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| Arte de Vlada (Arnaerr) |
Ferônia (em latim: Feronia) era uma antiga deusa itálica, venerada principalmente na Itália central antes de seu culto ser incorporado à religião romana. Ela é conhecida por textos gregos e latinos, inscrições, moedas e vestígios arqueológicos. Como essas evidências pertencem a regiões e períodos diferentes, as características atribuídas à deusa variavam de acordo com o local e a época.
Origem e características
Ferônia é geralmente considerada uma divindade de provável origem sabina. O escritor romano Varrão incluiu seu nome entre os deuses introduzidos em Roma pelos sabinos, e vários de seus locais de culto estavam situados em áreas ocupadas ou influenciadas por esse povo. A deusa também era venerada por comunidades capenates, faliscas, volscas e latinas, e seu culto se espalhou posteriormente por outras regiões da península Itálica.
A origem de seu nome permanece incerta. Uma das interpretações mais conhecidas, proposta por Georges Dumézil, relaciona-o ao termo latino ferus, que pode significar “selvagem”, “agreste” ou “não cultivado”. Essa explicação estaria de acordo com a presença frequente de seus santuários em bosques, fontes e áreas afastadas dos centros urbanos. Outras propostas aproximam seu nome de termos relacionados aos mortos ou de antigas divindades da natureza, mas essas relações não podem ser demonstradas com segurança.
Ferônia estava especialmente associada a bosques sagrados, fontes e paisagens naturais. Algumas evidências também indicam ligações com a agricultura, a fertilidade do solo e a abundância. Seus santuários podiam funcionar como locais de reunião e comércio, nos quais habitantes de diferentes regiões participavam de cerimônias, feiras e trocas de mercadorias.

Centros de culto
Lucus Feroniae, situado no antigo território de Capena, próximo ao monte Soratte, foi o principal centro conhecido do culto de Ferônia. Seu nome significa “Bosque de Ferônia”. As escavações arqueológicas encontraram materiais que demonstram a utilização religiosa do local desde o período arcaico, anterior à expansão de Roma pela região.
Além de santuário, Lucus Feroniae tornou-se um importante mercado frequentado por diferentes populações da Itália central. O local acumulou riquezas consideráveis e foi saqueado pelo exército de Aníbal em 211 a.C. Durante o período romano, uma cidade desenvolveu-se nas proximidades do antigo recinto sagrado.
Outros centros dedicados à deusa existiam em Trebula Mutuesca, Amiternum, Praeneste e Terracina. Inscrições com seu nome também foram encontradas em cidades situadas ao longo das rotas romanas, como Pisaurum, Ariminum e Aquileia. A expansão do culto parece ter acompanhado deslocamentos populacionais, fundações coloniais e o desenvolvimento das estradas romanas.
Em Terracina, o santuário de Ferônia ficava próximo à Via Ápia e a uma fonte mencionada pelo poeta Horácio. A deusa era venerada na mesma região que Júpiter Ânxuro, uma forma juvenil de Júpiter associada à cidade. Sérvio, comentarista da Eneida que escreveu na Antiguidade tardia, identifica a Ferônia de Terracina como Iuno Virgo, “Juno Virgem”. Essa identificação parece refletir uma tradição religiosa local e não significa que Ferônia fosse considerada uma forma de Juno em todos os lugares onde era cultuada.

Ferônia e os libertos
Uma das características mais bem documentadas de Ferônia é sua relação com escravos libertos e pessoas de origem servil. Tito Lívio relata que, em 217 a.C., mulheres libertas contribuíram com dinheiro para uma oferenda destinada ao templo da deusa. Inscrições encontradas em Lucus Feroniae e em outros locais também foram dedicadas por pessoas que haviam sido escravizadas ou pertenciam a famílias de origem servil. Esses registros indicam que o culto possuía importância particular entre indivíduos que haviam passado da escravidão para a condição de libertos.
Sérvio afirma ainda que no santuário de Terracina existia um assento de pedra com uma inscrição segundo a qual escravos considerados merecedores poderiam sentar-se nele e levantar-se livres. Embora esse relato seja tardio, ele mostra que Ferônia era lembrada como uma divindade relacionada à libertação de escravos.
Inscrições de Lucus Feroniae também mencionam as Mulieres Feronienses, expressão que significa “mulheres de Ferônia”. Elas provavelmente formavam um grupo ligado à comunidade ou às atividades religiosas do santuário, mas sua função e sua condição social exatas são desconhecidas.
O monte Soratte e o ritual do fogo
O geógrafo grego Estrabão relata que, durante uma celebração anual realizada no recinto de Ferônia próximo ao monte Soratte, pessoas consideradas inspiradas pela deusa caminhavam descalças sobre brasas e cinzas sem sofrer queimaduras. Plínio, o Velho, apresenta uma versão diferente. Segundo ele, o ritual era realizado por famílias faliscas conhecidas como Hirpi durante um sacrifício dedicado a Apolo. Outros autores relacionam os Hirpi a Soranus, uma divindade local posteriormente identificada com Apolo e conhecida como Apolo Sorano.
As diferenças entre esses relatos não permitem determinar com segurança se a travessia do fogo pertencia originalmente ao culto de Ferônia, ao de Soranus ou a uma celebração que envolvia ambos. A proximidade entre o bosque de Ferônia e o monte consagrado a Soranus provavelmente contribuiu para a associação entre as duas divindades.
Ferônia na Eneida
Ferônia é mencionada duas vezes na Eneida, de Virgílio. No Livro VII, seus bosques aparecem entre as regiões da Itália que fornecem guerreiros para o exército de Turno, adversário do herói troiano Eneias. No Livro VIII, Ferônia é apresentada como mãe de Érulo, um rei associado a Praeneste. Segundo Evandro, a deusa concedeu ao filho três vidas e armas tríplices. Por essa razão, ele precisou ser derrotado três vezes.
Culto em Roma e representações
Ferônia possuía culto em Roma pelo menos desde o período republicano. Seu nome aparece no calendário dos Irmãos Arvais, um antigo colégio sacerdotal romano, na data de 13 de novembro. O chamado templo C da Área Sagrada do Largo Argentina é frequentemente identificado como o templo romano de Ferônia.
A deusa também foi representada em moedas emitidas durante o governo de Augusto por Públio Petrônio Turpiliano. Nessas peças, Ferônia aparece de perfil, usando um colar e um diadema decorado com frutos ou bagas. A escolha da deusa pode estar relacionada às origens sabinas da família do magistrado responsável pela emissão.
Recepção posterior
Ferônia foi retomada em obras literárias e registros folclóricos posteriores. No final do século XIX, o folclorista norte-americano Charles Godfrey Leland publicou um relato toscano sobre uma personagem chamada Ferônia, descrita como uma strega-folletta, expressão italiana que designa um espírito com características de bruxa.
Segundo o relato, Ferônia percorria o campo pedindo esmolas, recompensava as pessoas generosas e castigava aquelas que se recusavam a ajudá-la. O registro demonstra que uma personagem com esse nome circulava nas tradições recolhidas ou apresentadas por Leland. Entretanto, não existem evidências suficientes para comprovar uma transmissão contínua entre essa figura folclórica e o antigo culto itálico.
Ferônia também aparece na Feroniade, poema inacabado de Vincenzo Monti. Na obra, ela é transformada em uma ninfa amada por Júpiter, cujo reino é destruído pela ação de Juno e posteriormente restaurado. O poema relaciona sua história aos trabalhos de drenagem das áreas pantanosas do sul do Lácio realizados durante o pontificado de Pio VI.

fontes:
- Di Fazio, Massimiliano. Feronia: The Role of an Italic Goddess in the Process of Cultural Integration in Republican Italy. Disponível em: <https://www.academia.edu/1587689/Feronia_The_Role_of_an_Italic_Goddess_in_the_Process_of_Integration_of_Cultures_in_Republican_Italy>;
- Ministero della Cultura. Antiquarium e Area archeologica di Lucus Feroniae. Disponível em: <https://cultura.gov.it/luogo/antiquarium-e-area-archeologica-di-lucus-feroniae>;
- Sovrintendenza Capitolina ai Beni Culturali. Area Sacra di Largo Argentina. Disponível em: <https://www.sovraintendenzaroma.it/i_luoghi/roma_antica/aree_archeologiche/area_sacra_di_largo_argentina>;
- Estrabão. Geography, Book V. Disponível em: <https://penelope.uchicago.edu/thayer/e/roman/texts/strabo/5b%2A.html>;
- Virgílio. Aeneid. Disponível em: https://topostext.org/work/245
- Tito Lívio. The History of Rome, Book 22. Disponível em: <https://www.yorku.ca/pswarney/Texts/livy-22.htm>;
- British Museum. Silver Denarius Depicting Feronia. Disponível em: <https://www.britishmuseum.org/collection/object/C_1843-0116-930>;
- Treccani. Feronia. Disponível em: <https://www.treccani.it/enciclopedia/feronia_%28Enciclopedia-dell%27Arte-Antica%29/>;
- Leland, Charles Godfrey. Etruscan Roman Remains in Popular Tradition: Feronia. Disponível em: <https://sacred-texts.com/pag/err/err06.htm>.
Ferônia

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