23 de fevereiro de 2026

Goumang

۞ ADM Sleipnir

Goumang (chinês 句芒, Gōu Máng, também chamado Jumang) é uma divindade da mitologia chinesa ligada à primavera, ao crescimento da vida, à agricultura e à região leste do mundo. Ele representa o momento em que a natureza desperta após o inverno, quando as plantas brotam e a vida começa um novo ciclo. Por isso, seu culto sempre esteve associado ao plantio, à fertilidade da terra e aos rituais que marcam o início do ano agrícola.

Nos textos antigos, Goumang aparece de duas maneiras: como um deus propriamente dito e como um cargo ritual, conhecido como Oficial da Madeira (chinês 木正, Muzheng), dentro do sistema cosmológico dos Cinco Elementos (Wuxing). Essa dupla interpretação reflete a visão chinesa antiga de que o universo funcionava como uma grande ordem organizada, semelhante a um império governado por leis rituais. Além disso, Goumang é descrito como um shen (神), um espírito divino, ou como um si (司), um oficial responsável por administrar forças naturais específicas sob a autoridade de soberanos míticos.

Identidade e funções

Goumang é visto como o deus que garante o crescimento das plantas, a fertilidade da terra e a renovação da vida. O elemento madeira, ao qual ele está ligado, simboliza nascimento, expansão e vitalidade. Ao governar a primavera, Goumang assegura que o ciclo natural se renove e que a vida continue seu curso.

Por estar associado ao leste, direção do nascer do sol, ele também é considerado o regente do Oriente, ligado ao ritmo do tempo e às mudanças das estações. Em algumas tradições posteriores, Goumang é relacionado ao planeta Júpiter, que na astronomia chinesa regula os calendários e o fluxo do tempo, reforçando seu papel como guardião da ordem natural.

Origem e natureza divina

As fontes antigas não apresentam uma versão única sobre a origem de Goumang. Em uma tradição, ele é descrito como descendente do imperador mítico Shaohao (少昊, também chamado Di Zhi 帝摯), figura associada à organização do mundo e das direções cósmicas. Em outra interpretação, “Goumang” não seria originalmente um nome divino, mas o título de um cargo sagrado, o de Oficial da Madeira, exercido por um personagem chamado Zhong (重), parente — ou, segundo algumas fontes, filho — de Shaohao.

O texto histórico Zuozhuan (左傳) identifica Goumang com Zhong e afirma que ele era um dos quatro tios do imperador Shaohao. Já o comentário Zhouli zhushu (周禮注疏) diz que Zhong governava especificamente tudo o que dizia respeito ao elemento madeira. Com o tempo, essas versões se fundiram, fazendo com que Goumang fosse visto tanto como um deus independente quanto como uma função dentro da ordem divina do cosmos.

Aparência e iconografia

A descrição mais antiga de Goumang aparece no Shan Hai Jing (山海經, "Clássico das Montanhas e Mares"). Ele é apresentado como uma figura híbrida, com corpo de ave e rosto humano. Em algumas versões, suas pernas são formadas por dois dragões, símbolos do movimento, da força vital e das águas que alimentam a fertilidade da terra.

Essa aparência reflete crenças muito antigas, ligadas ao xamanismo e ao culto das aves, vistas como mensageiras entre o Céu e o mundo humano. Com o passar dos séculos, porém, sua imagem foi se tornando mais próxima do cotidiano. A partir da dinastia Qing, Goumang passou a ser retratado como um jovem pastor montado em um boi, segurando um chicote de salgueiro, símbolo do despertar da primavera e do início do trabalho no campo.

Relação com Fuxi

Goumang mantém uma ligação estreita com Fuxi (伏羲), também conhecido como Taihao (太皞), um dos grandes heróis culturais da tradição chinesa. Enquanto Fuxi é lembrado como um civilizador — inventor de técnicas, regras sociais e símbolos — Goumang aparece como seu auxiliar, ajudando a governar o leste e a estação da primavera.

Algumas lendas afirmam que ambos reinavam no extremo oriental do mundo, próximo à árvore sagrada Fusang (扶桑), local mítico onde o sol nasce. Em representações simbólicas, Goumang e Fuxi seguram instrumentos como o compasso, imagem da ordem cósmica e do equilíbrio entre natureza, tempo e sociedade.

Goumang como deus da vida

Além de sua ligação com a vegetação, Goumang também está associado à vida humana e à continuidade das famílias. O livro Mozi (墨子) relata um episódio em que Goumang aparece a um governante virtuoso e lhe apresenta uma filha de Taihao, prometendo-lhe muitos descendentes. Comentários posteriores esclarecem que esse governante era o Duque Mu de Qin, e não o de Zheng, como se pensava inicialmente.

Esse relato reforça a imagem de Goumang como uma divindade ligada à fertilidade, à prosperidade dos reinos e à legitimidade do poder. Em outras tradições, ele também recompensa governantes justos com longa vida, ampliando seu papel como símbolo do florescimento da vida em todos os sentidos.


Tradições históricas e atribuições culturais

Fragmentos do texto Suichaozi (隋巢子) descrevem Goumang como assistente do fundador da dinastia Xia, considerada a primeira dinastia da China. Isso mostra como sua figura foi integrada às narrativas sobre a origem da civilização chinesa. Já na obra genealógica Shiben (世本), Goumang é lembrado como o inventor da gaze (luo 羅), um tecido leve, associação simbólica entre o elemento madeira, o artesanato e o desenvolvimento cultural.

Culto e rituais

Desde a dinastia Han, Goumang passou a integrar os rituais oficiais do Estado, especialmente aqueles realizados no início da primavera. Sacrifícios eram feitos no lado oriental das capitais para pedir boas colheitas e manter a harmonia entre o Céu, a Terra e os seres humanos.

Com o tempo, sobretudo a partir da dinastia Song, sua figura se popularizou e passou a fazer parte das tradições do povo. Um dos rituais mais conhecidos era o açoite simbólico do boi da primavera, uma encenação que marcava o início do trabalho agrícola e celebrava o despertar das forças vitais da natureza.



fontes:


CLIQUE NO BANNER ABAIXO PARA MAIS POSTS SOBRE

PARTICIPE! Deixe seu comentário, elogio, crítica nas publicações. Sua interação é importante e ajuda a manter o blog ativo! Para mais conteúdo, inclusive postagens exclusivas, siga o Portal dos Mitos no seu novo Instagram: @portaldosmitosblog

22 de fevereiro de 2026

Tōri-akuma

۞ ADM Sleipnir

Arte de zatoumusi

Tōri-akuma (japonês 通り悪魔 ou とおりあくま, "demônio passageiro" ou "demônio do caminho", também conhecido pelos nomes Tōrimono (通り者, "o passageiro" ou "aquele que passa") e Tōrima (通り魔,  "demônio do caminho") é um yokai do folclore japonês associado a surtos súbitos de loucura, violência e comportamentos autodestrutivos. Ele aparece com frequência em relatos e ensaios do período Edo, sendo mencionado em obras como o Seji Hyakudan (事百談, "Cento de Conversas sobre Assuntos Mundanos") de Yamazaki Yoshishige (1796-1856), e o Kokin Zatsudan Omoide-zōshi (古今雑談思出草紙, "Livro de memórias de conversas antigas e modernas") de Ryūtei Tanehiko (1783-1842).

Natureza e Comportamento

Segundo a tradição, o Tōri-akuma não ataca diretamente suas vítimas. Sua ação consiste em manifestar-se brevemente diante de pessoas cuja mente se encontra dispersa, enfraquecida ou emocionalmente vulnerável, provocando forte perturbação espiritual por meio de visões repentinas. A crença popular afirmava que, ao se deixar afetar pela aparição, o indivíduo inevitavelmente enfrentaria desvario mental, agressividade extrema ou comportamentos autodestrutivos, como o suicídio. Aqueles que conseguiam manter a serenidade e o controle do espírito escapavam de sua influência, fazendo com que seus efeitos se deslocassem para outra pessoa da mesma vizinhança. Por essa razão, práticas de autocontrole mental e espiritual eram consideradas essenciais para evitar a ação do yokai.


Aparência

As descrições da aparência do Tōri-akuma variam conforme a fonte. Em relatos como os do Seji Hyakudan e do Kokin Zatsudan Omoide-zōshi, o yokai é descrito como um homem idoso, de cabelos desgrenhados, vestido com uma camisa branca chamada jūban e empunhando uma lança. Em outra passagem do Kokin Zatsudan Omoide-zōshi, ele assume a forma de dezenas de guerreiros armados, alinhados e encarando fixamente o observador. Há ainda registros em que se manifesta como chamas súbitas ou figuras humanas de comportamento inquietante.

Relatos Tradicionais

O Caso de Kawai Jirōbee

Segundo o Seji Hyakudan, um samurai chamado Kawai Jirōbee observou certa noite uma chama de aproximadamente três shaku (cerca de 90 centímetros a um metro) surgindo de um arbusto em seu jardim. Sentindo-se perturbado, deitou-se brevemente para recuperar o equilíbrio emocional. Ao olhar novamente, viu um homem de cabelos desgrenhados, vestido de branco, surgindo por cima do muro e brandindo uma lança. Kawai concentrou-se para acalmar o espírito e, ao olhar pela terceira vez, tanto a chama quanto o homem haviam desaparecido.

Pouco depois, o vizinho de Kawai sofreu um violento surto, atacando pessoas com uma espada. Kawai afirmou que o homem de branco era o Tōri-akuma, do qual escapara por ter mantido o controle da mente, ao contrário do vizinho, que teria sucumbido à entidade.

Kawai Jirōbee e o Tōri-akuma. Ilustração do Seji Hyakudan

O Samurai de Kaga

No Kokin Zatsudan Omoide-zōshi, relata-se que um samurai da província de Kaga, ao entardecer, viu mais de trinta guerreiros em armaduras, armados com lanças e naginatas, alinhados sobre o muro de sua casa e encarando-o intensamente. O samurai lançou-se ao chão e concentrou sua atenção no tanden, acalmando a mente até que a visão desaparecesse. Logo em seguida, um morador da casa vizinha enlouqueceu, feriu várias pessoas e acabou cometendo suicídio.

A Mulher de Yotsuya

Outro relato ocorre na região de Yotsuya, após um grande incêndio. Uma mulher observava a paisagem ao entardecer quando um idoso corcunda, de cabelos brancos, apoiado em um cajado e exibindo um sorriso inquietante, aproximou-se lentamente. Percebendo tratar-se de uma perturbação espiritual, a mulher fechou os olhos, acalmou a mente e recitou trechos do Sutra de Kannon (観音経). Ao abrir os olhos, a figura havia desaparecido. Pouco depois, a esposa de um médico da vizinhança sofreu um ataque repentino de loucura, interpretado como o deslocamento da ação do Tōri-akuma.

Uso Contemporâneo do Termo

Na língua japonesa moderna, o termo 通り魔 (tōrima) ainda é utilizado, mas com outro significado, passando a designar agressores que atacam pessoas aleatoriamente, especialmente em crimes sem motivação aparente. No passado, entretanto, acreditava-se que tais atos eram causados pela ação direta do Tōri-akuma.

Arte de 七海ルシア

fontes:


CLIQUE NO BANNER ABAIXO PARA MAIS POSTS SOBRE



CLIQUE NO BANNER ABAIXO PARA MAIS POSTAGENS DA SÉRIE


PARTICIPE! Deixe seu comentário, elogio, crítica nas publicações. Sua interação é importante e ajuda a manter o blog ativo! Para mais conteúdo, inclusive postagens exclusivas, siga o Portal dos Mitos no seu novo Instagram: @portaldosmitosblog

21 de fevereiro de 2026

Walo

۞ ADM Sleipnir

Walo é um gigante mítico pertencente ao folclore maranao, povo austronésio do sul das Filipinas. Ele é conhecido como o guardião das almas humanas e habita os reinos celestiais, mais precisamente uma área do paraíso onde as almas de todos os seres humanos são mantidas.

Segundo a tradição, Walo é um ser de aparência assustadora, dotado de mil olhos, que lhe permitem vigiar tudo ao mesmo tempo, e oito cabeças cobertas de pelos, símbolos de força e poder. Apesar de sua forma imponente, ele não é visto como um ser maligno, mas como um guardião necessário, encarregado de proteger um espaço sagrado e manter a ordem espiritual.

Contexto mitológico

Na cosmologia maranao, o universo é organizado em sete camadas. Tanto a terra quanto o céu possuem sete níveis, habitados por diferentes tipos de seres. A sétima camada do céu corresponde ao paraíso, destino das almas após a morte.

Dentro do paraíso existe um local reservado onde as almas das pessoas vivas são guardadas em jarros bem fechados. Esse espaço é vigiado por Walo, cuja função é garantir que o ciclo da vida e da morte siga seu curso natural, sem interferências indevidas.

Arte de @thatguywithapen

Walo no épico Darangan

Walo aparece no Darangan (ou Darangen), o grande ciclo épico da tradição oral maranao, especialmente nos relatos ligados à morte e ao retorno do herói príncipe BantuganSegundo a narrativa, Bantugan era um príncipe virtuoso, admirado por sua beleza, coragem e bondade, o que despertou a inveja de seu irmão mais velho, rei do reino de Bumbaran. Durante uma de suas campanhas militares, o rei proibiu o povo de falar com Bantugan sob pena de morte. Ao retornar vitorioso e encontrar apenas silêncio e rejeição, o príncipe, profundamente entristecido, decidiu abandonar seu reino e partir em viagem.

Após longas jornadas, Bantugan chegou exausto às portas do Reino-Entre-Dois-Mares, onde caiu ao chão e morreu. Sua morte causou grande comoção, e até mesmo o rei, arrependido, lamentou profundamente o destino do irmão.

Movido pelo amor fraterno, Madale (ou Madali), irmão de Bantugan, decidiu descer ao domínio espiritual para recuperar sua alma. Acompanhado do rei, ele empreendeu uma jornada perigosa pelos céus, atravessando regiões de tempestades, fogo e calor extremo, até alcançar os portais mais altos do firmamento.

Nesse ponto da narrativa, os heróis chegam à região celestial onde se encontram as almas dos mortos, guardadas em recipientes. Com astúcia, Madale consegue distrair Walo e localizar a alma de Bantugan, aprisionada em um recipiente. Ele então retorna rapidamente ao mundo dos vivos e devolve a alma ao corpo do príncipe, que desperta como de um sono profundo. O retorno de Bantugan é celebrado por muitos dias, e mais tarde ele se casa com a princesa Datimbang, selando a restauração da harmonia.

Arte de @mark0riginals

fontes:


CLIQUE NO BANNER ABAIXO PARA MAIS POSTS SOBRE

PARTICIPE! Deixe seu comentário, elogio, crítica nas publicações. Sua interação é importante e ajuda a manter o blog ativo! Para mais conteúdo, inclusive postagens exclusivas, siga o Portal dos Mitos no seu novo Instagram: @portaldosmitosblog

19 de fevereiro de 2026

Nun

۞ ADM Sleipnir


Nun (também chamado Nu, Nenu ou Nunu) é uma divindade primordial da mitologia egípcia, associada às águas caóticas e infinitas que existiam antes da criação do mundo. Ele representa o oceano primordial do qual surgiu o universo e do qual emergiram os deuses criadores. Diferentemente das divindades cultuadas nos templos, Nun não possuía sacerdócio próprio nem locais de adoração exclusivos, sendo compreendido sobretudo como uma força cósmica fundamental, presente em toda a criação.

Origem e papel na criação

Na teologia de Hermópolis, Nun ocupa posição central no mito da criação. Segundo essa tradição, o universo surgiu da interação de oito forças primordiais conhecidas como a Ogdóade, composta por quatro divindades masculinas (Amon, Heh, Kuk, além do próprio Nun) e suas respectivas contrapartes femininas (Amanunet, Hauhet, Kauket e Naunet). Nun e e Naunet, personificavam o elemento da água primordial, da qual todas as outras formas de existência se originaram.

Recorte de um relevo do Templo de Dendera, monstrado a Ogdóade de Hermópolis. No canto superior esquerdo estão o deus Heh e a deusa Hauhet; à direita estão Nun e Naunet. No canto inferior esquerdo estão Amon e Amaunet; à direita deles estão Kuk e Kauket.

Embora o Egito Antigo apresentasse diversos mitos de criação, todos concordavam que o mundo teve início nas águas de Nun. Algumas tradições afirmavam ainda que, ao final dos tempos, toda a criação retornaria a esse estado primordial, quando a ordem cósmica deixaria de existir.

Nun era considerado o mais antigo de todos os deuses e recebia o título simbólico de “Pai dos Deuses”. Esse título, porém, não indicava uma paternidade direta, mas sim sua precedência absoluta no tempo e sua função como fonte primordial da existência.

Relações com outros deuses

Em muitos mitos, o deus criador surge “dentro de Nun” ou a partir dele. Em Hermópolis, esse criador podia ser identificado com divindades como Thoth, Amon, Hórus ou , dependendo da tradição local. Já em Mênfis, Nun era associado ao deus criador Ptah, formando a divindade composta Ptah-Nun. Nessa concepção, Ptah teria se manifestado como Nun para dar origem à vida, ao crescimento e à ordem do mundo.

Na teologia tebana, sacerdotes defendiam que Amon foi o primeiro a emergir das águas de Nun, transformando-se no monte primordial e iniciando, a partir daí, o processo de criação dos demais deuses. Nessa visão, Nun permanecia como uma força poderosa, mas passiva, necessária para que a criação pudesse ocorrer.

Nun e o ciclo cósmico

Nun não simbolizava apenas o início do mundo, mas também a ameaça constante do retorno ao caos. Durante a cheia anual do rio Nilo, os egípcios acreditavam que o país se aproximava novamente de seu estado primordial, quando as águas cobriam a terra e a ordem da civilização parecia temporariamente suspensa.

Todas as águas — rios, mares e lagos — eram consideradas manifestações diretas de Nun. Por esse motivo, ele era visto como a fonte do Nilo e de sua inundação anual, essencial para a fertilidade do Egito. A presença simbólica de Nun também estava associada à fundação dos templos, uma vez que os egípcios utilizavam a água como referência para nivelar o terreno, ligando esse processo à ordem primordial.

Segundo a mitologia, todas as noites o deus solar Rá retornava ao abismo aquoso de Nun para ser regenerado antes de nascer novamente ao amanhecer. Estados como o sono, os sonhos, a embriaguez e a morte eram compreendidos como formas simbólicas de retorno temporário a esse abismo primordial. Em textos funerários como o Livro dos Portões, Nun aparece como uma figura colossal que ergue a barca solar das profundezas do caos e a conduz de volta ao céu.


Aspectos simbólicos e mitológicos

Apesar de sua ligação com o caos primordial, Nun não era visto como uma força destrutiva. Diferentemente da serpente Apep, inimiga de Rá e personificação do caos hostil, Nun possuía um aspecto protetor e equilibrador. Em diversos mitos, ele protege os deuses Shu e Tefnut das forças caóticas e atua como conselheiro divino em momentos de crise.

Em uma narrativa amplamente conhecida, quando os seres humanos passam a se rebelar contra os deuses, Rá consulta Nun sobre como agir. O deus primordial aconselha o envio do chamado “Olho de Rá”, identificado com a deusa Hathor, para punir a humanidade. Essa punição assume caráter destrutivo e, em algumas interpretações, é associada a uma grande inundação, reforçando a ligação simbólica entre Hathor e o poder das águas.

Culto e representações

Nun não possuía templos nem sacerdotes dedicados exclusivamente a ele. Ainda assim, estava simbolicamente presente no lago sagrado de todos os templos egípcios, representando a água primordial da qual a criação emergiu.

Na iconografia egípcia, Nun foi representado de diversas maneiras ao longo do tempo. Como membro da Ogdóade, aparecia frequentemente sob a forma de um sapo ou de um homem com cabeça de sapo, símbolo de regeneração e fertilidade. Em outras representações, era retratado como um homem barbado de pele azul ou verde, cores associadas à água, ao rio Nilo e à renovação da vida. Nessas imagens, Nun costuma surgir emergindo das águas primordiais ou sustentando a barca do deus solar, enfatizando seu papel no ciclo eterno da criação e da renovação cósmica. Em algumas representações menos comuns, ele assume uma forma andrógina, com seios pronunciados, destacando seu caráter gerador e sua função como fonte de toda a existência.

Arte de Galgannet


fontes:

CLIQUE NO BANNER ABAIXO PARA MAIS POSTS SOBRE
PARTICIPE! Deixe seu comentário, elogio, crítica nas publicações. Sua interação é importante e ajuda a manter o blog ativo! Para mais conteúdo, inclusive postagens exclusivas, siga o Portal dos Mitos no seu novo Instagram: @portaldosmitosblog

18 de fevereiro de 2026

A Pedra da Feiticeira

۞ ADM Sleipnir

A chamada Pedra da Feiticeira é uma formação rochosa localizada na Praia do Itararé, no litoral do estado de São Paulo, Brasil. O local é conhecido por uma antiga lenda popular que remonta ao período entre os séculos XVIII e XIX e integra o imaginário cultural da região.

A lenda fala sobre uma mulher misteriosa, descrita como de aparência descuidada, usando um longo vestido e frequentemente associada à figura de uma feiticeira ou bruxa. Segundo a tradição oral, ela costumava permanecer por longos períodos sobre a rocha, situada próxima ao mar, em uma área onde a maré forma um lençol de água ao seu redor. Um de seus pontos mais conhecidos é a chamada “Cama da Velha”, uma depressão natural na pedra associada a esses momentos, especialmente durante a noite.

De acordo com os relatos, a mulher teria vivido uma intensa relação amorosa com um marinheiro português, com quem se encontrava na própria pedra. O marinheiro partiu prometendo retornar, mas nunca mais apareceu. Abandonada e profundamente abalada, ela teria permanecido no local, acenando para navios que passavam ao longe, na esperança de reencontrar seu amor. Algumas versões afirmam que ela engravidou e perdeu a gestação após a partida do marinheiro, o que agravou seu sofrimento emocional. Em outras narrativas, sua dor teria se transformado em ressentimento, levando-a a atrair ou sequestrar banhistas para a realização de supostas magias no interior da pedra.

O desfecho mais recorrente da lenda relata que, em uma noite de maré cheia, ao acreditar que um navio lhe acenava, a mulher entrou no mar em direção às embarcações. Envolvida pela forte correnteza entre as pedras, acabou morrendo afogada. A crença popular sustenta que, em noites de luar, ainda é possível ouvir vozes ou gritos de socorro vindos da Pedra da Feiticeira, atribuídos ao espírito da mulher que ali teria morrido.

Atualmente, a Pedra da Feiticeira abriga uma escultura representando a personagem lendária. A obra é assinada pelo artista Francisco Telles e foi instalada como forma de preservar e valorizar a memória cultural associada à rocha e à lenda que lhe dá nome.

Pedra da Feiticeira, foto por Mike Peel

fontes:


CLIQUE NO BANNER ABAIXO PARA MAIS POSTS SOBRE
PARTICIPE! Deixe seu comentário, elogio, crítica nas publicações. Sua interação é importante e ajuda a manter o blog ativo! Para mais conteúdo, inclusive postagens exclusivas, siga o Portal dos Mitos no seu novo Instagram: @portaldosmitosblog

17 de fevereiro de 2026

Glawackus

۞ ADM Sleipnir

O Glawackus é uma criatura lendária do folclore lenhador norte-americano. Seu nome é uma combinação de “Glastonbury”, a cidade do estado de Connecticut onde os avistamentos foram relatados, com “wacky” (termo inglês que significa “maluco” ou “excêntrico”), acrescido da terminação latina “-us”, comum na nomeação informal de criaturas fantásticas e pseudocientíficas da época.

A criatura é descrita como feroz e de aparência híbrida, reunindo características de diferentes animais, o que dificulta sua classificação. A maioria dos relatos afirma que o Glawackus possuía o corpo de um grande felino, semelhante a um puma ou pantera, combinado com a cabeça de um cão ou de uma hiena. Também são mencionadas garras e presas afiadas, reforçando sua imagem ameaçadora.

Arte de Dragonix

Avistamentos

Os primeiros avistamentos do Glawackus ocorreram em 1939, especificamente a partir de janeiro de 1939, na região rural de Glastonbury, uma área cercada por montanhas e florestas densas — cenário que favoreceu o surgimento e a disseminação de histórias misteriosas. Moradores locais relataram ataques a gado e outros animais de fazenda, afirmando que a criatura deixava rastros incomuns e trilhas de sangue.

Alguns testemunhos mencionam gritos aterradores vindos da mata durante a noite, o que aumentou o temor da população e levou à organização de buscas pela suposta fera. Um dos relatos mais curiosos descreve o Glawackus como possuidor de uma “força sobre-humana”. Fazendeiros e caçadores experientes chegaram a liderar expedições para capturá-lo, mas nenhuma tentativa teria obtido sucesso, o que contribuiu para consolidar sua reputação lendária.

Teorias

Diversas teorias tentam explicar a origem do Glawackus. Uma das mais recorrentes sugere que se trataria de um animal exótico, como um leão ou outro grande felino, que teria escapado de um zoológico ou de um circo itinerante. Essa hipótese buscaria justificar tanto seu comportamento predatório quanto suas características físicas incomuns.

Outra interpretação, comum no campo da criptozoologia, propõe que o Glawackus seria uma espécie ainda desconhecida da ciência ou mesmo um híbrido de animais, resultado de observações imprecisas em condições adversas.

Há também quem defenda que os relatos se refiram a uma hiena fugitiva, dada a semelhança mencionada por algumas testemunhas quanto à postura e ao formato da cabeça da criatura. Por fim, uma abordagem mais cética sustenta que o Glawackus seja fruto da imaginação coletiva ou de um episódio de histeria em massa, fenômeno relativamente comum em comunidades rurais e isoladas, onde rumores tendem a se espalhar rapidamente.

Evidências questionáveis

A autenticidade de algumas evidências associadas ao Glawackus foi posteriormente colocada em dúvida. Destaca-se o caso de James Rufius Williams, que admitiu ter fabricado pegadas falsas atribuídas à criatura. Essa revelação levantou questionamentos sobre a veracidade de parte dos rastros e indícios físicos apresentados na época, reforçando a hipótese de que o Glawackus possa ter sido, ao menos em parte, um produto de trotes, exageros ou construções folclóricas deliberadas.

Arte de Jonathan Valiente

fontes:


CLIQUE NO BANNER ABAIXO PARA MAIS POSTAGENS DA SÉRIE

PARTICIPE! Deixe seu comentário, elogio, crítica nas publicações. Sua interação é importante e ajuda a manter o blog ativo! Para mais conteúdo, inclusive postagens exclusivas, siga o Portal dos Mitos no seu novo Instagram: @portaldosmitosblog
Ruby