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Os Centzonhuitznahua (também grafado como Centzonuitznaua e Centzonhuitznáhuah) são um grupo de seres da mitologia asteca, mais especificamente da tradição mexica. São conhecidos principalmente pelo mito do nascimento de Huitzilopochtli, no qual, liderados por sua irmã Coyolxauhqui, tentam matar sua mãe, Coatlicue, e acabam derrotados pelo deus recém-nascido.
O nome costuma ser traduzido como “Quatrocentos Meridionais” ou “Quatrocentos do Sul”. O termo náuatle centzontli significa literalmente “quatrocentos”, mas também podia indicar uma quantidade muito grande ou indeterminada. Assim, o número não precisa representar exatamente quatrocentos indivíduos. Os Centzonhuitznahua são frequentemente associados às estrelas do sul, embora essa identificação seja principalmente uma interpretação cosmológica posterior e não uma afirmação explícita da principal fonte do mito.
Nome e origem
A forma Centzonhuitznahua é uma das mais bem documentadas nas fontes coloniais e nos estudos modernos sobre o náuatle. A grafia Centzon Huitznauhtin também aparece em literatura secundária, mas é menos comum nas fontes utilizadas para estudar o grupo. A tradução de Huitznahua como referência ao sul é tradicional, porém não inteiramente segura. O termo também aparece em fontes históricas relacionado a grupos ou facções mexicas, o que torna seu significado mais complexo do que uma simples designação geográfica.
A principal versão do mito dos Centzonhuitznahua encontra-se no Livro III do Códice Florentino, elaborado no século XVI por Bernardino de Sahagún em colaboração com autores e informantes nahuas.
O nascimento de Huitzilopochtli
Segundo o Códice Florentino, Coatlicue vivia em Coatepec, a “Montanha da Serpente”, e era mãe dos Centzonhuitznahua. Coyolxauhqui era a irmã mais velha do grupo. Enquanto Coatlicue realizava atividades rituais, uma pequena bola de penas desceu sobre ela. Ela recolheu as penas e as guardou junto ao corpo. Depois que elas desapareceram, Coatlicue descobriu que estava grávida. Os Centzonhuitznahua consideraram a gravidez uma desonra. Incentivados por Coyolxauhqui, decidiram matar a própria mãe e avançaram armados contra ela em Coatepec.
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| Coyolxauhqui e os Centzonhuitznahua. Arte de El Omi dibujante |
Um deles, chamado Cuahuitlicac, tomou o partido de Huitzilopochtli e passou a informar o deus, ainda no ventre de Coatlicue, sobre a aproximação dos atacantes. Quando Coyolxauhqui e seus seguidores alcançaram o alto da montanha, Huitzilopochtli nasceu já preparado para a guerra.
A batalha de Coatepec
Huitzilopochtli enfrentou primeiro Coyolxauhqui, utilizando contra ela a sua arma, Xiuhcoatl. Ela foi decapitada, e seu corpo caiu pela encosta de Coatepec, despedaçando-se durante a queda. Em seguida, o deus atacou os Centzonhuitznahua, expulsando-os do alto da montanha e perseguindo-os ao redor de Coatepec.
Muitos foram derrotados, mas o Códice Florentino não afirma que todos os Centzonhuitznahua morreram. Alguns conseguiram escapar e fugiram para o sul. Depois da vitória, Huitzilopochtli tomou os atavios e as insígnias dos vencidos. Esse detalhe difere de versões modernas que apresentam todos os Centzonhuitznahua como mortos durante o combate.
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| Arte de Molo Niebla |
Relação com as estrelas
Os Centzonhuitznahua são frequentemente identificados como seres ligados às estrelas do sul. A partir dessa interpretação, o mito de Coatepec costuma ser entendido em termos cosmológicos, com Huitzilopochtli associado ao Sol, Coyolxauhqui à Lua e seus irmãos às estrelas. Essa leitura, porém, não aparece formulada dessa maneira no Códice Florentino. A fonte não afirma que os Centzonhuitznahua tenham se transformado em estrelas depois da batalha, nem apresenta explicitamente o combate como uma representação do Sol derrotando a Lua e as estrelas.
Da mesma forma, a versão segundo a qual a cabeça de Coyolxauhqui foi lançada ao céu e transformada na Lua não faz parte de maneira explícita do relato principal do Códice Florentino.
Outras tradições e contexto ritual
O nome Huitznahua também aparece em contextos históricos e políticos relacionados a grupos mexicas. Outras fontes coloniais, como as tradições registradas por Diego Durán e pela Crónica mexicáyotl, relacionam Huitzilopochtli, Coatepec e os Huitznahua de maneiras que não coincidem totalmente com a versão do Códice Florentino.
O mito também possuía uma dimensão ritual. Estudos sobre as cerimônias de Panquetzaliztli relacionam as celebrações de Huitzilopochtli aos acontecimentos de Coatepec. O Templo Mayor de Tenochtitlan, em seu lado dedicado a Huitzilopochtli, apresentava associações simbólicas com essa montanha mítica. No complexo arqueológico foram encontradas ainda esculturas reclinadas que o Instituto Nacional de Antropología e Historia considera possíveis representações dos Centzonhuitznahua. Algumas possuem uma abertura na região do peito onde teria sido colocada uma pedra verde interpretada como representação do coração. A identificação das esculturas, contudo, não é definitiva.
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| Esculturas porta-estandartes encontradas na Etapa III do Templo Mayor, em Tenochtitlan, interpretadas como possíveis representações dos Centzonhuitznahua. |
fontes:
- SAHAGÚN, Bernardino de; colaboradores nahuas. Florentine Codex: Book 3 — The Origin of the Gods. Getty Research Institute, Digital Florentine Codex. Disponível em: <https://florentinecodex.getty.edu/book/3/folio/1r>;
- PASTRANA FLORES, Miguel. “Paleografía y traducción del náhuatl al español de ‘Del principio que tuvieron los dioses’, párrafo primero del libro tercero del Códice florentino”. Estudios de Cultura Náhuatl, v. 50, 2015, p. 371–381. Disponível em: <https://nahuatl.historicas.unam.mx/index.php/ecn/article/download/77791/68840/228723>;
- UMBERGER, Emily. “The Metaphorical Underpinnings of Aztec History: The Case of the 1473 Civil War”. Ancient Mesoamerica, 2007. Disponível em: <https://www.cambridge.org/core/journals/ancient-mesoamerica/article/metaphorical-underpinnings-of-aztec-history/8B272418D9B612A627474A2B17DD345C>;
- MAZZETTO, Elena. “Mitos y recorridos divinos en la veintena de Panquetzaliztli”. 2019. Disponível em: <https://www.scielo.org.mx/scielo.php?pid=S0185-62862019000100046&script=sci_arttext>;
- INSTITUTO NACIONAL DE ANTROPOLOGÍA E HISTORIA. Templo Mayor. Disponível em: <https://lugares.inah.gob.mx/en/node/4463>;
- UNIVERSIDAD NACIONAL AUTÓNOMA DE MÉXICO. Gran Diccionario Náhuatl: centzontli. Disponível em: https://gdn.iib.unam.mx/diccionario/centzontli/43311.
- WOOD, Stephanie (ed.). Online Nahuatl Dictionary: Centzonhuitznahua. University of Oregon, Wired Humanities Projects. Disponível em: <https://nahuatl.wired-humanities.org/content/centzonhuitznahua>;
- DURÁN, Diego. Historia de las Indias de Nueva España y islas de Tierra Firme. Disponível em: <https://archive.org/details/historiadelasind02dur>;
- ALVARADO TEZOZÓMOC, Hernando de; CHIMALPÁIN CUAUHTLEHUANITZIN, Domingo Francisco de San Antón Muñón; FRANCO, Alonso. Crónica mexicáyotl. Edição, estudo, paleografia e tradução de Gabriel K. Kruell. México: UNAM, Instituto de Investigaciones Históricas, 2021. Disponível em: <https://historicas.unam.mx/publicaciones/publicadigital/libros/730/cronica_mexicayotl.html>.
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