Abhartach (também grafado Abhartagh, Abartach ou Avartagh) é um personagem do folclore irlandês associado às tradições sobre mortos-vivos. Sua lenda está ligada à região de Slaughtaverty (também registrada como Slaghtaverty ou Laghtaverty), próxima à atual vila de Glenullin, no condado de Londonderry, na Irlanda do Norte. O personagem foi registrado pela primeira vez por escrito pelo historiador irlandês Patrick Weston Joyce em The Origin and History of Irish Names of Places (1870), a partir de tradições orais da região.
O nome abhartach, de origem irlandesa, pode ser traduzido como "anão" ou "homem pequeno". Em muitas versões da lenda, ele é descrito como um homem de baixa estatura ou com alguma deformidade física. Independentemente da aparência, as narrativas o apresentam como um governante tirânico, praticante de magia e temido por seus súditos.
A lenda
Segundo a tradição registrada por Patrick Weston Joyce, Abhartach era um governante local conhecido por sua tirania e por seus conhecimentos de magia. Após ser morto por um chefe vizinho, foi sepultado, mas retornou do túmulo. Em vez de permanecer morto, voltou a exercer seu domínio sobre a população, obrigando o guerreiro a enfrentá-lo novamente. Mesmo depois de ser morto e enterrado outras vezes, Abhartach continuava retornando à vida.
Sem conseguir impedir seu retorno, o guerreiro procurou a orientação de um druida. O sábio explicou que Abhartach somente poderia ser derrotado mediante um ritual específico, que consistia em matá-lo com uma arma feita de madeira de teixo, enterrá-lo de cabeça para baixo e colocar uma grande pedra sobre sua sepultura para impedir que voltasse. Algumas versões posteriores também mencionam o uso de galhos de árvores consideradas sagradas, como o espinheiro (hawthorn) e a sorveira (rowan), ao redor do túmulo como parte do ritual.
A tradição local associa a lenda a um antigo monumento conhecido como Slaghtaverty, nome frequentemente interpretado como "sepultura de Abhartach" ou "monumento funerário do anão". O local continua sendo identificado pela tradição popular como o túmulo do personagem, embora não existam evidências arqueológicas que confirmem essa associação.
Local onde Abhartach é dito repousar em Glenullin, Derry
Variantes da tradição
Como ocorre com muitas narrativas do folclore irlandês, a história de Abhartach apresenta diversas variantes transmitidas pela tradição oral. A identidade do guerreiro que o derrota é um dos elementos que mais variam. Na versão registrada por Patrick Weston Joyce, o personagem é descrito apenas como um chefe vizinho. Em outras tradições, o feito é atribuído ao herói Fionn mac Cumhaill, uma das principais figuras da mitologia irlandesa, enquanto recontagens mais recentes identificam o guerreiro como Cathán, associado pela tradição local ao clã O'Cahan (O'Kane).
Também variam as figuras responsáveis por revelar o ritual que impediria o retorno de Abhartach. Nas versões mais antigas esse papel cabe a um druida, ao passo que narrativas posteriores, influenciadas pela cristianização da Irlanda, substituem o sacerdote pagão por um santo local, geralmente identificado como São Eoghan ou São João.
Outros elementos aparecem apenas em adaptações modernas da lenda. Entre eles estão a narrativa segundo a qual Abhartach teria morrido ao cair de uma janela enquanto tentava surpreender sua esposa, suspeitando de infidelidade, e a descrição de que retornava do túmulo para beber o sangue de seus súditos. Embora essas versões tenham contribuído para aproximar o personagem da imagem moderna do vampiro, elas não fazem parte da tradição registrada por Patrick Weston Joyce e representam desenvolvimentos posteriores da narrativa oral.
Abhartach é frequentemente associado ao conceito moderno de vampiro por retornar da morte e alimentar-se de sangue humano. Nas fontes tradicionais irlandesas, porém, ele se aproxima mais da figura do revenant, termo utilizado para designar um morto que retorna ao mundo dos vivos. Da mesma forma, o termo gaélico marbh bheo ou murbhheo significa literalmente "morto-vivo", sendo a tradução como "vampiro" uma interpretação posterior baseada nas características da narrativa.
Alguns pesquisadores sugerem que a lenda de Abhartach possa ter influenciado, direta ou indiretamente, a criação de Drácula, personagem de Bram Stoker. Essa hipótese baseia-se em semelhanças entre as histórias e na origem irlandesa do escritor, mas não existe consenso acadêmico que confirme essa relação.
Borametz (também conhecido como Barometz, Boranetz, Borometz,Agnus Scythicus *("Cordeiro Cita"), Cordeiro Vegetal da Tartária) é uma criatura lendária descrita em relatos europeus como uma combinação de características vegetais e animais. As diferentes versões da tradição apresentam formas distintas para o ser. Em algumas, ele aparece como uma criatura semelhante a um cordeiro que nasce de uma planta ou de um fruto; em outras, permanece ligado ao solo por um caule ou estrutura semelhante a um cordão.
Uma das descrições medievais mais conhecidas aparece em Travels of Sir John Mandeville, obra do século XIV cuja autoria é incerta. O texto relata que, em uma região situada entre a China, a Índia e a Báctria, cresciam frutos semelhantes a cabaças. Quando amadureciam, eram cortados ao meio e revelavam em seu interior uma pequena criatura com carne, ossos e sangue, semelhante a um cordeiro sem lã. Segundo o relato, tanto o fruto quanto a criatura eram consumidos.
Variantes da tradição
Outras versões da lenda descrevem o Borametz de maneira diferente. Nelas, o animal aparece ligado ao solo por um caule ou estrutura semelhante a um cordão. O cordeiro alimenta-se da vegetação que se encontra ao alcance de sua ligação com a planta e morre quando essa ligação é rompida. Em algumas versões, a sobrevivência da criatura também depende da existência de vegetação suficiente ao seu redor.
Essas descrições não formam necessariamente uma única versão original do mito. A tradição foi registrada por diferentes autores ao longo do tempo, e as características do Borametz variam entre as fontes. O estudo de Henry Lee, publicado em 1887, reuniu numerosas descrições históricas e interpretações sobre a origem da lenda.
Paralelos em tradições judaicas
A tradição judaica possui relatos sobre seres associados à terra e à vegetação que apresentam algumas semelhanças com o Borametz. Entre eles estão as referências a Adne ha-sadeh, expressão geralmente traduzida como “senhores do campo” ou “senhores da terra”, e as interpretações posteriores relacionadas ao Jeduah (também Yeduah ou Jadua).
Em comentários medievais, o Jeduah é descrito como uma criatura ligada ao solo por uma estrutura semelhante a um caule. Uma versão apresenta o Jeduah com forma humana, ligado ao caule pelo umbigo e capaz de atacar criaturas que se aproximassem. O ser alimentava-se da vegetação ao seu redor e morria quando sua ligação com a terra era rompida. Algumas versões mencionam que essa ligação poderia ser rompida com flechas.
Os gansos-de-craca
O Borametz também aparece associado, em estudos sobre a tradição dos relatos medievais de maravilhas, a outras histórias sobre a geração de animais a partir de plantas. Em Travels of Sir John Mandeville, a descrição do fruto que conteria um pequeno cordeiro é seguida por uma comparação com os chamados gansos-de-craca.
Segundo a crença medieval mencionada no texto, determinadas árvores produziriam frutos que se transformavam em aves. Os frutos que caíam na água sobreviveriam e dariam origem às aves, enquanto os que caíam em terra morreriam. A passagem mostra que histórias sobre plantas que produziam ou continham animais faziam parte de um conjunto mais amplo de relatos sobre formas extraordinárias de geração. Ela, porém, não demonstra que os gansos-de-craca fossem uma variante direta do Borametz.
Ilustração presente na obra Connubia florum, de Demetrius de La Croix, 1728
O shui-yang e a interpretação de Gustav Schlegel
No final do século XIX, o orientalista Gustav Schlegel publicou um estudo sobre o shui-yang, ou “ovelha-d'água”, e o Cordeiro Cita. Schlegel reuniu relatos chineses sobre uma criatura associada a regiões da Ásia Ocidental e comparou suas características com as descrições europeias do Borametz. Entre os elementos semelhantes apresentados em seu estudo estão a combinação de características vegetais e animais, a ligação do ser ao solo por uma estrutura semelhante a um caule e a morte da criatura quando essa ligação era rompida. Schlegel considerou que os relatos sobre o shui-yang poderiam estar relacionados à tradição europeia do Borametz.
Possíveis origens naturais
Ao longo do tempo, diferentes autores tentaram explicar a origem da lenda por meio de elementos naturais. Henry Lee discutiu a possibilidade de uma relação com o algodão, cuja fibra poderia ter contribuído para histórias sobre uma planta associada à lã. Outras interpretações relacionaram o mito a raízes e rizomas de samambaias-arbóreas moldados artificialmente para adquirir formas semelhantes às de animais.
A espécie Cibotium barometz também foi historicamente associada ao mito, embora essa relação não demonstre que a planta seja a origem comprovada da lenda. Essas explicações pertencem ao campo das interpretações históricas e naturalistas posteriores sobre a tradição do Borametz.
O Ancil (latim ancile, singular; plural: ancilia) é um escudo sagrado da religião da Roma Antiga. Segundo a tradição romana, ele foi enviado pelos deuses durante o reinado de Numa Pompílio, o lendário segundo rei de Roma, tornando-se um dos objetos religiosos mais importantes da cidade. Sua preservação era considerada essencial para a proteção e a continuidade do Estado romano, motivo pelo qual passou a integrar o grupo dos chamados pignora imperii, um conjunto de relíquias cuja existência simbolizava a proteção divina sobre o Estado romano.
Embora seja frequentemente mencionado como um simples escudo, o Ancil possuía um significado muito maior do que o de uma arma defensiva. Ele era uma relíquia sagrada, associada ao favor divino, aos rituais religiosos e à identidade da própria cidade de Roma.
Origem e contexto
O relato sobre o Ancil pertence à religião tradicional romana e aparece em diversas obras da Antiguidade, como os escritos de Tito Lívio, Ovídio, Plutarco, Varrão e Dionísio de Halicarnasso. Apesar de cada autor apresentar pequenas diferenças na narrativa, todos concordam quanto à importância do escudo para a religião e para a legitimidade do poder romano.
Segundo a tradição, durante o reinado de Numa Pompílio, um escudo de bronze caiu do céu como sinal da proteção divina. O acontecimento foi interpretado como uma demonstração de que os deuses favoreciam Roma e de que a cidade permaneceria segura enquanto o objeto fosse preservado.
Para evitar que o escudo fosse roubado ou destruído, Numa teria encarregado o artesão Mamúrio Vetúrio de produzir onze cópias absolutamente idênticas ao original. Dessa forma, tornou-se impossível distinguir qual deles era o verdadeiro escudo enviado pelos deuses. O conjunto formado pelo Ancil original e pelas onze réplicas passou a ser conhecido pelo nome latino ancilia.
Descrição e uso ritual
As fontes antigas descrevem o Ancil como um escudo de bronze de formato incomum. Tradicionalmente, ele é representado com recortes simétricos nas laterais, lembrando, em algumas reconstruções modernas, a forma do número oito ou de um violão. No entanto, essa aparência resulta de interpretações baseadas nas descrições antigas, que não apresentam medidas nem detalhes precisos sobre sua forma.
Os escudos eram guardados pelos Sálios (Salii), um antigo colégio sacerdotal dedicado ao deus Marte. Todos os anos, especialmente durante as celebrações do mês de março, esses sacerdotes percorriam as ruas de Roma carregando os escudos enquanto entoavam antigos hinos religiosos, conhecidos como Carmen Saliare, e executavam uma dança ritual na qual golpeavam os escudos com bastões ou armas cerimoniais. Essas procissões faziam parte do calendário religioso romano e estavam entre os rituais públicos mais antigos da cidade.
Importância para a religião romana
O Ancil era considerado um símbolo da proteção concedida pelos deuses a Roma. Sua importância estava ligada menos ao objeto em si do que ao significado religioso atribuído à sua origem e à preservação dos rituais associados a ele.
Por esse motivo, o escudo costumava ser incluído entre os pignora imperii, os objetos sagrados que, segundo a tradição, garantiam a permanência e a prosperidade do Estado romano. As listas desses objetos variam entre os autores antigos, mas o Ancil aparece com frequência entre eles.
A história do escudo também ilustra a estreita relação entre religião e vida pública na Roma Antiga. Para os romanos, a manutenção dos cultos tradicionais e das cerimônias realizadas pelos sacerdotes era parte essencial da proteção da comunidade e da estabilidade do Estado.
Y'golonac é uma entidade fictícia dos Mitos de Cthulhu, universo compartilhado de horror cósmico inspirado na obra de H. P. Lovecraft e ampliado por diversos escritores ao longo do século XX. Diferentemente de muitas criaturas associadas a esse cenário, Y'golonac foi criado pelo escritor britânico Ramsey Campbell e apareceu pela primeira vez no conto Cold Print ("Impressão Fria"), publicado em 1969. Também conhecido pelo epíteto The Defiler ("O Profanador"), o personagem é uma das criações mais conhecidas de Campbell e está associado à corrupção moral, aos desejos proibidos e à decadência humana.
Origem e contexto
Y'golonac surgiu durante o período em que diversos autores expandiam os Mitos de Cthulhu, criando novas entidades, livros fictícios e cenários próprios. Ramsey Campbell foi um dos principais responsáveis por essa expansão, desenvolvendo localidades imaginárias como Brichester e Goatswood.
Em Cold Print, a entidade é apresentada em associação ao Revelations of Gla'aki ("Revelações de Gla'aki"), um manuscrito proibido fictício dos Mitos de Cthulhu. Na obra de Campbell, esse manuscrito reúne conhecimentos ocultos sobre entidades sobrenaturais e rituais, desempenhando papel central em diversas histórias ambientadas no mesmo universo. Segundo o conto, a leitura de determinadas passagens do manuscrito pode atrair a atenção de Y'golonac ou favorecer sua manifestação.
Arte de MrZarono
Em obras posteriores, Y'golonac passou a ser frequentemente classificado como um dos Grandes Antigos (Great Old Ones), embora essa classificação varie entre diferentes autores e publicações do universo ficcional.
Características
Segundo a narrativa de Cold Print, Y'golonac permanece aprisionado atrás de uma enorme parede de pedra em antigas ruínas subterrâneas. Quando assume uma forma física, costuma aparecer como um homem extremamente obeso, sem cabeça nem pescoço, possuindo grandes bocas nas palmas das mãos, sendo esta sua característica física mais marcante.
A entidade também é capaz de possuir corpos humanos para agir no mundo. Na obra original, procura pessoas atraídas por conhecimentos proibidos, oferecendo-lhes a oportunidade de servir ao seu culto. Aqueles que recusam essa oferta geralmente tornam-se suas vítimas.
Ouktazaun é o nome dado, no folclore religioso de Myanmar, aos espíritos de pessoas mortas condenadas a guardar tesouros. Segundo as crenças registradas por pesquisadores, essas pessoas teriam sido muito apegadas às riquezas durante a vida e, depois da morte, permaneceriam presas a elas. Em vez de possuir os bens desejados, seriam obrigadas a protegê-los. Esses tesouros são geralmente associados ao budismo, especialmente a pagodes e outros lugares sagrados. Podem incluir riquezas, oferendas, relíquias ou objetos depositados nesses locais, embora as fontes não expliquem com precisão quais bens cada espírito guardaria.
O nome também aparece nas formas Oússăsaún, Otta-saunk, Ottsa-saunk e Ottsar-saunk. As diferenças resultam das várias maneiras de escrever palavras birmanesas com o alfabeto latino. A pesquisadora Sally Jane Bamford traduz oússăsaún como “espírito de tesouro”.
Origem e natureza
Os ouktazauns pertencem às crenças populares de Myanmar, antiga Birmânia. Eles não fazem parte dos textos canônicos do budismo theravada, mas aparecem em tradições locais que combinam ensinamentos budistas com crenças em fantasmas, possessão e espíritos.
A ideia de que uma pessoa cobiçosa pode se tornar guardiã de riquezas depois da morte está relacionada ao carma. No budismo, o carma corresponde às consequências das ações praticadas durante a vida. Nesse caso, o apego aos bens materiais impediria o morto de se afastar das riquezas que tanto desejou.
Esses espíritos são frequentemente aproximados dos nats, nome dado em Myanmar a diferentes tipos de entidades sobrenaturais. Entre eles há espíritos de mortos, protetores de lugares e seres capazes de causar doenças ou conceder benefícios. O antropólogo Melford E. Spiro considerou os ouktazauns próximos dos nats, mas também ligados aos espíritos perigosos. Eles não devem ser confundidos com os Trinta e Sete Grandes Nats, grupo de entidades especialmente veneradas na religião popular birmanesa.
Não existe uma aparência definida para os ouktazauns. Representações modernas que os mostram como gigantes dourados, seres metálicos ou criaturas formadas por moedas não aparecem nas principais fontes acadêmicas.
"Treasure Golem", criatura oriunda de Dungeons and Dragons, cuja imagem é comumente atribuída ao Ouktazaun
Tradições associadas
Alguns relatos descrevem ouktazauns femininos que assumem a aparência de mulheres atraentes. Em uma versão registrada por Spiro, elas procurariam seduzir homens para que morressem e passassem a ajudá-las na guarda do tesouro. Aqueles que resistissem poderiam sofrer obsessão ou perturbações mentais.
Bamford registra outra forma de compreender esses espíritos. Segundo sua pesquisa, algumas entidades femininas ligadas a tesouros recebem oferendas e são procuradas por pessoas que desejam prosperidade nos negócios ou melhoria financeira. Assim, elas podem ser vistas tanto como espíritos perigosos quanto como entidades capazes de conceder benefícios.
Os ouktazauns também aparecem em encantamentos de exorcismo. Em um desses registros, são mencionados ao lado de nats malignos como espíritos que deveriam abandonar o corpo de uma pessoa possuída. Isso indica que também podiam ser associados a doenças e perturbações.
Relação com os guardiões de pagodes
Em Myanmar existem ainda espíritos chamados thaik nan shin, associados à proteção de tesouros e de espaços sagrados dos pagodes. Algumas fontes tratam esses seres como semelhantes aos ouktazauns, mas não está claro se os dois nomes designam exatamente a mesma categoria.
Os thaik nan shin costumam ser apresentados como espíritos individuais, com nomes, histórias e santuários próprios. O termo ouktazaun, por sua vez, parece ter um sentido mais amplo, usado para espíritos de mortos ligados à guarda de tesouros.
Anselmo é uma figura lendária associada ao município de Maués, no Amazonas, e ao rio Maués-Açu. A tradição sobre o personagem é transmitida principalmente por meio da oralidade e das memórias locais, embora também tenha sido registrada em livros, pesquisas acadêmicas e produções culturais. As versões da lenda apresentam diferenças quanto à vida de Anselmo, às circunstâncias de seu desaparecimento e à sua transformação em uma figura sobrenatural.
O pescador extraordinário
Em uma das versões da tradição, Anselmo era um pescador conhecido por suas habilidades incomuns. Quando saía para pescar, não levava consigo os equipamentos normalmente utilizados pelos demais pescadores. Ainda assim, conseguia capturar grandes quantidades de peixes e era considerado um pescador excepcional.
Também existem relatos segundo os quais Anselmo aparecia às margens de rios distantes, em locais cujo acesso normalmente exigiria uma viagem de barco. As narrativas não explicam como ele chegava a esses lugares, e esse elemento contribuiu para a representação do personagem como alguém dotado de capacidades extraordinárias.
O desaparecimento
O desaparecimento de Anselmo constitui o principal episódio de diversas versões da lenda. Em uma delas, ele teria seguido um boto durante a noite e desaparecido na floresta, sem retornar a Maués. Outras versões afirmam que ele desapareceu durante uma travessia do rio Maués-Açu ou depois de entrar na água para pescar. Em alguns relatos, após buscas, foram encontrados apenas objetos associados a ele, como a canoa, o remo ou o chapéu.
O desaparecimento de Anselmo é interpretado dessa maneira em determinadas versões da lenda. Depois de desaparecer, ele teria passado a existir como um encantado associado às águas. Algumas tradições afirmam que continuou a aparecer na região do rio Maués-Açu. Sua presença é descrita de diferentes maneiras, incluindo aparições sob a forma humana e manifestações associadas ao vento e ao banzeiro, nome dado à ondulação da superfície da água. Em determinadas versões, ele aparece usando um chapéu de palha.
O desencantamento
Existem algumas narrativas segundo as quais Anselmo poderia ser desencantado e retornar à condição humana. Os detalhes variam entre as versões. Em uma delas, o ritual envolve o uso de leite de uma vaca preta e de leite materno; em outra, o desencantamento aparece associado à realização de oferendas aos rios. Esses elementos pertencem a variantes específicas da tradição e não correspondem a um único ritual comum a todas as versões da lenda.
A associação com a Cobra Grande
Algumas versões da tradição associam Anselmo à Cobra Grande, uma grande serpente sobrenatural presente em diversas tradições amazônicas. Nessa variante, ele teria passado a viver no fundo do rio sob a forma da criatura. Em outras narrativas, a relação é menos específica, e Anselmo é descrito apenas como um encantado associado às águas. A transformação em Cobra Grande constitui, portanto, uma vertente importante da tradição, mas não aparece necessariamente em todos os relatos sobre o personagem.
fontes:
LINO, Geovana Natiely Alves. “Anselmo”: apresentações, imaginárias e história sobre a lenda da Cobra Grande na cidade de Maués. 2024. Trabalho acadêmico — Universidade do Estado do Amazonas, Manaus, 2024. Disponível em: <https://ri.uea.edu.br/items/4a31e423-704a-4d6e-a99f-7629d3ad88c1>;
FERREIRA, Arcângelo da Silva (org.). Cultura, memória e imaginário: em busca de outros olhares sobre nuances da história da Amazônia. São Paulo: Alexa Cultural; Manaus: EDUA, 2024. Disponível em: <https://museuvirt.com.br/culturamemoria.pdf>;
Sennentuntschi (também chamada de Sennenpuppe) é uma figura presente em lendas das regiões alpinas de língua alemã, especialmente difundidas na Suíça, mas também registradas na Áustria e em Liechtenstein. As narrativas contam como trabalhadores das pastagens de montanha constroem uma boneca que ganha vida e se volta contra eles. Como ocorre em muitas tradições orais, os detalhes variam conforme a região e não existe uma versão única da história.
O registro impresso mais antigo sobre a Sennentuntschi, identificado pelo folclorista Gotthilf Isler, é o poema austríaco Die drei Melker, publicado em 1839. Posteriormente, folcloristas recolheram numerosas variantes na Suíça e em outras regiões dos Alpes. Embora a narrativa provavelmente circulasse oralmente antes desse período, sua antiguidade exata não pode ser determinada.
Etimologia
O nome Sennentuntschi tem origem no alemão suíço. Senn designa o trabalhador das pastagens alpinas responsável sobretudo pelo processamento do leite e pela produção de queijo e manteiga, enquanto Tuntschi significa “boneca” em alguns dialetos. O nome pode, portanto, ser traduzido aproximadamente como “boneca dos trabalhadores alpinos”. Em determinadas localidades, a figura recebe outros nomes, como Zurrimutzi e Joggäli.
A lenda
Na forma mais conhecida da história, um grupo de trabalhadores sobe às pastagens alpinas para passar o verão cuidando dos animais e produzindo laticínios. Isolados durante vários meses, eles decidem construir uma figura feminina com materiais disponíveis na cabana, como madeira, feno, palha e pedaços de tecido.
Inicialmente tratada como uma brincadeira, a boneca é colocada à mesa, recebe comida e passa a ser considerada uma espécie de companheira. Algumas versões relatam que os homens a levam para a cama ou cometem outros abusos contra ela. Em certos relatos, também realizam uma imitação do batismo cristão, transformando o rito religioso numa brincadeira profana.
A maneira como a boneca ganha vida varia. Em algumas versões, ela começa a comer depois de ser alimentada repetidamente com leite, creme ou mingau. Em outras, um espírito entra na figura após o falso batismo ou como punição por comportamentos como o desperdício de alimentos e a recusa em ajudar um necessitado.
Depois de ganhar vida, a Sennentuntschi começa a falar e, em algumas versões, passa a realizar tarefas humanas. Ela pode cozinhar, limpar a cabana, lavar utensílios, costurar, cuidar dos animais ou ajudar na ordenha. Em alguns relatos, ela inicialmente trabalha para os homens, mas se torna ameaçadora quando eles tentam abandoná-la no fim do verão.
Quando chega o outono e os trabalhadores se preparam para descer ao vale, eles tentam abandonar a boneca na montanha. A Sennentuntschi então exige que um deles permaneça com ela. Em algumas versões, o homem é escolhido por sorteio; em outras, a própria criatura determina quem deverá ficar. Os demais partem. Em algumas versões, olham para trás antes de alcançar o vale; em outras, retornam à cabana ou enviam uma equipe de busca alguns dias depois. Então descobrem que o companheiro foi morto e esfolado, com a pele estendida sobre o telhado ou pendurada na construção.
Interpretações
A lenda da Sennentuntschi costuma ser entendida como uma narrativa de advertência. Dependendo da versão, os trabalhadores são punidos por práticas consideradas contrárias às normas religiosas e comunitárias, como a blasfêmia, o abuso sexual, a crueldade, o desperdício de comida e a profanação do batismo.
A história também foi comparada ao mito grego de Pigmalião, no qual uma figura feminina criada por um homem recebe vida. Apesar da semelhança, não há comprovação de que a tradição alpina derive diretamente do relato clássico.
Em uma interpretação psicológica, a boneca representa uma fantasia alimentada pelo isolamento, que gradualmente se torna mais poderosa do que seus criadores. Essa leitura não explica de forma comprovada a origem da lenda, mas procura compreender seus elementos simbólicos.
Adaptações modernas também relacionam a narrativa à objetificação feminina e à violência. Nessa interpretação, a figura inicialmente tratada como objeto adquire autonomia e se volta contra aqueles que a exploraram. Essa abordagem aparece sobretudo em obras literárias, teatrais e cinematográficas recentes.
A figura do Museu Rético
Em 1978, uma pequena figura feita de madeira, tecido e cabelo foi encontrada no povoado de Masciadon, no vale de Calanca, no cantão suíço dos Grisões. Com cerca de 40 centímetros de altura, o objeto foi incorporado à coleção do Museu Rético, em Chur.
Sennentuntschi incorporado à coleção do Museu Rético, em Chur.
A peça é frequentemente associada à tradição da Sennenpuppe e apresentada como o único exemplar material conhecido relacionado à lenda. Sua idade e sua função original, entretanto, não foram determinadas. Por isso, não é possível confirmar que tenha sido usada da maneira descrita nas narrativas.
Adaptações
Uma das adaptações mais conhecidas é a peça teatral Sennentuntschi, escrita por Hansjörg Schneider e apresentada pela primeira vez em 1972 no teatro Schauspielhaus Zürich. A obra utiliza a lenda para abordar temas como masculinidade, repressão sexual, violência e conservadorismo nas comunidades alpinas. A peça ganhou maior repercussão em 1981, quando uma versão foi transmitida pela televisão suíça. A exibição provocou protestos e denúncias por causa de seu conteúdo, mas os procedimentos judiciais terminaram sem condenação.
Em 2010, o diretor Michael Steiner lançou o filme suíço-austríaco Sennentuntschi. Ambientada nos Alpes suíços em 1975, a produção combina elementos de drama, suspense e mistério, apresentando uma nova interpretação da antiga lenda alpina.
Isler, Gotthilf. Die Sennenpuppe: Eine Untersuchung über die religiöse Funktion einiger Alpensagen. Basel: Schweizerische Gesellschaft für Volkskunde, 1971; 2.ª edição, 1992. Dados da obra utilizados por meio das referências e reproduções apresentadas por Alois Senti e pelo Museu Nacional Suíço.
Apolaki (também registrado na grafia colonial Apolaqui) é uma divindade mencionada em tradições de diferentes povos da ilha de Luzon, nas Filipinas. As principais fontes disponíveis apresentam duas versões distintas: em Pangasinan, ele aparece como um anito associado à guerra, às viagens e à navegação; em uma narrativa kapampangan, é identificado com o Sol e divide o governo do mundo com Mayari, ligada à Lua.
Essas tradições pertencem a regiões e contextos distintos. Por isso, a descrição comum de Apolaki como um “deus filipino do Sol e da guerra” reúne características que não aparecem juntas nas principais fontes antigas. As Filipinas abrigam numerosos povos, línguas e sistemas religiosos, que não formavam um único panteão compartilhado por todo o arquipélago.
Nome e contexto cultural
A forma Apolaqui aparece em documentos do período colonial espanhol. Nessa ortografia, a sequência qu representava o som de k, o que explica a grafia moderna Apolaki.
O nome também pode ser separado como Apo Laki, mas seu significado exato não é conhecido. Algumas interpretações modernas o traduzem como “grande senhor”. A historiadora Rosario Mendoza Cortes, ao analisar o contexto de Pangasinan, relacionou apo a uma forma respeitosa de tratamento e laki ou laqui a um título honorífico ligado à idade ou à ancestralidade. Com base nessa leitura, o nome poderia ter sentidos aproximados como “senhor venerável” ou “venerável avô”.
Uma das referências mais antigas conhecidas encontra-se em uma obra do missionário dominicano Diego Aduarte, publicada em 1640. O episódio ocorre durante a expansão das missões cristãs em Pangasinan, no noroeste de Luzon. Segundo o relato, um grupo atravessava uma região montanhosa quando ouviu uma voz invisível lamentando-se. Ao ser questionada, ela se identificou como Apolaki. Os habitantes locais reconheceram a entidade como seu anito e disseram que realizavam festas em sua homenagem.
Aduarte comparou sua posição à de Marte, o deus romano da guerra. A comparação indica uma possível ligação com os combates, mas reflete a tentativa de um autor europeu de explicar uma divindade indígena por meio de referências conhecidas por seus leitores. A fonte não afirma que Apolaki possuísse os mesmos símbolos ou atributos de Marte. O cronista também relata que ele era invocado quando as pessoas navegavam ou partiam em viagens relacionadas aos seus negócios. A passagem sugere uma função de proteção durante deslocamentos e expedições comerciais, embora não descreva os rituais realizados nessas ocasiões.
Na continuação da história, Apolaki lamenta que seus seguidores estivessem aceitando os missionários cristãos e colocando cruzes em suas casas. Em seguida, declara que procuraria outros povos que ainda o reconhecessem, pois havia sido abandonado por aqueles que antes o tratavam como seu antigo senhor. O episódio fornece informações importantes sobre sua veneração, mas foi escrito a partir de uma perspectiva cristã. Aduarte considerava as divindades indígenas manifestações demoníacas, e a partida de Apolaqui é apresentada como consequência do avanço do cristianismo na região.
Apolaki e Mayari
Uma tradição diferente foi registrada entre os kapampangans da província de Pampanga, na região central de Luzon. Ela foi narrada por Leopoldo Layug, da cidade de Guagua, e publicada por Dean S. Fansler em Filipino Popular Tales, em 1921. Nesse relato, Bathalagovernava o mundo e possuía dois filhos: Apolaki e Mayari. A luz que iluminava a Terra procedia dos olhos das duas divindades. Após a morte do pai, surgiu uma disputa sobre quem deveria assumir o governo.
Apolaki desejava governar sozinho, enquanto Mayari defendia que ambos possuíam o mesmo direito. Como não chegaram a um acordo, os irmãos iniciaram um combate com bastões de bambu. Durante a luta, Apolaki atingiu Mayari e destruiu um de seus olhos. Arrependido, propôs que os dois dividissem o governo do mundo, exercendo poderes equivalentes em períodos diferentes. Apolaki passou a governar durante o dia como o Sol, enquanto Mayari governaria à noite como a Lua. A menor luminosidade lunar seria explicada pelo fato de Mayari possuir apenas um olho.
A história funciona como um mito explicativo para a alternância entre o dia e a noite e para a diferença de brilho entre o Sol e a Lua. O tema do conflito entre os dois astros também aparece em pequenas canções de ninar kapampangans publicadas por Fansler, embora elas não mencionem necessariamente os nomes de Apolaki e Mayari. O antropólogo Rudolf Rahmann analisou essa narrativa em um estudo comparativo sobre mitos do Sol e da Lua. Ele a identificou como uma tradição de Pampanga e relacionou o ferimento de Mayari a outras histórias filipinas que explicam a luminosidade reduzida ou as marcas visíveis na Lua.
Apolaki na mitologia dos tagalos
Uma terceira caracterização é encontrada em uma compilação sobre as divindades dos antigos tagalos publicada por F. Landa Jocano no século XX. Nela, Apolaki é apresentado como filho de Dumakulem, divindade associada às montanhas, e Anagolay, relacionada aos objetos perdidos. Ele também é descrito como irmão de Dian Masalanta, deusa do amor, da concepção e do parto .
Representações
As fontes antigas não descrevem detalhadamente a aparência de Apolaki. Não há informações seguras sobre suas roupas, armas, cores, animais associados ou símbolos religiosos. Representações modernas costumam mostrá-lo como um guerreiro usando armaduras, lanças ou coroas solares. Porém, esses elementos são interpretações artísticas contemporâneas e não fazem parte de uma iconografia tradicional documentada.
O único objeto mencionado diretamente nas narrativas é o bastão de bambu usado no combate contra Mayari. No relato de Pangasinan, Apolaki manifesta-se apenas como uma voz e não recebe qualquer descrição física.