
Eshnuwerta (também chamada Ashnuwerta) é uma divindade feminina da tradição religiosa dos Yshyr, povo indígena conhecido também como Chamacoco, habitante do Chaco Boreal, no Paraguai. Associada à água, é considerada uma Grande Mãe e uma das principais autoridades do mundo sobrenatural. Nos mitos Chamacoco, está relacionada à origem da ordem social, à transmissão dos conhecimentos e à instituição de cerimônias tradicionais.
Eshnuwerta também é conhecida como a "Doadora das Palavras", pois seus ensinamentos estabeleceram normas e costumes que orientavam a vida dos seres humanos. Sua figura reúne aspectos benéficos e destrutivos: além de transmitir conhecimentos, pode provocar inundações, tempestades e doenças quando suas determinações são desrespeitadas.
Eshnuwerta e os anábsoro
Na mitologia Chamacoco, os anábsoro são seres sobrenaturais que tiveram contato com os antepassados humanos e lhes ensinaram conhecimentos necessários à vida em sociedade. Eshnuwerta ocupa uma posição de autoridade entre essas entidades, sendo considerada sua mãe ou matriarca. Os anábsoro ensinaram aos humanos diferentes práticas, incluindo técnicas de caça, utilização de instrumentos e costumes. Eshnuwerta participou desse processo de transmissão cultural, estabelecendo regras e conhecimentos que passaram a orientar a organização da sociedade.
Uma das histórias mais importantes envolvendo a divindade é sua relação com ser humano chamado Syr. Em determinada versão, Eshnuwerta estabeleceu uma aliança com ele e revelou o segredo que permitiria aos homens derrotar os anábsoro. Esses seres possuíam uma região vulnerável próxima ao tornozelo, que funcionava como uma espécie de órgão respiratório. Ao descobrir essa fraqueza, os humanos conseguiram matá-los.
Depois da morte dos seres sobrenaturais, Eshnuwerta determinou que os homens continuassem representando os anábsoro em cerimônias tradicionais. Essa determinação deu origem ao Debylyby, também conhecido como "Grande Cerimônia", durante o qual os participantes reproduziam a aparência, os movimentos e os comportamentos das antigas entidades. Os homens utilizavam pinturas corporais, vestimentas e adornos de penas para representar os seres sobrenaturais. A cerimônia também estava relacionada à transmissão dos conhecimentos religiosos aos jovens durante os rituais de iniciação masculina.

A origem da ordem social
Eshnuwerta também é associada à instituição das regras que organizam a sociedade Yshyr. Seus ensinamentos estabeleceram normas relacionadas à organização dos clãs, aos casamentos, às relações sociais, às vestimentas e às obrigações cerimoniais. Esse conjunto de determinações é conhecido como Ashnuwerta a'woso, expressão traduzida como "A Palavra de Ashnuwerta". Mais do que simples ensinamentos, suas palavras fundamentam costumes e normas que orientam a vida comunitária e religiosa.
A divindade também está relacionada à instituição do tobich, espaço sagrado de iniciação masculina, onde os jovens recebiam conhecimentos sobre as tradições e os costumes do povo.
Relação com Nemur e Ashnuwysta
Eshnuwerta mantém uma relação importante com Nemur, outra figura sobrenatural da mitologia Chamacoco. Enquanto ela estabelece as normas e transmite os conhecimentos, Nemur é associado à fiscalização e à punição daqueles que desrespeitam suas determinações. Ele também recebe títulos como "Grande Fiscal", "Vingador" e "Guardião do tobich".
Eshnuwerta também apresenta ainda uma contraparte sombria chamada Ashnuwysta, interpretada pelo pesquisador Ticio Escobar como outra manifestação da própria Eshnuwerta. Essa dualidade é associada principalmente às cores: enquanto Ashnuwerta representa o vermelho, o esplendor e a luminosidade, Ashnuwysta está relacionada ao negro e à escuridão. As duas manifestações expressam aspectos distintos da divindade, que pode tanto favorecer os seres humanos quanto castigá-los.
Senhora das Águas e do Fogo
Uma das histórias atribuídas à divindade conta que ela provocou uma grande inundação no rio Paraguai como vingança pela morte dos anábsoro. O episódio teria causado a morte de jovens durante uma cerimônia de iniciação realizada após a derrota dos seres sobrenaturais. Eshnuwerta também é associada a doenças e epidemias, que aparecem em suas manifestações punitivas.
Aparência e representações

fontes:
- CIUCCI, Luca. Language secrecy and concealment in Chamacoco (Zamucoan). The Mouth: critical studies on language, culture and society, Köln, v. 10, p. 159–178, 2023. Disponível em:
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- ESCOBAR, Ticio. La maldición de Nemur: acerca del arte, el mito y el ritual de los indígenas Ishir del Gran Chaco Paraguayo. Asunción: Centro de Artes Visuales / Museo del Barro, 1999. Disponível em:
.https://www.portalguarani.com/106_ticio_escobar/1117_la_maldicion_de_nemur__acerca_del_arte_el_mito_y_el_ritual_de_los_indigenas_ishir_del_gran_chaco_paraguayo__por_ticio_escobar_.html - ESCOBAR, Ticio. The curse of Nemur: in search of the art, myth, and ritual of the Ishir. Tradução de Ronald Christ. Pittsburgh: University of Pittsburgh Press, 2007. Disponível em:
.https://upittpress.org/books/9780822959373/ - FIDANZA, Caterina Francesca. L'arte plumaria yshir-chamacoco. 2025. Tese (Doutorado) – Università di Bologna, Bologna, 2025. Disponível em:
.https://amsdottorato.unibo.it/id/eprint/12499/1/Fidanza_Caterina_tesi.pdf - SUŠNIK, Branislava. Estudios Chamacoco. Asunción: Museo Etnográfico Andrés Barbero, 1957.








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