5 de novembro de 2026

Chiyou

۞ ADM Sleipnir

Chiyou (蚩尤, Chīyóu, também grafado Chi You ou Ch’ih-yu) é um personagem da mitologia chinesa associado à guerra, à fabricação de armas e aos conflitos envolvendo o Imperador Amarelo (Huangdi, 黃帝). Nas tradições mais conhecidas, aparece como um poderoso adversário de Huangdi, derrotado em uma batalha situada na região de Zhuolu.

As narrativas sobre Chiyou apresentam diferenças significativas. Algumas descrevem seus combates contra o Imperador Amarelo, envolvendo dragões, divindades e fenômenos sobrenaturais. Outras o identificam como inventor de armas, filho ou auxiliar de Huangdi. Há também tradições que registram sua veneração como uma divindade da guerra e seu reconhecimento como figura ancestral por determinadas comunidades. 

Origem e registros antigos

Chiyou aparece em diferentes obras clássicas chinesas. Uma de suas referências mais antigas encontra-se no Shangshu (尚書, "Livro dos Documentos"), cujo capítulo Lü Xing (呂刑, "Punições de Lü") associa seu nome ao surgimento de desordens em uma época remota.

Outras tradições foram preservadas no Yi Zhou Shu (逸周書, "Livro Perdido de Zhou"), no Shiji (史記, "Registros do Historiador"), de Sima Qian, e no Shanhaijing (山海經, "Clássico das Montanhas e dos Mares"). Esses textos apresentam versões distintas de seus conflitos com Huangdi, enquanto obras como o Guanzi (管子, "Mestre Guan") e o Lüshi Chunqiu (呂氏春秋, "Anais de Primavera e Outono de Lü") acrescentam informações sobre seus conhecimentos militares.

Relevos em pedra da Dinastia Han representando as cinco armas de Chi You no condado de Yinan, província de Shandong.

O conflito com o Imperador Vermelho

Uma das tradições preservadas no Yi Zhou Shu, no capítulo Chang Mai (嘗麥, "Prova do Trigo Novo"), apresenta Chiyou em um período anterior à consolidação da autoridade do Imperador Amarelo. Segundo esse texto, o Imperador Vermelho (赤帝, Chidi), também conhecido como  Imperador das Chamas (炎帝, Yandi), havia recebido a responsabilidade de organizar determinadas funções de governo. Chiyou foi encarregado de atuar na região relacionada ao lendário imperador Shaohao, com atribuições ligadas à administração de territórios.

Posteriormente, Chiyou se volta contra o Imperador Vermelho e procura expulsá-lo. O conflito alcança a região do rio de Zhuolu, onde os adversários disputam o controle do território. A ofensiva de Chiyou se estende por diferentes regiões, deixando o Imperador Vermelho em uma situação de grande dificuldade.

Diante do avanço inimigo, Yandi procura o auxílio de Huangdi. O Imperador Amarelo intervém, consegue capturar Chiyou e ordena sua execução em Zhongji. O lugar de sua morte recebe uma denominação tradicional relacionada ao acontecimento.

A batalha de Zhuolu

O Shiji, no capítulo Wudi Benji (五帝本紀, "Anais dos Cinco Imperadores"), apresenta outra sequência de acontecimentos.  Sima Qian descreve um período de enfraquecimento da autoridade associada à linhagem de Shennong. Governantes regionais entram em conflito, atacam outros territórios e provocam sofrimento à população. Nesse contexto, Xuanyuan, nome pelo qual Huangdi também é conhecido, organiza suas forças militares e começa a enfrentar aqueles que não reconhecem sua autoridade.

O Imperador Vermelho também procura ampliar sua influência. Huangdi prepara suas tropas e o enfrenta na região de Banquan. Segundo o Shiji, são necessários três confrontos para que alcance a vitória. Depois dessa guerra, Chiyou se rebela e se recusa a obedecer às determinações do Imperador Amarelo. Huangdi convoca então os governantes aliados e reúne um exército para combatê-lo. As forças adversárias se encontram nos campos de Zhuolu, onde ocorre a batalha que se tornaria um dos episódios mais conhecidos da mitologia chinesa.

O Shiji não descreve detalhadamente as manobras militares, mas informa que Huangdi consegue capturar Chiyou e ordena sua morte. Após a vitória, os governantes reconhecem Xuanyuan como soberano, que assume o título de Imperador Amarelo.

A guerra sobrenatural: Yinglong, Fengbo, Yushi e Ba

Uma versão do confronto envolvendo forças sobrenaturais aparece no Shanhaijing, no capítulo Dahuang Beijing (大荒北經, "Clássico da Grande Região Selvagem do Norte"). Chiyou organiza uma ofensiva contra Huangdi. Para enfrentar o adversário, o Imperador Amarelo convoca Yinglong (應龍), um dragão associado ao poder das águas. Yinglong dirige-se às terras de Jizhou, onde reúne grandes quantidades de água para utilizá-las durante o combate. 

Diante da intervenção do dragão, Chiyou solicita o auxílio de duas entidades relacionadas aos fenômenos atmosféricos: Fengbo (風伯, "Senhor do Vento") e Yushi (雨師, "Mestre da Chuva"). Atendendo ao chamado, essas entidades desencadeiam ventos intensos e chuvas abundantes. A ação conjunta das forças sobrenaturais altera as condições da batalha e dificulta os esforços de Huangdi. O Imperador Amarelo responde enviando Ba (魃), também chamada Nüba (女魃), uma figura celestial associada à seca. Sua chegada interrompe as chuvas provocadas pelos aliados de Chiyou, permitindo que as forças de Huangdi prevaleçam. Chiyou acaba morto, e outra passagem do mesmo capítulo identifica Yinglong como responsável por sua morte.

A neblina de Chiyou e o carro que indicava o sul

Outra tradição atribui a Chiyou a capacidade de produzir uma neblina capaz de desorientar seus adversários. No Gujin Zhu (古今注, "Notas sobre Coisas Antigas e Modernas"), obra tradicionalmente atribuída a Cui Bao, Huangdi e Chiyou se enfrentam nos campos de Zhuolu. Durante o combate, Chiyou provoca uma neblina tão intensa que os soldados do Imperador Amarelo deixam de reconhecer as direções e encontram dificuldades para prosseguir.

Para superar o obstáculo, Huangdi manda construir um zhinan che (指南車, "carro indicador do sul"). O dispositivo permite recuperar a orientação mesmo quando a paisagem permanece encoberta. Com seu auxílio, as tropas prosseguem e Chiyou acaba capturado.

A intervenção de Xuannü e a submissão de Chiyou

Uma tradição diferente foi preservada em citações do Longyu Hetu (龍魚河圖, "Diagrama Fluvial do Peixe-Dragão"), texto antigo que não chegou integralmente aos nossos dias. Nessa versão, Chiyou possui 81 irmãos, descritos como seres com corpos semelhantes aos de animais, mas capazes de falar como humanos. Possuem cabeças de bronze, testas de ferro e se alimentam de areia e pedras. Juntos, fabricam armas, incluindo lâminas e grandes arcos, tornando-se uma poderosa força militar.

Suas ações provocam conflitos, e a população deseja que Huangdi assuma a autoridade suprema. O Imperador Amarelo, entretanto, não consegue conter Chiyou apenas com seus próprios recursos. Diante dessa dificuldade, Huangdi dirige uma súplica ao céu. Em resposta, uma entidade feminina chamada Xuannü (玄女) desce e lhe entrega insígnias e talismãs relacionados ao comando militar. Com esse auxílio sobrenatural, Huangdi consegue subjugar Chiyou. Em vez de executá-lo, coloca-o a seu serviço, encarregando-o de comandar forças militares para manter o controle das diferentes regiões.

A história prossegue após a morte de Chiyou. Quando novos conflitos ameaçam a ordem estabelecida, Huangdi manda produzir uma representação de seu antigo adversário e a utiliza como demonstração de poder. Segundo o relato, aqueles que veem a imagem acreditam que Chiyou continua vivo. Temendo enfrentar novamente o guerreiro, os adversários se submetem.

Chiyou como filho de Huangdi

Uma das versões mais diferentes sobre Chiyou aparece no manuscrito Wu Ji (五紀, "Cinco Diretrizes"), preservado entre os manuscritos de bambu do período dos Estados Combatentes pertencentes à coleção da Universidade Tsinghua. Nesse texto, Chiyou é apresentado como filho do Imperador Amarelo. Ao atingir a idade adulta, dedica-se à fabricação de armas. Produz cinco categorias de armamento, aperfeiçoa seus instrumentos e organiza equipamentos de diferentes comprimentos. Também desenvolve formações militares e procedimentos relacionados ao avanço, à retirada e à disposição dos combatentes. Depois desses preparativos, decide empreender uma campanha contra o próprio pai.

A ofensiva é acompanhada por acontecimentos extraordinários. O céu apresenta sinais incomuns, surgem nuvens de diferentes cores e uma neblina intensa encobre a paisagem. O Sol e a Lua exibem fenômenos anormais, enquanto as divindades demonstram temor diante das perturbações. Ao tomar conhecimento da ameaça, Huangdi consulta entidades que o auxiliam e convoca forças associadas às diferentes regiões. Preparado para o combate, o Imperador Amarelo assume a liderança de seu exército. O manuscrito o descreve segurando um machado de guerra amarelo e uma bandeira militar. Ele ordena que as forças reunidas enfrentem Chiyou e impeçam o avanço de suas armas. O ataque resulta na derrota de Chiyou. Após a vitória, Huangdi realiza oferendas e cerimônias dirigidas às potências divinas.

Nesta versão da lenda, a morte de Chiyou é seguida por uma série de transformações extraordinárias. Segundo o Wu Ji, diferentes partes de seu corpo dão origem a plantas e objetos. Seus cabelos são associados ao alho-nirá; os pelos das sobrancelhas e da barba, à artemísia; os olhos, aos crisântemos; e o nariz, à cebolinha. Outras partes também originam espécies vegetais. O texto relaciona ainda os braços e o tronco de Chiyou à produção de instrumentos, incluindo peças associadas a tambores.

Aparência sobrenatural e o Jogo de Chiyou

As descrições físicas mais detalhadas de Chiyou aparecem sobretudo em tradições registradas posteriormente aos primeiros relatos de seus conflitos com Huangdi. O Shuyi Ji (述異記, Registro de Estranhezas), tradicionalmente atribuído a Ren Fang, menciona 72 irmãos de Chiyou, descritos como seres com cabeças de bronze, testas de ferro e capacidade de consumir ferro e pedras. A mesma obra reúne tradições locais que lhe atribuem uma aparência parcialmente humana e parcialmente animal. Em algumas descrições, possui corpo humano, cascos bovinos, quatro olhos e seis mãos. Outros relatos afirmam que seus cabelos ou pelos próximos às orelhas se assemelhavam a espadas e alabardas, enquanto sua cabeça apresentava chifres.

Segundo uma dessas tradições, Chiyou utilizava os chifres durante os confrontos. Ao lutar contra Xuanyuan, investia contra o adversário com a cabeça, empregando uma força à qual seus oponentes dificilmente conseguiam resistir. O Shuyi Ji relaciona esse comportamento a uma prática conhecida como Chiyou Xi (蚩尤戲, Jogo de Chiyou). Na região de Jizhou, participantes se enfrentavam em pequenos grupos, utilizando chifres presos à cabeça para realizar movimentos de choque e empurrão.

A obra associa a atividade a modalidades de luta corporal conhecidas em períodos posteriores. Essa relação pertence à tradição registrada pelo texto, sem comprovar que Chiyou tenha sido o criador histórico dessas práticas. Também existiam crenças locais segundo as quais certos objetos encontrados no solo, semelhantes a ossos de metal, seriam vestígios de Chiyou.

Chiyou como auxiliar do Imperador Amarelo

Nem todas as tradições apresentam Chiyou como inimigo de Huangdi. No capítulo Wuxing (五行, "Cinco Fases"), do Guanzi, ele aparece entre os auxiliares do Imperador Amarelo, sendo associado a conhecimentos sobre a ordem celeste. Outra versão encontra-se no Han Feizi (韓非子, "Mestre Han Fei"), no capítulo Shiguo (十過, "Dez Erros"), que descreve uma reunião de seres sobrenaturais presidida por Huangdi. O Imperador Amarelo reúne divindades e espíritos no monte Tai. Para chegar ao encontro, utiliza um carro puxado por seis dragões, acompanhado pela criatura Bifang.

Chiyou segue à frente do cortejo, enquanto Fengbo limpa o caminho e Yushi faz cair água sobre a estrada. Tigres e lobos acompanham a comitiva, seguidos por espíritos. Serpentes sobrenaturais permanecem junto ao solo, e uma fênix aparece sobre o grupo. A reunião está relacionada à composição musical conhecida como Qingjiao (清角, jiao puro).

Chiyou e a fabricação de armas

O Guanzi, no capítulo Di Shu (地數, "Cálculos da Terra"), atribui a Chiyou a utilização de metais provenientes de montanhas para fabricar equipamentos militares, incluindo espadas, armaduras, lanças e alabardas. O texto associa essa atividade ao fortalecimento do poder militar. O Lüshi Chunqiu, na seção Dang Bing (蕩兵, "Sobre o Emprego das Armas"), apresenta uma interpretação diferente. Em vez de considerar Chiyou o primeiro inventor das armas, observa que os seres humanos já utilizavam instrumentos de madeira em conflitos anteriores.

Nessa perspectiva, Chiyou teria contribuído para o aperfeiçoamento do armamento, não para sua invenção absoluta. A associação com a fabricação de armas também aparece no Wu Ji, integrando os preparativos de sua campanha contra Huangdi.

Culto e veneração como deus da guerra

Apesar de sua derrota nas narrativas míticas, Chiyou recebeu veneração religiosa em diferentes períodos da história chinesa. No capítulo Fengshan Shu (封禪書, "Tratado sobre os Ritos Feng e Shan"), do Shiji, aparece com o título de Bingzhu (兵主, "Senhor das Arma"s). Era uma das oito divindades veneradas em cultos relacionados à região de Qi. O texto registra cerimônias dedicadas aos Oito Espíritos durante o governo de Qin Shihuang, primeiro imperador da China unificada. No início da dinastia Han, Liu Bang também realizou sacrifícios relacionados a Huangdi e Chiyou em conexão com suas campanhas militares. A veneração do personagem esteve associada ainda ao estabelecimento de um santuário em Chang'an.

Fontes posteriores mencionam lugares identificados como sepulturas de Chiyou. O Huanglan (皇覽, "Panorama Imperial"), conhecido por fragmentos preservados em outras obras, registra uma tumba atribuída ao personagem e oferendas realizadas durante o décimo mês do calendário tradicional. Há também referência a outra sepultura, associada a partes de seu corpo. Sua existência era explicada por uma tradição segundo a qual Chiyou teria sido desmembrado após a morte.

A "Bandeira de Chiyou"

O nome de Chiyou também aparece em antigas tradições relacionadas à observação do céu. No capítulo Tianguan Shu (天官書, "Tratado dos Oficiais Celestes), do Shiji, encontra-se a expressão Chiyou zhi qi (蚩尤之旗, "Bandeira de Chiyou"). O termo designa um fenômeno celeste semelhante a um cometa, interpretado no contexto da astronomia e da adivinhação chinesas como possível presságio de conflitos militares.

Uma tradição diferente, preservada nos comentários ao Shiji, menciona uma manifestação avermelhada que surgiria sobre a tumba atribuída a Chiyou. A população local também a identificava como sua bandeira.

Chiyou e os povos Miao

Chiyou possui importância em determinadas tradições de ancestralidade e identidade de comunidades Miao, incluindo grupos relacionados ao universo cultural Hmong. Em algumas dessas tradições, é reconhecido como figura ancestral. Sua valorização também recebeu destaque em processos contemporâneos de recuperação da memória histórica e de afirmação cultural.

A relação exige, contudo, atenção às diferenças entre as fontes antigas e as identidades atuais. Textos chineses mencionam coletividades como os Jiuli (九黎, Nove Li) e os San Miao (三苗, Três Miao), mas esses nomes não podem ser automaticamente considerados equivalentes aos grupos étnicos contemporâneos. Também não existe comprovação conclusiva de uma descendência genealógica contínua entre o personagem lendário e as comunidades que o reconhecem como ancestral.

Arte de wayne421

Cultura Popular

Jogos eletrônicos

  • Em Age of Mythology: Retold, na expansão The Immortal Pillars, Chiyou aparece como o principal antagonista da campanha baseada na mitologia chinesa;
  • Em God Eater, Chi You é o nome de uma criatura da categoria Aragami;
  • Em La-Mulana, Chiyou aparece como um inimigo secundário;
  • Em Nine Sols, Chi You é representado como uma máquina de guerra que adquiriu consciência;
  • Em Assassin’s Creed Jade, Chiyou aparece como o principal antagonista;
  • Em The Settlers III, Chiyou é representado como um dragão que integra a história de fundo do jogo;
  • Em Dislyte, o personagem jogável Jiang Jiuli obtém os poderes de Chiyou;
  • Em Xuan-Yuan Sword, Chiyou aparece em representações relacionadas à mitologia chinesa, geralmente associado a conflitos e poderes sobrenaturais;
  • Em Chinese Paladin (The Legend of Sword and Fairy), Chiyou é mencionado em narrativas que incorporam elementos da mitologia chinesa;
  • Em Fantasy Sango, Chiyou aparece como uma figura associada a forças sobrenaturais e conflitos mitológicos;
  • Em Blade & Sword: Exorcist, Chiyou integra o universo inspirado nas tradições mitológicas chinesas;
  • Em Tower of Saviors, Chiyou aparece como personagem associado ao universo mitológico do jogo;
  • Em Shenmue, Chi You Men é o nome de uma organização criminosa cujo líder, Lan Di, está envolvido em uma trama relacionada ao despertar do poder de Chiyou;
  • Em Megami Tensei, Chiyou aparece como um demônio que pode integrar o universo sobrenatural da franquia.
Chiyou (Age of Mythology: Retold)

Mangás, manhwa e animações

  • Em Record of Ragnarok (Shūmatsu no Valkyrie), Chiyou é associado a uma divindade maligna antropófaga, em uma representação monstruosa inspirada na tradição mitológica;
  • Em Kingdom, Chiyou é o nome de uma tradição fictícia de clãs de assassinas à qual pertenceu Qiang Lei, conhecida como Kyoukai na romanização japonesa;
  • Em The God of High School, os descendentes de Chiyou são associados à ordem guerreira Saulabi;
  • Em BB Senshi Sangokuden, Chiyou aparece como um antagonista demoníaco e assume a forma de Chiyou Gundam;
  • Em Shakugan no Shana III, o nome Chiyou é associado a Sydonay, integrante da organização antagonista Masquerade;
  • Em Qin Shi Ming Yue: Long Teng Wan Li, Chiyou é apresentado como um poderoso antagonista derrotado e selado pelo Imperador Amarelo.
Chiyou (Shuumatsu no Valkyrie)

Quadrinhos

  • Na Marvel Comics, Chiyou aparece como antagonista de Lin Lie, o herói conhecido como Sword Master, sendo retratado como uma divindade monstruosa derrotada e aprisionada pelo Imperador Amarelo e por descendentes dos Três Soberanos;
  • Em Teenage Mutant Ninja Turtles/Ghostbusters, Chiyou é apresentado como uma entidade divina ou imortal envolvida em uma disputa pelo domínio sobre a humanidade;
  • Em Heavenly Executioner Chiwoo, a narrativa é inspirada nas lendas relacionadas a Chiyou e em sua representação na tradição coreana;
  • Em Apotheosis, Chiyou é apresentado como avô do protagonista Luo Zheng;
  • Em Mythology of Heaven, obra sul-coreana de Lee Hyun-se, Chiyou ocupa o papel de protagonista do segundo livro.
Chiyou (Marvel Comics)

Literatura

  • Em Chiyou Cheonwanggi, romance sul-coreano publicado em 2007, Chiyou é apresentado como ancestral dos coreanos. A obra reinterpreta sua guerra contra o Imperador Amarelo e modifica o desfecho tradicional do confronto.

Música

  • Em History of Kingdom: Part II. Chiwoo, álbum do grupo sul-coreano Kingdom, o conceito visual e narrativo está relacionado a Chiwoo, forma coreana do nome associado a Chiyou.

Numismática e cultura esportiva

  • Em uma série de moedas comemorativas sul-coreanas produzidas pela KOMSCO, Chiwoo Cheonwang, figura relacionada à tradição coreana de Chiyou, aparece representado em moedas de ouro;
  • Durante a Copa do Mundo de 2002, Chiwoo foi associado aos Red Devils, grupo de torcedores da seleção sul-coreana de futebol.
Símbolo dos Red Devils

fontes:

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4 de novembro de 2026

Eshnuwerta

۞ ADM Sleipnir

Eshnuwerta (também chamada Ashnuwerta) é uma divindade feminina da tradição religiosa dos Yshyr, povo indígena conhecido também como Chamacoco, habitante do Chaco Boreal, no Paraguai. Associada à água, é considerada uma Grande Mãe e uma das principais autoridades do mundo sobrenatural. Nos mitos Chamacoco, está relacionada à origem da ordem social, à transmissão dos conhecimentos e à instituição de cerimônias tradicionais.

Eshnuwerta também é conhecida como a "Doadora das Palavras", pois seus ensinamentos estabeleceram normas e costumes que orientavam a vida dos seres humanos. Sua figura reúne aspectos benéficos e destrutivos: além de transmitir conhecimentos, pode provocar inundações, tempestades e doenças quando suas determinações são desrespeitadas.

Eshnuwerta e os anábsoro

Na mitologia Chamacoco, os anábsoro são seres sobrenaturais que tiveram contato com os antepassados humanos e lhes ensinaram conhecimentos necessários à vida em sociedade. Eshnuwerta ocupa uma posição de autoridade entre essas entidades, sendo considerada sua mãe ou matriarca. Os anábsoro ensinaram aos humanos diferentes práticas, incluindo técnicas de caça, utilização de instrumentos e costumes. Eshnuwerta participou desse processo de transmissão cultural, estabelecendo regras e conhecimentos que passaram a orientar a organização da sociedade.

Uma das histórias mais importantes envolvendo a divindade é sua relação com ser humano chamado Syr. Em determinada versão, Eshnuwerta estabeleceu uma aliança com ele e revelou o segredo que permitiria aos homens derrotar os anábsoro. Esses seres possuíam uma região vulnerável próxima ao tornozelo, que funcionava como uma espécie de órgão respiratório. Ao descobrir essa fraqueza, os humanos conseguiram matá-los.

Depois da morte dos seres sobrenaturais, Eshnuwerta determinou que os homens continuassem representando os anábsoro em cerimônias tradicionais. Essa determinação deu origem ao Debylyby, também conhecido como "Grande Cerimônia", durante o qual os participantes reproduziam a aparência, os movimentos e os comportamentos das antigas entidades. Os homens utilizavam pinturas corporais, vestimentas e adornos de penas para representar os seres sobrenaturais. A cerimônia também estava relacionada à transmissão dos conhecimentos religiosos aos jovens durante os rituais de iniciação masculina.

A origem da ordem social

Eshnuwerta também é associada à instituição das regras que organizam a sociedade Yshyr. Seus ensinamentos estabeleceram normas relacionadas à organização dos clãs, aos casamentos, às relações sociais, às vestimentas e às obrigações cerimoniais. Esse conjunto de determinações é conhecido como Ashnuwerta a'woso, expressão traduzida como "A Palavra de Ashnuwerta". Mais do que simples ensinamentos, suas palavras fundamentam costumes e normas que orientam a vida comunitária e religiosa.

A divindade também está relacionada à instituição do tobich, espaço sagrado de iniciação masculina, onde os jovens recebiam conhecimentos sobre as tradições e os costumes do povo.

Relação com Nemur e Ashnuwysta

Eshnuwerta mantém uma relação importante com Nemur, outra figura sobrenatural da mitologia Chamacoco. Enquanto ela estabelece as normas e transmite os conhecimentos, Nemur é associado à fiscalização e à punição daqueles que desrespeitam suas determinações. Ele também recebe títulos como "Grande Fiscal", "Vingador" e "Guardião do tobich".

Eshnuwerta também apresenta ainda uma contraparte sombria chamada Ashnuwysta, interpretada pelo pesquisador Ticio Escobar como outra manifestação da própria Eshnuwerta. Essa dualidade é associada principalmente às cores: enquanto Ashnuwerta representa o vermelho, o esplendor e a luminosidade, Ashnuwysta está relacionada ao negro e à escuridão. As duas manifestações expressam aspectos distintos da divindade, que pode tanto favorecer os seres humanos quanto castigá-los.

Senhora das Águas e do Fogo

Além de sua atuação na organização social e religiosa, Eshnuwerta está associada à água, ao fogo e aos fenômenos atmosféricos. Sua figura aparece relacionada às chuvas, às tempestades e às inundações, que podem ocorrer como forma de punição.

Uma das histórias atribuídas à divindade conta que ela provocou uma grande inundação no rio Paraguai como vingança pela morte dos anábsoro. O episódio teria causado a morte de jovens durante uma cerimônia de iniciação realizada após a derrota dos seres sobrenaturais. Eshnuwerta também é associada a doenças e epidemias, que aparecem em suas manifestações punitivas.

Aparência e representações

Não existe uma representação física única e estabelecida de Eshnuwerta. Entretanto, os registros etnográficos associam sua figura à cor vermelha e ao uso de adornos de penas avermelhadas. Esses elementos estão relacionados à sua representação ritual e ao significado atribuído ao seu nome. Segundo interpretações recolhidas por Ticio Escobar, seu nome pode significar algo próximo de "aquela do esplendor vermelho" ou "aquela da crista vermelha". Sua representação também está relacionada à Via Láctea, considerada sua morada celestial em uma interpretação registrada pelo pesquisador.


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3 de novembro de 2026

Hongatar

۞ ADM Sleipnir


Hongatar é uma figura feminina da tradição mitológica e folclórica finlandesa, associada à floresta e à proteção dos ursos. Em cantos tradicionais, aparece como mãe ou ama desses animais. Também é invocada em encantamentos para ajudar caçadores a localizar abrigos de ursos e proteger o gado contra seus ataques.

Seu nome é relacionado à palavra finlandesa honka, que designa um pinheiro antigo ou de grande porte, acrescida do sufixo feminino -tar. A denominação pode ser interpretada como “Senhora dos Pinheiros”. As formas Hongotar e Honkatar também aparecem nos registros da tradição.

Origem e características

As referências a Hongatar encontram-se em cantos e registros da tradição finlandesa e careliana. Uma das primeiras documentações conhecidas está em Cantio Ursina, canto registrado em 1675 na região de Rautalampi. Outro texto foi recolhido em Viitasaari depois de 1750. Há ainda ocorrências reunidas na coleção Suomen Kansan Vanhat Runot (SKVR), dedicada à preservação da poesia popular finlandesa.

Em Mythologia Fennica (1789), Christfrid Ganander descreveu Hongatar como um espírito  feminino da floresta, relacionado à proteção dos pinheiros e ao cuidado dos ursos. O autor também menciona Hongonen como seu marido e pai do urso. Hongatar também aparece em encantamentos destinados a proteger os rebanhos contra ataques de ursos e a auxiliar na localização dos abrigos desses animais.


Hongatar e o nascimento do urso

Os cantos tradicionais finlandeses apresentam diferentes versões sobre a origem do urso. Em algumas narrativas, o animal tem origem celeste e é associado à região da Ursa Maior; em outras, nasce na floresta. Hongatar aparece em determinadas versões como sua mãe ou protetora, mas não é a única figura feminina relacionada a esse papel.

Entre as personagens associadas ao nascimento e à proteção do urso estão Mielikki, Petäjätär e a Senhora de Pohjola. Elas desempenham funções semelhantes em diferentes cantos. Em uma composição recolhida em Kuusamo, por exemplo, o urso é associado ao “ninho de Petäjätär” e à “morada de Hongatar”, aproximando as duas figuras na narrativa.

Relação com a floresta e os rituais do urso

A ligação de Hongatar com os pinheiros também aparece nos estudos sobre as práticas cerimoniais dedicadas ao urso. Em Suomalainen mytologia (1967), Martti Haavio examinou a associação entre a personagem e o pinheiro utilizado em rituais envolvendo o crânio do animal. 

Em algumas tradições finlandesas e carelianas, após a caça, o crânio do urso era pendurado em uma árvore, enquanto os ossos podiam ser enterrados junto às raízes. Essas práticas estavam relacionadas à crença na regeneração do animal e em seu retorno. A pesquisa de Vesa Matteo Piludu sobre o cerimonialismo do urso finno-careliano aborda a relação entre a caça, o tratamento ritual dos restos do animal e a paisagem florestal.

Hongatar no Kalevala

No Kalevala, poema épico compilado por Elias Lönnrot, Hongatar é chamada de hyvä emäntä, expressão que pode ser traduzida como “boa senhora” ou “boa anfitriã”. No canto 32, seu nome aparece ao lado dos de Katajatar, Pihlajatar e Tuometar. A passagem identifica Tuometar como filha de Tapio.

Os registros tradicionais não apresentam uma descrição física uniforme de Hongatar. A personagem é caracterizada principalmente por sua relação com os pinheiros, os ursos e a floresta, conforme aparece nos cantos e encantamentos.


fontes:
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2 de novembro de 2026

Itqiirpak

۞ ADM Sleipnir

Itqiirpak é uma criatura sobrenatural das tradições orais dos Yupik do Alasca, particularmente associada à região de Scammon Bay. Seu nome é traduzido como “grande fogo” e a criatura é descrita como uma mão gigantesca que emerge do oceano, com uma boca na palma e outra na extremidade de cada dedo. Em alguns relatos, também aparece associada a uma luz avermelhada sobre o mar.

Em uma narrativa Yup’ik apresentada pela antropóloga Birgitte Sonne, com referência aos registros da antropóloga Ann Fienup-Riordan, algumas crianças brincavam sozinhas no qasgiq, a casa comunal tradicional dos homens, quando Itqiirpak surgiu do oceano e começou a devorá-las. Um menino conseguiu escapar ao se esconder sob uma abertura no chão, próxima à entrada. 

Quando os adultos retornaram, perceberam a presença da criatura e fizeram barulho para atraí-la. Em seguida, cortaram seus dedos, fazendo com que ela desaparecesse. Ao amanhecer, encontraram apenas gelo no local onde a mão havia surgido. A narrativa tem sido interpretada em relação aos perigos do inverno no ambiente ártico, especialmente a escuridão e a escassez de alimentos. Sonne sugere que histórias desse tipo também poderiam funcionar como advertências às crianças para que não fizessem barulho no qasgiq, evitando afugentar os animais caçados. Essas interpretações, contudo, não representam necessariamente um significado único ou definitivo atribuído à criatura pelos Yupik.

Uma possível representação de Itqiirpak foi identificada em uma colher de madeira yupik preservada no Museu Nacional de História Natural do Smithsonian. A peça apresenta a figura de uma mão vermelha com uma abertura na palma, na qual são visíveis dentes pontiagudos. O catálogo considera possível que a decoração represente a criatura, mas também admite outras interpretações, como um aviso contra o roubo de alimentos.

fontes:

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29 de outubro de 2026

Atavaka

۞ ADM Sleipnir


Atavaka (sânscrito  आटवक,  Āṭavaka, literalmente "Senhor da Floresta", em páli, Āḷavaka) é uma figura do budismo associada tanto às tradições mais antigas quanto ao budismo Mahāyāna e esotérico. Nos textos do Cânone Páli, aparece como um poderoso yakṣa antropófago que foi convertido por Sidarta Gautama, o Buda. Com a difusão do budismo pela Ásia, sua imagem passou por um processo de transformação, tornando-se a de uma divindade protetora e de um Rei da Sabedoria. No Japão, é conhecido principalmente pelo nome Daigensui Myōō (大元帥明王), sendo venerado como guardião do Estado e defensor do Dharma.

História

As fontes budistas mais antigas situam Aṭavaka na floresta de Āṭavī, onde habitava sob uma grande figueira-de-bengala. Segundo a tradição, ele havia recebido de Vaiśravaṇa (um dos Guardiões das Direções, deidades budistas que controlam e protegem os quatro pontos cardeais) a permissão para capturar e devorar qualquer pessoa que entrasse na sombra de sua morada.

Certa vez, o rei de Āṭavī passou pelo local durante uma caçada. Para escapar da morte, comprometeu-se a fornecer criminosos condenados como alimento para o yakṣa. Com o tempo, porém, os prisioneiros tornaram-se insuficientes para atender às exigências da criatura, e os habitantes da região passaram a sacrificar seus próprios filhos. Após anos dessa prática, restava apenas o filho do próprio rei, o príncipe Āṭavaka Kumāra. Quando o jovem estava prestes a ser entregue ao demônio, o Buda tomou conhecimento da situação por meio de seus poderes sobrenaturais e dirigiu-se à residência do yakṣa.

Naquele momento, Aṭavaka encontrava-se nos Himalaias participando de uma assembleia de yakṣas. Aproveitando sua ausência, o Buda entrou em sua morada e sentou-se em seu trono. Ao retornar, o yakṣa tentou expulsá-lo utilizando seus poderes e armas mágicas, mas sem sucesso. Nem mesmo o Dussāvudha, arma considerada uma das mais poderosas do mundo segundo a tradição budista, foi capaz de mover o Buda. Diante do fracasso de suas tentativas, Aṭavaka passou a questioná-lo sobre temas como riqueza, felicidade, verdade, sabedoria e libertação. O Buda respondeu a todas as perguntas, ensinando que a fé constitui a maior riqueza, que a verdade é o mais elevado dos valores e que o discernimento conduz à purificação espiritual.

Convencido pela sabedoria do Buda, Aṭavaka abandonou sua conduta violenta e tornou-se seu seguidor. Os comentários budistas afirmam que ele alcançou o estágio de sotāpanna, o primeiro grau de realização espiritual.

Na manhã seguinte, os servos do rei chegaram trazendo o príncipe destinado ao sacrifício. Em vez de reclamar sua vítima, Aṭavaka entregou o menino ao Buda, que o abençoou e o devolveu em segurança à família real. O príncipe passou a ser conhecido como Hastaka Aṭavaka e mais tarde tornou-se um dos mais respeitados discípulos leigos do budismo.

A conversão de Aṭavaka marcou o fim dos sacrifícios realizados em sua homenagem. Segundo a tradição, os habitantes de Āṭavī construíram para ele uma nova residência e passaram a reverenciá-lo como protetor do Dharma.


Desenvolvimento nas tradições Mahāyāna

Com a expansão do budismo para a Ásia Central, a China e o Japão, a figura de Aṭavaka foi gradualmente reinterpretada. O antigo yakṣa convertido deixou de ser lembrado apenas como personagem de uma narrativa exemplar e passou a ocupar uma posição de destaque entre as divindades protetoras do budismo. Nas tradições Mahāyāna e Vajrayāna, ele é identificado como um dos Oito Grandes Generais Yakṣas subordinados a Vaiśravaṇa. Nesses contextos, recebe frequentemente o título de Aṭavaka Mahāyakṣasenāpati, "Grande General Yakṣa Aṭavaka", e é venerado como protetor dos ensinamentos budistas.

No Leste Asiático, especialmente no Japão, tornou-se conhecido como Daigensui Myōō. Sob essa forma, passou a integrar o grupo dos Reis da Sabedoria, divindades ferozes que simbolizam a força necessária para derrotar a ignorância e proteger a Lei Budista.

Culto no Japão

No Japão, Daigensui Myōō tornou-se particularmente associado à proteção do Estado. Desde o período Heian, a Corte Imperial realizava rituais conhecidos como Taigensui no Hō, destinados a afastar epidemias, desastres naturais, rebeliões e ameaças estrangeiras. A devoção a Daigensui Myōō permaneceu ligada principalmente às escolas esotéricas Shingon e Tendai. Diversos templos preservam imagens e tradições associadas à divindade, incluindo o Akishino-dera, em Nara, e complexos religiosos ligados ao Tō-ji e ao Daigo-ji, em Quioto.

Um episódio frequentemente citado ocorreu nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial. Em janeiro de 1945, monges da escola Shingon realizaram rituais dedicados a Daigensui Myōō com o objetivo de derrotar os inimigos do Japão. Após a morte do presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt, em abril daquele ano, alguns participantes atribuíram o acontecimento à eficácia dessas cerimônias.

Estátua de Daigensui Myo-o no templo Jikoh-in em Toyama


Iconografia

A iconografia de Aṭavaka varia conforme a época e a tradição religiosa. Algumas representações mostram-no com uma única cabeça e quatro braços, enquanto outras lhe atribuem múltiplas cabeças e numerosos braços, ressaltando seu caráter sobrenatural. Como outros Reis da Sabedoria, ele costuma ser retratado com expressão ameaçadora, cercado por chamas e empunhando armas e implementos rituais. Sua pele pode aparecer nas cores azul, vermelha ou negra. Em certas imagens, serpentes nāga envolvem seus membros como símbolo de poder e proteção.

Poderes e atributos

As fontes budistas atribuem a Aṭavaka capacidades sobrenaturais extraordinárias. Seu grito de guerra era considerado tão poderoso que podia ser ouvido por toda Jambudvīpa, o continente habitado pelos seres humanos segundo a cosmologia budista.

Sua principal arma, o Dussāvudha, figura entre as quatro armas mais poderosas da tradição budista. Os textos afirmam que ela poderia provocar secas prolongadas, destruir toda a vegetação, secar oceanos e até mesmo despedaçar o monte Sumeru, a montanha central da cosmologia budista.

Aṭavaka também é mencionado no Atānātiya Sutta entre os yakṣas protetores invocados para defender praticantes budistas contra influências malignas e perigos sobrenaturais.

Mantras e práticas esotéricas

Diversos mantras, dhāraṇīs, selos rituais e talismãs são atribuídos a Aṭavaka na literatura esotérica budista. Esses elementos aparecem principalmente no Sūtra da Dhāraṇī de Aṭavaka e são empregados em rituais voltados à proteção, à cura, ao afastamento de calamidades e à neutralização de forças consideradas nocivas.

Interpretação

O estudioso japonês Kaigyoku Watanabe classificou a história de Aṭavaka entre as chamadas narrativas de Kalmāsapāda, um conjunto de relatos presentes na literatura budista e indiana. Essas histórias costumam apresentar um yakṣa antropófago, um governante que busca apaziguá-lo por meio de concessões ou sacrifícios e, por fim, a transformação da criatura após o encontro com uma figura espiritualmente iluminada.

A narrativa de Aṭavaka é considerada um dos exemplos mais conhecidos desse motivo literário e ilustra um tema recorrente no budismo: a possibilidade de conversão e transformação mesmo dos seres mais violentos e perigosos.


fontes:

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