5 de outubro de 2026

Kushikiroku

۞ ADM Sleipnir

O Kushikiroku (ou Kushiki-roku; 九色鹿, “Cervo das Nove Cores”) é uma figura presente em narrativas budistas transmitidas da Índia para a China e posteriormente para o Japão. O personagem aparece em histórias relacionadas aos Jātakas, conjunto de relatos sobre as vidas anteriores de Siddhārtha Gautama antes de alcançar a iluminação e tornar-se o Buda histórico.

A narrativa encontra-se registrada em textos budistas como o Fo shuo Jiuse lu jing  (佛説九色鹿経, "Sutra do Cervo das Nove Cores") e o Liudu jijing (六度集経, “Coleção das Seis Perfeições”). Também foi representada nos murais das Grutas de Mogao, em Dunhuang, na China. No Japão, versões da história aparecem em coleções medievais como o Konjaku Monogatari-shū (今昔物語集, “Coletânea de Histórias de Agora e de Antigamente”) e o Uji Shūi Monogatari (宇治拾遺物語, “Coletânea de Histórias Recolhidas em Uji”).

Narrativa

Uma das versões japonesas mais conhecidas encontra-se no volume 5 do Konjaku Monogatari-shū, em um relato cujo título pode ser traduzido como “História do cervo de nove cores que vivia nas montanhas, foi até a margem de um rio e salvou um homem”. Segundo essa versão, em tempos antigos vivia nas montanhas da Índia um cervo extraordinário, cuja pelagem apresentava nove cores e cujos chifres eram brancos como a neve. Próximo ao local corria um rio, onde também vivia um corvo que mantinha amizade com o cervo havia muitos anos.

Certo dia, um homem caiu no rio e começou a ser arrastado pela correnteza. Prestes a se afogar, clamou pela ajuda das divindades. Ao ouvir seus gritos, o cervo entrou na água, permitiu que o homem subisse em suas costas e o levou em segurança até a margem. Agradecido, o homem perguntou como poderia recompensá-lo. O cervo pediu apenas que jamais revelasse sua existência nem o lugar onde vivia, explicando que sua pelagem e seus chifres excepcionais certamente despertariam a cobiça dos homens e poderiam levá-lo à morte. O homem prometeu guardar o segredo e retornou ao seu povoado.

Arte de liziye

Algum tempo depois, a rainha daquele reino sonhou com um cervo de nove cores e chifres brancos como a neve. Fascinada pelo animal, passou a desejar sua pele e seus chifres. Seu desejo tornou-se tão intenso que ela adoeceu e pediu ao rei que ordenasse sua captura. O monarca anunciou então uma grande recompensa em ouro, prata e outros tesouros para quem encontrasse o cervo. Ao tomar conhecimento da promessa, o homem anteriormente salvo pelo animal cedeu à cobiça e revelou ao rei seu esconderijo. O rei reuniu numerosos soldados e partiu para a montanha, tendo o homem como guia.

Ao perceber a aproximação das tropas, o corvo voou até a caverna onde o cervo dormia e tentou alertá-lo. Quando o animal despertou, porém, o vale já estava cercado e suas rotas de fuga haviam sido bloqueadas. Em vez de fugir, o cervo dirigiu-se ao palanquim do rei. Os soldados prepararam-se para abatê-lo, mas o monarca, impressionado com seu comportamento, ordenou que ninguém disparasse.

Diante do rei, o cervo perguntou como seu esconderijo havia sido descoberto. Ao saber que o homem que acompanhava a comitiva fora responsável por revelar sua localização, reconheceu nele aquele que havia salvo do afogamento. O cervo então contou ao rei que havia arriscado a própria vida para salvar aquele homem e, em troca, pedira apenas que seu esconderijo permanecesse em segredo. Segundo a narrativa, uma marca havia surgido no rosto do traidor, interpretada como consequência de sua quebra de promessa. Confrontado pelo cervo, o homem permaneceu sem resposta.

Comovido pelo relato, o rei decidiu poupar o animal e retirou suas tropas. Em seguida, promulgou uma ordem proibindo a matança de cervos em todo o reino e estabelecendo severas punições para quem a desobedecesse. A narrativa afirma que, após esses acontecimentos, o reino passou a desfrutar de chuvas regulares, ausência de ventos destrutivos e epidemias, colheitas abundantes e prosperidade.

O Konjaku Monogatari-shū encerra a história ressaltando o contraste entre a ingratidão humana e a compaixão demonstrada pelo animal, afirmando, em essência, que entre os homens pode haver quem esqueça os benefícios recebidos, enquanto entre os animais pode haver quem salve seres humanos, e que tais acontecimentos existem tanto no passado quanto no presente.

Arte de Leo Li

Identificação dos personagens

Como ocorre em numerosos Jātakas, os personagens da narrativa são associados a figuras que posteriormente aparecem na tradição relativa à vida de Gautama Buda:
  • o Cervo das Nove Cores é identificado como uma existência anterior de Gautama Buda;
  • o corvo, como uma existência anterior de Ānanda, um de seus principais discípulos;
  • a rainha, como Sundarī, uma mulher associada a episódios da tradição sobre a vida de Buda;
  • o homem salvo do afogamento, como uma existência anterior de Devadatta, tradicionalmente apresentado em textos budistas como adversário do Buda.
Essas identificações inserem o episódio no contexto das relações cármicas que, segundo a tradição budista, ligariam os personagens de vidas anteriores à existência histórica de Gautama.

Variantes e versões

A aparência do cervo varia conforme a fonte. Embora seja geralmente descrito com uma pelagem de nove cores e chifres brancos como a neve, algumas versões lhe atribuem coloração dourada. Narrativas japonesas relacionadas, incluindo variantes preservadas no Uji Shūi Monogatari, também mencionam cervos de cinco cores, além de tradições populares envolvendo um “grande cervo de cores extraordinárias” ou grupos de “cinco cervos”.

O Sutra do Cervo das Nove Cores apresenta diferenças em relação à versão do Konjaku Monogatari-shū. Entre elas está uma cena em que o rei repreende diretamente o homem que revelou o esconderijo do cervo. No encerramento, milhares de outros cervos reúnem-se em torno do Cervo das Nove Cores e passam a acompanhá-lo.

Nessa tradição, o animal desempenha o papel de bodisatva, representando uma existência anterior do Buda dedicada à prática da compaixão e das virtudes conducentes à iluminação.

Representações em Dunhuang

A narrativa tornou-se particularmente conhecida por sua representação nas Grutas de Mogao, em Dunhuang, importante complexo budista situado na atual província chinesa de Gansu. Uma das pinturas murais apresenta diferentes episódios da história em uma composição contínua, incluindo o salvamento do homem, sua traição e o encontro do cervo com o rei. O mural constitui um exemplo da circulação e da transmissão visual de narrativas budistas pelas regiões conectadas às rotas que posteriormente seriam conhecidas coletivamente como Rota da Seda.

fontes:

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28 de setembro de 2026

Gnowee

۞ ADM Sleipnir

Gnowee é uma figura solar feminina registrada entre povos indígenas do oeste do atual estado de Victoria, na Austrália. Seu nome está associado ao Sol e aparece principalmente em tradições dos Boorong, grupo ligado à nação Wergaia, além de uma versão atribuída aos Wotjobaluk.

As fontes preservam duas histórias principais sobre Gnowee. Entre os Boorong, ela está ligada à origem do Sol por meio de um ovo de emu lançado ao céu. Em outra tradição, aparece como a Mulher-Sol que percorre o firmamento enquanto procura o filho desaparecido.

Gnowee entre os Boorong

Os Boorong viviam na região próxima ao lago Tyrrell, no noroeste de Victoria. Parte de seus conhecimentos sobre o céu foi registrada no século XIX por William Edward Stanbridge. 

Nos registros de Stanbridge, Gnowee corresponde ao Sol. Segundo a tradição Boorong, o mundo encontrava-se inicialmente na escuridão. Pupperimbul, um dos antigos seres mencionados nesses relatos, preparou um ovo de emu e o lançou ao céu. O ovo era Gnowee. Ao alcançar o alto, o ovo deu origem ao Sol e passou a iluminar a Terra. 

Gnowee e o filho perdido

Outra tradição, atribuída aos Wotjobaluk de Victoria, apresenta Gnowee de maneira diferente. Nessa versão, ela era uma mulher que vivia quando o mundo ainda era escuro. Depois que seu filho desapareceu, Gnowee iniciou uma busca para encontrá-lo. Carregando uma tocha feita de casca de árvore, Gnowee passou a percorrer o mundo à procura da criança. Sua luz está associada ao Sol, e Gnowee aparece como a Mulher-Sol, cujo percurso pelo céu está ligado à busca pelo filho desaparecido.

Gnowee e os astros

Na tradição Boorong, Gnowee fazia parte de um conjunto mais amplo de personagens associados aos corpos celestes. Uma dessas figuras é Chargee Gnowee, identificada com o planeta Vênus e descrita como irmã de Gnowee. Apesar da semelhança entre os nomes, Chargee Gnowee não é outra denominação do Sol.

Os registros também relacionam Chargee Gnowee a Ginabong-bearp, identificado com Júpiter. Essas relações faziam parte do conhecimento astronômico Boorong, no qual corpos celestes podiam ser associados a personagens ligados por relações de parentesco.

Arte de @echoingmultiverse

fontes:

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25 de setembro de 2026

A Jornada ao Oeste: Capítulo LXXV

۞ ADM Sleipnir


CAPÍTULO LXXV:

O MACACO DA MENTE PERFURA O JARRO DO YIN E DO YANG. O REI DEMÔNIO RETORNA AO VERDADEIRO TAO.

Dizíamos que o Grande Sábio havia entrado corajosamente na caverna. À medida que avançava, deparava-se com montes de esqueletos que pareciam verdadeiras colinas e com tantos ossos que formavam uma floresta. Cabeças e cabelos humanos haviam sido pisoteados até se transformarem numa espécie de feltro; pele e carne apodrecidas misturavam-se à lama e à poeira. Tendões humanos estavam enrolados nos troncos das árvores, secos e reluzentes como prata. Por toda parte havia montanhas de cadáveres e mares de sangue, dos quais se desprendia um mau cheiro insuportável. No lado oriental, os demônios menores arrancavam a carne de vítimas ainda vivas; no lado ocidental, outros cozinhavam e fritavam carne humana fresca. Qualquer mortal com menos coragem que o Belo Rei dos Macacos teria dado meia-volta imediatamente. Ele, porém, continuou avançando, como se todo aquele horror não fosse capaz de fazê-lo recuar.
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24 de setembro de 2026

Kukunochi

۞ ADM Sleipnir

Arte de Kenji Iwasaki

Kukunochi (japonês 久々能智神, também chamado Kukunochi no kami ou Ki no kami), é um kami (divindade) da mitologia japonesa associado às árvores. Seu nome aparece em antigos textos japoneses, especialmente no Kojiki e no Nihon Shoki, obras fundamentais para o estudo dos mitos de origem do Japão. Nessas fontes, Kukunochi aparece entre as divindades geradas por Izanagi e Izanami durante a criação do mundo. Ele também está associado a tradições religiosas relacionadas à madeira e à proteção das edificações. 

Origem mitológica

No Kojiki, compilado em 712, Kukunochi nasce durante o Kamiumi, o ciclo mitológico que descreve o nascimento das divindades. Depois de gerarem as terras e as ilhas do Japão, Izanagi e Izanami dão origem a diversos kami associados aos elementos da natureza.

Kukunochi é apresentado como a divindade das árvores. Seu nascimento ocorre depois do deus do vento, Shinatsuhiko, e antes do deus das montanhas, Ōyamatsumi. Na sequência, nasce Kayanohime, também chamada Notsuchi, divindade associada aos campos e à vegetação. 

O Nihon Shoki, compilado em 720, também menciona Kukunochi no relato da geração das divindades. Na narrativa principal, ele é identificado como o ancestral das árvores. Uma das versões alternativas preservadas na mesma obra utiliza seu nome para designar os deuses das árvores.

Nome e significado

O nome Kukunochi apresenta diferentes grafias nos textos antigos. No Kojiki, aparece como 久々能智神 (Kukunochi no Kami), enquanto o Nihon Shoki registra a forma 句句廼馳 (Kukunochi). Na tradição ritual associada à proteção das edificações, encontra-se a denominação 屋船久久遅命 (Yafune Kukuchi no Mikoto).

O significado do nome não é estabelecido de maneira definitiva. Motoori Norinaga, estudioso japonês do período Edo, interpretou o elemento kuku como uma referência ao caule de uma planta e chi como um honorífico masculino. Outras interpretações relacionam kuku a uma forma antiga da palavra árvore. O elemento chi também pode ser entendido como uma referência a um espírito ou como um título honorífico aplicado a entidades dotadas de poder espiritual.

Arte de Daisuke Mochida

Características e associação com as árvores

Kukunochi é identificado principalmente por sua relação com as árvores. As passagens mitológicas que mencionam seu nascimento não apresentam uma descrição detalhada de sua aparência física, nem lhe atribuem uma forma humana, animal ou vegetal específica.

A Encyclopedia of Shinto, da Universidade Kokugakuin, registra a denominação Ki no kami, que significa divindade das árvores. A mesma fonte relaciona Kukunochi ao termo kodama, utilizado para designar os espíritos das árvores na tradição religiosa e no folclore japonês. Essa associação também aparece na tradição ritual preservada no Engishiki, compilação de normas administrativas e práticas cerimoniais concluída em 927.

No xintoísmo, determinadas árvores são consideradas sagradas e podem estar associadas à presença dos kami. Algumas são chamadas shinboku, expressão utilizada para designar árvores sagradas, enquanto outras podem servir como yorishiro, objetos ou lugares nos quais se acredita que uma divindade possa manifestar-se.

Tradições associadas às edificações

Além de sua presença nos mitos de criação, Kukunochi está relacionado aos yafunegami, divindades protetoras das casas. Nessa tradição, é associado à madeira utilizada nas construções e aparece sob o nome Yafune Kukuchi no Mikoto.

Uma das principais referências a essa divindade encontra-se no Ōtono-hogai, também chamado Ōtono-sai, um ritual da corte japonesa destinado à proteção do palácio contra calamidades. Sua liturgia, denominada norito, está preservada no Engishiki. O ritual invoca três divindades: Yafune Kukuchi no Mikoto, associado ao espírito da madeira; Yafune Toyoukehime no Mikoto, relacionado ao espírito do arroz; e Ōmiyanome no Mikoto, divindade vinculada à proteção do palácio. A cerimônia era realizada em diferentes ocasiões, incluindo mudanças da residência imperial e celebrações relacionadas à sucessão do imperador. 

A relação entre Kukunochi e Yafune Kukuchi apresenta diferentes interpretações. Uma delas considera a divindade doméstica uma personificação da madeira empregada nas edificações. Outra entende que Kukunochi, originalmente associado às árvores, passou a ser venerado como uma divindade presente nos pilares sagrados das construções. Ambas as interpretações são registradas nos estudos da Universidade Kokugakuin. 

Essa associação religiosa também aparece nas cerimônias de levantamento de telhados e nas bênçãos de novas residências, nas quais Kukunochi continua a ser venerado como uma divindade ligada à madeira e à proteção das construções. 

Cultura popular

Kukunochi aparece em diferentes jogos eletrônicos japoneses, frequentemente como personagem inspirado na divindade das árvores. Na franquia Shin Megami Tensei, da Atlus, é representado como um demônio da categoria Árvore. 

No RPG Ayakashi Rumble!, Kukunochi é retratada como uma personagem feminina ligada à natureza, capaz de ouvir as árvores e controlar trepadeiras. Essa versão também aparece em Legend Clover e Techcronoss, jogos que reúnem personagens de diferentes produções da desenvolvedora Techcross. A personagem também foi escolhida para protagonizar o primeiro episódio de uma adaptação em mangá de Ayakashi Rumble!, anunciada pela desenvolvedora nas comemorações do quinto aniversário do jogo, em 2024.


Kukunochi (Shin Megami Tesei)


fontes:

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21 de setembro de 2026

Galley-trot

۞ ADM Sleipnir

Galley-trot (também grafado Gally Trot) é uma aparição sobrenatural do folclore de Suffolk, na Inglaterra, associada principalmente à região de Woodbridge. Segundo um registro de Major Edward Moor, publicado em 1823, a criatura podia assumir a forma de um cão de grande porte, geralmente branco e comparável em tamanho a um boi. Sua aparência era descrita como pouco definida, e ela perseguia pessoas que, assustadas, tentavam fugir. Moor também associou a entidade a Bath-slough, um local que identificou como um terreno alagadiço, embora tenha manifestado dúvidas sobre sua localização e sobre a própria existência do pântano mencionado.

Em relatos posteriores, o Galley-trot também é associado a Dunwich, uma antiga cidade costeira de Suffolk, na Inglaterra. Nesses registros, a criatura aparece com o nome alternativo de Gilitrutt e apresenta variações na aparência, sendo descrita, em algumas versões, como um cão negro. Também é comparada a outros cães sobrenaturais do folclore britânico, como o Black Shuck, embora não esteja estabelecido que sejam a mesma entidade.

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16 de setembro de 2026

Kurangaituku

۞ ADM Sleipnir

Arte de PookaPuck

Kurangaituku é uma personagem sobrenatural das tradições Māori da Nova Zelândia, especialmente conhecida por sua relação com Hatupatu, herói associado ao povo Te Arawa e à região de Rotorua. Em alguns relatos, aparece como uma mulher com características de ave; em outros, como uma mulher capaz de assumir a forma de um pássaro.

A grafia Kurungaituku também é encontrada, especialmente na tradição publicada pela Raukawa Charitable Trust. As diferenças vão além do nome: enquanto algumas versões apresentam Kurangaituku como uma figura temível que captura Hatupatu e o persegue durante sua fuga, a tradição de Raukawa a descreve como uma guardiã da floresta e dos animais.

Kurangaituku e Hatupatu

Uma das versões mais antigas da história publicadas em forma impressa aparece em 1855, na obra Polynesian Mythology and Ancient Traditional History of the New Zealanders, de George Grey. Nessa versão, Hatupatu encontra Kurangaituku, que consegue capturá-lo e levá-lo para sua morada. A personagem possui características incomuns. O relato menciona asas nos braços e uma forma peculiar de caçar: Kurangaituku atingia os pássaros com os próprios lábios.

Em sua morada havia numerosos pássaros e outros animais mantidos por ela, além de mantos e objetos que despertam o interesse de Hatupatu. Quando Kurangaituku sai para caçar, o jovem permanece sozinho. Ele começa a matar os animais e reúne objetos que pretende levar consigo. Um pequeno pássaro consegue escapar e procura Kurangaituku para avisá-la do ocorrido. Ao retornar e encontrar seus animais mortos, ela parte imediatamente em perseguição a Hatupatu.

Arte de Munro Te Whata (@munro.tw)

A fuga e a rocha de Hatupatu

Durante a perseguição, Hatupatu percebe que Kurangaituku está se aproximando rapidamente. Diante do perigo, recorre a um encantamento para pedir abrigo a uma rocha. A pedra se abre, permitindo que ele entre em seu interior, e volta a se fechar enquanto Kurangaituku o procura do lado de fora.

A fuga é tradicionalmente relacionada à paisagem de Rotorua. Uma formação conhecida como Hatupatu's Rock, ou Rocha de Hatupatu, é identificada como o lugar onde o herói teria se escondido. Algumas versões também associam à pedra marcas atribuídas às garras de Kurangaituku.

A chamada Rocha de Hatupatu

Depois de deixar seu esconderijo, Hatupatu continua fugindo. A perseguição chega à área geotérmica de Whakarewarewa, conhecida por suas fontes e águas quentes. Hatupatu atravessa o local evitando as áreas perigosas, enquanto Kurangaituku tenta acompanhá-lo. Na versão difundida pela tradição de Te Arawa e registrada por Grey, ela acaba caindo nas águas escaldantes e morre.

A guardiã da floresta

Outra tradição apresenta Kurungaituku de maneira bastante diferente. Em Kurungaituku, The Guardian of the Forest, publicação da Raukawa Charitable Trust baseada na tradição de Raukawa, ela é apresentada como uma mulher idosa associada à proteção das florestas e dos animais na região entre Ātiamuri e Te Pae-o-Raukawa. Kurungaituku cuida dos seres pertencentes ao domínio de Tāne, incluindo pássaros feridos ou doentes, e possui a capacidade de assumir a forma de uma ave.

Nessa versão, ela encontra Hatupatu gravemente ferido. Kurungaituku o leva para sua caverna, trata seus ferimentos, inclusive com folhas de kawakawa, e fornece alimento durante sua recuperação. Hatupatu, porém, captura e mata alguns dos pássaros protegidos por sua anfitriã para se alimentar. Ao descobrir o ocorrido, Kurungaituku transforma-se em pássaro e passa a persegui-lo. Mais uma vez, Hatupatu procura proteção na rocha, que se abre para escondê-lo. Ele consegue escapar, mas, ao contrário do relato anterior, Kurungaituku não morre nas fontes termais.

A tradição publicada por Raukawa registra ainda a crença de algumas pessoas de que seu espírito permanece nas florestas próximas de Ātiamuri, onde continua a proteger os seres daquele território.

Uma personagem com diferentes versões

A aparência de Kurangaituku varia de acordo com a tradição. Na versão publicada por George Grey, ela possui asas nos braços e consegue alcançar Hatupatu durante a perseguição. Outras descrições históricas mencionam características associadas às aves, como garras e plumagem. Na tradição de Raukawa, porém, Kurungaituku é apresentada como uma mulher capaz de assumir a forma de um pássaro.

Algumas obras antigas em língua inglesa também descrevem Kurangaituku como uma “ogressa”. O termo, porém, pertence à forma como determinados autores europeus interpretaram a personagem. Para abranger melhor as diferentes tradições, “mulher-pássaro” ou “entidade sobrenatural” são descrições mais adequadas.

 "Hatupatu e a mort e de Kurangaituku" (2007), gravura em linóleo criada pelo artista maori neozelandês Cliff Whiting.

fontes:
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14 de setembro de 2026

14 Anos de Portal dos Mitos!

Hoje o Portal dos Mitos completa 14 anos de existência.

Embora atingir essa marca me deixe muito feliz — afinal, não é tão fácil quanto alguns pensam —, não estou tão feliz quanto gostaria. Neste mês em particular, quando todos os anos me esforço para trazer posts todos os dias, não pude fazê-lo como de costume, tanto por conta do meu trabalho, que tem exigido muito da minha atenção, quanto por estar me sentindo desmotivado a continuar.

Tem sido muito trabalho e os tempos são outros. Ninguém quer ler mais; querem tudo mastigado em vídeos que falam acelerado e ficam piscando imagens e letras na cara. Eu não sei fazer isso e, sinceramente, também não gosto de consumir esse tipo de conteúdo.

Sigo fazendo este trabalho porque realmente gosto e já não espero obter algum ganho com ele. Vez ou outra, alguns leitores contribuem com um Pix, e aproveito para agradecer a cada um deles. Agradeço também a todos que acompanham o blog, independentemente de colaborarem ou não, seja desde o começo ou há menos tempo.

As visualizações do blog chegam a picos de 10 mil a 12 mil visitas por dia, mas, infelizmente, não vejo isso se convertendo de forma positiva, seja na forma de auxílio ou de comentários.

Outra coisa que tem me deixado chateado é o projeto de tradução de A Jornada ao Oeste estar parado. Faz tempo que não posto nada novo, e não é porque eu não quero. A tradução realmente toma muito tempo e, como já disse, tenho um emprego que tem demandado muito do meu tempo e dedicação. Afinal, é de onde realmente tiro o meu sustento.

Mas isso não significa que o projeto não terá continuidade. O próximo capítulo deve sair em breve; a tradução já está bem encaminhada.

Deixando a negatividade de lado, espero continuar com este trabalho e ter forças para chegar ao próximo ano mais ativo do que nunca.

E espero que todos vocês venham comigo.

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9 de setembro de 2026

Opletai

۞ ADM Sleipnir

Arte de Ruslan Svobodin

Opletai (russo: Оплетай, também transliterado como Opletay) é uma criatura sobrenatural do folclore russo da Sibéria, registrada no século XIX em tradições do sul da região e da antiga província de Tomsk. As fontes apresentam versões diferentes: em uma delas, é um ser de aparência humana que ataca viajantes e se alimenta de sangue; em outra, aparece como uma criatura formada por metade de um corpo humano. O seu nome está relacionado ao verbo russo оплетать (opletat’), associado a sentidos como envolver ou entrelaçar. Por isso, “o Enlaçador” pode ser usado como aproximação de seu significado, embora não seja uma tradução tradicional estabelecida.

O Opletai que ataca viajantes

Uma das descrições mais antigas foi registrada por Stepan Gulyaev, em 1848, nos Ensaios etnográficos da Sibéria Meridional. Nessa versão, o Opletai possui aparência semelhante à humana e permanece sobre árvores à espera da passagem de viajantes. Ao atacar, lança-se sobre a vítima, envolve-a com os braços e as pernas e, depois de imobilizá-la, morde seu pescoço e suga seu sangue.

Arte de Misha Tarasov

Gulyaev comparou a criatura ao upyr, figura associada ao vampirismo no folclore russo. Marina Vlasova, porém, observa que o hábito de envolver fisicamente a vítima não é característico das tradições mais difundidas sobre os upyri. O Opletai, portanto, não deve ser considerado simplesmente uma variante do upyr.

Os Opletai de meio corpo

Uma tradição registrada por Grigori Potanin, publicada em 1864 e relacionada à parte sudoeste da antiga província de Tomsk, descreve os Opletai como seres formados por apenas metade de uma pessoa. Cada um teria uma perna, um braço e um olho e, quando sozinho, não seria considerado muito perigoso. Dois Opletai, entretanto, poderiam unir-se, formando juntos algo semelhante a um corpo completo. Nessa condição, tornavam-se extremamente rápidos, a ponto de, segundo a tradição, uma pessoa não conseguir escapar deles nem mesmo a cavalo. Essa descrição pertence a uma variante diferente daquela registrada por Gulyaev. 

As fontes não permitem afirmar que os Opletai de meio corpo também se escondiam em árvores ou se alimentavam de sangue. As duas descrições correspondem, portanto, a variantes distintas da tradição.. Os registros disponíveis também não indicam uma origem mítica, função religiosa ou aparência única para a criatura.

Créditos ao /LandOfDiffusion

fontes:

Mais uma idéia de post da minha filha, Lara. Espero que um dia ela tome conta dessa missão em meu lugar.

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