20 de agosto de 2026

Gwyn ap Nudd

۞ ADM Sleipnir

Arte de Yuri Leitch

Gwyn ap Nudd (“Gwyn, filho de Nudd”) é uma figura sobrenatural da tradição galesa, especialmente associada a Annwn, o Outro Mundo da mitologia galesa. Nos textos medievais, aparece principalmente como guerreiro, caçador e personagem ligado a forças sobrenaturais. Fontes posteriores também o apresentam como rei de Annwn e dos  Tylwyth Teg, o povo das fadas.

Algumas características frequentemente atribuídas a Gwyn, como seu papel de psicopompo — ser responsável por conduzir as almas dos mortos — e sua posição como líder da Caçada Selvagem, foram desenvolvidas principalmente por interpretações posteriores de elementos presentes nas fontes medievais.

Registros antigos

Uma das referências mais antigas conhecidas a Gwyn encontra-se no chamado Diálogo de Gwyn ap Nudd e Gwyddno Garanhir, preservado no Livro Negro de Carmarthen, manuscrito produzido por volta de meados do século XIII. O poema, porém, pode ter sido composto ainda no final do século XI. No diálogo, Gwyn encontra Gwyddno Garanhir e oferece-lhe proteção. Ao ser questionado sobre sua identidade, apresenta-se como Gwyn, filho de Nudd, e como amante de Creiddylad, filha de Lludd. O texto também menciona seu cavalo, seu cão de focinho avermelhado Dormarch, e sua ligação com batalhas e personagens mortos.

Gwyn também afirma ter estado presente nos lugares onde morreram diferentes guerreiros, entre eles Gwenddoleu ap Ceidio, Llacheu ap Arthur e Meurig ap Careian. O poema menciona ainda a morte de um personagem chamado Brân, cuja identidade não pode ser determinada com segurança. Sua identificação com Brân, o Abençoado, filho de Llŷr, é uma interpretação posterior.

A associação recorrente de Gwyn com batalhas e guerreiros mortos levou alguns estudiosos a interpretá-lo como uma figura psicopômpica. O poema, entretanto, não afirma que ele recolha ou conduza as almas dos guerreiros, mas apenas que esteve presente nos lugares de suas mortes.

Arte de Amanda Lindupp

Gwyn em Culhwch ac Olwen

Gwyn desempenha um papel importante em Culhwch ac Olwen, uma das mais antigas narrativas arturianas galesas, cuja forma preservada costuma ser datada de aproximadamente 1100 EC. No conto, sua ligação com Annwn é particularmente evidente. O texto afirma, em linguagem influenciada pelo cristianismo medieval, que Gwyn recebeu poder sobre os “demônios de Annwn” para impedir que destruíssem o mundo. Essa referência reflete o contexto cristão em que a narrativa foi registrada, mas não significa que Annwn corresponda simplesmente ao inferno cristão.

Gwyn também participa da grande caçada ao javali monstruoso Twrch Trwyth, necessária para que Culhwch cumpra as tarefas impostas antes de se casar com Olwen. Sua presença é considerada indispensável à expedição. Para participar da perseguição, ele cavalga o cavalo mágico Du y Moroedd (“Negro dos Mares"), o único capaz de carrega-lo.

Gwyn e seu rival Gwythyr ap Greidawl também aparecem auxiliando Arthur em outros episódios da narrativa, incluindo a busca pelo sangue de Orddu, uma poderosa figura sobrenatural.

Arte de Waldo Retamales

Creiddylad e Gwythyr

Outro episódio importante de Culhwch ac Olwen envolve Creiddylad, filha de Lludd Llaw Ereint. Ela estava prometida a Gwythyr quando Gwyn a levou à força. Gwythyr reuniu seus homens e tentou recuperá-la, mas foi derrotado. Durante o conflito, vários membros do grupo de Gwythyr foram capturados. Entre eles estavam Nwython e seu filho Cyledr. Nwython foi morto, e Cyledr foi obrigado a comer o coração do próprio pai, enlouquecendo depois do episódio. Por isso, passou a ser conhecido como Cyledr Wyllt, “Cyledr, o Louco”. Arthur interveio na disputa e determinou que Creiddylad retornasse à casa do pai. “Gwyn e Gwythyr deveriam enfrentar-se a cada primeiro dia de maio até o Juízo Final. O vencedor do último combate ficaria com Creiddylad.

A relação entre Gwyn e Creiddylad não é totalmente clara nas fontes. Gwyn é apresentado como filho de Nudd, enquanto Creiddylad é filha de Lludd. Alguns estudiosos relacionam os nomes Nudd e Lludd, o que poderia indicar algum grau de parentesco entre os dois personagens. Culhwch ac Olwen, porém, não estabelece essa identificação. Assim, a interpretação de que a relação entre Gwyn e Creiddylad seria incestuosa depende de uma reconstrução posterior, e não de uma afirmação explícita do texto medieval.

Tradições medievais e posteriores

Gwyn continuou a aparecer na poesia galesa dos séculos seguintes. O poeta Dafydd ap Gwilym, do século XIV, menciona-o em diferentes obras. Em Y Dylluan (“A Coruja”), por exemplo, chama a coruja de “ave de Gwyn ap Nudd”, uma referência que contribuiu para sua associação posterior com ambientes noturnos e sobrenaturais. Em Y Pwll Mawn (“O Lamaçal”), o poeta também relaciona Gwyn a um local sobrenatural, descrevendo o pântano em que ele e seu cavalo caem como o “viveiro de peixes de Gwyn ap Nudd” e o “palácio” de seres sobrenaturais.


Outro registro importante aparece no Speculum Christiani, obra religiosa do século XIV. O texto condena uma prática popular na qual Gwyn era invocado quando alguém adoecia. O ritual envolvia dirigir-se até a porta levando fogo e ferro e mencionar Gwyn como uma figura situada nas florestas. Por ter sido registrado por um autor cristão contrário à prática, o relato apresenta a crença sob uma perspectiva hostil, mas constitui uma rara evidência de que o nome de Gwyn também estava presente em práticas populares da época.

Uma representação posterior encontra-se em Buchedd Collen (“A Vida de São Collen”), cuja versão mais antiga conhecida data de 1536. Nessa narrativa, Gwyn é apresentado como rei de Annwn e das fadas, com uma corte sobrenatural em Glastonbury. São Collen encontra Gwyn sentado em uma cadeira dourada e cercado por uma corte esplêndida. O santo, porém, considera aquele cenário uma ilusão demoníaca e asperge água benta sobre o local, fazendo Gwyn e seus seguidores desaparecerem. O episódio pertence a uma narrativa cristã sobre a vitória de um santo sobre forças sobrenaturais e, portanto, apresenta Gwyn de forma diferente dos textos galeses mais antigos.

Arte de Sulamoon

Annwn, as fadas e a Caçada Selvagem

Em fontes posteriores, Gwyn também aparece como soberano de uma corte sobrenatural. Sua associação com a Caçada Selvagem, porém, desenvolveu-se de forma mais gradual. Essa tradição, encontrada em diferentes regiões da Europa, descreve uma procissão ou caçada sobrenatural formada por cavaleiros, espíritos ou cães espectrais.

Os textos galeses fornecem alguns elementos que favoreceram essa aproximação. Gwyn aparece como caçador sobrenatural, possui o cão Dormarch e, em poesia posterior, é relacionado aos Cŵn Annwn, os “Cães de Annwn”. Esses motivos levaram estudiosos a compará-lo às tradições europeias de caçadas espectrais.

Os textos medievais, contudo, não apresentam Gwyn de forma explícita como comandante da Caçada Selvagem ou como condutor das almas dos mortos. Essa caracterização tornou-se mais definida em interpretações dos séculos XIX e XX, especialmente em estudos de mitologia comparada e, posteriormente, em algumas correntes neopagãs

Nome e relações mitológicas

O nome Gwyn pode significar “branco”, “claro” ou “brilhante” em galês e possui relação linguística com o irlandês Fionn. Essa proximidade levou alguns estudiosos a comparar Gwyn com Fionn mac Cumhaill, importante herói da tradição irlandesa.Também foram propostas relações entre Nudd, pai de Gwyn, o deus romano-britânico Nodens e o personagem irlandês NuadaEssas comparações pertencem à linguística histórica e à mitologia comparada e não demonstram que Gwyn e Fionn sejam versões do mesmo personagem, nem que Nudd, Lludd, Nodens e Nuada tenham sido concebidos originalmente como uma única divindade.

Interpretações modernas

Durante os séculos XIX e XX, estudiosos e autores interessados nas religiões célticas ampliaram algumas características atribuídas a Gwyn. Ele passou a ser descrito em determinadas obras como deus da morte, psicopompo e líder da Caçada Selvagem. Algumas dessas interpretações baseiam-se em características antigas do personagem, como sua ligação com Annwn, batalhas, mortos, cães sobrenaturais e atividades de caça. Ainda assim, os textos medievais não apresentam de forma sistemática todas essas funções.

Representações contemporâneas de Gwyn também aparecem em correntes neopagãs, nas quais ele pode receber atributos religiosos que não são documentados diretamente nas fontes medievais. Assim, é necessário distinguir a figura presente na literatura galesa antiga das interpretações desenvolvidas por estudiosos, escritores e movimentos religiosos posteriores.

Arte de Zedoras

fontes:
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