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26 de junho de 2024

Hrymr

۞ ADM Sleipnir

Arte de Pascal Quidalt

Hrymr (também conhecido como Hrym ou Rymé um dos jotuns (gigantes de gelo) da mitologia nórdica, associado aos eventos ocorridos durante o RagnarökO significado do seu nome em nórdico antigo não é claro, sendo proposto pelo acadêmico Andy Orchard como "decrépito", enquanto o historiador Jan de Vries (1890-1964) sugere uma relação com  a palavra hrumr ("fraco" ou "frágil").

No Gylfaginning,  a primeira parte da Edda em prosa de Snorri Sturluson, Hrymr é descrito como sendo o comandante do navio Naglfarfeito com as unhas dos mortos, e que conduzirá os gigantes de gelo para a sua batalha final contra os deuses, na planície de VigridNo Völuspá, o primeiro poema da Edda Poética, é o deus Loki, e não Hrymr, quem é descrito como sendo o capitão de Naglfar. Ainda sim, Hrymr é descrito na estrofe 50 do poema chegando para a batalha:

"Do leste vem Hrymr com escudo erguido;

Na ira gigante a serpente se contorce;

Sobre as ondas que ela torce, e a águia fulva

rói cadáveres gritando; Naglfar está solto."

"Ragnarok", por Riccardo Gualdi. Na imagem temos Fenrir (lutando contra Odin), Surt, Jormangandr (lutando contra Thor) e Hrymr empunhando um machado.

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24 de junho de 2024

Kimat

۞ ADM Sleipnir

Arte de Brian Valeza

Kimat é uma figura mitológica da tradição dos Tinguian, um grupo indígena que habita a região montanhosa de Luzon, nas Filipinas. Ela é descrita como um cão branco que representa o relâmpago e é um servo fiel do deus do trovão, Kadaklan. De acordo com a mitologia, Kadaklan envia Kimat para morder uma árvore, uma casa ou um campo como um sinal para que uma cerimônia especial, conhecida como Padīam, seja realizada pelos habitantes locais​.

Durante o Padīam, os Tinguian realizam rituais e oferendas para apaziguar e honrar Kadaklan, garantindo proteção e bênçãos para a comunidade. As oferendas podem incluir alimentos e sacrifícios de animais, como porcos ou galinhas, que são fundamentais para o ritual. Além disso, a cerimônia pode envolver danças tradicionais, cânticos e a participação de anciãos e xamãs da tribo, que lideram os rituais e orações​.

Arte de CJ Reynaldo

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19 de junho de 2024

Sanme Yazura

۞ ADM Sleipnir

Arte de 合間太郎

Sanme Yazura (japonês 三目八面, também chamado de Mitsume Hachimen ou Mitsume Yazura) é um antigo e pouco conhecido yokai do folclore japonês, cuja lenda tem suas origens na vila de Tosayama (土佐山村) na antiga província de Tosa (atualmente Prefeitura de Kochi). Sua aparência exata é desconhecida. Ele é geralmente descrito como uma enorme criatura com oito cabeças, porém com apenas três olhos. Kenji Murakami, um pesquisador de yokai, especula que o Sanme Yazura tinha um corpo longo semelhante a uma serpente, e ele também aponta para uma possível relação com outro yokai de oito cabeças da região de Kochi, conhecido como Yatsurao (八面頬).

De acordo com a lenda, Sanme Yazura vivia em uma montanha chamada Saruyama (申山), de onde costumava sair para atacar vilarejos vizinhos e devorar pessoas. 

Arte do livro The Great Yokai Encyclopedia (1987)

Os relatos de seus ataques brutais eventualmente chegaram aos ouvidos de um senhor feudal local chamado Mizuno Wakasanokami, e seu irmão, Shimedayu, que decidiu lidar com a situação pessoalmente. Shimedayu se dirigiu à montanha e lá erigiu um ofuda (um talismã de exorcismo feito de papel) que fez com que o yokai ficasse preso no local. Depois, Shimedayu ateou fogo nos arredores montanha, fazendo com que Sanme Yazura ficasse cercado pelas chamas. Impedido de fugir pelo talismã e pelas chamas, Sanme Yazura se debateu violentamente durante dias até finalmente morrer queimado. Algumas semanas depois, os aldeões foram até a montanha e encontraram um cadáver gigante, que se parecia com o de uma serpente gigante. Surpreendentemente, o ofuda erigido por Shimedayu foi a única coisa a permanecer intacta.

Cultura popular

Sob o nome de Mitsume Yazura, este yokai é um dos inimigos presentes no game Nioh 2.

Mitsume Yazura (Nioh 2)

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17 de junho de 2024

Dragão de Banyoles

۞ ADM Sleipnir

Arte de Javier Prado

O Dragão de Banyoles (também conhecido como Drac de Banyoles ou Mon-mon) é uma criatura lendária dita habitar uma caverna conhecida como "La Draga", localizada nas margens do lago de Banyoles, na comarca da região de Pla de l'Estany, na Catalunha. Ele é descrito como tendo o corpo coberto de escamas, e dotado de um par de asas, garras e espinhos afiados em suas costas. Conta-se que ele soltava chamas pelos olhos e seu hálito venenoso secava plantas e contaminava a água, espalhando doenças. Embora tivesse asas, ele era incapaz de voar devido ao seu enorme tamanho.

Lenda

A lenda do Dragão de Banyoles remonta ao final do século VII, quando a criatura começou a atacar animais e pessoas que se aproximavam do lago. A notícia dos ataques chegou aos ouvidos de Carlos Magno, que enviou seus soldados para combater a criatura. No entanto, os soldados foram derrotados, e o próprio imperador precisou enfrentar o dragão. As crônicas divergem sobre o resultado deste confronto: algumas dizem que Carlos Magno venceu, mas não conseguiu matar a besta; outras afirmam que ele quase perdeu a vida e implorou por misericórdia.

A Intervenção de São Emério

Com os ataques continuando, os habitantes de Banyoles recorreram a São Emério, um monge narbonês. Ele conseguiu retirar o dragão de sua caverna e levá-lo à praça da cidade, proclamando que a fera era inofensiva e se alimentava apenas de grama. Aparentemente, os verdadeiros responsáveis pelos desaparecimentos eram as tropas de Carlos Magno, que raptavam pessoas para alistá-las e abatiam o gado para se alimentar.

São Emério

O Retorno do Dragão

O Dragão de Banyoles teria voltado a aparecer no final do século XIX, quando teria saído da água para atacar  diligências que faziam o trajeto entre Olot e Banyoles. Em 1913, ele foi considerado responsável pelo naufrágio de um barco turístico. O evento mais recente atribuído ao Dragão de Banyoles foi o afundamento do barco L'Oca em 1998, que resultou na morte de 20 das 141 pessoas a bordo. Embora a superlotação pareça ser a causa mais provável do acidente, os locais lembraram mais uma vez do lendário dragão.


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14 de junho de 2024

Pugot Mamu

۞ ADM Sleipnir

Arte de Nightmare Syrup

Pugot Mamu ("cabeça decepada") é uma aterrorizante criatura oriunda do folclore filipino, especialmente popular na província de Pampanga, na região central de Luzon. Um equivalente dos bichos-papões ocidentais, ela é uma criatura gigante e sem cabeça, conhecida por seu apetite insaciável por crianças. A ausência de cabeça não o impede de se alimentar; em vez disso, ele utiliza um buraco em seu pescoço, repleto de presas afiadas, para devorar suas vítimas.

Arte de Luiz Anthony Oliveros

O Pugot Mamu é uma versão maligna dos inofensivos espíritos Pugot. Enquanto os Pugot são geralmente neutros, alimentando-se de cobras e galinhas e não causando danos aos humanos, o Pugot Mamu representa um perigo real e imediato, especialmente para as crianças. Ele é capaz de devorar crianças inteiras através do buraco em seu pescoço, uma imagem assustadora que certamente traumatizou muitas crianças Pampangan ao longo dos anos.

Conta-se que o Pugot Mamu habita as florestas, e que prefere sair para caçar à noite. As histórias sobre ele podem ter sido criadas para ensinar as crianças a obedecerem aos seus pais e voltarem para casa cedo, garantindo assim sua segurança.

Arte de NightSabra

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12 de junho de 2024

Kogarasu

۞ ADM Sleipnir

Kogarasu (japonês こがらす, "pequeno corvo") é um yokai do folclore japonês retratado no Tosa Obake Zōshi (japonês 土佐お化け草紙, "Pergaminhos de Histórias de Fantasmas de Tosa") um pergaminho ilustrado datado do período Edo, cuja autoria é desconhecida, e que contém 16 histórias envolvendo yokais. Trata-se de um corvo que, após ter vivido por mil anos, se transformou em um yokai. Ele é representado como um corvo vestindo um quimono, e dotado de duas mãos e uma perna. 

A figura do Kogarasu é frequentemente associada à imagem de tentar devorar cadáveres. De acordo com as descrições presentes no Tosa Obake Zōshi, o Kogarasu desenterra e come os cadáveres de pessoas que praticaram o mal durantes suas vidas.

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10 de junho de 2024

O Cavaleiro do Jaraguá

۞ ADM Sleipnir


O Cavaleiro do Jaraguá (também conhecido como Cavaleiro da Rua das Flores) é uma figura mítica cuja lenda pertence à cidade de Jaraguá, localizada no estado de Goiás, Brasil. Ele é descrito de várias maneiras pelos habitantes da cidade. Em algumas versões da lenda, ele aparece como uma figura de carne e osso, trajando vestes antigas, como se tivesse sido transportado do passado para o presente. Em outras descrições, ele é visto como um vulto ou um esqueleto fantasmagórico. Os relatos variam, mas todos concordam que o cavaleiro é uma presença inquietante. Às vezes, ele é avistado a cavalo, mesmo dentro dos edifícios, e os sons de galope e relinchos são frequentemente ouvidos à noite.

A lenda do Cavaleiro do Jaraguá se concentra principalmente na Rua das Flores, uma rua que abriga uma casa famosa por seus relatos de atividades paranormais. Conta-se que essa casa  pertenceu no passado a um certo fazendeiro e sua esposa. O fazendeiro, desconfiado da fidelidade de sua esposa, costumava retornar da fazenda à noite para verificar se ela não estava envolvida com outro homem. Um dia, tanto o fazendeiro quanto seu cavalo desapareceram misteriosamente, sem deixar rastros e foram dados como mortos. Acredita-se que mesmo após a morte, a alma perturbada do fazendeiro continuou a fazer o mesmo trajeto em direção a casa, tentando verificar se a esposa permanecia fiel.

Após a morte do fazendeiro, uma família que vivia na roça comprou a residência e começou a alugar seus cômodos. Todos que passavam uma noite no local iam embora no dia seguinte relatando experiências sobrenaturais, como escutar o barulho de ferraduras pela rua e o arrastar de esporas entrando na casa. Em algumas noites, era possível escutar o cavalo adentrando a casa e o lamento do cavaleiro ao não encontrar sua esposa.

imagem gerada por I.A.

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7 de junho de 2024

A Jornada ao Oeste: Capítulo XXII

۞ ADM Sleipnir

Arte de Moyi Zhang


CAPÍTULO XXII:


BAJIE LUTA FEROZMENTE NO RIO DE AREIA. MUZHA SUBJUGA WUJING.


O monge Tang e seus dois discípulos levaram apenas um dia para deixar para trás a Montanha do Vento Amarelo. Seu caminho passou então por uma imensa planície. O verão estava chegando ao fim e a iminente chegada do outono já se anunciava (1). O que viram ao final do primeiro dia foi um grupo de salgueiros sobre os quais agonizavam as cigarras e a grande bola de fogo que se deslocava para o oeste. Os viajantes logo se depararam com um imenso rio de águas turbulentas, cujas ondas lembravam as do mar.


— Vejam que vasta extensão de água se abre diante de nós — exclamou Sanzang. — Como vamos atravessá-lo, se não há nenhum barco por aqui?

— É turbulento demais para embarcações como as que você menciona — replicou Bajie, olhando atentamente ao redor.

O Peregrino, por sua vez, elevou-se aos céus e, colocando a mão acima dos olhos, espiou cuidadosamente a distância. Até ele se sentiu desanimado pelo que viu.


— É extremamente difícil atravessar este rio disse o Peregrino. —  Não falo, certamente, por mim, mas por você, mestre. Como você sabe, eu poderia atravessá-lo com um simples sacudir do corpo, mas para você é praticamente impossível chegar à outra margem.


— Não me surpreende — reconheceu Sanzang. — Nem mesmo posso vê-la daqui. Sabe qual é a largura?

— Cerca de oitocentas milhas— respondeu o Peregrino.

— Vamos! - zombou Bajie. — Como pode ter tanta certeza dessa distância?

— Na verdade — explicou o Peregrino — meus olhos podem ver o que ocorre a milhares de milhas em plena luz do dia. Quando estava lá em cima, há alguns minutos, não consegui contemplar toda a extensão do rio, mas posso garantir que sua largura é de cerca de oitocentas milhas. Acredite em mim.

Suspirando com manifesta preocupação, Sanzang puxou as rédeas do cavalo, e viu que havia uma placa de pedra na margem. Os três se aproximaram dela e descobriram que dizia simplesmente: "O Rio da Corrente de Areia". Um pouco mais abaixo, no entanto, esses poucos dados eram ampliados com uma caligrafia notavelmente inferior.

"Essas areias movediças, com oitocentas milhas de largura;

Essas águas fracas, com três mil de profundidade.

Uma pena de ganso não pode flutuar;

Uma pétala de junco afundará até o fundo."


Enquanto o mestre e seus discípulos liam essa curiosa inscrição, as águas do rio de repente se agitaram e, levantando ondas tão altas quanto montanhas, surgiu das profundezas um monstro de aparência selvagem e horripilante. Sua cabeça estava completamente coberta por uma desordenada cabeleira que lembrava uma fogueira; seus olhos redondos possuíam um brilho tal que pareciam lâmpadas recém-acesas; seu rosto tinha uma coloração azulada que às vezes parecia enegrecida ou verde, para não parecer nem uma coisa nem outra no minuto seguinte; sua voz, finalmente, era a de um dragão e trazia à mente reminiscências de tempestade ou batida de tambores. Vestia uma capa de cor amarelo-claro e usava na cintura uma espécie de saia feita com juncos brancos. Um colar de nove caveiras adornava seu peito e em suas mãos segurava um esplêndido bastão de corte sacerdotal.


Como um ciclone, a besta se voltou para a margem e se lançou contra o monge Tang. Felizmente, o Peregrino o agarrou pelos ombros e, com um salto, levou-o para um lugar mais alto e seguro. 


Bajie, por sua vez, deixou de lado a bagagem e, pegando o ancinho, desferiu um golpe terrível contra seu adversário. O monstro habilmente o deteve com seu bastão, dando início a uma esplêndida batalha nas margens do Rio de Areia. Eram verdadeiros inimigos mortais, o Ancinho de Nove Dentes e o  Bastão Domador de Demônios. Aqueles que usavam armas tão extraordinárias não tinham nada a invejar, pois, se um era o Marechal dos Juncos Celestes, o outro ostentava o título de Marechal Que Levanta a Cortina. Outrora haviam se encontrado mais de uma vez no Salão da Névoa Divina e agora mediam suas forças às margens de um rio imenso. 


O ancinho lembrava um dragão abrindo suas terríveis garras, enquanto o bastão trazia à mente a inabalável fortaleza de um elefante. Ambos mantinham todos os seus membros tensionados, tentando com cada golpe quebrar a frágil jaula formada pelas costelas. Seus ataques não eram dirigidos exclusivamente ao peito. O rosto e a cabeça também eram altamente cobiçados pelo mortal aço de suas armas. Os golpes se sucediam sem descanso nem pausa, deixando bem claro que, se um era o espírito devorador de homens do Rio de Areia, o outro tinha como único objetivo a conquista da Verdade e o estabelecimento da Lei e da Fé.


Durante mais de vinte assaltos cruzaram suas armas, sem que nenhum dos dois conseguisse obter uma clara vantagem. Durante todo esse tempo, o Grande Sábio se manteve à margem, protegendo o monge Tang e cuidando do cavalo e da bagagem. Mas à medida que o tempo passava e via a tremenda concentração que tanto o monstro quanto Bajie colocavam na luta, a impaciência foi tomando conta dele, fazendo-o esfregar as mãos e ranger os dentes. Quando não aguentou mais se conter, sacou seu bastão e disse ao seu mestre:

— Sente-se aqui mestre, e não tenha medo. Chegou o momento de eu também brincar um pouco com esse monstro.


O mestre implorou em vão para que ele ficasse ao seu lado. Dando um grito alto, o Peregrino rapidamente saltou rumo ao combate. O monstro e Bajie estavam tão enredados na luta que parecia que ninguém seria capaz de separá-los. O Peregrino, no entanto, conseguiu se meter entre os dois e desferir um golpe terrível na cabeça do monstro com seu bastão de ferro. 



Mesmo cambaleando, o monstro conseguiu saltar na água e logo desapareceu entre as ondas do Rio de Areia. Bajie ficou furioso e, encarando o Peregrino, gritou descontroladamente:

—Quem foi que pediu para você vir? O monstro já estava no limite de suas forças. Não viu com que dificuldade ele esquivava meus ataques? Mais quatro ou cinco assaltos e eu o teria derrotado. Por que teve que se lançar sobre ele? Você o assustou com seus olhos de fogo e ele fugiu como um covarde. O que vamos fazer agora?


— Reconheço que agi mal - admitiu o Peregrino. — Não uso meu bastão de ferro desde quando derrotei o Monstro do Vento Amarelo. Ao ver você lutando tão bem contra esse monstro, senti inveja e me lancei na batalha sem pensar. Só queria me divertir um pouco, mas eu não esperava que esse maldito monstro fosse tão covarde!

Essas palavras fizeram Bajie soltar uma gargalhada. Toda sua raiva se desfez em um instante e, agarrando o Peregrino pela mão, levou-o até onde estava o monge Tang, sem deixar de rirem um só segundo.


— Já capturaram o monstro? — perguntou Sanzang.

— Ainda não — respondeu o Peregrino. — Ele não resistiu ao nosso ataque e se refugiou na turbulência das águas deste maldito rio.

— Com certeza esse monstro vive aqui há muitos anos — disse Sanzang, esperançoso. — Ele deve conhecer as partes rasas e profundas desse imenso rio. Como não há nenhum barco À vista, ele poderia ser de grande ajuda para nos ajudar a atravessá-lo.


— Você tem razão — admitiu o Peregrino. — Como bem diz o provérbio, "quem está perto do cinábrio se tinge de vermelho e quem está perto da tinta acaba se tingindo de preto". Esse monstro deve conhecer bem essas águas. Quando o capturarmos, pouparemos sua vida e, assim, ele poderá levá-lo para o outro lado do rio.

— O que está esperando? — exclamou Bajie. — Vá atrás dele, enquanto eu cuido do nosso mestre.

— Isso é algo sobre o qual não posso me gabar — disse o Peregrino, sorrindo. — Não sou lá muito bom em agir sob a água. Mesmo para andar debaixo d'água, preciso fazer um movimento mágico com a mão e recitar um encantamento repelente de água antes de poder me mover. A única outra maneira de eu chegar lá é me transformando em um peixe, camarão, caranguejo ou tartaruga. Eu posso lidar com qualquer magia estranha e maravilhosa em uma montanha ou nas nuvens, mas quando se trata de assuntos debaixo d'água, sou inútil.


— O mesmo acontece comigo — disse Bajie. — Quando eu ocupava o cargo de Marechal dos Juncos Celestes, tinha sob meu comando uma força naval que superava em muito os oitenta mil homens. Cheguei, de fato, a adquirir um conhecimento bastante profundo sobre a água, mas temo que aquele monstro possa contar lá embaixo com a ajuda de algum aliado poderoso. Como vou enfrentá-lo, se ele vier ao meu encontro com sete ou oito de seus aliados? O que acontecerá comigo se eles me capturarem?"

— Entre na água e lute com ele — respondeu o Peregrino. — Mas não lute com tudo! Finja sua derrota e o atraia para longe d'água. Então poderei te ajudar a capturá-lo.


— Excelente ideia! — exclamou Bajie. — Lá vou eu.

Na mesma hora, Bajie tirou os sapatos e a túnica de seda azul, agarrou o ancinho com as duas mãos e abriu caminho pelas águas. Valendo-se da habilidade que havia desenvolvido em anos passados, ele saltou através de ondas e dirigiu-se para o leito do rio.


Enquanto isso, o monstro havia se retirado para sua mansão com o amargo sabor da derrota nos lábios. Começava a recobrar as forças, quando ouviu alguém agitando as águas com notável habilidade. Levantou a cabeça e viu Bajie se aproximando com o ancinho. Pegou apressadamente o bastão e saiu ao seu encontro, gritando:

— Aonde pensa que vai, monge intrometido? Tome isso!


— Quem é você, espírito maligno, e como se atreve a impedir nosso caminho? — replicou Bajie, bloqueando habilmente o golpe de seu adversário.

— Então não me conhece? — exclamou o monstro. — Saiba que não sou nenhum demônio e que tenho um nome e sobrenome muito específicos.

— Se, como diz, não é um demônio, por que se dedica a matar pessoas? — perguntou Bajie. — Diga seu nome, e talvez eu poupe sua vida.


— Desde o momento do meu nascimento — explicou o monstro — , possuo um espírito de força invejável, que me moveu a percorrer o mundo inteiro. Em todos os lugares sou lembrado como um herói valoroso que todos tentam emular. O número de nações que visitei é praticamente incontável, assim como o de lagos e mares que cruzei. Até o próprio confim do céu cheguei com o objetivo de aprender o Tao, e percorri a superfície de toda a terra com o único propósito de encontrar um bom mestre nessa arte. Durante muitos anos pedi esmola, coberto de trapos como um mendigo. Nem um único dia descuidei de minha formação espiritual. Não é estranho, portanto, que eu tenha percorrido a terra centenas de vezes, como se fosse uma nuvem viajante. No entanto, durante todo esse tempo, encontrei apenas um imortal autêntico, que me ensinou o Grande Caminho da Luz Dourada. Com absoluta dedicação, lancei-me à mistura das essências do rim e do coração, e à mutação do mercúrio e do chumbo (2). Assim, a água renal passou lentamente do Salão Luminoso (3) para o Lago das Flores, e o fogo hepático precipitou-se sobre o coração desde o alto da Torre dos Doze Anéis (4). Adquiri tantos méritos naquela época que me foi permitido olhar diretamente para o céu e fui concedido inclinar a cabeça no Salão da Luz. O Imperador de Jade me encheu de honras, nomeando-me Marechal Que Levanta a Cortina. Ninguém gozava de maior estima que eu no Salão da Névoa Divina e a ninguém foram concedidas tantas honras no Portão Sul quanto a mim. De minha cintura pendia o Escudo da Cabeça de Tigre, e minhas mãos brincavam continuamente com o Bastão Domador de Demônios. O elmo de ouro que cobria minha cabeça brilhava mais do que a própria luz do dia, enquanto de minha armadura saíam raios potentes que atravessavam, até mesmo, as neblinas celestes. Não à toa eu era o chefe de todos os guardiões do trono e era considerado o primeiro dos servidores da corte. Um dia, enquanto Xi Wangmu oferecia o Festival dos Pêssegos a seus ilustres convidados no Lago de Jade, quebrei sem querer um copo de jade e todos os rostos se voltaram, irados, para mim. O próprio Imperador de Jade ficou furioso e convocou imediatamente o conselho, que decidiu privar-me de todas as minhas atribuições e depois sofrer a pena de morte. Somente o Grande Imortal dos Pés Descalços intercedeu a meu favor, solicitando respeitosamente a mudança da pena. Graças a ele, escapei da morte, embora tenha sido expulso dos céus e tivesse de buscar refúgio às margens do Rio de Areia. Quando estou com fome, agito as ondas em busca de comida e me deixo levar mansamente pela correnteza quando estou saciado. Não há pescador que me veja que não acabe em meu estômago, sorte que também têm os viajantes que se aproximam demais de mim. São incontáveis os homens que devorei e as ofensas que cometi contra o céu, ao destruir toda espécie de vida. Já que ousou trazer a violência até a minha porta, você mesmo terminará seus dias em meu estômago. Não me importa que sua carne seja um pouco dura. Assim que eu lhe pegar,  farei picadinho de você e o transformarei em uma deliciosa iguaria.

— Maldita besta! — gritou Bajie, furioso com o que acabara de ouvir. — Parece que lhe falta visão. As pessoas ficam com água na boca quando me veem, e você vem dizer que minha carne é um pouco dura e que pretende fazer picadinho de mim para fazer uma iguaria deliciosa? Se não fosse cego, perceberia que o que tem diante de si é uma excelente peça de panceta. Agora cale-se e prove um pouco do meu ancinho!


Quando o monstro viu o golpe que se aproximava, usou o estilo chamado "Fênix que Move a Cabeça" para esquivá-lo. Os dois se lançaram então à luta, pisoteando as águas e saltando agilmente de onda em onda. O combate que agora iniciaram era, de alguma maneira, diferente do que haviam travado horas antes. Tanto o Marechal que Levanta a Cortina quanto o Marechal dos Juncos Celestes possuíam extraordinários conhecimentos de técnicas mágicas. Se um brandia com inimitável maestria o  Bastão Domador de Demônios, o outro não ficava atrás no manejo do ancinho. As ondas que levantavam em seus contínuos deslocamentos pelas águas eram de tal magnitude que cobriam as montanhas e mergulhavam todo o cosmos em uma aquosa escuridão. Um tentava proteger o monge Tang, e o outro era o senhor daquelas águas. Um único golpe do ancinho era capaz de causar nove feridas mortais em sua vítima, enquanto o bastão podia muito bem fazer desaparecer o espírito de um homem. Aquela era uma batalha pela sobrevivência, e os dois guerreiros mediam suas armas com a única intenção de ganhar. Estava em jogo a sorte do monge em busca das escrituras. A ferocidade do combate era tal que as carpas e percas perderam as escamas, e as tartarugas sofreram danos irreparáveis em suas conchas. Todos os camarões e caranguejos que habitavam naquele rio perderam a vida. Os deuses da água estavam tão aterrorizados que imploraram a clemência do céu. Tudo o que se ouvia era o rolar das ondas e os contínuos embates dos lutadores, que, de alguma maneira, lembravam o rugido do trovão. O cosmos estava mergulhado em tal confusão que até o sol e a lua pararam de brilhar. O combate se prolongou por mais de duas horas sem que se vislumbrasse um vencedor. Era como se uma panela de cobre estivesse enfrentando uma vassoura de ferro, ou um gongo de jade tivesse desafiado um sino de ouro.


Durante todo esse tempo, o Grande Sábio permaneceu ao lado do monge Tang. Com os olhos arregalados de excitação, observava a formidável luta que se desenrolava sobre a água, mas não ousava se mover do lugar. Bajie parecia de repente perder terreno e, fingindo-se derrotado, deu meia-volta e fugiu em direção à costa oriental.

O monstro saiu imediatamente em sua perseguição. Quando estava prestes a alcançar a margem do rio, o Peregrino não aguentou mais. Deixou o mestre sozinho, pegou seu bastão de ferro e, pulando entre os juncos, deu outro golpe na cabeça do monstro. Sem ousar enfrentá-lo, o monstro decidiu buscar refúgio nas águas novamente.




— Maldito "pi-ma-wen"! — gritou Bajie, furioso. — Como você pode ser tão impulsivo? É incapaz de ter um pouco de paciência? Se você tivesse esperado até que eu o trouxesse para um terreno mais elevado, poderiamos ter bloqueado caminho dele de volta para a água e o teríamos capturado sem dificuldade. Como você acha que vamos fazê-lo sair de seu esconderijo novamente?

— Pare de gritar e vamos falar com nosso mestre primeiro — sugeriu o Peregrino.


Mal-humorado, Bajie seguiu Wukong até o local onde Sanzang os aguardava.

— Imagino que deve estar muito cansado — disse o mestre ao ao vê-lo.

— O que menos me preocupa agora é o cansaço — replicou Bajie.  Precisamos dominar o monstro o quanto antes e fazê-lo nos conduzir até o outro lado do rio. Só então poderemos pensar em descansar.

— Como foi a luta com o monstro? — perguntou Sanzang.

— É um lutador quase tão bom quanto eu, e nenhum de nós conseguia obter uma clara vantagem sobre o outro. Por isso, decidi mudar de tática e fingi estar no limite de minhas forças. Ele saiu em minha perseguição, mas, ao ver Wukong com o bastão em riste, se assustou e voltou a refugiar-se nas águas.

— O que vamos fazer agora? — exclamou Sanzang, preocupado.

— Não se preocupem com isso — tentou tranquilizá-los o Peregrino. — Está ficando tarde e o melhor que podemos fazer é descansar um pouco. Sentem-se naquela rocha enquanto vou procurar algo para comer. Amanhã encontraremos uma solução para nosso problema. Com o estômago cheio, pensa-se muito melhor.

— Você tem razão — admitiu Bajie. — Quanto antes você for, antes voltará.


Sem perder tempo, o Peregrino montou em uma nuvem e dirigiu-se ao norte a fim de mendigar uma tigela de comida vegetariana para seu mestre. Após encontrar uma família caridosa e lhe pedir um pouco de comida, voltou apressadamente ao lado de Sanzang. Quando o mestre o viu retornar tão cedo, disse:

— Wukong, por que não vamos todos à casa de quem lhe deu essa esmola e perguntamos como cruzar o rio? Pensando bem, é muito mais fácil do que lutar com um monstro. O que acham?

— Essa casa está muito longe daqui — respondeu o Peregrino, soltando uma gargalhada. — Calculo que está a seis ou sete mil milhas de distância. É impossível que saibam algo sobre este rio. Para que perder tempo perguntando?


— Deixe de mentiras! — criticou Bajie. — Como seria possível você ter percorrido uma distância de seis ou sete mil milhas tão rapidamente?

— Você não está a par da capacidade do meu salto sobre as nuvens — explicou o Peregrino. — Com apenas um salto, posso percorrer cento e oito mil milhas em um instante. Então, para cobrir seis ou sete mil, basta mover um pouco a cabeça e sacudir a cintura. Isso é fácil demais para mim.

— Se é tão fácil quanto diz — concluiu Bajie — , deveria carregar o mestre nas costas e  levá-lo para o outro lado. Assim nos pouparia o trabalho de lutar contra esse monstro.


— Por que não faz isso você? — replicou o Peregrino. — Você não sabe caminhar pelas nuvens?

— Receio — respondeu Bajie — que a natureza mortal de nosso mestre seja tão pesada para mim quanto o monte Tai. Tenho certeza de que, com ele nas costas, seria totalmente incapaz de me elevar pelos ares. Há uma grande diferença entre seus saltos nas nuvens e minha maneira de andar pelas nuvens.


— Basicamente, são a mesma coisa — explicou o Peregrino. — A única diferença é que meus saltos podem cobrir maiores distâncias em menos tempo. O que faz pensar que posso carregar nosso mestre, quando você é incapaz de fazê-lo? Existe um provérbio que diz: "Tente mover o monte Tai e descobrirá que é tão leve quanto uma semente de mostarda. Tente, no entanto, carregar um mortal nas costas e verá que não pode  ser arrastado para longe do pó terreno". Quando aquele outro monstro venenoso criou um vento mágico, só consegui mover o mestre arrastando-o e puxando-o pelo chão. Claro, conheço infinidade de truques, desde me tornar invisível até encurtar consideravelmente as distâncias, mas não posso usar nenhum em benefício de nosso mestre. Sabe por quê? Porque é preciso que ele passe por toda sorte de calamidades antes de ser libertado para sempre deste mar de infortúnios. Por isso, cada passo que dá torna-se cada vez mais difícil. Você e eu não somos mais que dois protetores comuns de sua vida, incapazes de poupar-lhe todas essas calamidades ou obter por nós mesmos as escrituras. Mesmo se pudéssemos nos apresentar agora mesmo diante de Buda, estou convencido de que ele não nos concederia o que buscamos, porque, como diz o ditado, "o que se consegue com facilidade muito cedo cai no esquecimento".

Quando Bajie ouviu essas palavras, aceitou-as com submissão, como se fosse um verdadeiro ensinamento. Assim que terminaram sua refeição, retiraram-se para descansar na margem oriental do Rio de Areia. Na manhã seguinte, Sanzang perguntou a Wukong:

— O que vamos fazer hoje?


— Receio que não temos outra alternativa senão mandar Bajie entrar na água novamente. — respondeu o Peregrino. 

— Inacreditável! — exclamou Bajie, um tanto mal-humorado. — Você quer me mandar para a água de novo, enquanto você permanece seco do lado de fora.


— Prometo que desta vez não serei tão impulsivo — disse o Peregrino. — Esperarei até que você o traga até aqui e então o impedirei de retornar ao rio. Assim, poderemos capturá-lo.

Bajie esfregou o rosto, reuniu suas energias e, agarrando o ancinho com as mãos, dirigiu-se até a margem do rio. Abriu um caminho pelas águas e foi até a covil do monstro, como havia feito antes. O monstro havia acabado de acordar quando ouviu o barulho da água sendo golpeada. Então olhou ao redor e observou Bajie aproximando-se com o ancinho. 


Sem pensar duas vezes, deu um salto e tentou bloquear seu caminho, gritando:

Devagar! Cuidado com o meu bastão!

Bajie levantou a tempo o ancinho e, após bloquear o golpe, perguntou:

— Que tipo de bastão é esse que você ousa pedir para eu ter cuidado com ele?


— Sujeitos como você não sabem apreciar o que tem verdadeiro valor — replicou o monstro. — Este bastão tem desfrutado de justa fama por séculos. Originalmente, fazia parte de uma árvore perene plantada na lua. Wu Gang (5) cortou um de seus galhos e Luban transformou-o em um bastão, utilizando sua extraordinária habilidade artesanal. Sua parte central é constituída por um pedaço de ouro puro, ao redor do qual se desenvolveram fileiras de pérolas. Não é à toa que é conhecido por toda parte como um tesouro para derrotar demônios. Durante muito tempo, fez parte do arsenal do Salão da Névoa Divina, sendo uma arma inestimável para dominar as feras. O Imperador de Jade me confiou este bastão quando fui nomeado marechal, e posso garantir que seus poderes superam em muito sua fama. Ele pode se alongar, encurtar e mudar de espessura à vontade. Portanto, nunca me separei dele, nem para assistir ao Festival dos Pêssegos, nem para participar das audiências do imperador. Muitos imortais e sábios se curvaram diante dele quando a cortina que separa o Senhor do Céu de seus súditos foi levantada. Em suma, é uma arma celestial de poder extraordinário, incomparável a qualquer artefato humano. Mesmo quando fui expulso do Palácio Divino, recusei-me a perdê-lo, e ele tem vagado comigo por todos os mares desde então. Talvez eu não devesse me orgulhar tanto, mas a verdade é que nem espadas nem lanças feitas pelo homem podem se comparar a este bastão. Olhe para esse ancinho enferrujado que você segura. Serve apenas para cavar campos e revolver ervas!

— Seu monstro maldito! — exclamou Bajie, soltando uma gargalhada. — Então meu ancinho só serve para cavar campos, é? Espere um momento e você verá que ele é mais mortal do que pensa. Suas nove pontas são tão afiadas que, se não acabarem com sua vida suja instantaneamente, lhe causarão uma infecção crônica.


O monstro levantou os braços e lançou-se contra Bajie. A luta começou no fundo do rio, mas seus momentos mais cruéis ocorreram na superfície. O bastão e o ancinho mediram forças de maneira mais feroz do que nas duas ocasiões anteriores. Para não desperdiçar um átomo de energia, os dois lutadores não trocaram uma única palavra. Determinados a vencer, levantaram uma terrível maré que evidenciava sua obsessão pela vitória; as águas do Rio de Areia tornaram-se de repente tão destrutivas quanto a ação do veneno. Os resmungos dos lutadores podiam ser ouvidos a várias milhas de distância. Com que ferocidade se movia o ancinho e com que maestria o bastão era manuseado! Um tentava arrastar seu oponente para a margem, enquanto o outro procurava atraí-lo para o centro do rio, para que ali a corrente o afogasse. Pareciam deuses do trovão empenhados em fazer os dragões e peixes enlouquecerem de medo. Até os deuses e demônios sentiram terror ao ver os céus escurecerem.

A batalha durou mais de trinta assaltos, mas nenhum dos lutadores mostrou-se superior ao outro. Bajie fingiu novamente ter sido derrotado e fugiu arrastando penosamente o ancinho. 


O monstro o perseguiu pelas ondas até alcançarem a margem do rio, onde Bajie gritou:

— Maldita besta! Venha até aqui, onde o terreno é mais alto e poderemos lutar melhor.

— Não — replicou o monstro, sacudindo a cabeça. — Você está tentando me atrair até a terra firme para que seu companheiro possa me emboscar. Acha que não percebi seu truque? Se quiser continuar a luta, terá que voltar para a água.


Perspicaz, o monstro recusou-se a chegar mais perto da margem, insultando Bajie de dentro d'água. Quando o Peregrino viu que o monstro não estava disposto a abandonar o rio, ficou furioso e obcecado em capturá-lo o quanto antes. Sem poder conter sua impaciência, voltou-se para Sanzang e disse:

— Mestre, sente-se aqui enquanto faço esse monstro sentir o terror de quem cai nas garras de uma águia — e, dando um salto no ar, lançou-se contra o monstro, que ainda trocava insultos com Bajie.


Ao ouvir uma espécie de brisa se aproximando, o monstro se virou e viu o Peregrino descendo do alto na velocidade de um raio. Então, pegou o seu bastão rapidamente e desapareceu entre as águas. 


Impotente, o Peregrino percorreu a margem várias vezes e finalmente disse a Bajie:

— Esse monstro é mais inteligente do que pensávamos. O que podemos fazer para forçá-lo a sair de seu esconderijo?

— É impossível —  disse Bajie. — Mesmo dando tudo de mim, nossas forças são equivalentes.  Nunca conseguiremos derrotá-lo. 


— O melhor que podemos fazer é falar com nosso mestre — concluiu o Peregrino, e, indo até o terreno elevado onde o monge Tang estava descansando, informaram-no de tudo o que havia ocorrido.

— Como vamos cruzar este rio — perguntou Sanzang, com os olhos cheios de lágrimas — , se é tão difícil capturar esse monstro?


— Não se preocupe, mestre — disse o Peregrino, tentando tranquilizá-lo. — Será difícil para nós atravessar com este monstro se escondendo nas profundezas do rio. Então, não lute mais com ele, Bajie; apenas fique aqui e proteja o Mestre. Pensei em algo mais prático. Irei agora mesmo aos Mares do Sul.

— O que pretende fazer lá? — perguntou Bajie.

— Toda essa história de buscar as escrituras foi ideia da Bodhisattva Guanyin — respondeu o Peregrino. — Estou convencido, portanto, de que ela não nos abandonará. De fato, foi ela quem nos libertou de nossas respectivas condenações e nos converteu à verdadeira fé. Temos diante de nós o obstáculo intransponível deste Rio de Areia. Como vamos superá-lo sem a ajuda dela? Planejo ir solicitar sua ajuda nessa árdua tarefa, o que é muito mais sensato do que lutar incessantemente contra esse monstro.


— Você está totalmente certo — admitiu Bajie. — Quando a encontrar, agradeça em meu nome por tudo o que fez para me colocar no caminho correto.

— Se deseja visitar a Bodhisattva — instou Sanzang — , é melhor não se atrasar e partir imediatamente. Assim, voltará mais cedo.


Com um salto formidável, o Peregrino elevou-se às nuvens e tomou o caminho dos Mares do Sul. Não levou mais de meia hora para avistar a paisagem extraordinária da Montanha Potalaka. Desceu da nuvem e chegou ao Bosque de Bambu Roxo, onde foi recebido pelos Espíritos dos Vinte e Quatro Caminhos, que lhe perguntaram:

— Pode nos dizer o que o traz aqui?


— As dificuldades de meu mestre — respondeu o Peregrino. — São tantas que decidi vir solicitar a ajuda da Bodhisattva.

— Sente-se enquanto anunciamos sua chegada — disseram os espíritos.

Um deles dirigiu-se imediatamente à entrada da Caverna do Som das Marés e informou a Bodhisattva:

— Sun Wukong solicita uma audiência com você.


A Bodhisattva estava naquele momento desfrutando da beleza das flores do Lago do Tesouro de Lótus, na companhia da Princesa Dragão Portadora-da-Pérola. Ao ouvir esse anúncio inesperado, dirigiu-se à caverna, abriu a porta e ordenou que o visitante fosse trazido. O Grande Sábio prostrou-se diante dela com grande solenidade.

— Por que não está com o monge Tang? — perguntou a Bodhisattva. — Pode me dizer o que o trouxe até aqui?


— Bodhisattva — contestou o Peregrino — , como deve se lembrar, no vilarejo dos Gao meu mestre fez um discípulo, a quem você deu o nome religioso de Wuneng. Após deixarmos para trás a Cordilheira do Vento Amarelo, chegamos ao Rio de Areia, uma enorme massa de água com cerca de oitocentas milhas de largura, a qual o monge Tang é incapaz de atravessar. Além disso, há no rio um monstro maligno que é mestre em artes marciais. Wuneng o enfrentou três vezes dentro da água, mas não conseguiu derrotá-lo. Ele parece estar determinado a impedir que meu mestre chegue à outra margem.  Por isso vim vê-la e pedir sua misericórdia para ajudá-lo a atravessar.

— Você ainda está agindo de forma presunçosa e auto-suficiente, Macaco  repreendeu a Bodhisattva. —  Por que você não disse ao monstro que estava protegendo o Monge Tang?

— Tudo o que tentei fazer — defendeu-se o Peregrino — foi capturar esse monstro e obrigá-lo a transportar meu mestre até a margem oposta. Embora não acredite, não me dou muito bem na água. Esse foi o motivo pelo qual Wuneng se encarregou de ir até o covil dele e desafiá-lo com o pouco tato que lhe é habitual. Imagino que tenham trocado insultos, mas suponho que não falaram nada sobre o assunto das escrituras.


— Acontece que o monstro do Rio de Areia — explicou a Bodhisattva — é nada menos que a reencarnação do Marechal Que Levanta a Cortina, um dos meus servos, a quem converti pessoalmente e instruí para que acompanhasse os buscadores das escrituras em sua longa jornada para o Oeste. Se tivesse lhe dito que eram os Peregrinos vindos das Terras do Leste,  ele não teria lutado contra você; ele teria se submetido.

— O problema — explicou o Peregrino — é que esse monstro não se atreve mais a se aproximar da margem, preferindo permanecer escondido no fundo do rio. Como fazemos para que ele se junte a nós? E como nosso mestre irá alcançar a outra margem?


A Bodhisattva imediatamente convocou seu servo Huei-An (Muzha), tirou de dentro das mangas uma pequena cabaça vermelha e entregou-lhe, dizendo:

— Pegue esta cabaça e vá com Sun Wukong até o Rio de Areia. Quando chegar, aproxime-se da margem e grite: "Wuking!". Isso será suficiente para fazê-lo sair do esconderijo. Deve então obrigá-lo a se submeter ao monge Tang. Junte em seguida as nove caveiras que ele carrega no pescoço e arranje-as de acordo com a posição dos Nove Palácios e ponha a cabaça no centro. Dessa forma, obterá um barco dármico capaz de transportar o monge Tang até a outra margem do Rio de Areia.

Obedecendo as instruções da Bodhisattva, Huei-An pegou a cabaça e, acompanhado pelo Grande Sábio, deixou a Caverna do Som das Marés e o Bosque de Bambu Roxo, apressadamente. Sobre o momento da partida, existe um poema que diz:

"Os Cinco Elementos foram combinados com a Verdade Celestial,

Reconhecendo seu mestre dos velhos tempos.

Eles foram suficientemente refinados para realizar grandes coisas;

Quando verdadeiro e falso são distinguíveis, as origens são vistas.

Quando o Metal se une à Natureza, semelhante se une a semelhante;

Quando a Madeira busca as Paixões, ambos são perdidos.

Quando as duas Terras alcançam o nirvana,

Fogo e Água se combinarão, e a poeira mundana não existirá mais."


Os viajantes não demoraram a chegar ao Rio da Corrente de Areia, onde desceram das nuvens. Zhu Bajie reconheceu Muzha de imediato e levou seu mestre até ele para saudá-lo. 



Após se inclinar diante de Sanzang, Muzha cumprimentou Bajie, que respondeu entusiasmado:

— Não sabe o quanto agradeço os seus ensinamentos. Sem eles, jamais teria conhecido a Bodhisattva. Desde então, tenho seguido rigorosamente a lei budista e me sinto verdadeiramente orgulhoso de ter me tornado um monge. Desculpe por não ter agradecido antes. Como tenho viajado desde então, tenho estado ocupado demais para ir agradecer.

— Deixemos essa conversa de lado e vamos atrás desse sujeito o quanto antes — sugeriu o Peregrino.

— De quem está falando? — perguntou Sanzang.

— Ao me encontrar com a Bodhisattva — contestou o Peregrino — , contei a ela tudo o que aconteceu e ela me informou que o monstro do Rio de Areia não é outro senão a reencarnação do Marechal Que Levanta a Cortina. Por causa de sua desobediência, foi expulso dos Céus e veio refugiar-se nestas águas, onde se tornou um monstro. A Bodhisattva conseguiu, no entanto, convertê-lo para a causa budista e ordenou-lhe que acompanhasse você até o Paraíso Ocidental. Segundo ela, ele nos enfrentou porque em nenhum momento mencionamos o assunto das escrituras. Por isso Muzha trouxe essa cabaça, com a qual aquele sujeito fará um barco dármico que irá nos levar até a outra margem do rio.

— Nesse caso — concluiu Sanzang, inclinando-se repetidamente diante de Muzha — , peço que conclua sua missão o quanto antes.

Sem perder tempo, Muzha pegou a cabaça, montou em uma nuvem e deslizou pela superfície do Rio de Areia, gritando em voz alta:

— Wujing! os peregrinos que estão indo buscar as escrituras estão aqui há muito tempo. Por que você ainda não se submeteu a eles?



Com medo do Rei dos Macacos, o monstro havia se refugiado no fundo do rio e não se atrevia a sair de seu esconderijo. Quando ouviu ser chamado pelo seu nome religioso, soube de imediato que se tratava da Bodhisattva Guanyin e seu medo desapareceu. Num salto, saiu das águas e ficou muito feliz de ver Muzha ali. Sorrindo, aproximou-se dele e disse com voz suave:

— Perdoe-me por não ter vindo antes recebê-lo. Onde está a Bodhisattva?


— Ela não veio — respondeu Muzha. — Mas me enviou para dizer que deve aceitar o monge Tang como mestre o quanto antes. Pegue esta cabaça e as caveiras que adornam o seu pescoço, e as amarre seguindo o padrão dos Nove Palácios. Dessa forma, construirá um barco com o qual deverá transportar o monge até a outra margem.

— Onde está o peregrino das escrituras? — perguntou Wujing.

— É aquele que está sentado na margem leste — respondeu Muzha, apontando com o dedo.

— Não me diga que é aquele! — exclamou Wujing, pensando que era Bajie.  Não sei de onde surgiu uma criatura tão repugnante. Só sei que ele lutou comigo por mais de dois dias inteiros e em nenhum momento mencionou o assunto das escrituras. Quanto a esse outro — acrescentou, referindo-se ao Peregrino — , é pior ainda. Eu não quero ir até eles.


— Aquele é Zhu Bajie — explicou Muzha, tentando acalmá-lo — e esse outro é o Peregrino Sun. Ambos são discípulos do monge Tang e, como você, foram convertidos pessoalmente pela Bodhisattva. Vamos, não tenha medo. Vou levá-lo até onde está o monge.

Vencendo toda a relutância, Wujing deixou o bastão de lado e arrumou da melhor forma possível a túnica de seda amarela. Então, aproximou-se da margem e, ajoelhando-se diante de Sanzang, disse:

— Mestre, vosso discípulo tem olhos, mas, ao que parece, faltam-lhe pupilas e foi incapaz de reconhecê-lo. Peço que perdoe minha cegueira e ignore a maneira tão desrespeitosa como o tratei.


— Seu idiota! — bradou Bajie. — Por que não se submeteu desde o início, em vez de insistir em lutar comigo? O que tem a dizer em sua defesa?

— Não seja tão duro com ele, por favor — aconselhou o Peregrino, sorrindo. — Na verdade, a culpa foi nossa por não mencionar o assunto das escrituras nem revelar nossos nomes.


— Está realmente disposto a abraçar nossa fé? — perguntou o monge Tang.

— Já o fiz, mestre — respondeu Wu-jing. — A Bodhisattva me converteu pessoalmente. Dela recebi, além disso, o nome religioso de Sha Wujing. Como vou me opor agora a aceitá-lo como mestre?

— Nesse caso — concluiu Sanzang — , que Wukong traga a lâmina e raspe sua cabeça completamente.


Assim o Grande Sábio fez. Concluída a cerimônia, Wujing se voltou para Sanzang, Bajie e o Peregrino e lhes prestou homenagens, tornando-se, assim, discípulo do monge Tang. Sanzang ficou muito impressionado com sua forma de se comportar e lhe concedeu o sobrenome de Monge Sha.

— Uma vez que você abraçou a fé — concluiu Muzha —, não há necessidade de mais demora. Você deve construir o barco dármico imediatamente e conduzir o monge Tang à outra margem.

Wujing retirou os crânios de seu pescoço sem demora e os amarrou seguindo o padrão dos Nove Palácios, colocando a cabaça da Bodhisattva no centro. 


Depois, pediu para Sanzang subir nela, e o monge descobriu, quando se sentou, que era tão estável quanto um pequeno bote. 


Bajie e Wujing o apoiaram à esquerda e à direita, enquanto o Wukong conduzia o cavalo dragão pelas nuvens atrás dele. Por fim, Muzha tomou posição acima deles, literalmente voando sobre suas cabeças. 


Desta forma, o Mestre da Lei iniciou a travessia do Rio de Areia. O vento estava totalmente calmo e nem uma única onda enrugava a superfície da água. A travessia foi realizada à velocidade de uma flecha e não demoraram a chegar à outra margem. Suas roupas estavam totalmente secas e nem uma única mancha de lama aparecia nelas. Era como se não tivessem feito absolutamente nada.

Quando mestre e discípulos alcançaram terra firme novamente, Muzha desceu de sua nuvem. Nesse mesmo instante, as caveiras se transformaram em nove colunas de vento negro e se desvaneceram no ar. Sanzang então se inclinou diante de Muzha e lhe agradeceu, encarregando-o encarecidamente de fazer chegar sua gratidão à Bodhisattva. O Príncipe prometeu fazê-lo e regressou aos Mares do Sul. 



Sanzang, por sua vez, montou no cavalo e continuou a viagem para o Oeste. Não sabemos quanto tempo levaram para conseguir os frutos de tão louvável e arriscada empreitada. Quem desejar saber, deverá ouvir as explicações oferecidas no próximo capítulo.


CAPITULO XXIII EM BREVE ...

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Notas do Capítulo XXII

      1. Aproximadamente, um ano se passou desde o início da jornada;
      2. Na linguagem alquimista, às vezes, o mercúrio é identificado com o elemento madeira, e o chumbo com o metal, especificamente com o ouro;
      3. O "Salão Luminoso" refere-se a um ponto que a alquimia interna situava entre as sobrancelhas;
      4. A "Torre", por sua vez, faz referência à traqueia. Às vezes, era chamada de "A Torre dos Doze Anéis", pois os antigos alquimistas chineses acreditavam que era composta por esse número exato de cartilagens;
      5. Wu Gang foi um imortal da dinastia Han que se dizia residir na lua. Conta-se que ele tentou cortar a árvore sagrada que dava sombra à deusa Chang'e, mas toda vez que a tocava, ela voltava a crescer.


                                                      • Tradução em pt-br por Rodrigo Viany (Sleipnir). Favor não utilizar sem permissão.
                                                      • Tradução baseada na tradução do chinês para o espanhol feitas por Enrique P. Gatón e Imelda Huang-Wang, e do chinês para o inglês feita por Collinson Fair.
                                                      fontes consultadas para a pesquisa:

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