24 de agosto de 2026

Hun Batz e Hun Chouen

۞ ADM Sleipnir

Arte de Emanuel Pantaleon

Hun Batz e Hun Chouen são dois irmãos da tradição mitológica dos maias quiché das terras altas da Guatemala, conhecidos principalmente por sua participação no Popol Vuh, obra que preserva tradições míticas e históricas desse povo. Filhos de Hun Hunahpu e Xbaquiyalo, eles são meio-irmãos de Hunahpu e Xbalanque, os chamados Heróis Gêmeos. O Popol Vuh descreve Hun Batz e Hun Chouen como músicos, cantores, escritores, escultores e artesãos habilidosos. Depois de entrarem em conflito com Hunahpu e Xbalanque, são transformados em macacos.

Seus nomes aparecem com diferentes grafias. Formas próximas da ortografia quiché moderna são Jun B’atz’ e Jun Chowen, enquanto traduções e estudos também registram formas como Hun Batz, Hun-Batz, Hunbatz, Hun Chouen, Hun Chowen e Hun-Chowen.

Origem e contexto

O Popol Vuh preserva tradições míticas e históricas dos quiché. O texto conhecido foi registrado em língua quiché com caracteres latinos durante o período colonial e posteriormente preservado por meio da transcrição e tradução do padre Francisco Ximénez (1666-1729). Embora Hun Batz e Hun Chouen sejam frequentemente apresentados de forma ampla como personagens da mitologia maia, sua narrativa documentada pertence especificamente à tradição quiché. Existem possíveis relações entre esses irmãos e representações mais antigas de macacos ligados às artes na iconografia maia, mas essas comparações envolvem períodos e contextos culturais diferentes.

Os nomes dos personagens também possuem associações com o calendário e com os macacos. B’atz’ é o nome quiché de um dia calendárico e também pode designar o macaco-uivador. Chowen ou Chouen está relacionado ao termo Chuen, conhecido em outras tradições maias, e a palavras associadas a artesãos. Essas relações ajudam a contextualizar a ligação dos personagens com atividades artísticas, mas não permitem estabelecer traduções simples e definitivas para seus nomes.

Os irmãos artesãos

Hun Batz é apresentado como o filho mais velho de Hun Hunahpu e Xbaquiyalo, e Hun Chouen como o segundo. Embora sejam chamados em parte da bibliografia de “gêmeos macacos”, a designação “irmãos” corresponde melhor à forma como aparecem no Popol Vuh.

Antes do nascimento de Hunahpu e Xbalanque, ambos já são descritos como indivíduos de grande habilidade. Tocavam flauta, cantavam, escreviam, esculpiam e trabalhavam com jade e metais preciosos. Depois que Hun Hunahpu e seu irmão partem para Xibalba, Hun Batz e Hun Chouen permanecem com a avó. Com o nascimento de Hunahpu e Xbalanque, a relação entre os irmãos torna-se hostil. O Popol Vuh atribui aos mais velhos inveja dos jovens e relata que os tratavam mal. Hunahpu e Xbalanque então planejam derrotá-los.

Transformação em macacos

Hunahpu e Xbalanque conduzem Hun Batz e Hun Chouen até uma árvore sob o pretexto de capturar aves. Os irmãos mais velhos sobem para alcançá-las, mas a árvore começa a crescer e os impede de retornar ao chão. Presos entre os galhos, Hunahpu e Xbalanque orientam os irmãos a soltar os panos que traziam presos à cintura. Quando fazem isso, as extremidades das vestes transformam-se em caudas, e eles assumem a forma de macacos. O Popol Vuh utiliza nesse trecho o termo quiché  q’oy, traduzido por Allen J. Christenson como “macaco-aranha”.

Depois da transformação, Hun Batz e Hun Chouen seguem para a floresta, onde passam a saltar entre os galhos e a emitir gritos como macacos. Hunahpu e Xbalanque procuram fazê-los retornar e os atraem por meio da música. Os irmãos aparecem novamente diante da avó, mas sua nova aparência provoca o riso dela, levando-os de volta à floresta. A tentativa é repetida várias vezes. Depois da quarta vez em que a avó ri ao vê-los, Hun Batz e Hun Chouen deixam de retornar.

Arte de Guillermo Grajeda Mena

Associação com as artes

A transformação não elimina a ligação dos irmãos com as atividades que exerciam anteriormente. O Popol Vuh afirma que Hun Batz e Hun Chouen seriam lembrados ou invocados por flautistas, cantores, escritores e escultores. Por isso, podem ser descritos como figuras relacionadas ao patronato das artes dentro da tradição registrada pela obra.

Essa associação também levou estudiosos a compará-los com figuras macacas presentes na arte maia. Objetos do período Clássico, muito anteriores ao registro colonial do Popol Vuh, mostram macacos atuando como escribas ou associados a outras atividades artísticas. Algumas dessas figuras são conhecidas na bibliografia como deuses macacos-uivadores e também apresentam relações com o calendário.

A comparação, porém, não permite identificar automaticamente essas imagens antigas como representações de Hun Batz e Hun Chouen. Há uma distância cronológica considerável entre a arte do período Clássico e o texto quiché registrado no período colonial. Também existe uma diferença entre as espécies de macacos mencionadas nessas tradições. Estudos sobre os deuses macacos costumam tratar de macacos-uivadores, enquanto o Popol Vuh, no episódio da transformação de Hun Batz e Hun Chouen, emprega o termo q’oy, interpretado por Christenson como macaco-aranha. As duas referências, portanto, não correspondem necessariamente à mesma espécie ou ao mesmo contexto tradicional.

Escultura em relevo de pedra na estrutura do Templo 22, no Sítio Arqueológico Maya de Copán, Honduras, comumente associada aos deuses macacos.

fontes:

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10 de fevereiro de 2026

Jacawitz

۞ ADM Sleipnir


Jacawitz (também grafado Jakawitz, Jakawits, Qʼaqʼawits e Hacavitz) foi um deus da montanha na religião dos maias quiché do período Pós-Clássico, nas terras altas da atual Guatemala. Ele era o deus patrono da linhagem Ajaw Kʼicheʼ e atuava como companheiro do deus solar Tohil. Há indícios de que seu culto incluísse sacrifícios humanos.

Nome e atributos

O nome jacawitz significa “montanha” nas línguas maias das terras baixas. Já qʼaqʼawitz, nas línguas das terras altas, pode ser traduzido como “montanha de fogo”, o que sugere uma forte associação de Jacawitz com o fogo, semelhante à de Tohil.

Na língua mam, o termo relacionado xqʼaqwitz significa “vespa amarela”, inseto que funcionava como um símbolo importante tanto da divindade quanto da linhagem ligada a ela. Nas línguas cholanas, jacawitz pode ser entendido como “primeira montanha”, associando o deus à montanha primordial da criação.


Jacawitz nos textos quiché

Jacawitz é mencionado no Popol Vuh, o livro sagrado dos maias quiché. Segundo o relato, os primeiros seres humanos reuniram-se no local mítico de Tollan para receber seus deuses, e o senhor quiché Mahucutah foi aquele que recebeu Jacawitz. O deus também aparece em outro documento histórico relevante, o Título de Totonicapán, que registra tradições e linhagens da nobreza quiché.

Além das fontes das terras altas, existem referências mais antigas ao nome de Jacawitz nas terras baixas maias. A Estela 8 do sítio arqueológico de Seibal, datada de meados do século IX, menciona um visitante chamado Hakawitzil, considerado uma forma arcaica do nome Jacawitz. Alguns estudiosos sugerem que esse evento pode ter influenciado as lendas de fundação do povo quiché.

A tríade divina quiché

Jacawitz fazia parte de uma tríade de deuses quiché, ao lado de Tohil e da deusa Awilix. Em certos contextos, os três eram chamados coletivamente de Tohil, visto como o principal membro do grupo. A organização de divindades em tríades é um conceito antigo na cultura maia e remonta ao período Pré-Clássico.


Templo de Jacawitz

A linhagem Ahaw Kʼicheʼ, associada a Jacawitz, foi a fundadora do reino quiché, mas posteriormente perdeu poder para a linhagem Kaweq. Com essa perda de prestígio político, o culto a Jacawitz também entrou em declínio.

O templo dedicado a Jacawitz localizava-se na capital quiché de Qʼumarkaj e era um dos três edifícios mais altos da cidade, embora estivesse voltado para longe da praça principal. Atualmente, o templo se apresenta como um grande monte ao sul da praça, já que suas pedras foram removidas ao longo do tempo, dificultando a reconstrução de sua forma original. Registros do século XIX indicam que a estrutura era uma pirâmide.

Esse templo integrava um complexo arquitetônico composto por um pátio central, um palácio ao sul e um edifício alongado a leste. Até hoje, o complexo de Jacawitz não foi escavado arqueologicamente. Desenhos do século XIX feitos por Miguel Rivera y Maestre sugerem que o templo possuía quatro ou cinco terraços.

Cultura Popular

Hacavitz, uma banda mexicana de metal extremo formada em 2003, teve seu nome inspirado no deus.

Na Marvel Comics, Jacawitz é um antigo Inumano pertencente aos Mayapan, uma irmandade que, há cerca de mil anos, passou a se fazer passar por deuses maias após ser exposta acidentalmente a águas contaminadas por Cristais Terrígenos. Enquanto a maioria morreu, Jacawitz sofreu a Terrigênese e foi transformado em um ser gigantesco composto por uma substância ígnea semelhante à lava, adotando seu nome em referência a Jacawitz, o deus da montanha dos maias quiché.

Jacavitz (Terra 616), Hq "Hulk Vol. 2 #56"


fonte:

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28 de outubro de 2016

Awilix

۞ ADM Sleipnir

Arte do MOBA Smite
Awilix (pronuncia-se Auilix ou Avilix) era a deusa (ou deus, segundo alguns estudiosos) da lua cultuada no período pós-clássico (entre os séc. X a VI) pelo povo quiché-maia, e era conhecida como a Rainha da Noite. Ela era a protetora da linhagem nobre Nija'ib, que governou a capital quiché Gumarcaj entre 1425–1475, e possuía um grande templo na cidade dedicado ao seu culto. A águia era o totem animal dos Nija'ib, e presume-se que a ave era associada com o aspecto lunar da deusa, enquanto o jaguar era associado com seu aspecto de deusa da noite.

Awilix era uma das três principais divindades do povo quiché, juntamente com  os deuses Tohil Jacawitz, e essa trindade foi por vezes referida coletivamente como Tohil, pois este era o mais importante dos três. Awilix é mencionada no Popol Vuh e também em outro importante documento quiché conhecido como o Título de TotonicapánIxbalanque, um dos heróis gêmeos protagonistas do Popol Vuh, é dito ser a encarnação de Awilix.

É provável que Awilix tenha sido derivada da deusa da lua do povo Chontal maia, C'abawil Ix, ou de outra deusa da lua do período clássico maia.

Na cultura popular, Awilix é uma das divindades presentes no MOBA Smite.

Arte de Rafal Gorniak


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22 de abril de 2014

Camazotz

۞ ADM Sleipnir


Camazotz era o deus morcego vampiro dos antigos povos maias, em especial do povo quiché na Guatemala. Esta divindade vampírica era o deus das trevas, violência e sacrifício (especialmente sacrifício de sangue). O próprio nome Camazotz é derivado de duas palavras da língua maia quiché : kame , que significa "morte", e sotz , que significa "morcego". Em Xibalba, o submundo maia, Camazotz preside uma caverna repleta de gigantescos monstros morcegos, chamada de Zotzilaha.

Camazotz se deleita com a matança de pessoas inocentes, e adora beber sangue humano. Aqueles que eram devotos desta divindade abriam uma de suas veias, enchiam uma tigela de madeira ou cerâmica com o seu sangue, e ofereciam à esse morcego da morte.

Originalmente, Camazotz era um morcego antropomórfico adorado pelos índios zapotecas de Oaxaca, e mais tarde foi adotado pelos maias como um deus vampiro, que exigia oferendas de sangue de seus seguidores em troca dos favores ou da ajuda da divindade. Camazotz tem um papel de destaque no Popol Vuh, um compêndio da mitologia e das crenças maias. 


A lenda conta que os heróis gêmeos Hunahpu e Xbalanque encontraram Camazotz e seus servos durante sua jornada pelo submundo. Os irmãos tiveram que espremer-se em suas próprias zarabatanas para se proteger dos morcegos que os cercavam. Hunahpu cometeu o erro de colocar a cabeça para fora para ver se o sol tinha nascido. Camazotz imediatamente arrancou-lhe a cabeça e a levou para ser usada como bola pelos deuses em seu próximo jogo. Xbalanque então apelou a todos os animais na floresta para trazerem seus alimentos favoritos. Um desses animais lhe traz uma abóbora, a partir da qual Xbalanque esculpiu uma nova cabeça para o seu irmão. Os irmãos continuam então sua jornada por Xibalba, e finalmente, encontraram e derrotaram Camazotz (bem como os outros senhores do submundo).

Alguns estudiosos acreditam que a lenda de Camazotz pode ter se derivado de um morcego pré-histórico, Desmodus draculae, ou "o gigante morcego vampiro". Esse morcego era cerca de 25% maior que o morcego comum (Desmodus rotundus). Alguns acreditam que o Desmodus draculae ainda possa existir nos dias de hoje, e que eram aparentemente comuns no tempo dos maias. 



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