۞ ADM Sleipnir
CAPÍTULO LXXII:
AS SETE PAIXÕES ZOMBAM DA ORIGEM NA CAVERNA DA TEIA DE ARANHA. BAJIE ESQUECE AS BOAS MANEIRAS NO ARROIO DA PURIFICAÇÃO.

Dizíamos que, após se despedir do soberano do Reino Púrpura, Sanzang retomou a jornada rumo ao oeste, montado em seu cavalo. Após deixar para trás inúmeras montanhas e atravessar incontáveis cursos d’água, o outono chegou ao fim, o inverno perdeu o rigor e o brilho da primavera voltou a se fazer presente. Em certa ocasião, o mestre e os discípulos pararam para contemplar a beleza da paisagem quando avistaram, escondido entre as árvores, um grande conjunto de casas. Sanzang desceu do cavalo e permaneceu observando o lugar bem no meio do caminho.
— Posso saber por que não segue em frente, agora que a trilha está plana e não há pedras atrapalhando o caminho? — perguntou o Peregrino.
— Que falta de sensibilidade! — exclamou Bajie. — O mestre deve estar cansado de tanto cavalgar. Não é natural que tenha descido do cavalo para recuperar o fôlego?
— Na verdade, o cansaço não é tão grande assim — explicou Sanzang. — O motivo da parada é aquele conjunto de casas. Parece uma boa oportunidade para pedirmos algo para comer.
— Esse jeito de falar não soa muito adequado, mestre — retrucou o Peregrino. — Se está com fome, eu mesmo posso ir buscar a comida. Por que o senhor haveria de fazê-lo? Como diz bem o provérbio: "Quem um dia foi nosso mestre, para sempre é como nosso pai". Não fica bem permanecermos sentados, enquanto o senhor bate de porta em porta.
— Acho que você não me entendeu bem — defendeu-se Sanzang. — Normalmente é você quem vai em busca de alimento, não importando se estamos em um lugar habitado ou desabitado. Agora que temos uma aldeia ao alcance da mão e me daria prazer bater em suas portas em busca de auxílio, você se opõe a que eu cumpra o que é o primeiro dever de um bom monge. Isso realmente faz sentido?
— Perdoe-me por dizer isso, mas essa explicação não está completamente correta — objetou Bajie. — Como diz muito bem o provérbio: "Quando três pessoas viajam juntas, cabe à mais jovem enfrentar as maiores dificuldades"(1). Não preciso lembrar que o senhor é o mestre e nós, os discípulos. Segundo os antigos, tarefas penosas devem ser assumidas por quem é mais novo. Portanto, eu irei mendigar o sustento.
— Por que tanta dificuldade em compreender? — queixou-se Sanzang. — Hoje o dia está lindo. Se houvesse chuva, vento forte ou grandes distâncias, não haveria razão para se aventurar até uma porta desconhecida. Mas o que há de errado em ir até aquela aldeia? Assim que conseguirmos algo para matar a fome, continuaremmos a nossa viagem.
— Para que perder mais tempo? — concluiu, sorrindo, o Monge Sha. — O temperamento do mestre é assim mesmo, e ele não costuma mudar de ideia. Se o irritarem, pode ter certeza de que ele não irá querer comer, mesmo que vocês mesmos vão mendigar a comida.
Bajie concordou com esse ponto de vista e entregou a tigela de esmolas à Sanzang. O mestre, então, trocou o chapéu e a túnica e, em poucas passadas, chegou à aldeia. Era um lugar realmente encantador, com uma ponte de pedra sob a qual corriam as águas cantarolantes de um riacho, e árvores centenárias em cujos ramos os pássaros soltavam trinados tão agudos que ecoavam pelas colinas ao redor.
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Do outro lado da ponte erguia-se um conjunto de casas tão curiosas e elegantes quanto a morada de um imortal. As janelas, porém, estavam cobertas por esteiras de junco, o que lhes dava o aspecto de uma habitação taoísta. Por uma delas, podiam ser vistas quatro donzelas de extraordinária beleza, sentadas a costurar e bordar figuras de fênix. Ao perceber que na casa só havia aquelas moças, o mestre não teve coragem de avançar e permaneceu parado junto às árvores. Foi então que notou algo curioso: apesar da aparência frágil, como a de delicadas orquídeas, todas demonstravam uma firmeza interior tão sólida quanto a rocha. Tinham as faces rosadas e encantadoras, lábios macios e intensamente vermelhos, sobrancelhas arqueadas como a lua nova e os cabelos presos em coques, protegidos por uma fina rede. Se estivessem entre flores, mais de uma abelha teriam pousado ali para sugar-lhes o néctar.
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Sanzang ficou observando-as por mais de meia hora. No entanto, nada quebrava o silêncio do lugar — nem o latido de cães, nem o cacarejar de galinhas. Apreensivo, pensou consigo mesmo:
— Se eu voltar de mãos vazias, meus discípulos vão rir de mim e dizer que não vale a pena seguir alguém que, mesmo decidido a prestar reverência à Buda, não consegue arrumar nada para comer.
Não lhe restou alternativa senão seguir adiante. Mesmo consciente de que talvez não devesse fazê-lo, atravessou enfim a ponte. Após alguns passos, percebeu que, bem no centro do pátio, havia um pavilhão de madeira de sândalo. Dentro dele, três donzelas chutavam uma bola (2).
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A aparência delas era completamente diferente da das outras quatro que vira antes. As mangas azul-claras de suas blusas balançavam ritmicamente, deixando à mostra dedos longos e delicados como varetas de jade. Sob o tom suave e amarelado das saias, surgiam sapatos finíssimos, de tamanho surpreendentemente pequeno. Todos os seus movimentos eram executados com uma perfeição e delicadeza extraordinárias, sobretudo quando passavam a bola de uma para outra. Cada lance exigia cálculo preciso da distância e da força do chute, e cada movimento tinha um nome próprio. Um chute em meia-volta era chamado de “a flor do outro lado do muro” (3); conduzir a bola para trás recebia o nome de “atravessando os mares” (3). O jogo exigia uma destreza especial, principalmente para dominar a bola com os pés sem levantar um único grão de poeira do chão. Um dos movimentos mais difíceis era conhecido como “a pérola que sobe à cabeça de Buda”(3). Para executá-lo com perfeição, era necessário prender a bola entre os dedos dos pés e passá-la repetidamente de um para o outro. Mas o repertório não se limitava a esse movimento peculiar. Às vezes, as jogadoras se deitavam no chão para chutar a bola; outras se agachavam, mantendo o corpo perfeitamente ereto; e havia ainda aquelas que se contorciam como peixes fora d’água, usando os calcanhares para lançá-la ao outro lado do campo. Cada jogada bem-sucedida era celebrada com gritos e aplausos, e todas se esforçavam para superá-la. Como por encanto, a bola subia pelas pernas, alcançava o pescoço delicado, onde girava algumas vezes antes de cair no chão. Em certos momentos, os movimentos lembravam o Rio Amarelo correndo ao contrário; em outros, peixes coloridos debatendo-se na margem. Às vezes, a bola parecia confundir-se com a cabeça de uma das jogadoras, antes de se soltar com destreza e receber um chute poderoso. As demais tentavam detê-la com qualquer parte do corpo disponível, embora as panturrilhas fossem as mais usadas, por facilitarem um novo ataque. A entrega ao jogo era tamanha que algumas perdiam as sandálias, outras caíam no chão como feridas ao tentar um golpe de tesoura, e outras ainda batiam os delicados ombros contra a terra dura. Nada disso parecia importar, desde que a bola acabasse entrando na rede em forma de cesto, pendurada à meia altura (4). Quando isso acontecia, todas soltavam gritos de entusiasmo. Não era de estranhar que, de tanto esforço, as túnicas de seda estivessem encharcadas de suor e a maquiagem completamente desfeita. Só perceberiam isso quando o interesse pelo jogo diminuísse, com a mesma naturalidade silenciosa com que as estações se sucedem.
A descrição poderia se estender indefinidamente; por isso, oferecemos ainda outro poema (5) que revela mais:
"No início do terceiro mês, as donzelas saíram ao campo para jogar bola.
A brisa soprava com tamanha suavidade que parecia trazer consigo essências de imortalidade.
O suor que salpicava seus rostos fazia-as parecer flores cobertas de orvalho,
enquanto os grãos de poeira que desfaziam a curva perfeita de suas sobrancelhas
as transformavam em ramos de salgueiro ocultos pela névoa.
As mangas de suas túnicas, de um azul vivo, deixavam entrever, ao balançar,
a beleza de dedos tão delicados quanto pequenos eram os pés
revelados pelo redemoinho caprichoso das saias amarelas.
Quando o jogo terminou, os cabelos estavam revoltos,
e as joias que realçavam sua beleza exibiam um aspecto lastimável."
Sanzang permaneceu ali, observando-as em silêncio, absorto, até perceber que não podia continuar perdendo tempo. Então, elevando a voz, disse:
— Com licença, bodhisatvas. Teriam a bondade de oferecer a este pobre monge algum alimento?
Ao ouvirem isso, as donzelas interromperam o que faziam e, com sorrisos de doçura irresistível, aproximaram-se dele e disseram:
— Perdoe-nos por não termos recebido o senhor antes. Não sabíamos que alguém tão importante havia chegado à nossa aldeia. Entre e fique à vontade. Não é apropriado servir comida ao ar livre.
— Céus! — pensou Sanzang, espantado. — O Oeste é, de fato, a terra de Buda. Como os homens não aceitariam seus ensinamentos, se até as mulheres demonstram tamanho respeito pelos monges? — e, curvando-se com extrema delicadeza, seguiu as donzelas para o interior da casa.
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Após atravessar o pavilhão de madeira de sândalo, o mestre olhou ao redor e constatou, surpreso, que o edifício não possuía, na verdade, nem corredores nem aposentos. Em seu lugar, via-se uma sucessão de picos altíssimos, cobertos por uma tonalidade azulada, que se perdiam entre as nuvens, e cadeias de montanhas tão vastas que pareciam alcançar a própria beira do mar. Ao lado de uma ponte de pedra, sob a qual corria um riacho de nove meandros, abria-se algo semelhante a um portal, cuja sombra se estendia sobre um pomar repleto de ameixeiras, pessegueiros e toda sorte de frutas e legumes. Das árvores pendiam trepadeiras e videiras silvestres, como se buscassem embriagar-se com o perfume das orquídeas e das inúmeras outras flores que cresciam entre a relva. Visto de longe, aquele lugar parecia mais belo que a ilha de Peng e mais escarpado e rico em madeira do que o próprio Monte Hua. No entanto, a completa ausência de outras casas indicava que ali devia ser a morada de algum falso imortal.
Uma das donzelas que seguia à frente girou duas portas de pedra e convidou o monge Tang a entrar para recuperar as forças. Ao mestre não restou alternativa senão obedecer.
O mobiliário limitava-se a alguns bancos e mesas de pedra, mas o mais desconcertante era que o interior estava muito escuro e o ar parecia ter se tornado, de repente, extremamente frio. Assustado, Sanzang pensou de imediato:
— Este lugar não é tão bom quanto parecia. Aqui se sente mais maldade do que virtude.
— Sente-se, mestre — insistiram as moças, sem deixar de sorrir.
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O monge Tang assim fez, mas o frio foi se intensificando a tal ponto que logo começou a tremer, como se estivesse em pleno inverno.
— De que monastério o senhor vem, e com que propósito recolhe esmolas? — perguntou uma das donzelas. — Para que serve o dinheiro? Pretende consertar pontes e caminhos, construir um novo monastério ou organizar uma celebração e imprimir um livro de escrituras? Por favor, mostre-nos a sua tigela de esmolas.
— Não pertenço a essa classe de monges — respondeu o monge Tang.
— Se isso é verdade — replicou uma das donzelas —, o que o levou a bater à porta desta casa?
— Na verdade — explicou Sanzang —, fui enviado pelo Grande Imperador dos Tang, nas Terras do Leste, ao Monastério do Trovão, no Paraíso Ocidental, com a missão de obter as escrituras sagradas. Se tive a ousadia de perturbar a tranquilidade desta respeitável morada, foi apenas porque, ao passar por aqui, a fome me acometeu de repente e não havia outro lugar a que recorrer. Assim que tiver comido algo, retomarei a jornada.
— Isso é ótimo! — exclamaram as donzelas em coro. — Como diz o provérbio, "não há monges mais versados nos sutras do que aqueles que vêm de terras distantes". Irmãs — acrescentaram, animando-se umas às outras —, precisamos tratar o nosso hóspede com o devido respeito e preparar o quanto antes uma refeição vegetariana.
Enquanto três das donzelas conversavam animadamente com o mestre sobre o carma, as outras quatro arregaçaram as mangas e correram para a cozinha. Atiçaram o fogo, limparam as panelas e, em seguida, pegaram carne humana conservada, fritando-a em gordura humana até que adquirisse um tom escuro o bastante para se passar por glúten de trigo frito. Depois disso, cortaram cérebros humanos ainda cobertos de sangue com tamanha habilidade que mais pareciam tofu fresco. Satisfeitas com a rapidez do preparo, colocaram os dois pratos sobre a mesa de pedra e disseram ao mestre:
— Pode comer à vontade. Com a pressa, não foi possível preparar uma refeição vegetariana completa, mas isso deve ser suficiente para saciar a sua fome por enquanto. Se desejar mais alguma coisa, é só avisar.
Bastou o mestre sentir o cheiro da comida para o estômago começar a se revirar. O odor era tão pútrido que até um açougueiro sentiria vontade de vomitar. Ainda assim, Sanzang levantou-se, juntou as mãos à altura do peito e disse, inclinando levemente a cabeça:
— Este humilde monge pede desculpas, mas desde o dia em que nasci, sigo uma dieta estritamente vegetariana.
— O que o senhor está dizendo?! — exclamou uma das moças, soltando uma gargalhada. — Por acaso não está vendo que estes pratos são feitos de vegetais?
— Amitabha! — exclamou, por sua vez, o mestre, escandalizado. — Se uma alimentação dessas fosse considerada vegetariana, jamais seria possível encontrar o o Mais Venerável do Mundo nem obter as escrituras sagradas.
— Para alguém que renunciou à família, esse comportamento não parece exigente demais? — retrucou a jovem que havia servido a comida.
— Talvez a minha explicação não tenha ficado clara — disse Sanzang, tentando contornar a situação. — Desde o momento em que aceitei a missão dada pelo Imperador Tang, fiz tudo o que estava ao meu alcance para evitar o sofrimento de todas as criaturas vivas com as quais me deparei. Alimentei-me com grãos que eu mesmo recolhi do chão e protegi-me do frio com roupas que teci com minhas próprias mãos. Acham que uma pessoa assim pode ser considerada exigente?
— Talvez não — reconheceu outra das donzelas, rindo —, mas parece que o senhor gosta de culpar até quem tem a delicadeza de convidá-lo a entrar em sua casa. Coma um pouco e não despreze algo só porque falta o requinte ao qual está acostumado.
— Que o céu me livre de fazer algo assim — respondeu o mestre. — Ainda assim, é preciso compreender que não posso ignorar minhas promessas. Preservar a vida tem menos mérito do que criá-la. Se não houver inconveniente, creio que o melhor é partir.
Antes mesmo de concluir a frase, o mestre já se dirigia à porta. As donzelas, porém, impediram sua saída e disseram, com um sorriso carregado de malícia:
— Para onde tanta pressa? Ninguém deixa passar uma boa oportunidade. Acha mesmo que dá para segurar um peido com a mão?
Todas as donzelas dominavam com perfeição as artes marciais e exibiam uma agilidade impressionante nos movimentos. Por isso, não tiveram a menor dificuldade em agarrar o mestre. Empurraram-no sem qualquer cuidado, como se fosse uma simples ovelha, jogaram-no no chão, amarraram-no com cordas e o penduraram na viga mais alta que encontraram. Até a forma como realizaram aquilo revelava grande conhecimento de técnicas de combate. O método era conhecido como “o imortal que aponta o caminho”: a vítima é suspensa por um dos braços, enquanto o outro fica preso ao corpo; a corda passa por uma viga e, para impedir que o corpo fique dobrado, uma terceira amarra mantém pernas e tronco paralelos ao chão.
Assim, o mestre ficou pendurado no ar, de cabeça para baixo. A dor era tão intensa que os seus olhos se encheram de lágrimas. Em desespero, ele se lamentou, dizendo:
— Como é amarga a sorte de um monge! Minha intenção era pedir esmola à porta de uma boa família, mas acabei caindo de cabeça num ninho de víboras. Onde foram parar os meus discípulos? Por que ninguém aparece para me livrar deste tormento? Meu sofrimento é tão grande que minha vida talvez não dure mais duas horas!
Mesmo tomado pelo desespero, o mestre não desviava os olhos do que as donzelas faziam. Depois de pendurá-lo, começaram a se despir. Profundamente preocupado, ele voltou a pensar:
— Com certeza estão tirando a roupa para me bater com mais facilidade e, assim, poderem me devorar mais rápido.
No entanto, elas se despiram apenas da cintura para cima. Com o ventre exposto, passaram a liberar seus poderes mágicos. Do umbigo de cada uma começaram a sair fios finíssimos, que rapidamente formaram novelos do tamanho de ovos de ganso. Em poucos instantes, esses fios se transformaram numa vasta rede que cobriu completamente a entrada da caverna.Tudo aconteceu com tamanha rapidez que parecia a explosão de uma enorme massa de jade ou de uma larga veia de prata.
Enquanto isso, o Peregrino, Bajie e o Monge Sha aguardavam, cada vez mais impacientes, o retorno do mestre. Bajie e o Monge Sha mantinham os olhos atentos à bagagem e ao cavalo, que pastava tranquilamente por perto. Já o Peregrino, inquieto como sempre, saltava de galho em galho, arrancando folhas e procurando frutas silvestres. De repente, ao olhar na direção por onde o mestre havia seguido, percebeu uma luz intensíssima e, caindo no chão de repente, exclamou, tomado pela preocupação:
— Isso não parece nada bom. A sorte do mestre é realmente péssima. Alguém reparou no que aconteceu com a aldeia?
Bajie e o Monge Sha também olharam naquela direção e também viram, apreensivos, a luz branca como a neve e brilhante como a prata.
— Que azar terrível — murmurou Bajie. — O mestre deve ter caído nas mãos de monstros horríveis. É melhor irmos libertá-lo agora mesmo!
— Para que esse alarde todo? — repreendeu-o o Peregrino. — Ainda não temos certeza do que está acontecendo. O melhor é dar uma olhada primeiro.
— Tome cuidado, irmão — disse o Monge Sha.
— Não se preocupe — respondeu o Peregrino. — Eu sei me cuidar.
Depois de arregaçar a pele de tigre e empunhar o bastão de ferro com extremidades douradas, o Peregrino chegou em poucas passadas ao local que haviam confundido com um grupo de casas. Ali descobriu um emaranhado de fios grossos, entrelaçados de forma impressionante, lembrando uma gigantesca teia de aranha. Ao toque, eram além disso muito macios e pegajosos. Sem conseguir entender do que se tratava, o Peregrino ergueu o bastão de ferro acima da cabeça e pensou:
— Por mais grosso que isso seja, não tem a menor chance contra este bastão.
No entanto, quando se preparava para desferir o golpe, pensou melhor e acrescentou:
— Esta arma é praticamente invencível contra qualquer coisa sólida. Mas não há garantia de que funcione do mesmo modo contra algo tão macio. O mais provável é que apenas rasgue um pouco e acabe ficando presa nessa teia. Assim, a situação ficaria ainda pior. O mais sensato agora é investigar antes de recorrer à força.
Sem perder tempo, o Peregrino fez um gesto mágico e recitou um encantamento, que fez com que o deus daquele lugar começasse a girar ao redor do próprio santuário, como se estivesse preso a uma pedra de moinho. Surpresa, a esposa do deus perguntou:
— Posso saber por que você está dando tantas voltas? Por acaso está passando mal?
— De forma alguma! — respondeu o deus, visivelmente aflito. — O problema é que o Grande Sábio, Igual ao Céu, está por perto e ordenou que eu fosse ao encontro dele imediatamente. O pior é que ele chegou sem que eu tivesse tempo sequer de recebê-lo.
— Então vá logo e pare de girar como um louco — insistiu a mulher.
— Não é tão simples assim — retrucou o deus. — Ele tem um temperamento tão explosivo que, assim que me vir, irá me atacar com aquela terrível bastão de ferro.
— Tenho certeza de que isso não vai acontecer — tentou tranquilizá-lo a mulher. — A sua idade já não permite castigos desse tipo.
— Você não o conhece bem — replicou o deus. — Duas coisas o tornaram famoso: beber às custas dos outros e surrar anciãos como eu.
Depois de falar por um longo tempo, o deus percebeu que não havia como evitar o chamado. Tremendo da cabeça aos pés, saiu do santuário e, ajoelhando-se à beira do caminho, gritou:
— Apresento meus respeitos ao Grande Sábio!
— Levante-se! Não há motivo para tanto medo. Por enquanto não pretendo bater em você — ordenou o Peregrino. — Considere isso um grande favor. Agora, se não se importa, gostaria de saber como se chama este lugar.
— De onde o senhor vem, Grande Sábio? — indagou, por sua vez, o deus.
— Das Terras do Leste, com destino ao Oeste — respondeu o Peregrino.
— O Grande Sábio passou por uma grande cordilheira? — voltou a perguntar o deus.
— Ainda estamos lá em cima — disse o Peregrino. — Não consegue ver nosso cavalo e a bagagem ali?
— Aquela é a Cordilheira da Teia de Aranha — esclareceu o deus. — Ali fica a caverna de mesmo nome, onde moram sete monstros.
— Esses monstros são machos ou fêmeas? — perguntou o Peregrino.
— Fêmeas — respondeu o deus.
— E que tipo de poderes mágicos elas possuem? — insistiu o Peregrino.
— Para ser sincero — disse o deus —, minha força é pequena demais e minha autoridade, limitada. Não posso afirmar com certeza. O que sei é que, a cerca de seis quilômetros ao sul, existe um curso de águas quentes chamado Arroio da Purificação. Ali costumavam se banhar as Sete Imortais das Regiões Superiores, mas deixaram de fazê-lo assim que esses monstros apareceram. Tudo indica que temeram um confronto. Por isso, deduzo que os poderes dessas criaturas sejam realmente extraordinários; caso contrário, aquelas donzelas celestiais não teriam abandonado o local.
— E por que esses monstros se interessaram pelo riacho? — perguntou novamente o Peregrino.
— Depois de tomarem posse dele — explicou o deus —, passaram a se banhar ali três vezes por dia. Inclusive, hoje já estiveram lá na hora da Serpente e tudo indica que retornarão perto do meio-dia.
— Muito bem — disse o Peregrino. — Já pode voltar à sua morada. Eu mesmo cuidarei de capturá-las.
O deus prostrou-se mais uma vez com o rosto em terra e, batendo repetidamente a testa no chão, despediu-se do Grande Sábio antes de iniciar o caminho de volta ao santuário.
Assim que ficou sozinho, o Peregrino recorreu a seus profundos conhecimentos mágicos. Sacudiu levemente o corpo e transformou-se numa minúscula mosca, que pousou numa haste de capim à beira do caminho. Pouco depois, ouviu-se um som semelhante à respiração de animais — algo que lembrava tanto o ruído dos bichos-da-seda devorando folhas de amoreira quanto o das ondas do mar ao se chocarem contra os penhascos. Em menos tempo do que se leva para beber uma xícara de chá, o emaranhado de fios desapareceu por completo, e a silhueta da aldeia voltou a surgir. Ouviu-se então o rangido de uma porta se abrindo. Sete donzelas apareceram, conversando e rindo animadamente. O Peregrino observou com atenção e notou que todas caminhavam de mãos dadas. Sem parar de brincar nem de rir, elas atravessaram a ponte.
A beleza delas era realmente extraordinária. Eram como jade, mas exalavam uma fragrância que a pedra jamais poderia ter. Às vezes, parecia que as flores haviam aprendido a falar e a caminhar livremente. As sobrancelhas lembravam finos ramos de salgueiro à distância, mas onde a delicadeza mais se destacava era na curva dos lábios, vermelhos como cerejas. Os cabelos, presos em coques graciosos com grampos de ouro, evocavam o brilho das penas do martim-pescador. Os pés, pequenos como amêndoas, surgiam sob o leve balanço das saias vermelhas. Era como se um grupo de imortais tivesse descido à terra, ou como se a própria Chang’e tivesse abandonado seu refúgio na lua.
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— Não é de espantar que o mestre tenha insistido em bater à porta delas em busca de comida — pensou o Peregrino, com um sorriso malicioso. — Nunca imaginei que houvesse belezas assim por aqui. Ainda assim, não se deve confiar nas aparências. São muitas para que o mestre lhes sirva de refeição, mas isso não torna a situação menos grave. Se o mantiverem sem comer por alguns dias, a morte é certa. O melhor é descobrir o que estão planejando.
Sem hesitar, o Peregrino alçou voo e pousou no coque de uma delas. Depois de atravessarem a ponte, a jovem que vinha por último perguntou às que seguiam à frente:
— O que acham de, depois do banho, cozinharmos no vapor aquele monge gordinho que acabamos de capturar?
— Que criatura sem juízo — pensou o Peregrino, rindo por dentro. — Para que cozinhá-lo no vapor, quando se gasta muito menos lenha cozinhando-o como uma cenoura?
Seguindo sempre em direção ao sul, as donzelas não paravam de colher flores e arrancar fios de capim. Logo chegaram ao local reservado para o banho, protegido dos olhares curiosos por um esplêndido muro. O chão estava coberto de flores silvestres, entre as quais se destacava o frescor das orquídeas. A jovem que fechava a fila adiantou-se, abriu uma porta que rangeu de forma lastimosa, e o tanque de águas quentes surgiu, majestoso, diante de seus olhos.
No princípio dos tempos, não existia apenas um sol, mas dez. Hou Yi (6), o arqueiro celestial, derrubou nove deles com suas flechas, deixando apenas um, que se tornou a fonte do verdadeiro yang. Por isso existem no mundo nove riachos de águas quentes, metamorfoses dos sóis abatidos, nos quais ainda pulsa a essência mágica do yang. São eles: o Arroio do Frio Aromático, o Arroio da Montanha do Casal, o Arroio Quente, o Arroio da União Oriental, o Arroio da Montanha das Inundações, o Arroio da Piedade Filial, o Arroio do Grande Redemoinho, o Arroio Ardente e o Arroio da Purificação. Sobre este último existe um poema que diz:
"Em suas margens não faz frio nem calor e, mesmo no outono, tudo parece primavera.
As águas fervem como se estivessem sobre o fogo e, ao tocá-las, até os flocos de neve ganham a temperatura de uma sopa recém-feita.
Quando transbordam, dão vida às colheitas com seu calor e purificam tudo o que tocam.
Em seu interior dançam incontáveis bolhas, como lágrimas brincalhonas, dando à superfície um movimento que lembra jade líquido.
Apesar do calor que emana, a água é clara e limpa, prova evidente de que as terras banhadas gozam do favor dos Céus, pois poucas coisas remontam ao início dos tempos.
Não é estranho que as beldades fossem ali lavar a pele branca como a neve e recuperar a firmeza de jade da juventude".
O tanque tinha cerca de cento e cinquenta metros de largura e ultrapassava os trezentos de comprimento. Em nenhum ponto a profundidade passava dos doze metros, e a água era tão cristalina que permitia ver o fundo com total nitidez. De seu interior brotava uma corrente constante de bolhas perfeitas, semelhantes a pérolas ou contas de jade. A pureza da água vinha do fato de ser continuamente renovada pelas seis ou sete valas abertas em cada margem, responsáveis por irrigar os arrozais que se estendiam por oito ou nove quilômetros. Mesmo depois de percorrer uma distância tão grande, a água permanecia morna. Ao lado do tanque erguiam-se três pequenos pavilhões. Atrás do pavilhão central havia um banco com duas araras de laca nas extremidades, usadas para pendurar roupas. Ao vê-las, o Peregrino sorriu satisfeito e foi pousar em uma delas.
As donzelas, entusiasmadas, perceberam que a água estava limpa e agradável, o que aumentou ainda mais o desejo de se banharem. Sem perder tempo, tiraram os vestidos e, jogando-os despreocupadamente sobre as araras, entraram juntas no tanque. Com olhos atentos, o Peregrino as observou desabotoarem as blusas, afrouxarem as faixas de seda e se livrarem das saias. Seus seios tinham o brilho branco da prata, e os corpos, a perfeição inalcançável dos flocos de neve. Os membros eram cobertos por um leve tom azulado, semelhante ao gelo, enquanto os ombros pareciam moldados por mãos habilidosas e delicadas. As costas eram firmes e bem desenhadas; os ventres, macios e flexíveis, formando um contraste carnudo com essa firmeza. Coxas e joelhos exibiam um contorno impecável, em nada comprometido pelo tamanho diminuto dos pés, que não ultrapassavam cinco centímetros de comprimento. Uma chama de desejo iluminava suas doces aberturas do amor.
Já dentro d’água, as donzelas começaram a pular e a salpicar umas às outras, enquanto as mais ousadas nadavam em direção ao centro do tanque.
— Se eu quisesse atacá-las — pensou o Peregrino, com um sorriso contido —, bastaria agitar a água com o meu bastão. Seria como despejar água fervente sobre um ninho de ratos, e assim mataria todas de uma vez. O problema é que, mesmo que eu resolvesse tudo num instante, minha reputação sairia arruinada. Como diz o provérbio, nenhum homem que se preze luta contra mulheres. Seria vergonhoso para mim matar essas donzelas. Mas deixá-las livres também é arriscado. Devo imobilizá-las de algum jeito, antes que voltem para o covil.
Depois de fazer um gesto mágico com as mãos e recitar o encantamento adequado, o Grande Sábio sacudiu levemente o corpo e, num instante, transformou-se num falcão faminto. Sua plumagem era rígida e brilhante como neve coberta de geada, e os seus olhos reluziam mais intensamente que as próprias estrelas. Diante de uma ave tão poderosa, raposas perdem a astúcia e lebres esquecem onde se esconder. Nada resiste às suas garras de aço, ágeis e cortantes como lâminas, nem à imponência do seu voo, capaz de fazê-lo subir acima das nuvens e despencar em seguida como uma flecha sobre a presa escolhida. O falcão sacudiu levemente as asas e voou em direção ao pavilhão. Ao passar sobre as araras, abriu suas garras afiadas e, com espantosa facilidade, apanhou as sete túnicas ali penduradas. Em seguida, inclinou-se levemente para a direita e disparou como um relâmpago rumo às montanhas.
Ao chegar ao local onde estavam Bajie e o Monge Sha, o Peregrino retomou sua forma habitual. Ao ver as roupas que ele trazia nas mãos, Bajie exclamou, surpreso:
— Então o mestre está preso numa casa de penhores!
— De onde surgiu essa ideia? — perguntou o Monge Sha.
— Não está óbvio? — retrucou Bajie. — Onde mais alguém conseguiria tantas roupas de uma vez?
— Que bobagem — repreendeu o Peregrino. — Essas roupas pertencem a monstros.
— E por que tantas peças? — insistiu Bajie.
— Porque são sete ao todo — explicou o Peregrino.
— Não é possível! — exclamou Bajie mais uma vez. — Como você conseguiu pegá-las?
— Nada mais simples — explicou o Peregrino. — Este lugar é conhecido como a Cordilheira da Teia de Aranha, onde fica aquela caverna que, a princípio, confundimos com uma aldeia. Nela vivem sete donzelas que capturaram o mestre e o penduraram numa viga. Pelo que observei, são extremamente cuidadosas com a própria higiene e se banham várias vezes ao dia no Arroio da Purificação, uma fonte de águas quentes formada diretamente pelo Céu e pela Terra. A intenção delas era devorar o mestre depois do banho. Por isso, resolvi segui-las até o tanque. Pensei em acabar com todas enquanto estavam na água, mas percebi que isso prejudicaria minha reputação. Então escolhi um plano mais inteligente: transformei-me num falcão faminto e roubei suas roupas. Como não se atrevem a sair nuas, ficaram presas dentro d’água. Assim, poderemos libertar o mestre com facilidade. Vamos, é melhor nos apressarmos. Precisamos retomar a viagem quanto antes.
— Sempre a mesma história — resmungou Bajie. — Por que nunca termina o que começa? Antes de soltar o mestre, não seria mais sensato eliminar esses sete monstros? Por mais vergonha que sintam de mostrar o corpo, basta anoitecer para saírem da água, e a perseguição vai começar. Afinal, ainda devem ter outras roupas na caverna. E, se estiverem cansadas demais para correr atrás agora, podem muito bem preparar uma emboscada na volta. Ou você pensa em regressar com as escrituras por outro caminho? Como diz o provérbio, é melhor abrir mão do que se carrega do que sofrer por excesso de confiança. Se nada for feito agora, quando voltarmos tudo estará fortificado e a passagem será bloqueada.
— Então, qual é a sua proposta? — perguntou o Peregrino.
— Do meu ponto de vista — respondeu Bajie —, o certo é acabar primeiro com esses monstros e só depois libertarmos o mestre. É preciso arrancar o mal pela raiz.
— Não concordo em matá-las — retrucou o Peregrino. — Mas, se algum de vocês quiser fazer isso, não farei objeção.
Radiante de alegria, Bajie agarrou o ancinho e saiu correndo em direção ao tanque. Ao abrir a porta, deparou-se com as sete donzelas ainda dentro d’água. Todas estavam lançando insultos contra o falcão.
— Ave maldita! — gritavam, fora de si. — Que um tigre arranque essa sua cabeça emplumada! Como pôde roubar nossas roupas desse jeito? Para onde será que as levou?
— Bodhisattvas! — berrou Bajie, sem conseguir se conter. — Por que não me convidam para tomar um banho com vocês? Afinal, não passo de um monge e não posso fazer mal a ninguém.
— Que monge sem modos! — reagiram elas, ainda mais furiosas. — Um homem que abandonou a família nada tem a ver com mulheres que jamais cometeram tamanha loucura. Como pode sequer pensar em se banhar conosco, se até os livros antigos dizem que, a partir dos sete anos, homem e mulher não devem sentar-se na mesma esteira?
— Desculpem, mas o calor está insuportável, e preciso me refrescar — respondeu Bajie. — Não entendo qual é o problema de um banho coletivo. Essa história de esteira não faz o menor sentido. Quanto aos livros, não me importam nem um pouco.
Encerrando a discussão, Bajie largou o ancinho de lado e, arrancando a túnica de seda negra, lançou-se na água, espirrando para todos os lados.
As donzelas avançaram furiosas, prontas para espancá-lo. Mas Bajie era escorregadio como uma enguia e, com um leve sacudir do corpo, transformou-se num peixe. Desesperadas, tentaram agarrá-lo com as mãos, mas, quando mergulhavam para o leste, ele já surgia a oeste, e o jogo recomeçava. Rápido e impossível de segurar, Bajie deslizava entre as pernas delas e logo reaparecia à superfície.
Como ali a água era rasa, mal chegando ao peito, em pouco tempo todas estavam exaustas. Ofegantes como búfalos puxando arado, deixaram-se cair no fundo do tanque. Foi então que Bajie decidiu sair da água. Recuperou sua forma habitual, vestiu novamente a túnica e apanhou o ancinho.
— Quem vocês pensam que eu sou, um simples peixe? — berrou, cheio de triunfo.
— É o monge que apareceu há pouco! — responderam as donzelas, tremendo da cabeça aos pés. — Ele se transformou num peixe e se lançou na água, sem que conseguíssemos agarrá-lo. Agora voltou à forma normal. De onde vem essa criatura? Diga imediatamente o seu nome!
— Então não me reconhecem, bando de monstros? — rugiu Bajie. — Sou um dos discípulos do monge Tang, enviado do Imperador das Terras do Leste rumo ao Oeste em busca das escrituras. Meu nome é Zhu Wuneng, também conhecido como Bajie, Marechal dos Juncos Celestes. Em vez de respeito, vocês penduraram meu mestre numa viga e ainda pretendem cozinhá-lo no vapor! Isso é aceitável? Ele é meu mestre, e vocês querem devorá-lo! Preparem o pescoço, porque vou pôr fim à sua existência maligna num piscar de olhos!
Ao ouvir isso, as donzelas começaram a tremer e, ajoelhando-se na água, gritaram em desespero:
— Perdão, pelo que houver de mais sagrado! Nossos olhos são grandes, mas não souberam distinguir o bem do mal. É verdade que penduramos seu mestre, mas não lhe causamos sofrimento algum. Se poupar nossas vidas, daremos todo o dinheiro que desejar, para que possam prosseguir sem problemas sua viagem ao Paraíso Ocidental.
— Poupem o fôlego — retrucou Bajie, abanando a mão. — O provérbio é claro: quem já foi enganado por palavras doces não volta a confiar em linguagem floreada. Sinto muito, mas todas vocês vão cair de uma vez. Só assim poderemos prosseguir em paz nosso caminho.
Bajie sempre fora rude e impiedoso, mais inclinado à força do que à misericórdia. Ergueu o ancinho acima da cabeça e avançou sem hesitar, decidido a acabar com todas.
Percebendo que o fim estava próximo, as donzelas esqueceram qualquer pudor. Cobrindo as partes íntimas com as mãos, saltaram para fora da água e correram até o pavilhão. Assim que o alcançaram, começaram a lançar fios pelo umbigo. Antes que Bajie pudesse entender o que acontecia, já estava preso dentro de um enorme casulo de seda.

Ao erguer a cabeça, viu, apavorado, que o céu e o sol haviam desaparecido. Tentou fugir, mas não conseguiu dar um único passo. Uma teia espessa cobria o chão e se enrolava por todo o corpo. Qualquer tentativa de mover as pernas apenas apertava ainda mais os fios, até que o rosto batia contra o chão. Tentou para a esquerda, depois para a direita, mas o resultado era sempre o mesmo. No máximo, conseguia se levantar antes de cair outra vez. Mesmo assim, não desistiu. Continuou levantando e caindo até que as forças se esgotaram de vez. As pernas já não o sustentavam; a cabeça doía terrivelmente, e os olhos ardiam como se a cegueira tivesse chegado de repente. Sem energia sequer para se arrastar, restou-lhe deitar-se e gemer, inconsolável. Quando perceberam que ele já não se mexia, as donzelas perderam o interesse. Saltando de alegria, deixaram o recinto do tanque e correram de volta à caverna, protegidas pelas espessas teias de aranha.

Assim que atravessarem a ponte de pedra, pararam de repente e recitaram um encantamento; num instante, a teia que as envolvia se desfez por completo. Em seguida, correram para dentro da caverna. Passaram completamente nuas diante do monge Tang, rindo como crianças e cobrindo as partes íntimas com as mãos.
Sem demora, abriram arcas de pedra, vestiram as roupas ali guardadas e, dirigindo-se à porta dos fundos, gritaram:
— Onde vocês se meteram, crianças?
Cada uma delas havia adotado um filho, a quem deram, respectivamente, os nomes de Abelha, Vespa, Barata, Centopeia, Gafanhoto, Minhoca e Libélula. Em tempos passados, aquelas que agora eram suas mães haviam tecido uma teia gigantesca, e todos esses infelizes tiveram o azar de cair nela. Quando estavam prestes a ser devorados, porém, suplicaram por suas vidas. Como dizem os antigos, aves e animais possuem sua própria forma de se comunicar, e eles prometeram, em troca da misericórdia, servi-las como filhos verdadeiros. Desde então, a cada primavera recolhiam centenas de flores para adornar os cabelos delas e, no verão, vasculhavam as plantas em busca de alimento. Ao ouvirem o chamado, os insetos se reuniram ao redor das donzelas e perguntaram:
— Que ordens têm para nós, mães?
— Esta manhã — explicaram elas — capturamos por engano um monge enviado pelo Grande Imperador dos Tang em busca das escrituras. Enquanto nos banhávamos no tanque, um de seus discípulos surgiu de surpresa e não só nos fez perder o pudor, como quase nos tirou a vida. Precisamos que vão atrás dele e o tragam aqui o mais rápido possível. Estaremos esperando na casa do tio de vocês, está bem?
Tendo escapado da morte, as donzelas decidiram visitar o irmão mais velho. Com palavras traiçoeiras, acabaram convencendo-o a espalhar desgraça por toda parte. Os insetos, por sua vez, deixaram a caverna esfregando as mãos com avidez e seguiram em direção ao tanque, dispostos a travar uma batalha formidável contra o inimigo. Por ora, não falaremos mais deles. Falaremos, no entanto, de Bajie. Por causa das inúmeras quedas, ele estava tonto e no limite das forças. Após algum tempo, conseguiu erguer a cabeça e percebeu, surpreso, que toda a trama de teias que o mantinha prisioneiro havia desaparecido. Com grande esforço, conseguiu se pôr de pé. As pernas doíam terrivelmente, mas, ainda assim, foi possível retornar pelo caminho de antes. Ao encontrar o Peregrino, agarrou-se a ele em desespero e perguntou:
— Irmão mais velho, meu rosto está inchado e cheio de hematomas?
— O que aconteceu com você? — perguntou o Peregrino.
— Aqueles monstros cobriram tudo com teias — contou Bajie. — Até o chão ficou tomado, para que eu tropeçasse e não conseguisse andar. Perdi a conta de quantas vezes caí. No fim, o peito doía e achei que as costas iam se partir. Não conseguia dar um passo sequer. Só escapei com vida porque, de repente, as teias desapareceram.
Ao ouvir isso, o Monge Sha exclamou:
— Estamos perdidos! Sua imprudência causou uma grande desgraça. O mais provável é que elas tenham voltado à caverna para devorar o mestre. Precisamos correr e libertá-lo imediatamente!
Sem hesitar, o Peregrino disparou em direção à aldeia, seguido por Bajie, que puxava o cavalo pelas rédeas. Ao chegarem à ponte de pedra, sete pequenos demônios surgiram diante deles e ordenaram:
— Parem! Para onde vão com tanta pressa?
Olhando para eles, o Peregrino disse consigo mesmo:
— Que ridículo! São todos tão pequenos! Mesmo o mais alto não chega a um metro de altura, e o mais pesado não deve passar de cinco quilos.
Ainda assim, assumiu uma postura marcial e, erguendo a voz, perguntou:
— Quem são vocês?
— Somos os filhos das sete damas imortais — responderam os demônios, no mesmo tom. — Vocês insultaram nossas mães e agora ousam vir até a nossa porta. Não fujam! Preparem-se para morrer!
Num só movimento, os demônios avançaram para o ataque. Apesar de estar com o corpo inteiro dolorido, Bajie pareceu recuperar as forças de repente e começou a desferir golpes para todos os lados com o ancinho. Aterrorizados, os pequenos insetos retomaram sua forma original, ergueram-se no ar e gritaram:
Mal terminaram de falar, cada um deles se multiplicou: primeiro em dez, depois em cem, em seguida em mil e, por fim, em dez mil insetos da mesma espécie. Não havia quem pudesse enfrentar um enxame daquele tamanho. O céu ficou quase todo tomado por libélulas, enquanto o chão se cobria com um tapete espesso de vermes. Abelhas e vespas atacavam furiosamente as cabeças dos inimigos, enquanto as baratas miravam os olhos. As centopeias cravavam picadas violentas no peito e nas costas, ajudadas pelos gafanhotos, que atacavam os pés e a nuca. Para onde quer que se olhasse, via-se uma massa escura, voraz e violenta, capaz de fazer tremer até deuses e espíritos.
Diante daquela confusão, Bajie comentou, apreensivo:
— Dizem que as escrituras são fáceis de obter, mas, no caminho para o Oeste, até os insetos intimidam as pessoas!
— Não tenha medo e ataque com força! — aconselhou-o o Peregrino.
— O rosto! A cabeça! — gritou Bajie, cada vez mais desesperado. — Meu corpo está todo coberto de insetos! Como vou acertar um golpe com o ancinho, se tenho pelo menos dez camadas deles por cima?
— Isso não é nada comparado aos poderes que eu possuo — retrucou o Peregrino.
— Então não faz sentido ficar esperando mais! — exclamou o Monge Sha. — Minha cabeça já está inchada de tantas picadas!
O Grande Sábio arrancou um punhado de pelos, colocou-os na boca e mastigou até reduzi-los a fragmentos. Em seguida, cuspiu-os no ar e disse:
— Transformar! Amarelo, gavi…
— Que jeito estranho de falar é esse? — interrompeu Bajie. — O que significa isso de “amarelo e gavi”?
— É simples — respondeu o Peregrino. — “Amarelo” se refere a um falcão de plumagem dourada, e “gavi” quer dizer gavião. Se não tivesse me interrompido, teria entendido. Se olhar bem, poderá ver também águias-reais, gaviões-miúdos, milhafres, falcões-cinzentos e quebra-ossos. São sete tipos de aves de rapina, todas encarregadas de exterminar esses insetos vorazes.
De fato, não existem criaturas mais eficazes contra pragas do que aquelas. Cada bicada encerrava a vida de um inseto. E não usavam apenas o bico: recorriam também às garras e às asas para acelerar o massacre. Num piscar de olhos, o ar ficou completamente limpo. Todos os insetos haviam desaparecido como por encanto. O chão, porém, estava coberto por uma camada de pequenos corpos que ultrapassava trinta centímetros de espessura.
Sem hesitar, os três peregrinos passaram por cima deles e correram pela ponte em direção à caverna. Lá encontraram o mestre pendurado numa viga, chorando inconsolavelmente.
— Mestre — disse Bajie, aproximando-se —, está pendurado aqui por diversão? Já nem sei quantas vezes tive de cair por sua causa!
— Soltem o mestre antes de levarmos esta conversa adiante — disse o Monge Sha.
O Peregrino então cortou as cordas e ajudou o mestre a descer. Em seguida, perguntou-lhe:
— Para onde foram os monstros?
— Assim que chegaram — explicou o monge Tang —, foram para os fundos, completamente nuas, e chamaram pelos filhos.
— É melhor darmos uma olhada — sugeriu o Peregrino.
Sem largar as armas em momento algum, vasculharam de cima a baixo o jardim nos fundos da caverna, mas não encontraram qualquer sinal delas. Para enxergar melhor, chegaram a subir num pessegueiro e numa pereira, mas tudo foi em vão.
— Elas foram embora — concluiu Bajie.
— É inútil continuarmos procurando — disse o Monge Sha. — O melhor agora é voltarmos para junto do mestre e retomarmos a viagem.
Foi o que fizeram. Em seguida, pediram que o monge Tang montasse no cavalo.
— Sigam na frente — ordenou Bajie, empunhando o ancinho. — Vou destruir tudo isso, para que não sobre lugar algum onde essas criaturas possam viver quando voltarem.
— Não faz sentido gastar tanta força — opinou o Peregrino. — Melhor juntar um pouco de lenha e deixar o fogo cuidar do resto.
Bajie logo encontrou um pinheiro apodrecido por dentro, alguns bambus quebrados, um salgueiro seco e algumas trepadeiras sem vida. Com tudo isso, armou uma fogueira enorme, que em pouco tempo consumiu toda a caverna. Assim que viram o lugar desabar, o mestre e os discípulos retomaram o caminho, agora mais animados.
Não sabemos, por enquanto, o que aconteceu com os monstros após sua partida. Quem desejar descobrir terá que ouvir com atenção as explicações que serão dadas no próximo capítulo.
CAPÍTULO LXXIII EM BREVE
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Notas do Capítulo LXXII
- Citação das Analectas de Confúcio;
- A prática de um esporte que consistia em chutar uma espécie de bola inflada já era registrada na China desde o final do século VII;
- Todos esses nomes curiosos são figuras e movimentos que os bons jogadores faziam com a bola;
- Durante a dinastia Yuan-Ming, as duas traves que vinham sendo usadas desde a dinastia Tang desapareceram, sendo substituídas por uma rede com um buraco na parte superior. O objetivo do jogo era justamente passar a bola por esse buraco;
- Essas linhas lembram um poema posteriormente atribuído a Li-Yü, romancista do início da dinastia Qing;
- Segundo a mitologia, originalmente havia dez sóis, nove dos quais foram derrubados pelo arqueiro Hou Yi. Como recompensa, ele recebeu algumas pílulas da imortalidade, mas sua esposa, Chang'e, tomou as pílulas e subiu imediatamente para a Lua, onde vive desde então.

- Tradução em pt-br por Rodrigo Viany (Sleipnir). Favor não utilizar sem permissão.
- Tradução baseada na tradução do chinês para o espanhol feitas por Enrique P. Gatón e Imelda Huang-Wang, e do chinês para o inglês feita por Collinson Fair.
fontes consultadas para a pesquisa:
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