Nunogarami (japonês 布絡み, "aquele que se enrosca como pano") é um yokai do folclore japonês associado à cidade de Tago, no distrito de Sannohe, província de Aomori. A criatura faz parte das tradições ligadas a Nuno-numa, um lago que existia na localidade de Nagasaka e que era considerado habitado por um ser sobrenatural temido pelos moradores.
Aparência e Comportamento
De acordo com a lenda, o Nunogarami tinha a capacidade de assumir a aparência de um pedaço de tecido abandonado próximo à margem do lago. Quando alguém tentava recolhê-lo, o suposto pano se esticava repentinamente, enrolava-se na vítima e a arrastava para as águas. Por essa razão, a criatura era vista como uma ameaça pelos habitantes da região.
Lenda
A narrativa mais conhecida sobre o Nunogarami relata a história de um homem cuja esposa e filha teriam sido levadas pelo yokai. Decidido a vingar suas mortes, ele procurou uma forma de derrotá-lo. Após receber uma revelação divina, dirigiu-se ao lago levando um ovo de pomba. Enquanto orava à beira da água, o lago começou a se agitar violentamente. Nesse momento, o homem quebrou o ovo e o lançou nas águas. Em seguida, ouviu-se um grande estrondo e o corpo sem vida do Nunogarami emergiu à superfície, indicando que a criatura havia sido destruída.
Como a lenda se refere ao Nunogarami como o "senhor do lago", alguns intérpretes sugerem que ele poderia ter sido imaginado como uma serpente gigante ou outra criatura aquática semelhante, figura recorrente nas tradições japonesas relacionadas a lagos, rios e pântanos. No entanto, as fontes conhecidas não descrevem sua verdadeira aparência, preservando apenas seu hábito de assumir a forma de um pano para atrair vítimas.
Ganshanbian (chinês 赶山鞭, Gǎnshānbiān, traduzido como "Chibata de Conduzir Montanhas" ou "Chicote que Move Montanhas") é um artefato mágico presente em diferentes tradições do folclore chinês. Sua principal característica é permitir que montanhas, grandes rochas ou pedras sejam deslocadas de maneira sobrenatural.
O Ganshanbian não pertence a uma única narrativa nem possui sempre o mesmo dono. O motivo aparece em diferentes regiões da China e pode estar associado a imperadores, divindades e outros personagens sobrenaturais. Essas lendas costumam explicar transformações da paisagem, como a disposição de montanhas e formações rochosas, e em alguns casos envolvem o controle das águas ou modificações do terreno. Entre as tradições mais conhecidas estão aquelas relacionadas a Qin Shi Huang, o Primeiro Imperador da China. Há também versões envolvendo Erlang Shen e narrativas de grupos étnicos do sudoeste chinês.
O motivo de conduzir montanhas
Estudos sobre o folclore chinês identificam um conjunto de histórias denominado “lendas do tipo Ganshanbian” (chinês 赶山鞭型传说), encontrado especialmente no sudoeste da China. Embora os personagens e acontecimentos variem, essas tradições compartilham o motivo do deslocamento sobrenatural de montanhas ou grandes pedras.
Em algumas versões, as pedras são conduzidas para represar águas ou modificar o terreno; em outras, seu deslocamento explica a origem ou disposição de determinadas formações rochosas. Por isso, o Ganshanbian não deve ser entendido necessariamente como um único objeto pertencente a uma tradição uniforme, mas como um elemento presente em diferentes lendas.
Qin Shi Huang e as pedras em movimento
Um antecedente do motivo aparece em antigas tradições relacionadas a Qin Shi Huang. Um relato preservado pelo Taiping Yulan (chinês 太平御覽, literalmente "Leitura Imperial da Era Taiping") que cita o antigo San Qi Lüeji (chinês 三齊略記, "Relatos Breves das Três Qi"), conta que o imperador desejava construir uma ponte de pedra sobre o mar. Um ser sobrenatural fazia então as pedras caminharem em direção à água e açoitava aquelas que avançavam lentamente. Outra tradição atribui ao próprio Qin Shi Huang a capacidade de convocar pedras e fazê-las se mover.
Nas tradições folclóricas posteriores, o chicote passa a ser atribuído diretamente a Qin Shi Huang. Uma lenda registrada em Zhangjiajie conta que Guanyin, compadecida dos trabalhadores empregados na construção da Grande Muralha, distribuiu entre eles fios de seus próprios cabelos, que lhes permitiam transportar grandes pedras com facilidade. Ao descobrir o poder dos fios, Qin Shi Huang os recolheu e os trançou para formar um chicote mágico, com o qual passou a conduzir montanhas.
Depois de utilizá-lo na construção da muralha, o imperador teria decidido “conduzir montanhas para preencher o mar”. O plano provocou a reação do Rei Dragão do Mar, cuja filha se aproximou de Qin Shi Huang e conseguiu substituir o verdadeiro chicote depois de embriagá-lo. As versões divergem sobre o destino do objeto. Em uma delas, a jovem, perseguida pelos soldados do imperador, abandona o chicote, que cai nas proximidades do riacho Jinbian, em Zhangjiajie, e se transforma no rochedo conhecido como Jinbianyan.
Outra versão da mesma região conta que a filha do Rei Dragão substituiu o Ganshanbian por um chicote falso feito com seus próprios cabelos. Quando tentou destruir o original, seus fios foram dispersos pelo vento e recuperados por Guanyin. Qin Shi Huang permaneceu com a imitação, que já não possuía o poder de mover montanhas.
Erlang Shen e outras tradições
Qin Shi Huang não é o único personagem associado ao Ganshanbian. Em algumas tradições locais, o chicote pertence a Erlang Shen, que o utiliza para deslocar montanhas. O motivo também aparece em narrativas de grupos étnicos do sudoeste da China.
Uma tradição dos Yi/Sani de Yunnan, por exemplo, conta que uma divindade conduz pedras durante a noite com o objetivo de represar um lago e transformar a região. Enquanto as pedras estão sendo transportadas, uma mulher provoca prematuramente o canto de um galo. Ao ouvirem o sinal que anuncia a chegada do dia, as pedras interrompem seu movimento e permanecem onde estavam, formando a paisagem rochosa.
PEOPLE'S GOVERNMENT OF SANYUAN DISTRICT. Folklore and legends of Erlang Shen moving mountains in Sanyuan. Sanming: People's Government of Sanyuan District, 7 fev. 2023. Disponível em: <https://www.sysjs.gov.cn/js/675/202302/c07_159848.shtml>;
Chongming (chinês tradicional 重明鳥; simplificado 重明鸟; Chóngmíng niǎo) é uma ave sobrenatural da mitologia chinesa, conhecida principalmente pelo Shi Yi Ji (拾遺記, literalmente "Registros de Coisas Esquecidas" ou "Memórias Resgatadas"), obra atribuída a Wang Jia, do final do século IV. Em uma narrativa ambientada no reinado de Yao, um dos soberanos lendários da Antiguidade chinesa, ela é descrita com corpo semelhante ao de um galo, pupilas duplas e canto comparado ao da fênix. Na mesma narrativa, Chongming também é apresentada como uma criatura protetora, capaz de enfrentar animais ferozes e afastar seres malignos.
Nome e fontes tradicionais
O nome Chongming significa literalmente “dupla claridade” ou “brilho duplicado”. No Shi Yi Ji, a ave também recebe o nome de Shuangjing (雙睛), expressão que pode ser traduzida como “olhos duplos” ou “pupilas duplas”. A descrição costuma ser interpretada como uma referência a duas pupilas em cada olho, e não a quatro olhos separados.
O relato mais completo encontra-se no primeiro volume do Shi Yi Ji. A obra original sofreu perdas e foi posteriormente reorganizada por Xiao Qi, durante o período das Dinastias do Sul. A passagem sobre Chongming também foi preservada no Taiping Yulan (chinês 太平御覽, literalmente "Leitura Imperial da Era Taiping")e no Taiping Guangji (chinês 太平廣記, "Ampla Coleção da Era Taiping"), duas grandes compilações da dinastia Song, embora com diferenças em alguns nomes e números.
A chegada ao reino de Yao
Segundo a versão preservada do Shi Yi Ji, Yao estava no septuagésimo ano de seu reinado quando recebeu de um país distante, chamado Zhizhi, uma ave extraordinária. Conhecida como Chongming ou Shuangjing, ela tinha a forma de uma galinha ou de um galo e cantava como uma fênix. A fonte não informa seu tamanho, sexo ou a cor de sua plumagem.
De tempos em tempos, suas penas caíam, mas isso não a impedia de voar. O texto emprega a expressão ròuhé (肉翮), que pode se referir às estruturas carnosas das asas expostas após a perda da plumagem. O significado exato da expressão, contudo, permanece incerto.
Apesar da aparência de uma ave doméstica, Chongming possuía força para enfrentar ou expulsar animais ferozes, como tigres e lobos. Sua presença também mantinha afastados seres malignos e protegia contra calamidades. Era alimentada com qiónggāo (瓊膏), uma substância fabulosa cujo nome pode ser traduzido aproximadamente como “pasta de jade” ou “elixir de jade”.
A ave não permanecia continuamente no reino de Yao. Podia aparecer várias vezes em um único ano ou passar anos sem retornar. Enquanto esperavam por sua chegada, os habitantes limpavam as entradas das casas. Durante as ausências, esculpiam sua imagem em madeira ou a fundiam em metal e colocavam essas figuras junto às portas. Segundo o Shi Yi Ji, tais representações faziam os seres maléficos recuarem.
Variantes do relato
As versões conservadas apresentam algumas diferenças. O Shi Yi Ji situa a chegada da ave no septuagésimo ano do reinado de Yao, enquanto o Taiping Yulan e o Taiping Guangji mencionam o sétimo ano. O nome do país que enviou a criatura também varia entre formas como Zhizhi e Zhezhi. Não há informações suficientes para identificá-lo com um reino histórico conhecido.
O nome alternativo aparece como Shuangjing no Shi Yi Ji e como Chongjing (重睛) em algumas versões posteriores. Essas variações provavelmente se devem à longa transmissão do texto, durante a qual partes da obra foram perdidas, reorganizadas ou copiadas com alterações.
As imagens de galos no Ano-Novo
O Shi Yi Ji relaciona as representações de Chongming a um costume praticado no primeiro dia do ano. Nessa data, as pessoas produziam figuras em madeira ou metal ou pintavam galos nas janelas. O autor da obra afirma que essas imagens preservavam a lembrança da ave protetora.
Essa passagem oferece uma explicação tradicional para o uso protetor da figura do galo nas portas e janelas durante o Ano Novo chinês. Ela não comprova, porém, que todas essas representações tenham se originado exclusivamente do mito de Chongming. O texto também não afirma que o galo comum seja uma transformação física da criatura. Essa interpretação aparece em versões populares modernas, enquanto o Shi Yi Ji estabelece apenas uma relação entre a aparência de Chongming e as imagens de galos colocadas nas residências.
O chamado Monstro da Fazenda Três Marcos é o personagem de uma lenda de Arapoti, no estado do Paraná. A lenda foi registrada em 2005 na coletânea Lendas e contos populares do Paraná, que não informa o nome do narrador nem quando o episódio teria ocorrido. Na narrativa, ele aparece como uma sombra flutuante que depois parece assumir a forma de uma esfera de fogo.
A narrativa
Segundo a história, um homem foi enviado pelo patrão para contar as pilhas de madeira deixadas por madeireiros em uma floresta. Como o acesso era difícil, ele seguiu a cavalo. Depois de atravessar uma porteira, o cavalo começou a resistir. Enquanto avançavam por um caminho entre as árvores, o homem sentiu arrepios e ouviu gemidos. O animal também permanecia inquieto.
Quando estavam a cerca de dez metros das pilhas de madeira, uma sombra de aspecto assustador apareceu diante deles. O cavalo se ergueu, derrubou o cavaleiro e começou a relinchar e corcovear. A figura parecia flutuar pouco acima do chão. Em seguida, a sombra pareceu assumir a forma de uma esfera de fogo, embora o relato também mencione as duas manifestações separadamente.
O fogo atingiu as pilhas de madeira e passou rapidamente de uma para outra. O homem conseguiu montar novamente e fugiu a galope. O cavalo só parou ao chegar a uma pequena porteira. Quando o cavaleiro olhou para trás, já não havia sinal da aparição. No dia seguinte, ele retornou ao local com o patrão e dois peões. Embora afirmasse ter presenciado o incêndio, o grupo não encontrou nada fora do lugar. O relato termina dizendo que, depois do episódio, ninguém mais teve coragem de voltar ao local.
fonte:
AUGUSTO CARNEIRO JR., R. (ED.). Lendas e Contos Populares do Paraná. [s.l: s.n.].
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A Víbria é uma criatura fantástica da tradição catalã cuja representação se modificou ao longo do tempo. Nas fontes medievais, seu nome designava uma criatura semelhante a uma víbora ou serpente, algumas vezes dotada de asas. Posteriormente, sobretudo no contexto das festas públicas, ela adquiriu características de dragão e passou a ser apresentada como uma figura feminina.
Atualmente, a Víbria faz parte do bestiari festiu catalão, conjunto de figuras que representam animais reais ou fantásticos e participam de cortejos e celebrações populares. Algumas dessas figuras são utilizadas em apresentações com fogos de artifício, tradição também associada à Víbria desde pelo menos o final da Idade Média.
Nome e origem histórica
Em catalão contemporâneo, a grafia principal é víbria. Fontes antigas também registram formas como vibra, vibre e brívia. O nome deriva do latim vipera, que significa “víbora”, origem compatível com as descrições mais antigas da criatura.
A Víbria aparece nos bestiários medievais catalães, obras que reuniam descrições de animais reais e fantásticos. Nesses textos, sua forma ainda se aproxima principalmente da serpente, e não do dragão feminino das festas atuais. Essa identificação surgiu mais tarde, à medida que a criatura foi incorporada aos cortejos e recebeu uma aparência que combinava características de serpente, dragão, ave e mulher.
Um relicário datado de 1356 representa São Jorge com uma criatura identificada como uma víbria sob seus pés. A figura também aparece em contextos heráldicos relacionados à Coroa de Aragão. O primeiro registro seguro de sua participação em festividades é de 1399. Nele, um documento municipal menciona um pagamento pelo transporte da figura. Em 1424, o livro da procissão de Corpus de Barcelona registra o conjunto “São Jorge a cavalo. O vibre”, no qual a criatura representa o monstro enfrentado pelo santo.
Uma referência de 1481 informa que a víbria lançava fogo pela boca, demonstrando que o uso de elementos pirotécnicos já fazia parte de sua representação no final da Idade Média. Em 1601, Jaume Rebullosa empregou a grafia Briuia e a descreveu como a fêmea do dragão. Segundo seu relato, as duas figuras soltavam artefatos pirotécnicos e eram conduzidas por pessoas posicionadas no interior das estruturas.
A partir do século XVIII, algumas representações passaram a combinar elementos de serpente, dragão, ave e mulher. Os seios indicavam seu caráter feminino, enquanto as asas preservavam a relação com as antigas descrições da serpente alada. Sua aparência, entretanto, não segue um modelo único e varia conforme a época e a localidade.
Tradições e representações atuais
Víbria de Tarragona
Atualmente, a víbria participa de cortejos e celebrações públicas ao lado de dragões e outras figuras do bestiário festivo catalão. Barcelona e Tarragona incorporaram novas versões da criatura às suas festas em 1993. Em Reus, uma víbria foi criada em 2007, sem que existissem registros de uma figura local equivalente em períodos anteriores.
Além de sua ligação histórica com São Jorge, a víbria aparece em uma tradição local da região de Sant Llorenç del Munt. Segundo essa versão, Guifré el Pilós teria derrotado a criatura.
A vibria do folclore chileno
O nome vibria também aparece no folclore chileno, mas designa uma criatura diferente. Em 1915, Julio Vicuña Cifuentes registrou em Coihueco de Chillán a tradição de uma serpente venenosa dotada de duas penas e capaz de matar uma pessoa com um golpe da cauda. Não foi demonstrada qualquer relação histórica entre essa criatura e a víbria catalã, de modo que ambas devem ser tratadas como figuras distintas.
fontes:
BANE, Theresa. Encyclopedia of Beasts and Monsters in Myth, Legend and Folklore. Jefferson: McFarland & Company, 2016.
HERNANDEZ, Jo Farb. Forms of Tradition in Contemporary Spain: joan miró and the popular arts. Jackson: University Press of Mississippi, 2005.
DURAN I SANPERE, Agustí; SANABRE, Josep (ed.). Llibre de les solemnitats de Barcelona: edició completa del manuscrit de l’Arxiu Històric de la Ciutat. Barcelona: Institució Patxot, 1930. v. 1. Disponível em: <https://publicacions.iec.cat/repository/pdf/00000330/00000093.pdf>;
REBULLOSA, Jaume. Relacion de las grandes fiestas que en esta ciudad de Barcelona se han echo à la canonizacion de su hijo San Ramon de Peñafort, de la Orden de los Predicadores. Barcelona: Imprenta de Iayme Cendrat, 1601;
VICUÑA CIFUENTES, Julio. Mitos y supersticiones recogidos de la tradición oral chilena con referencias comparativas a los de otros países latinos. Santiago de Chile: Imprenta Universitaria, 1915. p. 246. Disponível em: <https://www.memoriachilena.gob.cl/archivos2/pdfs/MC0008702.pdf>;
RUMBO SOLER, Albert. “Imaginería festiva en Cataluña”. In: CONGRESO INTERNACIONAL DE LA BAJADA DE LA VIRGEN, 3. Actas del III Congreso Internacional de la Bajada de la Virgen. [S. l.]: Cabildo de La Palma, 2023. v. 2, p. 115-193. Disponível em: <https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/9045773.pdf>;
ALCOVER, Antoni Maria; MOLL, Francesc de Borja. Diccionari català-valencià-balear. Palma: Editorial Moll, 1930-1962. Verbete “Vibra”. Disponível em: <https://dcvb.iec.cat/results.asp?word=vibra>;
Bat (Bꜣt) era uma divindade do Antigo Egito, tradicionalmente descrita como uma deusa de características bovinas e associada ao sétimo nomo do Alto Egito. A principal cidade dessa região era Hu, posteriormente conhecida pelos gregos como Diospolis Parva. A ligação de Bat com o nomo é registrada na Capela Branca do faraó Senusret I.
As referências a Bat são relativamente escassas e não formam um ciclo mitológico próprio. A divindade é conhecida principalmente por textos funerários e por seu característico emblema. Sua primeira menção escrita considerada segura encontra-se nos Textos das Pirâmides, durante o Reino Antigo.
Bat não deve ser confundida com Bastet(ou Bast), divindade de características felinas, nem com Bata, uma divindade masculina do Antigo Egito.
Representação
O emblema de Bat apresenta um rosto humano visto de frente, com orelhas bovinas e dois elementos curvos ou espiralados acima da cabeça. Estes são geralmente interpretados como chifres estilizados, embora sua natureza exata permaneça discutida.
Representações bovinas semelhantes são anteriores às primeiras referências escritas seguras a Bat. Entre elas estão as cabeças presentes na Paleta de Narmer, produzida por volta de 3000 a.C. Essas imagens são associadas ao emblema de Bat por alguns estudos, mas não possuem inscrições que permitam identificá-las com segurança.
Paleta de Narmer
Bat nos textos egípcios
Nos Textos das Pirâmides, a fórmula funerária PT 506 (§1096b) associa o rei falecido a Bat e menciona suas “duas faces”. O significado dessa expressão não é explicado pelo texto, e interpretações modernas que relacionam as duas faces ao passado e ao futuro não encontram apoio suficiente nas fontes egípcias conhecidas.
Bat também é mencionada nos Textos dos Sarcófagos, conjunto de fórmulas funerárias difundido principalmente durante o Reino Médio. Algumas passagens fazem referência à sua face em contextos relacionados à criação e a Ísis, mas não apresentam um mito próprio da divindade.
Os registros conhecidos não permitem definir com segurança um conjunto de poderes ou funções específicas para Bat. Parte dos atributos encontrados em fontes modernas pode resultar de sua associação com Hathor, divindade muito mais documentada.
Bat e Hathor
Bat e Hathor compartilhavam características bovinas, e seus elementos iconográficos tornaram-se estreitamente relacionados. O emblema de Bat passou a aparecer associado ao sistro, instrumento ritual semelhante a um chocalho e especialmente ligado ao culto de Hathor.
Segundo a interpretação tradicional, Bat era originalmente uma divindade distinta que, sobretudo a partir do Reino Médio, foi gradualmente aproximada ou incorporada a Hathor. Em períodos posteriores, imagens derivadas do antigo emblema de Bat passaram a ser identificadas principalmente com Hathor. Estudos recentes, porém, questionam a ideia de uma assimilação simples e linear entre as duas divindades. A relação entre Bat e Hathor é, portanto, mais segura quando compreendida como uma progressiva aproximação de seus elementos religiosos e iconográficos.
FISCHER, Henry George. The Cult and Nome of the Goddess Bat. Journal of the American Research Center in Egypt, v. 1, p. 7–18, 1962. Disponível em: <https://www.jstor.org/stable/40000855>;
RODRÍGUEZ VALLS, Andrea. El emblema Bat: permanencia y cambio de un elemento religioso: una aproximación diacrónica (Predinástico a finales de Reino Medio). 2022. Tese (Doutorado) – Universidad de La Laguna, La Laguna, 2022. Disponível em: <https://portalciencia.ull.es/documentos/6526e20ea884a20a1ae86feb>;
RODRÍGUEZ VALLS, Andrea. The Tendrils of the Bat Emblem. Trabajos de Egiptología: Papers on Ancient Egypt, n. 9, p. 161–170, 2018. DOI: <https://doi.org/10.25145/j.TdE.2018.09.06>.
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Shitanaga Uba (japonês 舌長姥 ou したながうば; literalmente, "velha de língua longa") é um yokai do folclore japonês, conhecido principalmente por sua aparição no Rōō Chawa (em japonês: 老媼茶話, "Conversas de uma Velha") uma coletânea de contos sobrenaturais (kaidan) compilada durante o período Edo (1603–1868). Na narrativa em que aparece, a Shitanaga Uba assume a forma de uma mulher idosa que vive sozinha em uma cabana antiga situada em uma região montanhosa. Apesar de sua aparência inofensiva, revela-se um ser sobrenatural capaz de estender sua língua a um comprimento extraordinário para atacar suas vítimas.
Além de agir sozinha, a Shitanaga Uba aparece associada ao Shunoban, outro yōkai que participa da mesma história. Algumas enciclopédias modernas também mencionam sua ligação com a Kame Hime, espírito relacionado ao Castelo de Inawashiro, embora essa associação não faça parte do conto original conhecido e deva ser considerada uma tradição posterior.
A lenda dos viajantes perdidos
O conto narrado no Rōō Chawa relata que, em uma fria noite de outono, dois homens viajavam de Echigo para Edo quando acabaram se perdendo nas montanhas. Com a chegada da noite, encontraram uma velha cabana torta à beira da estrada e pediram abrigo.
No interior da cabana vivia uma senhora de cerca de setenta anos, que fiava fibras de rami. Ela recebeu os viajantes com hospitalidade, acendeu o fogo utilizando folhas secas e preparou chá com água fervida. Após a refeição simples, os dois homens adormeceram.
Durante a madrugada, um deles despertou com uma sensação estranha. Na penumbra, julgou ver a velha inclinada sobre seu companheiro, lambendo-lhe o rosto com uma língua de comprimento impossível. Assustado, tossiu involuntariamente. Imediatamente, a velha afastou-se do viajante e voltou tranquilamente ao seu trabalho de fiar, como se nada tivesse acontecido. Pouco depois, uma voz áspera chamou pela janela:
"Oi, Shitanaga Uba! É o Shunoban. Por que está demorando tanto? Deixe-me ajudá-la."
Em seguida, outra criatura entrou na cabana. O recém-chegado tinha cerca de dois metros de altura e possuía um grande rosto vermelho-escarlate semelhante a uma bandeja envernizada. O viajante desembainhou a espada e atacou o Shunoban. No momento em que a lâmina o atingiu, o espírito desapareceu no ar. Enquanto isso, a Shitanaga Uba agarrou o outro viajante, que continuava adormecido, e fugiu pela porta da frente.
Logo depois, toda a cabana desapareceu. O sobrevivente percebeu que estava sozinho em um campo abandonado. Sem saber para onde ir, passou o restante da noite abrigado entre as raízes de uma árvore. Ao amanhecer, não havia qualquer vestígio da cabana nem da velha. Em um matagal próximo, encontrou os restos de seu companheiro de viagem: um esqueleto completamente branco, cuja carne havia sido inteiramente removida pelas lambidas da Shitanaga Uba.
MEYER, Matthew.Shitanaga uba.Em :Yokai.com: an online database of Japanese folklore and monsters. 2021. Disponível em: <https://yokai.com/shitanagauba/>;
O Caçamentides é uma entidade do folclore catalão, pertencente à tradição popular de Barcelona. Descrito como um monstro que perseguia crianças mentirosas, ele integra o grupo dos espantacriatures, personagens utilizados para assustar crianças e desencorajar determinados comportamentos. Seu nome pode ser traduzido aproximadamente como "Caça-Mentiras" ou "Caçador de Mentiras".
Origem e contexto
Os principais registros sobre essa figura foram feitos pelo folclorista Joan Amades (1890-1959), responsável por documentar diversas crenças, costumes e personagens do folclore catalão. Como um espantacriatures, a função do Caçamentides era desencorajar a mentira por meio do medo. As informações atualmente conhecidas sobre ele são relativamente limitadas e derivam principalmente dos registros preservados por Amades e de obras posteriores baseadas neles.
Características
Segundo a tradição registrada, o Caçamentides era um monstro de grandes proporções, descrito com mãos de ferro e dedos terminados em grandes ganchos metálicos, usados para capturar suas vítimas. Sua principal característica era perseguir exclusivamente crianças que mentiam. De acordo com essa tradição, cada mentira transformava-se em um pequeno pássaro negro.
Essas aves permaneciam próximas da criança ou pousavam sobre ela e, em algumas versões, chegavam a manchar seus dentes, permitindo ao Caçamentides localizar quem havia mentido. Depois de encontrá-las, o Caçamentides as capturava. Segundo uma das versões registradas, ele as devorava e lançava seus restos ao mar.
fontes:
AMADES, Joan. Els gegants, els nanos i altres entremesos. Barcelona: Impremta La Neotípia, 1934;
AMADES, Joan. Folklore de Catalunya. Barcelona: Selecta, 1950-1969. 3 v;