۞ ADM Sleipnir
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| Rahu |
Rahu (sânscrito: राहु, Rāhu, “o apreensor” ou “aquele que agarra”) e Ketu (sânscrito: केतु, Ketu, “sinal”, “estandarte”, “luz” ou “cometa”) são figuras da tradição hindu ligadas aos eclipses, aos navagrahas e à astrologia indiana. Rahu é identificado em fontes mitológicas como um asura, enquanto Ketu é frequentemente associado à parte complementar desse ser após sua decapitação.
Na astrologia hindu, Rahu e Ketu fazem parte dos navagrahas, os nove poderes celestes. Embora sejam muitas vezes chamados de “planetas” em textos astrológicos, não correspondem a corpos físicos no espaço. Rahu representa o nodo lunar ascendente, ou nodo norte, e Ketu representa o nodo lunar descendente, ou nodo sul. Esses nodos são os pontos em que a órbita da Lua cruza a eclíptica, isto é, o caminho aparente do Sol no céu. Na mitologia, essa relação com os nodos lunares aparece em forma narrativa: Rahu tenta devorar o Sol e a Lua, provocando seu obscurecimento temporário. Por isso, Rahu e Ketu passaram a ser compreendidos como forças celestes ligadas à sombra, aos eclipses e à passagem entre luz e escuridão.
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| Ketu, arte de Andrey Yarashevich |
Svarbhanu e a origem do mito
A origem mais antiga do tema aparece no Rig Veda, em um hino que menciona Svarbhanu, um asura que cobre Surya, o Sol, com escuridão. O texto relata que o Sol é ocultado e depois restaurado por Atri e pelos Atris. Nessa fase antiga, ainda não aparece a narrativa completa de Rahu e Ketu como partes de um ser decapitado, mas já existe a associação entre um asura e o obscurecimento solar.
Em fontes purânicas posteriores, Svarbhanu passa a ser identificado com Rahu. A versão mais conhecida aparece no episódio do Samudra Manthan, a agitação do oceano de leite. Nesse mito, devas e asuras se unem para obter o amrita, o néctar da imortalidade. Quando Vishnu assume a forma de Mohini para distribuir o néctar, Rahu se disfarça como um deva e se senta entre os deuses para beber a substância imortal. O Sol e a Lua percebem o disfarce e revelam a fraude. Vishnu então corta a cabeça de Rahu com seu disco. Como o néctar já havia tocado sua cabeça, essa parte se torna imortal. A partir desse episódio, Rahu passa a perseguir o Sol e a Lua, tentando engoli-los durante os eclipses. Como não possui corpo completo, os astros reaparecem, explicando o caráter temporário do fenômeno na narrativa mítica.

Na tradição mais difundida, Rahu é identificado com a cabeça do ser decapitado, enquanto Ketu é associado à parte inferior, à cauda ou ao corpo restante. Essa interpretação aparece em tradições posteriores e em representações iconográficas, mas nem todas as fontes antigas descrevem o episódio da mesma forma. No Bhagavata Purana, por exemplo, a ênfase recai sobre a cabeça de Rahu, que se torna imortal, enquanto o corpo não sobrevive por não ter sido tocado pelo néctar.
Desse modo, Rahu e Ketu passaram a formar uma dupla complementar. Rahu representa a cabeça, ligada à boca que tenta devorar os luminares; Ketu representa a parte oposta, muitas vezes imaginada como corpo ou cauda de serpente. Essa oposição também foi associada, na astrologia hindu, aos dois pontos em que a órbita da Lua cruza o caminho aparente do Sol.
Os nodos lunares
Na astronomia, os eclipses dependem do alinhamento entre Sol, Terra e Lua. Como a órbita lunar é inclinada em relação à eclíptica, nem toda lua nova produz um eclipse solar e nem toda lua cheia produz um eclipse lunar. Para que o eclipse ocorra, a Lua precisa estar próxima de um dos pontos em que sua órbita cruza a eclíptica.
Esses dois pontos são chamados de nodos lunares. O nodo ascendente, associado a Rahu na astrologia hindu, é o ponto em que a Lua cruza a eclíptica em direção ao norte. O nodo descendente, associado a Ketu, é o ponto em que a Lua cruza a eclíptica em direção ao sul. Por essa razão, Rahu e Ketu também são chamados de “planetas sombrios” ou chaya grahas, expressão usada na tradição astrológica para indicar sua ligação com a sombra e os eclipses.
Representações e tradição astrológica
Na arte indiana e na iconografia devocional, Rahu e Ketu aparecem com frequência entre os navagrahas, os nove poderes celestes da astrologia hindu. Nesse conjunto, eles podem ser representados ao lado de Surya, Chandra, Mangala, Budha, Brihaspati, Shukra e Shani. Rahu costuma ser retratado com uma cabeça grande ou apenas com a parte superior do corpo, em referência ao mito em que tenta engolir o Sol e a Lua. Em algumas imagens, aparece segurando ou envolvendo o disco solar durante um eclipse. Ketu, por sua vez, possui representações variadas, geralmente com aparência serpentiforme ou com corpo sem cabeça. Em certos relevos, surge como a parte inferior do ser dividido, associada a uma cauda de serpente.
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| Representações de Rahu e Ketu associadas ao conjunto dos navagrahas no Templo do Sol de Konark, em Odisha, na Índia. |
Na astrologia hindu, Rahu e Ketu ocupam lugar importante como forças ligadas à sombra, aos eclipses e aos pontos de transformação no céu. Em leituras astrológicas posteriores, Rahu costuma ser associado a desejo, ambição, ilusão, obsessão e experiências intensas. Ketu, por outro lado, é frequentemente relacionado a desapego, ruptura, espiritualidade e libertação. Essas interpretações variam conforme a escola astrológica e pertencem mais ao campo da astrologia tradicional do que ao núcleo narrativo mais antigo do mito.
No budismo
Rahu também aparece em textos budistas antigos. No Candima Sutta e no Suriya Sutta, ele agarra respectivamente a Lua e o Sol, mas é levado a soltá-los após a intervenção do Buda. Nessas narrativas, Rahu continua ligado ao eclipse e ao obscurecimento dos astros, mas o episódio passa a ter também uma função protetiva, pois os versos associados a esses textos foram usados como fórmulas de proteção na tradição budista.
No Japão
Rahu foi incorporado à cultura religiosa japonesa sobretudo por meio do budismo esotérico e da astrologia budista. No Japão, seu nome aparece como Ragō (羅睺), forma sino-japonesa derivada do sânscrito Rāhu, enquanto Ketu aparece como Keito (計都). Essas formas chegaram ao arquipélago por meio de tradições budistas transmitidas pela China, dentro de um ambiente em que elementos da astrologia indiana foram combinados com sistemas astronômico-astrológicos chineses e com influências recebidas da Ásia Central e do mundo iraniano.
No budismo esotérico japonês, especialmente nas tradições Shingon e Tendai, Rahu e Ketu passaram a integrar o conjunto dos nove luminares, chamado kuyō ou kyūyō (九曜). Esse sistema reunia o Sol, a Lua, os cinco planetas visíveis e os dois astros sombrios associados aos eclipses. No contexto religioso, esses saberes astrais eram usados na escolha de datas auspiciosas, em rituais e em práticas de proteção contra influências desfavoráveis.
A iconografia japonesa também preservou representações astrais desses dois astros. Em certos diagramas ligados ao culto dos luminares, Rahu pode aparecer como figura demoníaca sobre um dragão, enquanto Ketu pode surgir sobre um animal bovino. Essas imagens mostram que, no Japão, Rahu foi reinterpretado em um ambiente religioso próprio, no qual mitologia, astrologia, budismo esotérico e símbolos de origem estrangeira se entrelaçaram.
Cultura popular
Rahu e Ketu aparecem ocasionalmente na cultura pop, sobretudo em jogos, mangás e produções indianas que retomam seus nomes ou seus símbolos astrais. Em Final Fantasy VI, Rahu e Ketu aparecem como partes do chefe Inferno. Na franquia Megami Tensei, Rahu aparece como demônio, especialmente em Digital Devil Saga: Avatar Tuner, onde surge como uma forma associada a cabeça e corpo que agem de maneira independente.
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| Inferno, Rahu e Ketu (FFVI) |
Em Giga Wrecker, jogo da Game Freak, surgem os chefes Astra Rāhu e Astra Ketu, apresentados como um par de robôs da classe Astra. A referência, nesse caso, usa os nomes das duas figuras dentro de uma estética de ficção científica.
No manhwa Journey to the West, há um personagem chamado Rahu, e reputado como o Rei dos Asuras.
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| Rahu (Journey to the West) |
No mangá/anime Black Torch, de Tsuyoshi Takaki, o personagem Rago é fortemente inspirado em Rahu, a começar pelo seu nome (羅睺) que, como já foi dito, é a forma sino-japonesa do sânscrito राहु, Rāhu. O epíteto de Rago, “Estrela Negra da Desgraça”, também reforça essa inspiração. Rahu é tradicionalmente ligado à sombra, ao obscurecimento do Sol e da Lua e aos presságios desfavoráveis. Em Black Torch, essa ideia é reinterpretada na forma de um poderoso mononoke de aparência felina, antigo, temido e ligado a uma força sobrenatural de caráter sombrio. O visual do personagem também dialoga com esse campo simbólico. Rago aparece como um gato preto e possui uma marca em forma de estrela, o que aproxima sua imagem da ideia de uma entidade celeste escura.
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| Rago (Black Torch) |
- Rig-Veda, Book 5, Hymn 40. Disponível em: <https://sacred-texts.com/hin/rigveda/rv05040.htm>;
- Rig Veda 5.40.5 — Wisdom Library. Disponível em: <https://www.wisdomlib.org/hinduism/book/rig-veda-english-translation/d/doc833209.html>;
- Śrīmad-Bhāgavatam 8.9.24 — Bhaktivedanta VedaBase. Disponível em: <https://vedabase.io/en/library/sb/8/9/24/>;
- Śrīmad-Bhāgavatam, Canto 8, Chapter 9. Disponível em: <https://vedabase.net/sb/8/9/index.htm>;
- The Viṣṇu Purāṇa — ANU Press. Disponível em: <https://press.anu.edu.au/publications/textbooks/visnu-purana>;
- The Viṣṇu Purāṇa, Book Two: The World. Disponível em: <https://press-files.anu.edu.au/downloads/press/n8264/html/book02.xhtml>;
- Moon Essentials: Orbit — NASA Scientific Visualization Studio. Disponível em: <https://svs.gsfc.nasa.gov/5326/>;
- Navagraha figure — British Museum. Disponível em: <https://www.britishmuseum.org/collection/object/A_1958-1018-1>;
- Planetary Deities Shani, Rahu, and Ketu — The Walters Art Museum. Disponível em: <https://art.thewalters.org/object/25.39/>.
Rahu e Ketu






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