15 de junho de 2026

Icelaca

۞ ADM Sleipnir

Icelaca era uma importante divindade da mitologia lenca, associada ao tempo, aos ventos e aos fenômenos atmosféricos. Segundo a tradição, possuía duas faces e a capacidade de enxergar o passado, o presente e o futuro. Por sua ligação com a passagem do tempo e com a sucessão das estações do ano, era conhecido entre os lencas como o "senhor do tempo".

As descrições preservadas sugerem que Icelaca também estava relacionado às forças da natureza. Furacões, tempestades e outros eventos meteorológicos eram frequentemente atribuídos à sua influência. Alguns estudiosos apontam semelhanças entre essa divindade e deuses da chuva e das tempestades de outras culturas mesoamericanas, como Chaac, dos maias, e Tlaloc, dos astecas.

Registros históricos

Icelaca é uma das divindades lencas mais bem documentadas nas fontes coloniais. O primeiro relato conhecido aparece na Descrição da Província da Guatemala (1576), do cronista espanhol Diego García de Palacio. Durante sua passagem por Sesori, ele descreveu uma cerimônia em que quatro jovens, com cerca de doze anos de idade, eram circuncidados, e seu sangue era oferecido a uma representação da divindade.

Segundo o cronista, a imagem de Icelaca tinha forma circular e possuía duas faces cobertas por numerosos olhos, simbolizando sua capacidade de observar diferentes tempos. Além das oferendas de sangue humano, eram sacrificados animais como veados, galinhas e coelhos.

Outro cronista espanhol, Antonio de Herrera, registrou informações semelhantes. De acordo com seu relato, cães que não latiam e perus também eram sacrificados em honra à divindade. Herrera menciona ainda práticas de autossacrifício, nas quais os fiéis ofereciam seu próprio sangue, além de partes do corpo como a língua e as orelhas. Ele descreve a representação de Icelaca como uma grande pedra de três pontas, cada uma delas adornada com um rosto de aparência deformada.

Tradições posteriores

Referências a uma divindade de duas faces continuaram a ser registradas séculos depois. Em The Children of Copal and the Candela (1992), a antropóloga Anne Chapman relata que moradores indígenas da aldeia de Manazapa, no atual departamento de Intibucá, em Honduras, mencionaram a existência de um ser sobrenatural capaz de ver o passado, o presente e o futuro.

Segundo esses relatos, a divindade recebia rituais ligados à proteção das casas e das atividades agrícolas. As cerimônias eram acompanhadas por tambores ornamentados com penas de quetzal e pelo toque de conchas marinhas. Chapman registrou ainda tradições que descrevem sacrifícios humanos e o derramamento de sangue sobre a imagem da divindade.

Relação com os espíritos da chuva

A escritora salvadorenha María de Baratta, em sua obra Cuzcatlán Típico (1951), preservou tradições recolhidas por Aquilino Argueta entre os indígenas de Torola. Nessas narrativas, uma divindade associada à chuva — que às vezes assumia a forma de uma serpente — era auxiliada por espíritos que personificavam montanhas e colinas.

Esses seres eram invocados para garantir boas colheitas e chuvas abundantes. As cerimônias eram conduzidas por um sacerdote conhecido como misilán, que sacrificava perus e recolhia seu sangue em recipientes de cerâmica. Em seguida, o sangue era derramado sobre uma lagoa que existia nas proximidades de Torola, como parte dos rituais destinados a favorecer a fertilidade da terra.


fontes:

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16 de dezembro de 2025

Maraguana

۞ ADM Sleipnir

Maraguana é uma importante divindade criadora da mitologia Lenca, povo indígena que habitava amplas regiões do atual Honduras e El Salvador. Considerada a principal deusa da religião politeísta original dos Lenca, Maraguana ocupa um papel análogo ao de Quetzalcóatl entre os astecas, Kukulkán entre os maias, Chicunahui-Ehecatl entre os mixtecas e Viracocha entre os incas. Um aspecto singular dessa divindade é que ela representa a versão feminina da Serpente Emplumada, sendo a única instância conhecida dessa figura como uma mulher nas mitologias mesoamericanas e andinas.

Mitologia

Segundo a tradição, a criação da humanidade se deve a Maraguana. Ela teria trazido consigo o pó das estrelas para a Terra e, ao chegar, recolheu grãos secos de milho e sementes de cacau. Em uma pedra de moer e um pote de barro, moldou uma criatura diferente de todas as outras que os deuses haviam criado até então. Essa nova forma de vida foi dotada de consciência e inteligência, dando origem ao primeiro ser humano, que, segundo as narrativas, era uma mulher. O local sagrado onde a criação ocorreu é conhecido como “Ti Ketau Antawinikil”, situado no atual território hondurenho, embora os Lenca também tenham habitado boa parte de El Salvador.

Mais tarde, desejando que a mulher tivesse companhia, Maraguana criou um segundo ser humano, chamado Ti Wanatuku. Ele teria nascido de um ovo, incubado em um ninho de pássaro sobre a cabeça da primeira mulher. Ambos são considerados os ancestrais da humanidade moderna, os primeiros representantes da espécie humana na cosmologia Lenca.

Embora não exista iconografia sobrevivente que retrate diretamente Maraguana, o museu hondurenho Banco Atlántida abriga um artefato que pode representar a deusa: um vaso cerâmico datado do período clássico (cerca de 600–800 d.C.), produzido por artesãos Lenca.

fontes:

Agradecimento especial a leitora Renata, que sugeriu o tema e contribuiu com a sua construção.


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