31 de janeiro de 2026

Teliavelis

۞ ADM Sleipnir

Teliavelis (ou Televelis, também conhecido como Telavel, Teljavel, Kalvis, Kalvaitis, Kalvelis ou Kalējs) é um deus ferreiro da mitologia lituana e báltica. Ele é conhecido principalmente por seu papel na forja do Sol, que, segundo relatos antigos, teria sido moldado a partir de um metal incandescente e lançado ao céu, devolvendo a luz ao mundo.

Na tradição pagã lituana, Teliavelis não é um deus solar propriamente dito, mas um artesão divino associado à criação do Sol e ao poder transformador da forja. Ele aparece como auxiliar de Perkūnas, o deus do trovão, para quem fabrica objetos sagrados, como um cinto de prata e estribos de ouro destinados aos Dievo sūneliai (“filhos de Dievas”). Seu culto permaneceu ativo até aproximadamente o século XV, período da cristianização da Lituânia.

A figura de Teliavelis está intimamente ligada ao surgimento da metalurgia na região báltica, especialmente durante a Idade do Bronze. O ferreiro, capaz de dominar o fogo e transformar a matéria, era visto como um agente quase cósmico, o que explica sua associação com a criação de um dos elementos centrais da ordem do mundo: o Sol.

Nome e significado

O nome Teliavelis aparece em fontes escritas do século XIII. Na mitologia lituana, seres conhecidos como velniai teriam sido os primeiros a dominar a arte da forja antes dos humanos. Um deles, Velnias, está associado à terra, ao mundo subterrâneo e à criação por meio do trabalho do metal, o que levou alguns estudiosos a interpretar Teliavelis como um ferreiro de caráter ctônico.

As interpretações etimológicas do nome variam: ele já foi entendido como “deus da Terra”, “deus do caminho” ou como um nome influenciado por tradições escandinavas. No lituano moderno, kalvis significa “ferreiro” e deriva do verbo kalti (“martelar”), preservando na língua a memória dessa antiga divindade.

Na mitologia

Relatos antigos associam Teliavelis a histórias sobre a perda e a recuperação da luz do Sol. O teólogo Jerônimo de Praga registrou que certos povos lituanos veneravam o Sol e um grande martelo. Segundo essas tradições, o Sol teria sido aprisionado por um rei poderoso, fazendo o mundo permanecer na escuridão por vários meses. Para restaurar a luz, forças cósmicas usaram o grande martelo para libertar o Sol de uma torre e devolvê-lo ao céu.

Uma lenda parecida, registrada por Marija Andziulytė-Ruginienė, conta a história de um jovem aprisionado por um dragão em um reino escuro. Nesse lugar, ele descobre uma família real trancada dentro de um baú com várias fechaduras. Usando um martelo, o jovem quebra as fechaduras e liberta os prisioneiros. Ao abrir o baú, uma luz intensa do Sol se espalha, e o jovem acaba ficando cego devido ao brilho.

Teliavelis é frequentemente comparado a outros ferreiros míticos, como Hefesto na mitologia grega, Völundr nas tradições germânicas e Ilmarinen na mitologia fino-careliana. Sua relação com Perkūnas, o deus do trovão, lembra a relação entre Hefesto e Zeus na Grécia Antiga.



fontes:

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29 de janeiro de 2026

Tandayag Na Opon

۞ ADM Sleipnir

Tandayag na Opon (também grafado Tandayag sa Opon) é uma criatura lendária do Ibalong, poema épico da região de Bicol, nas Filipinas. Representado como um gigantesco javali negro, Tandayag aterrorizava as planícies de Ibalong até ser derrotado pelo herói Baltog.

Narrativa no Ibalong

Segundo a tradição, Tandayag era um javali colossal, com presas tão grandes quanto os braços de um homem. Habitava as colinas de Lingyon e era visto como o guardião das terras antes da chegada dos primeiros colonos humanos. Dotado de força descomunal, devastava plantações por onde passava, especialmente os campos de linsa (taro) cultivados por Baltog na região de Tondol, área correspondente à atual Kamalig.

Arte de delorarts

Baltog, um guerreiro ariano vindo de Boltavara — região que hoje corresponde à Índia —, foi o primeiro grande herói a se estabelecer em Ibalong. Ao encontrar sua plantação destruída por Tandayag, decidiu enfrentar a criatura sozinho, sem armas. Após um combate feroz, conseguiu matá-la com as próprias mãos. Como prova de sua vitória, arrancou as mandíbulas do javali e as pendurou em uma árvore talisay (Terminalia catappa) diante de sua casa.

Esse feito extraordinário consolidou Baltog como líder local e lhe rendeu grande prestígio. Clãs vizinhos, como os de Panicuason e Asog, viajaram até Ibalong apenas para ver os restos do terrível monstro e testemunhar a façanha do herói.

Monumento representando Baltog, localizado na cidade  de Legazpi, em Albay, Filipinas.



fontes:

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28 de janeiro de 2026

Goslandariu

۞ ADM Sleipnir


Goslandariu é uma criatura lendária do folclore do norte do estado do Piauí. A lenda é mais conhecida nos municípios de Luzilândia e Joaquim Pires, onde se localiza a Lagoa dos Cajueiros, mas também apresenta registros na tradição popular da cidade de Barras. A criatura está diretamente associada a essa lagoa de água doce, que possui cerca de 17 km² de extensão e é alimentada pelos rios Cajueiro e São Nicolau.

Segundo as histórias transmitidas oralmente ao longo das gerações, a região onde hoje se encontra a Lagoa dos Cajueiros teria sido coberta pelo mar em tempos muito antigos. Com o recuo das águas, formou-se o lago, que passou a ser a morada de Goslandariu, visto como uma lembrança viva desses tempos remotos. Descrito como um monstro marinho imortal, de tamanho colossal e aparência assustadora, Goslandariu possui força descomunal, aspecto grotesco e comportamento cruel e predatório.

De acordo com a tradição popular, Goslandariu passa a maior parte do tempo adormecido, despertando apenas a cada cem anos. Quando acorda, permanece ativo por cerca de trinta anos, período em que percorre as águas da lagoa em busca de pessoas e animais para devorar, demonstrando uma fome considerada insaciável. Entre os poderes atribuídos à criatura está a capacidade de lançar raios hipnóticos pelos olhos, capazes de atrair pessoas para dentro da lagoa, mesmo quando se encontram fora da água. Diz-se que a única forma de reduzir esse efeito, caso alguém já esteja nadando, é virar de costas e evitar olhar diretamente para o monstro.

Além disso, Goslandariu possui outras maneiras de capturar suas vítimas. Uma delas seria a liberação de uma substância oleosa na água, que se move rapidamente sob a superfície, paralisa quem tenta fugir e arrasta a vítima até sua boca. Também se conta que a criatura é capaz de virar barcos e canoas com facilidade, utilizando apenas seu tamanho colossal e sua força extraordinária.

Goslandariu é geralmente descrito como um ser cruel, que sente prazer em devorar suas vítimas lentamente, ouvindo seus gritos de medo e dor. Outro aspecto marcante da criatura é seu poder de transformação: ela poderia assumir a forma de outros animais aquáticos, como cobras e jacarés, ou até mesmo de elementos da própria lagoa, como flores aquáticas. Essa capacidade torna o monstro ainda mais perigoso, pois suas vítimas dificilmente perceberiam sua presença antes do ataque. Diz-se que ele vive escondido nas profundezas da Lagoa dos Cajueiros, sob uma pequena ilha existente no local. Atualmente, a criatura estaria em sono profundo, aguardando o momento inevitável de seu próximo despertar, mantendo o ciclo que alterna longos períodos de silêncio com fases de terror e destruição.


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27 de janeiro de 2026

Wambeen

۞ ADM Sleipnir

Wambeen é uma divindade malévola da mitologia aborígene australiana, associada especificamente às tradições do povo Arrernte, da região central da Austrália. Ele é descrito como um ser sobrenatural ligado ao fogo, aos relâmpagos e à morte de viajantes solitários, figurando como uma ameaça constante nas narrativas míticas transmitidas oralmente.

Segundo os relatos tradicionais, Wambeen habitava o céu e descia à Terra na forma de um relâmpago, provocando incêndios na vegetação. Era considerado o criador de uma fumaça de odor extremamente desagradável, característica pela qual podia ser reconhecido antes mesmo de ser visto. Wambeen tinha como principais vítimas os viajantes que caminhavam sozinhos. De acordo com o mito, ele utilizava corujas como sentinelas: quando essas aves avistavam um viajante isolado, emitiam pios que serviam de aviso para o deus. Em seguida, Wambeen aparecia sob a forma de um homem gigantesco, envolto ou seguido por fumaça fétida, e matava a vítima, deixando o corpo no local exato onde havia caído.


fonte:

  • MASSOLA, A. Bunjil’s Cave: myths, legends and superstitions of the aborigines of south-east Australia [s.l.] [Melbourne] : Lansdowne Press, 1968.

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26 de janeiro de 2026

Heryshef

۞ ADM Sleipnir

Arte de Maria Trofimova

Heryshef (também grafado Herishef, Heryshaf ou Hershef; em grego: Arsaphes ou Harsaphes) foi um antigo deus egípcio associado à criação, à fertilidade, à força vital e às águas fluviais, venerado principalmente em Hwt-nen-nesu (conhecida pelos gregos como Heracleópolis Magna). Seu nome significa “aquele que está sobre seu lago”, indicando uma ligação simbólica com a água, a fertilidade e o ciclo do Nilo.

Iconografia, atributos e associações

Heryshef era geralmente representado como um homem com cabeça de carneiro, animal associado à fertilidade, potência criadora e renovação. Em contextos solares, podia portar o disco solar, refletindo sua associação com ; quando ligado a Osíris, aparecia usando a coroa Atef, tradicionalmente relacionada ao poder régio e à vida após a morte. 


Em textos religiosos, Heryshef era descrito como o Ba (manifestação espiritual ou alma) de Rá e de Osíris, reforçando seu caráter híbrido entre criação, realeza e renascimento. Em algumas tradições, também foi associado a Atum, possivelmente devido à sua ligação com a árvore sagrada naret, cultuada em seu principal centro religioso.

Entre seus títulos estão “Senhor do Sangue”, “Senhor do Temor” e “Rosto Terrível”, expressões que refletem tanto seu poder criador quanto seu aspecto ameaçador e destrutivo. Nessa dimensão mais violenta, Heryshef era ocasionalmente associado a Shesmu, divindade ambígua ligada ao vinho, ao sangue e ao sacrifício.

Heryshef aparece com frequência em amuletos, objetos votivos e varinhas mágicas de marfim, geralmente ao lado de outras figuras consideradas protetoras. Nessas representações, desempenha um papel apotropaico, afastando forças malignas e perigos espirituais.

Amuleto de Harsafes (Heryshef), datado de 740–725 a.C., Egito Antigo


Sincretismo e interpretação grega

Durante o período greco-romano, Heryshef foi identificado pelos gregos com Héracles (Hércules). Essa associação provavelmente resultou tanto da semelhança fonética entre Arsaphes e termos ligados à força quanto da percepção de Heryshef como uma divindade de grande vigor, fertilidade e poder protetor.

Textos e fontes literárias

Heryshef é mencionado em diversas fontes da literatura egípcia. No Conto do Camponês Eloquente, o templo de Heryshef é apresentado como local onde o camponês busca justiça, sugerindo que o deus também estava ligado à ordem moral e à escuta das queixas humanas.

Uma estela originalmente proveniente de Heracleópolis, posteriormente encontrada no templo de Ísis em Pompeia, descreve Heryshef concedendo proteção ao sacerdote Somtutefnakht, do Período Tardio. Nessa inscrição, o deus recebe os títulos de “Rei das Duas Terras” e “Governante das Margens do Rio”, evidenciando sua importância política e simbólica.

Durante o primeiro milênio a.C., Heryshef passou a ser interpretado como uma divindade cósmica, com os olhos simbolizando o sol e a lua, reforçando suas associações celestes.

Culto

O principal centro de culto de Heryshef foi Heracleópolis Magna, onde ele era venerado desde pelo menos a Primeira Dinastia, conforme registros atribuídos à Pedra de Palermo. Durante o Primeiro Período Intermediário, quando a cidade se tornou capital de um dos reinos egípcios rivais, Heryshef adquiriu status de divindade estatal.

Seu templo em Hwt-nen-nesu foi ampliado no Novo Império, especialmente durante o reinado de Ramsés II, que mandou erguer grandes colunas de granito com capitéis em forma de folhas de palmeira. O culto a Heryshef continuou ativo até o Período Ptolemaico.

Além de Heracleópolis, Heryshef também foi ocasionalmente identificado como governante de Iunu (Heliópolis), o que reforça sua integração a diferentes tradições religiosas do Egito Antigo.


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25 de janeiro de 2026

Vampiros de Fogo de Fthaggua

۞ ADM Sleipnir

Os Vampiros de Fogo de Fthaggua são uma espécie alienígena fictícia pertencente aos Mitos de Cthulhu. Foram criados por Donald Wandrei para o conto The Fire Vampires (“Os Vampiros de Fogo”), publicado em 1933, e posteriormente incorporados ao universo ficcional associado à obra de H. P. Lovecraft e de outros autores do ciclo.

Descrição e comportamento

Vampiros de Fogo manifestam-se como redes estriadas de energia elétrica viva, semelhantes a relâmpagos ou chamas animadas. A maioria apresenta coloração avermelhada, com exceção de Fthaggua, que é descrito como azul. A espécie constitui, na verdade, um vasto superorganismo gestalt, no qual todos os indivíduos estão ligados a uma única consciência coletiva centrada em Fthaggua. Caso Fthaggua seja destruído, todos os Vampiros de Fogo perecem, uma vez que não passam de extensões fragmentárias da entidade central.

Os Vampiros de Fogo alimentam-se da energia vital de criaturas sencientes. O ataque ocorre de forma súbita, semelhante a um raio, fazendo com que o corpo da vítima entre em combustão quase instantânea, restando apenas ossos carbonizados. Além da força vital, essas entidades também absorvem o conhecimento e as memórias de suas vítimas. Essa capacidade lhes permite aprender idiomas, compreender culturas alienígenas e reunir informações estratégicas sobre um planeta antes de sua conquista.

Ktynga, o Cometa de Norby

Os Vampiros de Fogo habitam o cometa Ktynga, também conhecido como Cometa de Norby, em referência ao cientista Gustav Norby, seu descobridor. Ktynga é descrito como um corpo celeste ígneo, com temperatura superficial estimada em cerca de 1.100 °C, capaz de deslocar-se pelo espaço a velocidades superiores à da luz. Animado e “pilotado” pela vontade de Fthaggua e de seus servos, Ktynga funciona como um mundo móvel, permitindo à espécie viajar entre sistemas estelares.

O plot de "The Fire Vampires"

Na narrativa original de The Fire Vampires, o cientista Gustav Norby, especialista em formas de vida cósmicas, alerta a humanidade sobre a ameaça representada pelo cometa Ktynga, cuja trajetória e comportamento desafiam as leis naturais. Após sua primeira aproximação da Terra em 2321, o cometa demonstra capacidade de alterar livremente seu curso, orbitando o planeta e provocando mortes por combustão espontânea associadas a descargas elétricas.

Anos depois, Norby e seu assistente Hue identificam a presença de entidades ígneas sencientes — os Vampiros de Fogo — ligadas ao cometa. Essas criaturas passam a atacar a população mundial, enquanto o próprio Ktynga transmite uma mensagem ameaçadora em nome de Fthaggua, exigindo sacrifícios humanos periódicos sob pena de extermínio em massa. A entidade revela-se capaz de absorver não apenas a energia vital, mas também o conhecimento de suas vítimas, o que explica sua comunicação com os humanos.

Em 2339, após anos de preparação e colapso social global, Norby executa um plano baseado na descoberta de que Fthaggua constitui a consciência unificada de todos os Vampiros de Fogo. Utilizando um dispositivo que canaliza energia pura, ele consegue destruir Fthaggua, o que resulta na extinção imediata de todos os Vampiros de Fogo ligados a ele, encerrando a ameaça representada por Ktynga.

Relação com Cthugha

Os Vampiros de Fogo são frequentemente confundidos com as Criaturas Flamejantes de CthughaA identificação entre as duas espécies foi formalizada pelo autor Lin Carter, que também sugeriu que o próprio Fthaggua teria sido originado por Cthugha. Em The Horror in the Gallery ("O Horror na Galeria"), o fictício ocultista Friedrich von Junzt, autor do Unaussprechlichen Kulten, refere-se às “criaturas flamejantes, ou Vampiros de Fogo, como os chama o Necronomicon”, associando-as ao cometa Ktynga. Essa interpretação, contudo, introduz uma inconsistência cronológica, uma vez que o Cometa de Norby teria sido descoberto apenas em 2321, enquanto a obra de von Junzt data do século XIX.


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24 de janeiro de 2026

Homem do Chapéu de Ferro

۞ ADM Sleipnir


O Homem do Chapéu de Ferro é uma criatura mítica do folclore português, especialmente associada à região do Algarve. Descrito como um ser colossal e maléfico, destaca-se pelo enorme chapéu de ferro cravado em sua cabeça, como se estivesse enterrado em seu crânio. Sua boca é descomunal e, quando tomado pela fúria, cospe chamas. Sua pele, de tonalidade semelhante ao bronze, reforça sua aparência sobrenatural e ameaçadora.

Segundo a tradição, o Homem do Chapéu de Ferro surge sempre à meia-noite, quando o galo canta. É avistado à beira de estradas, sob oliveiras e figueiras, ou junto a fontes. Sua aparição repete-se durante três noites consecutivas, e a cada noite ele é acompanhado por um animal diferente: um porco preto de grunhidos lúgubres, um veado gigantesco cujos chifres parecem tocar o alto das torres, ou ainda um galo negro, sombrio como a tempestade. Reza a lenda que tais criaturas seriam manifestações do próprio Diabo, que assume essas formas para segui-lo.

Detentor de poderes extraordinários, o Homem do Chapéu de Ferro é capaz de enfrentar tempestades, deter raios e, se provocado, desencadear catástrofes capazes de destruir o mundo. Cruel e vingativo, persegue aqueles que odeia: rouba, mata e deixa atrás de si apenas fumaça e labaredas que brotam da terra, como se vulcões despertassem sob seus passos. Contudo, ele não é invencível. Seu único ponto fraco é a Velha da Égua Branca, outra figura mítica do imaginário popular português, diante da qual ele recua em temor.

Algumas versões populares remontam a origem do Homem do Chapéu de Ferro ao tempo de Cristo. De acordo com essas narrativas, ele teria sido um soldado romano que teria torturado Jesus antes da crucificação. Como castigo, foi condenado a vagar eternamente sob essa forma monstruosa, espalhando medo e destruição pelas noites do Algarve.



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22 de janeiro de 2026

Umangob

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Umangob é um mítico e grande cão negro presente no folclore filipino, em particular no folclore do povo Ifugao. Descrito como uma criatura extremamente veloz — capaz de mover-se tão rápido quanto um relâmpago —, o Umangob costuma surgir durante a noite para se alimentar dos polegares das mãos e dos dedões dos pés dos mortos.

Devido a essa crença, desenvolveu-se entre os Ifugao um antigo costume funerário que consiste em pendurar os cadáveres de cabeça para baixo durante os velórios, além de acender fogueiras ao redor do corpo, medidas destinadas a afastar a criatura. Outro método tradicional de proteção contra o Umangob envolve o plantio, ao redor das casas, de uma erva carmesim conhecida como dongla. Assim como o fogo, acredita-se que essa planta seja temida pela criatura. Ainda assim, segundo as narrativas, o Umangob pode, graças à sua velocidade sobrenatural, atravessar essas barreiras rapidamente e profanar os cadáveres.

Arte de Brian Valeza

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21 de janeiro de 2026

Tá-na-Boca

۞ ADM Sleipnir

Tá-na-Boca é uma entidade do folclore urbano de Teresina, capital do estado do Piauí, Brasil, associada principalmente ao bairro Vermelha. Os relatos sobre a figura circularam com maior intensidade entre as décadas de 1950 e 1970, descrevendo-a como uma aparição noturna responsável por aterrorizar moradores que transitavam pelas ruas durante a madrugada.

Descrição

Segundo as narrativas populares, o Tá-na-Boca apresentava características híbridas, sendo frequentemente comparado a um lobisomem. Era descrito como uma criatura peluda, de porte semelhante ao de um carneiro grande ou de um cachorro de grande tamanho, com cabeça que lembraria a de um carneiro. Em algumas versões da lenda, a entidade também assumia a forma de um homem trajando capa preta, com mãos semelhantes a garfos.

A aparição costumava surgir repentinamente nas ruas durante a noite, avançando sobre transeuntes solitários. Durante a perseguição, emitia um grito rouco e repetitivo — “Morou? Tá na boca!” — expressão que, segundo interpretações posteriores, utilizaria gírias da época para indicar que a vítima estava “no papo”, isto é, prestes a ser capturada ou devorada. Os relatos afirmam que a perseguição geralmente era interrompida apenas nas proximidades da casa da pessoa perseguida.

Origem da lenda

Uma das versões mais difundidas sobre a origem do Tá-na-Boca relaciona a entidade a um anão que teria vivido no bairro Vermelha por volta da década de 1950, trabalhando como alfaiate. De acordo com essa narrativa, ele mantinha um relacionamento incestuoso com a própria irmã, o que teria provocado a revolta da comunidade local. Uma multidão teria atacado a residência do casal, agredindo violentamente a mulher, que em seguida fugiu da cidade e nunca mais foi vista.

Abalado pelos acontecimentos, o homem teria passado a estudar práticas místicas com o objetivo de vingar-se dos responsáveis. Como resultado, teria aprendido a transformar-se, durante as madrugadas, em uma criatura monstruosa, dando origem às aparições conhecidas como Tá-na-Boca.

Desaparecimento e relatos posteriores

Os registros orais indicam que as aparições do Tá-na-Boca teriam ocorrido por um período relativamente curto, cessando misteriosamente ainda na segunda metade do século XX. Algumas versões afirmam que o suposto responsável pela criatura teria deixado a região após completar sua vingança, enquanto outras sustentam que a entidade ainda poderia manifestar-se ocasionalmente, embora de forma cada vez mais rara.

Há também interpretações que associam o declínio dos relatos ao crescimento urbano e à substituição do deslocamento a pé por veículos automotores, o que teria tornado inviáveis as perseguições atribuídas à criatura.


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20 de janeiro de 2026

Nesso

 ۞ ADM Sleipnir

Arte de Aaron Griffin, inspirada no Nesso da animação "Hércules".

Nesso (em grego antigo: Νέσσος, translit. Nessos) é um centauro da mitologia grega, célebre por seu envolvimento no mito de Héracles e Dejanira, episódio que desempenha papel decisivo na morte do herói. Ele aparece com frequência tanto na literatura clássica quanto na iconografia grega dos períodos arcaico e clássico, sendo tradicionalmente associado à traição, à violência sexual e à vingança póstuma.

Etimologia do nome

O nome Nesso é geralmente relacionado ao termo grego nêssos, interpretado por alguns autores como “pato”. Essa etimologia é considerada simbólica e possivelmente alusiva à função do personagem como barqueiro, responsável por atravessar viajantes por um rio carregando-os sobre o próprio corpo.

Origem e família

Segundo as tradições, Nesso era um dos centauros da Tessália. Após a guerra entre centauros e lápitas, na qual estes últimos saíram vitoriosos, ele fugiu de sua região natal e estabeleceu-se às margens do rio Euenos, na Etólia. Ali passou a atuar como barqueiro, cobrando para transportar pessoas de uma margem à outra. Sua genealogia varia conforme as fontes antigas: em Higino, Nesso é filho de Íxion e Néfele, a Nuvem; em outras tradições, menos difundidas, aparece como filho de Sileno e da ninfa Mélia.

Mito

O episódio mais conhecido envolvendo Nesso ocorre durante a jornada de Héracles com sua esposa Dejanira. Ao chegarem ao rio Euenos, Héracles atravessou a corrente por conta própria e confiou a Nesso a tarefa de levar Dejanira. Durante a travessia, o centauro, tomado pelo desejo, tentou violentá-la. Ao ouvir os gritos da esposa, Héracles atingiu Nesso com uma flecha embebida no veneno da Hidra de Lerna

Mortalmente ferido, o centauro arquitetou sua vingança ao convencer Dejanira de que seu sangue, ou uma mistura dele com seu sêmen, funcionaria como um filtro amoroso capaz de assegurar a fidelidade do herói. Anos mais tarde, temendo perder o marido para Íole, Dejanira embebeu uma túnica com essa substância e a enviou a Héracles. Ao vesti-la, o calor de seu corpo ativou o veneno, causando dores atrozes que levaram à morte do herói. Dessa forma, embora derrotado, Nesso foi responsável indireto pelo fim de Héracles, consumando sua vingança após a própria morte.

As fontes antigas divergem quanto ao local exato da morte de Nesso. Algumas afirmam que ele morreu imediatamente às margens do rio Euenos; outras relatam que conseguiu fugir para a Lócrida Ozólica, onde morreu posteriormente. Autores como Estrabão e Pausânias mencionam que seu corpo teria apodrecido sem sepultura, exalando um odor fétido que explicaria o nome da região, associado à ideia de mau cheiro.

 "Hércules e Dejanira, com o centauro Nesso moribundo". Pintura de Sebastiano Ricci (1659–1734)

Representações artísticas

O mito de Nesso foi amplamente representado na arte grega, sobretudo na cerâmica dos séculos VI e V a.C., em ânforas, cálices e hídrias de figuras negras e vermelhas. As cenas costumam retratar o momento da tentativa de rapto de Dejanira ou o instante em que Héracles atinge o centauro com sua flecha.

Na literatura clássica, Nesso é mencionado ou descrito por diversos autores, entre eles Pseudo-Apolodoro, Diodoro Sículo, Estrabão, Pausânias, Ovídio, Higino, Sêneca e Cícero. Apesar das variações narrativas, essas fontes concordam em apresentar Nesso como um personagem cuja astúcia e perfídia prolongam seus efeitos para além da morte, funcionando como um elemento trágico fundamental no ciclo mítico de Héracles.

“Hércules derrotando o centauro Nesso”, concluída entre 1595 e 1599. Artista: Giambologna

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19 de janeiro de 2026

Ma cà rồng

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Ma cà rồng é uma espécie de vampiro pertencente ao folclore vietnamita. A crença neles era particularmente difundidas entre as comunidades das regiões montanhosas do norte, especialmente entre povos de origem tai-kadai. Apesar da associação moderna do termo aos vampiros da tradição europeia, os Ma cà rồng possui origens, características e significados próprios no contexto cultural vietnamita.

Registros históricos

Os primeiros registros conhecidos envolvendo um ma cà rồng datam do período medieval tardio e aparecem em obras clássicas da historiografia vietnamita, como Kiến Văn Tiểu Lục, de Lê Quý Đôn, Thoái Thực Ký Văn, de Trương Quốc Dụng, e Hưng Hóa Kỷ Lược, de Phạm Thận Duật. Essas fontes o descrevem como um espírito que sugava o sangue de pessoas, supostamente ativo na região de Hưng Hóa, no norte do Vietnã. As variações registradas — ma cà rồng, ma cà rằng e ma càn sùng — seriam tentativas de transcrição fonética de termos originários das línguas tai-kadai, associados a regiões montanhosas e florestais.

Descrição e características

Segundo os relatos tradicionais, um ma cà rồng leva uma vida aparentemente normal durante o dia, integrando-se à sociedade como qualquer pessoa comum. À noite, porém, manifesta sua natureza sobrenatural. Uma de suas características mais singulares é a capacidade de voar, atribuída ao ato ritual de inserir dois dedos dos pés nas narinas antes de partir em busca de vítimas. Essa duplicidade tornava a criatura especialmente perigosa, pois não podia ser identificada entre a população.

As fontes históricas indicam que suas vítimas preferenciais eram mulheres em período pós-parto, conhecidas como bà đẻ, cujas casas eram invadidas durante a noite. As descrições físicas variam conforme o autor: Trương Quốc Dụng descreveu a entidade como um ser de testa avermelhada, olhos com grande porção de branco visível e comportamento solitário, enquanto Phạm Thận Duật mencionou que ela podia ter família e vida social, atacando secretamente pessoas adormecidas, frequentemente levando à morte das vítimas.

Crenças e proteção

As comunidades tradicionais desenvolveram práticas para se proteger contra um ma cà rồng. Alterações incomuns na iluminação noturna, especialmente mudanças para tons azulados, eram interpretadas como sinais de sua aproximação. Nessas circunstâncias, acreditava-se que bater nas paredes ou na estrutura da casa poderia afugentar a entidade, sendo as mulheres em período pós-parto alvo de vigilância e proteção especiais.



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18 de janeiro de 2026

O Visitante de Van Meter

۞ ADM Sleipnir


O Visitante de Van Meter (Van Meter Visitor, em inglês) é uma criatura misteriosa associada a uma série de supostos avistamentos ocorridos em 1903, na pequena cidade de Van Meter, no estado de Iowa, Estados Unidos. O caso tornou-se um dos episódios mais conhecidos do folclore local e da criptozoologia norte-americana do início do século XX.

Descrições

De acordo com os relatos da época, o Visitante de Van Meter era descrito como uma criatura alada, frequentemente comparada a um morcego gigante, com grandes asas, três dedos visíveis nas pegadas, e um odor forte e desagradável. Um de seus aspectos mais incomuns era a presença de um chifre ou protuberância na testa, capaz de emitir uma luz intensa, descrita por testemunhas como um feixe ou raio luminoso.

Alguns moradores afirmaram que a criatura era capaz de voar em alta velocidade, movia-se silenciosamente e aparentava ser imune a disparos de armas de fogo, pois tiros efetuados contra ela não teriam causado ferimentos visíveis.


Avistamentos

O primeiro avistamento relatado sobre o Visitante de Van Meter ocorreu na noite de 29 de setembro de 1903, quando um empresário local, chamado U.G. Griffith, observou uma luz brilhante no topo de um edifício. Inicialmente, ele acreditou tratar-se de um ladrão utilizando uma lanterna, mas a luz desapareceu repentinamente e reapareceu em outro ponto, revelando-se associada a uma criatura alada. Nos dias seguintes, outros cidadãos respeitados da comunidade relataram encontros semelhantes, incluindo o médico da cidade e o banqueiro Clarence Dunn, que teria disparado contra a criatura sem obter qualquer efeito aparente. Os avistamentos continuaram ao longo de várias noites, gerando crescente medo entre os moradores.

O episódio mais significativo envolvendo a criatura ocorreu quando um grupo de moradores decidiu persegui-la. Eles seguiram seus rastros até uma mina de carvão abandonada nos arredores da cidade. No local, relataram ouvir sons estranhos vindos do interior da mina e afirmaram ter visto duas criaturas, uma maior e outra menor, que teriam retornado para o interior da escavação ao serem confrontadas. Os homens dispararam contra as criaturas enquanto elas desapareciam na escuridão da mina. 

Interpretações 

Ao longo dos anos, diversas explicações foram propostas para o fenômeno. Algumas teorias sugerem que os relatos possam ter sido causados por um animal desconhecido ou mal identificado, como uma grande ave noturna. Outras hipóteses envolvem interpretações sobrenaturais, extraterrestres ou ultraterrestres, bem como explicações psicológicas, como histeria coletiva ou exageros alimentados pelo medo.

O caso foi investigado em profundidade por autores como Chad Lewis, Noah Voss e Kevin Lee Nelson, que reuniram relatos originais, documentos históricos e análises críticas em publicações dedicadas ao tema. Segundo os pesquisadores, embora a história tenha sido parcialmente esquecida por gerações posteriores, ela continua a despertar interesse entre estudiosos do folclore e entusiastas do paranormal.



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17 de janeiro de 2026

Sunekosuri

۞ ADM Sleipnir

Arte de NightmareSyrup

Sunekosuri (japonês 脛擦り ou すねこす, literalmente “aquele que esfrega as canelas” ou “esfregador de pernas”) é um yokai do folclore japonês, originário da província de Okayama. Ele é descrito como um pequeno espírito travesso que, de acordo com relatos populares, costuma aparecer em ruas, becos e caminhos frequentados por pedestres, principalmente à noite e sob chuva. 

Aparência e comportamento

A aparência do Sunekosuri varia conforme a região e o relato. Em muitas descrições, ele é comparado a um cachorro de pequeno porte, embora também existam versões que o associam a um gato. Em algumas tradições locais, acredita-se que surja próximo a santuários, como o Iryō-dō, na região de Ibara, onde se moveria rapidamente entre as pernas dos transeuntes.

Seu comportamento é considerado mais inconveniente do que perigoso. O Sunekosuri costuma aproximar-se por trás das pessoas, esfregar-se nas canelas, passar entre as pernas ou roçar os joelhos, dificultando a caminhada. Embora não cause ferimentos intencionais, esse contato pode ocasionalmente ser forte o suficiente para provocar tropeços ou quedas.


Origem e registros históricos

O Sunekosuri é considerado um yokai relativamente moderno. Seu registro escrito mais antigo aparece na obra Genkō Zenkoku Yōkai Jiten (Dicionário Atual de Yōkai de Todo o Japão), publicada em 1935 pelo naturalista Satō Seimei. Segundo essa fonte, o Sunekosuri surge em noites chuvosas e esfrega-se entre as pernas de pessoas que caminham por estradas escuras, causando apenas dificuldade momentânea para andar, sem provocar danos graves. Pesquisadores como Rin Adashino apontam essa obra como o primeiro registro documentado conhecido desse yokai.

Apesar de sua documentação tardia, acredita-se que o Sunekosuri já existisse anteriormente em tradições orais regionais da província de Okayama.

Variações regionais

Existem variações locais associadas ao Sunekosuri, algumas descritas como um pouco mais agressivas:
  • Sunekkorogashi (脛転がし, “derrubador de canelas”): espírito semelhante que puxa as pernas das pessoas na escuridão, fazendo-as cair;
  • Sunekkorobashi: termo com significado próximo ao de Sunekkorogashi;
  • Sunekajiri (脛齧り, “mordedor de canelas”): versão mais agressiva, responsabilizada por hematomas ou pequenos ferimentos.
Na região de Yoshii, no distrito de Shitsuki (Okayama), o Sunekkorogashi é descrito como responsável por derrubar especialmente crianças, que acabavam machucando o nariz ao cair.


Cultura Popular

O Sunekosuri tornou-se bastante conhecido por meio de representações na cultura popular japonesa. No mangá GeGeGe no Kitarō, de Mizuki Shigeru, ele é retratado como um gato enrolado em forma de bola. Na adaptação para anime de 2018, assume a aparência de um pequeno gato malhado e rechonchudo que teria esquecido sua verdadeira forma. Nessa versão, aparece como um tipo de bakeneko que se alimenta da força vital humana após ser forçado a abandonar sua morada. Enquanto a vila prosperava, conseguia se alimentar sem causar danos; porém, com o declínio populacional das áreas rurais do Japão, acabou drenando involuntariamente grande parte da energia vital dos idosos restantes.

No filme The Great Yokai War (2005), o sunekosuri é retratado como uma pequena massa de pelos amarelos e brancos, com olhos grandes e aparência fofa, reforçando sua imagem como um yōkai simpático e inofensivo.

No videogame Nioh 2 (2020), o sunekosuri, localizado como Scampuss, aparece como um yokai prestativo com aparência de um gato rechonchudo que auxilia o jogador.

Já no mangá Nurarihyon no Mago, o sunekosuri é apresentado como um dos sete mistérios da Escola Secundária Ukiyoe, sendo conhecido por fazer pessoas tropeçarem aleatoriamente. Nessa obra, assume a forma de um humanoide com uma cabeça enorme composta inteiramente de gatos, tendo dois grandes sinos de gato no lugar dos olhos. Ele ataca a personagem Rinko, zombando de sua condição de apenas um oitavo yokai, mas é detido pelo protagonista Rikuo.
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Sunekosuri (Nunarihyon no Mago)



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16 de janeiro de 2026

A Jornada ao Oeste: Capítulo LXX

۞ ADM Sleipnir


CAPÍTULO LXX:

O MONSTRO LANÇA FUMAÇA, AREIA E FOGO. WUKONG USA UM TRUQUE PARA SE APODERAR DOS SINOS DE OURO AVERMELHADO.

Dizíamos que o Peregrino Sun, valendo-se de seus poderes extraordinários, elevou-se aos céus, brandindo com força o seu bastão de ferro. Com coragem inabalável, avançou direto contra o monstro e perguntou:

— De onde vem, criatura maldita? E quem lhe deu permissão para sair por aí, fazendo o que bem entende?

— Eu — respondeu o monstro, com uma voz surpreendentemente potente — não sou outro senão um servo do Equivalente à Tai Sui, Senhor  da Caverna de Xiezhi, na Montanha Qilin. Por ordem dele, vim até aqui com o propósito de levar duas donzelas para servir à Rainha do Sagrado Palácio Dourado. E quem é você para ousar me interrogar dessa forma?

— Sou Sun Wukong, o Grande Sábio, Sósia do Céu — respondeu o Peregrino. — Estou neste reino porque sigo em jornada rumo ao Paraíso Ocidental, acompanhando o monge Tang, das Terras do Leste. Ao saber que criaturas perversas como você estavam mergulhando este lugar no caos total, decidi usar meus poderes para libertá-lo das suas maldades e devolver-lhe seu antigo esplendor. Estava justamente pensando em onde procurar, quando você mesmo apareceu para me oferecer sua vida.

Apesar da contundência dessas palavras, o monstro não teve melhor ideia do que investir contra o Peregrino com sua lança, que desviou o golpe oportunamente com o seu bastão de ferro. Assim, começou um combate verdadeiramente extraordinário. O bastão de ferro era, no entanto, um autêntico tesouro que outrora pertenceu ao rei dos dragões, enquanto a lança  a lança havia sido forjada em aço temperado por mãos humanas. Como poderia uma arma mortal comparar-se a uma celeste, capaz de despedaçar até espíritos? Além disso, o Grande Sábio era uma divindade da Grande Mônada, contra a qual nada podia um monstro que não passava de um simples demônio. Como o mal poderia prevalecer contra a virtude? No fim das contas, por mais que pareça o contrário, a bondade sempre triunfa sobre a maldade. Que importância tinha o fato de um dos combatentes levantar redemoinhos de poeira para assustar o rei, se o outro era capaz de caminhar sobre as nuvens e fazer o sol e a lua desaparecerem? Ambos lutaram, igualmente empenhados em alcançar a vitória, lançando mão de toda a sua habilidade marcial, pois quem demonstra fraqueza jamais conquistará o nome de herói. 


Ainda assim, não havia como negar que o Grande Sábio era o mais poderoso. Seus golpes eram tão precisos que a lança do inimigo foi lançada longe, partida em duas. Tomado pelo pânico, o monstro mudou a direção do vento e fugiu, desesperado, rumo ao oeste. 


O Peregrino desistiu, por ora, de persegui-lo e, descendo da nuvem, dirigiu-se à entrada do refúgio e gritou com voz triunfante:

— Já podem sair! O monstro acabou de fugir!

Não demoraram a surgir à entrada do refúgio o monge Tang, o rei e todos os seus cortesãos. O céu estava tão limpo como antes do ataque, e não havia qualquer sinal do monstro. Emocionado, o rei se dirigiu a uma das mesas do banquete e, enchendo uma taça de ouro, a entregou ao Peregrino, dizendo:

— Aceite esta taça de vinho como prova de nossa gratidão. 

O Peregrino tomou a taça nas mãos, mas, antes que pudesse levá-la aos lábios, surgiu um oficial às pressas, visívelmente perturbando, e trazendo uma notícia urgente:

— O portão oeste da cidade está em chamas!

Ao ouvir isso, o Peregrino lançou a taça cheia de vinho para o alto. Ao cair no chão, ela produziu um som metálico, o que levou o rei a se apressar em falar, inclinando a cabeça em sinal de respeito:

— Perdão, por favor! A culpa foi minha. A etiqueta exigia que o agradecimento fosse feito no salão principal, e não aqui. É compreensível que tenha se irritado e atirado a taça para ao ar. Você se ofendeu? 

— Não, não, de maneira nenhuma — apressou-se a responder o Peregrino, sorrindo. — O meu gesto foi mal interpretado.

Enquanto ainda conversavam, outro oficial entrou apressado para relatar:

— Que sorte extraordinária! Agora há pouco surgiu um incêndio no portão oeste, mas quase ao mesmo tempo começou a cair uma chuva tão intensa, que o apagou por completo. As ruas foram inundadas por um água que, curiosamente, tem cheiro de vinho.


—Majestade disse o Peregrino —, ao me ver atirar a taça, surgiu a impressão que eu havia ficado ofendido, mas não foi isso. Aquele monstro fugiu derrotado em direção ao oeste e, ao ver que eu não o perseguia, provocou um incêndio. Aquela taça de vinho foi usada justamente para apagar o incêndio causado por ele, e salvar as famílias que vivem na parte oeste da capital. Nada além disso.


A explicação apenas aumentou a admiração e o respeito do rei, que convidou Sanzang e seus três discípulos a retornarem ao salão principal do palácio, chegando mesmo a considerar a possibilidade de abdicar do trono em favor dos monges. O Peregrino, sorrindo, disse:

— Aquele monstro não passava de um servo do Equivalente à Tai Sui, enviado para buscar mais duas donzelas. É quase certo que tenha corrido para relatar sua derrota vergonhosa ao seu senhor, que dificilmente deixará a situação como está. Pelo contrário, deve preparar um confronto direto e não tardará a retornar à frente de suas tropas. Quando isso acontecer, o pânico tomará conta do rei e de seus súditos. Para evitar esse caos, pretendo enfrentá-los no ar, mas ainda não sei por qual direção virão. Poderiam informar qual é a distância entre esta cidade e a montanha deles?

— Certa vez — respondeu o rei — enviamos um grupo de exploradores até lá. Eles levaram exatamente cinquenta e cinco dias para retornar. Pelos nossos cálculos, a montanha fica a cerca de sete mil quilômetros ao sul daqui.

Ao ouvir isso, o Peregrino voltou-se para Baije e o Monge Sha e disse:

— Bajie, Monge Sha, fiquem de guarda aqui, enquanto vou até lá dar uma olhada.

— Monge divino, por que não espera mais um dia?  exclamou o rei, segurando-o pela manga. — Assim, poderemos preparar provisões secas e assadas, separar algum dinheiro  e escolher um cavalo veloz. Depois disso, poderá seguir sua viagem.

 O que Vossa Majestade descreve  replicou o Peregrino, rindo — é o caminho trabalhoso de quem precisa atravessar montanhas e picos sempre a pé. Para ser sincero, posso percorrer esses sete mil quilômetros antes que encham aquela taça de vinho e ela esfrie um pouco.

— Por favor, não leve a mal o que vou dizer — desculpou-se o rei —, mas, mais do que um homem, sua aparência lembra a de um macaco. Como é possível dominar uma magia  capaz de fazê-lo viajar a tanta velocidade?

— Embora seja verdade que pertenço à família dos macacos — respondeu o Peregrino —, desde muito jovem rompi os laços que me prendiam à reencarnação e à morte. Busquei com empenho os ensinamentos do Tao e dediquei muitos anos exclusivamente à prática da virtude. Tomei a Terra como fornalha e o Céu como tampa, e assim destilei dois tipos de elixir que purificaram meu coração e meus rins. Desse modo, consegui unir o yin e o yang, harmonizar a água e o fogo e atravessar as próprias portas do mistério. Foi assim que passei a viajar entre as estrelas (1), tendo a Ursa Maior como testemunha dessas jornadas. Para mim, não há segredo na arte de controlar o fogo, purificar o mercúrio ou transformar o chumbo. Quando as Cinco Fases se encontram, os poderes criadores se manifestam; quando as quatro estações (2) estão em equilíbrio, o tempo flui de maneira ordenada. A prática constante das duas respirações (3) leva ao domínio da respiração embrionária, e as três mansões (4) acabam unidas pelo caminho do elixir dourado. São esses princípios que guiam os movimentos do meu corpo. Por isso, não é estranho que com um só salto possa transpor o cume do Monte Tai-Hang (5) ou até alcançar regiões além do Arroio-que-Supera-as-Nuvens (6)As incontáveis dobras das montanhas mais íngremes e as vastas extensões dos rios mais largos não me causam temor. Nada impõe limites aos meus poderes de transformação: com um simples movimento, posso percorrer mais de dez mil quilômetros.

Surpreso e encantado com as palavras do Peregrino, o rei voltou a encher uma taça de vinho e, sorrindo amplamente, ofereceu-a ao Peregrino, dizendo:

Monge divino, a viagem será longa. Por favor, aceite ao menos esta taça de vinho, como preparação para a sua jornada.

Mas o Grande Sábio estava decidido a partir para subjugar o monstro. Como poderia perder tempo bebendo vinho naquele momento? Tudo o que o conseguiu dizer como desculpa foi:

—Por favor, deixe a taça de lado. Beberei quando eu retornar.

Depois de se despedir de todos os presentes, o Peregrino partiu em altíssima velocidade, deixando para trás um silvo agudo que cortou o ar. Por ora, não há mais o que dizer sobre o rei e seus espantados subordinados.


Falemos, então, do Peregrino. Após elevar-se aos céus, não demorou a avistar uma montanha que se erguia acima das mais altas camadas de nuvens. Logo desceu sobre o cume e lançou um olhar atento ao redor. A paisagem era de uma grandiosidade impressionante. O pico avançava em direção ao céu, enquanto as encostas despencavam rumo ao seio da terra, formando uma sucessão interminável de dobras e ravinas. Florestas densas de pinheiros gigantescos escureciam a luz do sol, e as rochas irregulares, cheias de fendas e desfiladeiros, aprisionavam as nuvens, impedindo-as de seguir adiante. O verde fresco dos pinheiros permanecia inalterado ao longo das quatro estações, assim como as massas rochosas, imóveis havia mais de dez mil anos. No coração das florestas ecoavam os gritos dos macacos, o alvoroço colorido das aves e os rugidos das feras da montanha. Serpentes enormes deslizavam, ameaçadoras, pelas margens dos riachos, enquanto veados e antílopes cruzavam as clareiras como flechas. Bandos de corvos e gralhas escureciam o céu em seu constante ir e vir. Por toda parte surgiam flores exóticas e plantas de toda espécie, misturadas ao colorido vibrante dos pessegueiros e de frutas variadas. Apenas o perigo oculto em certos desfiladeiros denunciava que aquela era a montanha de um falso imortal.

Depois de contemplar longamente a beleza da paisagem, o Grande Sábio se preparava para procurar a entrada da caverna quando, de repente, em uma das dobras da montanha, ergueu-se um fogo verdadeiramente extraordinário. Em um piscar de olhos, o céu foi tomado por um tom avermelhado, e do interior das chamas brotou uma espessa coluna de fumaça, ainda mais assustadora que o próprio incêndio. O brilho era tão intenso que superava o de dez mil lâmpadas acesas, dando a impressão de que mil arco-íris vermelhos se abriam diante dos olhos. Estava claro que aquela fumaça não vinha de lareira, forno ou da queima de madeira ou capim. Ela exibia cinco cores distintas: verde, vermelho, branco, negro e amarelo. Seu poder destrutivo era tamanho que poderia arrasar as colunas do Portão Sul dos Céus e iluminar o próprio Palácio da Névoa Divina. O calor era tão intenso que as feras, apavoradas em seus covis, viam a pele se desprender do corpo, enquanto as aves perdiam as penas como se jamais as tivessem tido. Quem ousaria atravessar aquela massa avassaladora de fogo e fumaça para enfrentar o senhor daquelas terras?

Enquanto o Grande Sábio observava, atônito, aquele espetáculo de destruição, uma violenta tempestade de areia ergueu-se no coração da montanha. Era tão densa que os Céus perderam o brilho e a Terra mergulhou em completa escuridão. As partículas eram tão finas que penetravam mesmo com os olhos cerrados, enquanto grãos minúsculos de areia amarela, semelhantes a grãos de gergelim, cobriam toda a colina. Juntas, formavam uma cortina espessa de poeira, capaz de fazer um lenhador perder o caminho de casa ou um jovem coletor de ervas deixar de reconhecer o próprio companheiro. Mesmo segurando uma pérola luminosa nas mãos, tornava-se quase impossível avançar naquele mundo de sombras crescentes. Absorvido por aquele espetáculo inesperado, o Peregrino não percebeu que o pó começava a invadir-lhe as narinas, até que a ardência o fez espirrar duas vezes seguidas. 

Agachando-se rapidamente e, apanhando duas pequenas pedras, ele tampou os orifícios do nariz. Em seguida, sacudiu levemente o corpo e se metamorfoseou em um falcão capaz de atravessar o fogo, lançando-se com coragem entre a fumaça e as chamas. 

No entanto, naquele mesmo instante, o pó e a areia desapareceram, e até o incêndio pareceu diminuir consideravelmente. O Peregrino retomou sua forma habitual e deixou-se cair do alto. Assim que os pés tocaram o chão, ouviu-se o som estridente de um gongo. Surpreso, ele pensou consigo mesmo:

— Alguma coisa está errada. Monstros não costumam viver em lugares assim. O som desse gongo lembra o usado por mensageiros oficiais. É provável que exista, mais acima, um pequeno reino, e alguém esteja indo entregar algum documento. O melhor agora é me aproximar e fazer algumas perguntas.

De fato, não demorou a avistar um demônio com um estandarte amarelo apoiado no ombro e uma grande bolsa de documentos às costas. Nas mãos, carregava um pequeno gongo, que não parava de soar, golpeado com entusiasmo incansável.

— Então é esse o sujeito que está tocando o gongo!  — disse o Peregrino para si mesmo, rindo. — Fico curioso para saber que tipo de documento está carregando. É melhor eu dar uma olhada.

O Peregrino então sacudiu levemente o corpo e transformou-se em um mosquito, pousando com extremo cuidado sobre a bolsa Apesar do barulho ensurdecedor do gongo, conseguiu ouvir o demônio murmurar entre dentes:

— Nosso senhor é realmente cruel! Já faz três anos que raptou a Rainha do Sagrado Palácio Dourado e nem sequer a tocou. As damas do palácio trazidas como substitutas foram as únicas que dividiram o leito com ele, e ainda assim, não tiveram sorte. As duas primeiras morreram pouco tempo depois, assim como as quatro que vieram em seguida. Mesmo assim, ano após ano, ele continua exigindo mais donzelas. Só que desta vez encontrou um adversário. Aquele mensageiro enviado para exigir as damas do palácio foi derrotado por alguém chamado Peregrino Sun. Tomado pela fúria, nosso senhor decidiu declarar guerra àquele reino e ordenou que a mensagem fosse levada pessoalmente ao seu rei. Quando esse documento for entregue, o mais sensato seria que ele recusasse o desafio, porque seria um ocorreria um verdadeiro desastre. Quando o nosso senhor liberar o fogo, a fumaça e a cortina de areia, ninguém sobreviverá. A cidade será tomada, nosso senhor será proclamado imperador, e todos nós nos tornaremos seus oficiais. O problema é que… talvez os Céus não aprovem essa conduta.

— Parece que até mesmo entre os demônios existem alguns com senso de justiça — pensou consigo mesmo o Peregrino. — Só alguém minimamente correto diria que talvez os Céus não aprovem esses atos. Ainda assim, não fica claro por que ele nunca se atreveu a tocar na Rainha do Sagrado Palácio Dourado. O melhor é esclarecer isso com algumas perguntas.

Em seguida, afastou-se do demônio por alguns quilômetros. Quando teve certeza de que não estava sendo observado, sacudiu o corpo novamente e transformou-se em um jovem taoísta, com dois tufos de cabelo sobre a cabeça e uma túnica tão gasta quanto a de um monge errante. Nas mãos, levava um pequeno tambor em forma de peixe, que tocava enquanto entoava um cântico. Contornando a montanha, logo reencontrou o demônio e o saudou com a mão erguida, dizendo:

— Posso saber para onde vai, e que documentos são esses que carrega em sua bolsa?


Agindo como se reconhecesse quem o abordava, o demônio interrompeu o toque do gongo e, rindo alto, retribuiu o cumprimento e respondeu, com grande alegria:

— Nosso senhor enviou-me ao Reino Púrpura para entregar uma declaração de guerra.


— Verdade? E a mulher que ele raptou do Reino Purpúria? Ele já se uniu a ela? — perguntou novamente o Peregrino.

— Não, pois quase imediatamente após ter sido raptada — respondeu o demônio —, um imortal lhe ofereceu de presente um manto divino de cinco cores. Assim que ela o vestiu, surgiram espinhos finos como agulhas por todo o corpo. Nosso senhor não ousou tocá-la nem de leve, pois o menor contato causaria uma dor terrível em sua mão. Não se sabe como esses espinhos surgiram, mas esse é o motivo de ele nunca ter se unido a ela. Hoje de manhã, ele enviou seu mensageiro até o Reino Púrpura para exigir duas damas do palácio, mas o mesmo foi derrotado por alguém chamado Peregrino Sun.  Isso enfureceu tanto o nosso senhor que ele ordenou que fosse entregue imediatamente uma declaração de guerra ao governante daquele reino. Sua intenção é iniciar os combates amanhã.

— Então o nosso senhor ainda está de mau humor?— perguntou o Peregrino.

— Sim — confirmou o demônio. — Talvez não fosse má ideia tentar acalmá-lo com algumas canções taoístas.

O Peregrino agradeceu a sugestão juntando as mãos. Depois de se despedir, seguiu calmamente pelo caminho, enquanto o demônio retomava a marcha, tocando o gongo e se preparando para continuar a viagem. Porém, após poucos passos, a fúria do Peregrino irrompeu de forma súbita. Ele girou o corpo, empunhou o bastão de ferro e desferiu um golpe devastador na cabeça do demônio, partindo seu crânio, rasgando sua pele e quebrando o seu pescoço. Seu sangue jorrou em abundância, misturado a fragmentos do cérebro, e sua vida se extinguiu naquele instante.


Logo depois, com o bastão já guardado, o remorso veio à tona, e o Peregrino pensou consigo mesmo:

— Que falta de paciência a minha! Nem sequer perguntei como ele se chamava. Mas agora é tarde para se lamentar.

O Peregrino apanhou a declaração de guerra e guardou-a entre as mangas da roupa. Em seguida, recolheu o estandarte amarelo e o gongo, escondendo ambos entre a vegetação à beira do caminho. O cadáver foi então lançado em um riacho. No momento em que o arremessava, desprendeu-se da cintura do demônio uma placa de prata, com uma inscrição que dizia:

“Este jovem subordinado atende pelo nome de Ida e Volta (7). Ele possui baixa estatura, rosto marcado por varíola e é completamente imberbe. Esta placa deve permanecer sempre presa à sua cintura. Qualquer um que não a possua é um impostor.”
— Então o seu nome era Ida e Volta — comentou o Peregrino, com um sorriso irônico. — Mas depois de levar um golpe do meu bastão, não volta mais.

Depois disso, o Peregrinou apanhou a placa e a prendeu à própria cintura. Estava prestes a se livrar do cadáver do demônio, quando se lembrou da ameaça de fumaça e fogo, o que o fez desistir de procurar mais a fundo a caverna do demônio. Em vez disso, espetou o cadáver do demônio na ponta do seu bastão de ferro e alçou voo de volta ao Reino Púrpura, decidido a mostrar ao rei o seu primeiro sucesso. Durante o trajeto de volta, assobiava enquanto refletia sobre a estratégia que deveria adotar a partir de então.

Bajie estava de guarda diante do Salão dos Sinos de Ouro quando viu o Peregrino se aproximar pelos ares, com o cadáver do demônio atravessado na extremidade do seu bastão de ferro.

— Que idiota eu fui! — murmurou consigo mesmo. — Se eu soubesse que era tão fácil, eu mesmo teria ido capturar esse monstro.  Assim, todo o mérito seria meu.

Mal havia acabado de pensar isso, quando o Peregrino desceu da nuvem e lançou o cadáver ao chão. Bajie avançou imediatamente sobre o mesmo e desferiu-lhe golpes violentos com o ancinho, gritando:

— Esse mérito é todo meu!

— Pode-se saber de que mérito você está falando? — perguntou o Peregrino.

— Não adianta negar — respondeu Bajie, em tom triunfante. — A prova está aqui. Buracos desse tipo só podem ser feitos por este ancinho.

— Por que não dá outra olhada e verifica se ele tem cabeça ou não? — replicou o Peregrino.

— Então ele não tem cabeça! — exclamou Bajie, caindo na gargalhada. — Agora ficou claro por que não se mexeu depois de levar o meu golpe.

— Onde está o mestre? — perguntou o Peregrino.

— Está lá dentro, conversando com o rei — respondeu Bajie.

— Então diga a ele para sair imediatamente ordenou-lhe o Peregrino.

Bajie correu até o salão e fez um sinal com a cabeça, prontamente compreendido por Sanzang. Sem perder tempo, o mestre levantou-se da mesa e foi ao encontro do Peregrino. Este, rapidamente, escondeu a declaração de guerra entre as mangas do mestre e disse em voz baixa:

— Guarde isso, Mestre, e não deixe que o rei veja.

Mal havia terminado de falar quando o próprio monarca surgiu. Assim que avistou o Peregrino, perguntou:

— Então já retornou, Monge Divino? Como foi o confronto com o monstro?

— Aquele ali não é o cadáver de um monstro? — respondeu o Peregrino, apontando para o corpo estendido no chão. — Eu o matei!

— Sem dúvida — reconheceu o rei, observando com atenção —, mas esse não é o Equivalente à Tai Sui. Posso afirmar isso com certeza, pois já o vi pessoalmente algumas vezes. Ele tem mais de seis metros de altura, e os seus ombros são pelo menos cinco vezes mais largos do que os desse infeliz. Além disso, o rosto brilha como um relâmpago, e a voz soa mais forte que o trovão. Não se parece em nada com esse mosquito morto à nossa frente.

— Sua observação é correta — concordou o Peregrino. — Esse infeliz não é o Equivalente à Tai Sui, mas apenas um mensageiro que teve o azar de cruzar o meu caminho. Trouxe o corpo dele comigo para que fique claro que nenhuma palavra minha é vazia.

— Excelente! — exclamou o rei, visivelmente satisfeito. — É a primeira vez que alguém consegue algo assim. Inúmeras vezes enviei soldados em busca de informações, e todos voltaram de mãos vazias. Desta vez, bastou uma única saída para que retornasse com um inimigo morto. É impossível negar que seus poderes mágicos são extraordinários. Aqueçam o vinho! Vamos celebrar dignamente o nosso benfeitor! — ordenou, voltando-se aos criados.

— O vinho não é o mais importante agora — apressou-se em dizer o Peregrino. — O que preciso agora é saber se, no momento de sua partida, a Rainha do Sagrado Palácio Dourado deixou algum escrito. Se existir algo assim, gostaria de examiná-lo.

Ao ouvir a palavra "escrito", o rei pareceu ser atingido por um golpe profundo. Rendendo-se às lágrimas, respondeu:

— Mal havíamos terminado o brinde pela felicidade e prosperidade daquele ano quando o monstro surgiu aos gritos e levou minha esposa à força, para que dividisse o leito com ele. Aceitei essa perda pelo bem do povo. Tudo aconteceu rápido demais, sem tempo para despedidas ou palavras de consolo. Ela levou tudo consigo. Não restou lembrança alguma, além dessa saudade e dessa dor que consomem o coração. Nem mesmo um simples saquinho de perfume ficou para trás.

— Não há razão para prolongar esse sofrimento, quando o fim dele já se aproxima — replicou o Peregrino. — Se, como foi dito, ela não deixou nenhum objeto, haveria no. palácio algum objeto de que fosse especialmente afeiçoada? Caso exista, gostaria que me mostrasse.

— Para que serviria isso? — perguntou o rei.

— Pude constatar que aquele monstro possui poderes mágicos extraordinários explicou o Peregrino. — Ele libera grandes quantidades de fumaça, fogo e areia, o que torna sua captura extremamente difícil. Mesmo que seja possível detê-lo, é muito provável que a rainha se recuse a acompanhar alguém desconhecido. Ela só confiará em mim se eu levar algo que lhe seja familiar, algo de grande valor afetivo dos tempos em que ainda vivia neste palácio. Por isso, é indispensável levar algo assim.

— Se a memória não me falha — disse o rei —, em uma das alcovas do Palácio do Sol Brilhante existe um par de braceletes de ouro que um dia pertenceu à Rainha do Sagrado Palácio Dourado. Eles ficaram ali porque, no dia da festa, foram retiradas para que seus braços fossem enfeitados com fitas coloridas. Como eram objetos de que ela gostava muito, acabaram guardadas em um porta-joias. Mas confesso que, sempre que os vejo, o choro é inevitável. O meu afeto por ela era profundo, e a forma como ela foi arrancada de mim, é trágica demais.

— É melhor não continuar falando disso — aconselhou o Peregrino. — Traga esses braceletes que mencionou. Se for capaz de se desfazer deles, entregue-os a mim e partirei imediatamente para libertá-la. Caso contrário, um deles será suficiente.

O rei voltou-se para o Palácio da Sabedoria de Jade e ordenou que as joias fossem buscadas. Assim que as viu, não conteve as lágrimas e exclamou, inconsolável:

— Minha querida! Minha querida senhora!


Ainda assim, reuniu coragem e confiou os braceletes ao Peregrino, que logo os ajustou no braço. Recusando o vinho para não perder tempo, o Grande Sábio montou numa nuvem e, num piscar de olhos, alcançou a Montanha Qilin. Desta vez, não houve espaço para admirar a paisagem; sua atenção se voltou inteiramente para a busca da caverna. Após circular a região algumas vezes, ouviu o murmúrio inconfundível de vozes. Seguindo o som, avistou a entrada da Caverna de Xiezhi. Diante dela, alinhavam-se mais de quinhentos soldados, prontos para partir a qualquer momento. Todos estavam armados até os dentes. Lanças e espadas brilhavam como brasas sob o sol. Os estandartes tremulavam ao vento, ostentosos como os generais-tigre e capitães-urso que comandavam aquelas tropas de guerreiros-leopardo e marechais-gato-do-mato. Os lobos cinzentos exibiam coragem notável, e a força dos elefantes impressionava. Havia ainda lebres inquietas, cervos sempre alertas empunhando espadas e machados, serpentes longuíssimas e cobras gigantes carregando arcos e aljavas. O comando cabia a um orangotango que, por compreender a língua dos homens, mostrava-se mais apto do que qualquer outro para liderar aquele exército.

O Peregrino resolveu não seguir adiante, não por medo, mas por prudência. Voltou pelo caminho de onde viera até o local onde havia matado o demônio mensageiro. Ali encontrou o gongo e o estandarte amarelo que trazia consigo. Virou-se para o vento, traçou um sinal mágico e transformou-se na imagem exata de Ida e Volta. Sem hesitar, começou a tocar o gongo e seguiu com passo firme em direção à Caverna de Xiezhi. Ao chegar, ouviu o orangotando perguntar:

— Já voltou, Ida e Volta?  

Sim — respondeu o Peregrino, à contragosto.

— Entre imediatamente e informe nosso senhor sobre o resultado da missão — ordenou o orangotango. — Ele aguarda ansioso no Pavilhão do Esquartejamento.


O Peregrino lançou-se para o interior da caverna sem parar de golpear o gongo. Para sua surpresa, percebeu que ali dentro havia precipícios tão profundos e escarpas tão ásperas quanto as do lado de fora. Entre eles, porém, erguiam-se construções de pedra serenas e bem traçadas. À sombra de seus muros, estendiam-se tapetes exuberantes de plantas e flores exóticas, que suavizavam a força retorcida de cedros e pinheiros centenários. Ao atravessar um segundo portal, deparou-se com uma construção octogonal, dotada de oito arcadas translúcidas. No centro erguia-se um trono de ouro, sobre o qual repousava o monstro, de aparência aterradora.

Acima de sua cabeça flutuava uma nuvem multicolorida, que se agitava ao ritmo da respiração de seus pulmões poderosos. Entre os lábios surgiam dentes afiados como espadas, acentuando ainda mais o aspecto demoníaco. Os cabelos, vermelhos como brasas, caíam de forma desordenada sobre a testa, como se a cabeça estivesse mergulhada numa fogueira. As barbas, duras como flechas, apagavam o contorno dos lábios e pareciam uma continuação do espesso pelo que cobria todo o corpo. Assim como os do verdadeiro Tai Sui, seus olhos tinham o brilho do cobre e a vivacidade do mercúrio. Sobre os joelhos repousava uma clava tão longa quanto a distância entre o céu e a terra.

A visão impressionou o Peregrino, mas não lhe faltou coragem para fingir desprezo. Ignorando qualquer formalidade, virou-lhe as costas de maneira descarada e continuou a bater o gongo, como se nada tivesse visto.

— Quando foi que retornou? — perguntou o monstro, mas o Peregrino não se deu ao trabalho de responder.

— Eu perguntei quando foi que você retornou, Ida e Volta! — acrescentou, perdendo a paciência.

O Peregrino permaneceu em silêncio. Furioso, o monstro levantou-se do trono e, agarrando-o pelas roupas, sacudiu-o com violência, gritando:

— Dá para saber por que essa insistência em tocar esse maldito gongo? Além disso, fiz uma pergunta! Por que se recusa a responder?

— Por quê, por quê, por quê! — explodiu o Peregrino, arremessando o gongo ao chão. — Para que tantas perguntas? Eu não queria ir, mas o senhor insistiu que eu fosse. Assim que cheguei àquele maldito reino, surgiu um exército imenso de homens a cavalo, todos prontos para a batalha. No instante em que me viram, começaram a gritar: “Agarrem esse monstro! Não o deixe escapar!”. Só pararam depois de me capturar e me arrastar, entre empurrões e golpes, até a presença do rei, que ordenou que cortassem minha cabeça na mesma hora. A sorte foi que um conselheiro lembrou daquele velho ditado: “Quando dois reinos estão em guerra, a vida dos mensageiros deve ser respeitada”. Isso evitou a minha morte, mas os documentos que trazia comigo foram confiscados, e fui expulso da cidade sem respeito algum, depois de levar mais de trinta chicotadas diante de todo o exército. Se pouparam minha vida, foi apenas para que eu transmitisse o recado de que eles estão prontos para  entrar em combate.


— Em outras palavras — respondeu o monstro —, você passou por maus momentos. Agora entendo por que se recusava a responder as minhas perguntas.

— Se não respondi — corrigiu o Peregrino — foi porque a dor que sentia era grande demais.

— Conseguiu ao menos contar quantos homens e cavalos eles têm prontos para a guerra? — perguntou o monstro novamente.

— Como poderia contar alguma coisa, se o medo me dominava e os golpes não deixavam nem levantar os olhos? — respondeu o Peregrino. — Ainda assim, o que vi foi uma verdadeira floresta de de armas: arcos, flechas, sabres, cotas de malha, armaduras, lanças, espadas, machados de dois gumes, estandartes, bolas de ferro, lâminas em forma de meia-lua, capacetes, escudos redondos, catapultas, clavas, tridentes de aço e todo tipo de engenho de guerra. Sem falar nos equipamentos: botas altas, elmos, couraças, peitorais, chicotes, fundas e maças de bronze.

— Isso não é nada para mim! — zombou o monstro, soltando uma gargalhada. — Um pouco de fogo basta para fazer desaparecer todas essas armas. Avise a Rainha do Sagrado Palácio de que não há motivo para preocupação. Quando soube que eu estava disposto a entrar em combate, ela se pôs a chorar sem controle. Vá até ela e diga que os homens e cavalos do reino dela são temíveis e que, sem dúvida, sairão vitoriosos contra mim. Isso deve aliviar o coração dela por algum tempo.

— Era exatamente isso que eu precisava ouvir — pensou o Peregrino, satisfeito com a sugestão inesperada.


Como se conhecesse perfeitamente o caminho até os aposentos da rainha, o Peregrino passou a abrir e fechar portas, deixando para trás salões e câmaras sucessivas. Na parte mais profunda da caverna erguiam-se edifícios esplêndidos, completamente diferentes daqueles da ala anterior. A Rainha do Sagrado Palácio Dourado vivia na região posterior do palácio — algo que o Peregrino percebeu de imediato ao notar o colorido extraordinário das portas alinhadas naquele trecho. Depois de atravessá-las, olhou ao redor com curiosidade e viu duas criadas, que eram na verdade uma raposa e um cervo demônios, maquiados e arrumados para parecer belas donzelas, posicionadas à esquerda e à direita. No centro delas estava a rainha, com o rosto apoiado na mão, chorando de forma inconsolável. 


Ainda assim, era impossível não notar sua juventude arrebatadora e a beleza marcante de seus traços. Os cabelos estavam presos no alto da cabeça, sem maquiagem, sem grampos nem pulseiras. Havia muito tempo que o rosto não recebia pó, os lábios não eram tocados por carmim, nem os cabelos tratados com óleos perfumados. Mesmo assim, os lábios, vermelhos como cerejas, desenhavam uma expressão profunda de tristeza. A dor mantinha os dentes, brancos como prata, cerrados, enquanto rios de lágrimas escorriam de olhos belos como estrelas. As sobrancelhas, delicadas como asas de borboleta, uniam-se num gesto típico de desespero. Seu coração ansiava pelo Senhor do Reino Púrpura, cuja ausência era tão dolorosa que a única ideia que lhe ocupava a mente era escapar da rede que a mantinha prisioneira. Assim costuma ser o destino das mulheres virtuosas e belas. Em silêncio absoluto, com o semblante cansado, mantinha o rosto voltado para o oriente.

Aproximando-se dela, o Peregrino inclinou-se respeitosamente e disse:

— Receba minhas reverências, senhora.

— Maldito demônio! — exclamou ela, cheia de desprezo. — Como se atreve a me dirigir a palavra? Durante anos, quando a glória do Senhor do Reino Púrpura também era minha, conselheiros sábios e primeiros-ministros se curvavam diante de mim sem se atrever a erguer os olhos do chão. Que atrevimento é esse de uma criatura como você? De onde saiu tamanha grosseria?


— Não convém dirigir sua ira a ele, senhora — aconselharam-na as duas criadas.  — Trata-se de um dos funcionários mais próximos de nosso senhor, conhecido como Ida e Volta. Foi ele, inclusive, o encarregado de entregar nesta manhã a declaração de guerra ao Reino Púrpura.

Ao ouvir isso, a rainha conteve a sua irritação o quanto pôde e perguntou, com voz tensa:

— A declaração realmente chegou ao Reino Púrpura?

— Sim — confirmou o Peregrino. — Entrei pela capital e passei pelo próprio Salão dos Carrilhões de Ouro. Até tive a chance de ver o rei. Na verdade, foi ele que me encarregou de trazer a resposta.

— E o que ele disse? — exclamou ela, tomada pela ansiedade.

— Ele respondeu que estava disposto a lutar e que todas as tropas estavam em pé de guerra, informações essas que transmiti ao nosso senhor sem demora — respondeu o Peregrino. — Além disso, ele expressou grande saudade da senhora e me encarregou de transmitir-lhe algumas palavras de ânimo, mas receio que haja gente demais ao nosso redor para poder dizê-las com a liberdade necessária.

Ao ouvir isso, a rainha ordenou que as suas duas criadas se retirassem imediatamente e fechou com cuidado a porta do palácio. Em seguida, o Peregrino passou a mão pelo rosto e, retomando sua forma habitual, disse:

— Não se assuste, senhora. Na verdade, sou apenas um monge enviado pelo Grande Imperador dos Tang, nas Terras do Leste, ao Monastério do Trovão, no Paraíso Ocidental, em busca das escrituras sagradas de Buda. O mestre a quem sirvo, Tang Sanzang, é irmão do próprio imperador. Eu sou seu discípulo mais antigo e me chamo Sun Wukong. Quando passamos pelo reino de origem da senhora e pedimos permissão para seguir viagem, soubemos de um édito imperial que convocava todos os médicos do mundo para curar vosso esposo. Com os conhecimentos que possuímos, conseguimos livrá-lo tanto da doença quanto da angústia que o consumia. Durante o banquete oferecido em nossa honra, ele nos contou como a senhora havia sido raptada por um monstro. Isso despertou em nós o desejo de resgatá-la e devolvê-la ao lugar de onde jamais deveria ter sido levada. Somos hábeis na arte de destruir dragões e subjugar tigres. Fui eu quem derrotou o mensageiro do monstro e, mais tarde, eliminei o pequeno demônio cuja identidade precisei assumir. Fui obrigado a me passar por Ida e Volta ao perceber as enormes forças que o captor reuniu diante da caverna. Peço desculpas por enganá-la, mas não havia outro meio de chegar até aqui.


Estranhamente, a rainha permaneceu em silêncio. O Peregrino então retirou os dois braceletes e, entregando-os respeitosamente com as duas mãos, acrescentou:

— Se ainda resta alguma dúvida, basta observar bem estes objetos.

Ao vê-los, a rainha caiu em prantos e, lançando-se aos pés do Peregrino, disse:

— Se você for realmente capaz de me libertar desta prisão e me levar de volta, em segurança, ao meu reino, tenha certeza de que ficarei eternamente agradecida.

— Antes disso, há algo de extrema importância que preciso saber — respondeu o Peregrino. — Que tipo de objeto é aquele capaz de lançar fogo, areia e fumaça?

— Não se trata de nada especialmente valioso, mas de três sinos de ouro — explicou a rainha. — Quando o primeiro é sacudido, projeta uma língua de fogo com mais de mil metros de extensão, capaz de reduzir tudo a cinzas. O segundo libera uma nuvem de fumaça que ultrapassa um quilômetro e sufoca qualquer ser vivo que a atravesse. Já o terceiro lança uma enorme quantidade de areia amarela, arremessada a grande distância, enlouquecendo quem entra em contato com ela. Essa areia é extremamente venenosa e, ao penetrar pelas narinas, causa morte imediata.

— Extraordinário! — exclamou o Peregrino. — Embora eu já tenha sentido na pele seus efeitos. Houve até espirros difíceis de controlar. Resta saber onde esses sinos ficam guardados.

— Não se engane pensando que eles ficam escondidos em algum lugar — respondeu a rainha. — Ele os mantém sempre presos à cintura e não os retira nem mesmo durante o sono.

— Se ainda ama o Reino Púrpura e nutre pelo rei os mesmos sentimentos que um dia abrigou seu coração, é preciso renunciar por enquanto à tristeza e à saudade — aconselhou o Peregrino. — Mostre-se leve e afetuosa,  permitindo até que ele se deite ao seu lado. Quando tiver conquistado sua plena confiança, convença-o a entregar-lhe a guarda dos sinos. Assim será possível roubá-los e detê-lo. Dessa forma, a senhora poderá retornar ao lado do seu esposo e viver com ele em harmonia e felicidade.

A rainha concordou de imediato. O Peregrino, depois de voltar a assumir a forma do fiel servidor do monstro, abriu as portas do palácio e chamou as criadas. Nesse mesmo instante, a rainha ergueu a voz e ordenou:

— Ida e Volta, vá depressa e comunique ao senhor que desejo vê-lo imediatamente. Tenho um assunto importante a tratar com ele.

O Peregrino respondeu em voz alta que assim faria e seguiu apressado até o Pavilhão do Esquartejamento. Ao encontrar o monstro, transmitiu o recado:

— A Rainha do Sagrado Palácio Dourado deseja se encontrar com o senhor imediatamente.

— Que estranho comentou o monstro, visivelmente animado. — Normalmente, ela demonstra apenas indiferença e desprezo por mim. O que terá feito ela mudar assim de repente?

— Talvez o fato de, ao perguntar pelo Senhor do Reino Púrpura, ter ouvido que ele já não nutria qualquer afeto por ela, e que havia tomado outra mulher como rainha — respondeu o Peregrino. — Ao saber disso, ela deixou de pensar nele e ordenou que eu viesse transmitir o recado.

— Que grande serviço você me prestou! — exclamou o monstro, visivelmente satisfeito. — Quando tiver acabado com aquele maldito reino, você será nomeado meu conselheiro pessoal.

Depois de agradecer, o Peregrino acompanhou o monstro até a ala posterior do palácio. Ali, a rainha o recebeu com um sorriso sedutor e os braços abertos. O monstro recuou, surpreso, e inclinou-se com respeito, dizendo:

— Sinto-me profundamente honrado. Não encontro palavras para agradecer tamanha demonstração de afeto. Ainda assim, não ouso tocá-la. A dor sentida nas mãos da outra vez ainda está viva na memória.

— Por favor, sente-se — disse ela. — Tenho algo importante a dizer.

— Fique à vontade — respondeu o monstro.

— Já se passaram três anos desde que demonstrou o seu afeto por mim — começou a rainha. —Mesmo sem termos compartilhado o leito, o destino parece indicar que o casamento é inevitável. Ainda assim, tenho a sensação de que algo está errado, como se não houvesse tratamento verdadeiro de esposa. Quando ainda era rainha do Reino Púrpura, sempre que os estados estrangeiros ofereciam tributos, cabia à mim guardá-los após a inspeção do rei. Aqui, quase não há tesouros: as roupas são de peles, a comida é carne crua, não se vê seda nem brocado, nem ouro ou pérolas. Tudo se resume a couros e pelagens.  É provável que existam tesouros, mas a distância mantida impede que sejam mostrados ou confiados à minha guarda.  Ouvi comentários, por exemplo, sobre alguns sinos ou gongos de grande valor. Dizem que são três e que nunca se separam de você. Não seria mais sensato deixá-los sob meus cuidados? Somos marido e mulher, e alguma confiança entre nós deveria existir. Caso contrário, resta apenas a impressão de que ainda sou tratada como alguém de fora.


— Você tem toda razão! — exclamou o monstro, tomado pela emoção. — Suas queixas são justas. Esses são, de fato, os únicos bens de valor que possuo. A partir de agora, ficarão sob sua guarda.

Observando atentamente, o Peregrino percebeu que, depois de levantar duas ou três camadas de roupa, o monstro trazia amarrados ao corpo três pequenos sinos. Ele os desatou e, depois de tapar as bocas com algodão, envolveu-os em um pedaço de pele de leopardo. 

— Apesar da aparência simples — disse, ao entregá-los à rainha —, é preciso guardá-los com muito cuidado, sem agitá-los nem fazê-los soar.

— Não há motivo para preocupação — respondeu ela, tentando tranquilizá-lo. — Vou escondê-los em meus aposentos, e tenha certeza de que ninguém lhes tocará. 

Voltou-se então para as donzelas e ordenou:

— Tragam vinho. Quero brindar ao nosso amor e à nossa felicidade.

Sem perder tempo, as donzelas trouxeram uma mesa e a cobriram com frutas, verduras e carne de veado e de coelho. Em seguida, encheram as taças com licor de coco. Enquanto isso, a rainha lançou mão de todos os seus encantos para atrair o monstro à armadilha. O Peregrino Sun não perdeu tempo. Sem ser notado, dirigiu-se à alcova e tomou, com extremo cuidado, os três sinos de ouro. 


O coração do Peregrino batia acelerado quando deixou o palácio. Ao chegar ao Pavilhão do Esquartejamento, ele abriu a pele de leopardo e examinou os objetos: o sino do meio não era maior que uma xícara de chá, enquanto os outros dois tinham o tamanho de um punho fechado. Ignorando o perigo que representavam, retirou o algodão que vedava suas bocas. No mesmo instante, ouviu-se um ruído ensurdecedor, e os sinos começaram a lançar uma quantidade incrível de fogo, fumaça e areia amarela. 


Em vão, o Peregrino tentou tapar a boca deles com o algodão. Num piscar de olhos, as chamas alcançaram uma altura assustadora e devoraram o pavilhão. Tomados pelo pânico, os demônios que estavam por ali correram à parte posterior do palácio para informar o ocorrido ao monstro, que gritou, fora de si:

— Apaguem o fogo imediatamente! O que estão esperando?

Em seguida, lançou-se em direção ao pavilhão, seguido por todos os seus. Logo avistou Ida e Volta com os sinos nãos mãos e, atirando-se sobre ele, berrou com fúria:

— Escravo miserável! Como se atreve a se apoderar dos meus sinos e a brincar com eles, como uma criança sem juízo? Isso merece castigo exemplar! Agarrem-no!


Os guerreiros-tigre, os oficiais-urso, os capitães-leopardo, os marechais-gato-do-mato, os elefantes, os lobos-cinzentos, as lebres astutas, os cervos atentos, as serpentes longas, as enormes pítons e o orangotango avançaram com tanta rapidez que o Peregrino foi obrigado a lançar os sinos para longe e reassumir sua forma verdadeira. Em seguida, empunhou o seu bastão de ferro com extremidades de ouro e enfrentou, com coragem extraordinária, aquela multidão enlouquecida de animais. 


Assim que o monstro recuperou seu precioso tesouro, ordenou com voz autoritária:

— Fechem os portões!

Os que estavam mais próximos obedeceram de imediato, enquanto os demais continuavam lutando. O Peregrino percebeu que seria quase impossível escapar daquela armadilha. Guardando rapidamente o bastão de ferro, sacudiu levemente o corpo e transformou-se numa mosca minúscula, pousando sobre uma das poucas pedras ainda de pé. Sem encontrá-lo em lugar algum, os demônios disseram, desconcertados:

— O ladrão conseguiu fugir.

— Alguém o viu sair pelo portão? — perguntou o monstro.

— Isso é impossível — responderam eles. — O portão foi fechado com todo cuidado.

— Nesse caso — concluiu o monstro —, revolvam a caverna de cima a baixo.

Enquanto alguns apagavam o fogo, outros vasculhavam cada canto, até mesmo debaixo das pedras, mas não encontraram sinal do ladrão.

— Quem teria a audácia de se passar por Ida e Volta, apresentar-se diante de mim e permanecer ao meu lado esperando a chance de roubar o que tenho de mais valioso? — rugiu o monstro. — Ainda bem que os sinos não foram levados para fora da caverna. Se isso tivesse acontecido e eles tivessem sido expostos ao vento que sopra nos picos da montanha, todos nós teríamos sido destruídos.

— Isso foi graças a imensa sorte do nosso senhor — disse o general-tigre, aproximando-se dele — e também ao fato de que ainda não chegou o nosso fim. Por isso fomos capazes de descobrí-lo a tempo.

— Esse ladrão — acrescentou o comandante-urso — só pode ser Sun Wukong, o mesmo que humilhou o primeiro mensageiro. Ele deve ter encontrado Ida e Volta e, depois de matá-lo, pegou o estandarte amarelo, o gongo e a placa com o nome dele e se fez passar por ele para enganar o senhor.


— Exatamente confirmou o monstro. — Só pode ter sido ele. Não desanimem e continuem a busca. É preciso impedir que ele escape daqui.

Assim aconteceu o que tantas vezes se repete: quando menos se espera, um plano realmente inteligente acaba se tornando ridículo, e aquilo que começou de forma criativa termina revestido de pura vulgaridade.

Por ora, não sabemos como o Peregrino Sun conseguiu escapar dos domínios do monstro. Quem quiser descobrir deverá ouvir com atenção as explicações que serão oferecidas no próximo capítulo.

CAPÍTULO LXXI EM BREVE


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Notas do Capítulo LXX
  1. Os taoístas acreditam firmemente que é possível deslocar-se pelo espaço sem qualquer auxílio externo, apenas por meio da perfeição alcançada com a prática de sua arte espiritual;
  2. Na literatura alquímica, as quatro estações não se referem apenas ao tempo do ano, mas aos diferentes tipos de energia (chi) que circulam pelo corpo humano;
  3. Os dois tipos de respiração, conhecidos como er-chi, estão ligados às duas forças primordiais do yin e do yang. No vocabulário alquímico, porém, o termo também designa a respiração comum e a respiração embrionária. Como o huang-tao, ou “caminho amarelo”, é um ponto localizado entre o coração e os rins, o texto sugere a necessidade de retornar ao modo de respirar próprio do embrião, considerado mais puro e essencial.
  4. As três mansões dizem respeito aos três elementos fundamentais do ser: a essência (ching), a energia vital (chi) e o espírito (shen);
  5. O monte Tai-Hang não é um pico isolado, mas uma extensa cordilheira que se estende pelas atuais províncias chinesas de Henan e Hebei;
  6. O “Arroio-que-supera-as-nuvens” (ling-yün-tu) é um curso de água mítico que, segundo a tradição, situa-se aos pés da Montanha do Espírito, considerada a morada de Buda;
  7. Em chinês, Youlai Youqu (有来有去).


  • Tradução em pt-br por Rodrigo Viany (Sleipnir). Favor não utilizar sem permissão.
  • Tradução baseada na tradução do chinês para o espanhol feitas por Enrique P. Gatón e Imelda Huang-Wang, e do chinês para o inglês feita por Collinson Fair.
fontes consultadas para a pesquisa:
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