7 de fevereiro de 2026

O "Gaseador Louco" de Mattoon

۞ ADM Sleipnir


O Gaseador Louco de Mattoon (em inglês Mad Gasser of Mattoon), também conhecido como “Ladrão Anestésico”, “Fantasma Anestesista” ou simplesmente “Gaseador Louco”, foi um episódio ocorrido entre o final de agosto e meados de setembro de 1944, na cidade de Mattoon, Illinois, Estados Unidos. O caso caracterizou-se por uma série de relatos envolvendo a suposta liberação de um gás tóxico em residências durante a noite, causando mal-estar físico e paralisia temporária em moradores. O episódio ganhou ampla atenção da imprensa local e nacional e, posteriormente, passou a ser interpretado por pesquisadores como um provável caso de histeria coletiva, embora outras hipóteses tenham sido levantadas.

Contexto histórico

Os acontecimentos tiveram lugar durante a Segunda Guerra Mundial, período marcado por elevada tensão social, medo de ataques e ampla circulação de notícias relacionadas ao uso de armas químicas. Jornais norte-americanos frequentemente publicavam reportagens alertando para a possibilidade de ataques com gás contra civis, o que contribuiu para um clima generalizado de ansiedade.

Em setembro de 1944, publicações locais como o Daily Illini dividiam espaço entre notícias do conflito e relatos de um evento incomum que se desenrolava em Mattoon. Fundada no século XIX, Mattoon era uma cidade de pequeno porte, com cerca de 18 mil habitantes à época, localizada aproximadamente 79 km ao sul de Champaign. Sua economia estava ligada, entre outros fatores, à indústria ferroviária e a fábricas envolvidas no esforço de guerra, o que reforçava a percepção de risco entre os moradores.

Relatos dos incidentes

Entre 31 de agosto e 13 de setembro de 1944, mais de duas dezenas de moradores relataram episódios semelhantes. As vítimas afirmavam acordar durante a madrugada sentindo um odor adocicado e incomum dentro de suas casas. Pouco depois, surgiam sintomas como fraqueza nas pernas, tontura, náuseas, tosse, vômitos, sensação de queimação na garganta e, em alguns casos, paralisia temporária que podia durar até uma hora.

Arte de John Simcoe

Um dos primeiros relatos conhecidos ocorreu em 31 de agosto, quando um casal afirmou ter sido acometido por mal-estar súbito após perceber o odor. Na mesma noite, uma vizinha relatou ter ficado temporariamente paralisada, incapaz de se levantar para acudir a filha que tossia em outro cômodo da casa.

Em 1º de setembro, um dos episódios mais citados forneceu a descrição mais difundida do suposto agressor. A moradora Mrs. Kearney relatou ter sentido um cheiro forte e adocicado por volta das 23h, seguido da perda de sensibilidade nas pernas. Após a saída da polícia, seu marido, Bert Kearney, afirmou ter visto um homem próximo à janela do quarto, que fugiu ao ser confrontado. Segundo sua descrição, tratava-se de um homem alto, vestindo roupas escuras e usando um boné justo — imagem que se tornaria o retrato padrão atribuído ao Gaseador Louco.

Em 5 de setembro, surgiu o que foi considerado o único indício físico associado aos ataques. Em uma residência na North 21st Street, os moradores Carl e Beulah Cordes encontraram um pequeno pedaço de pano branco em sua varanda. Ao manuseá-lo e sentir seu odor, Beulah Cordes teria apresentado forte reação física, incluindo inchaço no rosto, sensação intensa de queimação na boca e na garganta, vômitos e paralisia parcial das pernas. O objeto foi analisado pelas autoridades, mas nenhum agente químico conclusivo foi identificado.


Cobertura da imprensa e reação das autoridades

Em 12 de setembro de 1944, o Daily Illini noticiou que ao menos 33 pessoas haviam relatado a presença do gás em um intervalo de cerca de 12 dias. A ampla cobertura da imprensa contribuiu para a rápida disseminação do medo na cidade. Relatos indicam que moradores passaram a montar patrulhas noturnas, adquirir armas e reforçar a segurança de suas casas.

No mesmo dia, o chefe de polícia de Mattoon, C. E. Cole, divulgou um comunicado oficial afirmando que a investigação não havia encontrado evidências concretas da atuação de um agressor. Segundo a polícia, mudanças na direção do vento durante a noite poderiam ter feito com que gases provenientes de fábricas ligadas ao esforço de guerra atravessassem janelas abertas e entrassem nas residências. As autoridades também consideraram que parte dos relatos poderia ser explicada por sugestão psicológica e medo generalizado.

Quanto às figuras humanas vistas por algumas testemunhas, a polícia sugeriu que poderiam se tratar de curiosos ou vizinhos atraídos pelo tumulto gerado pelos supostos ataques. Apesar da mobilização local e do envolvimento de órgãos estaduais, nenhum suspeito foi formalmente acusado.

Teorias e interpretações

A interpretação mais aceita atualmente é a de que o episódio constituiu um caso de histeria coletiva. A similaridade dos sintomas, a ausência de evidências químicas conclusivas e o contexto de medo intenso durante a guerra são apontados como fatores determinantes para a propagação dos relatos.

Outra explicação considerada à época envolvia a liberação acidental de vapores químicos por instalações industriais locais, como a empresa Atlas-Imperial. Substâncias como tetracloreto de carbono ou tricloroetileno, utilizadas industrialmente, foram citadas como possíveis causadoras dos sintomas descritos, embora nenhuma ligação direta tenha sido comprovada.

Algumas teorias defendem que um agressor real possa ter cometido parte dos ataques ou se aproveitado do pânico para agir como imitador. Em 2003, o escritor Scott Maruna publicou um livro no qual sugeriu que os incidentes teriam sido obra de Farley Llewellyn, um ex-estudante de química da Universidade de Illinois. Segundo Maruna, Llewellyn possuía conhecimento técnico para produzir substâncias incapacitantes e teria sido alvo de hostilidade social na comunidade. Llewellyn chegou a ser considerado suspeito e colocado sob vigilância, mas nunca foi formalmente acusado. Pouco tempo após os eventos, sua família o internou em uma instituição psiquiátrica. A teoria, no entanto, permanece controversa e carece de provas conclusivas.

Arte de Rob Morphy

fontes:
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