19 de julho de 2026

Ferônia

۞ ADM Sleipnir

Arte de Vlada (Arnaerr)

Ferônia (em latim: Feronia) era uma antiga deusa itálica, venerada principalmente na Itália central antes de seu culto ser incorporado à religião romana. Ela é conhecida por textos gregos e latinos, inscrições, moedas e vestígios arqueológicos. Como essas evidências pertencem a regiões e períodos diferentes, as características atribuídas à deusa variavam de acordo com o local e a época.

Origem e características

Ferônia é geralmente considerada uma divindade de provável origem sabina. O escritor romano Varrão incluiu seu nome entre os deuses introduzidos em Roma pelos sabinos, e vários de seus locais de culto estavam situados em áreas ocupadas ou influenciadas por esse povo. A deusa também era venerada por comunidades capenates, faliscas, volscas e latinas, e seu culto se espalhou posteriormente por outras regiões da península Itálica.

A origem de seu nome permanece incerta. Uma das interpretações mais conhecidas, proposta por Georges Dumézil, relaciona-o ao termo latino ferus, que pode significar “selvagem”, “agreste” ou “não cultivado”. Essa explicação estaria de acordo com a presença frequente de seus santuários em bosques, fontes e áreas afastadas dos centros urbanos. Outras propostas aproximam seu nome de termos relacionados aos mortos ou de antigas divindades da natureza, mas essas relações não podem ser demonstradas com segurança.

Ferônia estava especialmente associada a bosques sagrados, fontes e paisagens naturais. Algumas evidências também indicam ligações com a agricultura, a fertilidade do solo e a abundância. Seus santuários podiam funcionar como locais de reunião e comércio, nos quais habitantes de diferentes regiões participavam de cerimônias, feiras e trocas de mercadorias.


Centros de culto

Lucus Feroniae, situado no antigo território de Capena, próximo ao monte Soratte, foi o principal centro conhecido do culto de Ferônia. Seu nome significa “Bosque de Ferônia”. As escavações arqueológicas encontraram materiais que demonstram a utilização religiosa do local desde o período arcaico, anterior à expansão de Roma pela região.

Além de santuário, Lucus Feroniae tornou-se um importante mercado frequentado por diferentes populações da Itália central. O local acumulou riquezas consideráveis e foi saqueado pelo exército de Aníbal em 211 a.C. Durante o período romano, uma cidade desenvolveu-se nas proximidades do antigo recinto sagrado.

Outros centros dedicados à deusa existiam em Trebula Mutuesca, Amiternum, Praeneste e Terracina. Inscrições com seu nome também foram encontradas em cidades situadas ao longo das rotas romanas, como Pisaurum, Ariminum e Aquileia. A expansão do culto parece ter acompanhado deslocamentos populacionais, fundações coloniais e o desenvolvimento das estradas romanas.

Em Terracina, o santuário de Ferônia ficava próximo à Via Ápia e a uma fonte mencionada pelo poeta Horácio. A deusa era venerada na mesma região que Júpiter Ânxuro, uma forma juvenil de Júpiter associada à cidade. Sérvio, comentarista da Eneida que escreveu na Antiguidade tardia, identifica a Ferônia de Terracina como Iuno Virgo, “Juno Virgem”. Essa identificação parece refletir uma tradição religiosa local e não significa que Ferônia fosse considerada uma forma de Juno em todos os lugares onde era cultuada.


Ferônia e os libertos

Uma das características mais bem documentadas de Ferônia é sua relação com escravos libertos e pessoas de origem servil. Tito Lívio relata que, em 217 a.C., mulheres libertas contribuíram com dinheiro para uma oferenda destinada ao templo da deusa. Inscrições encontradas em Lucus Feroniae e em outros locais também foram dedicadas por pessoas que haviam sido escravizadas ou pertenciam a famílias de origem servil. Esses registros indicam que o culto possuía importância particular entre indivíduos que haviam passado da escravidão para a condição de libertos.

Sérvio afirma ainda que no santuário de Terracina existia um assento de pedra com uma inscrição segundo a qual escravos considerados merecedores poderiam sentar-se nele e levantar-se livres. Embora esse relato seja tardio, ele mostra que Ferônia era lembrada como uma divindade relacionada à libertação de escravos.

Inscrições de Lucus Feroniae também mencionam as Mulieres Feronienses, expressão que significa “mulheres de Ferônia”. Elas provavelmente formavam um grupo ligado à comunidade ou às atividades religiosas do santuário, mas sua função e sua condição social exatas são desconhecidas.

O monte Soratte e o ritual do fogo

O geógrafo grego Estrabão relata que, durante uma celebração anual realizada no recinto de Ferônia próximo ao monte Soratte, pessoas consideradas inspiradas pela deusa caminhavam descalças sobre brasas e cinzas sem sofrer queimaduras. Plínio, o Velho, apresenta uma versão diferente. Segundo ele, o ritual era realizado por famílias faliscas conhecidas como Hirpi durante um sacrifício dedicado a Apolo. Outros autores relacionam os Hirpi a Soranus, uma divindade local posteriormente identificada com Apolo e conhecida como Apolo Sorano.

As diferenças entre esses relatos não permitem determinar com segurança se a travessia do fogo pertencia originalmente ao culto de Ferônia, ao de Soranus ou a uma celebração que envolvia ambos. A proximidade entre o bosque de Ferônia e o monte consagrado a Soranus provavelmente contribuiu para a associação entre as duas divindades.

Ferônia na Eneida

Ferônia é mencionada duas vezes na Eneida, de Virgílio. No Livro VII, seus bosques aparecem entre as regiões da Itália que fornecem guerreiros para o exército de Turno, adversário do herói troiano EneiasNo Livro VIII, Ferônia é apresentada como mãe de Érulo, um rei associado a Praeneste. Segundo Evandro, a deusa concedeu ao filho três vidas e armas tríplices. Por essa razão, ele precisou ser derrotado três vezes.

Culto em Roma e representações

Ferônia possuía culto em Roma pelo menos desde o período republicano. Seu nome aparece no calendário dos Irmãos Arvais, um antigo colégio sacerdotal romano, na data de 13 de novembro. O chamado templo C da Área Sagrada do Largo Argentina é frequentemente identificado como o templo romano de Ferônia. 

A deusa também foi representada em moedas emitidas durante o governo de Augusto por Públio Petrônio Turpiliano. Nessas peças, Ferônia aparece de perfil, usando um colar e um diadema decorado com frutos ou bagas. A escolha da deusa pode estar relacionada às origens sabinas da família do magistrado responsável pela emissão.



Recepção posterior

Ferônia foi retomada em obras literárias e registros folclóricos posteriores. No final do século XIX, o folclorista norte-americano Charles Godfrey Leland publicou um relato toscano sobre uma personagem chamada Ferônia, descrita como uma strega-folletta, expressão italiana que designa um espírito com características de bruxa.

Segundo o relato, Ferônia percorria o campo pedindo esmolas, recompensava as pessoas generosas e castigava aquelas que se recusavam a ajudá-la. O registro demonstra que uma personagem com esse nome circulava nas tradições recolhidas ou apresentadas por Leland. Entretanto, não existem evidências suficientes para comprovar uma transmissão contínua entre essa figura folclórica e o antigo culto itálico.

Ferônia também aparece na Feroniade, poema inacabado de Vincenzo Monti. Na obra, ela é transformada em uma ninfa amada por Júpiter, cujo reino é destruído pela ação de Juno e posteriormente restaurado. O poema relaciona sua história aos trabalhos de drenagem das áreas pantanosas do sul do Lácio realizados durante o pontificado de Pio VI.


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4 de julho de 2026

Glycon

۞ ADM Sleipnir

Imagem: CristianChirita / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.

Glycon, também grafado Glykon, foi uma divindade-serpente venerada no mundo greco-romano durante o século II d.C. Seu culto ficou associado a Alexandre de Abonoteico, profeta ativo na Paflagônia, região da Ásia Menor. A principal fonte literária sobre Glycon é a obra  Alexandre, ou o Falso Profeta, de Luciano de Samósata, autor que descreve Alexandre de forma satírica e hostil. Além do relato de Luciano, moedas, inscrições e achados arqueológicos indicam que o culto teve existência histórica e alcançou certa difusão no mundo romano.



Origem do culto

Segundo Luciano, Alexandre anunciou a chegada de uma nova manifestação de Asclépio, deus associado à cura. A aparição teria sido encenada com uma pequena serpente escondida em um ovo de ganso, apresentada ao público como o nascimento do deus. Mais tarde, Alexandre teria exibido uma grande serpente adquirida na Macedônia, combinada com uma cabeça artificial de aparência humana. Dessa forma, Glycon foi apresentado como uma serpente divina com traços humanos, ligada à cura, à profecia e à autoridade religiosa de Alexandre.

O culto de Glycon se desenvolveu em Abonoteico, cidade que mais tarde passou a ser conhecida como Ionópolis. Diferentemente de alguns santuários tradicionais de Asclépio, voltados principalmente para cura e incubação ritual, o centro de Glycon destacou-se sobretudo como oráculo. Pessoas consultavam o deus sobre doenças, futuro, decisões pessoais e questões políticas. Luciano acusa Alexandre de manipular essas consultas e de usar recursos mecânicos para fazer parecer que o próprio deus respondia aos fiéis.

Difusão no mundo romano

Apesar do tom crítico de Luciano, o culto alcançou notoriedade fora de Abonoteico. No século II, há indícios de que fórmulas atribuídas ao oráculo de Glycon foram usadas contra a peste, em contexto compatível com a peste antonina. O culto também atraiu pessoas de posição elevada, como Públio Múmio Sisena Rutiliano, governador romano mencionado por Luciano como protetor do oráculo e genro de Alexandre.

Moedas provinciais, inscrições e pequenas imagens indicam que a veneração de Glycon se espalhou por diferentes regiões do mundo romano, especialmente entre áreas ligadas ao Danúbio, ao Mar Negro e à Ásia Menor. Essas evidências mostram que o culto sobreviveu à morte de Alexandre, ocorrida por volta de 170 d.C., e permaneceu ativo pelo menos até o século III.

A estátua de Tomis

Uma das representações mais conhecidas atribuídas a Glycon é a estátua de mármore encontrada em 1962 em Constanța, antiga Tomis, na atual Romênia. A peça, datada do fim do século II ou início do século III d.C., representa uma serpente com cabeça humana e integra o conjunto conhecido como Tesouro de Esculturas de Tomis, preservado pelo Museu de História Nacional e Arqueologia de Constanța.


Cultura Popular

Na cultura moderna, Glycon aparece principalmente em referências ligadas ao ocultismo contemporâneo e à cultura geek. O escritor britânico Alan Moore declarou interesse pela divindade e passou a tratá-la de forma simbólica e irônica em sua prática mágica. Glycon também aparece ligado ao projeto The Moon and Serpent Bumper Book of Magic, obra de Alan Moore e Steve Moore sobre magia e ocultismo, que inclui uma narrativa relacionada a Alexandre de Abonoteico e ao deus-serpente.

Nos jogos eletrônicos, o nome Glykon aparece em Destiny 2, na nave Glykon Volatus, cenário da missão Presage. Já em Marvel Contest of Champions, o personagem Glykhan, líder da organização Ouroboros, tem seu nome inspirado em Glycon. 

Glykhan (Marvel Contest of Champions)


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1 de junho de 2026

Terminus

۞ ADM Sleipnir

"Terminus, the Device of Erasmus" (c. 1532), arte de Hans Holbein the Younger

Terminus era o deus romano das fronteiras, dos limites territoriais e dos marcos que separavam propriedades. Seu nome deriva diretamente da palavra latina terminus, usada para designar pedras de demarcação. Mais do que simples marcos físicos, essas pedras eram consideradas sagradas e protegidas pela própria divindade, refletindo a enorme importância que os romanos davam à estabilidade das fronteiras e ao respeito pela propriedade.

O culto de Terminus estava intimamente ligado à preservação da ordem social. Remover ou deslocar uma pedra de limite era visto não apenas como um crime, mas também como um sacrilégio. Nas tradições mais antigas, acreditava-se que quem cometesse esse ato seria amaldiçoado e poderia até ser morto. Com o passar do tempo, a punição foi substituída por multas e sanções legais, mas o caráter sagrado dos marcos permaneceu.

Origem e culto

Autores antigos afirmavam que o culto de Terminus teria sido introduzido em Roma durante o período monárquico, possivelmente sob o reinado de Rômulo ou de Numa Pompílio. A tradição atribuía a Numa a intenção de evitar conflitos violentos entre proprietários de terra, estabelecendo limites sagrados protegidos por uma divindade.

As pedras de fronteira eram consagradas em rituais específicos. Durante a cerimônia, colocavam-se no solo oferendas como vinho, grãos, mel e o sangue de animais sacrificados. Depois, o marco era fixado sobre esse depósito ritual. A pedra passava então a representar a presença do próprio Terminus.

Diferentemente de muitos deuses romanos, Terminus não possuía uma mitologia extensa nem grandes narrativas heroicas. Seu culto estava ligado principalmente ao ritual e à função prática de garantir a estabilidade das divisões territoriais. Por isso, muitos estudiosos consideram Terminus um exemplo de antigas crenças romanas associadas diretamente a objetos sagrados e forças protetoras da natureza e da sociedade.

Representação do deus Terminus como um marco de pedra que delimita terras e propriedades. Da obra Mitologia da Juventude, de Pierre Blanchard, 1803.

Terminalia

A principal celebração dedicada a Terminus era a Terminalia, realizada todos os anos em 23 de fevereiro, data que em antigos calendários romanos também marcava o fim do ano.

Durante o festival, famílias vizinhas reuniam-se junto às pedras que delimitavam suas propriedades. Cada grupo decorava seu lado do marco com guirlandas e fazia oferendas de bolos, grãos, favos de mel e vinho. Em seguida, sacrificava-se um cordeiro ou um porco, e o sangue era derramado sobre a pedra sagrada. Após os rituais, aconteciam banquetes comunitários e cantos em honra ao deus.

Terminus e Júpiter

O deus também possuía uma ligação importante com Júpiter, a principal divindade romana. Segundo a tradição, quando o grande Templo de Júpiter Optimus Maximus foi construído no Monte Capitolino, todos os antigos santuários presentes no local aceitaram ser removidos, exceto o de Terminus. Isso foi interpretado como um sinal de que as fronteiras e o poder de Roma seriam permanentes.

Por causa dessa associação, Terminus às vezes era identificado como um aspecto de Júpiter sob o nome de Jupiter Terminalis. Dentro do templo havia uma pedra sagrada ligada ao deus, e um pequeno espaço aberto no teto permitia que ela permanecesse exposta ao céu, conforme exigia a tradição religiosa.

Interpretações modernas

Estudiosos modernos frequentemente interpretam Terminus como uma sobrevivência de antigas formas de religiosidade animista, nas quais objetos naturais ou elementos da paisagem possuíam poder sagrado próprio. Outros pesquisadores relacionam o deus a tradições indo-europeias mais antigas ligadas à divisão justa de terras e propriedades.

Mesmo sem possuir grandes mitos ou aventuras épicas, Terminus ocupava um papel importante na mentalidade romana. Ele representava a estabilidade, a ordem legal e o respeito pelos limites estabelecidos — valores fundamentais para a organização da sociedade romana.

Na arte europeia

O nome “Terminus” também passou a ser usado na arte e arquitetura europeias para designar um tipo de suporte decorativo semelhante a uma pilastra, geralmente afunilado e terminado em bustos ou figuras humanas. Inspiradas nos antigos marcos romanos e frequentemente associadas ao deus Hermes, essas estruturas tornaram-se populares em jardins, móveis e construções renascentistas e rococós.

Escultura em terracota representando o deus romano Terminus, protetor dos marcos que delimitavam terras e propriedades. A obra, criada por um artista desconhecido entre 1548 e 1550 para o Château d’Oiron, na França, integra atualmente o acervo do Museu do Louvre.



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23 de março de 2026

Júpiter

۞ ADM Sleipnir

Arte de Thor

Júpiter (em latim: Iuppiter), também chamado Jove (Iovis), era o deus supremo da religião e da mitologia romana. Senhor do céu, do trovão e do relâmpago, ele era considerado o rei dos deuses e o principal protetor do Estado romano. Sua autoridade abrangia tanto os fenômenos naturais quanto a ordem política, os juramentos, as leis e a guerra. Como divindade central do panteão romano, Júpiter era o principal garante da pax deorum (“paz dos deuses”), princípio segundo o qual a prosperidade de Roma dependia da correta observância dos rituais religiosos.

Embora amplamente identificado com o deus grego Zeus por meio do processo conhecido como interpretatio romana, Júpiter possuía características próprias. Enquanto Zeus é frequentemente retratado na mitologia grega como uma figura dramática e profundamente antropomórfica, envolvida em numerosos episódios narrativos, Júpiter era concebido pelos romanos sobretudo como uma divindade solene e institucional, associada à autoridade, à justiça e à estabilidade do Estado.

"Júpiter Entronizado", pintura de Heinrich Friedrich Füger,  


Etimologia e origens

O nome Iuppiter deriva de uma antiga forma indo-europeia reconstruída como Dyēus-pater, que significa “Pai Céu” ou “Pai Celeste”. No latim arcaico, a forma vocativa Iou combinada com pater (“pai”) originou o nome do deus. Essa etimologia reflete sua origem como divindade do céu diurno e da luz celeste, um conceito compartilhado por diversas tradições religiosas indo-europeias.

Nos estágios mais antigos da religião romana, Júpiter fazia parte de uma tríade arcaica composta por ele próprio, Marte (o deus da guerra) e Quirino ( o lendário fundador de Roma deificado). Essa tríade refletia aspectos fundamentais da sociedade romana primitiva: a soberania divina, o poder militar e a organização cívica da comunidade. Com o desenvolvimento político de Roma e a formação da República, essa estrutura religiosa foi reformulada e deu origem à chamada Tríade Capitolina, composta por Júpiter, Juno e Minerva. Essa tríade tornou-se o núcleo da religião pública romana e simbolizava a autoridade divina que legitimava o Estado.

Tríade Capitolina (Minerva (esq.), Júpiter (centro) e Juno (dir.))

Genealogia

A genealogia de Júpiter foi em grande parte assimilada da tradição mitológica grega. Segundo essa tradição, ele era filho de Saturno e Ops, divindades associadas ao tempo, à fertilidade e à abundância. Entre seus irmãos figuravam importantes deuses do panteão romano, como Netuno, soberano dos mares, Plutão, governante do mundo subterrâneo, além de Juno, Ceres e Vesta.

Sua consorte principal era Juno, considerada rainha dos deuses. À semelhança de Zeus na mitologia grega, Júpiter também foi associado a numerosas uniões com deusas, ninfas e mortais, das quais nasceram diversas divindades e heróis. Entre seus filhos mais conhecidos estão Minerva, deusa da sabedoria, Marte, deus da guerra, Vulcano, deus do fogo e da metalurgia, além de Diana e Apolo. Entre seus descendentes mortais mais famosos estava o herói Hércules, cuja força extraordinária e os célebres doze trabalhos se tornaram um dos temas mais conhecidos da mitologia clássica.

Atributos e iconografia

Na arte e na iconografia romana, Júpiter era geralmente representado como um homem maduro e majestoso, de barba espessa e aparência imponente, sentado em um trono que simbolizava sua supremacia sobre o cosmos. Em suas mãos frequentemente apareciam os símbolos de sua autoridade divina, especialmente o raio e o cetro, que representava sua soberania.

Outro símbolo intimamente associado ao deus era a águia, considerada sua ave sagrada. A presença da águia nas representações de Júpiter simbolizava tanto o domínio do céu quanto a ligação entre o deus e o poder imperial romano. Com o tempo, essa ave tornou-se também um importante símbolo militar e político de Roma.

Arte de laclillac

Culto e religião

A religião romana possuía um caráter essencialmente público e estatal, e Júpiter ocupava o centro dessa estrutura religiosa. Ele era considerado o guardião dos juramentos, tratados e alianças, sendo invocado em decisões políticas, acordos diplomáticos e campanhas militares. Nenhuma declaração de guerra era considerada legítima sem que os ritos apropriados fossem realizados para garantir seu favor. Seu título mais importante era Iuppiter Optimus Maximus, expressão que significa “Júpiter, o Melhor e o Maior”. Esse epíteto refletia sua posição suprema no panteão romano e enfatizava seu papel como protetor máximo do Estado.

O principal centro de seu culto era o Templo de Júpiter Optimus Maximus, situado no Capitólio de Roma. Esse templo era considerado o mais importante da cidade e simbolizava a ligação entre a autoridade divina e o poder político romano. Além de abrigar a estátua cultual do deus, o templo também guardava os chamados Livros Sibilinos, uma coleção de oráculos consultados pelo Senado em momentos de grave crise.

Entre as cerimônias mais importantes dedicadas ao deus estava o triunfo, a procissão solene concedida aos generais romanos vitoriosos. Durante essa cerimônia, o general desfilava pelas ruas da cidade em uma carruagem puxada por quatro cavalos brancos, vestido com trajes que evocavam a própria divindade. Ao chegar ao Capitólio, ele oferecia sacrifícios a Júpiter e dedicava parte do espólio da guerra ao deus, agradecendo pela vitória.

Templo de Júpiter Optimus Maximus

Júpiter na tradição histórica romana

Nas narrativas lendárias relacionadas aos reis de Roma, Júpiter aparece frequentemente como uma figura que legitima o poder político e reforça a importância da correta observância dos ritos religiosos. Um exemplo célebre envolve o rei Numa Pompílio, tradicionalmente considerado o fundador das instituições religiosas romanas. Segundo a tradição, Numa teria conseguido invocar uma manifestação do deus conhecida como Iuppiter Elicius, persuadindo-o a revelar rituais capazes de prever ou apaziguar os relâmpagos, o que explicaria a origem de certos ritos destinados a evitar a ira divina.

Outra narrativa tradicional refere-se ao rei Tulo Hostílio. De acordo com a lenda, ele tentou realizar um ritual secreto para convocar Júpiter, mas o fez de maneira incorreta. Como punição, o deus lançou um raio que destruiu sua casa e provocou sua morte, episódio que servia como advertência sobre a necessidade de respeitar rigorosamente os ritos religiosos.

Relação com Zeus

A partir do intenso contato cultural entre romanos e gregos, especialmente durante o período helenístico, Júpiter foi progressivamente identificado com Zeus. Como resultado, muitos mitos originalmente associados ao deus grego passaram a ser atribuídos também à divindade romana, incluindo episódios como a guerra contra os Titãs, a divisão do universo entre os irmãos e o nascimento de Minerva a partir da cabeça do próprio deus.

Apesar dessa assimilação mitológica, a religião romana permaneceu mais orientada para a prática ritual e para o culto público do que para a elaboração de narrativas mitológicas complexas, o que explica a relativa escassez de mitos originalmente romanos sobre Júpiter.

“Júpiter lança seus raios contra os gigantes rebeldes”, por Johann Michael Rottmayr (c. 1654–1730).

Declínio do culto

Durante o período imperial, o culto de Júpiter continuou sendo um dos pilares da religião romana, mas enfrentou gradualmente a concorrência de novas formas de religiosidade. O desenvolvimento do culto imperial, que divinizava os imperadores, e a popularidade de cultos orientais introduzidos em Roma alteraram o panorama religioso do império.

A transformação mais profunda ocorreu com a ascensão do cristianismo. Com o Édito de Tessalônica, que estabeleceu o cristianismo como religião oficial do Império Romano, os cultos tradicionais foram progressivamente abandonados ou proibidos. A partir desse período, Júpiter deixou de ser objeto de veneração religiosa e passou a integrar principalmente o domínio da mitologia clássica.

Legado

Apesar do desaparecimento de seu culto, a figura de Júpiter permaneceu profundamente enraizada na cultura ocidental. Seu nome foi dado ao planeta Júpiter, o maior do Sistema Solar, em referência à sua posição dominante entre os deuses.

Além disso, a palavra “jovial” deriva de Jovis, uma das formas latinas associadas a Júpiter, refletindo antigas crenças astrológicas segundo as quais o planeta exerceria uma influência benéfica sobre o temperamento humano. Na arte, na literatura e na cultura popular modernas, Júpiter continua a aparecer como símbolo de poder, soberania e autoridade divina, preservando o legado da principal divindade do panteão romano.

Arte de Oleh Yolchiiev


fontes:

  • WIKIPEDIA CONTRIBUTORS. Jupiter. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Jupiter_(god)>;
  • Jupiter (mythology) - New World Encyclopedia. Disponível em: <https://www.newworldencyclopedia.org/entry/Jupiter_(mythology)>;
  • DALY, K. N.; RENGEL, M. Greek and Roman mythology, A to Z. New York: Chelsea House Publishers, 2009.


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3 de janeiro de 2026

Cloacina

۞ ADM Sleipnir


Cloacina (em latim Cloācīna, “A Purificadora”, do verbo cluo, “limpar”, do qual deriva também cloaca, “esgoto” ou “dreno”) era uma deusa da Roma Antiga associada à purificação e à higiene ritual. Ela presidia a Cloaca Maxima (“Grande Dreno” em latim), o principal canal do sistema de esgotos de Roma. Segundo a tradição, a Cloaca Máxima teria sido iniciada durante o reinado de Tarquínio Prisco, um dos reis etruscos de Roma, e concluída por Tarquínio, o Soberbo, também de origem etrusca. Em razão disso, é possível que Cloacina tenha sido originalmente uma divindade etrusca posteriormente assimilada ao panteão romano.

De acordo com um dos mitos fundacionais de Roma, Tito Tácio, rei dos sabinos, teria erguido uma estátua em honra a Cloacina no local onde romanos e sabinos se reuniram para selar a paz após o episódio conhecido como o rapto das mulheres sabinas. Nesse contexto, Tácio instituiu o casamento legal entre sabinos e romanos, unificando-os como um único povo sob o governo conjunto dele próprio e de Rômulo, o fundador de Roma.


A reconciliação entre sabinos e romanos foi marcada por um ritual de purificação com murta, realizado em ou nas proximidades de um antigo santuário etrusco dedicado a Cloacina, situado acima de um pequeno curso d’água que mais tarde seria ampliado e integrado à Cloaca Máxima. Como a murta era um dos símbolos de Vênus, deusa associada à união, à paz e à reconciliação, Cloacina passou a ser identificada como Vênus Cloacina (Venus Cloacina, “Vênus, a Purificadora”). Nessa forma sincrética, atribuía-se-lhe também a função de purificar as relações sexuais dentro do casamento.

Culto e representações

O pequeno santuário circular de Vênus Cloacina localizava-se em frente à Basílica Emília, no Fórum Romano, diretamente acima da Cloaca Máxima. Algumas moedas romanas trazem representações desse santuário. As imagens mais nítidas mostram duas figuras femininas, presumivelmente divinas, cada uma acompanhada por um pássaro pousado sobre uma coluna. Uma das figuras segura um pequeno objeto, possivelmente uma flor. Tanto pássaros quanto flores eram símbolos associados a Vênus, entre outras divindades, e essas figuras podem representar os dois aspectos complementares da divindade sincrética Cloacina–Vênus.

Santuário de Vênus Cloacina


fontes:

  • WIKIPEDIA CONTRIBUTORS. Cloacina. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Cloacina>;
  • DALY, K. N.; RENGEL, M. Greek and Roman mythology, A to Z. New York: Chelsea House Publishers, 2009.


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2 de setembro de 2025

Mefitis

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Mefitis (ou Mephitis, em italiano Mefite) era uma deusa menor da mitologia romana, associada aos gases venenosos que emergiam do subsolo, especialmente em pântanos, nascentes sulfurosas e regiões vulcânicas. Sua origem antecede o período romano, remontando às crenças dos povos Samnitas e Oscos, que habitavam o centro e o sul da Itália.

Inicialmente, Mefitis pode ter sido uma divindade ligada às águas subterrâneas, como fontes termais ou nascentes. No entanto, o caráter tóxico de muitas dessas fontes — que exalavam vapores de enxofre e outros gases nocivos — fez com que sua figura passasse a ser associada às exalações perigosas da terra. Nesse contexto, ela assumiu o papel de protetora contra os males causados por tais vapores, incluindo doenças, pragas e danos materiais.

Com o tempo, sua função protetora expandiu-se, e Mefitis passou a ser conhecida como uma deusa das pragas, mantendo também vínculos com o mundo ctônico (subterrâneo), sendo relacionada a outras divindades infernais.

Rosto da deusa Mefitis, fragmento de bronze armazenado no 
Museo Archeologico Nazionale della Basilicata (Museu Arqueológico Nacional da Basilicata), em Potenza.


O nome italiano mefite refere-se a fumarolas ou fissuras naturais por onde escapam gases tóxicos. Dessa raiz derivam o adjetivo “mefítico” — usado para descrever odores desagradáveis ou venenosos — e o nome da família de animais Mephitidae, à qual pertencem os gambás, conhecidos pelo forte cheiro que exalam.

A geografia vulcânica da Itália reforçava a relevância do culto a Mefitis. Vulcões como o Vesúvio, o Etna e o Stromboli, com suas constantes atividades e emissões de gases sulfurosos, alimentavam a crença popular na deusa como guardiã contra os perigos do subsolo. O exemplo mais emblemático é o Vesúvio, cuja erupção em 79 d.C. destruiu as cidades de Pompeia e Herculano.

O principal santuário dedicado a Mefitis localizava-se em Ampsanctus (atualmente na região da Campânia), próximo a um lago cujas exalações eram notoriamente pestilentas. Além desse, havia templos em sua honra nas cidades de Cremona e em Roma, no monte Esquilino.


fontes:
  • DALY, K. N.; RENGEL, M. Greek and Roman mythology, A to Z. New York: Chelsea House Publishers, 2009.
  • WIKIPEDIA CONTRIBUTORS. Mefitis. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Mefitis>.

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24 de janeiro de 2024

Sumano

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Sumano (em latim: Summānus) era o deus romano dos trovões noturnos, em contraposto a Júpiter, o deus dos trovões diurnos. Acredita-se que seu nome tem origem no termo Summus Manium "o maior dos Manes"(Manes, para os antigos romanos, refere-se  à almas deificadas de ancestrais já falecidos) ou  em Submanus, "sob mão". 

Um deus, várias interpretações

A natureza exata de Sumano não era clara, nem mesmo para o grande poeta Ovídio. O historiador Plínio acreditava que ele era uma divindade de origem etrusca, e um dos Novensiles (um grupo composto por nove deuses do trovão). O escolar Marcus Terentius Varro, no entanto, lista Sumano entre os deuses que ele considera de origem sabina, a quem o rei Titus Tatius dedicou altares (arae) em consequência de um votum (uma promessa feita a divindade). Paulus Diaconus (Paulo, o Diácono) o considerava um deus do relâmpago.

Para o escritor Martianus Capella, Sumano era outro nome para Plutão como o "mais alto" (summus) dos Manes. Essa identificação foi retomada por escritores posteriores, como Camões ("Se no reino sombrio de Summanus / Agora suportas a mais severa punição...") e Milton, em uma comparação para descrever Satanás visitando Roma: "Assim Summanus, envolto em um redemoinho de chamas azuis, cai sobre pessoas e cidades." Georges Dumézil argumentou que Sumano representaria o elemento estranho, violento e impressionante dos deuses da primeira função, ligados à soberania celestial. O aspecto duplo do poder soberano celestial seria refletido na dicotomia Varuna-Mitra na religião védica e em Roma na dicotomia Summanus-Dius Fidius. Os primeiros deuses desses pares incorporariam o aspecto violento, noturno e misterioso da soberania, enquanto os segundos refletiriam seu aspecto tranquilizador, diurno e legalista.

Templo e Culto 

O templo de Sumano foi erguido durante a Guerra Pírrica, (280–275 a.C.). Ele ficava localizado a oeste do Circo Máximo (latim Circus Maximus), provavelmente na encosta do monte Aventino. A cada 20 de junho, véspera do solstício de verão, bolos redondos chamados summanalia, feitos de farinha, leite e mel e moldados como rodas, eram oferecidos a ele como um sinal de propiciação. Sumano também recebia o sacrifício de dois bois pretos ou carneiros (animais escuros eram normalmente oferecidos a divindades ctônicas).

O teólogo Agostinho de Hipona registrou que, em tempos antigos, Sumano era mais exaltado do que Júpiter, mas com a construção de um templo mais magnífico do que o de Sumano, Júpiter tornou-se mais honrado. 

Cícero relata que uma estátua de argila do deus que ficava no telhado do Templo de Júpiter Capitolino foi atingida por um raio, o qual arrancou sua cabeça. Os harúspices anunciaram que ela havia sido atirada no rio Tibre, onde de fato acabou sendo encontrada. O templo de Sumano em si foi atingido por um raio em 197 a.C.

O Monte Sumano

O Monte Sumano, localizado nos Alpes perto de Vicenza (Veneto, Itália), é tradicionalmente considerado um local dos cultos de Plutão, Júpiter Summanus e os Manes. A área foi um dos últimos redutos da antiga religião romana na Itália, como mostrado pelo fato de que Vicenza não teve bispo até 590 d.C. Escavações arqueológicas encontraram um espaço de santuário que remonta à Idade do Ferro (século IX a.C.) e foi continuamente ativo até a antiguidade tardia (pelo menos no século IV d.C.). A flora local é muito peculiar, porque era costume, nos tempos antigos, que os peregrinos trouxessem oferendas de flores de suas próprias terras natais. O cume da montanha é frequentemente atingido por raios. A montanha em si tem uma profunda gruta chamada Bocca Lorenza, na qual, segundo a lenda local, uma jovem pastora se perdeu e desapareceu. A história pode ser uma adaptação do mito de Proserpina, que foi abduzida por Plutão.

Monte Sumano

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27 de junho de 2023

Fornax

۞ ADM Sleipnir

Arte de Justin Oaksford

Fornax era na mitologia romana a deusa do forno de pão (fornax), ou padroeira do processo de cozimento do pão. Ela era uma espécie de personificação do forno, e garantia que o calor do mesmo não esquentasse além do suficiente para cozer o milho ou o pão. Alguns autores consideram Fornax o mesmo que a deusa Vesta.

Um antigo festival chamado Fornacalia era celebrado em honra à Fornax no  dia 17 de fevereiro entre as trinta cúrias, as divisões mais antigas da cidade criadas pelo mitológico Rômulo das três tribos originais de Roma: Ramnes, Tities e Luceres. A Fornacalia era o segundo de dois festivais envolvendo as cúrias, sendo o outro o Fordicidia, que ocorria em 19 de abril. A deusa provavelmente foi concebida para explicar o festival, que foi instituído para brindar o espelta usado para assar bolos sacrificiais. 

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20 de abril de 2023

Dis Pater

۞ ADM Sleipnir


Dis Pater (também conhecido como Rex Infernus ou mesmo Plutão) é um deus romano do submundo, originalmente associado a terras agrícolas férteis e riqueza mineral. Uma vez que essa riqueza mineral é na sua maior parte oriunda do subsolo, eventualmente Dis Pater se tornou associado ao submundo e também à morte e, por consequência, associado e confundido com outras divindades ctônicas, principalmente Plutão (grego Hades) e Orco. Ao ser confundido com Plutão, Dis Pater acabou assumindo alguns dos atributos mitológicos do mesmo, sendo considerado um dos filhos de Saturno (grego Cronos) e Ops (grego Réia), juntamente com Júpiter (grego Zeus) e Netuno (grego Poseidon). Ele governou o submundo e os mortos ao lado de sua esposa, Proserpina (grego Perséfone). 

Na literatura, o nome de Dis Pater era comumente usado como uma forma simbólica e poética de se referir à própria morte. Seu nome era comumente abreviado para Dis, e desde então esse nome se tornou um nome alternativo para o submundo ou uma parte do submundo, como a Cidade de Dis da Divina Comédia de Dante, que compreende o Inferno Inferior.

Outras associações

Dis Pater às vezes era identificado com o deus sabino Sorano.  Júlio César, em seus Comentários sobre as Guerras da Gália ( VI :18), afirma que todos os gauleses reivindicavam descendência de Dis Pater. Este é um exemplo de interpretatio romana: o que César quis dizer é que todos os gauleses reivindicavam descendência de um deus gaulês que ele igualava ao Dis Pater romano.

Um escólio na Farsáliapoema épico escrito pelo poeta latino Lucano,  iguala Dis Pater a Taranis, o deus gaulês do trovão. No sul da Alemanha e nos Bálcãs, Aericura era considerada uma consorte de Dis Pater. 

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6 de dezembro de 2022

Lares e Penates

۞ ADM Sleipnir

Arte de Feles85

Os Lares e os Penates eram dois grupos de divindades pertencentes à mitologia romana, tidos como protetores da família e do estado romano. Embora fossem diferentes, os dois eram frequentemente identificados e confundidos um com o outro, além de serem adorados juntos em santuários domésticos.

Lares

Os Lares eram considerados espíritos dos antepassados, e cria-se que atuavam como protetores das casas, encruzilhadas e da cidade. Cada família romana tinha seu próprio guardião, conhecido como Lar familiaris, para proteger a casa e garantir que a linhagem familiar não morresse. Todas as manhãs, os romanos rezavam e faziam oferendas a uma imagem do Lar familiaris mantida em um santuário familiar. Divindades conhecidas como Lares compitales, que guardavam encruzilhadas e bairros, eram homenageadas quatro vezes por ano em um festival chamado Compitalia. Outro grupo de divindades, os Lares praestites, serviram como guardiões da cidade de Roma. Existiam outros tipos de Lares como os Lares rurales (guardiões dos campos), Lares viales (guardiões das estradas), Lares permarini (guardiões dos marinheiros), entre muitos outros.

Lares eram comumente representados como jovens dançando de túnica, com um copo de chifre (rhyton) em uma mão e uma taça (patera) na outra, muitas vezes ainda, acompanhados por serpentes fálicas simbólicas.


Penates

Os Penates (formalmente chamados de Di Penates) foram originalmente honrados como deuses da despensa, mas acabaram se tornando guardiões de toda a casa. Eles eram associados à Vesta, a deusa romana da lareira (equivalente à grega Héstia). A principal função dos Penates era garantir o bem-estar e a prosperidade da família. Cada casa tinha um santuário com imagens deles que eram cultuados na refeição da família e em ocasiões especiais. As ofertas eram de porções da refeição regular ou de bolos especiais, vinho, mel, incenso e, mais raramente, um sacrifício de sangue.

O Penates público, ou Penates publici, servia como guardião do Estado e como objeto do patriotismo romano. Segundo a lenda, eles já foram os deuses domésticos de Enéias, o ancestral mítico do povo romano.


Penates na Eneida

Na página 72, no meio do segundo parágrafo da Eneida de Virgílio, Enéas diz: "Agora você, Pai, tome os deuses de nossa casa ancestral, nossos símbolos sagrados. Não posso tocá-los sem pecado, até que eu lave minhas mãos em uma fonte viva, pois vindo direto da fúria da guerra, ainda tenho sangue fresco nelas.

Nesse trecho, Enéias esclarece a importância dos deuses domésticos para a família romana, pois ele até se refere a eles como "nossos símbolos sagrados ". Mesmo com o caos da queda de Tróia ao seu redor, Enéias e Anquises têm o cuidado de reunir os deuses e trazê-los durante sua fuga da cidade moribunda. Além disso, os deuses são tão sagrados para Enéias que ele não os tocará com sangue nas mãos. Sua família, como as outras famílias romanas, tinha muito respeito e reverência a esses deuses domésticos.

"Enéias fugindo de Tróia", pintura de Federico Barocci. Detalhe para Anquises trazendo em suas mãos  esculturas dos dois Penates da família.

fontes:
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