: Cromm Crúaich) é uma divindade ou ídolo associado à religião pagã da Irlanda pré-cristã. As principais informações sobre ele provêm de fontes medievais cristãs, especialmente textos de dindshenchas (tradições sobre a origem de lugares) e narrativas hagiográficas relacionadas a São Patrício. Nessas fontes, Crom Cruach aparece como uma figura central de culto em Magh Slécht, no atual condado de Cavan, sendo descrito como um ídolo cercado por doze outras imagens e associado a rituais destinados a garantir fertilidade e prosperidade.

A tradição cristã afirma que o culto a Crom Cruach teria sido encerrado por São Patrício, que destruiu sua imagem cultual durante o processo de cristianização da Irlanda. Embora essas narrativas sejam importantes para a compreensão da tradição literária medieval, estudiosos consideram que muitas delas refletem interpretações ou reelaborações cristãs de crenças pagãs anteriores.


Nome e etimologia

O nome Crom Cruach aparece em diferentes formas nas fontes medievais, incluindo Cromm Crúaich, Crom Cróich, Cenn Cruach e Cenncroithi.

O elemento crom (ou cromm) significa “curvado”, “inclinado” ou “dobrado”. Já cenn significa “cabeça”, podendo também ter o sentido de “chefe” ou “principal”. O termo cruach possui vários significados possíveis, incluindo “monte”, “pilha” ou “amontoado”, geralmente aplicado a feixes de grãos, feno ou outros produtos agrícolas. Por extensão, também pode designar colinas ou montes que lembram pilhas de colheita.

Essas diferentes interpretações levaram a várias propostas de tradução para o nome da divindade, como “o curvado do monte”, “cabeça do monte” ou outras variantes simbólicas. Algumas interpretações também relacionam o nome a ideias de sacrifício ou sangue, embora essa associação seja discutida entre os pesquisadores.

Referências literárias

A principal referência a Crom Cruach aparece em um poema de dindshenchas preservado no Livro de Leinster, compilado no século XII, mas baseado em tradições consideradas mais antigas. O texto descreve o ídolo de Crom Cruach como uma figura central de ouro cercada por doze figuras de pedra ou bronze, situada em Magh Slécht (“planície da prostração”).

Segundo a narrativa, o deus recebia sacrifícios para garantir abundância de leite e grãos, o que sugere uma possível função como divindade ligada à fertilidade ou à prosperidade agrícola. Em algumas versões da tradição, esses rituais incluiriam sacrifícios humanos, especialmente de primogênitos. No entanto, muitos estudiosos consideram que essa descrição pode refletir influências das tradições bíblicas ou da literatura cristã medieval, sendo difícil determinar até que ponto corresponde a práticas religiosas históricas.


Outro episódio associado ao culto afirma que o Alto Rei Tigernmas e grande parte de seus seguidores teriam morrido enquanto prestavam culto a Crom Cruach durante o festival de Samhain. A narrativa afirma que três quartos dos homens da Irlanda teriam perecido nesse evento em Magh Slécht.

Nas tradições hagiográficas medievais, como a Vita Tripartita Sancti Patricii  ("A Vida Tripartida de São Patrício"), o santo teria destruído a imagem do deus ao erguer seu báculo, fazendo com que o ídolo principal caísse e os demais afundassem na terra. Algumas versões acrescentam que um demônio que habitava a imagem foi expulso por Patrício e lançado ao inferno. Esse episódio tornou-se um elemento recorrente nas lendas sobre a cristianização da Irlanda.

Crom Cruach e São Patrício. Ilustração de L.D. Symington.

Interpretações religiosas

As descrições do culto sugerem que Crom Cruach poderia ter desempenhado diferentes funções simbólicas dentro da religião irlandesa antiga. A associação com pedidos de abundância agrícola levou alguns estudiosos a interpretá-lo como um deus da fertilidade.

Outra interpretação baseia-se na descrição da imagem central coberta de ouro e rodeada por doze figuras, o que já foi interpretado como uma possível representação solar, na qual a figura central simbolizaria o Sol cercado por doze entidades associadas aos ciclos do ano ou aos signos do zodíaco. Essa hipótese, porém, permanece especulativa.

Algumas tradições populares também descrevem a divindade com postura curvada, às vezes carregando um feixe de grãos sobre as costas, o que poderia relacioná-la simbolicamente ao trabalho agrícola e à colheita.

Relações com outras figuras

Crom Cruach é frequentemente associado à figura folclórica Crom Dubh, uma personagem presente em tradições populares irlandesas posteriores. O nome Crom Dubh, que pode ser traduzido como “o curvado negro”, aparece ligado a festividades sazonais, especialmente ao Domhnach Crom Dubh (“Domingo de Crom Dubh”), celebrado no primeiro domingo de agosto. Alguns estudiosos consideram que Crom Dubh pode representar uma transformação folclórica tardia da antiga divindade ou de tradições relacionadas ao seu culto.

Evidências arqueológicas

Alguns achados arqueológicos foram associados ao possível culto de Crom Cruach. Um dos mais citados é a chamada Pedra de Killycluggin, descoberta em 1921 no condado de Cavan. A pedra possui forma arredondada e é decorada com motivos da cultura La Tène da Idade do Ferro. Ela foi encontrada fragmentada e parcialmente enterrada perto de um círculo de pedras da Idade do Bronze, sugerindo que o local pode ter tido importância ritual. Apesar de seu estado fragmentário, a pedra foi parcialmente reconstruída e atualmente é preservada no Museu do Condado de Cavan, enquanto uma réplica foi colocada próximo ao local da descoberta.

Pedra de Killycluggin

Outro monumento que já foi relacionado à tradição de Crom Cruach é uma pedra ereta em Drumcoo, no condado de Fermanagh, que apresenta a figura gravada de um homem caminhando, interpretada por alguns como São Patrício ou como um druida.

Pedra de Drumcoo


Interpretação histórica

A maior parte das informações sobre Crom Cruach provém de textos cristãos medievais, escritos séculos após a provável existência do culto. Por isso, muitos historiadores consideram que as descrições podem refletir interpretações cristãs destinadas a retratar os antigos cultos pagãos como demoníacos ou bárbaros, especialmente no contexto da narrativa da conversão da Irlanda. Durante a expansão do cristianismo na Europa, era comum que antigas divindades fossem reinterpretadas como demônios ou ídolos malignos, processo que provavelmente influenciou a forma como Crom Cruach foi retratado nas fontes medievais.

Apesar dessas limitações, Crom Cruach permanece uma das figuras mais conhecidas associadas às tradições religiosas da Irlanda pré-cristã e continua sendo objeto de interesse em estudos sobre mitologia celta, religião comparada e história cultural da Irlanda.

Cultura Popular
  • No longa de animação irlandês The Secret of Kells (2009), Crom Cruach é retratado como uma criatura serpentina de um único olho, associada às trevas e ao desaparecimento das fadas; o herói precisa derrotá‑lo para obter a “lente” que permitirá iluminar o Livro de Kells;
  • Ensaios sobre Crom Cruach apontam que o deus fictício “Crom” de Robert E. Howard (adorado pelos cimérios e invocado por Conan) foi inspirado no nome e na reputação sombria de Crom Cruach;
  • O escritor Brian McNaughton incorporou Crom Cruach ao Mythos de Cthulhu como uma entidade ligada a Shub‑Niggurath, aparecendo descrito como um verme ou dragão colossal; materiais de RPG da Chaosium o utilizam como deus ou monstro para cenários de horror cósmico.
  • Na série de fantasia Sláine, de Pat Mills, Crom Cruach aparece como um monstruoso "verme do tempo" alimentando-se da miséria humana;
  • Em High School DxD, Crom Cruach aparece como um “Evil Dragon” conhecido como “Crescent Circle Dragon”, descrito como o mais poderoso dos dragões malignos;
  • Na franquia de jogos Megami Tensei / Shin Megami Tensei, Crom Cruach aparece como demônio/Persona, tipicamente classificado entre criaturas dracônicas, e seu verbete in‑game o descreve como antigo deus de fertilidade irlandês que exigia sacrifícios humanos, derrotado por São Patrício.
  • No cardgame Cardfight Vanguard, há uma carta inspirada no deus chamada Dark Knight, Crow Cruach;
  • No MMORPG Mabinogi (Nexon), Cromm Cruaich é o chefe da “Geração 3”, reapresentado como dragão poderoso ligado a antigos cultos irlandeses. Já em Vindictus, prequel de Mabinogi, Cromm Cruaich retorna como chefe final da segunda temporada, com forma humanoide e status de “deus demônio”.
  • A banda irlandesa de folk metal Cruachan lançou a faixa “Crom Cruach” no álbum Blood for the Blood God (2014), apresentando o deus como ídolo sedento de sangue e senhor sombrio da colheita, em consonância com a leitura moderna de um deus de sacrifícios.
  • Há também uma banda de metal com o nome Crom Cruach, ativa pelo menos desde meados da década de 2010, cujo repertório inclui faixas como “Blood Sucker, Goat Fucker” no álbum Defilers of the Noise.
Arte de @metalratrox

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16 de março de 2026

Sraosha

۞ ADM Sleipnir


Sraosha (avéstico sraoša, médio-persa Srōš) é uma das mais importantes divindades (yazatas) do zoroastrismo. Seu nome deriva da raiz indo-iraniana sru/sraw- (“ouvir”), da qual se desenvolveu o sentido religioso fundamental de “ouvir e obedecer”. Por isso, Sraosha personifica a obediência consciente à palavra sagrada, a disciplina ritual e a escuta correta da revelação divina (mantra). Sua popularidade foi tamanha que sua figura foi preservada no Islã iraniano sob a forma do anjo Sorush.

Natureza e significado religioso

No Avesta (conjunto de escrituras sagradas do zoroastrismo), o termo sraoša aparece tanto como substantivo comum, indicando obediência, atenção e disciplina, quanto como nome próprio de uma entidade divina. Esse duplo uso reflete sua natureza ambígua: Sraosha é, ao mesmo tempo, um princípio abstrato e uma figura personificada. Diversos derivados do termo reforçam sua associação com obediência, punição corretiva e autoridade disciplinar, incluindo conceitos de vigilância e aplicação da ordem religiosa.

Nas Gāthās, os hinos mais antigos do Avesta, tradicionalmente atribuídos ao profeta Zaratustra (também conhecido como Zoroastro), Sraosha ocupa posição de destaque ao lado de entidades centrais como Asha (Verdade/Ordem) e Vohu Manah (Boa Mente). Nesses textos, ele está diretamente ligado à correta escuta e aceitação da palavra de Ahura Mazda/Ohrmazd, sendo invocado como a própria obediência que conduz o ser humano à verdade. Ainda que não figure posteriormente entre os Amesha Spentas (as seis grandes emanações divinas de Ahura Mazda que governam aspectos fundamentais da criação), sua importância já é plenamente afirmada nesse estrato mais antigo da tradição.


Funções rituais e sacerdotais

No Avesta posterior, a esfera de atuação de Sraosha se amplia consideravelmente. Ele passa a ser associado não apenas à escuta da palavra sagrada, mas também ao ritual, à fala correta e à religião como um todo. Segundo a tradição, foi o primeiro a espalhar o barsman, a recitar as cinco Gāthās de Zaratustra e a realizar o culto completo, o que o caracteriza como uma divindade de função eminentemente sacerdotal. Por ter recebido diretamente de Ahura Mazda a revelação da religião, Sraosha  é descrito como mestre e transmissor da lei sagrada. Suas armas rituais não são apenas físicas, mas também espirituais, como orações fundamentais e os próprios atos sacrificiais.

Guerreiro e protetor do mundo material

Paralelamente à sua função sacerdotal, Sraosha é retratado como um guerreiro poderoso e incansável. Os textos o descrevem como jovem, belo, alto e dotado de grande força física, armado com uma clava de madeira. Ele é veloz, corajoso e temido, especialmente pelas forças demoníacas. Seu papel como guardião do mundo material é central: Sraosha permanece vigilante, sobretudo à noite, quando os demônios são mais ativos, protegendo a criação de Ahura Mazda contra a desordem e o mal. É o antagonista direto da entidade demoníaca da Ira (Aeshma), a quem derrota repetidamente, afastando calamidades, fome e destruição das casas, comunidades e territórios onde é devidamente venerado.

Tradição tardia e escatologia

Na literatura pahlavi (textos religiosos escritos em médio-persa entre a Antiguidade tardia e a Idade Média), o papel de Sraosha é ainda mais ampliado. Ele passa a atuar, ao lado de Mitra e Rashnu, no julgamento das almas após a morte, na Ponte Chinvat. Nos três primeiros dias após o falecimento, Sraosha protege a alma contra ataques demoníacos; no quarto dia, conduz o espírito até o local do julgamento. No fim dos tempos, durante o Frašegird (a renovação final do mundo, quando o mal será definitivamente destruído e a criação restaurada), ele acompanhará Ahura Mazda no julgamento final das almas e na derrota definitiva das forças do mal.


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15 de março de 2026

Keshi

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Keshi (sânscrito: केशी; Keśi, derivado de Keśin, “o de longos cabelos”) é um asura em forma de cavalo da mitologia hindu, conhecido principalmente por ter sido morto por Krishna, um dos avatares do deus Vishnu. Keshi foi enviado por Kamsa, rei de Mathura e tio materno de Krishna, que estava destinado, segundo a profecia, a morrer pelas mãos do sobrinho.

O episódio da morte de Keshi é narrado em importantes textos sagrados do hinduísmo, como o Bhagavata Purana, o Vishnu Purana e o Harivamsa. Nessas escrituras, Krishna é frequentemente chamado de Keshava, um de seus epítetos, que significa “o matador de Keshi”.
Escultura em terracota do século V d.C., pertencente ao
período Gupta da Índia, retratando Krishna matando o asura Keshi. 



Mitologia

Kamsa, governante tirânico de Mathura, havia sido alertado por uma profecia de que seria morto por um dos filhos de sua irmã Devaki. Para evitar esse destino, ele tentou eliminar todos os filhos dela. No entanto, Krishna sobreviveu e foi criado em Gokula por seus pais adotivos, Yashoda e Nanda.

Após Krishna derrotar o demônio touro Arishta, o sábio divino Narada revela a Kamsa que Krishna é, de fato, o filho de Devaki e que a criança do sexo feminino que ele havia matado por engano era, na verdade, filha de Yashoda. Enfurecido com a revelação, Kamsa envia o demônio Keshi com a missão de matar Krishna e seu irmão Balarama.

Keshi surge em Gokula assumindo a forma de um cavalo gigantesco, capaz de se mover à velocidade do pensamento. Com seus cascos, ele destrói a terra, e com sua crina espalha nuvens e carros celestiais pelo céu. Seu relinchar causa pânico entre os habitantes da região. Para deter a destruição, Krishna enfrenta Keshi em combate. O demônio investe contra ele com violência, tentando golpeá-lo com os cascos. Krishna, porém, segura as pernas do cavalo e o arremessa a grande distância. Mesmo após a queda, Keshi se levanta e tenta atacar novamente, abrindo a boca para devorar Krishna. Nesse momento, Krishna introduz o braço esquerdo na boca do demônio; seu braço se expande, fazendo com que Keshi se sufoque até morrer. Ao cair no chão, o demônio abandona a forma de cavalo e revela sua verdadeira natureza demoníaca.

Após a morte de Keshi, os deuses e o sábio Narada exaltam Krishna por sua vitória. Narada agradece a Krishna por eliminar um demônio tão poderoso, cujo simples relinchar já era suficiente para aterrorizar até mesmo os deuses. Ele também profetiza os feitos futuros de Krishna, incluindo a inevitável morte de Kamsa.


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14 de março de 2026

Chenghuang

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Chenghuang (chinês 乘黄, lit. “montaria amarela”, também grafado 騰黃/腾黄 e frequentemente associado aos nomes Feihuang,飞黄 e Zihuang, 紫黄)  é uma criatura mítica da mitologia chinesa associada à longevidade, à transcendência espiritual e aos presságios favoráveis associados ao governo virtuoso. Ela é mencionada no Shan Hai Jing (chinês: 山海經, “Clássico das Montanhas e Mares”) como um ser extraordinário da chamada “Terra do Povo Branco” (白民之国, Baimin zhi guo), localizada “ao norte de Longyu”, um lugar descrito como habitado por pessoas de corpo branco e cabelos soltos.

No relato presente no Shan Hai Jing, o Chenghuang é descrito como um animal de forma incomum, semelhante a uma raposa com chifres nas costas. O texto afirma ainda que qualquer pessoa que o monte poderá viver por até dois mil anos. Em algumas tradições, o Chenghuang passou a ser retratado como uma criatura de aparência mais majestosa, às vezes comparada a um cavalo divino amarelo, podendo possuir asas de dragão ou outros atributos sobrenaturais.


Ao longo do tempo, estudiosos e compiladores de textos chineses passaram a relacionar o Chenghuang com outras montarias auspiciosas da tradição, especialmente o Feihuang (飞黄) e o Zihuang (紫黄). Em certos textos antigos, como o Huainanzi (chinês 淮南子; "Os Mestres/Filósofos de Huainan"), o Feihuang é descrito como um sinal de que “o mundo possui o Dao”, isto é, de que a ordem moral e cósmica está em harmonia.

Algumas tradições também associam essas criaturas ao Imperador Amarelo (黄帝), um dos soberanos míticos da China. Segundo essas narrativas, ele teria montado uma dessas montarias sobrenaturais em sua jornada de ascensão ao plano divino. Por causa dessas associações, o Chenghuang passou a ser interpretado não apenas como um animal fantástico, mas como um símbolo de auspício e legitimidade divina. Sua aparição indicaria a presença de um governante virtuoso e a harmonia entre Céu, Terra e a ordem humana.

Arte de AKERS Y.R.F.


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Ruby