6 de junho de 2026

Konaki-jijii

۞ ADM Sleipnir

Konaki-jijii (japonês 子泣き爺 ou こなきじじい, literalmente “velho que chora como um bebê”) é um yokai do folclore japonês, especialmente associado às regiões montanhosas da atual prefeitura de Tokushima. Ele foi registrado pelo folclorista japonês Kunio Yanagita em sua obra Yōkai Dangi ("Discussões sobre Yōkai"), na qual é descrito como um ser capaz de reproduzir o choro de um bebê durante a noite para atrair a atenção de viajantes.

Descrição e comportamento 

Segundo as lendas, o Konaki-jijii possui a aparência de um homem idoso, mas geralmente é descrito usando roupas de bebê exageradamente grandes, cobertas por uma capa de palha usada para proteção contra a chuva, além de carregar um cajado de caminhada. Ele habita áreas montanhosas, onde costuma se esconder próximo a estradas e trilhas pouco movimentadas.

A principal característica do Konaki-jijii é sua capacidade de reproduzir com perfeição o choro de um bebê humano. Ao ouvir os lamentos vindos da mata, muitos viajantes acreditam que uma criança foi abandonada ou está em perigo. Movidos pela compaixão, aproximam-se para prestar ajuda. No entanto, ao pegarem a criatura nos braços, descobrem tratar-se de uma armadilha sobrenatural.


As histórias afirmam que o Konaki-jijii se torna progressivamente mais pesado após ser carregado. Enquanto seu peso aumenta de forma contínua, ele se agarra à vítima, impedindo qualquer tentativa de soltá-lo. Em algumas versões da lenda, o peso cresce até se tornar insuportável, esmagando e matando a pessoa que tentou ajudá-lo.

Possíveis origens

Pesquisadores do folclore japonês acreditam que o Konaki-jijii surgiu da combinação de duas tradições populares distintas. A primeira descreve uma criatura das montanhas que assume a forma ou imita o choro de um bebê para atrair viajantes, esmagando aqueles que tentam carregá-la. Esse padrão aparece em diversas narrativas folclóricas do Japão e também pode ser encontrado em yokais como o Obariyon, a Ubume e a Nure-onna.

A segunda tradição fala de um homem idoso que teria vivido na região e era conhecido por imitar o choro de bebês enquanto caminhava pelas redondezas. Segundo relatos populares, ele era malvisto pelos moradores locais, que frequentemente o utilizavam como figura de advertência para assustar crianças desobedientes. Alguns folcloristas sugerem que a fusão dessas duas histórias ao longo do tempo deu origem à figura sobrenatural conhecida atualmente como Konaki-jijii.

Na cultura popular

Embora suas origens sejam objeto de debate entre os pesquisadores, o Konaki-jijii tornou-se amplamente reconhecido como um dos yōkai mais conhecidos do Japão. Sua popularidade aumentou significativamente durante o século XX após sua aparição na série GeGeGe no Kitarō, criada por Shigeru Mizuki.

Na obra de Mizuki, o Konaki-jijii é retratado como um aliado do protagonista Kitarō. Diferentemente das versões mais antigas da lenda, nas quais representa uma ameaça aos viajantes, ele atua como um personagem benevolente e utiliza sua capacidade de aumentar o próprio peso como arma contra inimigos.

fontes:


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4 de junho de 2026

Begtse

۞ ADM Sleipnir

Begtse (tibetano: བེག་ཚེ་, Wylie: beg tse; chinês: 贝泽), também conhecido como Begtse Chen (“Grande Begtse”), Jamsaran (mongol: Жамсран) ou Sogdag Yamshi Marpo, é uma importante divindade protetora do budismo tibetano. Classificado como um dharmapala — termo usado para designar os guardiões dos ensinamentos budistas —, ele é especialmente venerado na Mongólia e na tradição Gelug do budismo tibetano. Antes de sua incorporação ao universo budista, era cultuado como uma divindade guerreira dos povos mongóis.

Begtse é considerado o principal protetor do ciclo tântrico de Hayagriva, uma das práticas meditativas mais importantes do budismo vajrayana. Em razão de sua aparência avermelhada e de suas funções protetoras, também é frequentemente chamado de “Mahakala Vermelho”, embora possua características próprias que o distinguem das demais manifestações de Mahakala.

Nomes e etimologia

O nome Begtse deriva de uma palavra mongol relacionada à cota de malha, uma armadura formada por anéis metálicos entrelaçados. Essa associação está diretamente ligada à sua iconografia, que o representa como um guerreiro protegido por armadura.

Na Mongólia, a divindade é mais conhecida pelo nome Jamsaran, enquanto fontes tibetanas também o identificam como Sogdag Yamshi Marpo. Em algumas tradições, recebe ainda os nomes Trichapa Chamsing (tibetano) e Prana Atma.

Origens mitológicas

I) Origem pré-budista

Segundo a tradição mongol, Begtse era originalmente um deus da guerra venerado antes da introdução do budismo na região. Com a expansão do budismo tibetano entre os povos mongóis, a divindade foi incorporada ao panteão budista e reinterpretada como protetora do Dharma.

II) Narrativa da tradição Sakya

Uma tradição preservada pela escola Sakya relata que Begtse teria sido, em uma vida anterior, o irmão mais novo daquele que se tornaria o Buda Shakyamuni. Após um conflito religioso entre ambos, prometeu proteger os ensinamentos budistas quando seu irmão alcançasse a iluminação. Como símbolo desse compromisso, recebeu uma armadura de cobre, armas de guerra e o nome Sogdag Yamshi Marpo.

Outra narrativa descreve seu nascimento sobrenatural a partir de um ovo de coral surgido em um cemitério. Segundo essa versão, Begtse nasceu armado e revestido de armadura, enquanto de um segundo ovo surgiu Rigpay Lhamo, sua futura consorte. Ambos teriam sido posteriormente convertidos em protetores do Dharma pela deusa Ekajati.

III) Narrativa mongol

Uma tradição posterior associa sua conversão ao budismo ao encontro com o terceiro Dalai Lama, Sonam Gyatso. Nessa história, Begtse tentou impedir a propagação do budismo utilizando espíritos e criaturas sobrenaturais, mas acabou sendo vencido pelos poderes espirituais do mestre tibetano e jurou proteger os ensinamentos budistas.

Iconografia

Na arte budista, Begtse é representado como uma divindade de aparência feroz. Seu corpo é vermelho, os cabelos são alaranjados e erguidos em chamas, e seu rosto exibe três olhos arregalados e quatro presas. Diferentemente de muitos outros protetores irados do budismo tibetano, costuma ser retratado com apenas dois braços. Sua característica mais marcante é a armadura de cota de malha, que remete diretamente à sua origem como divindade guerreira. Ele veste roupas vermelhas de seda, usa uma coroa adornada com cinco crânios e quatro estandartes, e traz ao pescoço uma guirlanda composta por cinquenta cabeças humanas recém-cortadas. Sobre o peito aparece um espelho ritual com a sílaba sagrada BRAM inscrita em seu centro.

Normalmente, Begtse segura uma espada com cabo em forma de escorpião na mão direita e um coração humano na mão esquerda. Também pode portar arco, flechas e uma longa lança decorada com bandeiras. Sua postura ritual o mostra de pé sobre um disco solar, pisando com o pé direito sobre um cadáver de cavalo e o pé esquerdo sobre um cadáver humano, enquanto é envolvido por chamas que representam a sabedoria purificadora.

A principal consorte de Begtse é Rigpay Lhamo, conhecida como a Deusa da Vida. Ela é descrita como uma divindade de corpo azul-escuro, expressão feroz e adornos feitos de ossos humanos. Costuma ser representada montada sobre um urso devorador de homens, e que atravessa um mar de sangue. O casal possui ainda um filho conhecido como Senhor da Vida, frequentemente retratado empunhando uma lança e montando um lobo azul. Ao redor dessas divindades encontra-se um séquito de vinte e nove auxiliares guerreiros e carniceiros. Juntos, eles formam uma mandala composta por trinta e duas divindades.

Papel religioso

I) Como dharmapala

No budismo tibetano, Begtse é visto principalmente como um protetor dos praticantes sinceros. Sua função é remover obstáculos espirituais, afastar influências negativas e auxiliar na purificação do carma. Em muitas tradições, ele também é invocado para proteger territórios, mosteiros e comunidades budistas.

II) Nas escolas budistas

A escola Gelug o considera uma manifestação iluminada de Hayagriva, enquanto a tradição Sakya o inclui entre os chamados Oito Furiosos, um grupo de importantes divindades protetoras. Embora sua veneração tenha existido em diversas escolas do budismo tibetano, sua devoção alcançou especial destaque entre os mongóis a partir do século XVII.

III) Relação com Hayagriva

Begtse é considerado o principal protetor do ciclo tântrico de Hayagriva, ocupando papel central em diversas práticas meditativas do budismo vajrayana.

História e tradição

A devoção a Begtse desempenhou um papel importante na cultura religiosa da Mongólia e do Tibete ao longo dos séculos. Sua prática foi transmitida por diversas linhagens do budismo tibetano. Segundo as tradições Sakya e Gelug, a linhagem dos ensinamentos relacionados à divindade remonta a Vajradhara, o Buda primordial. Esses ensinamentos chegaram ao Tibete no século XI por intermédio de Nyen Lotsawa Dharma Drag e posteriormente se difundiram por diferentes escolas budistas, especialmente as tradições Sakya, Kagyu e Gelug.

Além de sua importância religiosa, Begtse ocupa lugar de destaque nas danças rituais Cham, no Tibete, e Tsam, na Mongólia. Essas cerimônias combinam elementos de teatro, música, dança e simbolismo espiritual, representando divindades protetoras e episódios da tradição budista. Nas apresentações, Begtse costuma aparecer acompanhado por integrantes de seu séquito, reforçando sua função como guardião do Dharma.

Na cultura mongol, a divindade também foi associada a figuras históricas e lendárias. Algumas tradições identificam o herói épico Gesar como uma manifestação de Jamsaran. No início do século XX, o general mongol Sandagdorjiin Magsarjav, destacado líder militar durante a luta pela independência da Mongólia, foi igualmente considerado por seus seguidores uma emanação de Begtse.

A popularidade do culto a Begtse atingiu seu auge entre o final do século XIX e o início do século XX, período marcado por conflitos políticos e pelo fortalecimento do nacionalismo mongol. Durante a era socialista, muitos mosteiros foram fechados e as práticas religiosas sofreram severas restrições. Com a democratização da Mongólia, na década de 1990, a veneração à divindade passou por um processo de revitalização. Atualmente, cerimônias e serviços religiosos dedicados a Jamsaran continuam sendo realizados em importantes mosteiros do país.

Cultura contemporânea

O nome Begtse foi utilizado para batizar um gênero de dinossauro ceratopsiano descoberto na Ásia, em homenagem à divindade guerreira.

Recentemente, Begtse foi revelado como um dos deuses da guerra no jogo God of War: Laufey (ainda sem data de lançamento).

Begtse (God of War: Laufey)

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3 de junho de 2026

Nossa Senhora da Rapadura

۞ ADM Sleipnir

Nossa Senhora da Rapadura é uma figura folclórica associada à região da  Ilha do Fogo, uma ilha fluvial situada entre as cidades de Juazeiro, na Bahia, e Petrolina, em Pernambuco. Segundo a tradição popular, trata-se de uma entidade protetora das águas do rio e das cidades ribeirinhas.

De acordo com a lenda, Nossa Senhora da Rapadura vive no alto do morro da Ilha do Fogo carregando uma rapadura sobre a cabeça. Ela teria sido condenada a permanecer sobre as rochas da ilha para proteger a região, evitando entrar nas águas do rio por medo de que a rapadura se dissolvesse. A crença afirma que, caso isso acontecesse, as águas do São Francisco se tornariam doces por um breve período.

Os relatos populares também descrevem que, em noites muito escuras, uma intensa luz podia ser vista iluminando o topo da ilha, formada por grandes afloramentos de granito. Moradores da região acreditam que existe, sob a ilha, uma imagem de Nossa Senhora com uma rapadura sobre a cabeça.

Na tradição ribeirinha, Nossa Senhora da Rapadura é considerada uma guardiã do rio São Francisco. Algumas versões da lenda afirmam que, se a rapadura algum dia derreter completamente, uma grande inundação atingirá a cidade de Juazeiro.

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2 de junho de 2026

Rugiaevit

۞ ADM Sleipnir

Arte de Miroslav Zapletal

Rugiaevit (também chamado Rugievit ou Ruyevit), era uma divindade cultuada pelos rani, um povo eslavo que habitava a ilha de Rügen, no mar Báltico. Seu nome aparece em apenas duas fontes medievais: a Gesta Danorum, do historiador dinamarquês Saxo Grammaticus (1150-1220), e a Knýtlinga saga ("Saga dos Descendentes de Canuto"), de autor desconhecido. Seu principal centro de culto localizava-se em Charenza, provavelmente a atual cidade de Garz, onde existiam templos dedicados a ele, a Porevit e a Porenut.

Segundo as descrições medievais, a estátua de Rugiaevit era feita de madeira de carvalho e possuía sete rostos humanos. O deus carregava sete espadas presas ao cinturão e uma oitava espada na mão direita. Sob sua boca havia ninhos de andorinhas, detalhe que chamou a atenção dos cronistas cristãos da época. Rugiaevit era associado principalmente à guerra, embora alguns estudiosos também relacionem seu culto à fertilidade e à sexualidade.

Fontes históricas

A principal descrição do deus foi registrada por Saxo Grammaticus ao narrar a conquista dinamarquesa de Rügen em 1168, liderada pelo rei Valdemar I e pelo bispo Absalon. Após a queda do grande templo de Svetovid em Arkona, os habitantes de Charenza decidiram se render sem resistência. Saxo descreve então a entrada dos dinamarqueses nos templos locais e a destruição das imagens sagradas.

O cronista relata que o templo de Rugiaevit era decorado com tecidos púrpura e sustentado por colunas de madeira. No interior encontrava-se o grande ídolo do deus, cuja aparência foi retratada de forma depreciativa pelos autores cristãos. As andorinhas haviam construído ninhos sob a boca da estátua, acumulando sujeira sobre seu peito, algo que Saxo utiliza para ridicularizar a divindade pagã. Apesar disso, a descrição revela que Rugiaevit era considerado um deus poderoso e ligado à guerra, comparado pelo autor ao deus romano Marte.

Após a destruição das estátuas, Saxo menciona uma crença popular segundo a qual os deuses de Charenza puniam transgressões sexuais. O relato descreve pessoas incapazes de se separar durante o ato sexual, o que teria sido interpretado como castigo divino. O texto, porém, não deixa claro se essa associação dizia respeito especificamente a Rugiaevit ou a outro deus local.

A Knýtlinga saga também menciona a divindade, embora utilize a forma distorcida “Rinvit”.

Etimologia

O significado do nome Rugiaevit ainda é debatido pelos estudiosos. A interpretação mais comum traduz o nome como “senhor” ou “governante de Rügen”. Alguns pesquisadores preferem a forma Ruyevit e relacionam a raiz do nome a antigas palavras eslavas ligadas ao cio animal, ao calor e à fertilidade. Essa interpretação aproximou o deus de outras divindades eslavas associadas à primavera e à fertilidade, como Yarovit.

O elemento “-vit” é frequentemente interpretado como “senhor” ou “governante”, aparecendo também em nomes de outras divindades eslavas.

Arte de CommanderNothing

Interpretações

As sete faces de Rugiaevit despertaram diversas interpretações. Em estudos comparativos sobre religiões antigas, figuras policéfalas costumam ser associadas a ideias cosmológicas e ao domínio sobre diferentes aspectos do mundo. As andorinhas presentes na estátua também possuem significado simbólico. Entre diversos povos eslavos, essas aves eram vistas como mensageiras da primavera e ligadas ao mundo espiritual, o que levou alguns estudiosos a associar Rugiaevit aos ciclos da natureza e da fertilidade.

Alguns historiadores consideram que Rugiaevit fazia parte de uma tríade divina cultuada em Charenza ao lado de Porevit e Porenut. Segundo essa interpretação, Rugiaevit ocuparia a posição principal, sendo o deus guerreiro e soberano dos rani, enquanto as outras duas divindades exerceriam funções complementares. Outros pesquisadores identificam Rugiaevit como uma manifestação regional de Perun, o deus eslavo do trovão e da guerra. Essa interpretação aproxima Rugiaevit de outras divindades indo-europeias associadas tanto ao combate quanto à fertilidade.


fontes:
  • DIXON-KENNEDY, M. Encyclopedia of Russian and Slavic Myth and Legend. [s.l.] ABC-CLIO, 1998;
  • BESTMIF.RU. Ругевит, Rugiaevit - Славянская мифология | Бестиарий, существа, мифология, мифы и легенды, арты. Disponível em: <https://bestmif.ru/bestiary/rugevit>;
  • WIKIPEDIA CONTRIBUTORS. Rugiaevit. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Rugiaevit>.

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1 de junho de 2026

Terminus

۞ ADM Sleipnir

"Terminus, the Device of Erasmus" (c. 1532), arte de Hans Holbein the Younger

Terminus era o deus romano das fronteiras, dos limites territoriais e dos marcos que separavam propriedades. Seu nome deriva diretamente da palavra latina terminus, usada para designar pedras de demarcação. Mais do que simples marcos físicos, essas pedras eram consideradas sagradas e protegidas pela própria divindade, refletindo a enorme importância que os romanos davam à estabilidade das fronteiras e ao respeito pela propriedade.

O culto de Terminus estava intimamente ligado à preservação da ordem social. Remover ou deslocar uma pedra de limite era visto não apenas como um crime, mas também como um sacrilégio. Nas tradições mais antigas, acreditava-se que quem cometesse esse ato seria amaldiçoado e poderia até ser morto. Com o passar do tempo, a punição foi substituída por multas e sanções legais, mas o caráter sagrado dos marcos permaneceu.

Origem e culto

Autores antigos afirmavam que o culto de Terminus teria sido introduzido em Roma durante o período monárquico, possivelmente sob o reinado de Rômulo ou de Numa Pompílio. A tradição atribuía a Numa a intenção de evitar conflitos violentos entre proprietários de terra, estabelecendo limites sagrados protegidos por uma divindade.

As pedras de fronteira eram consagradas em rituais específicos. Durante a cerimônia, colocavam-se no solo oferendas como vinho, grãos, mel e o sangue de animais sacrificados. Depois, o marco era fixado sobre esse depósito ritual. A pedra passava então a representar a presença do próprio Terminus.

Diferentemente de muitos deuses romanos, Terminus não possuía uma mitologia extensa nem grandes narrativas heroicas. Seu culto estava ligado principalmente ao ritual e à função prática de garantir a estabilidade das divisões territoriais. Por isso, muitos estudiosos consideram Terminus um exemplo de antigas crenças romanas associadas diretamente a objetos sagrados e forças protetoras da natureza e da sociedade.

Representação do deus Terminus como um marco de pedra que delimita terras e propriedades. Da obra Mitologia da Juventude, de Pierre Blanchard, 1803.

Terminalia

A principal celebração dedicada a Terminus era a Terminalia, realizada todos os anos em 23 de fevereiro, data que em antigos calendários romanos também marcava o fim do ano.

Durante o festival, famílias vizinhas reuniam-se junto às pedras que delimitavam suas propriedades. Cada grupo decorava seu lado do marco com guirlandas e fazia oferendas de bolos, grãos, favos de mel e vinho. Em seguida, sacrificava-se um cordeiro ou um porco, e o sangue era derramado sobre a pedra sagrada. Após os rituais, aconteciam banquetes comunitários e cantos em honra ao deus.

Terminus e Júpiter

O deus também possuía uma ligação importante com Júpiter, a principal divindade romana. Segundo a tradição, quando o grande Templo de Júpiter Optimus Maximus foi construído no Monte Capitolino, todos os antigos santuários presentes no local aceitaram ser removidos, exceto o de Terminus. Isso foi interpretado como um sinal de que as fronteiras e o poder de Roma seriam permanentes.

Por causa dessa associação, Terminus às vezes era identificado como um aspecto de Júpiter sob o nome de Jupiter Terminalis. Dentro do templo havia uma pedra sagrada ligada ao deus, e um pequeno espaço aberto no teto permitia que ela permanecesse exposta ao céu, conforme exigia a tradição religiosa.

Interpretações modernas

Estudiosos modernos frequentemente interpretam Terminus como uma sobrevivência de antigas formas de religiosidade animista, nas quais objetos naturais ou elementos da paisagem possuíam poder sagrado próprio. Outros pesquisadores relacionam o deus a tradições indo-europeias mais antigas ligadas à divisão justa de terras e propriedades.

Mesmo sem possuir grandes mitos ou aventuras épicas, Terminus ocupava um papel importante na mentalidade romana. Ele representava a estabilidade, a ordem legal e o respeito pelos limites estabelecidos — valores fundamentais para a organização da sociedade romana.

Na arte europeia

O nome “Terminus” também passou a ser usado na arte e arquitetura europeias para designar um tipo de suporte decorativo semelhante a uma pilastra, geralmente afunilado e terminado em bustos ou figuras humanas. Inspiradas nos antigos marcos romanos e frequentemente associadas ao deus Hermes, essas estruturas tornaram-se populares em jardins, móveis e construções renascentistas e rococós.

Escultura em terracota representando o deus romano Terminus, protetor dos marcos que delimitavam terras e propriedades. A obra, criada por um artista desconhecido entre 1548 e 1550 para o Château d’Oiron, na França, integra atualmente o acervo do Museu do Louvre.



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31 de maio de 2026

Xolás

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Xolás é a divindade suprema do povo indígena Kawésqar (também conhecido como Alacalufe, Kaweskar, Alacaluf ou Halakwulu), habitantes da região da Patagônia chilena. Seu nome foi associado à palavra “estrela”, e ele era visto como um ser supremo, solitário e independente, responsável pela criação do mundo, das tradições e das regras morais que orientavam a vida humana. Mesmo sendo considerado distante da Terra, Xolás continuava ligado à vida das pessoas. Segundo a crença Kawésqar, era ele quem permitia que uma alma entrasse no corpo de um recém-nascido. Essa alma acompanhava a pessoa durante toda a vida e, após a morte, retornava para a divindade.

Os Kawésqar acreditavam que Xolás era um ser perfeito, cuja vontade não podia ser mudada pelos humanos. Por isso, não fazia sentido tentar influenciá-lo por meio de pedidos ou rituais. Não existem registros claros de orações ou cerimônias dedicadas diretamente a Xolás, e tudo indica que ele não era cultuado da mesma forma que os deuses de outras religiões. Ainda assim, sua presença era central na vida espiritual e moral da comunidade. Os ensinamentos transmitidos pelos anciãos eram vistos como princípios deixados por Xolás, incluindo valores ligados ao respeito, à convivência e à responsabilidade individual. Um dos conceitos morais associados ao povo Kawésqar dizia que “cada pessoa é, antes de tudo, seu próprio próximo”, ideia relacionada à autonomia e ao cuidado mútuo.

A influência de Xolás também aparecia nos rituais de iniciação chamados “kalakai”. Nessas cerimônias, jovens entre 14 e 18 anos recebiam ensinamentos práticos e morais para a vida adulta. Os anciãos responsáveis pelo ritual transmitiam códigos de conduta atribuídos à divindade, reforçando seu papel como fonte da ordem social e espiritual.


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30 de maio de 2026

Mamnik

۞ ADM Sleipnir

Mamnik (em búlgaro: мамник), também conhecido como Mamniche ou Mamyak, é uma criatura do folclore búlgaro ligada à feitiçaria e ao roubo sobrenatural da fertilidade. Nas lendas populares, ele costuma aparecer como um pequeno pássaro demoníaco de duas cabeças, criado e controlado por uma feiticeira chamada mamnitsa.

Segundo a tradição, um Mamnik nasce de um ovo raro, com duas gemas, posto por uma galinha preta. A feiticeira envolvia o ovo em lã e o mantinha aquecido junto ao corpo, geralmente sob a axila ou próximo ao peito, durante quarenta dias. O nascimento precisava acontecer perto da Páscoa ou do Dia de São Jorge, datas consideradas sagradas e poderosas no imaginário popular dos Bálcãs. Depois de nascer, o Mamnik podia voar livremente, mas sempre voltava para sua dona, a quem obedecia como se fosse sua mãe. Seu canto era descrito como belo e hipnotizante, capaz de encantar pessoas e atrair prosperidade.

A principal função da criatura era roubar a fertilidade de propriedades vizinhas. Durante a noite, a feiticeira enviava o Mamnik para campos, currais ou apiários de outras pessoas. Com seu canto mágico, ele atraía a abundância desses lugares — como boas colheitas, leite, queijo, mel ou trigo — e a transferia simbolicamente para as terras de sua senhora. As histórias populares dizem que, quando alguém ouvia os sons do Mamnik durante a noite, tentava capturá-lo e matá-lo. Ao morrer, a criatura derramava tudo aquilo que havia roubado: leite, mel, queijo, grãos e outros produtos.

Em algumas versões da lenda, o Mamnik não aparece como um pássaro, mas como uma grande mariposa negra noturna com os mesmos poderes sobrenaturais.


fonte:
  • ZOJA BARBOLOVA. Enciklopedija na personažite v bălgarskata mitologija.
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29 de maio de 2026

A Jornada ao Oeste: Capítulo LXXIII

۞ ADM Sleipnir


CAPÍTULO LXXIII:

GRAÇAS A UMA VELHA MÁGOA, OS SENTIMENTOS PROVOCAM UMA GRANDE DESGRAÇA. O SENHOR DA MENTE ENCONTRA A LUZ APÓS TER SIDO CAPTURADO POR UM MONSTRO.

Dizíamos que o Grande Sábio Sun ajudou a conduzir o monge Tang de volta ao caminho que levava ao Oeste, acompanhado por Bajie e pelo Monge Sha. Pouco depois, eles se depararam com um edifício imponente que, pela altura e pela riqueza de sua decoração, parecia um verdadeiro palácio. O monge Tang puxou imediatamente as rédeas e, virando-se para o Peregrino, perguntou:

— Sabe dizer que lugar é esse?

O Peregrino ergueu a cabeça e viu que o edifício estava perfeitamente emoldurado por uma esplêndida cadeia de montanhas. Por todo o terreno serpenteava um riacho, no qual se refletia um denso grupo de árvores, cuja variedade ficava ainda mais evidente junto ao grande portão de entrada. Ali, as flores silvestres pareciam ter um perfume mais intenso, como se quisessem destacar a graça de uma garça pousada sobre um salgueiro. Sua beleza era tão perfeita que lembrava jade envolto em névoa. Escondida entre as folhas de um pessegueiro, uma ave de plumagem vibrante entoava um canto encantador. Pares de cervos vagavam entre a vegetação sem medo algum, enquanto, no alto das árvores, aves vindas das montanhas pareciam manter uma animada conversa. No ar pairava a mesma serenidade que Liu e Yüan encontraram na Caverna de Tiantai (1). Não havia dúvida de que aquela era a morada de um imortal. Foi o que o Peregrino explicou ao mestre:

— Este não é o palácio de nenhum rei nem a residência de alguém rico e poderoso. Deve ser um templo taoísta ou um mosteiro budista. Para termos certeza, é melhor nos aproximarmos.

Sanzang esporeou o cavalo e logo chegaram ao portão, sobre o qual havia uma grande placa de pedra com as seguintes palavras inscritas: "Templo da Flor Amarela".


Sanzang então desceu do cavalo, e Bajie comentou:

— Com certeza se trata da morada de algum taoísta. Acho que não faria mal entrar e fazer uma visita. Pode até ser que nos vistamos de forma diferente, mas seguimos práticas semelhantes.

— Tem razão — disse o Monge Sha. — Podemos aproveitar para apreciar a paisagem enquanto o cavalo descansa e se alimenta. Se for necessário, o mestre também pode se sentar e comer algo.

Sanzang aprovou a idéia, e todos entraram no edifício. Logo encontraram um segundo portão,cujos lados estavam decorados com duas tiras de papel, como as usadas no Ano Novo, que diziam: "Onde a neve é branca e as plantas têm um tom amarelado (2) mora um sábio, e onde a grama é de jaspe e as flores de jade mora um imortal."

— Não há dúvida! — exclamou o Peregrino, rindo. — Este é o palácio de um taoísta, daqueles que vivem queimando ervas, refinando elixires e alimentando o fogo dos caldeirões alquímicos.

— Cuidado com suas palavras! — repreendeu Sanzang, beliscando-o. — Nós não sabemos quem mora aqui. Além disso, ficaremos por muito pouco tempo. Que importa o que ele faz ou deixa de fazer?


Mal terminaram de falar, passaram pelo segundo portão. O salão principal estava fechado, mas no corredor que dava para o leste viram um taoísta preparando remédios e pílulas. O jeito de se vestir não podia ser mais peculiar. Ele usava na cabeça um gorro de ouro revestido com laca vermelha bem viva, que contrastava com o preto brilhante da sua longa túnica. Calçava sapatos em forma de nuvem, de um verde chamativo, que não perdia nada para o amarelo berrante da faixa enrolada na cintura, semelhante à do mestre Lu. O rosto lembrava uma verdadeira cabaça de metal e os olhos brilhavam como estrelas. Tinha o nariz aquilino de um muçulmano e os lábios carnudos de um tártaro, energia intensa que parecia agitar sua mente como uma tempestade de trovões e relâmpagos, além de sua evidente capacidade de dominar dragões e tigres, era fácil perceber que se tratava de um autêntico imortal.

Sanzang aproximou-se dele e, erguendo a voz, o saudou em voz alta:

— Este humilde monge apresenta seus respeitos.

O taoísta levantou a cabeça e pareceu desconcertado com a saudação. No entanto, se recuperou logo e, deixando os remédios de lado, ajustou o grampo do cabelo da melhor forma que pôde, arrumou as roupas e correu ao encontro dos visitantes, dizendo:

— Perdoem-me por não ter saído para recebê-los. Entrem, por favor. Imagino que estejam cansados.


Visívelmente satisfeito, o mestre foi até o salão principal. Abriu a porta e viu as sagradas imagens dos Três Puros, diante das quais ardiam alguns incensários cuidadosamente colocados sobre uma longa mesa destinada às oferendas. O mestre pegou várias varetas de incenso e as colocou nos incensários. Só depois de se inclinar três vezes seguidas diante das imagens é que se virou para o taoísta e fez uma reverência formal. O taoísta os acomodou nos lugares de honra e, erguendo a voz, ordenou que lhes servissem um pouco de chá. 


Logo apareceram dois jovens com uma bandeja, que lavaram as xícaras, limparam as colheres e prepararam as frutas. Fizeram tudo de forma tão barulhenta que acabaram chamando a atenção das sete donzelas da Caverna da Teia de Aranha. Elas haviam estudado artes mágicas junto daquele taoísta quando ainda eram discípulas do mesmo mestre. Depois de se vestirem e de mandarem os filhos adotivos cuidarem de Bajie, correram para visitá-lo, pois a amizade que os unia era grande. Estavam justamente confeccionando túnicas novas quando viram os jovens ocupados com os preparativos do chá e perguntaram:

— Quem são esses hóspedes tão importantes que acabaram de chegar? Nunca vimos vocês tão atarefados.

— Achamos que são quatro monges — responderam os jovens. — A única coisa que sabemos é que o mestre mandou prepararmos o chá o mais rápido possível.

— Algum desses monges tem a pele bem clara e um corpo mais robusto? — perguntou uma das donzelas.

— Tem, sim — confirmaram os jovens.

— E outro deles tem umas orelhas bem grandes e um focinho bem comprido? — insistiu a mesma donzela.

— Exatamente — confirmaram novamente os jovens.

— Nesse caso — concluiu a donzela —, sirvam o chá e, sem que eles vejam, façam um sinal para o mestre sair. Precisamos conversar com ele sobre algo realmente importante.

Os jovens encheram cinco xícaras de chá e as levaram ao salão principal. Ajustando as roupas como pôde, o taoísta pegou uma das xícaras e a ofereceu a Sanzang com as duas mãos. Em seguida, fez o mesmo com Bajie, o Monge Sha e o Peregrino. 

Assim que a cerimônia terminou, os jovens recolheram as xícaras e as colocaram de volta na bandeja. Sem que ninguém percebesse, um deles lançou um olhar discreto ao taoísta. Ele se levantou imediatamente e disse:

— Veneráveis mestres, fiquem à vontade e descansem. Preciso me ausentar por um momento. Voltarei em instantes.


Satisfeitos, o mestre e seus discípulos saíram do salão principal para apreciar a paisagem, acompanhados por um dos jovens e, por ora, não falaremos mais deles. Falaremos, no entanto, do taoísta, que se dirigiu rapidamente aos aposentos privados do templo, onde encontrou as sete donzelas. Ao vê-lo, todas se ajoelharam ao mesmo tempo e disseram:

— Irmão mais velho! Escute o que suas irmãs têm a dizer.

— Quando chegaram respondeu o taoísta, ajudando-as a se levantar —, disseram que tinham algo importante para me contar. Não pude ouvir naquele momento porque o remédio que eu preparava exigia silêncio e nenhum contato com mulheres. Agora também tenho pouco tempo. Há hóspedes no templo, e preciso recebê-los adequadamente. Não seria melhor deixar essa conversa para depois?

— Perdoe-nos — responderam elas prontamente —, mas o assunto está diretamente relacionado a esses hóspedes. Depois que eles forem embora, essa informação já não terá utilidade.

— Que conversa estranha é essa? — disse o taoísta, rindo. — Como algo só pode ser importante enquanto os hóspedes estão aqui? Isso não faz sentido. Dedico minha vida ao cultivo da imortalidade, seguindo a serenidade e a disciplina. Mesmo alguém cheio de responsabilidades esperaria a saída dos visitantes antes de tratar de assuntos sérios. Não posso agir com descaso. Existem princípios a seguir. Portanto, devo voltar agora mesmo.


— Não se irrite — imploraram as donzelas, segurando-o. — Antes de sair, responda apenas uma pergunta: o senhor sabe de onde vieram esses hóspedes que está recebendo tão bem?

O taoísta ficou visivelmente desconcertado e não soube o que responder.

— Enquanto serviam o chá — disse uma das moças —, ouvimos os seus criados comentarem que se tratava de quatro monges.

— E o que há de errado nisso? — retrucou o taoísta, já sem paciência.

— Entre eles há um bastante forte, de rosto bem claro — continuou a donzela, ignorando o mau humor dele. — E outro com orelhas grandes e um focinho comprido. O senhor chegou a perguntar de onde eles vieram?

— Como vocês sabem disso? — perguntou o taoísta, surpreso. — Por acaso já os viram antes?

— Pelo visto, o senhor ainda não entendeu a situação — explicou outra das donzelas. — O homem de rosto claro é um enviado do Imperador Tang, em viagem ao Paraíso Ocidental para buscar as escrituras sagradas. Hoje de manhã, ele apareceu na entrada da nossa caverna pedindo comida. Já ouvíamos falar desse famoso monge havia muito tempo, então decidimos capturá-lo.

— E por que fariam isso? — questionou o taoísta.

— Não é segredo para ninguém — respondeu a moça — que o monge Tang possui um corpo puro, fruto de dez reencarnações dedicadas à virtude. Dizem que quem provar um pedaço de sua carne alcança a vida eterna. Para comemorar a sorte, levamos todos para se banhar no Riacho da Purificação. Foi então que apareceu aquele outro monge, o das orelhas grandes e focinho comprido. Primeiro, roubou nossas roupas. Depois, quis entrar no banho conosco. Tentamos impedi-lo, mas não conseguimos. Ele se transformou em um peixe e começou a nadar entre nós, sem qualquer vergonha. Era evidente que queria nos ofender. Depois voltou à forma normal e, como não cedemos, pegou um ancinho de nove pontas e tentou nos matar. Só conseguimos escapar porque fomos rápidas. Mesmo apavoradas, fugimos a tempo e deixamos nossos sobrinhos para lidar com ele. Não sabemos como terminou a luta. Naquele momento, só pensávamos em encontrar abrigo aqui. Pela amizade que existe entre nós desde os tempos de estudo, pedimos que vingue nossa desonra.


Ao ouvir toda a história, o taoísta ficou furioso. Com o rosto vermelho de raiva, exclamou, com a voz alterada:

— Então esses monges são um bando de pervertidos sem vergonha! Não se preocupem. Eu cuidarei disso.

— Se for preciso lutar, nós podemos ajudar — disseram as donzelas, agradecidas.

— Não será necessário — respondeu o taoísta. — Como diz o provérbio, "quem recorre à força já começa em desvantagem". Tenho um plano melhor. Venham comigo!


Ele as conduziu para o interior do aposento. Lá, pegou uma escada, apoiou-a atrás da cama e subiu com agilidade. De trás de uma viga, retirou um pequeno baú de couro, trancado com um cadeado de cobre. Da manga, tirou um lenço amarelo feito de penas, ao qual estava presa uma chave minúscula. Abriu o baú e, com extremo cuidado, retirou um pequeno pacote contendo veneno, o qual não havia sido preparado de maneira incomum. Primeiro, o taoísta reuniu enormes quantidades de excrementos de aves das montanhas. Depois, cozinhou tudo lentamente em um recipiente de cobre, mantendo sempre a mesma temperatura, até reduzir toda a mistura ao equivalente a uma única tigela. Mesmo assim, continuou refinando a substância até restarem apenas três pequenas porções, novamente submetidas ao fogo. O resultado era um veneno raro e precioso, comparável à mais perfeita das joias. Qualquer um que o ingerisse iria imediatamente ao encontro do rei Yama.

— Este é um veneno raro — explicou o taoísta. —  Se um mortal tomasse a décima milésima parte de um miligrama deste remédio, morreria muito antes de ele chegar ao estômago.  Para um imortal, bastariam três milésimas partes. Como esses monges possuem certo domínio do Tao, será necessária uma dose um pouco maior.


Uma das moças separou a quantidade necessária e a dividiu em quatro partes iguais. O taoísta pegou então doze tâmaras vermelhas, pressionou levemente cada uma e inseriu nelas o veneno. Depois distribuiu as frutas em quatro xícaras de chá. Em uma quinta xícara, colocou tâmaras pretas, para diferenciá-la. Quando tudo ficou pronto, organizou a bandeja e disse:

— O plano é simples. Primeiro farei algumas perguntas e eles. Se, ao contrário do que vocês afirmam, eles não forem da corte dos Tang, deixarei que sigam viagem sem problemas. Caso contrário, pedirei mais um pouco de chá, e vocês entregarão esta bandeja aos criados.Assim que aqueles monges beberem a infusão, tudo estará resolvido. A vingança será cumprida, a angústia desaparecerá e a tranquilidade voltará a reinar.


As donzelas o agradeceram profundamente.  Para manter as aparências, o taoísta vestiu uma túnica nova e voltou ao encontro do monge Tang e de seus discípulos. Convidou todos a se sentarem novamente, e disse:

— Perdoem a demora. Pedi aos meus criados que preparassem alguns legumes frescos e rabanetes para uma refeição vegetariana. Não seria correto deixar os visitantes com fome.

— Não posso aceitar tanta gentileza tendo chegado aqui de mãos vazias — respondeu Sanzang.

— Aqui não nos prendemos a esse tipo de formalidade — disse o taoísta, sorrindo. — Quem segue o caminho espiritual aprende a desapegar. Ao encontrar um templo, já se espera acolhimento. Considerem este lugar como sua própria casa. Posso perguntar de onde vêm e qual é o propósito da viagem?

— Estamos a caminho do Monastério do Trovão, no Paraíso Ocidental — respondeu o monge Tang. — Fomos enviados pelo Imperador dos Tang em busca de escrituras sagradas. É uma honra poder descansar em um lugar tão digno.

— Percebe-se que o senhor é alguém de virtude e piedade realmente extraordinárias — respondeu o taoísta com o rosto iluminado. — A única coisa que lamento é não tê-lo recebido como merecia desde o início. Peço desculpas por isso.

Em seguida, virou-se para a porta e chamou em voz alta:

— Venham trocar o chá e tragam algo para comer.


O criado mais jovem levantou-se imediatamente e correu para buscar a bandeja. As donzelas a colocaram em suas mãos e disseram:

— Aqui está o chá. Leve logo, sem demora.

O jovem obedeceu, mantendo um sorriso no rosto. O taoísta pegou uma das xícaras com tâmaras vermelhas e a ofereceu ao monge Tang com as duas mãos. Ao ver a robustez de Bajie e do Monge Sha, imaginou que fossem os principais discípulos e os serviu nessa ordem. Deixou o Peregrino por último, acreditando, pela aparência magra dele, que fosse apenas um aprendiz. Mas o Peregrino era extremamente observador. Percebeu que a xícara que permanecia na bandeja continha duas tâmaras pretas, enquanto as outras tinham tâmaras vermelhas.

— Um momento — disse ele, antes de beber. — Gostaria de trocar minha xícara pela sua.

— Para ser sincero — respondeu o taoísta, sorrindo —, nem sempre tenho todos os ingredientes à disposção para preparar um bom chá.  Há pouco fui pessoalmente procurar frutas nos fundos do templo e consegui apenas estas doze tâmaras vermelhas. Com elas, preparei quatro xícaras para servir aos senhores. Como não queria deixar de acompanhá-los, preparei uma quinta xícara para mim, usando tâmaras de cor menos atraente. Foi apenas uma demonstração de respeito da minha parte.

— Isso não faz sentido — retrucou o Peregrino. — Como dizem os antigos: “quem está em casa não é pobre; pobre é quem vive na estrada”. Num lugar como este, nada deve faltar. Quem conhece a escassez é quem vive de esmolas. Então, vamos parar com essa conversa e trocar nossas xícaras.

— Por que insiste nisso? — repreendeu-o Sanzang. — Recusar o chá é desrespeitar a hospitalidade deste honrado imortal.


Sem alternativa, o Peregrino Wukong segurou a xícara, mas se recusou a beber, mantendo os olhos fixos no taoista. Bajie, sempre dominado pelo apetite, estava faminto e sedento. Ao ver as tâmaras vermelhas, engoliu tudo sem hesitar. O mesmo fizeram o mestre e o Monge Sha. 


Quase no mesmo instante, Bajie empalideceu, o Monge Sha começou a chorar como uma criança, e o monge Tang passou a espumar pela boca. Logo depois, os três perderam a consciência e caíram no chão. 


O Grande Sábio percebeu imediatamente que haviam sido envenenados. Tomado pela fúria, arremessou a xícara contra o rosto do taoísta. Com incrível agilidade, o taoísta ergueu rapidamente o braço para se proteger, e a xícara atingiu sua manga, antes de se espatifar no chão.

— Que comportamento grosseiro! — gritou o taoísta, indignado. — Como ousa quebrar minha xícara de chá?

— Criatura miserável! — respondeu o Peregrino. — Que explicação tem para isso? Por que envenenou meus companheiros?

— Ainda não entendeu? — retrucou o taoísta. — A conduta indecente de vocês provocou essa desgraça!


— Isso é absurdo! — rebateu o Peregrino. — Acabamos de chegar, e sequer tivemos tempo de explicar quem somos. Como poderíamos ter causado qualquer problema?

— Vocês não passaram pela Caverna da Teia de Aranha pedindo comida? — insistiu o taoísta. — E depois não se banharam no Riacho da Purificação?

— As únicas que estavam se banhando eram aquelas sete criaturas monstruosas — respondeu o Peregrino. — Então é isso! Agora tudo faz sentido. Você é da mesma laia que elas. Não fuja! Prove o sabor do meu bastão!

Com incrível rapidez, o Grande Sábio tirou de trás da orelha seu bastão de ferro com extremidades douradas. Com um leve movimento, ele cresceu até atingir a espessura de uma tigela de arroz. Sem hesitar, o Peregrino desferiu um golpe violento. O taoísta desviou e contra-atacou com um corte rápido de espada. 


O barulho da luta acabou chamando a atenção das donzelas, que correram para auxiliar o taoísta, gritando:

Irmão mais velho, não tenha medo! Nós vamos ajudá-lo a capturá-lo!

Ao vê-las, o Peregrino ficou ainda mais furioso. Empunhando o bastão com as duas mãos, ele avançou com golpes devastadores. 


Sem demonstrar medo, as donzelas soltaram as vestes, revelando os ventres claros como neve, e ativaram seus poderes mágicos. De seus umbigos começaram a sair inúmeros fios brilhantes, que rapidamente se entrelaçaram até formar uma enorme rede ao redor do Peregrino. 


Percebendo o perigo, ele recitou um encantamento e conseguiu se libertar, saltando para o alto. Do ar, observou com atenção aquelas fibras luminosas sendo manipuladas como se fossem tecidas por um tear gigantesco. Em pouco tempo, uma imensa teia cobriu todo o Templo da Flor Amarela, ocultando completamente o edifício.

— Impressionante… — murmurou o Peregrino. — Agora entendo o que aconteceu com Bajie. Ainda bem que consegui escapar. Mas a situação é grave. O mestre e os outros foram envenenados, e ainda não conheço bem os poderes dessas criaturas. O melhor é invocar novamente o espírito desta terra e buscar respostas.

Em seguida, ele desceu das nuvens e, fazendo um gesto mágico com os dedos, recitou um encantamento que arrancou o deus daquela região de sua tranquila existência. Tremendo da cabeça aos pés, o velho espírito caiu de rosto no chão e, batendo repetidamente a testa contra a terra, perguntou com voz insegura:

— O mestre já não havia sido libertado, Grande Sábio? O que o trouxe de volta?

É verdade que conseguimos resgatar meu mestre antes — explicou o Peregrino —,  mas acabamos enfrentando outro problema no Templo da Flor Amarela, não muito longe do lugar onde nos despedimos. Entramos apenas para observar, e fomos recebidos pelo mestre do templo. Enquanto conversávamos com ele, meu mestre e meus companheiros foram envenenados pelo chá que nos ofereceu. Por sorte, eu não cheguei a beber e o ataquei imediatamente com meu bastão. Durante a luta, ele começou a falar sobre nossa passagem pela Caverna da Teia de Aranha e sobre o banho no Riacho da Purificação. Foi então que percebi que aquele sujeito também era uma criatura demoníaca. No meio do combate, apareceram as sete donzelas, lançando fios de seda por toda parte. Felizmente, fui capaz de escapar a tempo. Como governa esta terra há tanto tempo, imaginei que pudesse me dar informações sobre elas. Que tipo de monstros eles são? Fale a verdade, e eu prometo que não irei puní-lo.

— Essas criaturas — respondeu o deus local, inclinando-se respeitosamente — estão nesta região há menos de dez anos. Há cerca de três, fiz algumas investigações e descobri que são sete aranhas espirituais. Os fios que lançam são, na verdade, suas próprias teias.

— Sendo assim — concluiu o Peregrino —, a situação é mais simples do que parecia. Pode se retirar e não interfira no que está para acontecer.

O deus voltou a se curvar repetidamente e desapareceu tão rápido quanto surgiu. O Peregrino então seguiu até o Templo da Flor Amarela, arrancou setenta pelos da própria cauda e soprou sobre eles um sopro de energia imortal. Em seguida, gritou:

— Transformem-se!

No mesmo instante, os pelos se transformaram em setenta pequenos Peregrinos. Em seguida, ele soprou sobre o bastão de ferro, que se multiplicou em dezenas de forquilhas de duas pontas, distribuídos entre suas cópias. 


Liderando o grupo, ele avançou contra o enorme emaranhado de fios, cravando as forquilhas e puxando com força. A cada golpe, parte da teia se rompia, e, em pouco tempo, centenas de fios foram destruídos.


Assim, abriram caminho até o interior daquele enorme casulo, onde encontraram sete aranhas gigantes, do tamanho de barris. Tremendo de medo, elas imploraram:

— Poupe nossas vidas, por favor!

Mas os pequenos Peregrinos ignoraram o pedido das arnhas e as derrubaram, mantendo-as imobilizadas. Então, o Grande Sábio interveio, impedindo que fossem mortas naquele momento:

— Não acabem com elas ainda. Se quiserem continuar vivas, é melhor devolverem meus companheiros.


— Por favor! — gritaram as aranhas, voltando-se para o lugar onde o taoísta estava escondido. — Faça o que ele pede! Não queremos morrer assim!

— Isso não faz diferença — respondeu o taoísta, saindo do esconderijo. — Sinto muito, mas não posso ajudá-las. Já tomei minha decisão! o monge Tang será devorado!


— Se não devolver o meu mestre — gritou o Peregrino, tomado pela fúria —, terá o mesmo destino que elas!

Mal terminou de falar, o Peregrino sacudiu levemente o tridente que segurava, e ele voltou à forma de seu temível bastão de ferro. Empunhando a arma com as duas mãos, desferiu um golpe brutal contra as aranhas, reduzindo-as instantaneamente a uma massa sanguinolenta.

Em seguida, balançou a cauda, recolhendo todos os pelos que havia arrancado, e partiu em perseguição ao taoísta.Tomado pela fúria diante da morte repentina das “irmãs”, o taoísta desembainhou a espada e enfrentou o perseguidor. 

Assim começou um dos combates mais violentos já vistos. Ambos recorreram a todo o seu poder mágico: um brandindo a espada, o outro, o bastão de extremos dourados. Cada golpe era movido pelo ódio — de um lado, a determinação de salvar o monge Tang; do outro, o desejo de vingar as sete donzelas. Nenhum dos dois recuava. A força do Grande Sábio parecia inesgotável, enquanto a coragem do taoísta era impressionante. Seus movimentos eram rápidos e contínuos, sempre em busca do golpe decisivo. Quando espada e bastão se chocavam, o estrondo fazia o céu tremer, enquanto insultos e provocações eram trocados sem parar. Avançavam, recuavam e tornavam a atacar no instante seguinte.

A batalha se prolongou até o vento uivar violentamente, levantando nuvens de poeira que assustaram tigres e lobos. O céu e a terra ficaram encobertos de areia, e até as estrelas pareciam perder o brilho. O taoísta resistiu aos primeiros cinquenta golpes, mas, depois disso, suas forças começaram a falhar, até desaparecerem por completo. Ele então soltou a faixa da cintura e abriu a túnica, que caiu no chão com um som estranho.

— Que ideia é essa? zombou o Peregrino. — Ficar sem roupa não vai ajudá-lo em nada agora.

O taoísta não respondeu. Ergueu os braços e, ao longo das costelas, surgiram mais de mil olhos, que começaram a lançar raios de poder aterrador. Ao mesmo tempo, nuvens amareladas brotaram de suas axilas, tornando o brilho daqueles olhos ainda mais intenso. 


Parecia que fileiras de ouro haviam sido espalhadas por todo o seu corpo, ou que pequenos sinos de cobre pendiam de cada lado. Mas aquilo era apenas a manifestação de sua magia. Quando os olhos piscavam, parecia que o sol, a lua e as estrelas perdiam parte do brilho. Quando permaneciam abertos, o calor era tão intenso que o ar ficava seco como o de um deserto. O Grande Sábio acabou preso naquele poder, incapaz de se mover, como se estivesse dentro de uma prisão feita de luz e névoa amarelada. Tentou escapar, mas não conseguia avançar nem recuar. Apenas girava sobre si mesmo, como se estivesse preso dentro de um barril de luz. E o calor aumentava a cada instante. Desesperado, tentou romper aquela prisão saltando para o alto, mas os feixes eram sólidos demais. Ele caiu de costas no chão, e o impacto fez sua cabeça latejar. Ao tocar o local atingido, percebeu, assustado, que a pele estava amolecida.

— Que situação… — murmurou, preocupado. — Antes, nem lâminas conseguiam me ferir. Agora, simples raios conseguem atravessar minha pele… Nem sei se isso vai cicatrizar ou piorar com o tempo.


O calor se intensificou ainda mais, e ele disse novamente, para si mesmo:

— Não há como sair por cima… Então só me resta tentar por baixo.

Sem hesitar mais, recitou um feitiço e, depois de sacudir levemente o corpo, se transformou num pangolim. Suas garras pareciam feitas de um aço tão bem temperado que não tinham dificuldade alguma em perfurar montanhas e reduzir rochas a estilhaços, como se fossem simples massas de barro. Nessa tarefa extraordinária, ele era ajudado tanto pela força dos músculos quanto pelas escamas férreas que cobriam seu corpo. Seus olhos, brilhantes como dois luzeiros, eram totalmente adaptados à vida subterrânea, assim como o focinho, afiado como o bico de uma ave, que superava em potência as brocas mais eficazes. Endurecendo a cabeça o máximo que pôde, Peregrino começou a cavar a terra, afastando-se cerca de trinta quilômetros do taoísta. 


Como os feixes de luz não alcançavam nem metade dessa distância, decidiu voltar à superfície. Assim que retomou sua forma original, sentiu o corpo completamente exausto. A dor se espalhava por todos os músculos. Tomado pelo desespero, caiu em lágrimas e gritou:

— Oh, mestre… quantas dificuldades e sofrimentos enfrentamos juntos desde o dia em que decidi seguir seus passos rumo ao Ocidente! Como fomos cair justamente agora, depois de termos sobrevivido a tantos perigos?

Enquanto chorava, o Peregrino ouviu alguém lamentando do outro lado da montanha. Movido pela curiosidade, levantou-se, enxugou as lágrimas e seguiu na direção dos sons. Logo encontrou uma mulher vestida de luto. Na mão esquerda, ela carregava uma tigela com sopa de arroz já fria; na direita, alguns maços de papel-moeda para oferendas espirituais. A cada passo, soluçava de tristeza.


Balançando a cabeça, o Peregrino suspirou consigo
 mesmo:

— É bem verdade o que dizem: Quem derrama lágrimas encontra outro em pranto; Quem tem o coração ferido reconhece outro coração partido. Por que será que essa mulher chora tanto. Acho melhor eu verificar.

Ao se aproximar dela, o Peregrino inclinou-se com respeito e perguntou:

— Pode me dizer, boa mulher, por que está chorando assim?

— Por causa da compra de algumas varas de bambu — respondeu ela, com os olhos apertados pelo choro. — Meu marido discutiu com o senhor do Templo da Flor Amarela e, por vingança, ele o envenenou com uma xícara de chá. Meu marido era um homem bom, sempre atencioso comigo… Por isso estou indo até o túmulo dele para queimar alguns maços de papel-moeda.


Ao ouvir aquilo, o Peregrino começou a chorar ainda mais. Irritada, a mulher o repreendeu:

— Perdeu o juízo? Como ousa zombar de mim enquanto lamento a morte do meu marido? Por que essas lágrimas?

Perdoe-me, senhora — respondeu o Peregrino, abaixando a cabeça. — Meu nome é Sun Wukong, e sou o discípulo mais antigo de Tang Sanzang, irmão do Grande Imperador Tang, soberano de todas as Terras do Leste. Quando passávamos pelo Templo da Flor Amarela, a caminho do Paraíso Ocidental, resolvemos parar para deixar o cavalo descansar e fomos cumprimentar o taoísta que morava ali. O que não imaginávamos era que ele fosse um monstro aliado de sete aranhas demoníacas que vivem não muito longe daqui. Nós já conhecíamos essas criaturas. Em outra ocasião, elas tentaram devorar nosso mestre, mas meus irmãos e eu conseguimos impedi-las. Meus companheiros são Zhu Bajie e o Monge Sha. As aranhas ficaram furiosas e convenceram o taoísta de que nós as havíamos ofendido. Para se vingar, ele nos serviu chá envenenado. Só eu tive a sorte de não beber. Meus três irmãos continuam presos dentro do templo, junto com o cavalo. Quando vi todos desabando inconscientes de seus lugares, arremessei a xícara no rosto do taoísta. No mesmo instante, ele puxou a espada e veio lutar comigo. Como era de se esperar, as aranhas ficaram ao lado dele e tentaram me prender com seus fios de seda. Consegui escapar graças aos meus poderes mágicos. Depois invoquei o deus desta região, e foi ele quem revelou que aquelas criaturas eram apenas aranhas demoníacas. Então usei minha técnica de multiplicação para destruir as teias e acabar com elas. Quando o taoísta viu que meu bastão de ferro havia transformado as sete numa massa ensanguentada, quis vingá-las e voltou a me enfrentar. Resistiu a mais de sessenta golpes meus, mas, quando estava prestes a ser derrotado, arrancou as próprias roupas e revelou os mil olhos espalhados pelo corpo. Esses olhos lançavam raios de luz tão poderosos que me deixaram completamente imóvel. Por mais que eu tentasse escapar, não conseguia me libertar daquele poder. Quando achei que não havia mais saída, me transformei em um pangolim e cavei um túnel para fugir daquela prisão invisível. Há pouco eu estava chorando pelos meus companheiros quando ouvi o seu lamento e resolvi perguntar o motivo. Depois vi o papel-moeda que carregava nas mãos e percebi como eu era ainda mais miserável… Afinal, nem sequer tenho o que oferecer ao meu mestre e aos meus irmãos. Foi por isso que comecei a chorar ainda mais. Como poderia zombar da sua dor?


— Me perdoe — disse a mulher, deixando de lado os papéis-moeda e a tigela. — Eu não sabia que o senhor também carregava tanto sofrimento. Pelo que contou, parece que ainda desconhece a verdadeira identidade daquele taoísta. Ele é o Demônio dos Cem Olhos, também chamado de Monstro das Muitas Pupilas. O fato de ter enfrentado essa criatura e ainda assim conseguido escapar mostra que seus poderes são realmente extraordinários. Mesmo assim, derrotá-lo não será fácil.

Ela fez uma breve pausa antes de continuar:

— Existe, no entanto, uma imortal capaz de ajudá-lo.

— Quem é essa imortal? — perguntou o Peregrino, inclinando-se respeitosamente. — Basta dizer o nome, e irei atrás dela imediatamente. Se aceitar ajudar, ainda será possível salvar meu mestre e vingar o seu marido.

— Mesmo que ela aceite — respondeu a mulher, balançando a cabeça —, talvez só a vingança seja possível. O seu mestre pode não sobreviver.

— O que quer dizer com isso?
— perguntou o Peregrino, alarmado.

— O veneno usado por aquele taoísta é extremamente poderoso — explicou ela. — Em apenas três dias, destrói completamente os ossos e a medula. E a morada dessa imortal fica longe demais. Talvez não haja tempo para voltar e salvá-lo.

— Isso não será problema — respondeu o Peregrino com firmeza. — Posso percorrer essa distância em meio dia.

— Nesse caso, escute com atenção — disse a mulherA cerca de dois mil quilômetros daqui há uma montanha conhecida pelo nome de Nuvem Púrpura. Nela, se encontra a Caverna das Mil Flores, onde vive uma imortal chamada Pralamba (3). Só ela é capaz de derrotar esse monstro.

— Onde fica exatamente essa montanha? — perguntou Peregrino mais uma vez. — Diga-me qual direção devo seguir.

— Basta seguir sempre em direção ao sul — respondeu a mulher, apontando o caminho.
O Peregrino virou a cabeça, e a mulher havia desaparecido, como se nunca tivesse existido. Atordoado, lançou-se ao chão e começou a bater a testa contra a terra, dizendo:

— Que Bodhisattva era aquela? Eu estava tão preocupado com assuntos terrenos que nem percebi que se tratava de uma mensageira do alto… Qual será o seu nome, para que eu possa prestar a devida reverência?

— Ainda não me reconhece, Grande Sábio? — disse uma voz vinda do alto. — Sou eu.

O Peregrino ergueu os olhos e viu que se tratava da Dama do Monte Li (4). Sem hesitar, elevou-se pelos ares e, após agradecer, perguntou:

— De onde vinha quando decidiu me iluminar com sua presença?

— Estava voltando para casa, depois de participar do Festival da Árvore da Flor de Dragão — explicou a Bodhisattva —, quando soube do que havia acontecido com o seu mestre. Por isso apareci disfarçada de viúva recente, para ajudá-lo a escapar dessa situação. Agora, é essencial que vá imediatamente ao encontro de Pralamba. Apenas tome cuidado: não diga que a ideia partiu de mim. Essa imortal tem o mau hábito de culpar os outros por tudo.


O Peregrino agradeceu mais uma vez e, com um salto, cruzou os céus até alcançar a Montanha da Nuvem Púrpura. Logo encontrou a Caverna das Mil Flores. Ao redor cresciam pinheiros antigos, cujo frescor se espalhava por toda a paisagem; cedros altíssimos, com aparência de jade; salgueiros de verde profundo contornando os caminhos; flores exóticas, cujos botões transbordavam pelos riachos; orquídeas de perfume intenso cobrindo os muros de pedra; e incontáveis ervas silvestres brilhando ao sol como joias. Perto da caverna corria um riacho de águas verdes como jade, refletindo nuvens que pareciam envolver os troncos ocos de árvores milenares. Entre os galhos, bandos de pássaros cantavam, contrastando com o caminhar tranquilo dos cervos. O verde dos bambus parecia refinado, assim como o vermelho das folhas das ameixeiras. No alto de uma árvore, um corvo escutava o canto melodioso de um pequeno pássaro pousado mais abaixo. O trigo crescia abundante, prometendo uma colheita generosa. Em todas as estações, as folhas permaneciam firmes nos galhos, e as flores desabrochavam sem cessar. O ar estava carregado de bons presságios, enquanto nuvens sagradas se elevavam até o vazio celeste.

Encantado com tanta harmonia, o Grande Sábio começou a descer e percebeu, surpreso, que a beleza aumentava à medida que descia. O que mais chamava a atenção, no entanto, é que não havia nenhum sinal de presença humana. O silêncio era tão absoluto que nem se ouviam os cacarejos das galinhas nem o latido de cães.

— Será que este não é o lugar certo? — pensou, inquieto.


Continuou caminhando e, após alguns quilômetros, encontrou uma monja taoísta sentada sobre uma almofada. Usava um chapéu de seda que lembrava cinco tipos de flores, e sua túnica, tecida com fios dourados, tinha grande elegância. Calçava sapatos em forma de bico de fênix e trazia à cintura uma faixa dupla de seda. O rosto, marcado por rugas profundas, lembrava a primeira geada do outono, mas sua voz era suave e fluida como a água de um riacho. Fazia muito tempo que ela havia dominado os princípios dos Três Veículos e conhecia as Quatro Nobres Verdades (5). Sua proximidade com o vazio lhe concedera uma virtude inabalável e uma mente livre. Aquela mulher não era outra senão a Bodhisattva da Caverna das Mil Flores, também conhecida pelo honroso nome de Pralamba. 

Ao reconhecê-la, o Peregrino apressou o passo e a saudou:

— Apresento meus respeitos, Bodhisattva.

Ela se levantou imediatamente e, juntando as mãos diante do peito, perguntou, depois de retribuir a saudação:

— Perdoe-me por não ter saído para recebê-lo, Grande Sábio. Pode me dizer de onde vem?

— Como conseguiu me reconhecer tão rapidamente? — perguntou o Peregrino. — Quem lhe contou quem eu sou?

— Quando você mergulhou o Palácio Celestial em uma total confusão — explicou Pralamba —, sua imagem foi mostrada a todos os deuses. Seria impossível não reconhecê-lo.

— Faz sentido — admitiu o Peregrino. — Como diz o ditado: o bem passa despercebido, mas a fama do erro se espalha longe. Ainda assim, talvez não saiba que me arrependi de tudo o que fiz… e agora sigo o caminho budista.

— E quando isso aconteceu? — perguntou Pralamba, surpresa. — Permita-me felicitá-lo por isso.

 Há pouco tempo, minha vida foi poupada, em troca de acompanhar meu mestre, o monge Tang, em sua jornada ao Paraíso Ocidental em busca das escrituras sagradas — respondeu o Peregrino. —  O problema agora é que um taoísta do Templo da Flor Amarela envenenou meu mestre com uma xícara de chá. Usei tudo o que sabia em combate, mas nada funcionou contra os raios de luz que ele emitia. Só consegui escapar graças aos meus vastos poderes mágicos. Vim até aqui para prestar meus respeitos à Bodhisattva e pedir ajuda, pois ouvi dizer que apenas você é capaz de dominar aquela criatura.

— E quem lhe disse isso? — perguntou Pralamba, surpresa. — Desde a Festa das Esmolas não deixo esta morada. Meu nome permaneceu oculto todo esse tempo. Como conseguiu descobri-lo?


— Sou alguém que conhece os caminhos ocultos deste mundo — respondeu o Peregrino, com um leve sorriso. —Não importa onde alguém se esconda, sempre consigo descobrir o que preciso.

— Vejo que não lhe falta astúcia — admitiu a Bodhisattva. — Eu estava decidida a nunca mais deixar este lugar, mas, diante desse pedido e da importância dessa jornada, é melhor eu acompanhá-lo.

— Com todo respeito — disse o Peregrino —, que meio pretende usar para derrotar esse monstro?

— Minha agulha de bordar será o suficiente — respondeu Pralamba.


— Isso só pode ser brincadeira — retrucou o Peregrino.  Se fosse tão simples, eu não teria vindo incomodá-la. Eu mesmo poderia arranjar um carro cheio delas.

— Essas agulhas comuns não servem — explicou Pralamba. — A minha não é feita de ferro, ouro ou aço. Ela foi refinada dentro do olho de
 um dos meus filhos.

— E quem seria esse filho? — perguntou o Peregrino.

— A Estrela de Órion — respondeu Pralamba.


Ao ouvir isso, O Peregrino ficou secretamente espantado, e partiu com a Bodhisattva, deixando a Caverna das Mil Flores. Não demoraram a avistar, ao longe, o brilho dos feixes de luz. Apontando adiante, ele disse:

— O Templo da Flor Amarela fica logo ali.

Pralamba retirou do pescoço uma pequena agulha, pouco maior que dois centímetros, fina como um fio de sobrancelha. Lançou-a ao alto e, com um estrondo repentino, todos os raios desapareceram.


— Maravilhoso, Bodhisattva! Maravilhoso! — exclamou o Peregrino. — Agora vamos até lá recuperar a agulha.

— Não será necessário — disse Pralamba, abrindo a mão. — Ela já está aqui.

Os dois desceram das nuvens e seguiram até o templo. O taoísta estava encolhido junto à porta, de olhos fechados e completamente imóvel.

— Maldito monstro! — insultou-o o Peregrino, ao passar por ele. — Agora quer se passar por cego, é? Pois vai saber o que é bom! — E tirou o bastão de ferro de trás da orelha com a intenção de desferir um bom golpe, mas foi impedido por Pralamba, que disse:

— Isso pode esperar. O mais importante agora é encontrar o seu mestre.


O Peregrino correu até o salão principal. Lá encontrou seus três companheiros caídos no chão, com espuma na boca. 

— O que vou fazer agora? O que vou fazer? — lamentou, enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto.

— Não se aflija, Grande Sábio — disse Pralamba. — Já que deixei a reclusão, creio que posso  acumular algum mérito ajudando-lhe com três pílulas contra o veneno que eles tomaram.


O Peregrino imediatamente se virou para reverenciá-la. A Bodhisattva retirou de dentro da manga um pequeno invólucro, abriu-o e separou três pílulas vermelhas, entregando-as com a instrução de colocar uma na boca de cada um. Foi difícil abrir-lhes os dentes, mas ele conseguiu fazê-los engolir o remédio. Pouco depois, começaram a reagir, embora só recuperassem a consciência após expelirem completamente o veneno.

Bajie foi o primeiro a se levantar, reclamando:

— Que vontade horrível de vomitar…

— Que tontura! — exclamaram, por sua vez, Sanzang e o Monge Sha, abrindo os olhos. — O que aconteceu?

— Vocês foram envenenados com chá
— explicou o Peregrino. — A vida de todos foi salva graças à Bodhisattva Pralamba.

Sanzang levantou-se imediatamente, ajeitou as roupas como pôde e expressou sua gratidão.


— Onde está aquele taoísta? — perguntou Bajie, irritado. — Quero saber por que tentou nos matar.

O Peregrino então contou o que havia acontecido com as aranhas. Ao ouvir a história, Bajie ficou ainda mais furioso:

— Se ele se aliou àquelas criaturas, então não há dúvida! Ele também é um monstro.

— Ele está lá fora
— disse o Peregrino, apontando —, encolhido perto da porta, fingindo estar cego.

Bajie agarrou o ancinho e avançou para matar o taoísta, mas Pralamba o impediu, dizendo:

— Tente se acalmar, Marechal dos Juncos Celestiais. O Grande Sábio sabe que vivo em completa solidão. Levarei esse taoísta comigo, para que passe a guardar a entrada da minha morada.


— A senhora merece toda a nossa gratidão pelo que fez — respondeu o Peregrino. — Pode levá-lo e fazer o que quiser. Apenas peço uma coisa: que nos permita ver a verdadeira forma dessa criatura.

— Isso é simples — disse Pralamba, aproximando-se do taoísta. 

Ao apontar para ele, uma espécie de pó se desprendeu de seu corpo, revelando sua forma real: uma enorme centopeia, com quase sete metros de comprimento. Pralamba a ergueu com um único dedo e, montando numa nuvem, partiu rapidamente em direção à Caverna das Mil Flores.


— Que Bodhisattva impressionante… — comentou Bajie, observando-a desaparecer. — Como conseguiu dominar com tanta facilidade uma criatura tão perigosa?

— Eu lhe perguntei que arma seria necessária para enfrentar aqueles raios — explicou o Peregrino. — Ela respondeu que bastava uma agulha de bordar, refinada no olho de um de seus filhos. Depois, ela revelou que esse filho se tratava da Estrela de Órion. Já que ele é, na verdade, um galo, deduzo que a mãe dele deve ser uma galinha. E não existe inimigo pior para uma centopeia do que uma galinha.


Ao ouvir aquilo, o monge Tang demonstrou ainda mais respeito e gratidão. Em seguida, levantou-se e disse:

— É hora de partir. Vamos nos preparar.

O Monge Sha encontrou um pouco de arroz e alguns grãos de cereal e preparou uma refeição simples. Depois de recuperarem as forças, reuniram a bagagem, pegaram o cavalo e retomaram a estrada. Assim que atravessaram os portões, o Peregrino voltou rapidamente, ateou fogo à cozinha e, em pouco tempo, o templo inteiro foi consumido pelas chamas. Dessa forma, graças à intervenção de Pralamba, o monge Tang foi salvo, enquanto o Monstro das Muitas Pupilas acabou submetido ao poder da virtude.


Não sabemos, por enquanto, o que aguardava os peregrinos no restante da jornada. Quem quiser descobrir deverá escutar com atenção as explicações que são dadas no próximo capítulo.

CAPÍTULO LXXIV EM BREVE


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Notas do Capítulo LXXIII

  1. Segundo uma narrativa popular, Liu Chen e Yüan Huang-Chao se perderam no Monte Tian-Tai. Quando estavam prestes a morrer de fome, foram socorridos em uma de suas muitas cavernas por um grupo de imortais belíssimas;
  2. Tanto a neve branca quanto as plantas amareladas designam os elementos usados pelos alquimistas em sua busca pelo elixir da imortalidade;
  3. Segundo o Mahabharata, Pralamba foi um "asura", ou demônio, eliminado por Krishna, embora aqui se lhe atribua um caráter benfeitor;
  4. O mesmo se pode dizer sobre esta personagem, da qual já se falou no capítulo XXIII e que foi considerada nos tempos antigos como um espírito aquático;
  5. As Quatro Grandes Verdades se referem aqui aos temas centrais do budismo: o sofrimento, suas causas, seu sentido e sua eliminação. No que diz respeito aos Três Veículos, ou Meios, veja a nota 3 do capítulo II;
  6. A Festa das Esmolas (Ullambana) é uma celebração budista ligada à lembrança e ao auxílio dos falecidos, especialmente dos ancestrais e dos seres que sofrem no “mundo dos fantasmas famintos”. Ela costuma ocorrer no 15º dia do 7º mês lunar e, em várias tradições asiáticas, envolve oferendas, orações e atos de mérito em favor dos mortos.


  • Tradução em pt-br por Rodrigo Viany (Sleipnir). Favor não utilizar sem permissão.
  • Tradução baseada na tradução do chinês para o espanhol feitas por Enrique P. Gatón e Imelda Huang-Wang, e do chinês para o inglês feita por Collinson Fair.
fontes consultadas para a pesquisa:
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Ruby