13 de fevereiro de 2026

A Jornada ao Oeste: Capítulo LXXI

۞ ADM Sleipnir


CAPÍTULO LXXI:

AO SE PASSAR POR OUTRA PESSOA, O PEREGRINO DERROTA O LOBO. EM UMA EPIFANIA, GUANYIN SUBJULGA O MONSTRO.

Desde tempos antigos afirma-se, com razão, que a forma é vacuidade e que a vacuidade também se manifesta como forma, sendo, no fundo, uma única realidade. Aquele que compreende esse mistério em toda a sua profundidade já não precisa continuar refinando o mercúrio. Para alcançar tal compreensão, é necessário agir com rigor, perseverar no cultivo da virtude e suportar o esforço do aperfeiçoamento. Somente então se pode encarar os Céus de frente, com a serenidade imutável e o semblante eterno dos deuses.

Contávamos que o Equivalente à Tai Sui ordenou o fechamento de todas as portas da caverna, decidido a impedir qualquer tentativa de fuga do Peregrino. Suas hordas de pequenos demônios vasculharam cada canto do lugar, de cima a baixo, até o cair da noite, mas não encontraram o menor vestígio dele. Desanimado, o monstro sentou-se no Pavilhão do Esquartejamento e ordenou a seus generais que posicionassem grupos de soldados nas entradas, fortemente armados e munidos de sinos, tambores e chocalhos, para se comunicarem ao menor sinal de algo estranho. Determinou ainda que as patrulhas mantivessem as espadas sempre desembainhadas e as flechas prontas nos arcos, sem jamais baixar a guarda. O Grande Sábio, porém, havia se transformado numa minúscula mosca e pousara justamente nas ombreiras da porta. Ao perceber que a parte dianteira da caverna estava firmemente vigiada, voou para os fundos. Ali encontrou a rainha com a cabeça apoiada sobre uma mesa, chorando de forma inconsolável, enquanto murmurava palavras carregadas de dor. O Peregrino pousou com cuidado em seus cabelos desgrenhados e passou a ouvir seus lamentos, que diziam:

— Grandes devem ter sido as faltas que cometi em vidas passadas para que sobre mim recaísse um destino tão cruel, condenando-me a conviver com um monstro tão impiedoso. Será possível que essa separação terrível, já prolongada por três anos, jamais encontre um fim? A dor mais profunda é viver tão distante de quem se ama. O mensageiro que trouxe notícias reacendeu meu coração com esperança, mas pouco depois encontrou a morte. Agora compreendo quão árduo é tomar os sinos de ouro, e isso torna ainda mais amarga a saudade que consome o espírito.


Nesse momento, o Peregrino aproximou-se de seu ouvido e sussurrou:

— Senhora, sou eu, Sun Wukong, o monge enviado para cumprir a missão confiada por vosso esposo. Ainda estou vivo. O que ocorreu foi fruto da minha impaciência. Enquanto a senhora bebia com o monstro, fui até vosso aposento e tomei os sinos de ouro. Consegui escapar até o pavilhão da frente, mas não resisti à curiosidade e desatei o embrulho para dar uma olhada. Mal sabia eu que, ao retirar o algodão que os preenchia, fumaça, fogo e areia amarelada irromperiam de uma só vez, com um estrondo ensurdecedor. Tão desorientado fiquei que deixei os sinos caírem e, retomando minha forma habitual, empunhei meu bastão de ferro e tentei abrir caminho entre os inimigos que me cercavam. Eram tantos, e o perigo tão grande, que me transformei numa mosca diminuta, o que me permitiu passar despercebido até agora. O monstro espalhou patrulhas por toda parte e se nega a abrir as portas. Creio que chegou o momento de atraí-lo ao vosso leito. Assim, poderei escapar e elaborar um novo plano para libertá-la deste inferno.

Ao ouvir aquilo, a rainha começou a se sacudir com tanta violência que parecia como se estivessem arrancando seus cabelos. Pouco a pouco, uma estranha fraqueza tomou conta de seu corpo, embora o coração ainda batesse acelerado. Mesmo assim, restou-lhe energia para exclamar, ofendida:

— O que você é, afinal? Um monstro ou um ser humano?

— Nem uma coisa, nem outra — respondeu o Peregrino. — Como pode ver, no momento sou apenas uma pequena mosca. Não tenha medo. Apenas vá e convide o monstro para vir até aqui.

A rainha, porém, resistia a acreditar. O choro se intensificou e, quase num sussurro, veio a pergunta:

— Você está tentando me enfeitiçar?

— Por que eu faria isso? — defendeu-se o Peregrino. — Se não acredita, estenda a palma da mão para que eu possa pousar nela e a senhora possa me ver sem dificuldade.

Ela assim o fez, e o Peregrino voou até a delicada palma da dama. Era como um brilhante sobre um botão de lótus, ou uma abelha descansando numa peônia, ou uma uva jogada sobre um tecido de seda bordado, ou uma mancha de tinta lançada sobre um buquê de lírios. A Rainha do Sagrado Palácio Dourado ergueu sua mão de jade e exclamou:

— Que monge extraordinário!

— Na verdade, sou uma metamorfose dele — confirmou o Peregrino com um leve zumbido.

Só então a rainha se tranquilizou e perguntou, no mesmo tom discreto de antes:

— O que vai fazer quando eu conseguir atrair o monstro até aqui?

— Como diziam os antigos — respondeu o Peregrino —, “somente o vinho é capaz de arruinar a vida dos mais fortes”(1). Em outras palavras, nada afasta melhor as aflições. Com vinho se consegue qualquer coisa, então o melhor é fazer o monstro beber o máximo possível. Chame suas criadas e me indique qual delas é a mais confiável. Não tenha medo. Vou me transformar nela e, assim, poderei ficar o tempo todo ao seu lado e agir no momento certo.

— Onde você está, Graça da Primavera? — chamou a rainha, levantando a voz.

Imediatamente surgiu de trás de um biombo uma raposa com o rosto inteiramente coberto de pó, que se ajoelhou e respondeu com respeito:

— O que a senhora deseja de mim?

— Ordene às outras donzelas que acendam as lâmpadas, queimem um pouco de almíscar e depois me acompanhem até a parte da frente da caverna. Irei pedir ao senhor para que venha deitar-se comigo.

Sem perder tempo, Graça da Primavera reuniu outras sete ou oito raposas e, pegando duas lâmpadas e um par de incensários, foram até os aposentos de sua senhora. Com muito respeito, formaram duas fileiras, e a rainha dobrou as mãos de maneira graciosa. O Grande Sábio levantou voo e pousou sobre a cabeça da raposa com o rosto empoado. Depois de arrancar um fio de cabelo e soprar nele uma baforada de ar imortal, gritou:

— Transforme-se!

No mesmo instante, ele se tornou um inseto do sono, que deslizou cuidadosamente pelo rosto da moça. Criaturas desse tipo são tão temíveis que, quando entram no nariz de alguém, fazem com que caiam no sono de imediato. Foi exatamente o que aconteceu com Graça da Primavera. Ela começou a se sentir de repente tão cansada que mal conseguia ficar em pé. Cambaleando como se estivesse bêbada, voltou correndo para seus aposentos e, antes mesmo de apoiar a cabeça no travesseiro, já roncava profundamente. O Peregrino sacudiu levemente o corpo e, num instante, se transformou numa cópia exata de Graça da Primavera. Ele só precisou sair de trás do biombo para se juntar ao grupo das outras donzelas. Portanto, por ora, não falaremos mais dele.

Falaremos, no entanto, da Rainha do Sagrado Palácio Dourado, que seguiu adiante como se nada tivesse acontecido, caminhando em direção à parte frontal da caverna. Ao avistá-la, os demônios correram para avisar o Equivalente à Tai Sui e anunciaram, espantados:

— A senhora acabou de chegar!

O monstro apressou-se em recebê-la à porta do Pavilhão do Esquartejamento. Sorrindo com uma doçura inesperada, a rainha comentou:

— O fogo foi apagado, a fumaça já se dissipou e não há qualquer sinal do ladrão. Além disso, a noite está muito escura. Não seria melhor ir comigo até o leito?

— Convém agir com mais cautela — respondeu o monstro, visivelmente satisfeito. — Esse ladrão não é outro senão Sun Wukong, o mesmo desalmado que derrotou o emissário que enviei, matou meu servo de maior confiança e, recorrendo às artes da metamorfose, entrou nesta mansão apenas para zombar de todos nós. Vasculhamos o lugar por completo, mas não encontramos o menor vestígio dele. É por isso que o clima anda tão inquieto.

— É bem provável que ele já tenha escapado — disse a rainha. — Na minha opinião, o senhor devia parar de se preocupar e se vir comigo para descansar.

Diante de tanta insistência, o monstro não teve coragem de contrariá-la. Depois de ordenar aos demônios que redobrassem a vigilância com archotes e tochas, mantendo atenção constante contra ladrões e intrusos, retirou-se para a parte de trás da caverna, acompanhado pela dama. O Peregrino, transformado em Graça da Primavera, entrou nos aposentos privados da senhora, junto com as duas fileiras de donzelas.

— Preparem um pouco de vinho — ordenou então a rainha. — É preciso ajudar o senhor a esquecer todas as preocupações.

— Excelente ideia!exclamou o monstro, soltando uma gargalhada. — Tragam logo o vinho. Eu ajudarei a querida dama a acalmar seus temores.

A falsa Graça da Primavera e as outras donzelas trouxeram algumas travessas cheias de frutas e vários pratos feitos com carne de veado, enquanto arrumavam as mesas e cadeiras. A rainha pegou uma taça com as mãos, e o monstro imediatamente fez o mesmo. Depois de brindarem um à saúde do outro, a falsa Graça da Primavera pegou a garrafa de vinho e, posicionando-se ao lado dos dois, disse:

— Já que vocês ainda não trocaram os brindes de costume, sugiro que esvaziem logo suas taças,  para que eu possa servir-lhes uma rodada de Dupla Felicidade.

Assim foi feito, e a donzela tornou a enchê-las, repetindo o gesto várias vezes seguidas. Então, a falsa Graça da Primavera exclamou, eufórica:

— Como fico feliz em ver vocês finalmente juntos! Por que não mandam as donzelas que sabem cantar e dançar se apresentarem?

Mal havia terminado de falar quando todo o palácio se encheu de uma harmonia verdadeiramente encantadora. Enquanto os senhores bebiam sem parar, as jovens que sabiam cantar entoavam belas melodias, e aquelas que dominavam a difícil arte da dança se moviam com graça e leveza. 


Em certo momento, porém, a rainha mandou interromper o canto e a dança, ordenando que a música continuasse a soar detrás do biombo. Apenas a falsa Graça da Primavera permaneceu no salão, servindo vinho e licores sem descanso. A rainha percebeu que havia chegado a hora de atiçar o desejo do monstro e passou a lançar mão de todos os seus encantos. Fê-lo com tamanha sedução que a besta enlouqueceu de vontade. Ainda assim, por mais que tentasse, não conseguia tocar a dama. Era uma frustração cruel, como um prazer vazio, sem substância alguma. Apesar disso, a rainha continuou rindo e provocando-o por um bom tempo. De repente, perguntou:

— Houve algum dano àqueles objetos tão preciosos?

— Como poderiam sofrer qualquer dano, se foram forjados a partir dos elementos mais primordiais da natureza? — respondeu o monstro. — O único problema foi que, ao retirar o algodão, o couro de leopardo acabou queimado. Nada além disso.

— E como fez para embrulha-los novamente? — insistiu a rainha.

— Não os embrulhei — respondeu o monstro. — Só os pendurei de novo em minha cintura.

Ao ouvir isso, a falsa Graça da Primavera arrancou discretamente um punhado de fios de cabelo e os triturou com rapidez entre os dentes. Em seguida, aproximou-se do monstro e deixou os fios caírem sobre o corpo dele. Depois de soprar três baforadas de ar imortal, murmurou em voz baixa:

— Transformem-se!

No mesmo instante, os fios se converteram em três dos insetos mais incômodos que existem: piolhos, pulgas e percevejos. Num piscar de olhos, elesentraram nas roupas do monstro e começaram a picá-lo sem piedade. Incapaz de suportar a coceira, a besta enfiou a mão pelo colarinho e passou a se coçar como se tivesse enlouquecido. Acabou apanhando alguns piolhos e os levou à luz para examiná-los. A rainha franziu a testa e exclamou com certo desdém:

— Me perdoe, mas acho que o senhor devia lavar suas roupas com mais frequência. Elas devem estar há muito tempo sem ver água. Caso contrário, não haveria tantos piolhos assim.

— Até agora nunca houve esses bichos por aqui — justificou-se o monstro, morto de vergonha. — Não entendo como uma desgraça dessas caiu sobre mim de repente!


— Isso está longe de ser uma desgraça — retrucou a rainha, rindo. — Como diz o provérbio, "até no corpo de um imperador existem ao menos três piolhos". Se você retirar suas roupas, será bem mais fácil livrar-se de todos eles.

O monstro não precisou ouvir duas vezes. Imediatamente começou a soltar o cinto e a túnica, enquanto a falsa Graça da Primavera observava tudo com atenção. Cada peça de roupa estava infestada de pulgas e percevejos. Quanto aos piolhos, eram tantos que pareciam formigas correndo para dentro de um formigueiro. Mas o lugar onde se tornava quase impossível contá-los era sobre a própria pele do monstro. Ali formavam um enxame tão denso que os sinos de ouro sequer podiam ser vistos. 

Aproveitando a ocasião, a falsa Graça da Primavera disse com naturalidade:

— Se for conveniente, pode deixar os sinos comigo. Assim, será muito mais fácil lidar com esses insetos.

O monstro estava tão assustado e envergonhado que não conseguia distinguir o verdadeiro do falso e entregou seus preciosos tesouros sem pestanejar. 

O Peregrino, na forma da Graça da Primavera os pegou na mão e ficou brincando com eles por um bom tempo. Vendo que o monstro estava ocupado demais com suas roupas para se preocupar com qualquer outra coisa, ele escondeu os sinos às pressas e, arrancando três fios de cabelo, os transformou numa réplica exata dos objetos tão valiosos. Não contente com isso, examinou-os cuidadosamente à luz de uma lâmpada e comprovou que não havia, de fato, nenhuma diferença entre eles. Satisfeito, sacudiu levemente o corpo e recuperou aquela legião incontável de piolhos, pulgas e percevejos que tanto atormentaram o monstro. O monstro sentiu tanto alívio que, ao pegar os sinos novamente em suas mãos, nem sequer prestou atenção neles. Sem hesitar, entregou-os à rainha e disse:

— Guarde-os com cuidado, para evitar que aconteça outra vez o que ocorreu da última vez.


A rainha abriu um baú de roupas e colocou dentro os sinos falsos. Para tranquilizar o monstro, trancou-o com um cadeado de ouro voltou a beber mais algumas taças. Em seguida, virou-se para as donzelas e ordenou:

— Limpem bem o leito de marfim e tirem os lençóis de seda, pois desejo passar a noite com o senhor.

— Não mereço tanta sorte! —  repetiu o monstro várias vezes. — Me considero indigno de dividir o leito com a senhora. Acho que o melhor a fazer é escolher uma donzela do palácio e me retirar para a ala oeste. A senhora pode dormir sozinha.

E assim se retiraram para descansar, e por isso, por ora, não falaremos mais deles. Falemos, porém, do Peregrino, que depois de se apoderar dos verdadeiros sinos, amarrou-os à cintura e retomou sua forma habitual. Sacudiu o corpo mais uma vez e recuperou o fio de cabelo que havia se transformado no inseto do sono. Não havia dado três passos quando ouviu claramente o som dos gongos e dos chocalhos anunciando a terceira vigília da noite. Recorreu então à magia da invisibilidade corporal e, fazendo com os dedos o sinal apropriado, chegou sem ser visto à porta da frente. Como esta estava firmemente fechada, ergueu o seu bastão de ferro com extremidades de ouro, e a porta se escancarou de imediato. Assim que atravessou a entrada, uma voz se ergueu em tom autoritário:

— Equivalente à Tai Sui! Liberte imediatamente a Rainha do Sagrado Palácio Dourado!

O grito ecoou com tanta força que despertou todos os demônios. Em pânico, correram até a porta e, ao vê-la completamente aberta, alguns tentaram fechá-la às pressas, enquanto outros correram para informar seu senhor, dizendo:

— Lá fora há alguém que conhece seu nome completo e exige a libertação imediata da Rainha do Sagrado Palácio Dourado.

As donzelas abriram com cuidado as portas dos aposentos e repreenderam os recém-chegados, sussurrando em voz baixa:

— Pode-se saber por que tanto barulho? O senhor acabou de adormecer.

O Peregrino voltou a lançar o desafio várias vezes, mas os demônios não tiveram coragem de acordar o seu senhor. O Grande Sábio não recuou e continuou gritando até o amanhecer. Quando o céu começou a clarear, a paciência se esgotou e, empunhando com as duas mãos o seu terrível bastão de ferro, passou a golpear o porta com violência. Os demônios ficaram aterrorizados. Enquanto alguns empurravam desesperadamente as folhas da porta, outros corriam para dentro a fim de relatar o ocorrido. A confusão acabou despertando o monstro, que se vestiu às pressas e, espiando por entre as cortinas de seda, perguntou:

— O que está acontecendo para haver tanto barulho?

— Não sabemos ao certo — responderam as donzelas, prostrando-se no chão. — Pelo que parece, alguém passou metade da noite lançando insultos contra o senhor e, não satisfeito com isso, acabou de derrubar a porta.

Sem perder tempo, o monstro deixou seus aposentos privados e logo se deparou com um grupo de demônios. Eles se prostraram no chão, batendo a testa contra o piso, e relataram:

— Chegou alguém insultando o senhor e exigindo a libertação imediata da Rainha do Sagrado Palácio de Ouro. Ao responder que não estávamos dispostos a fazer isso, ele redobrou os insultos, usando palavrões tão grosseiros que não ousamos repetir, e começou a bater na porta feito louco.

— Não abram ainda — ordenou-lhes o monstro. — Vão perguntar como ele se chama e de onde vem. Assim que descobrirem, voltem pra me informar.

Obedientes, os demônios foram até a porta e perguntaram:

— Quem está causando todo esse tumulto? Informe o seu nome.

— Respondo pelo nome de Avô Materno (2) — respondeu o Peregrino, de imediato — e vim da parte do Reino Púrpura para levar de volta a Rainha do Sagrado Palácio de Ouro. Cada um precisa viver onde nasceu.

Os demônios correram para informar o monstro, que, por sua vez, foi às pressas para a parte de trás do palácio para investigar mais sobre esse visitante incômodo. A rainha tinha acabado de se levantar e ainda não tinha penteado o cabelo nem se lavado. Quando se preparava para fazê-lo, uma donzela entrou às pressas e anunciou:

— O senhor acabou de chegar.

A rainha terminou de se vestir às pressas e, sem se preocupar nem um pouco com o penteado, saiu correndo para recebê-lo. Mal haviam se sentado, e antes mesmo que o monstro tivesse explicado o motivo da visita, outro demônio surgiu, visivelmente agitado, e informou:

— Esse tal Avô Materno acaba de despedaçar as portas!

— Quantos generais e comandantes existiam no exército do antigo esposo? — perguntou o monstro, voltando-se para a rainha.

— Pelo que a minha memória alcança  ela respondeu, após breve reflexão  , o reino contava com quarenta e oito brigadas (3), o que resultava em cerca de mil generais de primeira categoria. Nesse número não estavam incluídos os comandantes e marechais responsáveis pelas fronteiras.

— Havia algum com o sobrenome Materno? — insistiu o monstro.

A rainha balançou a cabeça e explicou:

— Os assuntos que chegavam ao palácio diziam respeito apenas à administração doméstica e ao controle das criadas e servas da corte. Sobre o restante, raramente vinham informações detalhadas. Não tenho como recordar nomes e sobrenomes agora.

— Esse intrometido se apresenta como Avô Materno — comentou o monstro, pensativo —, mas é difícil acreditar que um sobrenome desses apareça no Livro dos Cem Sobrenomes. Como a senhora vem de uma família nobre e sempre demonstrou grande inteligência, certamente leu muitos livros e crônicas durante os anos no palácio imperial. Será que se lembra de ter encontrado um sobrenome assim em algum desses textos antigos?

— No Clássico de Mil Caracteres (4) — respondeu a rainha — existe uma frase que diz: ‘Tudo o que aprendemos é obra de um mestre’. Imagino que esse nome esteja ligado a esse princípio.

— Claro que está! — exclamou o monstro, satisfeito.

Depois de se despedir da rainha, dirigiu-se ao Pavilhão do Esquartejamento. Ali vestiu a armadura, convocou todas as hordas de demônios e, em passo marcial, marchou até a porta principal, empunhando um machado em forma de flor recém-aberta.

— Onde está esse Avô Materno, que diz vir do Reino Púrpura? — perguntou com voz autoritária.

O Peregrino empunhou o bastão com extremidades de ouro na mão direita e, apontando acusadoramente para o monstro com a esquerda, respondeu:

— Meu querido sobrinho, como se atreve a falar comigo desse jeito? Devia mostrar um pouco mais de respeito. Não acha?

— Olha quem fala! — exclamou o monstro, furioso. — Sua aparência é a de um símio, e seu rosto é o de um macaco. Você na verdade mais parece um fantasma. Como se atreve a me insultar?

— Maldito monstro! gritou o Peregrino, caindo na gargalhada. — Aqui o único que está insultando os Céus e o seu soberano é você! Além disso, parece que está completamente cego. Quando causei grande tumulto no Palácio Celestial, há quinhentos anos, nem mesmo os guerreiros divinos dos Nove Céus ousavam dirigir-se a mim sem antes acrescentar o título de “Venerável”. E agora você me chama simplesmente de avô? Isso não lhe parece um pouco humilhante?

— Diga de uma vez seu nome e sobrenome verdadeiros, e que tipo de artes marciais domina! — rugiu o monstro. — A julgar pelo atrevimento com que fala comigo, elas devem ser realmente inigualáveis.

— Teria sido melhor que não tivesse perguntado isso. Se eu disser quem sou, receio que você não saberá nem onde esconder o seu rosto. Chegue mais perto e escute com atenção o que irei lhe contar: O Céu e a Terra foram meus verdadeiros progenitores. Fui concebido a partir das essências do sol e da lua e moldado, ao longo de incontáveis anos, no interior de uma rocha. Alimentei-me das raízes do espírito e nasci em um mistério insondável, quando a primavera fazia pulsar a força vital da natureza. Não é de se estranhar que hoje eu seja imortal. Houve um tempo em que incontáveis demônios se curvavam diante de mim, e até monstros de aparência muito mais poderosa reconheciam minha autoridade. Minha fama chegou aos ouvidos do Imperador de Jade, que enviou a Estrela Dourada do Planeta Vênus para me oferecer um cargo na Corte Celestial. No entanto, ao receber o título de pi-ma-wen, me senti insultado, e acabei conspirando contra os Céus, lançando a ordem eterna no caos. No confronto que se seguiu, o Devaraja Li e seu filho foram derrotados e obrigados a recuar. Mais tarde, o Imperador enviou novamente a Estrela Dourada, oferecendo-me o título de Grande Sábio, Sósia do Céu, algo plenamente compatível com meu talento e meus feitos. Ainda assim, voltei a despertar a ira divina durante o Festival dos Pêssegos, quando roubei as pílulas da imortalidade e quase esgotei o licor da longa vida. Lao-tzu apresentou queixa imediata, assim como Wang Mu Niang-Niang, que compareceu pessoalmente à Terraça de Jade. Enfurecido com minha afronta às leis celestes, o Imperador reuniu seus melhores combatentes e lançou contra mim mais de cem mil guerreiros experientes, armados com machados de lâmina dupla, lanças e espadas. Redes cósmicas cercaram minha montanha, mas nenhuma delas foi capaz de me conter. A batalha foi feroz e equilibrada, até a chegada do Pequeno Sábio Erlang e da Bodhisattva Guanyin. Mesmo com a ajuda da Irmandade da Montanha das Ameixeiras, nossas artes mágicas se enfrentaram em metamorfoses sucessivas, encadeadas como contas de um colar. Então as nuvens se abriram, três sábios celestes surgiram, e Lao-tzu lançou contra mim uma armadilha de diamante. Assim fui capturado e conduzido aos degraus de ouro. Não houve confissão alguma. A sentença foi o esquartejamento, mas maças, machados, sabres e espadas não conseguiram me ferir. O mesmo aconteceu com trovões, relâmpagos e todos os métodos ligados à imortalidade. Por fim, decidiram me enviar ao Palácio Tushita, para que eu fosse submetido a todo tipo de refinamento. Quando levantaram a tampa do braseiro, o fogo nada pôde contra mim. Saltei das brasas empunhando meu bastão de ferro e avancei rumo à Terraça do Dragão de Jade. Planetas e estrelas fugiram apavorados, deixando livres os salões do palácio celestial. O Imperador então recorreu a Buda, e eu aceitei ousadamente um confronto direto com Sakyamuni. O desafio era saltar sobre a palma de sua mão, percorrer todos os Céus e retornar. Mas Buda conhecia minhas intenções e usou de astúcia. Permaneci aprisionado por mais de quinhentos anos, pagando pelos excessos do passado, até ser libertado sob a condição de proteger o monge Tang em sua longa peregrinação rumo ao Oeste.  Isso é algo que eu, o Peregrino Sun Wukong, tenho cumprido com absoluta dedicação, enfrentando todos os monstros que tentam bloquear o caminho que leva para o poente. Diga-me, então: quem, em sã consciência, ousaria tentar me impedir?

Ao ouvir o nome do Peregrino Sun Wukong, o monstro exclamou, espantado:

— Então você o sujeito que lançou o Palácio Celestial no mais completo caos! Se é verdade que foi libertado com a condição de acompanhar o monge Tang em sua longa peregrinação rumo ao Oeste, convém explicar o que o fez desviar desse caminho. Não seria mais sensato cuidar dos próprios assuntos, em vez de se rebaixar a servo do Reino Púrpura e vir aqui em busca da própria morte?

— Pelas suas palavras, fica claro que a ignorância rivaliza com a maldade — retrucou o Peregrino. — Vim a esta caverna a pedido do Senhor do Reino Púrpura, e aceitei apenas para retribuir a hospitalidade recebida. Saiba também que o respeito que me dedicam é maior até do que aquele dispensado ao próprio rei, que me trata como se fosse um deus. Diante disso, como ainda ousa falar em servidão? Quem zomba dos princípios do Céu é você, e não eu. Agora não fuja! Prove o gosto do bastão do seu avô!

Desconcertado, o monstro recuou para o lado e conseguiu desviar o golpe que vinha em sua direção. Em seguida, contra-atacou com o machado em forma de flor recém-aberta. Assim teve início uma batalha verdadeiramente extraordinária, na qual o bastão de ferro com extremidades douradas enfrentou o machado de lâmina afiadíssima e contorno floral. À medida que a violência tomava conta de seus músculos, ambos cerravam os dentes, fazendo-os ranger numa demonstração assustadora de força. Não era por acaso: de um lado estava o Grande Sábio, Sósia do Céu; do outro, um monstro maligno de poderes incomparáveis. Os dois lançavam pela boca tanta fumaça e tantas nuvens que o Céu ficou mergulhado numa escuridão absoluta. A ferocidade com que lutavam lançava para o alto tantas pedras e terra que parecia como se todos os astros tivessem perdido, de repente, seu brilho. Recorriram a todos os estilos de luta que dominavam, lançando pelos olhos raios de cor dourada cada vez que desferiam um de seus golpes. Ambos desdobraram o impressionante arsenal de seus conhecimentos mágicos, um tentando levar a dama ao reino do qual era soberana e o outro lutando para mantê-la nas impressionantes paisagens daquela montanha. Por um objetivo tão simples travava-se um combate no qual vida e morte haviam sido completamente esquecidas.

Por mais de cinquenta vezes sucessivas, suas armas se chocaram sem que nenhum dos dois conseguisse obter alguma vantagem. Ao perceber a força demonstrada pelo Peregrino, o monstro compreendeu que não ia conseguir derrotá-lo e, parando com seu machado um dos golpes do bastão de ferro, disse:

— Acho melhor interrompermos a luta por um momento, Peregrino Sun. Ainda não tomei café da manhã e preciso comer um pouco de carne antes de continuar. Assim que fizer isso, voltarei para acabar com você.

O Peregrino percebeu que a intenção do monstro era buscar os sinos e, colocando o bastão de ferro de lado, respondeu:

— Um bom caçador nunca persegue uma lebre cansada. Vá e coma o quanto quiser. Quanto antes voltar, antes lhe darei um fim.

O monstro então retornou ao interior da caverna e ordenou à rainha:

— Traga imediatamente os objetos que ficaram sob sua guarda.

— E para que isso? — perguntou ela.

— Aquele que passou a noite inteira lançando desafios — respondeu o monstro — é discípulo de um monge que viaja em busca das escrituras sagradas. Segundo ele mesmo confessou, o seu verdadeiro nome não é Avô Materno, mas Sun Wukong, o Peregrino. Lutamos por muitas horas, mas não fui capaz de derrotá-lo. Entregue-me os tesouros. Com o fogo que eles liberam, tudo será reduzido a cinzas.

O desânimo tomou conta da rainha ao ouvir aquilo. Ela não estava disposta a entregar os sinos, mas temia provocar o mau humor do monstro. Sabia que, se os devolvesse, o Peregrino podia morrer, assado como um animal de caça. Sua A hesitação acabou provocando a ira do monstro, que voltou a ordenar:

—Você não me ouviu? Entregue-me esses tesouros agora mesmo!

A rainha não teve outra alternativa senão abrir o baú e entregá-los ao monstro, que correu, satisfeito, para fora da caverna. A rainha ficou tão abatida que se deixou cair sobre um assento e chorou desconsoladamente, perguntando-se, desesperada, se o Peregrino conseguiria escapar com vida. Nem ela nem o monstro sabiam que os sinos entregues eram falsos.

Assim que se encontrou em campo aberto, o monstro se colocou de frente para o vento e gritou:

— Não fuja, Peregrino Sun! Observe enquanto eu toco os meus sinos!

— Você tem os seus sinos, mas por que eu não deveria ter os meus? — respondeu o Peregrino, caindo na gargalhada. —  Se você pode tocá-los, por que eu não posso fazer o mesmo?

— Que tipo de sinos você tem? — perguntou o monstro, franzindo a testa. — Por que não os mostra para eu dar uma olhada?

O Peregrino sacudiu levemente o seu bastão de ferro e, depois de reduzi-lo ao tamanho de uma agulha de bordar, colocou-o tranquilamente dentro da orelha. Em seguida, desatou a seguir os três sinos da cintura e disse:

— Veja! Aqui estão o meus sinos de ouro púrpura!

— Que estranho! — pensou o monstro, visivelmente surpreso. — Como podem esses sinos serem exatamente iguais aos meus? Mesmo que tivessem usado o mesmo molde para fazê-los, alguma diferença deveria existir. Uma marca… uma imperfeição… Como é possível que sejam iguais? Se importa de dizer de onde você os tirou? — acrescentou, levantando a voz.

— Não seria melhor contar primeiro a origem dos seus? — retrucou o Peregrino.

— No princípio — confessou o monstro com uma ingenuidade surpreendente — os meus pertenciam ao Senhor da Grande Pureza,  o mais versado no Tao entre todos os seres. Seu ouro foi refinado por um tempo imensurável no Braseiro dos Oito Trigramas. Por isso, são tesouros tão perfeitos, que nem o próprio Lao-Tzu conseguiu fundir algo semelhante depois.

— Curioso… comentou o Peregrino, rindo. — Os meus também vêm dessa mesma época.

— De onde eles vieram? — insistiu o monstro, intrigado.

— O Pai do Tao — mentiu o Peregrino — refinou o ouro desses sinos no mesmo braseiro usado para o elixir. Como duas vezes três são seis, tratam-se de tesouros verdadeiramente cíclicos. Ainda que pareça estranho, estes são fêmeas, e os seus, machos. Por isso são tão parecidos.

— Esses sinos são tesouros do elixir dourado, não pássaros nem feras. Não existe isso de serem macho ou fêmea. Ainda assim, aceitarei que os seus sejam autênticas, desde que consigam liberar seu poder quando forem sacudidos.

— Você tem razão — admitiu o Peregrino. — O resto não passa de conversa vazia. Para provar que não tenho medo algum, vou deixar que você sacuda os seus sinos primeiro.

Sem perder tempo, o monstro sacudiu o primeiro sino três vezes seguidas, mas nenhum fogo saiu de sua boca. Fez o mesmo com o segundo, sem produzir nenhuma fumaça. O terceiro seguiu o exemplo dos outros dois e não deixou escapar nenhuma partícula de cinza. 


Desconcertado, o monstro exclamou:

— Que coisa mais estranha! Parece que o mundo virou do avesso. Esses sinos são tão inúteis quanto uma pedra para atravessar um rio! Tenho certeza que, por serem machos, ao perceberem a presença das fêmeas, ficaram completamente descontrolados.

— Pare de sacudi-los, meu querido sobrinho — zombou o Peregrino. — Agora é a minha vez de sacudir os meus e ver-mos o que acontece.

Mal terminou de falar quando segurou os três sinos com uma das mãos e os sacudiu ao mesmo tempo. No mesmo instante, deles irrompeu uma enorme massa de fogo avermelhado, acompanhada de uma fumaça esverdeada e cinzas amarelas, que envolveram toda a montanha e as árvores que cresciam sobre ela. Como se não bastasse, o Grande Sábio recitou um feitiço e, voltando-se para o sudoeste, gritou em alta voz:

— Que o vento se levante!

O furacão atiçou ainda mais as chamas, que pareciam absorver toda a força indomável do ar. Do meio do fogo surgiu uma espessa nuvem de fumaça negra, que escureceu completamente o céu, enquanto a terra era coberta por uma chuva densa de cinzas amarelas. Diante de tamanho espetáculo, o Equivalente a Tai Sui tentou fugir, mas não encontrou por onde escapar. Como sairia vivo, se tudo ao redor havia se transformado em um verdadeiro mar de fogo?


Quando as chamas pareciam atingir o auge de sua fúria, uma voz ecoou do alto, dizendo:

— Eu estou aqui, Sun Wukong!

O Peregrino ergueu o olhar e viu a Bodhisattva Guanyin. Na mão esquerda, ela segurava seu imaculado vaso de porcelana; com a direita, agitava um ramo de salgueiro, espalhando o orvalho sagrado que sempre carregava consigo para apagar o incêndio. O Peregrino prendeu rapidamente os sinos à cintura e, juntando as mãos à altura do peito, inclinou a cabeça em sinal de profundo respeito. Bastaram algumas gotas do orvalho para extinguir o fogo e fazer desaparecer por completo a fumaça e as cinzas amareladas.


— Não sabia que a Grande Misericordiosa tinha decidido descer a este mundo de morte — disse o Peregrino, batendo repetidamente a testa no chão. — Se soubesse disso antes, teria deixado tudo  de lado para preparar uma recepção a altura para recebê-la. Posso perguntar  perguntar qual é o propósito de sua vinda?

— Vim apenas para deter este monstro — respondeu a Bodhisattva.

— Qual a origem desse monstro para justificar tamanho esforço em dominá-lo? tornou a perguntar o Peregrino.

— Na verdade, trata-se do lobo de pelagem avermelhada que costumava servir de minha montaria — explicou a Bodhisattva. —  Certo dia, o jovem encarregado de vigiá-lo adormeceu, e a fera aproveitou para romper a corrente que a prendia e vir até aqui, acreditando livrar o Senhor do Reino Púrpura de sua desgraça.

— Com todo o respeito — replicou o Peregrino, reforçando seus gestos de reverência —, parece haver aqui uma distorção dos fatos. Essa criatura não apenas zombou do rei; também sequestrou sua esposa, cometeu inúmeras atrocidades, corrompeu os bons costumes e violou princípios reconhecidos em toda parte. Na prática, destruiu a vida do soberano mencionado. Dizer que houve alguma forma de ajuda para pôr fim à desgraça é, portanto, algo difícil de sustentar.


— Pelo visto, você não possui conhecimento do que ocorreu na época do pai do atual rei — respondeu a Bodhisattva. — Naquele tempo, ele ainda era um príncipe interessado apenas na caça. Certa vez, ele deixou o palácio à frente de seus batedores e seguiu em direção à Colina das Plumas de Fênix, acompanhado por matilhas de mastins e bandos de falcões. Ali, pousadas nos galhos de uma árvore, surgiram duas aves, macho e fêmea, que na verdade eram filhos da Bodhisattva Mahamayuri (5)


O príncipe retesou o arco e feriu o macho. A fêmea conseguiu retornar ao Oeste com uma flecha cravada no peito. Embora Mahamayuri o tenha perdoado, decidiu puni-lo, afastando-o da esposa por três anos e fazendo seu corpo adoecer como resultado da saudade. Quando essa decisão foi anunciada, eu estava montada neste lobo, que a ouviu com a mesma clareza que eu. 


Não imaginei que ele guardaria isso na memória e viria até aqui para sequestrar a rainha, executando à força o castigo decretado pelos Céus. Desde então, três anos se passaram, e a o castigo predestinado foi cumprido. Isso explica como foi possível você curar o rei e também o motivo de eu vim pessoalmente para subjulgar esse monstro.

— O que acabou de me contar faz sentido respondeu o Peregrino. — Mas esse monstro desonrou a rainha, corrompeu os bons costumes, pôs em perigo o equilíbrio cósmico e zombou da lei. Tudo isso justificaria uma sentença de morte. Em consideração à presença de Vossa Misericórdia, estou disposto em poupá-lo, mas não me parece justo permitir que ele vá embora sem ter recebido um castigo exemplar. Se não tiver nenhuma objeção, antes de levá-lo, darei vinte golpes nele com o meu bastão de ferro.

— Se a minha vinda tem algum valor, Wukoung — replicou a Bodhisattva, com a doçura de sempre —, por honra ao meu nome, peço que o perdoe por completo. Caso isso aconteça, o mérito da captura será inteiramente seu. Além disso, é preciso lembrar que, no instante em que o seu bastão for erguido contra ele,  a vida dele se extinguirá sem retorno.

O Peregrino não teve coragem de contrariá-la e, inclinando-se respeitosamente, respondeu:

— Está bem. Mas é importante que, assim que ele tiver retornado com você para os Mares do Sul, jamais seja permitido que ele saia de lá. Do contrário, danos irreparáveis poderão recair sobre o mundo dos humanos.

Só então a Bodhisattva se voltou para o monstro e o repreendeu com severidade:

— Maldita besta! Se não regressar agora mesmo à tua forma original, quando o fará?

O monstro deixou-se cair no chão e, com uma única cambalhota na poeira, revelou sua verdadeira aparência. Ele então sacudiu a pelagem, e a Bodhisattva montou em seu lombo. No entanto, faltavam os três pequenos sinos que antes pendiam de seu pescoço.

— Devolva os sinos, Wukong.

— Sinos? — repetiu o Peregrino. — Que história é essa de sinos? Não há nenhum por aqui.

— Que macaco ladrão! — exclamou a Bodhisattva, perdendo a paciência. —  Se não os tivesse roubado, nem sequer teria conseguido chegar perto dele. Entregue-os imediatamente!

— Eu juro que não vi nada — disse o Peregrino, rindo.

— Nesse caso — concluiu a Bodhisattva —, vou recitar aquele feitiço que você e eu sabemos.

Assustado, o Peregrino murmurou, tremendo dos pés à cabeça:

— Não faça isso, por favor! Aqui estão os sinos!

Assim, mais uma vez se confirmou o velho ditado: "Somente é capaz de retirar os sinos do lobo aquele que os colocou para mantê-lo sob controle".


Assim que a Bodhisattva terminou de ajustar os sinos ao redor do pescoço do lobo, voltou a montar sobre o seu lombo com uma graça indescritível. Era como se, de repente, entre os pelos da fera tivesse brotado um lótus, e as cerdas passassem a irradiar uma suave luminosidade. A Grande Misericordiosa então tomou o caminho de volta para os Mares do Sul, e por ora não falaremos mais dela.

Falaremos, no entanto, do Grande Sábio Sun. Depois de arregaçar a pele de tigre e segurar firmemente o seu bastão de ferro, entrou na Caverna de Xiezhi e, num piscar de olhos, exterminou todos os demônios. Em seguida, dirigiu-se à parte posterior do palácio e pediu que a Rainha do Sagrado Palácio de Ouro se preparasse para regressar com ele à sua terra natal. A rainha não poderia estar mais agradecida. Para não ficar com todo o mérito do ocorrido, o Peregrino contou como a Bodhisattva havia dominado o monstro e explicou por que ela tinha sido forçada a se separar do marido por tanto tempo. Concluído o relato, arrancou um punhado de erva e, moldando com ele a figura rudimentar de um dragão, disse à rainha:

— Suba aqui e feche os olhos. Não há motivo para medo. Se fizer isso, não vai demorar para chegar ao lado de seu esposo.

Ela o obedeceu sem hesitar. O Peregrino recorreu à sua magia, e tudo o que a dama pôde ouvir foi o rugido impetuoso do vento. 


Em cerca de meia hora, chegaram às proximidades da capital do reino. Assim que tocaram o chão, o Peregrino voltou-se para a rainha e disse:

— Já pode abrir os olhos.

Ela assim fez e, no mesmo instante, reconheceu as torres do dragão e os pavilhões da fênix. Louca de alegria, desceu do tosco animal de ervas no qual havia viajado e seguiu com o Peregrino até o salão do trono. Ao vê-la, o rei levantou-se de seu assento e correu, emocionado, em sua direção. 


Contudo, ao segurar-lhe a mão para expressar o quanto sentira sua falta, soltou-a de imediato e exclamou, tomado por uma dor lancinante que o fez cair ao chão:

— Que horror! É impossível suportar uma dor dessas!

— Que azar! — disse Bajie, às gargalhadas. — Não nasceu para desfrutar dessa mulher. Foi só encontrá-la de novo que quase morre.

— Não toque nela, idiota — advertiu o Peregrino.

— E o que acontece se eu a tocar? — retrucou Bajie.

— O corpo dela está inteiramente coberto de espinhos venenosos, ainda mais concentrados nas mãos — explicou o Peregrino. — Foi por isso que, durante os três anos passados na Montanha Qilin, o monstro não conseguiu encostar nela. Sempre que tentava, a dor o castigava sem piedade.

Ao ouvir isso, todos os funcionários exclamaram, alarmados:

— O que podemos fazer? — e, abatidos, deixaram a corte enquanto o pânico se espalhava por todo o palácio.  As Rainhas do Sagrado Palácio de Jade e do Sagrado Palácio de Prata correram para levantar o soberano do chão. Quando a confusão parecia completa, ouviu-se uma voz vinda do alto, que dizia:

— Grande Sábio! Acabei de chegar!

O Peregrino ergueu a cabeça, surpreso, e ouviu o impressionante canto das garças celestes, como se alguém de imensa importância estivesse prestes a descer à terra. Ao mesmo tempo, viu aproximar-se um grande círculo de luz, que fazia o ar tremular acima de todos. Aos poucos, distinguiu dentro dele uma figura envolta em névoa, vestida com uma túnica de ervas e calçando sandálias de palha tão singulares que ninguém jamais vira algo semelhante. Na mão, trazia um mata-moscas feito de juncos, que contrastava abertamente com a faixa de seda atada à cintura. Aquela figura extraordinária mantinha vínculos com pessoas de todas as regiões do mundo e, como não estava presa a muitas obrigações, vagava pela terra sem cessar. Não havia dúvida: tratava-se de Zhang Boduan (6), o Grande Imortal da Nuvem Púrpura, conhecido por levar salvação aonde quer que fosse.


O Peregrino correu para recebê-lo e perguntou:

— Para onde vai com tanta pressa, Zhang Boduan?

— Grande Sábio — respondeu o imortal, inclinando a cabeça  , este humilde imortal, Zhang Boduan, ergue as mãos para saudá-lo.

— O que o traz até aqui? — insistiu o Peregrino, retribuindo a saudação.


— Há cerca de três anos — explicou o imortal — passei por este lugar a caminho do festival de Buda e ouvi dizer que o rei havia sido condenado a viver afastado da esposa por todo esse tempo. Temendo que o monstro que a raptara pudesse desonrá-la e, assim, romper o equilíbrio que deve existir em toda relação, transformei uma de minhas antigas vestes numa túnica de cinco cores e a entreguei a besta, para que fosse incluída no enxoval da rainha. Assim que ela a vestiu, brotaram por todo o seu corpo espinhos venenosos, que preservaram intacta a sua virtude. Agora que o período de separação chegou ao fim, vim recuperar o que me pertence.

— Foi um gesto nobre de sua parte percorrer distância tão longa por essa razão respondeu o Peregrino, com respeito.

O imortal aproximou-se da rainha, apontou para ela com um dos dedos e, no mesmo instante, a túnica de ervas desprendeu-se de seu corpo, deixando-lhe a pele macia como a de uma criança. Sem dar importância ao prodígio, o imortal vestiu novamente o que era seu e, voltando-se para o Peregrino, disse:

— Com licença, Grande Sábio, mas agora devo ir embora.

— Espere um momento — pediu o Peregrino. — O rei precisa expressar sua gratidão pelo seu gesto.

— Não há necessidade disso — respondeu o imortal, sorrindo e, inclinando-se mais uma vez, elevou-se aos céus.

O rei, a rainha e todos os funcionários ficaram tão impressionados com o que presenciaram que se prostraram com o rosto em terra, prestando reverência ao céu.


Encerrada a cerimônia, o soberano ordenou a abertura da Ala Oriental do palácio e ofereceu aos quatro monges um esplêndido banquete em sinal de agradecimento. Todos os cortesãos se inclinaram diante deles, reconhecendo o mérito de terem devolvido a rainha ao rei. 


Quando a celebração havia atingido o seu auge, o Peregrino voltou-se para o mestre e sugeriu:

— Por favor, me entregue aquela declaração de guerra.

O monge Tang retirou o documento das mangas e o entregou ao Peregrino, que o repassou ao rei, dizendo:

— Esta carta deveria ter chegado às mãos do soberano por meio de um emissário, a quem tive a sorte de encontrar pelo caminho. Foi o mesmo o qual trouxe o cadáver até aqui como troféu. Depois de matá-lo, assumi sua identidade, o que me permitiu entrar na caverna e encontrar a rainha. Juntos, elaboramos um plano para roubar os sinos de ouro do monstro. A primeira tentativa quase terminou em desastre, mas a segunda foi bem-sucedida e levou ao confronto direto. Felizmente, a Bodhisattva Guanyin apareceu a tempo, subjugou o monstro e esclareceu o motivo pelo qual a rainha e Vossa Majestade estiveram separados por tanto tempo.

Ao ouvir o relato, o rei e seus súditos se encheram de gratidão. Então o monge Tang tomou a palavra:

— Esse resultado tão feliz se deveu, em primeiro lugar, à virtude inabalável do soberano e, depois, às façanhas do meu humilde discípulo. Por isso, nos sentimos recompensados pelo banquete que deram em nossa honra, assim como pelas provas de amizade que nos ofereceram. Não nos resta mais do que nos despedir de vocês e retomar nossa viagem. Por favor, peço que não atrasem nossa jornada rumo ao Oeste.

O rei, compreendendo que não havia como detê-los, assinou o salvo-conduto e pediu ao monge Tang que se sentasse na carruagem imperial. Ele próprio, junto de suas esposas, encarregou-se de conduzi-la até as cercanias da cidade, despedindo-se então dos peregrinos, que puderam seguir livremente o caminho. Assim se confirmou mais uma vez que, quando o destino se cumpre, a aflição do coração se dissipa, e que a mente só encontra a paz quando se liberta de todo pensamento e desejo.


Desconhecemos por ora que destino aguardava os peregrinos. Quem quiser saber terá que ouvir atentamente as explicações que serão oferecidas no próximo capítulo.

CAPÍTULO LXXII EM BREVE


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Notas do Capítulo LXXI

  1. Citação de um poema de Han Yu (768–824), poeta da dinastia Tang;
  2. Waigong (chinês 外公, wàigōng);
  3. De acordo com o Ming Shi-lu (chinês 明實錄, "Registros Verídicos da Dinastia Ming"), a partir do ano de 1374, cada brigada (wei) passou a contar com cinco mil e seiscentos homens, organizados em cinco batalhões;
  4. O Clássico de Mil Caracteres (Qianziwen) é uma composição rimada formada por duzentos e cinquenta versos de quatro sílabas, tradicionalmente atribuída a Zhou Xingsi, da dinastia Liang;
  5. Mahamayuri, também conhecida como Mahāmāyūrī Vidyārājñī, é uma bodhisattva venerada no budismo Mahayana e Vajrayana, sendo reconhecida como uma das Rainhas da Sabedoria. Seu nome significa “Grande Pavão” em sânscrito, e ela é amplamente conhecida em diferentes tradições asiáticas, como no budismo chinês, japonês (Shingon), vietnamita e coreano. No Vajrayana, Mahamayuri constitui uma prática ritual popular, especialmente nas tradições chinesa e japonesa, e também integra o grupo das cinco deusas protetoras do budismo. No budismo chinês e na escola Shingon japonesa, Mahamayuri — ou o Grande Rei Pavão — é considerada uma manifestação do Buda Vairocana ou do Buda Shakyamuni;
  6. Zhang Boduan, também chamado Zhang Ziyang (chinês 張紫陽), foi um renomado taoísta do século XI, a quem se atribui o Wu Zhen Pian  (chinês 悟真篇; lit. "Folhas sobre o Despertar para a Realidade/Perfeição"), uma das mais importantes obras alquímicas da dinastia Song do Norte.


  • Tradução em pt-br por Rodrigo Viany (Sleipnir). Favor não utilizar sem permissão.
  • Tradução baseada na tradução do chinês para o espanhol feitas por Enrique P. Gatón e Imelda Huang-Wang, e do chinês para o inglês feita por Collinson Fair.
fontes consultadas para a pesquisa:
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