16 de maio de 2014

Shichi Fukujin, Os Sete Deuses da Sorte

۞ ADM Sleipnir


Os Shichi Fukujin (japonês 七福神) são um grupo de sete deuses da sorte, fortuna e felicidade presentes na mitologia e folclore japonês. Esses sete deuses possuem origens diversas: alguns são originalmente do budismo, alguns são do xintoísmo, e outros ainda vêm da tradição chinesa. Também existem tradições onde os deuses que compõem o grupo variam, porém os sete estabelecidos no Japão são: Ebisu, Daikoku, Benzaiten, Bishamon, Fukurokuju, Jurôjin e Hotei-Osho. Eles costumam ser representados em conjunto, na forma de estátuas, miniaturas ou gravuras, às vezes a bordo do takarabune (barco dos tesouros). Embora cada um represente no geral  boa sorte, eles também têm características e associações particulares.

Ebisu ( também Yebisu e Kotoshiro-nushi-no-kami)


Ebisu é o deus da sinceridade, e o único membro do Shichi Fukujin de origem japonesa. É o patrono do trabalho, especificamente dos comerciantes e pescadores. Ele é uma figura imponente, normalmente retratado como um pescador, orelhas inchadas, carregando uma vara de pesca na mão direita e um  tai (pargo, robalo ou dourado). Talvez devido à sua pesca bem sucedida, Ebisu está sempre sorrindo. Originalmente, Ebisu era identificado com Hiruko, o primeiro filho dos deuses Izanagi e Izanami.  Segundo a crença popular, ter uma imagem sua em sua casa ou estabelecimento garante sucesso nos negócios.

Daikoku ( ou Daikokuten)


De origem hindu-budista, Daikoku é o deus da riqueza e prosperidade, patrono dos agricultores e líder do Shichi Fukujin. Em sua mão direita ele empunha o martelo de riquezas, que produz moedas de ouro a cada batida e carrega um grande saco de tesouros pendurado no ombro. Ele é geralmente representado em pé ou sentado em cima de sacos de arroz e costuma estar acompanhado de um ou vários ratos, que estão relacionados com a riqueza escondida do saco que ele carrega. Como Ebisu, ele é uma figura gorda e com grandes orelhas. Ele é tradicionalmente associado com o deus hindu Shiva e o deus budista Mahakala.

Benzaiten (ou Benten


Benzaiten é de origem hindu e o único integrante feminino do grupo. Ela é a deusa do amor, da beleza e da eloquência. Benzaiten é geralmente retratada tocando o biwa, um tipo de alaúde ou guitarra, e montando um dragão com quem ela se casou, de acordo com algumas tradições e, com isso, acabou com os ataques do dragão na ilha de Enoshima. Seu mensageiro especial é uma cobra branca e ela é freqüentemente associada com o mar, onde muitos dos santuários dedicados a ela estão localizados. Para os budistas, ela é a padroeira da riqueza, literatura e música, e ela também é a personificação da feminilidade. Algumas representações de Benzaiten costumam retratá-la com oito braços, onde seis mãos estão estendidas sobre a sua cabeça e seguram um arco, uma flecha, uma roda, uma espada, uma chave e uma joia sagrada, enquanto as outras duas mãos restantes estão unidas em oração.

Bishamonten (ou Bishamon e Tamon


Bishamonten é o deus da guerra, patrono dos guerreiros e protetor dos justos. Ele também detêm  o poder de cura e de banir os demônios que traziam doenças. Ele é retratado usando uma armadura chinesa e empunhando uma lança na mão esquerda. Em sua mão direita ele tem uma miniatura de um pagode (um tipo de edifício japonês) que representa um tesouro.Tradicionalmente, Bishamonten é associado com a divindade hindu/budista Kubera ou Vaisravana. Bishamonten não deve ser confundido com o deus da guerra Hachiman Segundo a crença popular, ter uma figura sua em casa afugenta ladrões e preserva os bens da família.

Fukurokuju 


Fukurokuju possui origem chinesa, mas seu nome japonês significa felicidade (fuku), riqueza (roku) e longevidade (ju). Ele é, portanto, conhecido como o deus da sabedoria e longevidade. Tradicionalmente, ele é considerado como tendo sido  uma vez um mortal e vivido como sábio taoísta e a ele é comumente atribuído o poder de ressuscitar os mortos. Ele é descrito como um homem de baixa estatura, careca e de testa longa, e é normalmente acompanhado de um veado, um grou e às vezes uma tartaruga. Quem ganhar uma estatueta ou pintura de Fukurokuju tende a ficar popular e garante longevidade. Segundo a crença popular, passar a mão em sua careca pode melhorar sua inteligência.

Jurôjin 


Jurôjin também é de origem chinesa e também é um deus da longevidade e da sabedoria. Ele as vezes é considerado um deus da ecologia, pois costuma ser representado com um grou, um veado ou uma tartaruga ao seu lado. Como Fukurokuju, a lenda conta que ele viveu na terra como um sábio taoísta. Ele  é representado como um homem velho com uma barba branca, usando um cocar de um sábio e empunhando um cetro sagrado, no qual está pendurado um pergaminho contendo toda a sabedoria do mundo. Às vezes Jurojin é representado com um pote de saquê e só permite que a morte se aproxime quando a pessoa esta preparada para evoluir espiritualmente.  Segundo a crença popular, apreciar uma pintura de Jurôjin diariamente traz sabedoria e longa vida.

Hotei-Osho (ou somente Hotei


Hotei também é originário da China, e é o deus da economia e filantropia. Geralmente é representado com uma enorme barriga e roupa caindo pelos ombros. Seu abdômen avantajado não simboliza a gula, pelo contrário, é símbolo da satisfação. Conhecido como o "Buda Risonho", Hotei é na verdade a representação de um monge chinês frequentemente encontrado em templos, restaurantes e amuletos. No folclore da China, ele acabou sendo associado a Maitreya. Para os japoneses, o "hara" (ventre) representa o coração e personalidade, portanto seu vasto "hara", representa grandiosidade de espírito. No Ocidente ele é muitas vezes  visto erroneamente como uma representação do Buda Siddhartha Gautama. Segundo a crença popular, esfregar sua barriga traz sorte e contemplar sua figura espanta as preocupações.


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15 de maio de 2014

Jano

۞ ADM Sleipnir


Jano (latim Janus ou Ianus) é o deus romano das portas e dos começos e fins, geralmente representado com duas faces viradas para direções opostas. Originalmente, uma das faces possuía barba enquanto a outra não, e às vezes eram uma masculina e a outra feminina (provavelmente simbolizando o sol e da lua). Posteriormente, ambas as faces se tornaram barbudas. Em sua mão direita ele segura uma chave. A sua cabeça de duas faces aparece em muitas moedas romanas, e em torno do 2º século a.C., sua face aparece com quatro faces (talvez haja uma ligação com o eslavo Svetovid)

Jano costumava ser adorado no início da época da colheita, do plantio, casamentos, nascimentos, e outros tipos de ocasiões iniciais, especialmente em eventos importantes na vida das pessoas. Jano também representa a transição entre a vida primitiva e a civilização, entre o campo e a cidade, a paz e a guerra e o crescimento dos jovens.



Mitologia

A origem de Jano é incerta. A versão mais comum conta que ele é filho do deus Apolo e da mortal Creusa, e que ele teria nascido na Tessália, Grécia. Quando jovem, partiu em viagem pelo mar Tirreno, seguido por uma grande frota. Ao aportar em terra firme, ele e seu exército obtiveram várias conquistas e Jano acabou fundando uma cidade chamada Janícula. Posteriormente Jano foi para Lácio e lá conheceu uma ninfa chamada Camasene. Eles se casaram e tiveram um filho, o deus-rio Tiberino (que deu o nome ao rio Tibre). 

Jano e sua esposa governaram Lácio juntos até a morte da mesma. Ele abrigou Saturno quando o mesmo estava fugindo de Júpiter, e, como recompensa, recebeu o dom de enxergar o passado e o futuro.  Jano, como o primeiro rei de Lácio, levou o povo a um tempo de paz e bem-estar; a chamada Idade de Ouro. Ele introduziu o dinheiro, o cultivo dos campos e as leis. Após sua morte, ele foi deificado e tornou-se o protetor de Roma. 

Quando Rômulo e seus companheiros sequestraram as virgens sabinas, os sabinos atacaram a cidade. A filha de um dos guardas do Monte Capitolino traiu seus compatriotas e guiou o inimigo até a cidade. Os sabinos tentaram subir o monte, mas Jano fez uma gêiser de água fervente entrar em erupção a partir do solo, e os pretensos agressores fugiram da cidade. Desde então, as portas de seu templo passaram a ser mantidas abertas em tempos de guerra, para que o deus estivesse pronto para intervir quando necessário. Em tempos de paz, os portões eram fechados.


Seu mais famoso santuário era um portal no Forum Romanum, através do qual os legionários romanos partiam para a guerra. Ele também tinha um templo no Forum Olitorium, e no primeiro século um outro templo foi construído no Fórum de Nerva. Este tinha quatro entradas, chamadas Janus Quadrifons. Quando Roma se tornou uma república, apenas uma das funções reais sobreviveu, ou seja, a de rex Sacrorum ou sacrificulus rex. Seus sacerdotes sacrificavam regularmente à ele. O mês de janeiro (o décimo primeiro mês romano) tem seu nome derivado de Jano.

Jano é uma divindade exclusiva romana, porém as vezes os romanos o associavam aos deuses gregos Zeus e Hermes e a divindade etrusca Ani. É possível, que suas representações o liguem a São Pedro, "porteiro" no Cristianismo, mas seu nome pode ter derivado o nome do profeta bíblico Jonas (Yonah, em hebraico) e ter a origem na mesopotâmica Uanna.

Arte de John Matthew Nanõz

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14 de maio de 2014

Mirmecoleão

۞ ADM Sleipnir



Um mirmecoleão (ou formiga-leão e formicaleão) é uma criatura quimérica resultante do cruzamento entre um leão e uma formiga. As verdadeiras origens do mirmecoleão são bastante obscuras. Apesar do seu nome possuir raízes gregas (Myrmex - formiga e  leon - leão), a primeira menção conhecida do mirmecoleão está registrada em bestiários medievais da antiguidade. No entanto, mesmo estes parecem ter apenas uma compreensão rudimentar dessa interessante e enigmática quimera.

A lenda sobre o mirmecoleão pode ter se originado da tradução errada de uma palavra na versão Septuaginta do Velho Testamento bíblico, do livro de Jó (4:11). A palavra em hebraico é lajisch, uma palavra incomum para o leão, que em outras traduções da obra é processado como leão ou tigre; na Septuaginta é traduzido como mermecolion, formiga-leão. 


Existem duas versões de mirmecoleão. Em uma versão, ele tem o corpo e tamanho de um leão normal e a cabeça de uma formiga, e em outra versão ele possui o corpo e tamanho de uma formiga, mas a cabeça é de leão. O mirmecoleão combina as capacidades e características de ambos, leão e formiga. No entanto, a distribuição dessas características varia. Independentemente da sua dimensão, cada mirmecoleão é capaz de se comunicar com insetos e felinos. Eles também podem subir paredes e outras superfícies. Além disso, eles podem secretar veneno de seus ferrões assim como as formigas normais (porém a dor é equivalente a mil formigas ardendo simultaneamente). Alguns têm dentes de leão, enquanto outros têm mandíbulas de formiga e, ocasionalmente, há raças que têm ambas as mandíbulas de formigas e dentes de leão. Além disso, alguns possuem a força de um leão, enquanto outros ganham força proporcional a uma formiga (capaz de levantar até 150 vezes seu próprio peso corporal). Alguns "mirmecoleões-fêmea" podem colocar ovos, enquanto outros só podem dar à luz, e outros são capazes de alternar entre os dois tipos diferentes de nascimentos.


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13 de maio de 2014

Zaratan

۞ ADM Sleipnir

Zaratan (ou Aspidochelone) é uma tartaruga de tamanho colossal, alternativamente descrita como sendo uma baleia ou peixe gigante. Devido à grande quantidade de lama e terra acumuladas em seu casco ao longo do tempo, arbustos e árvores cresceram nele, transformando Zaratan numa espécie de "ilha viva". Sua aparência costuma enganar muitos marinheiros, que ancoram suas embarcações e montam acampamento sobre ela. Durante a noite, enquanto eles dormem, Zaratan afunda sob as águas, afogando os infelizes marinheiros. Ela também emite um cheiro doce que atrai os peixes em sua armadilha, onde em seguida os devora.

Zaratan figura em muitos bestiários medievais. Ela é mencionada no Physiologus, um manuscrito de Alexandria, datado de 200 a.C. . Ela também é mencionada em As Maravilhas da Criação, de Al Qaswini, no Livro dos Animais, de um naturalista espanhol chamado Miguel Palaciosno Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luis BorgesTambém aparece na primeira viagem de Sinbad nos "Contos das Mil e Uma Noites" .


Criaturas similares à Zaratan aparecem em diferentes culturas. Na mitologia inuíte, existe um monstro chamado Imap Umassoursa. Era um monstro marinho gigante, que muitas vezes era confundido com uma vasta e plana ilha. Quando o Imap Umassoursa emergia da água, ele virava embarcações e os marinheiros fatalmente morriam em meio as águas geladas do Ártico. Ao notar que as águas pareciam rasas, os marinheiros procuravam navegar com cuidado, temendo despertar a terrível criatura.

No folclore irlandês, existe a história de um monstro gigante chamado Jasconius, que violou o barco de São Brandão. Por causa de seu tamanho, Brandão e seus companheiros de viagem confundiram-no com uma ilha e aportaram para acampar sobre ele. Eles celebraram a Páscoa nas costas do gigante adormecido, e acabaram despertando-o após acenderem uma fogueira. Assustados, os homens correram para o seu navio, e Brandão explica-lhes que a ilha se movendo era realmente Jasconius, que tentava, sem sucesso, colocar a própria cauda em sua boca. 

De acordo com a tribo nativo-americana dos Iroquois, a Terra foi criada quando uma mulher chamada Ataensic caiu da abóbada do céu. Os animais fizeram um lugar para ela viver, espalhando a lama das profundezas do oceano sobre o casco de uma grande tartaruga. Desde então, a ilha cresceu e cresceu até atingir o tamanho da América do Norte como a conhecemos hoje.

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12 de maio de 2014

Khnum

۞ ADM Sleipnir

Arte de PTimm

Khnum ( Khnemu , Khenmu , Khenmew , Chnum ) foi um dos mais antigos deuses do Egito, sendo originalmente um deus da água, que se acreditava governar sobre toda a água, incluindo os rios e lagos do submundo. Ele foi descrito como um carneiro, um homem com a cabeça de um carneiro ou um homem com os chifres de um carneiro. Ele era (muito raramente) representado com a cabeça de um falcão, indicando sua conexão com o deus Rá. Ele muitas vezes usa a coroa de plumas brancas do Alto Egito e era por vezes, representado segurando um jarro com água fluindo para fora. Ocasionalmente, Khnum é representado com quatro cabeças de carneiro (representando o deus sol Ra, o deus do ar Shu, o deus da terra Geb e Osíris, o deus do submundo). Nesta forma, ele era conhecido como Sheft -hat.

Khnum era uma divindade associada ao rio Nilo, e fazia com que a sua inundação depositasse lodo preto suficiente nas margens do rio para torná-las férteis. O lodo também formava o barro, a matéria-prima necessária para fazer cerâmica. Como resultado, ele estava intimamente associado com a arte da cerâmica. 

Khnum é responsável pela criação da raça humana e de todos os outros deuses, devido à sua grande habilidade na roda do oleiro, onde ele cuidadosamente criou e moldou cada ser.  Também é atribuída a ele a criação do "Ovo Primordial",  a partir do qual Rá surgiu. Além de criar o corpo e o "ka" (espírito) de cada recém-nascido, ele os abençoava para que fossem saudáveis. 


Khnum também era uma divindade protetora dos mortos, semelhante à Anúbis. Magias invocando a ajuda de Khnum podem ser encontradas no Livro dos Mortos e em muitas das coração- escaravelhos enterrados com os mortos, porque acreditava-se que ele poderia ajudar o falecido a obter uma sentença favorável no Julgamento de Ma'at .

Khnum é um dos deuses que auxiliavam Rá em sua jornada noturna através do submundo. Ele teria criado o barco que transportava Rá e ajudou a defender o deus do sol contra a serpente Apep. No entanto, ele às vezes era considerado o "ba" de Ra, porque a palavra para " carneiro " em egípcio também foi "ba" . Quando Khnum foi fundido com Ra para formar a divindade composta Khnum-Ra, esta divindade foi associada à Nun ( que representava as águas primevas) , e recebeu o epíteto Hap-ur (" grande Nilo " ou " Nilo do céu ") .



Culto

O culto de Khnum estava centrado na ilha de Abu ( Elefantina primeiro nomo do Alto Egito ), onde ele foi adorado desde o período Dinástico. Durante o Novo Império, ele era adorado lá como o líder de uma tríade formada por ele, sua esposa Satet e sua filha Anuket . Ele também era adorado em Esna (Iunyt), onde ele foi pensado ser casado com  Menhet e Nebtu ( uma deusa local) e era o pai de Heka (deus da magia conhecido como "Aquele que Ativa o Ka ") . Ele também foi pensado ser o marido de Neith em Esna. Em Antinoe (Her-wer), ele era casado com Heqet, a deusa-sapo associada ao parto e concepção. Ele foi associado com Her-shef em Herakleopolis Magna, e era frequentemente associado com Osíris. Khnum às vezes era associado com Isis para representar o Alto Egito, assim como Ptah- Tanen foi associado com Néftis para representar o Baixo Egito.

Arte de Rod Wong
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10 de maio de 2014

A Edda Poética: Parte XV (FINAL) - Rígsþula

۞ ADM Sleipnir

Traduçaõ e notas de Márcio Alessandro Moreira.



O Rígsþula ("A Canção de Rígr") é um poema éddico encontrado apenas no Codex Wormianus que é um dos manuscritos da Edda em Prosa de Snorri Sturlusson. Infelizmente esse poema hoje está incompleto e narra à saga sobre como Rígr (Heimdallr) fundou as bases da sociedade humana. Embora muitos estudiosos especulassem que Rígr talvez não seja Heimdallr, o poema Völuspá parece confirmar essa associação, onde os homens são chamados de "filhos de Heimdallr" (Völuspá 01/4). Rígsþula também é conhecido como Rígsmál ("Os Dizeres de Rígr").

Rígsþula

Assim dizem os homens em antigas sagas, que um dos Æsir, que é chamado Heimdallr, viajando em suas jornadas duma certa praia do mar, chegou a uma fazenda e se chamou Rígr*. Depois essa saga é cantada assim:

01-Em tempos antigos dizem que passou
por caminhos verdes,
poderoso e antigo,
o sábio Áss,
forte e bravo,
Rígr, caminhando.

02-Ele foi ao
meio do caminho*;
ele chegou a uma casa,
a porta estava no batente;
ele foi para dentro,
o fogo estava no chão;
um homem e uma mulher se sentavam ali,
grisalhos, na lareira,
Ái e Edda*,
cobertos com um capuz*.

03-Rígr sabia que
conselhos dizer;
ali se sentou
no meio,
e em ambos os lados
estavam o casal domestico.

04-Então Edda pegou
um pedaço de pão,
grande e grosso,
com farelos;
ela trouxe, além disso,
para o meio da mesa,
caldo* numa tigela,
ela sentou-se a mesa;
o bezerro cozido estava
o mais delicioso.

05-Rígr sabia que
conselhos dizer;
então ele se levantou dali,
pronto para dormir*;
ele logo foi
para o meio da cama,
e em ambos os lados
estavam o casal domestico.

06-Ali ele ficou
junto por três noites,
então ele foi
para o meio do caminho;
nisso se passaram
nove meses.

07-Uma criança gerou Edda,
na água o mergulharam*,
-- -- --
-- -- --*
de pele escura*,
e o chamaram de Þræll*.
08-Ele cresceu
e floresceu bem;
ali estavam rugas
em suas mãos,
articulações tortas,
-- -- --*
dedos robustos,
face medíocre,
costas encurvadas,
longos calcanhares.

09-Ele começou com isso,
a tentar sua força,
amarrou cordas*,
carregou cargas;
com isso ele carregava para lar
arbustos ao longo do dia.

10-Lá na habitação veio
uma serva andando,
ela estava com barro na sola dos pés,
braços queimados pela Sól*,
o nariz era curvado,
denominada Þír*.

11-No meio,
ela se sentou;
ela se sentou ao lado
do filho da casa;
falando e conversando,
prepararam a cama
Þræll e Þír,
em melancólicos dias.

12-Eles tiveram crianças,
- e eles viveram felizes, -
eu creio que as crianças se chamavam
Hreimr e Fjósnir,
Klúrr e Kleggi,
Kefsir, Fúlnir,
Drumbr, Digraldi,
Dröttr e Hösvir,
Lútr e Leggjaldi*;
eles faziam cercas,
colocavam estrume no campo,
alimentavam os porcos,
guardavam as cabras,
escavavam a turfa.

13-Suas filhas eram
Drumba e Kumba,
Ökkvinkalfa
e Arinnefja,
Ysja e Ambátt,
Eikintjasna,
Tötrughypja
e Trönubeina*.
Daí veio
à família dos escravos*.

14-Nisso Rígr foi
a caminhos retos,
ele chegou a um salão,
a porta estava semi-aberta,
ele foi para dentro,
havia fogo sobre o pavimento,
um casal se sentava ali,
ocupados com o trabalho.

15-O homem fazia ali
uma vara de tear de madeira;
a barba estava formada,
o cabelo estava volumoso em sua testa,
sua túnica apertada,
uma arca estava no chão.

16-Ali se sentava uma senhora,
girando uma roca de fiar,
com braços estendidos,
fazendo roupas;
um capuz estava sobre sua cabeça,
usando um guarda-pó sobre o peito,
um manto estava sobre o pescoço,
e um broche sobre os ombros.
Afi e Amma*
eram os donos da casa.

17-Rígr sabia que
conselhos dizer;
[ele se sentou
no meio,
e em ambos os lados
estavam o casal domestico].

18-[Então Amma pegou
-- -- --*
o bezerro cozido estava
o mais delicioso.]

19-[Rígr sabia que
conselhos dizer;]
ele se levantou da mesa,
pronto para dormir;
ele logo foi
para o meio da cama,
e em ambos os lados
estavam o casal domestico.

20-Ali ele ficou
junto por três noites;
[então ele foi
para o meio do caminho;]
nisso se passaram
nove meses.

21-Uma criança gerou Amma,
na água o mergulharam,
chamando-o Karl*,
a mulher agasalhou-o com roupas,
ele era [de rosto] avermelhado e ruivo,
com olhos trêmulos*.

22-Ele cresceu
e floresceu bem,
domesticou bois,
construiu o arado,
edificou casas de madeira
e construiu celeiro,
construiu a carroça
e conduzia o arado.

23-Então para essa casa se dirigiu
uma noiva com chaves balançado no cinto*,
com túnica de pele de cabra,
e se deu [em casamento] para Karl;
ela se chamava Snör*,
e se sentava coberta com um véu;
o casal viveu junto,
trocaram anéis,
cobriram-se com lençóis
e fizeram um lar.

24-Eles tiveram crianças,
- e viveram felizes, -
chamados de Halr e Drengr,
Hölðr, Þegn e Smiðr,
Breiðr, Bóndi,
Bundinskeggi,
Búi e Boddi,
Brattskeggr e Seggr*.

25-Mas assim que se chamavam
os nomes das outras,
Snót, Brúðr, Svanni,
Svarri, Sprakki,
Fljóð, Sprund e Víf,
Feima, Ristill*.
Daí veio
à família dos homens rústicos*.

26-Nisso Rígr foi
a caminhos retos;
ele chegou a um salão,
com a porta em direção ao sul,
a porta estava semi-fechada,
havia um anel no batente da porta.

27-Nisso ele entrou,
o pavimento estava coberto com palha;
o casal estava sentado,
olhando-se com os olhos,
Faðir e Móðir*,
que brincava com os dedos.

28-O homem da casa estava sentado
e enrolava o fio,
na curva do arco,
e preparava flechas;
mas a esposa
olhava em seus próprios braços,
alisando as roupas,
dobrando as mangas.

29-Ela tinha um véu,
havia um broche em seu peito,
um longo vestido,
uma camisa azul;
sobrancelhas brilhantes,
seios iluminados,
e pescoço branco,
mais puro do que a neve.

30-Rígr sabia que
conselhos dizer;
ele se sentou
no meio,
e em ambos os lados
estavam o casal domestico.

31-Então Móðir pegou
um pano bordado,
de linho branco,
cobriu a mesa,
nisso ela pegou
um pão fino,
de trigo branco,
e colocou sobre o pano da mesa.

32-Adiante ela trouxe
pratos cheios,
cobertos* com prata,
--* na mesa
com presunto branco
e pássaros assados,
o vinho estava no jarro,
os copos eram trabalhados;
bebiam e conversava,
o dia estava no fim.

33-Rígr sabia que
conselhos dizer;
nisso ele se levantou,
e preparou a cama.
Ali ele ficou
junto por três noites;
então ele foi
para o meio do caminho;
nisso se passaram
nove meses.

34-Um garoto gerou Móðir,
em seda embrulhou-o,
na água o mergulharam,
colocaram-lhe o nome de Jarl*;
louro* era o seu cabelo,
sua face brilhante,
e olhos penetrantes
como as das jovens serpentes.

35-Ali cresceu
Jarl, no salão,
aprendeu a sacudir o escudo,
colocar corda,
em arcos curvados,
pontas nas flechas,
atirar dardos,
sacudir a lança,
cavalgar cavalos,
caçar com cães*,
manejar a espada,
e a nadar.

36-Ali do bosque veio
Rígr andando,
Rígr andando,
ensinou-lhe runas,
transmitiu-lhe o seu nome*,
chamou-o de seu próprio filho;
ele pediu para este para que possuísse
seu patrimônio,
o patrimônio
de antigas habitações.

37-Dali ele cavalgou
através da Myrkviðr*,
sobre montanhas cinzentas,
até que ele chegou em um salão;
ele sacudiu a lança,
brandiu seu escudo,
cavalgou seu cavalo
e atirou sua espada,
guerras ele levantou,
planícies avermelhou*,
derrubou corpos,
lutou por terras.

38-Nisso ele governou sozinho
dezoito salões,
riquezas conseguiu acumular,
doou a todos
os tesouros e preciosidades,
e belos cavalos;
anéis ele distribuiu,
e cortou em pedaços os braceletes*.

39-Seus mensageiros se dirigiram
para úmidos caminhos,
chegando a um salão,
onde habitava Hersir*,
ele tinha uma filha
de dedos finos,
branca e sábia,
chamada Erna*.

40-Pediram por ela*
e se dirigiram ao lar,
e a deram [em casamento] para Jarl,
ela foi coberta com linho;
eles viveram juntos
e estavam felizes,
tiveram uma família
e viveram felizes.

41-Burr era o mais velho,
e Barn o segundo,
Jóð e Aðal,
Arfi, Mögr,
Niðr e Niðjungr,
- que se ocupavam com jogos, -
Sonr e Sveinn,
- nadavam e jogavam, -
um se chamava Kundr,
Konr* era o mais jovem.

42-Ali cresceram
os filhos de Jarl,
treinando cavalos,
empunhando escudos,
cortando flechas,
e sacudindo os freixos*.

43-Mas o jovem Konr
conhecia as runas,
runas eternas
e runas da vida;
ele conhecia mais,
que ajudavam os homens,
embotava as espadas,
e acalmava o mar.

44-Conhecia o canto dos pássaros,
aquietava o fogo,
adormecia as mentes*,
acalmava as tristezas,
ele tinha a força e resistência
de oito homens*.

45-Ele e Rígr Jarl
compartilharam runas,
mediram-se suas habilidades com ele
e sabia mais,
então venceu
e pode se dar
o nome de Rígr*,
o conhecedor das runas.

46-O jovem Konr cavalgou
pelos bosques e florestas,
atirou dardos,
aquietou pássaros.

47-Então um corvo disse isso,
que estava pousado num galho:
"Por que, jovem Konr,
tu aquieta pássaros?
Em vez disso tu poderias
cavalgar cavalos,
[manejar espadas]
e matar heróis*."

48-"Danr e Danpr*
possuem um querido salão,
altas propriedades,
mais do que tu tens;
eles sabem bem
conduzir um navio,
a usar a lâmina,
e fazer feridas*."


Notas do Rígsþula:
  • *Rígr possivelmente significa "Rei" e está certamente associado com a palavra em irlandês arcaico "ri" ou "rig" com o mesmo significado. A palavra "ríkr" em nórdico arcaico também pode ter relação, pois significa "governante" ou "poderoso".
  • 02/2* Miðgarðr.
  • 02/9* Ambos significam "Bisavô" e "Bisavó".
  • 02/10* Edda, Amma e Móðir aparecem todas cobertas com um capuz ou véu.
  • 04/7* Esse caldo era feito com a água que era cozinhada com a carne.
  • 05/4* O manuscrito tem a ordem dessas estrofes invertidas e aqui elas estão rearranjadas.
  • 07/2* Essa prática é o Ausa Vatni ("Mergulhar nas Águas"), que é um tipo de batismo pagão.
  • 07/4* O manuscrito parece indicar uma lacuna.
  • 07/5* Pele e cabelos escuros parecem indicar origem estrangeira entre os escandinavos. Saxo Grammaticus na Gesta Danorum relata que Haddingus ofertava vítimas negras em honra de Freyr. Esse festival anual era conhecido como Frøblót ("Sacrifício de Freyr").
  • 07/6* Significa "Escravo".
  • 08/6* O manuscrito parece indicar uma lacuna.
  • 09/3* Cordas feitas de certas árvores.
  • 10/4* O Sol ("Sól") é feminino no norte e a Lua ("Máni") é masculino.
  • 10/6* Þír significa "Mulher Servente".
  • 12/9* Os nomes significam: Hreimr ("Aquele Que Fala Alto"), Fjósnir ("Homem do Gado"), Klúrr ("Grosseiro"), Kleggi ("Mosca de Cavalo?"), Kefsir ("Guardião de Concubina"), Fúlnir ("Fedorento"), Drumbr ("Tronco"), Digraldi ("Gordo"), Dröttr ("Preguiçoso"), Hösvir ("Cinzento"), Lútr ("Aquele Que Está Sentado") e Leggjaldi ("Perna Longa").
  • 13/8* Os nomes significam: Drumba ("Tora"), Kumba ("Toco"), Ökkvinkalfa ("Pernas Gordas"), Arinnefja ("Que Cheira a Simples"), Ysja ("Barulhenta"), Ambátt ("Servente"), Eikintjasna ("Cavilha de Carvalho?"), Tötrughypja ("Vestida em Trapos") e Trönubeina ("A Que Estica as Pernas?").
  • 13/10* Em nórdico arcaico "Þræla Ættir".
  • 16/9* Ambos significam "Avô" e "Avó".
  • 18/2* O manuscrito está incompleto.
  • 21/3* Significa "Homem (Rústico)" ou "Camponês".
  • 21/6* É de se notar uma leve semelhança na descrição de Karl com o Deus Ruivo Þórr. Ambos possuem pele avermelhada, cabelos ruivos e modos rústicos.
  • 23/2* No poema Þrymskviða é dito que quando Þórr se disfarçou de Freyja usou chaves em seu cinto quando foi para Jötunheimr.
  • 23/5* Significa "Nora".
  • 24/8* Os nomes significam: Halr ("Homem"), Drengr ("O Forte"), Hölðr ("Proprietário"), Þegn ("Homem Livre"), Smiðr ("Artesão"), Breiðr ("O De Amplos Braços"), Bóndi ("Fazendeiro"), Bundinskeggi ("O De Barba Dividida"), Búi ("Vizinho"), Boddi ("Proprietário de Fazenda"), Brattskeggr ("O Que Carrega Grande Barba") e Seggr ("Homem").
  • 25/6* Os nomes significam: Snót ("Digna"), Brúðr ("Noiva"), Svanni ("A Esbelta"), Svarri ("A Orgulhosa"), Sprakki ("A Bela"), Fljóð ("Mulher?"), Sprund ("A Orgulhosa"), Víf ("Esposa"), Feima ("A Tímida") e Ristill ("A Graciosa").
  • 25/8* Em nórdico arcaico "Karla Ættir".
  • 27/5* Ambos significam "Pai" e "Mãe".
  • 32/3* Trabalhados.
  • 32/4* O manuscrito está danificado, mas acredita-se que a estrofe começava assim: "... os colocou..."
  • 34/4* Significa "Nobre". É de se notar que os chefes eram associados com a sabedoria das runas e ao culto de Óðinn.
  • 34/5* Os cabelos são um tom louro esbranquiçado.
  • 35/10* Estrofe meio difícil de se interpretar, pode ser uma alusão ao treinamento do cão para a caça ou de puxar o trenó.
  • 36/5* Heimdallr dá seu título de Rígr para seu filho Jarl.
  • 37/2* Significa "Floresta Negra".
  • 37/10* Com o sangue dos inimigos.
  • 38/8* Isso servia como dinheiro em tempos antigos na Escandinávia.
  • 39/4* Significa "Senhor". Em antigos dias antes do estabelecimento de um reino na Noruega, Hersir era tido como um chefe local e possuía grande autoridade.
  • 39/8* Significa "A Capaz".
  • 40/1* Pediram o consentimento para o pai dela (ou dela própria) para poder se casar
  • com Jarl.
  • 41/10* Os nomes significam: Burr ("Filho"), Barn ("Criança"), Jóð ("Criança"), Aðal ("Descendência"), Arfi ("Herdeiro"), Mögr ("Filho"), Niðr ("Descendente"), Niðjungr ("Filho"), Sonr ("Filho"), Sveinn ("Garoto"), Kundr ("Parente") e Konr ("Filho").
  • 42/6* Lanças.
  • 44/3* Também é traduzido como "adormecer o mar".
  • 44/6* Esses encantamentos são muitos semelhantes aos que são descritos no Hávamál.
  • 45/7* Konr e seu pai Rígr-Jarl mediram conhecimentos rúnicos e terminou com a vitória de Konr. Com isso ele passou a usar o título de Rígr depois de seu pai. Isso talvez indique que o filho era capaz de suceder o pai e que a herança era passada de pai
  • para filho.
  • 47/8* Também pode ser traduzido como guerreiros ou exércitos.
  • 48/1* Acredita-se que o Rígsþula possa ter sido redigido na Dinamarca. Fragmentos da Skjöldunga Saga afirmam que Rígr (ou Rigus) era casado com Dana, a filha de Danpr, o senhor de Danpsted. Conta-se que quando ele ganhou o título real de sua província, ele deixou isso como herança para Danr (ou Danum), seu filho com Dana, de onde vieram os Dinamarqueses.
  • 48/8* É uma pena, mas o manuscrito termina abruptamente.

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