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4 de outubro de 2012

Quetzalcoatl

۞ ADM Sleipnir

Arte de Simone Torcasio

Quetzalcoatl era um dos deuses mais importantes do antigo panteão asteca e também em outros panteões mesoamericanos. Era conhecido como Kukulkán pelos maias, Gucumatz pelo povo quiché da Guatemala e Ehecatl pelos huastecas da costa do Golfo. Seu nome é a combinação  de duas palavras nauátles: quetzal, nome dado a um pássaro de plumagem esmeralda, e coatl, que significa serpente. Por isso, ele é comumente chamado de "Serpente Emplumada".

Origens

As raízes de Quetzalcoatl, ou pelo menos a forma da serpente emplumada, podem ser traçadas até a civilização olmeca, que existiu entre os séculos XIII e V a.C. A representação de uma serpente divina emplumada pode ser encontrada em uma famosa escultura em pedra olmeca localizada em La Venta, um sítio arqueológico pré-colombiano da civilização olmeca situado no atual estado mexicano de Tabasco. Nessa escultura, um homem é representado sentado diante dessa criatura. O culto à Quetzalcoatl, no entanto, só surgiria vários séculos depois, durante o período clássico tardio.

Monumento 19, La Venta


Atributos

Uma das civilizações desse período em que Quetzalcoatl era cultuado foi a civilização de Teotihuacan, que existiu entre os séculos III e VIII dC. Parece que o povo desta civilização adorava Quetzalcoatl como um deus da vegetação, da terra e da água, sendo intimamente conectado à Tlaloc, um deus da chuva.

Certas mudanças substanciais ocorreram no culto de Quetzalcoatl quando os toltecas chegaram ao poder. Durante este período, Quetzalcoatl foi transformado no deus das estrelas da manhã e da noite- uma vez que a guerra e o sacrifício humano, que eram características centrais desta cultura, estavam ligados à adoração de corpos celestes. Neste papel como deus das estrelas, Quetzalcoatl também era um símbolo de morte e renascimento.

O papel de Quetzalcoatl como uma divindade solar foi mantido durante o período asteca, embora ele tenha recebido uma série de outros papéis também. Por exemplo, Quetzalcoatl foi associado ao planeta Vênus, tornou-se o protetor dos ourives e outros artesãos e era considerado o deus do aprendizado, ciência, artesanato, artes e agricultura. A ele ainda eram atribuídos a invenção do calendário e a descoberta o milho, duas características importantes da civilização asteca. Além disso, Quetzalcoatl tornou-se fortemente associado aos ventos, especificamente como gerador de nuvens de chuva, o que era importante para uma sociedade dependente da agricultura.

Arte de LucasParolin

Quetzalcoatl e a criação

Mais importante, porém, foi a elevação de Quetzalcoatl ao status de um deus criador. Segundo os astecas, Quetzalcoatl era um dos quatro filhos de Ometeotl (também conhecido como o casal divino Tonacateuctli Tonacacihuatl), o deus criador original. Quetzalcoatl e um de seus irmãos, Tezcatlipoca, receberam a tarefa de criar o mundo.

Em uma versão do mito de criação, Quetzalcoatl e Tezcatlipoca constantemente entram em conflito, o que resultou na criação e destruição de várias eras sucessivas. Durante a primeira era, por exemplo, Quetzalcoatl atacou Tezcatlipoca com um taco de pedra, fazendo com que seu irmão enfurecido comandasse seus jaguares para devorar todas as pessoas. Os astecas acreditavam que esse ciclo de criação e destruição já havia ocorrido quatro vezes, e que a época em que viviam (e a nossa também) pertencia à quinta era.

Arte de doingwell

Em uma versão alternativa do mito, os dois irmãos são mais cooperativos, e conseguiram criar a terra e o céu antes da primeira era após se transformarem em serpentes gigantes e partirem em dois a monstruosa divindade conhecida como Tlaltecuhtli (ou Cipactli em outras versões). Similar ao que os deuses nórdicos Odin, Vili e Ve fizeram com o gigante de gelo Ymir, Quetzalcoatl e Tezcatlipoca usaram o corpo de Tlaltecuhtli para criar o mundo. A parte superior do seu corpo tornou-se a terra, as montanhas e os rios; seu cabelo tornou-se árvores e flores; seus olhos tornaram-se cavernas e poços. 

Para criar os humanos, Quetzalcoatl teve que ir até Mictlan (o submundo asteca) e coletar alguns ossos. Acompanhado de seu irmão Xolotl, um deus com cabeça de cachorro, Quetzalcoatl chegou em Mictlan e foi até a presença de Mictlantecuhtli Mictecacihuatl, os dois deuses que governavam esse reino. Os deuses concordam em entregar à Quetzalcoatl os ossos que ele precisava, mas somente se ele fosse capaz de completar o seguinte desafio: ele deveria dar quatro voltas no submundo tocando uma trombeta feita com uma concha. A tarefa parecia simples, porém a concha dada a Quetzalcoatl não produzia nenhum som. Quetzacoatl conseguiu contornar o problema fazendo com que vermes furassem a concha e colocando abelhas dentro dela, reproduzindo assim um som similar ao de um trombeta. 

Arte de nosuku-k

Ao ouvir o som da concha, Michlantechutli permite que Quetzalcoatl pegasse os ossos, porém o deus decidiu que iria roubar alguns dos ossos, enquanto fingiria que estava deixando Mictlan sem nenhum. Após ser ter seu plano descoberto por Mictlantecutli, o deus acaba caindo em uma cova preparada como armadilha para prendê-lo no submundo. Com a queda, os ossos se quebraram em vários pedaços diferentes (segundo a lenda, esta é razão pela qual as pessoas hoje possuem tamanhos diferentes).

Eventualmente, Quetzalcoatl consegue recolher os ossos e escapar do submundo. Ele os entrega para a deusa Cihuacoatl, que os tritura criando uma espécie de farinha e depois coloca essa farinha em um recipiente especial. Os deuses então se reúnem em torno deste recipiente e derramam gotas de seu próprio sangue. A partir dessa mistura, a humanidade é criada.

Arte de Sara Contreras (YunaXD)

Representações 

A representação mais antiga e sobrevivente de Quetzalcoatl é da civilização olmeca, a anteriormente citada escultura localizada em La Venta. Essa representação de Quetzalcoatl como uma serpente emplumada até hoje é a mais comum de se ver, mas não era a única.

A partir de 1200 d.C., Quetzalcoatl passou a ser frequentemente representado na forma humana, geralmente usando joias de concha e um chapéu cônico (copilli). Ele também pode ter uma faixa de chapéu segurando instrumentos de sacrifício, uma flor, um leque de penas pretas e amarelas e brincos de círculos de jade ou conchas em espiral (epcololli). O deus também costumava usar a joia do vento (Ehecailacozcatl), que é uma seção transversal de um verticilo usado como peitoral. 

Como Ehecatl-Quetzalcoatl, ele geralmente era representado na cor preto, usando uma máscara vermelha como o bico de um pato e tem longos dentes caninos. Como deus das direções cardeais, Quetzalcoatl também foi associado às cores preto (norte), vermelho (leste), azul (sul) e branco (oeste).


Após a conquista espanhola, os já complexos mitos em torno de Quetzalcoatl tornaram-se ainda mais distorcidos, situação não ajudada pela confusão da história do deus com a do lendário primeiro governante dos toltecas em Tollan, Ce Acatl Topiltzin Quetzalcóactl, que assumiu o nome de o deus como um de seus títulos. Ainda hoje, a lenda e o simbolismo de Quetzalcoatl perduram, e ele se tornou um farol do orgulho nacional mexicano e um poderoso símbolo da tradição indígena.

Arte de Abueloretrowave

fontes:
  • https://www.ancient-origins.net/myths-legends-americas/rise-quetzalcoatl-plumed-serpent-creator-god-008959
  • https://www.worldhistory.org/Quetzalcoatl/
  • Aztec and Maya Myths, de Karl Taube
  • South and Meso-american Mythology A to Z, 2º edição, de Ann Bingham
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9 comentários:

  1. A percepção de que dinossauros são intimamente relacionados com as aves levantou a possibilidade óbvia da existência de dinossauros emplumados. Fósseis de Archaeopteryx possuem penas bem preservadas, mas até o início da década de 1990 que claramente fósseis não-aviários de dinossauros, foram descobertos com penas preservadas. Hoje há mais de vinte gêneros de dinossauros com penas fósseis, quase todos são terópodes. A maioria é da Formação Yixian da China. As penas fósseis de um espécime, Shuvuuia deserti, apresentou teste positivo em testes imunológicos para a beta-queratina, a principal proteína nas penas das aves.

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    1. Creio que o grande equívoco em tentar entender as culturas que antecederam o mundo moderno está em interpretar tudo de uma forma literal. Uma cultura com uma capacidade de engenharia tão sofisticada como foi essa, com um domínio sobre tantos aspectos técnicos, seria igualmente capaz de criar de mesmo modo sua cultura religiosa e filosófica, porque não, de uma forma alegórica, diria que até mesmo criptografada.
      Sabemos que a serpente é usada em muitas culturas ao redor do mundo para fazer todo o tipo de referência, seja relacionando à algo positivo, ou à algo negativo, isso varia de acordo com a forma que a tal sociedade à vê. Já a associação à ave, pode igualmente representar uma enorme gama de interpretações não literais.
      Acredito que interpretar as culturas antigas de uma forma literal é um grande equívoco, pois já possuímos provas arqueológicas suficientes para sabermos que de uma forma ou de outra, esses povos desafiavam o racional em diversas ocasiões, e mesmo assim não conseguimos explicar tais fatos. Acredito que isso por si só já é o suficiente para no mínimo respeitarmos a visão de mundo que os mesmos tinham, e refletir de uma forma mais aprofundada sobre o tema.
      É um assunto fascinante, e conforme a pedra derrete, as máscaras caem. Forte abraço.

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  2. Gêneros de dinossauros com evidência de penas preservadas
    Fóssil de Sinornithosaurus millenii, a primeira evidência de penas em Dromeossaurídeos.
    Fóssil de Jinfengopteryx elegans.

    Muitos dinossauros não-aviários são conhecidos por terem tido penas. Evidência direta de penas existe para os seguintes gêneros, listados na ordem atualmente aceita e pela data de publicação. Em todos os exemplos, as evidências descritas consiste de impressões de penas, exceto as marcadas com um asterisco (*), o que denota gêneros conhecido por ter tido as penas com base em provas do esqueleto ou químicas, tais como a presença de "puxadores pena".
    http://pt.wikipedia.org/wiki/Dinossauros_emplumados

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  3. Esse deus pode ser considerado um Dragão? :D

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    1. Tecnicamente ele é um dragão

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    2. Na vdd ele seria um Amphiptere, um réptil mitologico com parentesco com os dragões porem sem pernas e braços

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  4. Legal que o blog explica direitinho a influência do deus na América mas não falou sobre a história dele na mitologia

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    1. Esse post é um dos mais antigos do blog, está beeem desatualizado e em processo de revisão a algum tempo. Em breve, caso retorne, poderá conferir o trabalho que estou fazendo em cima dele.

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    2. Pronto, faltava bem pouco pra terminar a revisão, aproveitei e finalizei. Hoje, é o melhor que tenho para trazer sobre Quetzalcoatl, que é uma divindade complicadíssima de explicar e trazer um conteúdo coerente.

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