8 de janeiro de 2026

Antu (Pillán)

۞ ADM Sleipnir

Antu (também grafado Antü) é uma divindade central na mitologia mapuche, sendo considerado o mais poderoso dos espíritos conhecidos como pillán. Ele representa o Sol, a luz, a sabedoria e o espírito, sendo o oposto simbólico da escuridão, do mundo físico e das forças destrutivas. Antu é tradicionalmente descrito como o governante supremo dos outros pillán e esposo da deusa Kuyén (ou Kueyen), um dos espíritos conhecidos como wangulén, e que representa a Lua.

Etimologia e simbolismo

Na cosmologia mapuche, os pillán são poderosos espíritos ancestrais masculinos que habitam o Wenumapu (mundo celestial), enquanto os wangulén são espíritos-estrela femininos, associados ao brilho e às constelações. A relação de Antu com o Sol reflete uma divisão simbólica comum a diversas culturas indígenas e tradicionais, onde o Sol é associado ao princípio masculino e à racionalidade, e a Lua ao princípio feminino e à intuição. O casamento de Antu com a Lua (Kuyén) é parte de uma estrutura mitológica recorrente em várias civilizações.

Antu e Kuyen, Arte de Sara Contreras (YunaXD)

Com a cristianização dos povos mapuches, Antu foi progressivamente fundido ao conceito de Ngenechén, uma entidade suprema que incorpora múltiplos aspectos divinos, embora originalmente espíritos como Antu fossem figuras distintas.

A Batalha dos Pillán

Segundo a tradição oral mapuche, quando Antu decidiu tomar uma wangulén como esposa, todas desejaram ser escolhidas, pois Antu era o mais brilhante entre os pillán. No entanto, Antu escolheu Kuyén, por ser a mais luminosa, e essa escolha deu início a uma grande discórdia entre as demais estrelas.

O principal instigador do conflito foi Peripillán, o espírito vermelho do fogo e rival direto de Antu. Movido pela inveja, Peripillán ressentia-se do fato de que o ouro de Antu não era ofuscado pelas chamas, enquanto Antu, por sua vez, nutria ressentimento porque o fogo de Peripillán brilhava mais intensamente que o ouro em meio à escuridão. Com o fim da harmonia e o colapso da ordem sagrada, a paz deixou de existir, e os dois pillán entraram em guerra. 

Peripillán, arte de Kryzzx3

Outros espíritos tomaram partido no conflito, com muitos pillán e todas as wangulén apoiando Peripillán. A batalha foi longa e violenta, fazendo a terra estremecer e afetando não apenas o mundo dos humanos, mas também o Minche Mapu (em mapudungun, “mundo subterrâneo” ou “mundo de baixo”) e o Ankawenu (o mundo elevado ou das alturas espirituais). À medida que o conflito se prolongava, os filhos dos antigos espíritos, já crescidos, desejaram tomar o lugar de seus pais e se voltaram contra eles.

Tomados pela fúria, Antu e Peripillán agarraram seus filhos gigantes pelos longos cabelos e os arremessaram contra o chão rochoso. Um deles caiu no Puelmapu (território oriental, associado às terras além da Cordilheira dos Andes) e o outro no Lafkenmapu (território costeiro, ligado ao mar). Ao caírem, seus corpos duros marcaram profundamente a terra, formando altas montanhas à medida que se despedaçavam e afundavam nas profundezas do solo.

Ao final da batalha, Antu saiu vitorioso e derrotou Peripillán. Cego pela ira e desejando vingança, lançou os pillán vencidos para o interior da terra, enterrando-os sob rochas, colinas e cadeias montanhosas. Sobre Peripillán, o mais poderoso entre eles, ergueu as montanhas mais altas. Ainda assim, o fogo de Peripillán não foi completamente extinto. As tentativas desses espíritos aprisionados de se libertarem fazem a terra tremer, causando abalos sísmicos; em certos momentos, seu fogo consegue escapar brevemente das prisões montanhosas, manifestando-se como fumaça e colunas de lava que emergem dos vulcões.


Arte de Racobarra

Enquanto isso, as wangulén, temendo represálias, choraram e imploraram por clemência. Suas lágrimas escorreram entre e sobre as montanhas recém-formadas, dando origem aos lagos e congelando-se como neve nos cumes mais altos. Comovido, Antu decidiu poupá-las, mas enfraqueceu seu brilho, tornando-o pálido e discreto, para que nenhuma pudesse rivalizar com a luz de Kuyén.

Entre os corpos derrotados estavam os filhos de Antu e Peripillán. As esposas desses espíritos choraram profundamente sua perda, e Antu, tocado por sua dor, decidiu trazê-los de volta à vida, porém sob novas formas: como serpentes gigantes míticas. O filho de Peripillán passou a ser conhecido como Cai Cai-Vilu (ou Coi Coi-Vilu, serpente associada às águas e às inundações), enquanto o filho de Antu tornou-se Ten Ten-Vilu (serpente ligada à terra firme e à elevação do solo). Assim como seus pais, essas duas entidades tornaram-se forças rivais da natureza, cumprindo a vontade dos antigos espíritos.

Como consequência final do conflito, a terra foi tão violentamente abalada que espíritos malignos conhecidos como wekufes (entidades caóticas e corruptoras) foram libertados de suas prisões subterrâneas e passaram a vagar pelo mundo. Desde então, segundo a tradição mapuche, o universo jamais recuperou plenamente sua harmonia original.

Arte de Mauricio Cid

fontes:

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