Diomedes (grego: Διομήδης, “astúcia divina” ou “aconselhado por Zeus”) é, provavelmente, o mais injustiçado de todos os heróis da mitologia grega. Tido como o segundo maior herói da Guerra de Tróia — atrás apenas de Aquiles —, Diomedes realizou feitos que o colocam entre os grandes nomes do ciclo épico, embora nunca tenha alcançado a mesma fama que seus contemporâneos.
Redimindo os pecados do pai
Diomedes era filho de Tideu, que fora banido da Caledônia após matar seus parentes e tios paternos na tentativa de usurpar o trono de seu pai, Eneu. Exilado, Tideu encontrou refúgio em Argos, governada pelo rei Adrasto, em troca de apoio na guerra contra Tebas. Sem opções, aceitou o acordo, o que resultou em sua morte no campo de batalha.
Esse ato trouxe novas rixas de sangue à família de Diomedes. Embora Eneu tivesse banido Tideu, o aprisionamento de Eneu pelos filhos de Agrios levou Diomedes, já adulto, a agir. Por dever filial, matou os filhos de Agrios, libertando seu avô e recuperando a honra da família. Em recompensa, recebeu o reino de Andriamon. No entanto, dois filhos sobreviventes de Agrios, Onquesto e Tersites, emboscaram Diomedes e Eneu a caminho do Peloponeso, matando Eneu e fugindo. Diomedes retornou o corpo do avô a Argos para um enterro digno e, posteriormente, casou-se com Egialeia, filha de Adrasto, tornando-se o mais jovem rei de Argos. Como monarca, demonstrou grande habilidade política e garantiu prosperidade e estabilidade ao reino, sendo respeitado por vários governantes.

Pretendente de Helena de Tróia
O rei Tíndaro, pai adotivo de Helena, temia que a beleza da jovem provocasse discórdia entre seus pretendentes. Assim, exigiu que todos jurassem proteger o escolhido como marido de Helena. Entre os pretendentes estava Diomedes, mas Menelau, rei de Esparta, foi o escolhido.
Quando Páris raptou Helena e a levou para Tróia, Menelau exigiu reparação. Pelo juramento prestado, todos os antigos pretendentes foram convocados por Agamêmnon a combater. Diomedes ofereceu oitenta navios de guerra — a segunda maior frota, atrás apenas da de Agamêmnon.
Diomedes e Aquiles
Reunidos em Áulis, os aqueus ouviram a profecia de Calcas: Tróia só cairia com a ajuda de Aquiles. Odisseu e Diomedes foram enviados para encontrá-lo. Disfarçados de mercadores, foram ao palácio de Ciro, onde Aquiles vivia oculto entre as filhas do rei Licomedes. Odisseu dispôs joias e armas diante das jovens, e, ao soar de uma trombeta, apenas Aquiles empunhou espada e escudo, revelando sua identidade. Convencido pelos dois heróis, juntou-se à expedição.
Durante a campanha, Diomedes foi forçado a lutar ao lado de Tersites, filho de Agrios — o assassino de seu avô. Em vez de vingar-se, manteve o juramento à aliança aqueia. Quando Tersites foi morto por Aquiles, Diomedes censurou o semideus, mostrando mais honra que muitos de seus pares.
A Guerra de Tróia
No quinto livro da Ilíada, Atena concedeu a Diomedes coragem, sabedoria, a capacidade de distinguir deuses de mortais e um fogo divino que envolvia seu elmo e escudo. Amparado pela deusa, derrotou inúmeros troianos, matou Pândaro e feriu Enéias, filho de Afrodite. Ao tentar salvar o filho, a própria deusa foi ferida por Diomedes — ato inédito entre os mortais. Mais tarde, enfrentou Ares em combate direto e também o feriu, tornando-se o único homem a ferir dois deuses olímpicos. Por isso, passou a ser chamado de “Terror de Tróia”. Sua coragem era tamanha que até Glauco, herói troiano, recusou o duelo, oferecendo-lhe a própria armadura em sinal de respeito.
Mesmo quando Zeus ordenou a retirada dos aqueus, Diomedes resistiu, chegando a desafiar Heitor em combate de carruagens. Foi obrigado a recuar por Nestor, mas, insatisfeito, liderou um ataque noturno ao acampamento troiano, forçando os inimigos a recuar às muralhas.
Nos livros IX e X da Ilíada, Diomedes e Odisseu espionaram o acampamento inimigo, capturando Dólon, mensageiro de Heitor. Após obterem informações, invadiram o acampamento trácio, mataram doze homens e roubaram seus cavalos. Mais tarde, enfrentou novamente Heitor, sendo ferido por uma flecha de Páris. Ainda assim, sobreviveu e foi resgatado por Odisseu. Após a morte de Pátroclo e a volta de Aquiles ao campo, Diomedes cedeu lugar à fúria do semideus, que matou Heitor e arrastou seu corpo diante dos muros de Tróia.
O roubo do Paládio e o Cavalo de Tróia
Com a guerra prolongando-se, Diomedes e Odisseu souberam que Tróia jamais cairia enquanto a estátua do Paládio (uma antiga imagem sagrada de Atena que, segundo a tradição, garantia proteção divina à cidade que a possuísse) permanecesse em seu interior. Disfarçados de mendigos, infiltraram-se nas muralhas troianas e, com a ajuda de Helena, roubaram o ídolo venerado, matando guardas e sacerdotes para cumprir a missão.
Segundo alguns relatos, Odisseu tentou matar Diomedes para ficar com a estátua, mas o rei de Argos conteve-se e poupou a vida do aliado. O respeito dos troianos às relíquias divinas inspirou Odisseu a conceber o ardil do Cavalo de Tróia. Diomedes foi um dos guerreiros escondidos dentro da estrutura. À noite, abriu os portões da cidade, permitindo a invasão final dos aqueus e o término da guerra.
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| Pintura em vaso grego representando Diomedes capturando o Paládio. |
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Após a Guerra de Tróia
Durante o retorno, Diomedes foi desviado por uma tempestade e capturado na Lícia pelo rei Lico, que pretendia sacrificá-lo a Ares. Sua filha, Calírroe, compadeceu-se e o libertou, mas depois tirou a própria vida.
De volta a Argos, Diomedes descobriu que sua esposa, Egialeia, havia se tornado infiel, influenciada pela vingança de Afrodite, que buscava punir o herói por tê-la ferido em Tróia. Acusado injustamente e rejeitado por seu povo, foi forçado ao exílio. Partiu primeiro para a Etólia e, posteriormente, navegou até a península Itálica, onde fundou a cidade de Argyirpa (atual Arpi), na região da Apúlia.
Em outra tradição, Diomedes auxiliou o rei Dauno dos daunianos em guerra contra os messápios, recebendo terras e a mão da filha do rei. Sua morte varia conforme o autor: alguns dizem que pereceu cavando um canal para o mar; outros, que morreu em Argos; há ainda relatos de que Atena o concedeu imortalidade, acolhendo-o entre os deuses.
Legado
Entre os heróis da tradição épica grega, Diomedes é uma figura curiosamente discreta. Suas façanhas não foram poucas — feriu deuses, comandou exércitos e teve parte decisiva na queda de Tróia —, mas seu nome acabou ficando à sombra de Aquiles e de Odisseu. Na Ilíada, ele aparece como o guerreiro que pensa antes de agir: corajoso, disciplinado, fiel aos deuses e aos companheiros. Em vez de se mover pela ira ou pela vaidade, age com clareza e propósito. Essa sobriedade, rara entre os heróis homéricos, faz dele um personagem à parte — um homem que vence sem se perder, e cuja história não termina em tragédia. Talvez por isso Diomedes tenha sido lembrado menos do que merecia. É o herói que cumpre seu dever e segue adiante, sem buscar glória nem piedade. Sua força não vem do impulso, mas da medida; não da fúria, mas do domínio de si. Entre os guerreiros de Tróia, foi talvez o mais humano — e, por ironia, o que mais se aproximou da verdadeira grandeza.
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