Os Vanaras (sânscrito: वानर, vānara, “macaco” ou “símio”) são seres míticos de aparência símia da mitologia hindu, conhecidos principalmente por sua presença no Ramayana, um dos grandes épicos da Índia antiga, tradicionalmente atribuído ao sábio Valmiki. Sua origem mítica é apresentada no Bala Kanda (Bālakāṇḍa), o primeiro livro do épico, dedicado ao nascimento e à juventude de Rama e aos acontecimentos que antecedem sua vida adulta. Sua participação direta na narrativa ganha destaque no Kishkindha Kanda (Kiṣkindhākāṇḍa), o quarto livro, no qual Rama e Lakshmana chegam ao reino de Kishkindha e estabelecem uma aliança com Sugriva e os vanaras. A partir desse ponto, eles passam a desempenhar papel central na busca por Sita e na guerra contra Ravana.
Embora sejam frequentemente chamados de “macacos”, os vanaras do épico não são animais comuns. Possuem fala e inteligência, organizam-se sob reis e comandantes, realizam missões diplomáticas e militares e, em muitos casos, demonstram força e capacidades sobrenaturais.
Sugriva
Origem mítica
Segundo o Bala Kanda, quando Vishnu nasce como Rama para enfrentar Ravana, Brahma determina que deuses e outros seres celestes gerem auxiliares capazes de ajudá-lo. Surgem assim numerosos vanaras dotados de grande força, velocidade, inteligência e capacidade de assumir diferentes formas.
Vários dos personagens de maior destaque possuem ascendência divina. Vali é apresentado como filho de Indra, enquanto Sugriva é filho de Surya, o deus Sol. Nala é filho de Vishvakarma, o arquiteto divino, e Nila de Agni, o deus do fogo. Hanuman é filho de Vayu, o deus do vento.
O relato também descreve o surgimento de numerosos outros guerreiros semelhantes, destinados a formar as forças que mais tarde auxiliariam Rama. Apesar dessa origem sobrenatural, os vanaras aparecem no restante da narrativa como habitantes de florestas e montanhas, reunidos em diferentes grupos sob chefes e reis.
Kishkindha e a aliança com Rama
Vali e Sugriva
Kishkindha é o principal centro político dos vanaras no episódio que marca sua entrada na narrativa de Rama. O reino é governado por Vali, mas uma disputa entre ele e seu irmão Sugriva leva este último ao exílio. Durante a busca por Sita, Rama e Lakshmana encontram Hanuman, que os conduz até Sugriva. Os dois lados estabelecem uma aliança: Rama ajudaria Sugriva a recuperar o trono, enquanto Sugriva colocaria seus seguidores a serviço da procura por Sita.
Rama posteriormente mata Vali durante o confronto entre os irmãos. Antes de morrer, Vali questiona as circunstâncias e a justificativa da ação de Rama, dando origem a um diálogo moral importante dentro do próprio épico. Sugriva então assume o governo de Kishkindha e mobiliza os vanaras para cumprir sua parte do acordo.
A organização política e militar dos vanaras torna-se especialmente visível nesse momento. Sugriva exerce a realeza, enquanto Hanuman atua como ministro e emissário. Angada, filho de Vali, ocupa uma das principais posições de liderança entre os guerreiros: comanda a expedição enviada ao sul em busca de Sita e, durante a guerra, participa de conselhos militares, atua como emissário de Rama diante de Ravana e se destaca em combate contra importantes guerreiros rakshasas. Nila também figura entre os principais comandantes das forças vanaras e assume funções de liderança durante a campanha contra Lanka.
Sugriva envia grupos de vanaras em diferentes direções para procurar Sita. A expedição que segue para o sul é liderada por Angada e inclui Hanuman e Jambavan, um antigo líder dos ursos que, embora não seja vanara, atua como um dos principais aliados do grupo. Durante a busca, eles encontram Sampati, irmão de Jatayu, que revela que Sita havia sido levada por Ravana para Lanka. Diante da necessidade de atravessar o oceano, Jambavan recorda Hanuman de suas próprias capacidades, levando-o a assumir a missão.
Hanuman atravessa o oceano sozinho e entra em Lanka, onde encontra Sita mantida prisioneira. Apresenta-se como mensageiro de Rama e lhe entrega o anel de Rama como prova de sua identidade e de sua missão.
Poderes e habilidades
Os vanaras são descritos como guerreiros de força e mobilidade excepcionais. Algumas passagens lhes atribuem a capacidade de mudar de forma, realizar enormes saltos e deslocar-se rapidamente por grandes distâncias. Em combate, utilizam principalmente árvores, pedras e rochas, além das próprias garras e dentes. Essas capacidades não aparecem de maneira idêntica em todos os personagens. Hanuman é o exemplo mais desenvolvido: durante sua viagem a Lanka, altera o tamanho do próprio corpo conforme as circunstâncias e realiza feitos que ultrapassam aqueles atribuídos à maioria dos demais vanaras.
Depois de ser capturado em Lanka, sua cauda é envolvida em tecido e incendiada por ordem de Ravana. Hanuman consegue escapar e utiliza as próprias chamas para atear fogo a diversas partes da cidade antes de retornar aos seus companheiros. Durante a guerra, ele também é enviado em busca de ervas medicinais necessárias para tratar guerreiros gravemente feridos. Incapaz de identificar as plantas procuradas, transporta a elevação onde elas crescem para que possam ser utilizadas.
A ponte para Lanka
Depois que a localização de Sita é confirmada, as forças de Rama chegam à costa diante de Lanka. Para atravessar o oceano, os vanaras constroem uma grande ponte sob a direção de Nala, cuja habilidade é relacionada à sua ascendência de Vishvakarma. Numerosos vanaras transportam árvores, troncos e grandes rochas e trabalham coletivamente na construção. O Yuddha Kanda (Yuddhakāṇḍa) atribui a obra especialmente a Nala e também se refere a ela como Nala Setu, a “ponte de Nala”.
Concluída a passagem, Rama, Lakshmana, Sugriva e o exército aliado atravessam para Lanka, onde os vanaras constituem a maior parte das forças de Rama na guerra contra Ravana, com diferentes chefes liderando contingentes e enfrentando os guerreiros rakshasas.
Vanaras e rakshasas
A guerra de Lanka coloca as forças vanaras principalmente contra os rakshasas que permanecem sob o comando de Ravana. Essa divisão, porém, não representa uma oposição moral absoluta entre as duas categorias de seres. Vibhishana, irmão de Ravana e também um rakshasa, condena as decisões do rei de Lanka e procura a proteção de Rama. Após ser aceito entre seus aliados, fornece informações importantes sobre Ravana e suas forças e participa da campanha contra o próprio irmão.
Influência cultural
A difusão do Ramayana levou os vanaras a numerosas tradições literárias e artísticas do sul e do sudeste da Ásia. Personagens como Hanuman, Sugriva, Vali e Angada aparecem em pinturas, esculturas, danças, espetáculos teatrais, teatro de marionetes e adaptações regionais do épico.
Suas representações variam consideravelmente. Em muitas tradições artísticas, aparecem como guerreiros que combinam corpo ou vestimentas humanas com rosto, cabeça, cauda ou outros atributos de macaco. Essas convenções não são uniformes e assumiram formas próprias em tradições indianas, tailandesas, cambojanas, indonésias e de outras regiões.
Hanuman alcançou uma importância particularmente ampla. Além de permanecer como um dos personagens centrais do Ramayana, tornou-se objeto de uma extensa tradição devocional no hinduísmo, na qual é especialmente associado à força, à lealdade e à devoção a Rama.
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