۞ ADM Sleipnir

Arte de Moyi Zhang
CAPÍTULO LI:
O MACACO DA MENTE RECORRE A MIL TRUQUES EM VÃO. NEM O FOGO NEM A ÁGUA SÃO CAPAZES DE FERIR O MONSTRO.



— Oh, mestre! — exclamou, enquanto as lágrimas corriam pelo seu rosto. — Sempre acreditei que ao seu lado encontraria o verdadeiro caminho para a vida e a iluminação. As doutrinas de Buda não pregam a benevolência e a paz? Esse sempre foi o meu maior desejo: poder viver e trabalhar ao seu lado, descansar quando o senhor descansasse, praticar os mesmos atos de virtude e, assim, provar que somos frutos da mesma árvore espiritual. Pensar e meditar como o senhor, até que nossas mentes se tornem uma só, seguir seus passos sem hesitação até o fim da jornada... Jamais imaginei que perderia o bastão da minha determinação. Como poderei seguir em frente sem ele?
O Grande Sábio continuou lamentando-se por horas a fio. Mas, de repente, seus olhos se iluminaram e ele murmurou para si mesmo:
— Que estranho aquele monstro ter me reconhecido! Agora me recordo que, durante a luta, ele exclamou, surpreso com meu modo de combater: "Só alguém que já lançou os Céus no caos poderia brandir as armas com tamanha maestria!" Isso prova que essa criatura não pertence ao mundo mortal. Deve ser uma estrela maligna que caiu dos Céus, seduzida pelas ilusões terrenas. Quem será esse monstro? O melhor a fazer agora é visitar as Regiões Superiores e fazer algumas perguntas.
Foi assim que, utilizando a mente para enfrentar a própria mente, o Peregrino recuperou a confiança que havia perdido. Com um salto, levantou-se, montou em uma nuvem e seguiu diretamente para o Portão Sul dos Céus. Ao erguer a cabeça, reconheceu imediatamente o Devaraja Virupaksa, que, após se inclinar respeitosamente, perguntou:
— Posso saber para onde vai, Grande Sábio Sun?
— Desejo uma audiência com o Imperador de Jade — respondeu o Peregrino. — Mas e você, o que faz aqui?
— Hoje estou de guarda no Portão Sul dos Céus — explicou Virupaksa.
Ele mal havia terminado de falar quando surgiram os grandes marechais Ma, Zhao, Wen e Guan, que saudaram o Peregrino com respeito, dizendo:
— Grande Sábio, lamentamos não ter vindo recebê-lo. Por favor, tome um chá conosco.
— Sinto muito desapontá-los — disse o Peregrino —, mas estou com pressa.
Após se despedir de Virupaksa e dos marechais, ele entrou rapidamente no Portão do Céu do Sul. Já na entrada do Salão da Névoa Divina, encontrou o Mestre Celestial Zhang Daoling, o Imortal Ge, Xu Jingyang, Qiu Hongzhi, as Seis Estrelas da Formação do Sul e as Sete Estrelas da Formação do Norte. Todos correram ao seu encontro e, após inclinarem a cabeça respeitosamente, perguntaram:
— O que traz o Grande Sábio até aqui? Já concluiu sua missão de conduzir o monge Tang em segurança às Terras do Oeste?
— Ainda não — respondeu o Peregrino. — A jornada é longa, e enfrentamos inúmeros demônios pelo caminho. Até agora, percorremos apenas metade do trajeto. Neste momento, estamos presos na Caverna do Elmo Dourado, localizada na montanha de mesmo nome. Lá habita um monstro de aparência bovina que capturou o mestre Tang. Eu tentei enfrentá-lo, mas seus poderes mágicos são extraordinários. Ele conseguiu roubar meu bastão com extremidades de ouro, impedindo-me de dar-lhe o castigo que merece. Suspeito que esse monstro seja uma estrela maligna das Regiões Superiores, que desceu à Terra, seduzido por ilusões enganosas, mas não tenho certeza que tipo de monstro ele é ou de onde veio. Por isso, decidi vir até aqui para me encontrar com o Imperador de Jade e confrontá-lo por sua negligência em manter sua casa sob controle.
— Esse macaco continua tão selvagem e travesso como sempre — murmurou Xu Jingyang
— Não estou sendo travesso — disse o Peregrino. — Eu sempre fui curioso, e é assim que eu descubro as coisas.
— Não há necessidade de prolongarmos essa discussão — interrompeu o Mestre Celestial Zhang Daoling. — Vamos anunciar sua chegada imediatamente.
— Muito obrigado — agradeceu o Peregrino.
Sem perda de tempo, os Quatro Conselheiros Celestiais adentraram a Neblina Divina e anunciaram a chegada do Peregrino, que logo foi conduzido à presença do Imperador de Jade.
— Como pode esse macaco se comportar com tanta arrogância no início e, logo depois, se expressar com tamanha humildade?
— Não é bem assim — rebateu o Peregrino. — Se no começo fui arrogante e agora me expresso com humildade, é porque, neste momento, sou apenas um pobre macaco sem um bastão para brincar! (1)
Ao ouvir essas palavras, o Imperador de Jade emitiu um decreto ao Departamento de Kehan (2), dizendo:
"De acordo com o pedido de Wukong, conduzam uma investigação entre todas as estrelas e planetas dos diversos Céus e entre todos os reis divinos das várias constelações, para verificar se algum deles abandonou as Regiões Superiores, atraído pelo falso brilho das seduções terrestres. Retornem e apresentem um relatório assim que o decreto for cumprido. Esta é a minha ordem."
As averiguações prosseguiram pelas Vinte e Oito Mansões Lunares: as sete orientais, que abrangem as constelações de Citra, Nistia, Visakha, Anuradha, Bahu (4), Mulabarhani e Purva-Asadha; as sete ocidentais (5), compostas por Uttara-Asadha, Abhijit, Sravana, Sravistha, Stabhisa, Purva-Prosthapada e Uttara-Prosthapada. Também foram examinadas as sete mansões setentrionais e as sete austrais. Em todas elas, reinavam a mais absoluta ordem e tranquilidade. Em seguida, foram investigados o Sol, a Lua, Vênus, Júpiter, Mercúrio, Marte e Saturno —os Sete Reguladores —, além de Rahu, Ketu, Qi e Bo, as quatro Estrelas dos Excessos. Entre todos os astros e planetas do Céu, não havia um sequer que tivesse descido às Regiões Inferiores, seduzido pelo brilho enganoso da Terra.
— Sendo assim — disse o Peregrino —, não é necessário que eu retorne com você ao Salão das Névoas Divinas. Afinal, não seria apropriado incomodar novamente o Imperador de Jade. Vá e faça seu relatório, enquanto eu aguardo aqui pela sua resposta.
O respeitável Kehan assentiu em silêncio. Enquanto esperava seu retorno, o Peregrino Sun compôs um poema que refletia seus sentimentos:
Após concluir sua minuciosa investigação, o respeitável Kehan correu para informar o Imperador de Jade, manifestando-se com a devida reverência:
— Todas as estrelas e mansões celestes estão em seus devidos lugares; e todos os guerreiros celestiais permanecem em seus postos. Não há ninguém que tenha descido às Regiões Inferiores, atraído pelo brilho enganoso da Terra.
Ao ouvir isso, o Imperador de Jade ordenou:
— Que Wukong selecione os guerreiros celestiais que considerar adequados para ajudá-lo a capturar esse monstro na Região Inferior.
Os Quatro Conselheiros Celestiais então deixaram o Salão da Névoa Divina e disseram ao Peregrino:
— Como parece que ninguém em todo o Palácio Celestial foi seduzido pelas ilusões enganosas do mundo, o Imperador de Jade, em sua grande misericórdia, determinou que você escolha os guerreiros que considerar apropriados para capturar esse monstro.
O Peregrino inclinou respeitosamente a cabeça, mas refletiu, inquieto:
— Existem muitos guerreiros no Céu com habilidades inferiores as minhas; no entanto, são poucos os que podem se comparar comigo. Ainda me lembro de quando causei grande tumulto no Palácio Celestial: o Imperador de Jade enviou contra mim mais de cem mil soldados celestes, todos equipados com redes cósmicas, mas nenhum foi capaz de me enfrentar. Só conseguiram me conter quando contaram com a ajuda do Pequeno Sábio Erlang. Como poderiam agora me auxiliar a capturar esse monstro, se as habilidades dele são tão poderosas quanto as minhas?
Xu Jingyang percebeu de imediato o significado do silêncio do Peregrino e se apressou em dizer:
— Quem pode garantir que desta vez será como da última? Como diz o provérbio, "não há nada que aconteça da mesma forma duas vezes". Além disso, você não está em posição de desobedecer o decreto do Imperador. Use seu julgamento e selecione os guerreiros celestiais que melhor lhe convém. Não permita que sua hesitação cause um erro irreparável.
— Neste caso — concluiu o Peregrino —, agradeça ao Imperador pelo favor que me concedeu. É claro que não tenho a intenção de desobedecer suas ordens. Além disso, seria tolice ter feito uma viagem tão longa em vão. Peço, então, nobre Jingyang, que informe ao Imperador de Jade que eu gostaria de contar com a companhia do Devaraja Li e do Príncipe Nezha. Sei que eles possuem armas especiais para capturar monstros. Com elas, enfrentaremos esse monstro mais uma vez e veremos como nos saímos. Terei sorte se conseguirem capturá-lo, e se não conseguirem, teremos que pensar novamente.
O Conselheiro Celestial informou imediatamente ao Imperador de Jade sobre a decisão do Peregrino. O Imperador, então, ordenou que o Devaraja Li e seu filho, reunissem um exército de guerreiros celestes e partissem para auxiliar o Peregrino. O Devaraja cumpriu a ordem sem demora e partiu ao encontro do Peregrino, que por sua vez, voltou a se dirigir ao Conselheiro Celestial, dizendo:
— Naõ tenho como agradecer o suficiente ao Imperador de Jade por colocar Devaraja à minha disposição. No entanto, há mais um pedido que eu gostaria que você fizesse a ele. Gostaria que me concedesse o auxílio de dois Escudeiros do Trovão. Assim, enquanto o Devaraja e seu filho enfrentam o monstro, eles poderão posicionar-se nas nuvens e lançar seus raios contra sua cabeça. Não acha que esse é um bom plano para derrotá-lo?
— Extraordinário, simplesmente extraordinário! — exclamou o Conselheiro Celestial, rindo, e em seguida, correu para apresentar o novo pedido ao Imperador de Jade.
O Imperador então emitiu outro decreto, com uma ordem para o Palácio Celestial dos Nove Dobramentos, ordenando que Deng Hua e Zhang Fan, os dois escudeiros do trovão, auxiliassem o Devaraja Li na captura do monstro. Assim, partiram pelo Portão Sul do Céu ao lado do Devaraja e do Grande Sábio Sun. Não demoraram a chegar ao destino, e o Peregrino, entusiasmado, apontou à frente:
— Ali está a Montanha do Elmo de Ouro. A caverna onde o monstro habita fica exatamente no centro. Agora, cabe a vocês decidirem quem irá enfrentá-lo primeiro.
O Devaraja Li fez sua nuvem descer e ordenou que os guerreiros celestes montassem um acampamento na encosta sul. Em seguida, voltou-se para o Grande Sábio e declarou:
— Como bem sabe, meu filho Nezha, sozinho, já derrotou os demônios de noventa e seis cavernas. Não por acaso, ele domina com perfeição a arte das metamorfoses e carrega consigo um arsenal de armas para subjugar as feras. Nada mais justo que seja ele a iniciar o combate.
— Nesse caso — concluiu o Peregrino —, serei seu guia.
Utilizando seus poderes extraordinários, o Príncipe e o Grande Sábio deram um salto impressionante, indo direto ao coração da montanha. Em um piscar de olhos, estavam diante da entrada da caverna. Para sua surpresa, encontraram a porta bem trancada e estranhamente sem guardas.
Com passos firmes, o Peregrino se aproximou e bradou:
— Abra essa porta imediatamente, monstro estúpido, e devolva meu mestre!
Os demônios que faziam a guarda dentro da caverna correram para avisar seu senhor:
— Grande Rei, o Peregrino Sun está em frente à nossa porta, acompanhado por um jovem que não para de desafiá-lo!
O monstro refletiu por um instante e disse:
— Tenho comigo o bastão de ferro daquele maldito macaco. Como ele não pode lutar com as mãos vazias, ele certamente foi buscar ajuda. Tragam as minhas armas, imediatamente!
Após tomar a lança em suas mãos, dirigiu-se até a entrada da caverna para dar uma olhada. Foi assim que avistou um jovem de traços surpreendentemente delicados e uma constituição robusta. Seu rosto, ao mesmo tempo tímido e sólido como o jade, lembrava a lua cheia. Os lábios avermelhados e a boca de formato quadrado revelavam dentes tão brancos quanto a prata. O brilho intenso de seus olhos refletia a força de um raio. A franja caía suavemente sobre a testa, como uma névoa flutuante, enquanto a faixa em sua cintura ondulava ao vento, parecendo composta de minúsculas chamas. Suas vestes, completamente bordadas, brilhavam sob a luz do sol, rivalizando com a couraça que protegia seu corpo e as botas de combate que calçava.
Embora sua aparência não fosse muito diferente da de qualquer outro jovem de sua idade, sua voz ressoava firme e poderosa, como se esperaria de um destemido defensor da fé: o Príncipe Nezha dos Três Céus. Mesmo assim, o monstro soltou uma gargalhada e disse:
— Você é o terceiro filho do Devaraja Li, e atende pelo nome de Príncipe Nezha. Pode me explicar por que veio até minha porta com tanta pompa?
— Tudo isso é consequência do caos que você causou com sua conduta, monstro maldito! — respondeu o Príncipe. — Por ter capturado e tentado devorar o monge sagrado vindo das Terras do Leste, o Imperador de Jade emitiu um decreto ordenando que você seja preso. Estou aqui para cumprir esse decreto!
— Foi aquele macaco chamado Sun Wukong quem mandou você até aqui! — retrucou o monstro, cada vez mais irritado. — Admito que sou o infortúnio desse monge Tang, mas que tipo de habilidades marciais um jovem como você pode ter para falar com tanta arrogância? Não fuja! Prove o sabor da minha lança!
Empunhando sua espada, capaz de despedaçar monstros, o Príncipe avançou imediatamente para a batalha. No exato momento em que os dois oponentes iniciavam o combate, o Grande Sábio ergueu-se acima da montanha e bradou com toda a força:
— Onde vocês estão, Escudeiros do Trovão? Desçam imediatamente e lancem seus raios contra esse monstro! Ajudem o Príncipe a subjugá-lo!
Deng e Zhang, os dois escudeiros, desceram flutuando sobre a luz das nuvens, prontos para atacar. No entanto, antes que pudessem agir, viram o Príncipe Nezha recorrer à magia. Com um leve movimento do corpo, ele se transformou em um ser com três cabeças e seis braços, cada um empunhando uma arma diferente para enfrentar o monstro. Por sua vez, o monstro também se metamorfoseou em um ser de três cabeças e seis braços, utilizando três longas lanças para se defender.
O Príncipe, determinado a vencer, elevou ainda mais seu poder e lançou suas seis armas ao ar. Que armas eram essas? Nada menos que uma espada para matar monstros, uma cimitarra para desmembrar feras, uma corda para amarrar espíritos rebeldes, um chicote para domar demônios, uma esfera filigranada e uma roda flamejante
— Transformem-se! — bradou o Príncipe com toda sua força.
Num instante, as armas se multiplicaram em centenas, depois em milhares, e então caíram sobre o monstro como uma tempestade de raios e granizo. No entanto, o monstro não se intimidou. Com um único gesto, ele sacou seu bracelete branco, lançou-o ao ar e ordenou:
— Ataque!
Produzindo um som cortante e sibilante, semelhante ao de uma serpente, o bracelete sugou todas as armas sem esforço algum. Desesperado, o Príncipe Nezha foi forçado a fugir de mãos vazias, enquanto o monstro retornava triunfante para sua caverna.
No meio do céu, Deng e Zhang trocaram olhares nervosos e soltaram um suspiro aliviado.
— Ainda bem que observamos antes de agir — disse um deles. — Se tivéssemos lançado os raios e eles fossem sugados também, como voltaríamos para encarar o Celestial Venerável?
Descendo suavemente com suas nuvens, os dois escudeiros do trovão seguiram com o príncipe até a encosta sul e relataram ao Devaraja Li:
— Esse monstro realmente possui poderes extraordinários!
— Os poderes dele não são tão extraordinários assim — respondeu Wukong com um sorriso. — O que é verdadeiramente extraordinário é esse bracelete. Que tipo de tesouro será esse, capaz de sugar armas daquela forma?
— Esse Grande Sábio não leva nada a sério! — resmungou Nezha, furioso. — Perdi minhas armas, tive que fugir completamente derrotado e frustrado, e tudo o que faz é rir? Por que você age dessa forma?
— Você fala em frustração — retrucou o Peregrino. — Acha que eu não estou tão ou mais frustrado que você? O problema é que, neste momento, não tenho nenhum plano em mente. Como não sou capaz de lamentar, só me resta rir!
— E agora? Como vamos resolver essa situação? — indagou o Devaraja Li.
— Podemos discutir o assunto mais um pouco— respondeu o Peregrino — , mas uma coisa é certa: apenas algo que não possa ser sugado por aquele bracelete será capaz de detê-lo.
— Apenas o fogo e a água podem resistir de serem sugados — ponderou o Devaraja. — Na verdade, há um ditado que diz: "não há nada mais impiedoso que o fogo e a água".
— Talvez esteja certo! — exclamou o Peregrino ao ouvir isso. — Fiquem aqui e me esperem. Preciso fazer mais uma viagem aos Céus.
— Podemos saber para quê? — perguntaram Deng e Zhang, os dois escudeiros do trovão.
— Quando eu chegar lá, não farei uma petição ao Imperador de Jade — respondeu o Peregrino. — Vou direto ao Palácio da Aura Vermelha, localizado dentro do Portão Sul. Lá, pedirei a Marte, a Estrela da Virtude do Fogo, que venha até aqui e inicie um incêndio para acabar com esse monstro. É possível que até mesmo o bracelete seja reduzido a cinzas, permitindo que possamos capturá-lo. De qualquer forma, primeiro precisamos recuperar nossas armas, e então libertaremos meu mestre dessa provação.
Ao ouvir isso, o príncipe Nezha ficou satisfeito e disse:
— Não há motivo para demora. Que o Grande Sábio vá e volte o quanto antes. Todos nós aguardaremos aqui.
O Peregrino montou em sua nuvem e partiu novamente em direção ao Portão Sul dos Céus. Logo, Virupaksa e os quatro marechais saíram para recebê-lo, dizendo:
— O que traz o Grande Sábio de volta?
— O Devaraja Li ordenou que o Príncipe lutasse contra o monstro, mas, assim que ele exibiu suas armas, o monstro conseguiu roubá-las com extrema facilidade — explicou o Peregrino. — Por isso, desejo visitar o Palácio da Aura Vermelha e pedir ajuda à Estrela da Virtude do Fogo.
Sem ousar detê-lo, os quatro marechais permitiram sua entrada. Assim que chegou ao Palácio da Aura Vermelha, as divindades do Departamento do Fogo correram para anunciar sua chegada:
— Sun Wukong deseja se encontrar com nosso senhor.
O Terceiro Espírito do Sul, a Estrela da Virtude do Fogo, ajeitou suas vestes e saiu para receber o ilustre visitante, dizendo:
— Ontem, membros do Departamento de Kehan inspecionaram este humilde palácio e não encontraram ninguém que tivesse se deixado seduzir pelo brilho ilusório do mundo.
— Sei disso — respondeu o Peregrino. — O Devaraja Li e o Príncipe Nezha foram derrotados em batalha e perderam suas armas. Por isso, vim especialmente pedir sua ajuda.
— Nezha é o presidente do Grande Festival das Três Generosidades (6) — comentou, com surpresa, a Estrela da Virtude do Fogo. — Ao iniciar sua carreira como oficial celestial, derrotou sozinho todos os demônios de noventa e seis cavernas. Como poderia um deus tão humilde como eu ajudá-lo, se ele, com seus impressionantes poderes mágicos, não conseguiu cumprir essa missão?
— Conversei sobre isso com o Devaraja Li e chegamos à conclusão de que não há elementos mais poderosos, nos Céus ou na Terra, do que o fogo e a água — explicou o Peregrino. — Aquele monstro possui um bracelete capaz de absorver tudo que existe. Ainda não sabemos qual é a verdadeira natureza dele, mas, como o fogo tem o poder de destruir praticamente qualquer coisa, decidi vir até aqui para pedir que desça às Regiões Inferiores e inicie um incêndio que acabe com esse monstro e liberte meu mestre do seu sofrimento.
Ao ouvir isso, a Estrela da Virtude do Fogo convocou imediatamente os guerreiros divinos sob o seu comando e partiu, acompanhado pelo Peregrino em direção à encosta sul da Montanha do Elmo de Ouro. Ao chegarem, saudaram o Devaraja Li e os escudeiros do trovão. Então, o Devaraja disse:
— Grande Sábio Sun, você precisa ir até lá novamente e provocar aquele monstro para que saia da caverna. Desta vez, serei eu a enfrentá-lo. Assim que ele exibir seu bracelete, me afastarei rapidamente, e a Estrela da Virtude do Fogo se encarregará de incinerá-lo.
— Perfeito! — respondeu o Peregrino, soltando uma gargalhada. — Vamos logo!
Enquanto o Peregrino e o Devaraja Li partiram para provocar o monstro, a Estrela da Virtude do Fogo permaneceu no alto da montanha, ao lado do príncipe Nezha e dos escudeiros do Trovão. Ao chegar à entrada da caverna, o Grande Sábio bradou:
— Abram logo essa porta e devolvam o meu mestre!
Os pequenos demônios correram imediatamente para avisar o seu senhor:
— Sun Wukong está de volta!
— Maldito macaco! — rugiu o monstro, saindo da caverna à frente de seu exército. — Quem ele foi buscar desta vez?
O Devaraja Li, o Portador da Pagoda, avançou e gritou:
— Monstro perverso, você sabe quem eu sou?
— Devaraja Li, imagino que tenha vindo para vingar a derrota de seu filho e recuperar suas armas, não é mesmo?
— Em parte, sim, busco vingança — replicou o Devaraja —, mas também desejo capturá-lo e libertar o monge Tang! Não fuja! Experimente o gume da minha cimitarra!
O monstro desviou rapidamente do golpe, movendo-se para o lado. Em seguida, ergueu sua longa lança e contra-atacou com destreza. Diante da caverna, os dois iniciaram uma batalha feroz! A cimitarra do Devaraja Li desferia cortes impiedosos, emitindo uma luz gélida e chamas ardentes. A lança do monstro, por sua vez, subia repetidamente em direção ao céu, como se tentasse rasgar as nuvens. Um dos lutadores era o demoníaco Senhor da Montanha do Elmo de Ouro, enquanto o outro era um deus vindo diretamente do Salão da Névoa Divina. O primeiro investia com bravura, zombando da essência do Zen; o segundo se entregava de corpo e alma para pôr fim ao sofrimento do mestre Tang. Fazendo uso de sua magia, o Devaraja ergueu uma tempestade de poeira e areia. Determinado a triunfar, o monstro respondeu conjurando uma imensa nuvem de lama e imundície. A névoa era tão espessa que mergulhou o Céu e a Terra em uma escuridão total. O turbilhão de poeira erguido pelos combatentes parecia prestes a secar rios e oceanos. Os dois lutavam arduamente pela vitória, pois sabiam que a vida do monge Tang era dedicada à causa do Mais Venerável do Mundo.
Assim que percebeu que a batalha havia se intensificado, o Grande Sábio saltou até o topo da montanha e alertou à Estrela da Virtude do Fogo:
— Prepare-se, Terceiro Espírito!
O combate entre o monstro e o Devaraja prosseguiu, cada vez mais feroz. Quando parecia que a disputa havia atingido o seu auge, o monstro sacou novamente o seu bracelete mágico. Assim que o Devaraja avistou o artefato, deu meia-volta, saltou sobre sua nuvem e fugiu rapidamente do campo de batalha.
Posicionado no ponto mais alto da montanha, a Estrela da Virtude do Fogo ordenou às divindades sob seu comando que liberassem todo o fogo de uma vez. Aquela era uma cena aterrorizante e, ao mesmo tempo, extraordinária. Não é à toa que os clássicos afirmam que "o Sul é o espírito do fogo". Algumas poucas faíscas, quase invisíveis, têm o poder de calcinar milhares de hectares de campo, pois o poder do Terceiro Espírito pode assumir a forma de mil dardos de fogo. O céu se encheu, de fato, de lanças, cimitarras, arcos e flechas de fogo, de todas as formas e tamanhos, semelhantes às armas usadas pelos deuses. Como se isso não fosse suficiente, à meia-altura, bandos de corvos de fogo começaram a voar, crocitando incessantemente, enquanto os relinchos dos corcéis de fogo ecoavam por toda a montanha, galopando à mesma velocidade do vento. Por toda parte, surgiam casais de ratos vermelhos que soltavam chamas pelas narinas, provocando um incêndio devastador de mais de dez mil milhas quadradas, assim como incontáveis pares de dragões de fogo que vomitavam densas colunas de fumaça, tingindo de preto até o último canto da terra. Para onde quer que se olhasse, havia carroças carregadas de fogo, cabaças que se abriam para liberar sementes de chamas, estandartes de fogo que flutuavam no céu como densas névoas, e plantas de fogo surgindo do chão, consumindo tudo ao redor. E como não mencionar Ning Qi (7), açoitando impiedosamente seu boi? O incêndio que eclodiu naquela hora superava em fúria até mesmo aquele causado por Zhou no Penhasco Vermelho (8). Não é de surpreender que fosse um fogo celestial, não terrestre, tão temível que tudo o que tocava era reduzido a cinzas.
Mesmo diante de um incêndio tão aterrador, o monstro não demonstrou nenhum sinal de medo. Ele lançou seu bracelete para o alto e, imediatamente, ouviu-se um som estridente que absorveu todos os dragões, os cavalos, os corvos, os ratos, os arcos e as flechas de fogo. Em seguida, deu meia-volta e entrou em sua caverna, tão triunfante quanto havia saído.
De toda a terrível exibição da Estrela da Virtude do Fogo, restou apenas um estandarte, que serviu para reunir as forças dispersas ao redor do Devaraja e seus valentes capitães. Desanimados, eles se sentaram novamente na encosta sul da montanha, e a Estrela da Virtude do Fogo se queixou ao Peregrino, dizendo:
— Poucos monstros podem se comparar a esse, Grande Sábio! O que farei agora que perdi todo o meu equipamento de fogo?
— Não precisa se lamentar dessa forma — retrucou o Peregrino. — Fiquem aqui e descansem um pouco, enquanto eu faço uma nova viagem.
— Posso saber para onde pensa em ir desta vez? — perguntou o Devaraja.
— Se esse monstro não tem medo do fogo, certamente tem medo da água — respondeu o Peregrino. — Como diz o ditado: "Só a água é capaz de derrotar o fogo". Portanto, pretendo ir até o Portão Norte do Céu e pedir à Estrela da Virtude da Água que abra seus portões e inunde a caverna desse monstro. Assim que ele se afogar, recuperaremos tudo o que ele nos roubou.
— Embora este seja um plano esplêndido — objetou o Devaraja —, temo que o vosso mestre também acabe se afogando.
— Não se preocupe — respondeu o Peregrino. — Se meu mestre se afogar, sei como trazê-lo de volta à vida. Mas, se isso for lhes causar mais transtornos, não pedirei a ajuda da Estrela da Virtude Água.
— Neste caso, vá procurá-lo o quanto antes! — suplicou a Estrela da Virtude do Fogo.
Com um salto, o Grande Sábio montou em sua nuvem e se dirigiu ao Portão Norte do Céu, onde encontrou o Devaraja Vaisravana, que, após se inclinar respeitosamente, perguntou:
— Posso saber para onde vai, Grande Sábio Sun?
— Preciso ir ao Palácio da Imensidão Sombria, tratar de um assunto importante com a Estrela da Virtude da Água — respondeu o Peregrino. — E você, o que faz aqui?
— Hoje estou de guarda no Portão Norte dos Céus — explicou Vaisravana.
Enquanto conversavam, os quatro grandes marechais — Pang, Liu, Gou e Bi — se aproximaram para cumprimentar Sun Wukong e o convidaram para tomar chá.
— Me desculpem — disse o Peregrino —, mas o assunto que me trouxe até aqui é de extrema importância e não posso demorar nem um segundo.
Após se despedir deles, o Peregrino dirigiu-se ao Palácio da Imensidão Sombria e pediu aos deuses do Departamento da Água que anunciassem sua chegada. Assim que a Estrela da Virtude da Água soube que o Grande Sábio Sun Wukong desejava encontrá-lo, ordenou que as atividades dos quatro mares, dos cinco lagos, dos oito rios, dos quatro grandes rios, das três poderosos riachos e dos nove afluentes fossem minuciosamente inspecionadas. Também instruiu os Reis Dragões de todas essas regiões a retornarem imediatamente aos seus feudos e redigirem um relatório completo sobre seus súditos. Em seguida, ajeitou suas vestes e saiu para dar as boas-vindas a tão ilustre visitante.
Ao adentrar o salão do palácio, a Estrela da Virtude da Água disse:
— Ontem, o Departamento Kehan inspecionou nosso humilde palácio, temendo que alguma divindade tivesse sucumbido às falsas tentações da Terra. É meu dever informar que estamos conduzindo uma investigação completa sobre os deuses dos rios e mares.
— Esse monstro não é uma simples divindade fluvial — respondeu o Peregrino —, mas um espírito muito mais poderoso. O Imperador de Jade teve a gentileza de enviar às Regiões Inferiores o Devaraja Li, seu filho, e dois escudeiros do trovão, mas todos os esforços para capturar esse monstro foram em vão. Usando um bracelete mágico, ele roubou as seis armas sagradas do príncipe Nezha, e não me restou outra opção a não ser recorrer ao Palácio da Aura Vermelha e pedir à Estrela da Virtude do Fogo que provocasse um incêndio devastador. No entanto, o monstro usou o bracelete novamente, absorvendo os dragões, os cavalos e outras criaturas de fogo que as divindades do fogo lançaram contra ele. Foi então que percebi que, se esse monstro não tinha medo do fogo, certamente teria medo da água. Isso me motivou a vir até aqui pedir que libere seu poder sobre as águas e nos ajude a capturar esse monstro. Assim, os guerreiros celestes recuperarão suas armas e meu mestre poderá finalmente ser libertado do seu sofrimento.
Ao ouvir isso, a Estrela da Virtude da Água ordenou imediatamente ao Senhor das Águas Divinas do Rio Amarelo:
— Coloque-se à disposição do Grande Sábio e ofereça-lhe toda a ajuda que ele necessitar.
Retirando um pequeno cálice de jade branco de sua manga, o Senhor das Águas Divinas do Rio Amarelo disse:
— Este cálice pode ser de grande ajuda para você. Ele serve para armazenar água.
— Que extraordinário! — exclamou o Peregrino. — Qual é a quantidade de água que ele pode armazenar? Será o suficiente para afogar esse monstro?
— Para ser sincero, Grande Sábio — respondeu o Senhor das Águas —, este cálice contém toda a água do Rio Amarelo. Se eu enchê-lo até a metade, ele conterá exatamente metade da água do rio. Se o encher completamente, ele terá a totalidade da água do leito do rio.
— Meio cálice será mais do que suficiente! — respondeu o Peregrino, encantado. Depois de se despedir da Estrela da Virtude da Água, ele deixou os arcos celestes na companhia do Senhor das Águas Divinas do Rio Amarelo. Após retirar metade das águas do Rio Amarelo com seu cálice, o Senhor das Águas acompanhou o Grande Sábio até a Montanha do Elmo de Ouro, onde encontraram o Devaraja Li, o príncipe Nezha, os escudeiros do trovão e a Estrela da Virtude do Fogo.
— Não vamos entrar em detalhes — disse o Peregrino. — O Senhor das Águas irá me acompanhar até a entrada da caverna, e eu vou ordenar que o monstro abra a porta. Não espere ele sair. Assim que a porta se abrir, despeje a água dentro da caverna até que todos os que lá habitam tenham se afogado. Eu, então, me encarregarei de resgatar o cadáver de meu mestre e trazê-lo de volta à vida.
O Senhor Aquático balançou a cabeça em sinal de concordância e seguiu o Peregrino ladeira acima até a entrada da caverna.
— Abra as portas, monstro! — gritou mais uma vez o Grande Sábio.
Os demônios que faziam guarda à porta reconheceram de imediato a voz de Sun Wukpng e correram para dentro, levando a notícia ao seu senhor:
— Sun Wukong está aqui novamente.
Ao ouvir isso, o monstro pegou seu bracelete e sua longa lança e dirigiu-se à saída. A porta emitiu um estrondo peculiar ao se abrir, e o Senhor Aquático despejou, sem hesitar, o conteúdo de sua taça no interior da caverna.
Ao ver a avalanche de água que se aproximava, o monstro deixou cair a lança e levantou o bracelete, segurando-o firme na altura da segunda porta. A torrente, que deveria inundar a caverna por completo, encontrou ali uma barreira intransponível. Então, como se obedecesse a uma força invisível, a água mudou de direção de maneira abrupta, escapando com violência para fora da caverna.
Desconcertado, o Grande Sábio deu um salto tão alto que foi parar no pico mais elevado de toda a região, seguido pelo Senhor Aquático. Os demais deuses montaram rapidamente suas nuvens e dispararam em sua direção. Do topo da montanha, observaram, atônitos, a fúria das águas que crescia em altura e força. Uma simples colherada tornava-se, num piscar de olhos, um abismo insondável. Apesar de seu caráter destrutivo, a água, quando guiada pelos desígnios celestes, era fonte de vida e renovação. No entanto, ali, seu volume superava o de cem grandes rios, e sua corrente poderosa fazia o vale inteiro tremer. Ondas colossais erguiam-se até tocar o céu, e o rugido das águas lembrava o estrondo de uma tempestade. A inundação arremessava-se contra as rochas com violência, erguendo montanhas de espuma que pareciam ventanias ou fragmentos de jade lançados ao alto. O fluxo impiedoso apagava caminhos, arrasava arrozais e fazia desaparecer até mesmo as montanhas mais imponentes. O que era arrastado pelas águas emitia sons variados: ora um borbulhar semelhante ao jade batendo no chão (9), ora um eco metálico que lembrava o melancólico lamento de um instrumento musical. Redemoinhos multiplicavam-se por toda parte, enquanto a torrente seguia seu curso implacável rumo às terras mais baixas, preenchendo os espaços vazios e apagando o traçado dos riachos.
Alarmado com tamanha devastação, o Peregrino exclamou:
— A situação está cada vez pior! A água está destruindo tudo ao redor, mas nem sequer tocou o interior da caverna. O que podemos fazer para acabar com esse desastre? — E, sem perder tempo, ordenou ao Senhor Aquático que recolhesse imediatamente toda a água derramada.
— Sinto muito — desculpou-se o deus. — Este humilde deus só sabe como liberar a água, mas não sabe como recuperá-la. Como diz o provérbio, "ninguém pode recuperar a água que foi derramada".
Felizmente, a montanha onde estavam era alta e íngreme, o que fez com que a água escoasse rapidamente para as regiões mais baixas. Em pouco tempo, seguiu o curso dos riachos e ravinas até desaparecer completamente. Logo depois, um grupo de demônios saiu da caverna e, ao perceber que o nível da água havia baixado por completo, começaram a fazer travessuras. Gritavam como loucos, batiam uns nos outros com os punhos e entrechocavam as lanças e escudos que seguravam.
— Então a água nem sequer tocou o interior da caverna — lamentou o Devaraja Li, desolado. — É difícil aceitar que todos os nossos esforços foram em vão.
O Peregrino não conseguiu mais conter a fúria que queimava em seu peito. Cerrando os punhos com raiva, avançou até a entrada da caverna e bradou:
— Não fujam! Preparem-se para levar uma boa surra!
Ao vê-lo surgir tão repentinamente, os demônios entraram em pânico e, abandonando seus escudos e lanças, buscaram refúgio no interior da caverna. Tremendo da cabeça a pés, informaram seu senhor sobre o ocorrido, dizendo:
— Grande Rei, é terrível! Sun Wukong veio nos atacar novamente!
O monstro, ao ouvir isso, pegou novamente sua longa lança e saiu da caverna, decidido a derrotar seu inimigo de uma vez por todas.
— Seu macaco teimoso e estúpido! — exclamou assim que o viu. — Você já tentou me derrotar várias vezes e falhou em todas. Nem mesmo o fogo e a água foram capazes de me tocar. Então, por que você está aqui novamente? Deseja jogar sua vida fora?
— Acho que você está confundindo as coisas— retrucou o Peregrino, com um sorriso desafiador. — Ainda não sabemos se quem vai perder a vida será eu ou você. Chegue um pouco mais perto, para que você possa experimentar os punhos do seu avô!
— Esse macaco não sabe o que diz! — zombou o monstro, soltando uma gargalhada. — Pretende enfrentar minha lança com as mãos vazias? Seus punhos não são mais do que um monte de ossos e pele, um pouco maiores do que uma noz. Tudo bem! Se está tão disposto a lutar comigo, deixarei minha lança de lado e medirei meus punhos contra os seus.
— Agora sim! — respondeu o Peregrino, soltando uma gargalhada. — Venha então!
O monstro arregaçou as mangas e deu alguns passos à frente, assumindo uma postura de combate. Seus punhos elevados pareciam dois enormes martelos de ferro. O Grande Sábio, por sua vez, flexionou as pernas e inclinou o corpo para a frente, preparando-se para o ataque. E assim começou, diante da entrada da caverna, uma luta extraordinária, como nunca se vira antes. Os dois esticavam os braços, uma e outra vez, enquanto suas pernas se elevavam como aves, buscando as costelas, o peito, o fígado e o coração do adversário. Seus golpes eram absolutamente certeiros e mortais. Quando um assumia a postura do "Imortal Apontando o Caminho" (10), o outro respondia com a postura de "Lao-Tzu Montando uma Garça"(10), ou com a postura do "Tigre Faminto Caindo Sobre a Sua Presa" (10), ou ainda a postura do "Dragão Brincando Com a Água" (10). Quando o monstro usava a postura da "Serpente Que Se Vira" (10), o Grande Sábio recorria a postura do "Cervo Que Troca de Chifres" (10). Todas as posturas encontravam reflexo naquele combate: a do dragão que mergulha sobre a terra com as garras para cima, a do pulso que gira para agarrar a bolsa celestial, a do leão verde que avança com a boca aberta, a da carpa que salta para trás, a de quem lança flores sobre a cabeça, a de quem se amarra uma corda na cintura, a do leque que se move ao ritmo do vento, a da chuva que quebra as flores. Se o monstro aplicava a"Palma de Guanyin" (10), o Peregrino respondia com os "Pés de Arhat" (10). Embora os golpes longos não fossem tão eficazes quanto os curtos e secos, a técnica dos dois combatentes era tão equilibrada que, após inúmeras rodadas, ainda não era possível definir um vencedor claro.
Enquanto os dois lutadores se enfrentavam ferozmente na entrada da caverna, os deuses que assistiam do alto da montanha vibravam com o espectáculo daquele combate. O Devaraja Li gritava palavras de incentivo e a Estrela da Virtude do Fogo não parava de aplaudir, em aclamação. Os dois escudeiros do trovão e o príncipe Nezha, por sua vez, se aproximaram, tentando de ajudar de alguma forma o seu aliado. Do outro lado, os demônios também avançaram imediatamente para auxiliar seu mestre, agitando estandartes, batendo tambores e brandindo espadas e cimitaras.
Imediatamente, cerca de cinquenta pequenos macacos surgiram e se lançaram sobre o monstro, agarrando suas pernas, pendurando-se em seu peito, cegando-lhe os olhos e puxando implacavelmente seus cabelos.
O monstro ficou tão nervoso que, imediatamente, decidiu usar o bracelete. Quando o Grande Sábio e seus companheiros viram que ele o havia retirado, subiram rapidamente em suas nuvens e fugiram para o alto da montanha, tomados pelo terror. O monstro então lançou o bracelete ao ar, e os cinquenta macacos, retomando suas formas originais, foram tragados sem piedade por ele, emitindo um som que lembrava ao silvo de uma serpente.
Vitoriosos mais uma vez, o monstro e seus súditos se retiraram para o interior da caverna, a fim de celebrar sua nova conquista.
— Agradeço o elogio! — respondeu o Peregrino. — Se todos concordam com esse plano, fiquem aqui e aguardem. Irei explorar um pouco o terrítório.
Dando um enorme salto, o Grande Sábio deixou o topo da montanha e aproximou-se discretamente da entrada da caverna. Então sacudiu levemente o corpo e, em um piscar de olhos, transformou-se em uma minúscula mosca, com asas tão finas quanto o verniz sobre os bambus e um corpo tão delicado quanto a corola de um botão de flor. Suas patas eram mais finas que um fio de cabelo, e seus olhos, brilhando como diamantes, emanavam uma luz própria. Apesar do tamanho reduzido, era capaz de identificar cheiros a grandes distâncias e enfrentar o vento com mais destreza do que um marinheiro enfrenta o mar. Seu peso era tão insignificante que nenhuma balança poderia medi-lo, e seu voo era tão enigmático que nenhum olho conseguiria segui-lo. Mesmo assim, era mais útil do que muitos animais muito maiores que ele.
Apesar de sua leveza, voou até a porta e esgueirou-se para dentro por uma pequena fresta na madeira. Lá dentro, encontrou a caverna repleta de demônios de todas as idades. Alguns cantavam e dançavam despreocupadamente, enquanto outros permaneciam alinhados em filas junto às paredes. No centro do salão, destacava-se o trono do monstro, diante do qual fumegavam pratos exóticos: carne de serpente, carneiro assado, garras de urso, corcovas de camelo e uma variedade de vegetais e frutos silvestres. Havia também taças de porcelana azul repletas de vinho, cujo aroma embriagante de licor de coco se misturava à fragrância adocicada do leite de cabra. O monstro e seus oficiais bebiam sem parar, assumindo posturas escandalosamente relaxadas.
O Peregrino se lançou no meio daquele enxame de demônios e, num piscar de olhos, trocou de forma, transformando-se num espírito com cabeça de texugo. Dessa forma, conseguiu se aproximar do trono do monstro sem levantar suspeitas. Ele revirou cada canto da caverna por um longo tempo, mas não encontrou nenhum sinal do valioso bracelete. Quando já começava a perder as esperanças, ele olhou atrás do trono e notou que havia ali um pequeno salão. Dentro dele, haviam dragões e cavalos de fogo, que relinchavam e se lamentavam sem cessar. Ele ergueu um pouco mais a cabeça e, de repente, seu coração disparou de alegria: encostado na parede voltada para o leste, estava seu precioso bastão com as extremidades douradas.
Tamanha foi sua alegria que ele sequer se lembrou de reassumir sua forma original. Correu, radiante, em direção à sua preciosa arma e, no instante em que a segurou firme entre as mãos, revelou sua verdadeira identidade. Os demônios, apavorados, fugiram em todas as direções, enquanto o Peregrino abria caminho para fora da caverna. O pânico se espalhou entre todos os moradores, inclusive o próprio Rei Búfalo de Um Chifre. Sem encontrar resistência, o Peregrino abateu quantos demônios quis, deixando um rastro de sangue por onde passava. O caminho para a saída estava completamente livre.
Sobre esse momento, há um verso que diz:
Não sabemos, por enquanto, se o destino trará o bem ou o mal para ele. Quem desejar descobrir deverá ouvir com atenção as explicações que serão oferecidas no próximo capítulo.
CAPITULO LII EM BREVE ...

Notas do Capítulo LI
- Durante a época medieval, as apresentações de macacos lutadores eram extremamente populares por toda a China. Muitos acreditam que essas performances influenciaram as aventuras de Sun Wukong, e o texto traz referências claras a esse tipo de espetáculo;
- O departamento Kehan era responsável por fiscalizar os funcionários das diversas seções governamentais, garantindo que permanecessem em seus postos e cumprissem as responsabilidades que lhes haviam sido atribuídas;
- Os Três Recintos Sagrados referem-se a três agrupamentos de estrelas conhecidos como o Recinto Sagrado Vermelho, o Supremo Recinto Sagrado e o Recinto do Mercado Celestial;
- Em vez de Bahu, o correto é Hsin, uma das constelações pertencentes às mansões orientais;
- As constelações mencionadas como parte das mansões ocidentais, na verdade, pertencem às mansões setentrionais;
- As Três Generosidades, ou "dāna", englobam a doação de riquezas, a entrega à lei ou "dharma" e as manifestações de coragem, denominadas "abhaya". São, portanto, três formas distintas de desprendimento;
- Ning Qi, uma figura do período da Primavera e Outono, atraiu a atenção de Yüan, Senhor de Chi, a quem desejava servir fervorosamente. Para tanto, cantava em altos brados enquanto golpeava os chifres do búfalo que montava;
- Na célebre Batalha do Penhasco Vermelho, Zhou Yu derrotou Cao Cao lançando contra ele verdadeiros colares de embarcações em chamas;
- Trata-se de uma referência a um poema de Lu Ji, preservado na coletânea Lu Shi Han Ji;
- Todos esses nomes correspondem a diferentes posturas adotadas na prática das artes marciais.
- Tradução em pt-br por Rodrigo Viany (Sleipnir). Favor não utilizar sem permissão.
- Tradução baseada na tradução do chinês para o espanhol feitas por Enrique P. Gatón e Imelda Huang-Wang, e do chinês para o inglês feita por Collinson Fair.
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