24 de agosto de 2026

Hun Batz e Hun Chouen

۞ ADM Sleipnir

Arte de Emanuel Pantaleon

Hun Batz e Hun Chouen são dois irmãos da tradição mitológica dos maias quiché das terras altas da Guatemala, conhecidos principalmente por sua participação no Popol Vuh, obra que preserva tradições míticas e históricas desse povo. Filhos de Hun Hunahpu e Xbaquiyalo, eles são meio-irmãos de Hunahpu e Xbalanque, os chamados Heróis Gêmeos. O Popol Vuh descreve Hun Batz e Hun Chouen como músicos, cantores, escritores, escultores e artesãos habilidosos. Depois de entrarem em conflito com Hunahpu e Xbalanque, são transformados em macacos.

Seus nomes aparecem com diferentes grafias. Formas próximas da ortografia quiché moderna são Jun B’atz’ e Jun Chowen, enquanto traduções e estudos também registram formas como Hun Batz, Hun-Batz, Hunbatz, Hun Chouen, Hun Chowen e Hun-Chowen.

Origem e contexto

O Popol Vuh preserva tradições míticas e históricas dos quiché. O texto conhecido foi registrado em língua quiché com caracteres latinos durante o período colonial e posteriormente preservado por meio da transcrição e tradução do padre Francisco Ximénez (1666-1729). Embora Hun Batz e Hun Chouen sejam frequentemente apresentados de forma ampla como personagens da mitologia maia, sua narrativa documentada pertence especificamente à tradição quiché. Existem possíveis relações entre esses irmãos e representações mais antigas de macacos ligados às artes na iconografia maia, mas essas comparações envolvem períodos e contextos culturais diferentes.

Os nomes dos personagens também possuem associações com o calendário e com os macacos. B’atz’ é o nome quiché de um dia calendárico e também pode designar o macaco-uivador. Chowen ou Chouen está relacionado ao termo Chuen, conhecido em outras tradições maias, e a palavras associadas a artesãos. Essas relações ajudam a contextualizar a ligação dos personagens com atividades artísticas, mas não permitem estabelecer traduções simples e definitivas para seus nomes.

Os irmãos artesãos

Hun Batz é apresentado como o filho mais velho de Hun Hunahpu e Xbaquiyalo, e Hun Chouen como o segundo. Embora sejam chamados em parte da bibliografia de “gêmeos macacos”, a designação “irmãos” corresponde melhor à forma como aparecem no Popol Vuh.

Antes do nascimento de Hunahpu e Xbalanque, ambos já são descritos como indivíduos de grande habilidade. Tocavam flauta, cantavam, escreviam, esculpiam e trabalhavam com jade e metais preciosos. Depois que Hun Hunahpu e seu irmão partem para Xibalba, Hun Batz e Hun Chouen permanecem com a avó. Com o nascimento de Hunahpu e Xbalanque, a relação entre os irmãos torna-se hostil. O Popol Vuh atribui aos mais velhos inveja dos jovens e relata que os tratavam mal. Hunahpu e Xbalanque então planejam derrotá-los.

Transformação em macacos

Hunahpu e Xbalanque conduzem Hun Batz e Hun Chouen até uma árvore sob o pretexto de capturar aves. Os irmãos mais velhos sobem para alcançá-las, mas a árvore começa a crescer e os impede de retornar ao chão. Presos entre os galhos, Hunahpu e Xbalanque orientam os irmãos a soltar os panos que traziam presos à cintura. Quando fazem isso, as extremidades das vestes transformam-se em caudas, e eles assumem a forma de macacos. O Popol Vuh utiliza nesse trecho o termo quiché  q’oy, traduzido por Allen J. Christenson como “macaco-aranha”.

Depois da transformação, Hun Batz e Hun Chouen seguem para a floresta, onde passam a saltar entre os galhos e a emitir gritos como macacos. Hunahpu e Xbalanque procuram fazê-los retornar e os atraem por meio da música. Os irmãos aparecem novamente diante da avó, mas sua nova aparência provoca o riso dela, levando-os de volta à floresta. A tentativa é repetida várias vezes. Depois da quarta vez em que a avó ri ao vê-los, Hun Batz e Hun Chouen deixam de retornar.

Arte de Guillermo Grajeda Mena

Associação com as artes

A transformação não elimina a ligação dos irmãos com as atividades que exerciam anteriormente. O Popol Vuh afirma que Hun Batz e Hun Chouen seriam lembrados ou invocados por flautistas, cantores, escritores e escultores. Por isso, podem ser descritos como figuras relacionadas ao patronato das artes dentro da tradição registrada pela obra.

Essa associação também levou estudiosos a compará-los com figuras macacas presentes na arte maia. Objetos do período Clássico, muito anteriores ao registro colonial do Popol Vuh, mostram macacos atuando como escribas ou associados a outras atividades artísticas. Algumas dessas figuras são conhecidas na bibliografia como deuses macacos-uivadores e também apresentam relações com o calendário.

A comparação, porém, não permite identificar automaticamente essas imagens antigas como representações de Hun Batz e Hun Chouen. Há uma distância cronológica considerável entre a arte do período Clássico e o texto quiché registrado no período colonial. Também existe uma diferença entre as espécies de macacos mencionadas nessas tradições. Estudos sobre os deuses macacos costumam tratar de macacos-uivadores, enquanto o Popol Vuh, no episódio da transformação de Hun Batz e Hun Chouen, emprega o termo q’oy, interpretado por Christenson como macaco-aranha. As duas referências, portanto, não correspondem necessariamente à mesma espécie ou ao mesmo contexto tradicional.

Escultura em relevo de pedra na estrutura do Templo 22, no Sítio Arqueológico Maya de Copán, Honduras, comumente associada aos deuses macacos.

fontes:

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17 de agosto de 2026

Centzonhuitznahua

۞ ADM Sleipnir

Os Centzonhuitznahua (também grafado como Centzonuitznaua e Centzonhuitznáhuah) são um grupo de seres da mitologia asteca, mais especificamente da tradição mexica. São conhecidos principalmente pelo mito do nascimento de Huitzilopochtli, no qual, liderados por sua irmã Coyolxauhqui, tentam matar sua mãe, Coatlicue, e acabam derrotados pelo deus recém-nascido.

O nome costuma ser traduzido como “Quatrocentos Meridionais” ou “Quatrocentos do Sul”. O termo náuatle centzontli significa literalmente “quatrocentos”, mas também podia indicar uma quantidade muito grande ou indeterminada. Assim, o número não precisa representar exatamente quatrocentos indivíduos. Os Centzonhuitznahua são frequentemente associados às estrelas do sul, embora essa identificação seja principalmente uma interpretação cosmológica posterior e não uma afirmação explícita da principal fonte do mito.

Nome e origem

A forma Centzonhuitznahua é uma das mais bem documentadas nas fontes coloniais e nos estudos modernos sobre o náuatle. A grafia Centzon Huitznauhtin também aparece em literatura secundária, mas é menos comum nas fontes utilizadas para estudar o grupo. A tradução de Huitznahua como referência ao sul é tradicional, porém não inteiramente segura. O termo também aparece em fontes históricas relacionado a grupos ou facções mexicas, o que torna seu significado mais complexo do que uma simples designação geográfica.

A principal versão do mito dos Centzonhuitznahua encontra-se no Livro III do Códice Florentino, elaborado no século XVI por Bernardino de Sahagún em colaboração com autores e informantes nahuas.

O nascimento de Huitzilopochtli

Segundo o Códice Florentino, Coatlicue vivia em Coatepec, a “Montanha da Serpente”, e era mãe dos Centzonhuitznahua. Coyolxauhqui era a irmã mais velha do grupo. Enquanto Coatlicue realizava atividades rituais, uma pequena bola de penas desceu sobre ela. Ela recolheu as penas e as guardou junto ao corpo. Depois que elas desapareceram, Coatlicue descobriu que estava grávida. Os Centzonhuitznahua consideraram a gravidez uma desonra. Incentivados por Coyolxauhqui, decidiram matar a própria mãe e avançaram armados contra ela em Coatepec.

Coyolxauhqui e os Centzonhuitznahua. Arte de El Omi dibujante 

Um deles, chamado Cuahuitlicac, tomou o partido de Huitzilopochtli e passou a informar o deus, ainda no ventre de Coatlicue, sobre a aproximação dos atacantes. Quando Coyolxauhqui e seus seguidores alcançaram o alto da montanha, Huitzilopochtli nasceu já preparado para a guerra.

A batalha de Coatepec

Huitzilopochtli enfrentou primeiro Coyolxauhqui, utilizando contra ela a sua arma, Xiuhcoatl. Ela foi decapitada, e seu corpo caiu pela encosta de Coatepec, despedaçando-se durante a queda. Em seguida, o deus atacou os Centzonhuitznahua, expulsando-os do alto da montanha e perseguindo-os ao redor de Coatepec. 

Muitos foram derrotados, mas o Códice Florentino não afirma que todos os Centzonhuitznahua morreram. Alguns conseguiram escapar e fugiram para o sul. Depois da vitória, Huitzilopochtli tomou os atavios e as insígnias dos vencidos. Esse detalhe difere de versões modernas que apresentam todos os Centzonhuitznahua como mortos durante o combate.

Arte de Molo Niebla

Relação com as estrelas

Os Centzonhuitznahua são frequentemente identificados como seres ligados às estrelas do sul. A partir dessa interpretação, o mito de Coatepec costuma ser entendido em termos cosmológicos, com Huitzilopochtli associado ao Sol, Coyolxauhqui à Lua e seus irmãos às estrelas. Essa leitura, porém, não aparece formulada dessa maneira no Códice Florentino. A fonte não afirma que os Centzonhuitznahua tenham se transformado em estrelas depois da batalha, nem apresenta explicitamente o combate como uma representação do Sol derrotando a Lua e as estrelas.

Da mesma forma, a versão segundo a qual a cabeça de Coyolxauhqui foi lançada ao céu e transformada na Lua não faz parte de maneira explícita do relato principal do Códice Florentino.

Outras tradições e contexto ritual

O nome Huitznahua também aparece em contextos históricos e políticos relacionados a grupos mexicas. Outras fontes coloniais, como as tradições registradas por Diego Durán e pela Crónica mexicáyotl, relacionam Huitzilopochtli, Coatepec e os Huitznahua de maneiras que não coincidem totalmente com a versão do Códice Florentino. 

O mito também possuía uma dimensão ritual. Estudos sobre as cerimônias de Panquetzaliztli relacionam as celebrações de Huitzilopochtli aos acontecimentos de Coatepec. O Templo Mayor de Tenochtitlan, em seu lado dedicado a Huitzilopochtli, apresentava associações simbólicas com essa montanha mítica. No complexo arqueológico foram encontradas ainda esculturas reclinadas que o Instituto Nacional de Antropología e Historia considera possíveis representações dos Centzonhuitznahua. Algumas possuem uma abertura na região do peito onde teria sido colocada uma pedra verde interpretada como representação do coração. A identificação das esculturas, contudo, não é definitiva.

Esculturas porta-estandartes encontradas na Etapa III do Templo Mayor, em Tenochtitlan, interpretadas como possíveis representações dos Centzonhuitznahua.

fontes:

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5 de julho de 2026

Camaxtli

۞ ADM Sleipnir

Arte de Amauri Esmarq

Camaxtli (também grafado Camaxtle) era uma das principais divindades dos tlaxcaltecas e de outros povos teochichimecas que habitavam o México Central antes da colonização espanhola. Associado à caça, à guerra e à origem do fogo, o deus desempenhava um papel central nos mitos de origem e de migração desses povos. Para os tlaxcaltecas, Camaxtli era a divindade tutelar e protetora, legitimando sua identidade, história e a posse de seu território, além de ser reverenciado como um ancestral que guiou o povo até a terra onde se estabeleceram.

Relação com Mixcóatl

Camaxtli é frequentemente associado a Mixcóatl, cujo nome em náuatle significa "serpente de nuvem". Mixcóatl era o deus mesoamericano da caça, das estrelas e da Via Láctea, considerado pai de Quetzalcóatl em algumas tradições. Embora as duas figuras compartilhem características de deuses caçadores e guerreiros, Camaxtli possuía um caráter mais local e específico de Tlaxcala. Além disso, algumas fontes coloniais aproximam Camaxtli do chamado Tezcatlipoca Vermelho (Tlatlauhqui Tezcatlipoca), um dos aspectos do deus Tezcatlipoca que reforça seus atributos ligados ao poder político e à autoridade militar.

Representação de Mixcoatl-Camaxtli no Códice Tovar (c. 1585)


Deus da caça, da guerra e do fogo

Como divindade da caça e da guerra, Camaxtli era representado com pinturas corporais listradas e portando armas como arco, flechas, dardos e uma rede ou cesto para carregar presas. Na Mesoamérica antiga, a caça ia além da subsistência e possuía também um caráter ritual e militar: a captura de animais selvagens podia ser comparada à captura de prisioneiros em batalha. Camaxtli também era relacionado ao fogo. Segundo algumas tradições, o fogo teria sido obtido por meio da fricção de madeira, técnica associada a Camaxtli e Mixcóatl, o que vinculava o deus a um dos recursos mais importantes para a vida humana.

Camaxtli e a origem dos tlaxcaltecas

Nas crônicas coloniais, como os relatos do historiador mestiço Diego Muñoz Camargo, Camaxtli é descrito como o guia dos antepassados chichimecas. De acordo com a tradição, o deus orientou o povo em sua longa jornada a partir de Chicomoztoc, o mítico lugar das sete cavernas, até o vale onde se estabeleceu a confederação de Tlaxcala. Essa função de guia mítico consolidou Camaxtli como o pilar da memória histórica, da legitimidade dos governantes e da coesão política tlaxcalteca frente a povos rivais, como os astecas.

Culto e rituais

O culto a Camaxtli envolvia jejuns, autosacrifícios, oferendas de alimentos, queima de copal e grandes caçadas rituais organizadas nos principais centros de Tlaxcala, como Tepeticpac e Ocotelulco. Essas práticas se relacionavam à veintena de Quecholli, período de vinte dias do calendário ritual associado a Mixcóatl no mundo mexica e, por extensão, a Camaxtli em Tlaxcala. Durante esse período, realizavam-se caçadas, preparavam-se flechas e ocorriam cerimônias em honra às divindades da caça e da guerra.

Mural "Fiestas Rituales en Homenaje a Camaxtli", no Palácio de Governo de Tlaxcala,
retratando o deus.


Os sacrifícios humanos também faziam parte do ritualismo dedicado a Camaxtli, com o objetivo de manter o equilíbrio cósmico e garantir o sucesso militar. A maior parte das descrições dessas cerimônias provém de crônicas de missionários católicos espanhóis, que costumavam registrar os ritos nativos sob uma perspectiva de condenação religiosa.

Integração no panteão mesoamericano

Embora Camaxtli fosse uma das divindades centrais de Tlaxcala, ele não era o único deus cultuado pelos tlaxcaltecas. Seu panteão incluía Tláloc (deus da chuva), Ehécatl (deus do vento), Xochiquétzal (deusa do amor, beleza e artes), Quetzalcóatl (a serpente emplumada), Tezcatlipoca (o espelho fumegante) e Xipe Tótec (associado à agricultura e à renovação da terra). A veneração de Camaxtli ao lado desses deuses demonstra como os povos nahuas do México Central compartilhavam um repertório religioso comum, no qual cada cidade-estado adaptava e priorizava certas divindades de acordo com sua própria história, identidade e alianças.


fontes:
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15 de junho de 2026

Icelaca

۞ ADM Sleipnir

Icelaca era uma importante divindade da mitologia lenca, associada ao tempo, aos ventos e aos fenômenos atmosféricos. Segundo a tradição, possuía duas faces e a capacidade de enxergar o passado, o presente e o futuro. Por sua ligação com a passagem do tempo e com a sucessão das estações do ano, era conhecido entre os lencas como o "senhor do tempo".

As descrições preservadas sugerem que Icelaca também estava relacionado às forças da natureza. Furacões, tempestades e outros eventos meteorológicos eram frequentemente atribuídos à sua influência. Alguns estudiosos apontam semelhanças entre essa divindade e deuses da chuva e das tempestades de outras culturas mesoamericanas, como Chaac, dos maias, e Tlaloc, dos astecas.

Registros históricos

Icelaca é uma das divindades lencas mais bem documentadas nas fontes coloniais. O primeiro relato conhecido aparece na Descrição da Província da Guatemala (1576), do cronista espanhol Diego García de Palacio. Durante sua passagem por Sesori, ele descreveu uma cerimônia em que quatro jovens, com cerca de doze anos de idade, eram circuncidados, e seu sangue era oferecido a uma representação da divindade.

Segundo o cronista, a imagem de Icelaca tinha forma circular e possuía duas faces cobertas por numerosos olhos, simbolizando sua capacidade de observar diferentes tempos. Além das oferendas de sangue humano, eram sacrificados animais como veados, galinhas e coelhos.

Outro cronista espanhol, Antonio de Herrera, registrou informações semelhantes. De acordo com seu relato, cães que não latiam e perus também eram sacrificados em honra à divindade. Herrera menciona ainda práticas de autossacrifício, nas quais os fiéis ofereciam seu próprio sangue, além de partes do corpo como a língua e as orelhas. Ele descreve a representação de Icelaca como uma grande pedra de três pontas, cada uma delas adornada com um rosto de aparência deformada.

Tradições posteriores

Referências a uma divindade de duas faces continuaram a ser registradas séculos depois. Em The Children of Copal and the Candela (1992), a antropóloga Anne Chapman relata que moradores indígenas da aldeia de Manazapa, no atual departamento de Intibucá, em Honduras, mencionaram a existência de um ser sobrenatural capaz de ver o passado, o presente e o futuro.

Segundo esses relatos, a divindade recebia rituais ligados à proteção das casas e das atividades agrícolas. As cerimônias eram acompanhadas por tambores ornamentados com penas de quetzal e pelo toque de conchas marinhas. Chapman registrou ainda tradições que descrevem sacrifícios humanos e o derramamento de sangue sobre a imagem da divindade.

Relação com os espíritos da chuva

A escritora salvadorenha María de Baratta, em sua obra Cuzcatlán Típico (1951), preservou tradições recolhidas por Aquilino Argueta entre os indígenas de Torola. Nessas narrativas, uma divindade associada à chuva — que às vezes assumia a forma de uma serpente — era auxiliada por espíritos que personificavam montanhas e colinas.

Esses seres eram invocados para garantir boas colheitas e chuvas abundantes. As cerimônias eram conduzidas por um sacerdote conhecido como misilán, que sacrificava perus e recolhia seu sangue em recipientes de cerâmica. Em seguida, o sangue era derramado sobre uma lagoa que existia nas proximidades de Torola, como parte dos rituais destinados a favorecer a fertilidade da terra.


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12 de maio de 2026

Chaquén

۞ ADM Sleipnir

Chaquén é uma divindade da mitologia dos muíscas, povo indígena que habitava o Altiplano Cundiboyacense, na atual Colômbia. Reverenciado como deus dos esportes, da fertilidade e das atividades agrícolas,  ele tinha grande importância na vida social, religiosa e militar desse povo pré-colombiano.

Contexto cultural

Os muíscas formavam uma das civilizações mais organizadas das Américas antes da chegada dos europeus. Eles viviam em uma confederação de territórios governados por líderes conhecidos como zipa e zaque. Como enfrentavam guerras frequentes contra povos vizinhos, como os panches e os muzos, os muíscas davam muito valor ao preparo físico e às habilidades de combate. Dentro dessa realidade, Chaquén era visto como o protetor dos guerreiros guecha, responsáveis pela defesa do território. Os jogos e competições realizados em sua homenagem não serviam apenas para entretenimento, mas também como treinamento para a guerra.

Atributos e simbolismo

Chaquén era ligado à fertilidade de forma ampla, tanto à fertilidade da terra quanto à humana. Relatos do período colonial descrevem o deus como uma entidade que sobrevoava os campos cultivados, protegendo as plantações e garantindo boas colheitas. 

Durante festas e cerimônias, acreditava-se que Chaquén caminhava entre o povo. Essas celebrações reuniam corridas, danças, músicas tocadas com flautas e tambores, além de roupas adornadas com penas e peças de ouro. A chicha, bebida tradicional fermentada, também fazia parte dos rituais e ajudava a reforçar o espírito coletivo das festividades. Os rituais dedicados a Chaquén também estavam relacionados à fertilidade humana e à formação de casais, aspectos importantes para a continuidade da comunidade.

O jogo de tejo

Chaquén também é associado ao tejo, considerado o esporte nacional da Colômbia. O jogo consiste em lançar discos contra um alvo com pequenas cargas explosivas, marcando pontos conforme a precisão dos arremessos.

Acredita-se que o tejo tenha surgido ainda no período pré-colombiano, praticado pelos muíscas tanto como treinamento físico quanto como atividade ritual. O jogo continua popular em várias regiões colombianas e ainda preserva parte do legado cultural ligado a Chaquén.

O castigo de Tintoa e Sunuba

Um dos mitos mais conhecidos associados a Chaquén é o de Tintoa e Sunuba. Tintoa, um jovem guerreiro guecha, apaixonou-se por Sunuba, a principal esposa de um príncipe. Quando o adultério foi descoberto, os dois fugiram juntos, tentando escapar da punição, mas acabaram encontrados por Chaquén.

Tomado pela ira diante da traição, o deus condenou os amantes a uma transformação eterna. Sunuba foi convertida em um junco, destinado a crescer às margens das águas e nos pântanos da savana de Bogotá. Tintoa, por sua vez, transformou-se em uma erva seca e áspera, condenada a brotar apenas em regiões áridas e estéreis. Assim, separados pela própria natureza, os amantes permaneceriam para sempre distantes um do outro, carregando a marca de seu amor proibido.

Legado

A influência de Chaquén persiste na cultura colombiana contemporânea, especialmente por meio da sobrevivência do tejo e da valorização das tradições indígenas. Em reconhecimento à sua importância simbólica, um parque temático na região de Sumapaz, em Bogotá, foi nomeado em sua homenagem.

fontes:


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10 de fevereiro de 2026

Jacawitz

۞ ADM Sleipnir


Jacawitz (também grafado Jakawitz, Jakawits, Qʼaqʼawits e Hacavitz) foi um deus da montanha na religião dos maias quiché do período Pós-Clássico, nas terras altas da atual Guatemala. Ele era o deus patrono da linhagem Ajaw Kʼicheʼ e atuava como companheiro do deus solar Tohil. Há indícios de que seu culto incluísse sacrifícios humanos.

Nome e atributos

O nome jacawitz significa “montanha” nas línguas maias das terras baixas. Já qʼaqʼawitz, nas línguas das terras altas, pode ser traduzido como “montanha de fogo”, o que sugere uma forte associação de Jacawitz com o fogo, semelhante à de Tohil.

Na língua mam, o termo relacionado xqʼaqwitz significa “vespa amarela”, inseto que funcionava como um símbolo importante tanto da divindade quanto da linhagem ligada a ela. Nas línguas cholanas, jacawitz pode ser entendido como “primeira montanha”, associando o deus à montanha primordial da criação.


Jacawitz nos textos quiché

Jacawitz é mencionado no Popol Vuh, o livro sagrado dos maias quiché. Segundo o relato, os primeiros seres humanos reuniram-se no local mítico de Tollan para receber seus deuses, e o senhor quiché Mahucutah foi aquele que recebeu Jacawitz. O deus também aparece em outro documento histórico relevante, o Título de Totonicapán, que registra tradições e linhagens da nobreza quiché.

Além das fontes das terras altas, existem referências mais antigas ao nome de Jacawitz nas terras baixas maias. A Estela 8 do sítio arqueológico de Seibal, datada de meados do século IX, menciona um visitante chamado Hakawitzil, considerado uma forma arcaica do nome Jacawitz. Alguns estudiosos sugerem que esse evento pode ter influenciado as lendas de fundação do povo quiché.

A tríade divina quiché

Jacawitz fazia parte de uma tríade de deuses quiché, ao lado de Tohil e da deusa Awilix. Em certos contextos, os três eram chamados coletivamente de Tohil, visto como o principal membro do grupo. A organização de divindades em tríades é um conceito antigo na cultura maia e remonta ao período Pré-Clássico.


Templo de Jacawitz

A linhagem Ahaw Kʼicheʼ, associada a Jacawitz, foi a fundadora do reino quiché, mas posteriormente perdeu poder para a linhagem Kaweq. Com essa perda de prestígio político, o culto a Jacawitz também entrou em declínio.

O templo dedicado a Jacawitz localizava-se na capital quiché de Qʼumarkaj e era um dos três edifícios mais altos da cidade, embora estivesse voltado para longe da praça principal. Atualmente, o templo se apresenta como um grande monte ao sul da praça, já que suas pedras foram removidas ao longo do tempo, dificultando a reconstrução de sua forma original. Registros do século XIX indicam que a estrutura era uma pirâmide.

Esse templo integrava um complexo arquitetônico composto por um pátio central, um palácio ao sul e um edifício alongado a leste. Até hoje, o complexo de Jacawitz não foi escavado arqueologicamente. Desenhos do século XIX feitos por Miguel Rivera y Maestre sugerem que o templo possuía quatro ou cinco terraços.

Cultura Popular

Hacavitz, uma banda mexicana de metal extremo formada em 2003, teve seu nome inspirado no deus.

Na Marvel Comics, Jacawitz é um antigo Inumano pertencente aos Mayapan, uma irmandade que, há cerca de mil anos, passou a se fazer passar por deuses maias após ser exposta acidentalmente a águas contaminadas por Cristais Terrígenos. Enquanto a maioria morreu, Jacawitz sofreu a Terrigênese e foi transformado em um ser gigantesco composto por uma substância ígnea semelhante à lava, adotando seu nome em referência a Jacawitz, o deus da montanha dos maias quiché.

Jacavitz (Terra 616), Hq "Hulk Vol. 2 #56"


fonte:

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16 de dezembro de 2025

Maraguana

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Maraguana é uma importante divindade criadora da mitologia Lenca, povo indígena que habitava amplas regiões do atual Honduras e El Salvador. Considerada a principal deusa da religião politeísta original dos Lenca, Maraguana ocupa um papel análogo ao de Quetzalcóatl entre os astecas, Kukulkán entre os maias, Chicunahui-Ehecatl entre os mixtecas e Viracocha entre os incas. Um aspecto singular dessa divindade é que ela representa a versão feminina da Serpente Emplumada, sendo a única instância conhecida dessa figura como uma mulher nas mitologias mesoamericanas e andinas.

Mitologia

Segundo a tradição, a criação da humanidade se deve a Maraguana. Ela teria trazido consigo o pó das estrelas para a Terra e, ao chegar, recolheu grãos secos de milho e sementes de cacau. Em uma pedra de moer e um pote de barro, moldou uma criatura diferente de todas as outras que os deuses haviam criado até então. Essa nova forma de vida foi dotada de consciência e inteligência, dando origem ao primeiro ser humano, que, segundo as narrativas, era uma mulher. O local sagrado onde a criação ocorreu é conhecido como “Ti Ketau Antawinikil”, situado no atual território hondurenho, embora os Lenca também tenham habitado boa parte de El Salvador.

Mais tarde, desejando que a mulher tivesse companhia, Maraguana criou um segundo ser humano, chamado Ti Wanatuku. Ele teria nascido de um ovo, incubado em um ninho de pássaro sobre a cabeça da primeira mulher. Ambos são considerados os ancestrais da humanidade moderna, os primeiros representantes da espécie humana na cosmologia Lenca.

Embora não exista iconografia sobrevivente que retrate diretamente Maraguana, o museu hondurenho Banco Atlántida abriga um artefato que pode representar a deusa: um vaso cerâmico datado do período clássico (cerca de 600–800 d.C.), produzido por artesãos Lenca.

fontes:

Agradecimento especial a leitora Renata, que sugeriu o tema e contribuiu com a sua construção.


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3 de novembro de 2025

Ixpuxtequi

۞ ADM Sleipnir

Arte de MoloNiebla


Ixpuxtequi (do náuatle Ixtli, "rosto", e poztecqui, "quebrado, despedaçado"; também grafado Ixpoztecqui, referido como "El cari-roto" em espanhol colonial) é uma criatura aterrorizante da mitologia mexica (nahua). Considerado um monstro noturno, um espírito maligno ou até mesmo uma divindade menor da morte e do destino, Ixpuxtequi  é temido como mensageiro da má sorte e figura associada à morte, ao destino trágico e aos presságios mortais.

Ixpuxtequi é geralmente descrito como uma criatura antropomórfica muito alta, e esquelética, mas com traços grotescos que a diferenciam dos humanos. Seu rosto é deformado, e  desprovido de mandíbula inferior, e seus pés são como os de uma águia. 


Comportamento

Ixpuxtequi é dito habitar Mictlán, o nono e mais profundo nível do submundo nahua, onde residem os mortos. No entanto, há relatos míticos de que ele emerge do submundo para visitar o mundo dos vivos durante a noite. Quando aparece, costuma vagar por caminhos solitários, florestas ou vilarejos durante a madrugada, atacando viajantes que cruzam seu caminho. Muitas vezes disfarçado sob um zarape, se apoia em um bastão e se move de forma encurvada, o que o faz parecer um velho indefeso. Quando as vítimas se aproximam demais, ele revela sua face deformada e arranca-lhes o coração, devorando-o. Em algumas versões, ele utiliza uma lança longa para atacar.

Mesmo quando não mata suas vítimas, a simples visão de Ixpuxtequi é considerada um sinal de mau agouro, capaz de atrair infortúnio e desgraça para quem o vê. Por isso, ele também é interpretado como uma entidade do destino.


Associações

Ixpuxtequi é considerado uma das quatro divindades da morte na cosmogonia mexica, associado à má sorte, destino trágico e forças infernais. Sua presença é relacionada a outras figuras de Mictlán, como Nexoxocho, e, em algumas interpretações coloniais e indígenas tardias, é equiparado ao próprio Satanás ou a Ixicuau.

Ixicuau (ou Icxicuau) é uma figura histórica e mítica mencionada como um dos dez novos chefes nomeados pelos mexicas durante a peregrinação a Atzacualco, por volta do ano 993. Seu nome significa “garra de águia” (icxitl = pé, cuautli = águia). Em alguns textos coloniais e códices, Ixpuxtequi é interpretado como sendo o mesmo que Ixicuau, embora existam controvérsias quanto à fusão ou separação dessas figuras.


fontes:

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20 de outubro de 2025

Tlazolteotl

۞ ADM Sleipnir

Arte de William Lahemar-boisseau

Tlazolteotl (do náuatle clássico Tlāzōlteōtl) é uma deusa asteca, associada ao sexo, luxúria, pecado, fertilidade, impureza, purificação, confissão, e também à morte causada pelo desejo. Sua natureza paradoxal, de provocar o pecado e ao mesmo tempo perdoá-lo, faz dela uma das mais complexas e fundamentais divindades do panteão asteca. 

Estudos arqueológicos e etnográficos indicam que Tlazolteotl possui origens pré-astecas, sendo possivelmente derivada de uma antiga deusa-mãe huasteca da região costeira do Golfo do México. Quando os astecas expandiram seu império, ela foi assimilada ao panteão mexica, incorporando características do politeísmo central e do sistema ritual de Tenochtitlán.

Tlazolteotl rege a 13ª trecena do calendário sagrado asteca Tōnalpōhualli, que se inicia com o dia Ce Ōllin ("Primeiro Movimento"). Seu símbolo animal é o jaguar, representando força, instinto e os aspectos noturnos da sexualidade e da transformação.

Arte de MoloNiebla

Etimologia e Epítetos

O nome Tlazolteotl deriva das palavras náuatles tlazolli (“imundície”, “sujeira”, também com o sentido de pecado) e teōtl (“deus” ou “divindade”), significando literalmente "deusa da imundície" ou "deusa da sujeira". Ela também era conhecida por outros nomes e títulos que refletiam diferentes aspectos de sua natureza:
  • Tlahēlcuāni – “A que come sujeira” (ou “a que devora o pecado”);
  • Tlazōlmiquiztli – “A morte causada pela luxúria”;
  • Ixcuina ou Ixcuinan – “Senhora do Algodão”.
Sob o nome Ixcuinan, Tlazolteotl era entendida como uma divindade quadripartida, composta por quatro irmãs ou manifestações femininas conhecidas como as Ixcuinammeh (ou Tlazōltēteoh):
  • Tiyacapan – a primogênita;
  • Tēicuih (ou Tēiuc) – a irmã mais nova;
  • Tlahco (ou Tlahcoyēhua) – a irmã do meio;
  • Xōcotzin – a mais jovem.
Essas irmãs representavam diferentes fases da vida feminina e eram ligadas ao desejo, à vaidade, ao prazer e à fertilidade. Elas também personificavam o luxo e o excesso.

Ixcuinammeh, por MoloNiebla

Deusa do Pecado e da Confissão

Tlazolteotl é uma das poucas divindades da mitologia mesoamericana que incorpora a ideia de pecado moral, sendo aquela que incita ao desejo carnal, mas também a que perdoa e purifica. A concepção asteca de impureza era tanto física quanto espiritual, e ela era invocada nos rituais de confissão e absolvição conduzidos por sacerdotes especializados chamados tlapouhqui.

O perdão de Tlazolteotl podia ser concedido apenas uma vez na vida, e geralmente era buscado por pessoas idosas próximas à morte. O processo envolvia a escolha ritual de uma data propícia por meio do calendário tōnalpōhualli, confissão oral, aplicação de penitências e banhos rituais em temazcales (banhos de vapor).

Purificação e a Simbologia da Sujeira

A purificação operada por Tlazolteotl envolvia o conceito simbólico da "comida de sujeira": a deusa "devorava" o pecado dos fiéis — representado como imundície — e, assim, promovia a sua purificação espiritual. Isso se relacionava diretamente à ideia náuatle de que tlazolli podia ser tanto um dejeto quanto uma falha moral.

Tlazolteotl também era chamada de "Deusa do Excremento Divino", e algumas representações a mostram com manchas ocre próximas da boca e do nariz, sugerindo que ela literalmente se alimentava da sujeira espiritual dos humanos. Há uma conexão simbólica entre as palavras náuatles para "divino", "ouro" e "excremento", como o termo teocuitlatl (“excremento sagrado”, também usado para se referir ao ouro), reforçando a ambivalência de seu culto.

Arte de Excruciator

Doenças e Punições

Segundo a crença asteca, Tlazolteotl e suas manifestações podiam punir os indivíduos que se entregassem a prazeres ilícitos, enviando-lhes doenças, especialmente aquelas de natureza sexual, como as doenças venéreas. A única forma de cura era por meio de rituais de purificação, banhos de vapor e confissão.

Culto e Festival de Ochpaniztli

Tlazolteotl era uma das divindades principais veneradas durante o festival de Ochpaniztli (“O Ato de Varrer”), celebrado entre 2 e 21 de setembro, no início da estação de colheita. As cerimônias incluíam rituais de limpeza, varrição cerimonial, reparos comunitários, semeadura de milho, danças e cerimônias militares. O festival simbolizava a renovação da terra e a eliminação das impurezas sociais e espirituais.

Cultura Popular
  • Tlazolteotl é uma das muitas divindades a aparecerem na franquia de jogos Shin Megami Tensei;
  • No filme Os Caçadores da Arca Perdida, o artefato fictício, o Ídolo Dourado , é baseado na figura real do parto asteca de Dumbarton Oaks. Presume-se que o artefato seja uma representação de Tlazolteotl. 


fontes:

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