A explicação apenas aumentou a admiração e o respeito do rei, que convidou Sanzang e seus três discípulos a retornarem ao salão principal do palácio, chegando mesmo a considerar a possibilidade de abdicar do trono em favor dos monges. O Peregrino, sorrindo, disse:
— Aquele monstro não passava de um servo do Equivalente à Tai Sui, enviado para buscar mais duas donzelas. É quase certo que tenha corrido para relatar sua derrota vergonhosa ao seu senhor, que dificilmente deixará a situação como está. Pelo contrário, deve preparar um confronto direto e não tardará a retornar à frente de suas tropas. Quando isso acontecer, o pânico tomará conta do rei e de seus súditos. Para evitar esse caos, pretendo enfrentá-los no ar, mas ainda não sei por qual direção virão. Poderiam informar qual é a distância entre esta cidade e a montanha deles?
— Certa vez — respondeu o rei — enviamos um grupo de exploradores até lá. Eles levaram exatamente cinquenta e cinco dias para retornar. Pelos nossos cálculos, a montanha fica a cerca de sete mil quilômetros ao sul daqui.
Ao ouvir isso, o Peregrino voltou-se para Baije e o Monge Sha e disse:
— Bajie, Monge Sha, fiquem de guarda aqui, enquanto vou até lá dar uma olhada.
— Monge divino, por que não espera mais um dia? — exclamou o rei, segurando-o pela manga. — Assim, poderemos preparar provisões secas e assadas, separar algum dinheiro e escolher um cavalo veloz. Depois disso, poderá seguir sua viagem.
— O que Vossa Majestade descreve — replicou o Peregrino, rindo — é o caminho trabalhoso de quem precisa atravessar montanhas e picos sempre a pé. Para ser sincero, posso percorrer esses sete mil quilômetros antes que encham aquela taça de vinho e ela esfrie um pouco.
— Por favor, não leve a mal o que vou dizer — desculpou-se o rei —, mas, mais do que um homem, sua aparência lembra a de um macaco. Como é possível dominar uma magia capaz de fazê-lo viajar a tanta velocidade?
— Embora seja verdade que pertenço à família dos macacos — respondeu o Peregrino —, desde muito jovem rompi os laços que me prendiam à reencarnação e à morte. Busquei com empenho os ensinamentos do Tao e dediquei muitos anos exclusivamente à prática da virtude. Tomei a Terra como fornalha e o Céu como tampa, e assim destilei dois tipos de elixir que purificaram meu coração e meus rins. Desse modo, consegui unir o yin e o yang, harmonizar a água e o fogo e atravessar as próprias portas do mistério. Foi assim que passei a viajar entre as estrelas (1), tendo a Ursa Maior como testemunha dessas jornadas. Para mim, não há segredo na arte de controlar o fogo, purificar o mercúrio ou transformar o chumbo. Quando as Cinco Fases se encontram, os poderes criadores se manifestam; quando as quatro estações (2) estão em equilíbrio, o tempo flui de maneira ordenada. A prática constante das duas respirações (3) leva ao domínio da respiração embrionária, e as três mansões (4) acabam unidas pelo caminho do elixir dourado. São esses princípios que guiam os movimentos do meu corpo. Por isso, não é estranho que com um só salto possa transpor o cume do Monte Tai-Hang (5) ou até alcançar regiões além do Arroio-que-Supera-as-Nuvens (6). As incontáveis dobras das montanhas mais íngremes e as vastas extensões dos rios mais largos não me causam temor. Nada impõe limites aos meus poderes de transformação: com um simples movimento, posso percorrer mais de dez mil quilômetros.
Surpreso e encantado com as palavras do Peregrino, o rei voltou a encher uma taça de vinho e, sorrindo amplamente, ofereceu-a ao Peregrino, dizendo:
— Monge divino, a viagem será longa. Por favor, aceite ao menos esta taça de vinho, como preparação para a sua jornada.
Mas o Grande Sábio estava decidido a partir para subjugar o monstro. Como poderia perder tempo bebendo vinho naquele momento? Tudo o que o conseguiu dizer como desculpa foi:
—Por favor, deixe a taça de lado. Beberei quando eu retornar.
Depois de se despedir de todos os presentes, o Peregrino partiu em altíssima velocidade, deixando para trás um silvo agudo que cortou o ar. Por ora, não há mais o que dizer sobre o rei e seus espantados subordinados.
Falemos, então, do Peregrino. Após elevar-se aos céus, não demorou a avistar uma montanha que se erguia acima das mais altas camadas de nuvens. Logo desceu sobre o cume e lançou um olhar atento ao redor. A paisagem era de uma grandiosidade impressionante. O pico avançava em direção ao céu, enquanto as encostas despencavam rumo ao seio da terra, formando uma sucessão interminável de dobras e ravinas. Florestas densas de pinheiros gigantescos escureciam a luz do sol, e as rochas irregulares, cheias de fendas e desfiladeiros, aprisionavam as nuvens, impedindo-as de seguir adiante. O verde fresco dos pinheiros permanecia inalterado ao longo das quatro estações, assim como as massas rochosas, imóveis havia mais de dez mil anos. No coração das florestas ecoavam os gritos dos macacos, o alvoroço colorido das aves e os rugidos das feras da montanha. Serpentes enormes deslizavam, ameaçadoras, pelas margens dos riachos, enquanto veados e antílopes cruzavam as clareiras como flechas. Bandos de corvos e gralhas escureciam o céu em seu constante ir e vir. Por toda parte surgiam flores exóticas e plantas de toda espécie, misturadas ao colorido vibrante dos pessegueiros e de frutas variadas. Apenas o perigo oculto em certos desfiladeiros denunciava que aquela era a montanha de um falso imortal.
Depois de contemplar longamente a beleza da paisagem, o Grande Sábio se preparava para procurar a entrada da caverna quando, de repente, em uma das dobras da montanha, ergueu-se um fogo verdadeiramente extraordinário. Em um piscar de olhos, o céu foi tomado por um tom avermelhado, e do interior das chamas brotou uma espessa coluna de fumaça, ainda mais assustadora que o próprio incêndio. O brilho era tão intenso que superava o de dez mil lâmpadas acesas, dando a impressão de que mil arco-íris vermelhos se abriam diante dos olhos. Estava claro que aquela fumaça não vinha de lareira, forno ou da queima de madeira ou capim. Ela exibia cinco cores distintas: verde, vermelho, branco, negro e amarelo. Seu poder destrutivo era tamanho que poderia arrasar as colunas do Portão Sul dos Céus e iluminar o próprio Palácio da Névoa Divina. O calor era tão intenso que as feras, apavoradas em seus covis, viam a pele se desprender do corpo, enquanto as aves perdiam as penas como se jamais as tivessem tido. Quem ousaria atravessar aquela massa avassaladora de fogo e fumaça para enfrentar o senhor daquelas terras?
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Enquanto o Grande Sábio observava, atônito, aquele espetáculo de destruição, uma violenta tempestade de areia ergueu-se no coração da montanha. Era tão densa que os Céus perderam o brilho e a Terra mergulhou em completa escuridão. As partículas eram tão finas que penetravam mesmo com os olhos cerrados, enquanto grãos minúsculos de areia amarela, semelhantes a grãos de gergelim, cobriam toda a colina. Juntas, formavam uma cortina espessa de poeira, capaz de fazer um lenhador perder o caminho de casa ou um jovem coletor de ervas deixar de reconhecer o próprio companheiro. Mesmo segurando uma pérola luminosa nas mãos, tornava-se quase impossível avançar naquele mundo de sombras crescentes. Absorvido por aquele espetáculo inesperado, o Peregrino não percebeu que o pó começava a invadir-lhe as narinas, até que a ardência o fez espirrar duas vezes seguidas.
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Agachando-se rapidamente e, apanhando duas pequenas pedras, ele tampou os orifícios do nariz. Em seguida, sacudiu levemente o corpo e se metamorfoseou em um falcão capaz de atravessar o fogo, lançando-se com coragem entre a fumaça e as chamas.
No entanto, naquele mesmo instante, o pó e a areia desapareceram, e até o incêndio pareceu diminuir consideravelmente. O Peregrino retomou sua forma habitual e deixou-se cair do alto. Assim que os pés tocaram o chão, ouviu-se o som estridente de um gongo. Surpreso, ele pensou consigo mesmo:
— Alguma coisa está errada. Monstros não costumam viver em lugares assim. O som desse gongo lembra o usado por mensageiros oficiais. É provável que exista, mais acima, um pequeno reino, e alguém esteja indo entregar algum documento. O melhor agora é me aproximar e fazer algumas perguntas.
De fato, não demorou a avistar um demônio com um estandarte amarelo apoiado no ombro e uma grande bolsa de documentos às costas. Nas mãos, carregava um pequeno gongo, que não parava de soar, golpeado com entusiasmo incansável.
— Então é esse o sujeito que está tocando o gongo! — disse o Peregrino para si mesmo, rindo. — Fico curioso para saber que tipo de documento está carregando. É melhor eu dar uma olhada.
O Peregrino então sacudiu levemente o corpo e transformou-se em um mosquito, pousando com extremo cuidado sobre a bolsa Apesar do barulho ensurdecedor do gongo, conseguiu ouvir o demônio murmurar entre dentes:
— Nosso senhor é realmente cruel! Já faz três anos que raptou a Rainha do Sagrado Palácio Dourado e nem sequer a tocou. As damas do palácio trazidas como substitutas foram as únicas que dividiram o leito com ele, e ainda assim, não tiveram sorte. As duas primeiras morreram pouco tempo depois, assim como as quatro que vieram em seguida. Mesmo assim, ano após ano, ele continua exigindo mais donzelas. Só que desta vez encontrou um adversário. Aquele mensageiro enviado para exigir as damas do palácio foi derrotado por alguém chamado Peregrino Sun. Tomado pela fúria, nosso senhor decidiu declarar guerra àquele reino e ordenou que a mensagem fosse levada pessoalmente ao seu rei. Quando esse documento for entregue, o mais sensato seria que ele recusasse o desafio, porque seria um ocorreria um verdadeiro desastre. Quando o nosso senhor liberar o fogo, a fumaça e a cortina de areia, ninguém sobreviverá. A cidade será tomada, nosso senhor será proclamado imperador, e todos nós nos tornaremos seus oficiais. O problema é que… talvez os Céus não aprovem essa conduta.
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— Parece que até mesmo entre os demônios existem alguns com senso de justiça — pensou consigo mesmo o Peregrino. — Só alguém minimamente correto diria que talvez os Céus não aprovem esses atos. Ainda assim, não fica claro por que ele nunca se atreveu a tocar na Rainha do Sagrado Palácio Dourado. O melhor é esclarecer isso com algumas perguntas.
Em seguida, afastou-se do demônio por alguns quilômetros. Quando teve certeza de que não estava sendo observado, sacudiu o corpo novamente e transformou-se em um jovem taoísta, com dois tufos de cabelo sobre a cabeça e uma túnica tão gasta quanto a de um monge errante. Nas mãos, levava um pequeno tambor em forma de peixe, que tocava enquanto entoava um cântico. Contornando a montanha, logo reencontrou o demônio e o saudou com a mão erguida, dizendo:
— Posso saber para onde vai, e que documentos são esses que carrega em sua bolsa?
Agindo como se reconhecesse quem o abordava, o demônio interrompeu o toque do gongo e, rindo alto, retribuiu o cumprimento e respondeu, com grande alegria:
— Nosso senhor enviou-me ao Reino Púrpura para entregar uma declaração de guerra.
— Verdade? E a mulher que ele raptou do Reino Purpúria? Ele já se uniu a ela? — perguntou novamente o Peregrino.
— Não, pois quase imediatamente após ter sido raptada — respondeu o demônio —, um imortal lhe ofereceu de presente um manto divino de cinco cores. Assim que ela o vestiu, surgiram espinhos finos como agulhas por todo o corpo. Nosso senhor não ousou tocá-la nem de leve, pois o menor contato causaria uma dor terrível em sua mão. Não se sabe como esses espinhos surgiram, mas esse é o motivo de ele nunca ter se unido a ela. Hoje de manhã, ele enviou seu mensageiro até o Reino Púrpura para exigir duas damas do palácio, mas o mesmo foi derrotado por alguém chamado Peregrino Sun. Isso enfureceu tanto o nosso senhor que ele ordenou que fosse entregue imediatamente uma declaração de guerra ao governante daquele reino. Sua intenção é iniciar os combates amanhã.
— Então o nosso senhor ainda está de mau humor?— perguntou o Peregrino.
— Sim — confirmou o demônio. — Talvez não fosse má ideia tentar acalmá-lo com algumas canções taoístas.
O Peregrino agradeceu a sugestão juntando as mãos. Depois de se despedir, seguiu calmamente pelo caminho, enquanto o demônio retomava a marcha, tocando o gongo e se preparando para continuar a viagem. Porém, após poucos passos, a fúria do Peregrino irrompeu de forma súbita. Ele girou o corpo, empunhou o bastão de ferro e desferiu um golpe devastador na cabeça do demônio, partindo seu crânio, rasgando sua pele e quebrando o seu pescoço. Seu sangue jorrou em abundância, misturado a fragmentos do cérebro, e sua vida se extinguiu naquele instante.
Logo depois, com o bastão já guardado, o remorso veio à tona, e o Peregrino pensou consigo mesmo:
— Que falta de paciência a minha! Nem sequer perguntei como ele se chamava. Mas agora é tarde para se lamentar.
O Peregrino apanhou a declaração de guerra e guardou-a entre as mangas da roupa. Em seguida, recolheu o estandarte amarelo e o gongo, escondendo ambos entre a vegetação à beira do caminho. O cadáver foi então lançado em um riacho. No momento em que o arremessava, desprendeu-se da cintura do demônio uma placa de prata, com uma inscrição que dizia:
“Este jovem subordinado atende pelo nome de Ida e Volta (7). Ele possui baixa estatura, rosto marcado por varíola e é completamente imberbe. Esta placa deve permanecer sempre presa à sua cintura. Qualquer um que não a possua é um impostor.”
— Então o seu nome era Ida e Volta — comentou o Peregrino, com um sorriso irônico. — Mas depois de levar um golpe do meu bastão, não volta mais.
Depois disso, o Peregrinou apanhou a placa e a prendeu à própria cintura. Estava prestes a se livrar do cadáver do demônio, quando se lembrou da ameaça de fumaça e fogo, o que o fez desistir de procurar mais a fundo a caverna do demônio. Em vez disso, espetou o cadáver do demônio na ponta do seu bastão de ferro e alçou voo de volta ao Reino Púrpura, decidido a mostrar ao rei o seu primeiro sucesso. Durante o trajeto de volta, assobiava enquanto refletia sobre a estratégia que deveria adotar a partir de então.
Bajie estava de guarda diante do Salão dos Sinos de Ouro quando viu o Peregrino se aproximar pelos ares, com o cadáver do demônio atravessado na extremidade do seu bastão de ferro.
— Que idiota eu fui! — murmurou consigo mesmo. — Se eu soubesse que era tão fácil, eu mesmo teria ido capturar esse monstro. Assim, todo o mérito seria meu.
Mal havia acabado de pensar isso, quando o Peregrino desceu da nuvem e lançou o cadáver ao chão. Bajie avançou imediatamente sobre o mesmo e desferiu-lhe golpes violentos com o ancinho, gritando:
— Esse mérito é todo meu!
— Pode-se saber de que mérito você está falando? — perguntou o Peregrino.
— Não adianta negar — respondeu Bajie, em tom triunfante. — A prova está aqui. Buracos desse tipo só podem ser feitos por este ancinho.
— Por que não dá outra olhada e verifica se ele tem cabeça ou não? — replicou o Peregrino.
— Então ele não tem cabeça! — exclamou Bajie, caindo na gargalhada. — Agora ficou claro por que não se mexeu depois de levar o meu golpe.
— Onde está o mestre? — perguntou o Peregrino.
— Está lá dentro, conversando com o rei — respondeu Bajie.
— Então diga a ele para sair imediatamente — ordenou-lhe o Peregrino.
Bajie correu até o salão e fez um sinal com a cabeça, prontamente compreendido por Sanzang. Sem perder tempo, o mestre levantou-se da mesa e foi ao encontro do Peregrino. Este, rapidamente, escondeu a declaração de guerra entre as mangas do mestre e disse em voz baixa:
— Guarde isso, Mestre, e não deixe que o rei veja.
Mal havia terminado de falar quando o próprio monarca surgiu. Assim que avistou o Peregrino, perguntou:
— Então já retornou, Monge Divino? Como foi o confronto com o monstro?
— Aquele ali não é o cadáver de um monstro? — respondeu o Peregrino, apontando para o corpo estendido no chão. — Eu o matei!
— Sem dúvida — reconheceu o rei, observando com atenção —, mas esse não é o Equivalente à Tai Sui. Posso afirmar isso com certeza, pois já o vi pessoalmente algumas vezes. Ele tem mais de seis metros de altura, e os seus ombros são pelo menos cinco vezes mais largos do que os desse infeliz. Além disso, o rosto brilha como um relâmpago, e a voz soa mais forte que o trovão. Não se parece em nada com esse mosquito morto à nossa frente.
— Sua observação é correta — concordou o Peregrino. — Esse infeliz não é o Equivalente à Tai Sui, mas apenas um mensageiro que teve o azar de cruzar o meu caminho. Trouxe o corpo dele comigo para que fique claro que nenhuma palavra minha é vazia.
— Excelente! — exclamou o rei, visivelmente satisfeito. — É a primeira vez que alguém consegue algo assim. Inúmeras vezes enviei soldados em busca de informações, e todos voltaram de mãos vazias. Desta vez, bastou uma única saída para que retornasse com um inimigo morto. É impossível negar que seus poderes mágicos são extraordinários. Aqueçam o vinho! Vamos celebrar dignamente o nosso benfeitor! — ordenou, voltando-se aos criados.
— O vinho não é o mais importante agora — apressou-se em dizer o Peregrino. — O que preciso agora é saber se, no momento de sua partida, a Rainha do Sagrado Palácio Dourado deixou algum escrito. Se existir algo assim, gostaria de examiná-lo.
Ao ouvir a palavra "escrito", o rei pareceu ser atingido por um golpe profundo. Rendendo-se às lágrimas, respondeu:
— Mal havíamos terminado o brinde pela felicidade e prosperidade daquele ano quando o monstro surgiu aos gritos e levou minha esposa à força, para que dividisse o leito com ele. Aceitei essa perda pelo bem do povo. Tudo aconteceu rápido demais, sem tempo para despedidas ou palavras de consolo. Ela levou tudo consigo. Não restou lembrança alguma, além dessa saudade e dessa dor que consomem o coração. Nem mesmo um simples saquinho de perfume ficou para trás.
— Não há razão para prolongar esse sofrimento, quando o fim dele já se aproxima — replicou o Peregrino. — Se, como foi dito, ela não deixou nenhum objeto, haveria no. palácio algum objeto de que fosse especialmente afeiçoada? Caso exista, gostaria que me mostrasse.
— Para que serviria isso? — perguntou o rei.
— Pude constatar que aquele monstro possui poderes mágicos extraordinários — explicou o Peregrino. — Ele libera grandes quantidades de fumaça, fogo e areia, o que torna sua captura extremamente difícil. Mesmo que seja possível detê-lo, é muito provável que a rainha se recuse a acompanhar alguém desconhecido. Ela só confiará em mim se eu levar algo que lhe seja familiar, algo de grande valor afetivo dos tempos em que ainda vivia neste palácio. Por isso, é indispensável levar algo assim.
— Se a memória não me falha — disse o rei —, em uma das alcovas do Palácio do Sol Brilhante existe um par de braceletes de ouro que um dia pertenceu à Rainha do Sagrado Palácio Dourado. Eles ficaram ali porque, no dia da festa, foram retiradas para que seus braços fossem enfeitados com fitas coloridas. Como eram objetos de que ela gostava muito, acabaram guardadas em um porta-joias. Mas confesso que, sempre que os vejo, o choro é inevitável. O meu afeto por ela era profundo, e a forma como ela foi arrancada de mim, é trágica demais.
— É melhor não continuar falando disso — aconselhou o Peregrino. — Traga esses braceletes que mencionou. Se for capaz de se desfazer deles, entregue-os a mim e partirei imediatamente para libertá-la. Caso contrário, um deles será suficiente.
O rei voltou-se para o Palácio da Sabedoria de Jade e ordenou que as joias fossem buscadas. Assim que as viu, não conteve as lágrimas e exclamou, inconsolável:
— Minha querida! Minha querida senhora!
Ainda assim, reuniu coragem e confiou os braceletes ao Peregrino, que logo os ajustou no braço. Recusando o vinho para não perder tempo, o Grande Sábio montou numa nuvem e, num piscar de olhos, alcançou a Montanha Qilin. Desta vez, não houve espaço para admirar a paisagem; sua atenção se voltou inteiramente para a busca da caverna. Após circular a região algumas vezes, ouviu o murmúrio inconfundível de vozes. Seguindo o som, avistou a entrada da Caverna de Xiezhi. Diante dela, alinhavam-se mais de quinhentos soldados, prontos para partir a qualquer momento. Todos estavam armados até os dentes. Lanças e espadas brilhavam como brasas sob o sol. Os estandartes tremulavam ao vento, ostentosos como os generais-tigre e capitães-urso que comandavam aquelas tropas de guerreiros-leopardo e marechais-gato-do-mato. Os lobos cinzentos exibiam coragem notável, e a força dos elefantes impressionava. Havia ainda lebres inquietas, cervos sempre alertas empunhando espadas e machados, serpentes longuíssimas e cobras gigantes carregando arcos e aljavas. O comando cabia a um orangotango que, por compreender a língua dos homens, mostrava-se mais apto do que qualquer outro para liderar aquele exército.
O Peregrino resolveu não seguir adiante, não por medo, mas por prudência. Voltou pelo caminho de onde viera até o local onde havia matado o demônio mensageiro. Ali encontrou o gongo e o estandarte amarelo que trazia consigo. Virou-se para o vento, traçou um sinal mágico e transformou-se na imagem exata de Ida e Volta. Sem hesitar, começou a tocar o gongo e seguiu com passo firme em direção à Caverna de Xiezhi. Ao chegar, ouviu o orangotando perguntar:
— Já voltou, Ida e Volta?
— Sim — respondeu o Peregrino, à contragosto.
— Entre imediatamente e informe nosso senhor sobre o resultado da missão — ordenou o orangotango. — Ele aguarda ansioso no Pavilhão do Esquartejamento.
O Peregrino lançou-se para o interior da caverna sem parar de golpear o gongo. Para sua surpresa, percebeu que ali dentro havia precipícios tão profundos e escarpas tão ásperas quanto as do lado de fora. Entre eles, porém, erguiam-se construções de pedra serenas e bem traçadas. À sombra de seus muros, estendiam-se tapetes exuberantes de plantas e flores exóticas, que suavizavam a força retorcida de cedros e pinheiros centenários. Ao atravessar um segundo portal, deparou-se com uma construção octogonal, dotada de oito arcadas translúcidas. No centro erguia-se um trono de ouro, sobre o qual repousava o monstro, de aparência aterradora.
Acima de sua cabeça flutuava uma nuvem multicolorida, que se agitava ao ritmo da respiração de seus pulmões poderosos. Entre os lábios surgiam dentes afiados como espadas, acentuando ainda mais o aspecto demoníaco. Os cabelos, vermelhos como brasas, caíam de forma desordenada sobre a testa, como se a cabeça estivesse mergulhada numa fogueira. As barbas, duras como flechas, apagavam o contorno dos lábios e pareciam uma continuação do espesso pelo que cobria todo o corpo. Assim como os do verdadeiro Tai Sui, seus olhos tinham o brilho do cobre e a vivacidade do mercúrio. Sobre os joelhos repousava uma clava tão longa quanto a distância entre o céu e a terra.
A visão impressionou o Peregrino, mas não lhe faltou coragem para fingir desprezo. Ignorando qualquer formalidade, virou-lhe as costas de maneira descarada e continuou a bater o gongo, como se nada tivesse visto.
— Quando foi que retornou? — perguntou o monstro, mas o Peregrino não se deu ao trabalho de responder.
— Eu perguntei quando foi que você retornou, Ida e Volta! — acrescentou, perdendo a paciência.
O Peregrino permaneceu em silêncio. Furioso, o monstro levantou-se do trono e, agarrando-o pelas roupas, sacudiu-o com violência, gritando:
— Dá para saber por que essa insistência em tocar esse maldito gongo? Além disso, fiz uma pergunta! Por que se recusa a responder?
— Por quê, por quê, por quê! — explodiu o Peregrino, arremessando o gongo ao chão. — Para que tantas perguntas? Eu não queria ir, mas o senhor insistiu que eu fosse. Assim que cheguei àquele maldito reino, surgiu um exército imenso de homens a cavalo, todos prontos para a batalha. No instante em que me viram, começaram a gritar: “Agarrem esse monstro! Não o deixe escapar!”. Só pararam depois de me capturar e me arrastar, entre empurrões e golpes, até a presença do rei, que ordenou que cortassem minha cabeça na mesma hora. A sorte foi que um conselheiro lembrou daquele velho ditado: “Quando dois reinos estão em guerra, a vida dos mensageiros deve ser respeitada”. Isso evitou a minha morte, mas os documentos que trazia comigo foram confiscados, e fui expulso da cidade sem respeito algum, depois de levar mais de trinta chicotadas diante de todo o exército. Se pouparam minha vida, foi apenas para que eu transmitisse o recado de que eles estão prontos para entrar em combate.
— Em outras palavras — respondeu o monstro —, você passou por maus momentos. Agora entendo por que se recusava a responder as minhas perguntas.
— Se não respondi — corrigiu o Peregrino — foi porque a dor que sentia era grande demais.
— Conseguiu ao menos contar quantos homens e cavalos eles têm prontos para a guerra? — perguntou o monstro novamente.
— Como poderia contar alguma coisa, se o medo me dominava e os golpes não deixavam nem levantar os olhos? — respondeu o Peregrino. — Ainda assim, o que vi foi uma verdadeira floresta de de armas: arcos, flechas, sabres, cotas de malha, armaduras, lanças, espadas, machados de dois gumes, estandartes, bolas de ferro, lâminas em forma de meia-lua, capacetes, escudos redondos, catapultas, clavas, tridentes de aço e todo tipo de engenho de guerra. Sem falar nos equipamentos: botas altas, elmos, couraças, peitorais, chicotes, fundas e maças de bronze.
— Isso não é nada para mim! — zombou o monstro, soltando uma gargalhada. — Um pouco de fogo basta para fazer desaparecer todas essas armas. Avise a Rainha do Sagrado Palácio de que não há motivo para preocupação. Quando soube que eu estava disposto a entrar em combate, ela se pôs a chorar sem controle. Vá até ela e diga que os homens e cavalos do reino dela são temíveis e que, sem dúvida, sairão vitoriosos contra mim. Isso deve aliviar o coração dela por algum tempo.
— Era exatamente isso que eu precisava ouvir — pensou o Peregrino, satisfeito com a sugestão inesperada.
Como se conhecesse perfeitamente o caminho até os aposentos da rainha, o Peregrino passou a abrir e fechar portas, deixando para trás salões e câmaras sucessivas. Na parte mais profunda da caverna erguiam-se edifícios esplêndidos, completamente diferentes daqueles da ala anterior. A Rainha do Sagrado Palácio Dourado vivia na região posterior do palácio — algo que o Peregrino percebeu de imediato ao notar o colorido extraordinário das portas alinhadas naquele trecho. Depois de atravessá-las, olhou ao redor com curiosidade e viu duas criadas, que eram na verdade uma raposa e um cervo demônios, maquiados e arrumados para parecer belas donzelas, posicionadas à esquerda e à direita. No centro delas estava a mulher, com o rosto apoiado na mão, chorando de forma inconsolável.
— Antes disso, há algo de extrema importância que preciso saber — respondeu o Peregrino. — Que tipo de objeto é aquele capaz de lançar fogo, areia e fumaça?
— Não se trata de nada especialmente valioso, mas de três sinos de ouro — explicou a mulher. — Quando o primeiro é sacudido, projeta uma língua de fogo com mais de mil metros de extensão, capaz de reduzir tudo a cinzas. O segundo libera uma nuvem de fumaça que ultrapassa um quilômetro e sufoca qualquer ser vivo que a atravesse. Já o terceiro lança uma enorme quantidade de areia amarela, arremessada a grande distância, enlouquecendo quem entra em contato com ela. Essa areia é extremamente venenosa e, ao penetrar pelas narinas, causa morte imediata.
— Extraordinário! — exclamou o Peregrino. — Embora eu já tenha sentido na pele seus efeitos. Houve até espirros difíceis de controlar. Resta saber onde esses sinos ficam guardados.
— Não se engane pensando que eles ficam escondidos em algum lugar — respondeu a mulher. — Ele os mantém sempre presos à cintura e não os retira nem mesmo durante o sono.
— Se ainda ama o Reino Púrpura e nutre pelo rei os mesmos sentimentos que um dia abrigou seu coração, é preciso renunciar por enquanto à tristeza e à saudade — aconselhou o Peregrino. — Mostre-se leve e afetuosa, permitindo até que ele se deite ao seu lado. Quando tiver conquistado sua plena confiança, convença-o a entregar-lhe a guarda dos sinos. Assim será possível roubá-los e detê-lo. Dessa forma, a senhora poderá retornar ao lado do seu esposo e viver com ele em harmonia e felicidade.
A mulher concordou de imediato. O Peregrino, depois de voltar a assumir a forma do fiel servidor do monstro, abriu as portas do palácio e chamou as criadas. Nesse mesmo instante, a mulher ergueu a voz e ordenou:
— Ida e Volta, vá depressa e comunique ao senhor que desejo vê-lo imediatamente. Tenho um assunto importante a tratar com ele.
O Peregrino respondeu em voz alta que assim faria e seguiu apressado até o Pavilhão do Esquartejamento. Ao encontrar o monstro, transmitiu o recado:
— A Rainha do Sagrado Palácio Dourado deseja se encontrar com o senhor imediatamente.
— Que estranho — comentou o monstro, visivelmente animado. — Normalmente, ela demonstra apenas indiferença e desprezo por mim. O que terá feito ela mudar assim de repente?
— Talvez o fato de, ao perguntar pelo Senhor do Reino Púrpura, ter ouvido que ele já não nutria qualquer afeto por ela, e que havia tomado outra mulher como rainha — respondeu o Peregrino. — Ao saber disso, ela deixou de pensar nele e ordenou que eu viesse transmitir o recado.
— Que grande serviço você me prestou! — exclamou o monstro, visivelmente satisfeito. — Quando tiver acabado com aquele maldito reino, você será nomeado meu conselheiro pessoal.
Depois de agradecer, o Peregrino acompanhou o monstro até a ala posterior do palácio. Ali, a mulher o recebeu com um sorriso sedutor e os braços abertos. O monstro recuou, surpreso, e inclinou-se com respeito, dizendo:
— Sinto-me profundamente honrado. Não encontro palavras para agradecer tamanha demonstração de afeto. Ainda assim, não ouso tocá-la. A dor sentida nas mãos da outra vez ainda está viva na memória.
— Por favor, sente-se — disse ela. — Tenho algo importante a dizer.
— Fique à vontade — respondeu o monstro.
— Já se passaram três anos desde que demonstrou o seu afeto por mim — começou a mulher. —Mesmo sem termos compartilhado o leito, o destino parece indicar que o casamento é inevitável. Ainda assim, tenho a sensação de que algo está errado, como se não houvesse tratamento verdadeiro de esposa. Quando ainda era rainha do Reino Púrpura, sempre que os estados estrangeiros ofereciam tributos, cabia à mim guardá-los após a inspeção do rei. Aqui, quase não há tesouros: as roupas são de peles, a comida é carne crua, não se vê seda nem brocado, nem ouro ou pérolas. Tudo se resume a couros e pelagens. É provável que existam tesouros, mas a distância mantida impede que sejam mostrados ou confiados à minha guarda. Ouvi comentários, por exemplo, sobre alguns sinos ou gongos de grande valor. Dizem que são três e que nunca se separam de você. Não seria mais sensato deixá-los sob meus cuidados? Somos marido e mulher, e alguma confiança entre nós deveria existir. Caso contrário, resta apenas a impressão de que ainda sou tratada como alguém de fora.
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— Você tem toda razão! — exclamou o monstro, tomado pela emoção. — Suas queixas são justas. Esses são, de fato, os únicos bens de valor que possuo. A partir de agora, ficarão sob sua guarda.
Observando atentamente, o Peregrino percebeu que, depois de levantar duas ou três camadas de roupa, o monstro trazia amarrados ao corpo três pequenos sinos. Ele os desatou e, depois de tapar as bocas com algodão, envolveu-os em um pedaço de pele de leopardo.
— Apesar da aparência simples — disse, ao entregá-los à mulher —, é preciso guardá-los com muito cuidado, sem agitá-los nem fazê-los soar.
— Não há motivo para preocupação — respondeu ela, tentando tranquilizá-lo. — Vou escondê-los em meus aposentos, e tenha certeza de que ninguém lhes tocará.
Voltou-se então para as donzelas e ordenou:
— Tragam vinho. Quero brindar ao nosso amor e à nossa felicidade.
Sem perder tempo, as donzelas trouxeram uma mesa e a cobriram com frutas, verduras e carne de veado e de coelho. Em seguida, encheram as taças com licor de coco. Enquanto isso, a mulher lançou mão de todos os seus encantos para atrair o monstro à armadilha. O Peregrino Sun não perdeu tempo. Sem ser notado, dirigiu-se à alcova e tomou, com extremo cuidado, os três sinos de ouro.
O coração do Peregrino batia acelerado quando deixou o palácio. Ao chegar ao Pavilhão do Esquartejamento, ele abriu a pele de leopardo e examinou os objetos: o sino do meio não era maior que uma xícara de chá, enquanto os outros dois tinham o tamanho de um punho fechado. Ignorando o perigo que representavam, retirou o algodão que vedava suas bocas. No mesmo instante, ouviu-se um ruído ensurdecedor, e os sinos começaram a lançar uma quantidade incrível de fogo, fumaça e areia amarela.
Em vão, o Peregrino tentou tapar a boca deles com o algodão. Num piscar de olhos, as chamas alcançaram uma altura assustadora e devoraram o pavilhão. Tomados pelo pânico, os demônios que estavam por ali correram à parte posterior do palácio para informar o ocorrido ao monstro, que gritou, fora de si:
— Apaguem o fogo imediatamente! O que estão esperando?
Em seguida, lançou-se em direção ao pavilhão, seguido por todos os seus. Logo avistou Ida e Volta com os sinos nãos mãos e, atirando-se sobre ele, berrou com fúria:
— Escravo miserável! Como se atreve a se apoderar dos meus sinos e a brincar com eles, como uma criança sem juízo? Isso merece castigo exemplar! Agarrem-no!
Os guerreiros-tigre, os oficiais-urso, os capitães-leopardo, os marechais-gato-do-mato, os elefantes, os lobos-cinzentos, as lebres astutas, os cervos atentos, as serpentes longas, as enormes pítons e o orangotango avançaram com tanta rapidez que o Peregrino foi obrigado a lançar os sinos para longe e reassumir sua forma verdadeira. Em seguida, empunhou o seu bastão de ferro com extremidades de ouro e enfrentou, com coragem extraordinária, aquela multidão enlouquecida de animais.
Assim que o monstro recuperou seu precioso tesouro, ordenou com voz autoritária:
— Fechem os portões!
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