۞ ADM Sleipnir
CAPÍTULO LXXIV:
LI CHANGGENG FALA SOBRE O PERIGO QUE OS DEMÔNIOS REPRESENTAM. O PEREGRINO EXIBE OS SEUS PODERES DE METAMORFOSE.
Desejos e sentimentos nascem da mesma fonte. Embora sejam naturais ao ser humano, aqueles que abraçaram a pobreza e seguiram o caminho do Zen devem aprender a abandoná-los. Só assim poderão alcançar a pureza da lua que brilha no alto do céu. Quanto maiores forem os méritos acumulados, maior deve ser o cuidado para evitar erros. É preciso lembrar sempre que apenas a perfeição absoluta conduz à iluminação eterna.
Dizíamos que, após romper a teia dos desejos e escapar da prisão dos sentimentos, Sanzang e seus discípulos retomaram sua jornada rumo ao Oeste. Conduziam o cavalo sem grandes preocupações enquanto o verão chegava ao fim e os primeiros sinais do outono surgiam pelo caminho. Uma brisa fresca fazia os viajantes estremecerem de vez em quando. As chuvas encerravam de vez os dias de calor, e as folhas das árvores começavam a perder o brilho do verão. À noite, os vaga-lumes surgiam como pequenos pontos de luz espalhados pela escuridão, enquanto os grilos entoavam seu canto incessante sob o luar. Pela manhã, os campos apareciam cobertos de orvalho. A vegetação tornava-se cada vez mais escassa, e apenas algumas ervas avermelhadas resistiam nas terras abandonadas. Os juncos secavam primeiro, enquanto as cigarras entoavam seus últimos cantos melancólicos.
Em certo momento, Sanzang avistou uma montanha tão alta que seu cume parecia atravessar o céu, tocar as estrelas e bloquear a passagem do sol. Tomado pela preocupação, voltou-se para Wukong e disse:
— Está vendo aquela montanha ali adiante? É tão alta que nem consigo imaginar como vamos atravessá-la.
— Por que tanta preocupação? — respondeu o Peregrino. — Como diz o provérbio: “Até as montanhas mais íngremes têm passagens, e até os rios mais profundos têm balsas para cruzá-los”. Se existe uma montanha, existe um caminho. Continue andando e não se preocupe tanto.

As palavras do discípulo tranquilizaram Sanzang, que sorriu e incentivou o cavalo a continuar pela encosta da montanha.Depois de percorrerem alguns quilômetros, encontraram um ancião de cabelos completamente brancos. Os fios eram tão compridos e desgrenhados que pareciam fios de prata dançando ao vento. No pescoço, ele trazia um colar de contas e apoiava-se em um cajado encimado por uma cabeça de dragão. Assim que viu os viajantes, levantou a voz e disse:
— Ei, mestre que segue para o Oeste! É melhor parar imediatamente! Você não deve prosseguir por esse caminho!

Sanzang ergueu a cabeça, assustado, e o questionou:
— Por quê não?
— Porque nesta montanha vivem demônios que devoram qualquer viajante que tente atravessá-la! — respondeu o ancião.
Ao ouvir isso, Sanzang empalideceu de medo. O caminho já era difícil e irregular, e o aviso do ancião foi suficiente para fazê-lo perder o equilíbrio e cair da sela, ficando estendido sobre a grama sem forças para se levantar.
O Peregrino correu até ele e o ajudou a ficar de pé, dizendo:
— Mestre, não há motivo para tanto medo. Estou aqui para protegê-lo.

— Então fique aqui descansando — disse o Peregrino. — Eu mesmo vou descobrir o que está acontecendo.
— Isso me preocupa ainda mais — respondeu Sanzang. — Sua aparência costuma assustar as pessoas, e seu jeito de falar nem sempre é dos mais educados. Se o ancião se sentir ofendido, talvez se recuse a contar o que sabe.
— Se é esse o problema — respondeu o Peregrino, caindo na gargalhada —, vou me transformar em alguém mais agradável de se ver. Assim ele não vai se recusar a conversar comigo.
— Deixe eu ver no que você vai se metamorfosear — disse o mestre, mais calmo.
O Grande Sábio fez um gesto mágico com os dedos e imediatamente assumiu a forma de um jovem monge de extraordinária beleza. Sua cabeça era bem formada, o rosto era harmonioso, os olhos tranquilos, as sobrancelhas delicadas e os modos refinados. Parecia um nobre instruído, e sua fala era elegante e cortês.
— E então, mestre? O que acha?
— Excelente! — respondeu Sanzang, satisfeito.
— Maravilhoso — disse Bajie. — Mas agora o resto de nós parece ainda mais desengonçados em comparação a você. Mesmo que eu rolasse por aí durante dois ou três anos seguidos, não conseguiria ficar tão elegante assim.
Satisfeito, o Grande Sábio aproximou-se do ancião e, inclinando-se com inesperada cortesia, cumprimentou-o, dizendo:
— Receba meus respeitos, senhor.
O ancião ficou tão surpreso com a aparência bela e agradável do jovem que retribuiu a saudação quase sem perceber. Em seguida, deu alguns tapinhas afetuosos na cabeça dele e perguntou:
— De onde vocês vêm?
— Viemos das Terras do Leste, dos domínios do Grande Imperador Tang — respondeu o Peregrino. — Estamos a caminho do Paraíso Ocidental em busca das escrituras sagradas. Quando ouvimos seu aviso sobre os demônios desta montanha, meu mestre ficou preocupado e me enviou para obter informações. Conte-me tudo sem demora para que eu possa expulsá-los daqui o quanto antes.

— Essa juventude é realmente muito ousada! — exclamou o ancião, dando uma gargalhada. — Não faz idéia do que está dizendo. Os poderes desses demônios são extraordinários. O que faz você acreditar que seria capaz de expulsá-los daqui?
— Pela forma como fala deles — respondeu Wukong, sorrindo —, parece até que são velhos conhecidos. Talvez sejam parentes ou vizinhos próximos. Caso contrário, não entendo por que os elogia tanto e se recusa a contar o que sabe.
— Vejo que tem uma língua afiada — respondeu o ancião, balançando a cabeça enquanto sorria. — Sem dúvida aprendeu alguns truques enquanto acompanhava o seu mestre durante suas viagens. Talvez você seja realmente capaz de lidar com fantasmas errantes ou expulsar algum espírito menor. Mas duvído que seja capaz de enfrentar criaturas tão formidáveis.
— São mesmo tão poderosas assim? — perguntou novamente o Peregrino.
— Julgue por si mesmo — respondeu o ancião. — Basta escreverem uma carta ao Espírito da Montanha para que quinhentos arhats venham imediatamente em seu auxílio. E, se isso não for suficiente, algumas linhas enviadas ao Palácio Celestial bastam para colocar em movimento os Onze Grandes Planetas. Os dragões dos Quatro Mares contam-se entre seus amigos, e os Imortais das Oito Cavernas os honram com visitas frequentes. Até os Dez Reis do Mundo Inferior os tratam como irmãos. O mesmo acontece com os deuses de todos os mosteiros e cidades, embora estes os reverenciem com respeito ainda maior.

O Grande Sábio teve que se controlar para não cair na gargalhada. Sem conseguir resistir, puxou o ancião pela manga e disse:
— Pare de contar essas histórias absurdas. Se esses sujeitos fossem meus servos, meus amigos ou tivessem jurado irmandade comigo, talvez valesse a pena levá-los a sério. Mas o que acabou de dizer não me impressiona nem um pouco. Fique sabendo de uma coisa: assim que me virem aparecer, irão embora daqui ainda hoje. Não vão esperar até amanhã, pode ter certeza.
— Você perdeu o juízo! — zombou o ancião. — E por que tanta falta de respeito com os deuses e os imortais? Desde quando eles servem a um garoto como se fosse o senhor deles?
— A verdade — respondeu o Peregrino com um sorriso — é que sou natural da Caverna da Cortina d'Água, na Montanha das Flores e Frutos, no continente de Ao-Lai. Meu nome é Sun Wukong. Há muitos anos eu mesmo era um monstro e realizei feitos que ainda hoje são lembrados com espanto. Certa vez, durante uma grande festa, bebi além da conta e perdi os sentidos. Sonhei então que dois homens me levavam para a Região das Sombras. Fiquei tão furioso que ataquei um dos juízes do mundo dos mortos com o meu bastão de ferro com pontas douradas. O próprio rei Yama quase não sabia onde se esconder, porque por pouco não destruí o Palácio das Trevas. Tremendo da cabeça aos pés, os juízes mandaram trazer pergaminhos, e os Dez Reis do Mundo Inferior registraram por escrito a promessa de que, se eu parasse de espancá-los, passariam a me servir como criados.
— Pelo nome de Amitabha! — exclamou o velho, horrorizado. — Esse monge jamais vai chegar à velhice! Que jeito absurdo de falar!

— Receio já ser velho o bastante — respondeu o Peregrino.
— É mesmo? — retrucou o ancião com ironia — E quantos anos tem?
— Tente advinhar — respondeu o Peregrino.
— Como eu poderia saber? — respondeu o ancião. — Talvez sete ou oito anos (1).
— Errou — respondeu o Peregrino. — Na verdade, tenho setenta ou oitenta mil anos. Se não se importa, posso mostrar minha verdadeira aparência. Só peço que não se assuste.
— Não me diga que você tem outro rosto! — exclamou o ancião por sua vez.
— Não apenas um, mas setenta e dois — corrigiu o Peregrino.
Consumido pela curiosidade, o ancião insistiu para que o Grande Sábio revelasse sua verdadeira forma. Sem hesitar, o Peregrino passou a mão pelo rosto e, com um leve sacudir do corpo, retomou sua aparência habitual. Com as faces encovadas, os lábios salientes, as nádegas parcialmente cobertas por uma pele de tigre e a magnífica barra de pontas douradas nas mãos, parecia a encarnação de um deus do trovão prestes a lançar um golpe devastador. Ao vê-lo, o velho perdeu toda a cor do rosto e as pernas deixaram de obedecê-lo. Incapaz de continuar de pé, caiu no chão e, por mais que tentasse, não conseguiu se levantar.

— Não tenha medo, respeitável ancião — disse o Grande Sábio, aproximando-se dele. — Posso até ser feio, mas tenho um coração honrado. Além disso, sou muito grato você nos ter avisado sobre esses demônios. Se quiser que minha gratidão seja completa, precisa me contar tudo o que sabe sobre eles.
O ancião estava tão assustado que não conseguia dizer uma única palavra. Como se isso não bastasse, fingiu-se de surdo e se recusou a responder qualquer pergunta. Percebendo que não conseguiria arrancar dele nenhuma informação, o Peregrino voltou para junto dos companheiros.
— Já voltou? — perguntou o monge Tang. — Conseguiu descobrir alguma coisa?
— A situação não é tão grave quanto parecia — respondeu o Peregrino, sorrindo. — É verdade que existem monstros por estas redondezas, mas o povo daqui é muito medro e exagera bastante sobre eles. Não há motivo para preocupação. Além disso, estou aqui, não estou?
— E descobriu o nome desta montanha? O nome da caverna? Quantos monstros vivem nela? Qual é o caminho mais curto para chegar ao Monastério do Trovão? — perguntou novamente o monge Tang.
— Não leve a mal o que vou dizer — interrompeu Bajie —, mas ninguém supera Wukong quando o assunto é se transformar, se esconder ou enganar os outros. O problema é que ele só pensa em brincadeiras e nunca leva nada a sério. Quando se trata de honestidade e sinceridade, ninguém se compara a mim.
— Tem razão — reconheceu o monge Tang. — Nesse aspecto, você realmente é mais confiável do que ele.
— Só os céus sabem por quê — disse Bajie, ainda mais animado —, mas ele simplesmente saiu correndo sem pensar duas vezes, fez algumas perguntas e voltou sem ter descoberto nada. É melhor eu mesmo ir até lá descobrir a verdade.

— Está bem, Wuneng — concordou Sanzang. — Mas tenha cuidado.
Radiante, Bajie prendeu o ancinho à cintura, arregaçou a túnica e começou a subir a encosta da montanha enquanto gritava:

Depois que o Peregrino foi embora, o ancião finalmente conseguiu se levantar com a ajuda do cajado, embora ainda tremesse como uma folha de bambu ao vento. Estava prestes a partir quando ouviu a voz de Bajie e virou a cabeça por instinto. O que viu fez desaparecer o pouco de força que ainda lhe restava.
— Céus! — exclamou, desanimado. — O que fiz para merecer um pesadelo desses? O monge que acabou de ir embora era feio, mas pelo menos ainda parecia humano. Este aqui, por outro lado, tem uma boca assustadora, orelhas enormes como leques de folha de palmeira, um rosto parecido com uma chapa de metal e um pescoço coberto de cerdas. Quem poderia dizer que isso é um ser humano?
— Pelo visto, o senhor gosta de encontrar defeitos nos outros — respondeu Bajie, sorrindo. — Mas seria melhor me olhar com mais boa vontade. Apesar da aparência, possuo qualidades extraordinárias. E, para não assustá-lo ainda mais, vou assumir uma forma um pouco mais agradável.
Ao ouvir aquelas palavras, o ancião se tranquilizou um pouco e perguntou, apenas por cortesia:
— De onde você vêm?
— Sou o segundo discípulo do Monge Tang — respondeu Bajie. — Meus nomes budistas são Wuneng e Bajie. O monge com quem o senhor conversou há pouco é meu irmão mais velho, o Peregrino Sun Wukong. A propósito, meu mestre ficou aborrecido porque ele o assustou e não conseguiu obter as informações que procurava. Foi por isso que me enviou para fazer as mesmas perguntas. Gostaríamos de saber o nome desta montanha, o nome de sua caverna, quantos monstros vivem nela e qual é o caminho mais curto para seguir rumo ao Oeste. Ficaremos muito agradecidos se puder esclarecer essas dúvidas.

— Então não querem mais nada de mim? — perguntou o ancião, surpreso.
— Nunca falei com tanta sinceridade em toda a minha vida — garantiu Bajie.
— Não está zombando de mim, como fez o outro monge? — insistiu o ancião.
— Pode ficar tranquilo. Ele e eu somos muito diferentes — afirmou Bajie.
Mais calmo, o ancião apoiou-se no cajado e explicou:
— Esta é a Cordilheira do Camelo-Leão. Ela se estende por mais de mil e seiscentos quilômetros. Aqui fica a caverna que leva o mesmo nome, habitada por três demônios dotados de poderes extraordinários.
— Acho que o senhor exagerou um pouco — opinou Bajie. — São apenas três demônios, e o senhor se deu ao trabalho de vir nos avisar sobre eles?
— Você não tem medo dos demônios? — perguntou o ancião, surpreso.
— Para falar a verdade — respondeu Bajie com visível arrogância —, meu irmão mais velho acaba com um usando seu bastão de ferro, eu cuido de outro com meu ancinho e nosso irmão mais novo derrota o terceiro com seu cajado. Depois que acabarmos com eles, o mestre não terá nenhuma dificuldade para atravessar a cordilheira. O que o senhor acha?
— Dá para perceber que ainda não conhece os poderes desses três demônios — respondeu o ancião, sorrindo. — Além deles, há cinco mil demônios menores espalhados pelos picos do sul e outros cinco mil pelos do norte. Também existem dez mil soldados guardando a estrada do leste e mais dez mil na do oeste. Somam-se a eles cinco mil patrulheiros permanentes e outros cinco mil responsáveis pela entrada da caverna. Só aí já são mais dez mil. E isso sem contar as tropas auxiliares, encarregadas de provocar incêndios e atacar a retaguarda inimiga. No total, o exército deles reúne entre quarenta e sete e quarenta e oito mil demônios, todos identificados por placas com seus nomes e especializados em devorar qualquer ser humano que tenha a ousadia de passar por estas terras.

Bajie não quis ouvir mais nada. Tremendo da cabeça aos pés, saiu correndo pelo caminho de volta. . Ao chegar perto do monge Tang, em vez de contar o que tinha acabado de ouvir, jogou o ancinho de lado e começou a urinar.
— Pode explicar por que, em vez de contar o que descobriu, resolveu fazer suas necessidades agora? — repreendeu-o o Peregrino.
— Estou tão apavorado que acho que vou acabar me borrando também — respondeu Bajie. — Para que perder tempo conversando? O melhor é fugir enquanto ainda há tempo.
— Seu idiota! — repreendeu-o novamente Peregrino. — Você foi até lá para obter uma informação confiável e volta tomado por esse pânico sem sentido?

— E então? O que descobriu? — perguntou o mestre.
— Aquele ancião me contou que esta é a Cordilheira do Camelo-Leão — explicou Bajie — e que nela fica a caverna de mesmo nome. Lá vivem três demônios que comandam um exército de mais de quarenta e oito mil demônios, todos especialistas em devorar carne humana. Isso significa que, assim que colocarmos os pés no território deles, vamos virar comida. Por isso, acho melhor encerrar nossa viagem aqui mesmo.
— O que faremos, Wukong? — perguntou o mestre, tremendo da cabeça aos pés e com os cabelos arrepiados de medo.
— Pare de se preocupar com isso, mestre — respondeu o Peregrino. — Não é nada demais para nós. Talvez realmente existam alguns monstros mais adiante, mas, como já disse, o povo desta região é muito medroso e se deixa assustar facilmente por histórias de diabretes ferozes e exércitos incontáveis de demônios. Além disso, eu estou aqui ao seu lado.

— Não deveria falar desse jeito — retrucou Bajie. — Eu também possuo alguns poderes mágicos e, mesmo assim, estou apavorado. Não se trata de boatos. A montanha e o vale estão infestados de demônios. Não faz sentido continuar avançando!
— Está falando como um verdadeiro idiota — zombou o Peregrino, caindo na gargalhada. — É difícil acreditar que alguém consiga sentir tanto medo por causa de uma coisa dessas. Se a montanha e o vale estão realmente cheios de demônios, basta usar meu bastão de ferro para exterminá-los antes que metade da noite tenha passado.
— Deveria ter vergonha de falar assim! — repreendeu-o Bajie. — Como pretende acabar com todos eles tão rápido? Só para reuni-los em um único lugar seriam necessários pelo menos sete ou oito dias.
— E quem disse que pretendo reuni-los? — retrucou o Peregrino.
— Mesmo supondo que conseguisse capturá-los todos — continuou Bajie — e os mantivesse imóveis com magia enquanto os matava um por um, ainda assim uma noite não seria suficiente.
— E de onde surgiu essa ideia de que preciso capturá-los primeiro? — rebateu o Peregrino. — Sabe muito bem que basta erguer meu bastão de ferro e gritar: "Cresça!" para ela atingir mais de oitocentos metros de comprimento. O mesmo acontece com sua espessura. Basta um comando para que alcance mais de dois metros e meio de diâmetro. Então a girarei para o sul, esmagando os cinco mil demônios posicionados ali. Depois a moverei para o norte e os outros cinco mil terão o mesmo destino. Farei o mesmo com os do leste e os do oeste. Que importância tem se quarenta ou cinquenta mil deles acabarem reduzidos a carne moída?

— Irmão mais velho — disse Bajie, em tom de zombaria —, se for para esmagá-los rolando o bastão como quem abre massa de macarrão, talvez consiga acabar com todos até a segunda vigília da noite.
— Com poderes tão extraordinários quanto os do nosso irmão mais velho, por que sentir medo? — concluiu o Monge Sha, voltando-se para o mestre com um sorriso. — Monte novamente no cavalo e vamos seguir viagem o quanto antes.
Ao ouvir isso, o monge Tang não teve alternativa senão se acalmar e seguir o conselho dos discípulos.

Quando chegaram ao local onde haviam encontrado o ancião, porém, perceberam que ele havia desaparecido sem deixar vestígios. Isso levou o Monge Sha a refletir:
— Aquele ancião devia ser algum tipo de espírito ou monstro. Tenho certeza de que exagerou de propósito o poder desses demônios para nos assustar ainda mais.
— E como chegou a essa conclusão tão depressa? — retrucou o Peregrino. — Vou investigar pessoalmente o que está acontecendo.
Com um único salto, alcançou o topo da montanha. Observou atentamente todas as direções, mas não avistou ninguém. Ainda assim, percebeu no ar certas nuvens de energia multicoloridas e, montando em uma nuvem, seguiu na direção de onde elas pareciam vir. Não demorou para descobrir sua origem: tratava-se de Taibai Jinxing, a Estrela Dourada do Planeta Vênus. Sem perder tempo, o Peregrino lançou-se diante dele, segurou-o pelos braços e repreendeu-o, chamando-o por seu nome de batismo:
— Então era o senhor, Li Changgeng! Se tinha algo a me dizer, por que não falou claramente? Para que se disfarçar como um ancião para me confundir?

— Peço desculpas, Grande Sábio — respondeu Estrela Dourada, saudando-o com o respeito habitual. — Não foi minha intenção enganá-lo. Mas os poderes desses monstros são realmente extraordinários. Somente usando toda a sua inteligência e todas as suas habilidades de metamorfose será possível seguir adiante. Se baixar a guarda por um instante, a continuação da jornada se tornará extremamente difícil.
— Agradeço a preocupação — respondeu o Peregrino. — Mas, se atravessar esta região é tão complicado assim, talvez fosse melhor subir aos Céus e pedir ao Imperador de Jade que colocasse algumas tropas celestiais à minha disposição.
— Considere isso resolvido — respondeu Estrela Dourada. — Basta que eu apresente o pedido, e cem mil guerreiros celestiais estarão prontos para obedecer às suas ordens.

O Peregrino então se despediu dele e voltou para junto dos companheiros, descendo das alturas.
— Aquele ancião que nos alertou sobre os perigos da montanha era, na verdade, a Estrela Dourada de Vênus — informou o Peregrino ao mestre.
— Tente alcançá-lo e pergunte se existe algum outro caminho para seguirmos viagem— pediu Sanzang, juntando as mãos na altura do peito.
— Receio que não exista atalho algum — respondeu o Peregrino. — Esta cordilheira se estende por mais de mil e seiscentos quilômetros. Como poderia encontrar um atalho, se nem mesmo sabemos qual é a sua largura?
— Como é difícil alcançar o nosso destino! — lamentou Sanzang, deixando as lágrimas escorrerem pelo rosto. — Como conseguirei prestar homenagem ao Buda desse jeito?
— Pare de chorar, por favor — disse o Peregrino. — Sempre que se entrega ao desespero, acaba perdendo a determinação. Além disso, talvez nem tudo o que ouvimos seja verdade. Muitas pessoas exageram quando querem alertar alguém. Como diz o provérbio: "Entre contar e exagerar, há pouca diferença". Desça do cavalo e descanse um pouco.
— Sobre o que você quer falar agora? — perguntou Bajie.
— Nada — respondeu o Peregrino. — Você fica aqui protegendo o mestre. O Monge Sha cuida do cavalo e da bagagem. Enquanto isso, vou explorar a cordilheira para descobrir quantos monstros realmente vivem por aqui. Tentarei capturar algum deles. Se for necessário, farei um interrogatório completo e o obrigarei a revelar tudo o que souber. Depois ordenarei que todos permaneçam dentro da caverna e não ousem atrapalhar nossa viagem. Quero que deixem o caminho livre para que o mestre possa atravessar esta região em paz. Assim todos poderão ver do que realmente sou capaz.

— Tome cuidado — foi tudo o que o Monge Sha conseguiu dizer.
— Conselhos assim servem para muito pouco! — respondeu o Peregrino, soltando uma gargalhada. — Quando eu chegar lá em cima, abrirei um caminho tão largo quanto o Grande Oceano Oriental, se for preciso. E perfurarei a montanha inteira, mesmo que todas as suas rochas sejam feitas de ferro puro.
Mal havia terminado de falar, quando, num pulo, alcançou o topo da montanha. Para enxergar melhor, afastou com as mãos algumas trepadeiras e videiras silvestres, mas não conseguiu descobrir o menor sinal de presença humana. Isso o fez resmungar em voz alta:
— Acho que cometi um erro ao deixar aquele velho Estrela Dourada ir embora. Tenho quase certeza de que só queria me assustar. Se realmente existissem monstros por aqui, já teriam aparecido para cavalgar o vento, brandir suas armas ou exibir suas habilidades marciais. Como é possível que não se ouça sequer um...
O Peregrino não conseguiu terminar a frase. Naquele exato instante, ouviu do outro lado da montanha o som seco e ritmado de duas tabuletas de madeira sendo batidas uma contra a outra. Virou-se rapidamente e avistou um pequeno demônio carregando um estandarte sobre o ombro. Nele estava escrito o caractere que significava "comando". O pequeno demônio usava um cinturão de couro apertado à cintura e batia sem parar em uma espécie de gongo de madeira, enquanto se deslocava a toda velocidade de norte a sul.

O Peregrino observou-o com atenção e calculou que ele devia medir cerca de quatro metros de altura. Sorrindo, comentou consigo mesmo:
— Deve ser algum mensageiro. Melhor me aproximar dele e descobrir o que está resmungando.
Mal teve esse pensamento, fez um sinal mágico com os dedos e, depois de sacudir levemente o corpo e recitar o feitiço correspondente, transformou-se numa mosca. Assim, aproximou-se facilmente do demônio e pousou suavemente sobre o seu gorro para ouvir melhor o que dizia. Assim que entrou na estrada principal, sem parar de bater as tabuletas de madeira, o demônio começou a murmurar mecanicamente, como alguém recitando uma ordem decorada:
— Todos os que estiverem patrulhando a montanha devem redobrar a vigilância contra aquele chamado Peregrino Sun. Ele é capaz de se transformar até mesmo em uma simples mosca.
— Então eles sabem quem eu sou — pensou o Peregrino, realmente impressionado. — Caso contrário, como conheceriam meu nome e saberiam que posso me transformar em um inseto?
Mas o demônio não o tinha visto. Estava apenas repetindo as ordens que ouvira dos próprios monstros. O Peregrino, naturalmente, não sabia disso. Convencido de que sua presença havia sido descoberta, preparou-se para eliminá-lo imediatamente. Antes, porém, de desferir o golpe, refletiu:
— Lembro que o Estrela Dourada disse a Bajie que havia três demônios chefes e cerca de quarenta e sete ou quarenta e oito mil pequenos demônios. Se esses pequenos demônios forem todos como este, mais quarenta mil não farão diferença nenhuma. O que realmente importa agora é descobrir o quanto aqueles três demônios chefes são poderosos. Antes de acabar com este demônio, acho melhor arrancar algumas informações dele.
O Peregrino então abandonou o gorro do demônio e pousou em uma árvore, deixando que ele se afastasse alguns passos. Em seguida, transformou-se rapidamente em outro pequeno demônio, usando roupas iguais às dele.Também batia um chocalho, sacudia um sino, carregava uma bandeira e murmurava as mesmas palavras. A única diferença era que era alguns centímetros mais alto que o outro. Antes de alcançá-lo, levantou a voz e disse:
— Ei, você aí na frente! Espere por mim!
— De onde você veio? — perguntou o pequeno demônio, virando a cabeça.

— Como assim, de onde vim? — respondeu o Peregrino com um sorriso. — Já nem reconhece alguém da própria família?
— Sinto muito, mas nunca vi você antes — respondeu o pequeno demônio.
— Você ficou louco? — repreendeu-o o Peregrino. — Olhe direito para mim.
— O que que que eu diga? — insistiu o demônio. — Seu rosto não me parece familiar.
— Claro que não — respondeu o Peregrino. — Quase nunca me vê por aqui, pois pertenço ao grupo responsável por provocar incêndios e preparar emboscadas.
— Não, não! Isso não é verdade! — protestou o demônio, balançando a cabeça. — Nenhum dos encarregados dessas tarefas tem uma boca tão pontuda.
— Ah, então é isso... — pensou o Peregrino. — Estou com o focinho muito pontudo. Ainda bem que isso é fácil de resolver — e, abaixando a cabeça, esfregou a boca sem fazer alarde, e acrescentou em voz alta:
— Do que está falando? Quem tem boca pontuda?
O defeito havia desaparecido completamente, mas o demônio continuou desconfiado:
— Agora está normal, mas há pouco não estava. Como conseguiu mudar tão rápido? Foi algum truque, não tenho dúvida. Você não faz parte do nosso grupo! Se fizesse, eu já teria visto antes. Além disso, nossos senhores não misturam funções. Quem cuida dos incêndios só cuida dos incêndios, e quem patrulha a montanha só patrulha a montanha. Nunca colocariam alguém encarregado do fogo para realizar outra missão!
Felizmente, o Peregrino tinha uma boa lábia e respondeu sem hesitar:
— Dá para ver que ainda não ficou sabendo da novidade. Fui promovido depois que nossos senhores perceberam como eu era eficiente com as chamas. Foram eles mesmos que me encarregaram de sair em patrulha pela montanha.
— Está bem — concedeu o demônio. — Existem dez grupos encarregados de patrulhar o território. Cada grupo tem quarenta membros de diferentes idades. Para evitar confusões sobre identidade e posição, nossos senhores distribuíram placas com todas essas informações. Será que pode mostrar a sua?

O Peregrino havia conseguido copiar apenas aquilo que estava visível: as roupas, os trejeitos, a maneira de falar e a aparência do demônio. Como nunca tinha visto uma dessas placas, não fazia ideia de como eram. Mas, em vez de admitir que não tinha uma, inverteu a pergunta e disse:
— Ora essa! Não acha que está desconfiando demais de mim? É claro que tenho uma placa, e novinha em folha. Mas por que não mostra a sua primeiro? Assim acabamos logo com essa história.
Sem perceber que estava caindo numa armadilha, o demônio enfiou a mão por dentro da roupa e retirou uma placa laqueada de cor dourada, presa por um cordão de algodão. Na frente estava gravada a inscrição: “A serviço de todos os demônios”. No verso, podia-se ler claramente: “Pequeno Cortador de Ventos”.

Ao ver a placa, o Peregrino pensou:
— Então todos os que patrulham a montanha recebem o título de Cortador de Ventos.
E acrescentou em voz alta:
— Muito bem. Agora guarde a sua placa e dê uma olhada na minha.
Enquanto o pequeno demônio guardava a sua placa e ajeitava suas vestes, o Peregrino virou discretamente a cabeça para o lado, arrancou um pequeno fio de pelo da cauda, esfregou-o entre os dedos e sussurou:
— Transforme-se!
No mesmo instante, o pelo se converteu numa réplica perfeita da placa que o dêmonio havia acabado de mostrar. A única diferença estava em sua inscrição. Na placa do Peregrino lia-se: “Chefe dos Cortadores de Vento”.
Assim que o demônio a viu, franziu a testa e perguntou, cada vez mais desconfiado:
— Como pode se chamar “Chefe dos Cortadores de Ventos”, se todos os patrulheiros recebem exatamente o mesmo título de “Cortadores de Ventos”?

Apesar de agir impulsivamente, o Peregrino sempre avaliava com cuidado as consequências de tudo o que dizia. Sua maior arma era a astúcia, e ele sabia exatamente como usá-la. Por isso, respondeu em tom zombeteiro:
— Sua memória não anda muito boa. Acabei de explicar que nossos senhores ficaram tão impressionados com minha habilidade para provocar incêndios que me nomearam comandante de todas as patrulhas da montanha. Foi por isso que recebi esta nova placa. Como acabou de ler, meu título agora é “Chefe dos Cortadores de Vento”. Aliás, sou justamente o responsável pelo grupo ao qual você pertence.
Ao ouvir isso, o demônio se curvou apressadamente e balbuciou, nervoso:
— Espero não ter ofendido o capitão com minhas dúvidas. Perdoe minha ignorância, mas os soldados quase nunca têm contato com seus superiores. Foi por isso que não consegui reconhecê-lo.

— Não tem importância — respondeu o Peregrino, retribuindo a saudação. — Mas gostaria que cada integrante da patrulha me oferecesse, como demonstração de lealdade, cinco onças de prata.
— Por que tanta pressa, capitão? — perguntou o demônio. — Posso entregar quando me reunir ao restante da patrulha. Todos estão destacados na região sul da cordilheira. Acho que seria melhor entregarmos tudo de uma só vez.
— Nesse caso — concluiu o Peregrino —, é melhor que eu vá com você.
O demônio deu de ombros e seguiu na frente, enquanto o Grande Sábio o acompanhava alguns passos atrás.

Depois de percorrerem vários quilômetros, chegaram a um pico conhecido como Pincel de Escrever, chamado assim porque, embora tivesse entre cento e vinte e cento e cinquenta metros de altura, era tão estreito e reto que lembrava um pincel de caligrafia pendurado pela ponta. Assim que chegaram ao topo, o Peregrino escalou até o ponto mais alto usando a própria cauda e gritou:
— Aproximem-se, Cortadores de Vento!
— Às ordens, capitão! — responderam os demônios, reunindo-se imediatamente e inclinando a cabeça com respeito.
— Alguém sabe por que nossos soberanos me enviaram até aqui? — perguntou o Peregrino, mantendo o mesmo tom autoritário.
— Não, capitão! — responderam os demônios em coro.
— Como todos sabem — explicou o Peregrino —, nossos soberanos desejam devorar o monge Tang. Porém, estão preocupados com os imensos poderes mágicos do Peregrino Sun. Segundo eles, ele domina a arte da metamorfose e pode muito bem se transformar em um Cortador de Vento para se infiltrar em nossas fileiras e descobrir nossos planos. Foi por isso que me nomearam Chefe dos Cortadores de Vento e me encarregaram de verificar se existe algum infiltrado entre vocês.

— Somos todos verdadeiros, capitão! — gritaram em coro os Cortadores de Vento ali reunidos.
— Nesse caso — prosseguiu o Peregrino —, quem pode explicar que tipo de poderes os nossos soberanos possuem?
— Muito bem — concluiu o Peregrino. —Então fale imediatamente. Se a sua explicação estiver correta, ficará provado que você realmente pertence às nossas fileiras. Mas, se cometer o menor erro, será considerado um impostor e levado diante dos soberanos para receber a punição que eles julgarem adequada.
Ao ver o falso comandante sentado no ponto mais alto do pico, cercado pelos símbolos de autoridade, o pequeno Cortador de Vento sentiu-se intimidado e respondeu, hesitante:
— O mais velho dos nossos soberanos possui poderes mágicos tão vastos que certa vez engoliu mais de cem mil soldados celestiais de uma só vez.
— Sou verdadeiro, capitão! — protestou, aterrorizado, o pequeno Cortador de Vento. — Como pode dizer uma coisa dessas?
— Se fosse mesmo quem diz ser — replicou o Peregrino — , não contaria uma história tão absurda. Qual teria de ser o tamanho do nosso soberano para engolir mais de cem mil soldados celestiais de uma vez?
— É estranho que o capitão não conheça esse feito — respondeu o demônio, tentando se defender. — Nosso soberano possui poderes de metamorfose tão extraordinários que pode tanto alcançar o Palácio Celestial quanto se transformar em uma semente minúscula. Houve uma ocasião em que Wang-Mu-Niang-Niang esqueceu de convidá-lo para o Festival dos Pêssegos Imortais. Furioso, ele declarou guerra aos Céus. O Imperador de Jade enviou contra ele cem mil soldados celestiais, mas nosso soberano fez sua boca crescer até ficar tão grande quanto os portões de uma cidade. Ao vê-lo avançar, os guerreiros entraram em pânico e fecharam os Portões do Sul dos Céus sem sequer ousar enfrentá-lo. Foi isso que quis dizer quando afirmei que ele engoliu mais de cem mil soldados celestiais de uma só vez.

— Se isso for verdade — pensou o Peregrino, sorrindo —, eu também seria capaz de realizar uma façanha dessas.
Então acrescentou em voz alta:
— Muito bem. E quem pode falar sobre os poderes do nosso segundo soberano?
— Eu! — respondeu outro Cortador de Vento. — Ele mede quase cem metros de altura. Tem sobrancelhas parecidas com bichos-da-seda, olhos de fênix, voz suave como a de uma mulher e dentes compridos como remos. Seu nariz lembra o focinho de um dragão. Quando enfrenta um inimigo, basta enrolar esse nariz em torno do corpo do adversário, como uma serpente. Mesmo que seja feito de ferro ou aço,o seu alvo morre num piscar de olhos.

— Também não parece que será muito difícil capturar um monstro com um focinho desses — pensou o Peregrino, satisfeito.
Erguendo novamente a voz, perguntou:
— E quais são os extraordinários poderes do nosso terceiro soberano?
— Na verdade — respondeu imediatamente outro Cortador de Vento —, ele nem sequer é um monstro comum deste mundo mortal. Seu nome é Peng das Dez Mil Milhas de Nuvens (2). Quando se move, agita os ventos e enfurece os mares. Por isso domina o norte e governa o sul com mão de ferro. Além disso, possui uma arma terrível chamada Jarro da Dupla Força do Yin e do Yang. Qualquer infeliz aprisionado dentro dele será transformado em líquido em menos de três quartos de hora.

Ao ouvir isso, o Peregrino sentiu um calafrio e pensou:
— Esse monstro não me assusta, mas é melhor tomar certas precauções em relação a esse jarro. Pelo que vejo — acrescentou, erguendo a voz —, todos conhecem tão bem quanto eu os poderes dos nossos soberanos. Mas qual deles deseja com mais fervor devorar o monge Tang?
— O quê? O capitão não sabe disso? — exclamou, surpreso, outro pequeno Cortador de Vento.
— Sei muito melhor do que qualquer um aqui, seu inútil! — repreendeu o Peregrino, perdendo a paciência. — A questão é que talvez alguns de vocês não saibam. Foi por esse motivo que fui enviado aqui, para fazer uma investigação completa.
— O primeiro e o segundo soberanos — explicou então o pequeno Cortador de Vento — estabeleceram-se na Caverna do Camelo-Leão há muito tempo. O terceiro, porém, veio de um lugar situado a oitocentos quilômetros a oeste daqui, uma cidade conhecida como Reino do Camelo-Leão.

Cerca de quinhentos anos atrás, ele se rebelou, devorou o rei, todos os seus funcionários civis e militares e também os habitantes que se recusaram a aceitar sua autoridade, sem fazer distinção de idade, sexo ou posição social. Aqueles que se submeteram voluntariamente foram transformados em monstros. Não sei quando ele ficou sabendo que o Grande Imperador dos Tang, governante de um reino nas Terras do Leste, havia encarregado um dos mais virtuosos monges da história de viajar ao Paraíso Ocidental em busca das escrituras sagradas. O que posso afirmar é que sempre soube que o monge Tang é uma pessoa extraordinária, alguém que cultivou a virtude durante dez reencarnações consecutivas. Por isso, sua carne adquiriu um poder especial: quem a consumir jamais envelhecerá e desfrutará da vida eterna. O problema é que ele viaja acompanhado por um tal Peregrino Sun, considerado um guerreiro invencível. Nosso terceiro soberano teme especialmente esse adversário. Foi justamente por esse motivo que fez um pacto de irmandade com os outros dois. Afinal, todos sabem que aquilo que um sozinho não consegue realizar, três podem alcançar juntos. Como poderiam fracassar na captura do monge Tang trabalhando em união?

— Malditos monstros! Como podem ser tão atrevidos? Estou protegendo o Monge Tang para que ele cumpra sua missão e alcance o verdadeiro fruto espiritual. Como ousam planejar devorar o meu protegido?
O Peregrino ficou tão furioso que rangeu os dentes, sacou o bastão de ferro e saltou do alto pico. Em questão de instantes, esmagou as cabeças de todos aqueles infelizes demônios, transformando-as numa massa informe de carne.

Logo depois, porém, arrependeu-se do que havia feito e murmurou, descontente consigo mesmo:
— Droga! Como fui capaz de matá-los depois de terem revelado de boa vontade tudo o que sabiam sobre seus senhores? Enfim, agora já não há como voltar atrás.
Pobre Grande Sábio! Muitas vezes, para defender a honra de seu mestre, via-se obrigado a cometer atos como aquele. Percebendo que lamentar-se não resolveria nada, arrancou dos cadáveres as placas de identificação e pendurou-as no próprio pescoço. Em seguida, pegou o estandarte e o colocou sobre os ombros. Também recolheu os dois pedaços de madeira que o primeiro demônio usava para marcar o ritmo durante suas patrulhas. Com tudo preparado, voltou-se para o vento, recitou um encantamento e sacudiu levemente o corpo. No mesmo instante, transformou-se numa réplica perfeita de um Cortador de Vento.

Ninguém seria capaz de notar a diferença. Então retomou o caminho por onde havia vindo, decidido a encontrar a caverna onde moravam os três monstros e descobrir mais informações sobre eles. Não havia dúvida de que o Belo Rei dos Macacos dominava milhares de formas de metamorfose e conhecia todos os segredos dos dez mil tipos diferentes de transformações. Suas habilidades eram realmente extraordinárias. Sem perder tempo, avançou pela montanha seguindo a mesma rota percorrida anteriormente pelo demônio. Não demorou para ouvir uma grande agitação misturando gritos, relinchos de cavalos e o ruído de armas. Erguendo os olhos, percebeu que toda aquela confusão vinha da ampla esplanada diante da entrada da Caverna do Camelo-Leão. Ali estavam reunidos inúmeros demônios armados com cimitarras, lanças, arcos e machados de lâmina dupla, enquanto bandeiras e estandartes tremulavam sem parar ao vento.
Encantado ao ver tudo aquilo, o Peregrino pensou:
— Então o Estrela Dourada falava realmente a verdade!

De fato, a disposição das tropas correspondia exatamente à descrição feita pelo imortal. Os soldados estavam organizados em colunas de duzentos e cinquenta combatentes, cada uma identificada por um estandarte de cor diferente. Como havia quarenta estandartes ao todo, o Peregrino concluiu imediatamente que aquele exército era formado por dez mil soldados.
— Não tenho nada a temer — disse o Peregrino consigo mesmo, refletindo sobre os passos a seguir. — Me transformei num pequeno Cortador de Vento e ninguém vai se atrever a me barrar. Acho que, de qualquer forma, assim que me virem, os demônios vão querer saber como foi a patrulha. Espero não cometer nenhum erro, porque isso pode custar a vida. Como vou conseguir escapar com todas aquelas forças posicionadas na porta? Está claro que, se quero pegar esses monstros dentro da caverna, primeiro preciso me livrar desse batalhão de demônios. Mas como fazer isso?
Após pensar cuidadosamente, chegou a uma conclusão:
— Embora esses demônios nunca tenham visto meu rosto, certamente conhecem minhas façanhas. Isso me dá certa vantagem. Talvez seja uma boa ideia exibir meus poderes para abalar sua confiança e meter um pouco de medo neles. Ainda assim, tudo depende do destino. Se aqueles por quem empreendemos uma jornada tão arriscada forem realmente dignos de receber as escrituras sagradas, bastará um susto para que esses monstros desapareçam como neblina diante do sol. Caso contrário, mesmo que eu fale até flores de lótus brotarem por toda parte, jamais conseguirei dispersá-los.
Questionando a si mesmo e pesando cada possibilidade, o Peregrino começou a bater os dois pedaços de madeira e caminhou com firmeza em direção à entrada da Caverna do Camelo-Leão. Ao vê-lo, os demônios reunidos na entrada perguntaram:
Mas o Peregrino não respondeu. Apenas baixou a cabeça e continuou andando tranquilamente.

Ao chegar ao segundo portão, outro grupo de demônios veio ao seu encontro e perguntou novamente:
— Sim — respondeu o Peregrino.
— Encontrei, sim — respondeu o Peregrino. — Neste exato momento ele está limpando seu temível bastão de ferro.

— E como ele é? Que tipo de bastão é esse que ele estava limpando? — quiseram saber imediatamente os demônios, tremendo da cabeça aos pés.
— Quando o vi — respondeu o Peregrino —, ele estava agachado à beira de um riacho. Mesmo assim, foi possível perceber que parecia a encarnação de um deus do trovão. Depois se levantou e, para meu espanto, tinha mais de trezentos metros de altura. Nas mãos carregava um bastão de ferro tão grosso quanto uma tigela de arroz. Em seguida começou a brincar com a água enquanto acariciava aquela arma terrível e dizia: “Meu querdio bastão de ferro, faz tanto tempo que não preciso usar seus poderes incomparáveis. Mas não se preocupe. Finalmente chegou a hora de acabar com todos esses demônios. Que importância tem serem cem mil, se um único golpe seu pode destruir cem vezes mais? E ainda vou reservar para você aqueles três monstros que os comandam e oferecê-los como sacrifício.” Tenho certeza de que, assim que terminar de limpar sua preciosa arma, virá para cá e começará eliminando os dez mil demônios posicionados diante da entrada.
Ao ouvirem isso, todos começaram a tremer. Era como se seus corações tivessem parado de bater, a coragem os tivesse abandonado e seus espíritos estivessem derretendo como gelo sob o sol.
— Há outra coisa que precisa ser levada em consideração — continuou o Peregrino. — A carne do monge Tang não é tão abundante assim. Mesmo que fosse cortada em pedaços minúsculos, dificilmente daria para todos. Então, por que correr o risco de enfrentar os golpes daquele bastão terrível? Não seria muito mais sensato que cada um seguisse seu próprio caminho?
Na verdade, todos aqueles demônios não passavam de lobos, tigres, leopardos e outras feras semelhantes. Bastou soltarem um rugido para que recuperassem suas formas originais e corressem em todas as direções, tentando escapar como podiam. Assim, algumas poucas palavras do Grande Sábio Sun produziram o mesmo efeito das antigas canções de Chu (3), que certa vez conseguiram dispersar um exército de mais de oito mil guerreiros.

Satisfeito com o resultado, o Peregrino pensou:
— Extraordinário! Esses demônios não passam de covardes. Se algumas palavras bastaram para fazê-los fugir, nem consigo imaginar o que aconteceria caso me encontrassem pessoalmente. Agora preciso agir com ainda mais cautela. Se não usar lá dentro exatamente o mesmo discurso que usei aqui, os dois ou três que correram para o interior da caverna poderão desmascarar meu disfarce com facilidade.
Com a coragem e a imprudência que sempre o caracterizaram, o Peregrino dirigiu-se então para o terceiro portão da Caverna do Camelo-Leão. Por enquanto, não se sabe se ele saiu vitorioso ou derrotado de seu encontro com os demônios. Quem quiser descobrir o que aconteceu quando os monstros finalmente o viram deverá prestar atenção às explicações que serão dadas no próximo capítulo.
Jornada ao Oeste
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Notas do Capítulo LXXIV
- Embora fosse comum encontrar monges que ainda não haviam deixado a infância para trás, essas afirmações não devem ser tomadas ao pé da letra. Elas procuram apenas destacar, em tom de zombaria, a extrema juventude do suposto mendicante;
- Em chinês 云程万里鹏 (Yúnchéng Wànlǐ Péng);
- “As canções de Chu” fazem referência ao episódio do Shi Ji em que Liu Bang começou a cantar melodias daquela região, sabendo que a maior parte dos soldados de Xiang Yu era nativa dali. Ao ouvi-las, eles foram tomados por tamanha saudade de casa que abandonaram as armas e voltaram às pressas para o lugar onde haviam nascido.

- Tradução em pt-br por Rodrigo Viany (Sleipnir). Favor não utilizar sem permissão.
- Tradução baseada na tradução do chinês para o espanhol feitas por Enrique P. Gatón e Imelda Huang-Wang, e do chinês para o inglês feita por Collinson Fair.
fontes consultadas para a pesquisa:
A Jornada ao Oeste: Capítulo LXXIV


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