18 de agosto de 2026

Wakmangganchi Aragondi

۞ ADM Sleipnir


Wakmangganchi Aragondi é um javali monstruoso das tradições dos Garo, povo também conhecido como A·chik, associado principalmente às Colinas Garo, em Meghalaya, no nordeste da Índia.  Descrita como um ser gigantesco de sete cabeças, a criatura aparece em narrativas ligadas a Goera, figura associada ao trovão, ao relâmpago e à força.

Um dos principais registros escritos da história encontra-se em The Folk-Tales of the Garos, de Dewan Sing Rongmuthu, publicado em 1960 a partir de tradições orais garo. Outras obras e estudos sobre o folclore A·chik e sobre Balpakram também registram referências ao monstro e aos lugares associados ao seu confronto com Goera.

Origem

Na versão registrada por Rongmuthu, a história de Wakmangganchi Aragondi começa antes do nascimento de Goera. Três de seus tios maternos acompanham o pescador Gonga Tritpa Rakshanpa e seu cão em uma viagem a uma região subterrânea. Ao retornarem, os tios trazem consigo um pequeno porco chamado Wakmabitchi Warak Wakkimbi, proveniente, segundo o relato, do sétimo nível desse mundo subterrâneo.

O animal é mantido em um cercado de pedras, onde cresce continuamente. Com o tempo, torna-se tão grande que o cercado precisa ser derrubado para libertá-lo. Mesmo depois disso, as pessoas continuam a alimentá-lo à distância, até que o porco derruba os três tios maternos de Goera dentro de seu cocho e os devora. A partir desse momento, ninguém mais se aproxima da criatura, que continua crescendo e passa a vagar livremente. É então que recebe o nome Wakmangganchi Aragondi.

No relato de Rongmuthu, portanto, Wakmabitchi Warak Wakkimbi é o nome usado para o animal antes de seu crescimento monstruoso, enquanto Wakmangganchi Aragondi passa a designá-lo posteriormente. Nas notas de The Folk-Tales of the Garos, a forma abreviada Wakmabitchi Wakkimbi é traduzida aproximadamente como “Cabeça Primordial da Família dos Suínos de Dentes Fortes”. As fontes utilizadas não apresentam uma tradução segura para Wakmangganchi Aragondi.

Aparência e características

Wakmangganchi Aragondi é descrito como um javali de dimensões comparáveis às de uma montanha. Quando se levantava, seu focinho alcançava a Colina Dura, enquanto sua cauda permanecia no rio Songdu, numa imagem destinada a enfatizar suas proporções extraordinárias. Do único pescoço da criatura surgiam sete cabeças. Cada uma delas possuía sete grandes presas, comparadas no relato a espadas ou cimitarras de dois gumes, além de um único olho no centro da testa, descrito como brilhante como a lua cheia.

As costas do javali formavam praticamente uma paisagem própria. Sobre elas cresciam sete agrupamentos de bambus, sete áreas cobertas por capim e sete juncos, enquanto sete cursos de água permanentes corriam pelo corpo. Nesse ambiente viviam ainda um casal de langures com seus filhotes e sete pares de toupeiras.

O monstro percorria livremente a região, devorava pessoas e destruía plantações. Entre os alimentos mencionados no relato estão arroz, abóboras, cabaças, melões e inhames. A repetição do número sete aparece tanto em sua anatomia quanto nos elementos existentes sobre suas costas e em outros momentos da história.


O combate com Goera

Muito tempo depois, dois outros tios maternos de Goera, Rokman Meh-a e Chengman Phante, seguem para um mercado a fim de comprar um grande bode preto. No caminho, encontram Wakmangganchi Aragondi e são engolidos pela criatura. Ao saber do ocorrido, Goera decide enfrentar o javali. Antes de partir, procura informações sobre o monstro e reúne armas e aliados sobrenaturais. Entre eles estão Tengte Kacha, apresentado na tradução de Rongmuthu como rei dos “elfos”, e Maal, uma pequena divindade dotada de grandes poderes.
Goera também obtém um milam, uma espada de dois gumes tradicional dos garo, e procura o ferreiro Dykgyl Khongshyl, que fabrica para ele um arco extraordinário e grande quantidade de flechas. O arco podia disparar doze flechas flamejantes de uma só vez.

Antes do confronto, Maal transporta grandes pedras da região subterrânea, e Tengte Kacha as organiza em sete conjuntos. Essas pilhas serviriam como pontos de proteção durante a luta. Goera encontra Wakmangganchi Aragondi adormecido e coberto de lama em um lugar chamado Ahnima Gruram Chinima Rangsitram. Seu servidor Toajeng Abiljeng recebe a tarefa de despertar o monstro e o golpeia por trás com um machado. O javali acorda e investe contra Goera, que responde disparando uma chuva de flechas flamejantes. Ferido, Wakmangganchi Aragondi foge para o leste, enquanto Goera o persegue e continua a atacá-lo. 


A perseguição se estende por diferentes pontos da região, acompanhada, segundo o relato, por fortes estrondos e tremores. Durante as investidas do monstro, Goera utiliza as pilhas de pedras preparadas por seus aliados para escapar dos ataques. O confronto se prolonga por sete verões e sete invernos. Nas etapas finais da luta, quando Goera se encontra em perigo, um de seus tios maternos situado na região subterrânea dispara uma flecha que atravessa a axila de Wakmangganchi Aragondi. O javali cambaleia e cai morto em Ahguara Rongpakmare Shohlyng Janthihol. Goera então usa seu milam para cortar o pescoço principal da criatura, de onde se ramificavam suas sete cabeças.

Depois da morte do monstro, Goera abre seu corpo e encontra Rokman Meh-a e Chengman Phante ainda vivos em seu interior. Os dois haviam perdido a visão, mas são retirados e, com o tempo, recuperam a capacidade de enxergar. A carne do enorme javali é então cortada e distribuída entre pessoas da região, enquanto outras partes permanecem em diferentes lugares e passam a ser associadas, nas tradições locais, a características da paisagem.

Wakmangganchi Aragondi e a paisagem

A história do monstro está ligada a diversos locais das Colinas Garo e de regiões próximas. Certas pedras, terrenos e outras formações naturais são tradicionalmente interpretados como vestígios da longa batalha entre Goera e Wakmangganchi Aragondi.

As pilhas de pedras utilizadas durante o confronto são conhecidas como Goerani Ronggat, expressão traduzida por Rongmuthu como “Pilhas de Pedra de Goera”. Segundo a tradição registrada por ele, algumas dessas formações poderiam ser vistas em diferentes pontos da região. Outras pedras que contêm marcas semelhantes a sementes são identificadas na tradição como excrementos petrificados do javali. Áreas de solo avermelhado, por sua vez, são associadas aos lugares onde o sangue da criatura teria caído durante o combate.

Um dos locais relacionados ao monstro é Wakso-Chiring. Uma tradição ligada a esse lugar apresenta uma versão diferente sobre sua morte. Enquanto o relato de Rongmuthu coloca Goera no centro da derrota de Wakmangganchi Aragondi, essa tradição atribui o feito ao herói Bandi, que teria matado o javali e lavado seus intestinos no riacho.


fontes:

Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

17 de agosto de 2026

Centzonhuitznahua

۞ ADM Sleipnir

Os Centzonhuitznahua (também grafado como Centzonuitznaua e Centzonhuitznáhuah) são um grupo de seres da mitologia asteca, mais especificamente da tradição mexica. São conhecidos principalmente pelo mito do nascimento de Huitzilopochtli, no qual, liderados por sua irmã Coyolxauhqui, tentam matar sua mãe, Coatlicue, e acabam derrotados pelo deus recém-nascido.

O nome costuma ser traduzido como “Quatrocentos Meridionais” ou “Quatrocentos do Sul”. O termo náuatle centzontli significa literalmente “quatrocentos”, mas também podia indicar uma quantidade muito grande ou indeterminada. Assim, o número não precisa representar exatamente quatrocentos indivíduos. Os Centzonhuitznahua são frequentemente associados às estrelas do sul, embora essa identificação seja principalmente uma interpretação cosmológica posterior e não uma afirmação explícita da principal fonte do mito.

Nome e origem

A forma Centzonhuitznahua é uma das mais bem documentadas nas fontes coloniais e nos estudos modernos sobre o náuatle. A grafia Centzon Huitznauhtin também aparece em literatura secundária, mas é menos comum nas fontes utilizadas para estudar o grupo. A tradução de Huitznahua como referência ao sul é tradicional, porém não inteiramente segura. O termo também aparece em fontes históricas relacionado a grupos ou facções mexicas, o que torna seu significado mais complexo do que uma simples designação geográfica.

A principal versão do mito dos Centzonhuitznahua encontra-se no Livro III do Códice Florentino, elaborado no século XVI por Bernardino de Sahagún em colaboração com autores e informantes nahuas.

O nascimento de Huitzilopochtli

Segundo o Códice Florentino, Coatlicue vivia em Coatepec, a “Montanha da Serpente”, e era mãe dos Centzonhuitznahua. Coyolxauhqui era a irmã mais velha do grupo. Enquanto Coatlicue realizava atividades rituais, uma pequena bola de penas desceu sobre ela. Ela recolheu as penas e as guardou junto ao corpo. Depois que elas desapareceram, Coatlicue descobriu que estava grávida. Os Centzonhuitznahua consideraram a gravidez uma desonra. Incentivados por Coyolxauhqui, decidiram matar a própria mãe e avançaram armados contra ela em Coatepec.

Coyolxauhqui e os Centzonhuitznahua. Arte de El Omi dibujante 

Um deles, chamado Cuahuitlicac, tomou o partido de Huitzilopochtli e passou a informar o deus, ainda no ventre de Coatlicue, sobre a aproximação dos atacantes. Quando Coyolxauhqui e seus seguidores alcançaram o alto da montanha, Huitzilopochtli nasceu já preparado para a guerra.

A batalha de Coatepec

Huitzilopochtli enfrentou primeiro Coyolxauhqui, utilizando contra ela a sua arma, Xiuhcoatl. Ela foi decapitada, e seu corpo caiu pela encosta de Coatepec, despedaçando-se durante a queda. Em seguida, o deus atacou os Centzonhuitznahua, expulsando-os do alto da montanha e perseguindo-os ao redor de Coatepec. 

Muitos foram derrotados, mas o Códice Florentino não afirma que todos os Centzonhuitznahua morreram. Alguns conseguiram escapar e fugiram para o sul. Depois da vitória, Huitzilopochtli tomou os atavios e as insígnias dos vencidos. Esse detalhe difere de versões modernas que apresentam todos os Centzonhuitznahua como mortos durante o combate.

Arte de Molo Niebla

Relação com as estrelas

Os Centzonhuitznahua são frequentemente identificados como seres ligados às estrelas do sul. A partir dessa interpretação, o mito de Coatepec costuma ser entendido em termos cosmológicos, com Huitzilopochtli associado ao Sol, Coyolxauhqui à Lua e seus irmãos às estrelas. Essa leitura, porém, não aparece formulada dessa maneira no Códice Florentino. A fonte não afirma que os Centzonhuitznahua tenham se transformado em estrelas depois da batalha, nem apresenta explicitamente o combate como uma representação do Sol derrotando a Lua e as estrelas.

Da mesma forma, a versão segundo a qual a cabeça de Coyolxauhqui foi lançada ao céu e transformada na Lua não faz parte de maneira explícita do relato principal do Códice Florentino.

Outras tradições e contexto ritual

O nome Huitznahua também aparece em contextos históricos e políticos relacionados a grupos mexicas. Outras fontes coloniais, como as tradições registradas por Diego Durán e pela Crónica mexicáyotl, relacionam Huitzilopochtli, Coatepec e os Huitznahua de maneiras que não coincidem totalmente com a versão do Códice Florentino. 

O mito também possuía uma dimensão ritual. Estudos sobre as cerimônias de Panquetzaliztli relacionam as celebrações de Huitzilopochtli aos acontecimentos de Coatepec. O Templo Mayor de Tenochtitlan, em seu lado dedicado a Huitzilopochtli, apresentava associações simbólicas com essa montanha mítica. No complexo arqueológico foram encontradas ainda esculturas reclinadas que o Instituto Nacional de Antropología e Historia considera possíveis representações dos Centzonhuitznahua. Algumas possuem uma abertura na região do peito onde teria sido colocada uma pedra verde interpretada como representação do coração. A identificação das esculturas, contudo, não é definitiva.

Esculturas porta-estandartes encontradas na Etapa III do Templo Mayor, em Tenochtitlan, interpretadas como possíveis representações dos Centzonhuitznahua.

fontes:

Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

16 de agosto de 2026

Nunogarami

۞ ADM Sleipnir

Nunogarami (japonês 布絡み, "aquele que se enrosca como pano") é um yokai do folclore japonês associado à cidade de Tago, no distrito de Sannohe, província de Aomori. A criatura faz parte das tradições ligadas a Nuno-numa, um lago que existia na localidade de Nagasaka e que era considerado habitado por um ser sobrenatural temido pelos moradores.

Aparência e Comportamento

De acordo com a lenda, o Nunogarami tinha a capacidade de assumir a aparência de um pedaço de tecido abandonado próximo à margem do lago. Quando alguém tentava recolhê-lo, o suposto pano se esticava repentinamente, enrolava-se na vítima e a arrastava para as águas. Por essa razão, a criatura era vista como uma ameaça pelos habitantes da região.

Lenda

A narrativa mais conhecida sobre o Nunogarami relata a história de um homem cuja esposa e filha teriam sido levadas pelo yokai. Decidido a vingar suas mortes, ele procurou uma forma de derrotá-lo. Após receber uma revelação divina, dirigiu-se ao lago levando um ovo de pomba. Enquanto orava à beira da água, o lago começou a se agitar violentamente. Nesse momento, o homem quebrou o ovo e o lançou nas águas. Em seguida, ouviu-se um grande estrondo e o corpo sem vida do Nunogarami emergiu à superfície, indicando que a criatura havia sido destruída.

Como a lenda se refere ao Nunogarami como o "senhor do lago", alguns intérpretes sugerem que ele poderia ter sido imaginado como uma serpente gigante ou outra criatura aquática semelhante, figura recorrente nas tradições japonesas relacionadas a lagos, rios e pântanos. No entanto, as fontes conhecidas não descrevem sua verdadeira aparência, preservando apenas seu hábito de assumir a forma de um pano para atrair vítimas.


fontes:

Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

15 de agosto de 2026

Ganshanbian

۞ ADM Sleipnir

Ganshanbian (chinês 赶山鞭, Gǎnshānbiān, traduzido como "Chibata de Conduzir Montanhas" ou "Chicote que Move Montanhas") é um artefato mágico presente em diferentes tradições do folclore chinês. Sua principal característica é permitir que montanhas, grandes rochas ou pedras sejam deslocadas de maneira sobrenatural. 

O Ganshanbian não pertence a uma única narrativa nem possui sempre o mesmo dono. O motivo aparece em diferentes regiões da China e pode estar associado a imperadores, divindades e outros personagens sobrenaturais. Essas lendas costumam explicar transformações da paisagem, como a disposição de montanhas e formações rochosas, e em alguns casos envolvem o controle das águas ou modificações do terreno. Entre as tradições mais conhecidas estão aquelas relacionadas a Qin Shi Huang, o Primeiro Imperador da China. Há também versões envolvendo Erlang Shen e narrativas de grupos étnicos do sudoeste chinês.

O motivo de conduzir montanhas

Estudos sobre o folclore chinês identificam um conjunto de histórias denominado “lendas do tipo Ganshanbian” (chinês 赶山鞭型传说), encontrado especialmente no sudoeste da China. Embora os personagens e acontecimentos variem, essas tradições compartilham o motivo do deslocamento sobrenatural de montanhas ou grandes pedras.

Em algumas versões, as pedras são conduzidas para represar águas ou modificar o terreno; em outras, seu deslocamento explica a origem ou disposição de determinadas formações rochosas. Por isso, o Ganshanbian não deve ser entendido necessariamente como um único objeto pertencente a uma tradição uniforme, mas como um elemento presente em diferentes lendas.

Qin Shi Huang e as pedras em movimento

Um antecedente do motivo aparece em antigas tradições relacionadas a Qin Shi Huang. Um relato preservado pelo Taiping Yulan (chinês 太平御覽, literalmente "Leitura Imperial da Era Taiping") que cita o antigo San Qi Lüeji (chinês 三齊略記, "Relatos Breves das Três Qi"), conta que o imperador desejava construir uma ponte de pedra sobre o mar. Um ser sobrenatural fazia então as pedras caminharem em direção à água e açoitava aquelas que avançavam lentamente. Outra tradição atribui ao próprio Qin Shi Huang a capacidade de convocar pedras e fazê-las se mover. 

Nas tradições folclóricas posteriores, o chicote passa a ser atribuído diretamente a Qin Shi Huang. Uma lenda registrada em Zhangjiajie conta que Guanyin, compadecida dos trabalhadores empregados na construção da Grande Muralha, distribuiu entre eles fios de seus próprios cabelos, que lhes permitiam transportar grandes pedras com facilidade. Ao descobrir o poder dos fios, Qin Shi Huang os recolheu e os trançou para formar um chicote mágico, com o qual passou a conduzir montanhas.

Depois de utilizá-lo na construção da muralha, o imperador teria decidido “conduzir montanhas para preencher o mar”. O plano provocou a reação do Rei Dragão do Mar, cuja filha se aproximou de Qin Shi Huang e conseguiu substituir o verdadeiro chicote depois de embriagá-lo. As versões divergem sobre o destino do objeto. Em uma delas, a jovem, perseguida pelos soldados do imperador, abandona o chicote, que cai nas proximidades do riacho Jinbian, em Zhangjiajie, e se transforma no rochedo conhecido como Jinbianyan.

Outra versão da mesma região conta que a filha do Rei Dragão substituiu o Ganshanbian por um chicote falso feito com seus próprios cabelos. Quando tentou destruir o original, seus fios foram dispersos pelo vento e recuperados por Guanyin. Qin Shi Huang permaneceu com a imitação, que já não possuía o poder de mover montanhas.

Erlang Shen e outras tradições

Qin Shi Huang não é o único personagem associado ao Ganshanbian. Em algumas tradições locais, o chicote pertence a Erlang Shen, que o utiliza para deslocar montanhas. O motivo também aparece em narrativas de grupos étnicos do sudoeste da China. 

Uma tradição dos Yi/Sani de Yunnan, por exemplo, conta que uma divindade conduz pedras durante a noite com o objetivo de represar um lago e transformar a região. Enquanto as pedras estão sendo transportadas, uma mulher provoca prematuramente o canto de um galo. Ao ouvirem o sinal que anuncia a chegada do dia, as pedras interrompem seu movimento e permanecem onde estavam, formando a paisagem rochosa.


fontes:
Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

13 de agosto de 2026

Chongming

۞ ADM Sleipnir

Chongming (chinês tradicional 重明鳥; simplificado 重明鸟; Chóngmíng niǎo) é uma ave sobrenatural da mitologia chinesa, conhecida principalmente pelo Shi Yi Ji (拾遺記, literalmente "Registros de Coisas Esquecidas" ou "Memórias Resgatadas"), obra atribuída a Wang Jia, do final do século IV. Em uma narrativa ambientada no reinado de Yao, um dos soberanos lendários da Antiguidade chinesa, ela é descrita com corpo semelhante ao de um galo, pupilas duplas e canto comparado ao da fênix. Na mesma narrativa, Chongming também é apresentada como uma criatura protetora, capaz de enfrentar animais ferozes e afastar seres malignos.

Nome e fontes tradicionais

O nome Chongming significa literalmente “dupla claridade” ou “brilho duplicado”. No Shi Yi Ji, a ave também recebe o nome de Shuangjing (雙睛), expressão que pode ser traduzida como “olhos duplos” ou “pupilas duplas”. A descrição costuma ser interpretada como uma referência a duas pupilas em cada olho, e não a quatro olhos separados.

O relato mais completo encontra-se no primeiro volume do Shi Yi Ji. A obra original sofreu perdas e foi posteriormente reorganizada por Xiao Qi, durante o período das Dinastias do Sul. A passagem sobre Chongming também foi preservada no Taiping Yulan (chinês 太平御覽, literalmente "Leitura Imperial da Era Taiping") e no Taiping Guangji (chinês 太平廣記, "Ampla Coleção da Era Taiping"), duas grandes compilações da dinastia Song, embora com diferenças em alguns nomes e números.


A chegada ao reino de Yao

Segundo a versão preservada do Shi Yi Ji, Yao estava no septuagésimo ano de seu reinado quando recebeu de um país distante, chamado Zhizhi, uma ave extraordinária. Conhecida como Chongming ou Shuangjing, ela tinha a forma de uma galinha ou de um galo e cantava como uma fênix. A fonte não informa seu tamanho, sexo ou a cor de sua plumagem.

De tempos em tempos, suas penas caíam, mas isso não a impedia de voar. O texto emprega a expressão ròuhé (肉翮), que pode se referir às estruturas carnosas das asas expostas após a perda da plumagem. O significado exato da expressão, contudo, permanece incerto.

Apesar da aparência de uma ave doméstica, Chongming possuía força para enfrentar ou expulsar animais ferozes, como tigres e lobos. Sua presença também mantinha afastados seres malignos e protegia contra calamidades. Era alimentada com qiónggāo (瓊膏), uma substância fabulosa cujo nome pode ser traduzido aproximadamente como “pasta de jade” ou “elixir de jade”.

A ave não permanecia continuamente no reino de Yao. Podia aparecer várias vezes em um único ano ou passar anos sem retornar. Enquanto esperavam por sua chegada, os habitantes limpavam as entradas das casas. Durante as ausências, esculpiam sua imagem em madeira ou a fundiam em metal e colocavam essas figuras junto às portas. Segundo o Shi Yi Ji, tais representações faziam os seres maléficos recuarem.

Variantes do relato

As versões conservadas apresentam algumas diferenças. O Shi Yi Ji situa a chegada da ave no septuagésimo ano do reinado de Yao, enquanto o Taiping Yulan e o Taiping Guangji mencionam o sétimo ano. O nome do país que enviou a criatura também varia entre formas como Zhizhi e Zhezhi. Não há informações suficientes para identificá-lo com um reino histórico conhecido.

O nome alternativo aparece como Shuangjing no Shi Yi Ji e como Chongjing (重睛) em algumas versões posteriores. Essas variações provavelmente se devem à longa transmissão do texto, durante a qual partes da obra foram perdidas, reorganizadas ou copiadas com alterações.

As imagens de galos no Ano-Novo

O Shi Yi Ji relaciona as representações de Chongming a um costume praticado no primeiro dia do ano. Nessa data, as pessoas produziam figuras em madeira ou metal ou pintavam galos nas janelas. O autor da obra afirma que essas imagens preservavam a lembrança da ave protetora. 

Essa passagem oferece uma explicação tradicional para o uso protetor da figura do galo nas portas e janelas durante o Ano Novo chinês. Ela não comprova, porém, que todas essas representações tenham se originado exclusivamente do mito de Chongming. O texto também não afirma que o galo comum seja uma transformação física da criatura. Essa interpretação aparece em versões populares modernas, enquanto o Shi Yi Ji estabelece apenas uma relação entre a aparência de Chongming e as imagens de galos colocadas nas residências.

fontes:

Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

12 de agosto de 2026

Monstro da Fazenda Três Marcos

۞ ADM Sleipnir

O chamado Monstro da Fazenda Três Marcos é o personagem de uma lenda de Arapoti, no estado do Paraná. A lenda foi registrada em 2005 na coletânea Lendas e contos populares do Paraná, que não informa o nome do narrador nem quando o episódio teria ocorrido. Na narrativa, ele aparece como uma sombra flutuante que depois parece assumir a forma de uma esfera de fogo. 

A narrativa

Segundo a história, um homem foi enviado pelo patrão para contar as pilhas de madeira deixadas por madeireiros em uma floresta. Como o acesso era difícil, ele seguiu a cavalo. Depois de atravessar uma porteira, o cavalo começou a resistir. Enquanto avançavam por um caminho entre as árvores, o homem sentiu arrepios e ouviu gemidos. O animal também permanecia inquieto.

Quando estavam a cerca de dez metros das pilhas de madeira, uma sombra de aspecto assustador apareceu diante deles. O cavalo se ergueu, derrubou o cavaleiro e começou a relinchar e corcovear. A figura parecia flutuar pouco acima do chão. Em seguida, a sombra pareceu assumir a forma de uma esfera de fogo, embora o relato também mencione as duas manifestações separadamente.

O fogo atingiu as pilhas de madeira e passou rapidamente de uma para outra. O homem conseguiu montar novamente e fugiu a galope. O cavalo só parou ao chegar a uma pequena porteira. Quando o cavaleiro olhou para trás, já não havia sinal da aparição. No dia seguinte, ele retornou ao local com o patrão e dois peões. Embora afirmasse ter presenciado o incêndio, o grupo não encontrou nada fora do lugar. O relato termina dizendo que, depois do episódio, ninguém mais teve coragem de voltar ao local.

fonte:

  • AUGUSTO CARNEIRO JR., R. (ED.). Lendas e Contos Populares do Paraná. [s.l: s.n.].

Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

11 de agosto de 2026

Víbria

 ۞ ADM Sleipnir

Arte de Jose Munoz (metaltatrox)


A Víbria é uma criatura fantástica da tradição catalã cuja representação se modificou ao longo do tempo. Nas fontes medievais, seu nome designava uma criatura semelhante a uma víbora ou serpente, algumas vezes dotada de asas. Posteriormente, sobretudo no contexto das festas públicas, ela adquiriu características de dragão e passou a ser apresentada como uma figura feminina.

Atualmente, a Víbria faz parte do bestiari festiu catalão, conjunto de figuras que representam animais reais ou fantásticos e participam de cortejos e celebrações populares. Algumas dessas figuras são utilizadas em apresentações com fogos de artifício, tradição também associada à Víbria desde pelo menos o final da Idade Média.

Nome e origem histórica

Em catalão contemporâneo, a grafia principal é víbria. Fontes antigas também registram formas como vibra, vibre e brívia. O nome deriva do latim vipera, que significa “víbora”, origem compatível com as descrições mais antigas da criatura.

A Víbria aparece nos bestiários medievais catalães, obras que reuniam descrições de animais reais e fantásticos. Nesses textos, sua forma ainda se aproxima principalmente da serpente, e não do dragão feminino das festas atuais. Essa identificação surgiu mais tarde, à medida que a criatura foi incorporada aos cortejos e recebeu uma aparência que combinava características de serpente, dragão, ave e mulher.

Arte de Laia Baldevey


Dos bestiários às festas catalãs

Um relicário datado de 1356 representa São Jorge com uma criatura identificada como uma víbria sob seus pés. A figura também aparece em contextos heráldicos relacionados à Coroa de Aragão. O primeiro registro seguro de sua participação em festividades é de 1399. Nele, um documento municipal menciona um pagamento pelo transporte da figura. Em 1424, o livro da procissão de Corpus de Barcelona registra o conjunto “São Jorge a cavalo. O vibre”, no qual a criatura representa o monstro enfrentado pelo santo.

Uma referência de 1481 informa que a víbria lançava fogo pela boca, demonstrando que o uso de elementos pirotécnicos já fazia parte de sua representação no final da Idade Média. Em 1601, Jaume Rebullosa empregou a grafia Briuia e a descreveu como a fêmea do dragão. Segundo seu relato, as duas figuras soltavam artefatos pirotécnicos e eram conduzidas por pessoas posicionadas no interior das estruturas.

A partir do século XVIII, algumas representações passaram a combinar elementos de serpente, dragão, ave e mulher. Os seios indicavam seu caráter feminino, enquanto as asas preservavam a relação com as antigas descrições da serpente alada. Sua aparência, entretanto, não segue um modelo único e varia conforme a época e a localidade.

Tradições e representações atuais

Víbria de Tarragona

Atualmente, a víbria participa de cortejos e celebrações públicas ao lado de dragões e outras figuras do bestiário festivo catalão. Barcelona e Tarragona incorporaram novas versões da criatura às suas festas em 1993. Em Reus, uma víbria foi criada em 2007, sem que existissem registros de uma figura local equivalente em períodos anteriores.

Além de sua ligação histórica com São Jorge, a víbria aparece em uma tradição local da região de Sant Llorenç del Munt. Segundo essa versão, Guifré el Pilós teria derrotado a criatura. 

A vibria do folclore chileno

O nome vibria também aparece no folclore chileno, mas designa uma criatura diferente. Em 1915, Julio Vicuña Cifuentes registrou em Coihueco de Chillán a tradição de uma serpente venenosa dotada de duas penas e capaz de matar uma pessoa com um golpe da cauda. Não foi demonstrada qualquer relação histórica entre essa criatura e a víbria catalã, de modo que ambas devem ser tratadas como figuras distintas.

fontes:

Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

10 de agosto de 2026

Bat

۞ ADM Sleipnir

Arte de ThaliaTook

Bat (Bꜣt) era uma divindade do Antigo Egito, tradicionalmente descrita como uma deusa de características bovinas e associada ao sétimo nomo do Alto Egito. A principal cidade dessa região era Hu, posteriormente conhecida pelos gregos como Diospolis Parva. A ligação de Bat com o nomo é registrada na Capela Branca do faraó Senusret I.

As referências a Bat são relativamente escassas e não formam um ciclo mitológico próprio. A divindade é conhecida principalmente por textos funerários e por seu característico emblema. Sua primeira menção escrita considerada segura encontra-se nos Textos das Pirâmides, durante o Reino Antigo.

Bat não deve ser confundida com Bastet (ou Bast), divindade de características felinas, nem com Bata, uma divindade masculina do Antigo Egito.

Representação

O emblema de Bat apresenta um rosto humano visto de frente, com orelhas bovinas e dois elementos curvos ou espiralados acima da cabeça. Estes são geralmente interpretados como chifres estilizados, embora sua natureza exata permaneça discutida.

Representações bovinas semelhantes são anteriores às primeiras referências escritas seguras a Bat. Entre elas estão as cabeças presentes na Paleta de Narmer, produzida por volta de 3000 a.C. Essas imagens são associadas ao emblema de Bat por alguns estudos, mas não possuem inscrições que permitam identificá-las com segurança.

Paleta de Narmer

Bat nos textos egípcios

Nos Textos das Pirâmides, a fórmula funerária PT 506 (§1096b) associa o rei falecido a Bat e menciona suas “duas faces”. O significado dessa expressão não é explicado pelo texto, e interpretações modernas que relacionam as duas faces ao passado e ao futuro não encontram apoio suficiente nas fontes egípcias conhecidas.

Bat também é mencionada nos Textos dos Sarcófagos, conjunto de fórmulas funerárias difundido principalmente durante o Reino Médio. Algumas passagens fazem referência à sua face em contextos relacionados à criação e a Ísis, mas não apresentam um mito próprio da divindade.

Os registros conhecidos não permitem definir com segurança um conjunto de poderes ou funções específicas para Bat. Parte dos atributos encontrados em fontes modernas pode resultar de sua associação com Hathor, divindade muito mais documentada.

Bat e Hathor

Bat e Hathor compartilhavam características bovinas, e seus elementos iconográficos tornaram-se estreitamente relacionados. O emblema de Bat passou a aparecer associado ao sistro, instrumento ritual semelhante a um chocalho e especialmente ligado ao culto de Hathor.

Segundo a interpretação tradicional, Bat era originalmente uma divindade distinta que, sobretudo a partir do Reino Médio, foi gradualmente aproximada ou incorporada a Hathor. Em períodos posteriores, imagens derivadas do antigo emblema de Bat passaram a ser identificadas principalmente com Hathor. Estudos recentes, porém, questionam a ideia de uma assimilação simples e linear entre as duas divindades. A relação entre Bat e Hathor é, portanto, mais segura quando compreendida como uma progressiva aproximação de seus elementos religiosos e iconográficos.

Emblema Hathor/Bat, Novo Reino. 1550–1479 AEC

fontes:

Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.