20 de agosto de 2026

Gwyn ap Nudd

۞ ADM Sleipnir

Arte de Yuri Leitch

Gwyn ap Nudd (“Gwyn, filho de Nudd”) é uma figura sobrenatural da tradição galesa, especialmente associada a Annwn, o Outro Mundo da mitologia galesa. Nos textos medievais, aparece principalmente como guerreiro, caçador e personagem ligado a forças sobrenaturais. Fontes posteriores também o apresentam como rei de Annwn e dos  Tylwyth Teg, o povo das fadas.

Algumas características frequentemente atribuídas a Gwyn, como seu papel de psicopompo — ser responsável por conduzir as almas dos mortos — e sua posição como líder da Caçada Selvagem, foram desenvolvidas principalmente por interpretações posteriores de elementos presentes nas fontes medievais.

Registros antigos

Uma das referências mais antigas conhecidas a Gwyn encontra-se no chamado Diálogo de Gwyn ap Nudd e Gwyddno Garanhir, preservado no Livro Negro de Carmarthen, manuscrito produzido por volta de meados do século XIII. O poema, porém, pode ter sido composto ainda no final do século XI. No diálogo, Gwyn encontra Gwyddno Garanhir e oferece-lhe proteção. Ao ser questionado sobre sua identidade, apresenta-se como Gwyn, filho de Nudd, e como amante de Creiddylad, filha de Lludd. O texto também menciona seu cavalo, seu cão de focinho avermelhado Dormarch, e sua ligação com batalhas e personagens mortos.

Gwyn também afirma ter estado presente nos lugares onde morreram diferentes guerreiros, entre eles Gwenddoleu ap Ceidio, Llacheu ap Arthur e Meurig ap Careian. O poema menciona ainda a morte de um personagem chamado Brân, cuja identidade não pode ser determinada com segurança. Sua identificação com Brân, o Abençoado, filho de Llŷr, é uma interpretação posterior.

A associação recorrente de Gwyn com batalhas e guerreiros mortos levou alguns estudiosos a interpretá-lo como uma figura psicopômpica. O poema, entretanto, não afirma que ele recolha ou conduza as almas dos guerreiros, mas apenas que esteve presente nos lugares de suas mortes.

Arte de Amanda Lindupp

Gwyn em Culhwch ac Olwen

Gwyn desempenha um papel importante em Culhwch ac Olwen, uma das mais antigas narrativas arturianas galesas, cuja forma preservada costuma ser datada de aproximadamente 1100 EC. No conto, sua ligação com Annwn é particularmente evidente. O texto afirma, em linguagem influenciada pelo cristianismo medieval, que Gwyn recebeu poder sobre os “demônios de Annwn” para impedir que destruíssem o mundo. Essa referência reflete o contexto cristão em que a narrativa foi registrada, mas não significa que Annwn corresponda simplesmente ao inferno cristão.

Gwyn também participa da grande caçada ao javali monstruoso Twrch Trwyth, necessária para que Culhwch cumpra as tarefas impostas antes de se casar com Olwen. Sua presença é considerada indispensável à expedição. Para participar da perseguição, ele cavalga o cavalo mágico Du y Moroedd (“Negro dos Mares"), o único capaz de carrega-lo.

Gwyn e seu rival Gwythyr ap Greidawl também aparecem auxiliando Arthur em outros episódios da narrativa, incluindo a busca pelo sangue de Orddu, uma poderosa figura sobrenatural.

Arte de Waldo Retamales

Creiddylad e Gwythyr

Outro episódio importante de Culhwch ac Olwen envolve Creiddylad, filha de Lludd Llaw Ereint. Ela estava prometida a Gwythyr quando Gwyn a levou à força. Gwythyr reuniu seus homens e tentou recuperá-la, mas foi derrotado. Durante o conflito, vários membros do grupo de Gwythyr foram capturados. Entre eles estavam Nwython e seu filho Cyledr. Nwython foi morto, e Cyledr foi obrigado a comer o coração do próprio pai, enlouquecendo depois do episódio. Por isso, passou a ser conhecido como Cyledr Wyllt, “Cyledr, o Louco”. Arthur interveio na disputa e determinou que Creiddylad retornasse à casa do pai. “Gwyn e Gwythyr deveriam enfrentar-se a cada primeiro dia de maio até o Juízo Final. O vencedor do último combate ficaria com Creiddylad.

A relação entre Gwyn e Creiddylad não é totalmente clara nas fontes. Gwyn é apresentado como filho de Nudd, enquanto Creiddylad é filha de Lludd. Alguns estudiosos relacionam os nomes Nudd e Lludd, o que poderia indicar algum grau de parentesco entre os dois personagens. Culhwch ac Olwen, porém, não estabelece essa identificação. Assim, a interpretação de que a relação entre Gwyn e Creiddylad seria incestuosa depende de uma reconstrução posterior, e não de uma afirmação explícita do texto medieval.

Tradições medievais e posteriores

Gwyn continuou a aparecer na poesia galesa dos séculos seguintes. O poeta Dafydd ap Gwilym, do século XIV, menciona-o em diferentes obras. Em Y Dylluan (“A Coruja”), por exemplo, chama a coruja de “ave de Gwyn ap Nudd”, uma referência que contribuiu para sua associação posterior com ambientes noturnos e sobrenaturais. Em Y Pwll Mawn (“O Lamaçal”), o poeta também relaciona Gwyn a um local sobrenatural, descrevendo o pântano em que ele e seu cavalo caem como o “viveiro de peixes de Gwyn ap Nudd” e o “palácio” de seres sobrenaturais.


Outro registro importante aparece no Speculum Christiani, obra religiosa do século XIV. O texto condena uma prática popular na qual Gwyn era invocado quando alguém adoecia. O ritual envolvia dirigir-se até a porta levando fogo e ferro e mencionar Gwyn como uma figura situada nas florestas. Por ter sido registrado por um autor cristão contrário à prática, o relato apresenta a crença sob uma perspectiva hostil, mas constitui uma rara evidência de que o nome de Gwyn também estava presente em práticas populares da época.

Uma representação posterior encontra-se em Buchedd Collen (“A Vida de São Collen”), cuja versão mais antiga conhecida data de 1536. Nessa narrativa, Gwyn é apresentado como rei de Annwn e das fadas, com uma corte sobrenatural em Glastonbury. São Collen encontra Gwyn sentado em uma cadeira dourada e cercado por uma corte esplêndida. O santo, porém, considera aquele cenário uma ilusão demoníaca e asperge água benta sobre o local, fazendo Gwyn e seus seguidores desaparecerem. O episódio pertence a uma narrativa cristã sobre a vitória de um santo sobre forças sobrenaturais e, portanto, apresenta Gwyn de forma diferente dos textos galeses mais antigos.

Arte de Sulamoon

Annwn, as fadas e a Caçada Selvagem

Em fontes posteriores, Gwyn também aparece como soberano de uma corte sobrenatural. Sua associação com a Caçada Selvagem, porém, desenvolveu-se de forma mais gradual. Essa tradição, encontrada em diferentes regiões da Europa, descreve uma procissão ou caçada sobrenatural formada por cavaleiros, espíritos ou cães espectrais.

Os textos galeses fornecem alguns elementos que favoreceram essa aproximação. Gwyn aparece como caçador sobrenatural, possui o cão Dormarch e, em poesia posterior, é relacionado aos Cŵn Annwn, os “Cães de Annwn”. Esses motivos levaram estudiosos a compará-lo às tradições europeias de caçadas espectrais.

Os textos medievais, contudo, não apresentam Gwyn de forma explícita como comandante da Caçada Selvagem ou como condutor das almas dos mortos. Essa caracterização tornou-se mais definida em interpretações dos séculos XIX e XX, especialmente em estudos de mitologia comparada e, posteriormente, em algumas correntes neopagãs

Nome e relações mitológicas

O nome Gwyn pode significar “branco”, “claro” ou “brilhante” em galês e possui relação linguística com o irlandês Fionn. Essa proximidade levou alguns estudiosos a comparar Gwyn com Fionn mac Cumhaill, importante herói da tradição irlandesa.Também foram propostas relações entre Nudd, pai de Gwyn, o deus romano-britânico Nodens e o personagem irlandês NuadaEssas comparações pertencem à linguística histórica e à mitologia comparada e não demonstram que Gwyn e Fionn sejam versões do mesmo personagem, nem que Nudd, Lludd, Nodens e Nuada tenham sido concebidos originalmente como uma única divindade.

Interpretações modernas

Durante os séculos XIX e XX, estudiosos e autores interessados nas religiões célticas ampliaram algumas características atribuídas a Gwyn. Ele passou a ser descrito em determinadas obras como deus da morte, psicopompo e líder da Caçada Selvagem. Algumas dessas interpretações baseiam-se em características antigas do personagem, como sua ligação com Annwn, batalhas, mortos, cães sobrenaturais e atividades de caça. Ainda assim, os textos medievais não apresentam de forma sistemática todas essas funções.

Representações contemporâneas de Gwyn também aparecem em correntes neopagãs, nas quais ele pode receber atributos religiosos que não são documentados diretamente nas fontes medievais. Assim, é necessário distinguir a figura presente na literatura galesa antiga das interpretações desenvolvidas por estudiosos, escritores e movimentos religiosos posteriores.

Arte de Zedoras

fontes:
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28 de julho de 2026

Abhartach

 ۞ ADM Sleipnir


Abhartach (também grafado Abhartagh, Abartach ou Avartagh) é um personagem do folclore irlandês associado às tradições sobre mortos-vivos. Sua lenda está ligada à região de Slaughtaverty (também registrada como Slaghtaverty ou Laghtaverty), próxima à atual vila de Glenullin, no condado de Londonderry, na Irlanda do Norte. O personagem foi registrado pela primeira vez por escrito pelo historiador irlandês Patrick Weston Joyce em The Origin and History of Irish Names of Places (1870), a partir de tradições orais da região.

O nome abhartach, de origem irlandesa, pode ser traduzido como "anão" ou "homem pequeno". Em muitas versões da lenda, ele é descrito como um homem de baixa estatura ou com alguma deformidade física. Independentemente da aparência, as narrativas o apresentam como um governante tirânico, praticante de magia e temido por seus súditos.

A lenda

Segundo a tradição registrada por Patrick Weston Joyce, Abhartach era um governante local conhecido por sua tirania e por seus conhecimentos de magia. Após ser morto por um chefe vizinho, foi sepultado, mas retornou do túmulo. Em vez de permanecer morto, voltou a exercer seu domínio sobre a população, obrigando o guerreiro a enfrentá-lo novamente. Mesmo depois de ser morto e enterrado outras vezes, Abhartach continuava retornando à vida.

Sem conseguir impedir seu retorno, o guerreiro procurou a orientação de um druida. O sábio explicou que Abhartach somente poderia ser derrotado mediante um ritual específico, que consistia em matá-lo com uma arma feita de madeira de teixo, enterrá-lo de cabeça para baixo e colocar uma grande pedra sobre sua sepultura para impedir que voltasse. Algumas versões posteriores também mencionam o uso de galhos de árvores consideradas sagradas, como o espinheiro (hawthorn) e a sorveira (rowan), ao redor do túmulo como parte do ritual.

A tradição local associa a lenda a um antigo monumento conhecido como Slaghtaverty, nome frequentemente interpretado como "sepultura de Abhartach" ou "monumento funerário do anão". O local continua sendo identificado pela tradição popular como o túmulo do personagem, embora não existam evidências arqueológicas que confirmem essa associação.

Local onde Abhartach é dito repousar em Glenullin, Derry

Variantes da tradição

Como ocorre com muitas narrativas do folclore irlandês, a história de Abhartach apresenta diversas variantes transmitidas pela tradição oral. A identidade do guerreiro que o derrota é um dos elementos que mais variam. Na versão registrada por Patrick Weston Joyce, o personagem é descrito apenas como um chefe vizinho. Em outras tradições, o feito é atribuído ao herói Fionn mac Cumhaill, uma das principais figuras da mitologia irlandesa, enquanto recontagens mais recentes identificam o guerreiro como Cathán, associado pela tradição local ao clã O'Cahan (O'Kane).

Também variam as figuras responsáveis por revelar o ritual que impediria o retorno de Abhartach. Nas versões mais antigas esse papel cabe a um druida, ao passo que narrativas posteriores, influenciadas pela cristianização da Irlanda, substituem o sacerdote pagão por um santo local, geralmente identificado como São Eoghan ou São João.

Outros elementos aparecem apenas em adaptações modernas da lenda. Entre eles estão a narrativa segundo a qual Abhartach teria morrido ao cair de uma janela enquanto tentava surpreender sua esposa, suspeitando de infidelidade, e a descrição de que retornava do túmulo para beber o sangue de seus súditos. Embora essas versões tenham contribuído para aproximar o personagem da imagem moderna do vampiro, elas não fazem parte da tradição registrada por Patrick Weston Joyce e representam desenvolvimentos posteriores da narrativa oral.


Relação com os vampiros

Abhartach é frequentemente associado ao conceito moderno de vampiro por retornar da morte e alimentar-se de sangue humano. Nas fontes tradicionais irlandesas, porém, ele se aproxima mais da figura do revenant, termo utilizado para designar um morto que retorna ao mundo dos vivos. Da mesma forma, o termo gaélico marbh bheo ou murbhheo significa literalmente "morto-vivo", sendo a tradução como "vampiro" uma interpretação posterior baseada nas características da narrativa.

Alguns pesquisadores sugerem que a lenda de Abhartach possa ter influenciado, direta ou indiretamente, a criação de Drácula, personagem de Bram Stoker. Essa hipótese baseia-se em semelhanças entre as histórias e na origem irlandesa do escritor, mas não existe consenso acadêmico que confirme essa relação.


fontes:
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14 de julho de 2026

Aibell

۞ ADM Sleipnir

Arte de Xenia Vidiakina

Aibell (também chamada Aíbell, Aoibheall ou Aoibhill e anglicizada como Aeval ou Eevill) é uma figura sobrenatural da tradição irlandesa associada ao norte de Munster, especialmente à região de Killaloe e à dinastia Ó Bríen. Dependendo da fonte e do período, ela é descrita como uma antiga deusa, uma mulher do síd ou uma rainha das fadas. Nas tradições preservadas, Aibell aparece principalmente como soberana de uma morada sobrenatural, protetora de uma linhagem regional e anunciadora de acontecimentos relacionados à morte.
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9 de abril de 2026

Flidais

۞ ADM Sleipnir


Flidais (também grafada como Flidas, Fliodhas ou Fliodhais), às vezes chamada pelo epíteto Foltchaín (“a de belos cabelos”), é uma importante deusa da mitologia celta/irlandesa. Associada às feras, à fertilidade e à abundância, ela representa a ligação entre o mundo doméstico e a natureza selvagem. Por isso, é vista tanto como senhora dos rebanhos quanto como soberana dos animais da floresta, especialmente os cervos. Em várias tradições, Flidais é descrita viajando em uma carruagem puxada por cervos.

Flidais aparece em várias fontes antigas da literatura irlandesa. No Metrical Dindshenchas, ela é citada como mãe de Fand (consorte do deus do mar Manannán mac Lir). Já o Lebor Gabála Érenn atribui a ela outros filhos, como Argoen, Bé Téite, Dinand e Bé Chuille. Duas dessas filhas, Dinand e Bé Chuille, mostram aspectos contraditórios: em um texto são descritas como "agricultoras", mas em outro, durante a Segunda Batalha de Moytura,  surgem como feiticeiras poderosas, prometendo usar magia para transmutar árvores, pedras e o solo em um exército contra os Fomorianos.


No glossário medieval Cóir Anmann (“A Adequação dos Nomes”), Flidais é apresentada como consorte do grande rei Adamair e mãe de Nia Segamain. O nome de seu filho, que pode ser entendido como “Campeão das Corças”, ajuda a explicar os poderes da deusa: graças à herança de Flidais, Nia Segamain conseguia ordenhar corças selvagens como se fossem vacas domésticas, o que reforça o domínio de sua mãe sobre os animais da floresta.

Flidais possui um papel de destaque no Ciclo de Ulster. No conto Táin Bó Flidhais (“A Incursão ao Gado de Flidais”), ela abandona o marido Ailill Finn para se unir ao herói Fergus mac Róich. Outro texto, o Scéla Conchobair (“As Notícias de Conchobar”), afirma que Fergus, famoso por sua força e vigor sexual, precisava de sete mulheres para satisfazê-lo, exceto quando estava com Flidais. Durante os eventos do Táin Bó Cúailnge, o rebanho mágico da deusa, liderado por sua vaca Maol. fornecia leite suficiente para sustentar todo o exército de Fergus e da rainha Medb.


fontes:
  • MONAGHAN, P. Encyclopedia of goddesses and heroines. Novato, California: New World Library, 2014.
  • MONAGHAN, P. The encyclopedia of Celtic mythology and folklore. New York, N.Y.: Checkmark Books, 2008.


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17 de março de 2026

Crom Cruach

۞ ADM Sleipnir

Arte de Ken Duerksen

Crom Cruach (irlandês antigo: Cromm Crúaich) é uma divindade ou ídolo associado à religião pagã da Irlanda pré-cristã. As principais informações sobre ele provêm de fontes medievais cristãs, especialmente textos de dindshenchas (tradições sobre a origem de lugares) e narrativas hagiográficas relacionadas a São Patrício. Nessas fontes, Crom Cruach aparece como uma figura central de culto em Magh Slécht, no atual condado de Cavan, sendo descrito como um ídolo cercado por doze outras imagens e associado a rituais destinados a garantir fertilidade e prosperidade.

A tradição cristã afirma que o culto a Crom Cruach teria sido encerrado por São Patrício, que destruiu sua imagem cultual durante o processo de cristianização da Irlanda. Embora essas narrativas sejam importantes para a compreensão da tradição literária medieval, estudiosos consideram que muitas delas refletem interpretações ou reelaborações cristãs de crenças pagãs anteriores.


Nome e etimologia

O nome Crom Cruach aparece em diferentes formas nas fontes medievais, incluindo Cromm Crúaich, Crom Cróich, Cenn Cruach e Cenncroithi.

O elemento crom (ou cromm) significa “curvado”, “inclinado” ou “dobrado”. Já cenn significa “cabeça”, podendo também ter o sentido de “chefe” ou “principal”. O termo cruach possui vários significados possíveis, incluindo “monte”, “pilha” ou “amontoado”, geralmente aplicado a feixes de grãos, feno ou outros produtos agrícolas. Por extensão, também pode designar colinas ou montes que lembram pilhas de colheita.

Essas diferentes interpretações levaram a várias propostas de tradução para o nome da divindade, como “o curvado do monte”, “cabeça do monte” ou outras variantes simbólicas. Algumas interpretações também relacionam o nome a ideias de sacrifício ou sangue, embora essa associação seja discutida entre os pesquisadores.

Referências literárias

A principal referência a Crom Cruach aparece em um poema de dindshenchas preservado no Livro de Leinster, compilado no século XII, mas baseado em tradições consideradas mais antigas. O texto descreve o ídolo de Crom Cruach como uma figura central de ouro cercada por doze figuras de pedra ou bronze, situada em Magh Slécht (“planície da prostração”).

Segundo a narrativa, o deus recebia sacrifícios para garantir abundância de leite e grãos, o que sugere uma possível função como divindade ligada à fertilidade ou à prosperidade agrícola. Em algumas versões da tradição, esses rituais incluiriam sacrifícios humanos, especialmente de primogênitos. No entanto, muitos estudiosos consideram que essa descrição pode refletir influências das tradições bíblicas ou da literatura cristã medieval, sendo difícil determinar até que ponto corresponde a práticas religiosas históricas.


Outro episódio associado ao culto afirma que o Alto Rei Tigernmas e grande parte de seus seguidores teriam morrido enquanto prestavam culto a Crom Cruach durante o festival de Samhain. A narrativa afirma que três quartos dos homens da Irlanda teriam perecido nesse evento em Magh Slécht.

Nas tradições hagiográficas medievais, como a Vita Tripartita Sancti Patricii  ("A Vida Tripartida de São Patrício"), o santo teria destruído a imagem do deus ao erguer seu báculo, fazendo com que o ídolo principal caísse e os demais afundassem na terra. Algumas versões acrescentam que um demônio que habitava a imagem foi expulso por Patrício e lançado ao inferno. Esse episódio tornou-se um elemento recorrente nas lendas sobre a cristianização da Irlanda.

Crom Cruach e São Patrício. Ilustração de L.D. Symington.

Interpretações religiosas

As descrições do culto sugerem que Crom Cruach poderia ter desempenhado diferentes funções simbólicas dentro da religião irlandesa antiga. A associação com pedidos de abundância agrícola levou alguns estudiosos a interpretá-lo como um deus da fertilidade.

Outra interpretação baseia-se na descrição da imagem central coberta de ouro e rodeada por doze figuras, o que já foi interpretado como uma possível representação solar, na qual a figura central simbolizaria o Sol cercado por doze entidades associadas aos ciclos do ano ou aos signos do zodíaco. Essa hipótese, porém, permanece especulativa.

Algumas tradições populares também descrevem a divindade com postura curvada, às vezes carregando um feixe de grãos sobre as costas, o que poderia relacioná-la simbolicamente ao trabalho agrícola e à colheita.

Relações com outras figuras

Crom Cruach é frequentemente associado à figura folclórica Crom Dubh, uma personagem presente em tradições populares irlandesas posteriores. O nome Crom Dubh, que pode ser traduzido como “o curvado negro”, aparece ligado a festividades sazonais, especialmente ao Domhnach Crom Dubh (“Domingo de Crom Dubh”), celebrado no primeiro domingo de agosto. Alguns estudiosos consideram que Crom Dubh pode representar uma transformação folclórica tardia da antiga divindade ou de tradições relacionadas ao seu culto.

Evidências arqueológicas

Alguns achados arqueológicos foram associados ao possível culto de Crom Cruach. Um dos mais citados é a chamada Pedra de Killycluggin, descoberta em 1921 no condado de Cavan. A pedra possui forma arredondada e é decorada com motivos da cultura La Tène da Idade do Ferro. Ela foi encontrada fragmentada e parcialmente enterrada perto de um círculo de pedras da Idade do Bronze, sugerindo que o local pode ter tido importância ritual. Apesar de seu estado fragmentário, a pedra foi parcialmente reconstruída e atualmente é preservada no Museu do Condado de Cavan, enquanto uma réplica foi colocada próximo ao local da descoberta.

Pedra de Killycluggin

Outro monumento que já foi relacionado à tradição de Crom Cruach é uma pedra ereta em Drumcoo, no condado de Fermanagh, que apresenta a figura gravada de um homem caminhando, interpretada por alguns como São Patrício ou como um druida.

Pedra de Drumcoo


Interpretação histórica

A maior parte das informações sobre Crom Cruach provém de textos cristãos medievais, escritos séculos após a provável existência do culto. Por isso, muitos historiadores consideram que as descrições podem refletir interpretações cristãs destinadas a retratar os antigos cultos pagãos como demoníacos ou bárbaros, especialmente no contexto da narrativa da conversão da Irlanda. Durante a expansão do cristianismo na Europa, era comum que antigas divindades fossem reinterpretadas como demônios ou ídolos malignos, processo que provavelmente influenciou a forma como Crom Cruach foi retratado nas fontes medievais.

Apesar dessas limitações, Crom Cruach permanece uma das figuras mais conhecidas associadas às tradições religiosas da Irlanda pré-cristã e continua sendo objeto de interesse em estudos sobre mitologia celta, religião comparada e história cultural da Irlanda.

Cultura Popular
  • No longa de animação irlandês The Secret of Kells (2009), Crom Cruach é retratado como uma criatura serpentina de um único olho, associada às trevas e ao desaparecimento das fadas; o herói precisa derrotá‑lo para obter a “lente” que permitirá iluminar o Livro de Kells;
  • Ensaios sobre Crom Cruach apontam que o deus fictício “Crom” de Robert E. Howard (adorado pelos cimérios e invocado por Conan) foi inspirado no nome e na reputação sombria de Crom Cruach;
  • O escritor Brian McNaughton incorporou Crom Cruach ao Mythos de Cthulhu como uma entidade ligada a Shub‑Niggurath, aparecendo descrito como um verme ou dragão colossal; materiais de RPG da Chaosium o utilizam como deus ou monstro para cenários de horror cósmico.
  • Na série de fantasia Sláine, de Pat Mills, Crom Cruach aparece como um monstruoso "verme do tempo" alimentando-se da miséria humana;
  • Em High School DxD, Crom Cruach aparece como um “Evil Dragon” conhecido como “Crescent Circle Dragon”, descrito como o mais poderoso dos dragões malignos;
  • Na franquia de jogos Megami Tensei / Shin Megami Tensei, Crom Cruach aparece como demônio/Persona, tipicamente classificado entre criaturas dracônicas, e seu verbete in‑game o descreve como antigo deus de fertilidade irlandês que exigia sacrifícios humanos, derrotado por São Patrício.
  • No cardgame Cardfight Vanguard, há uma carta inspirada no deus chamada Dark Knight, Crow Cruach;
  • No MMORPG Mabinogi (Nexon), Cromm Cruaich é o chefe da “Geração 3”, reapresentado como dragão poderoso ligado a antigos cultos irlandeses. Já em Vindictus, prequel de Mabinogi, Cromm Cruaich retorna como chefe final da segunda temporada, com forma humanoide e status de “deus demônio”.
  • A banda irlandesa de folk metal Cruachan lançou a faixa “Crom Cruach” no álbum Blood for the Blood God (2014), apresentando o deus como ídolo sedento de sangue e senhor sombrio da colheita, em consonância com a leitura moderna de um deus de sacrifícios.
  • Há também uma banda de metal com o nome Crom Cruach, ativa pelo menos desde meados da década de 2010, cujo repertório inclui faixas como “Blood Sucker, Goat Fucker” no álbum Defilers of the Noise.
Arte de @metalratrox

fontes:

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15 de janeiro de 2026

Arduinna

۞ ADM Sleipnir

Arte de Gauvin REMY

Arduinna (também grafada Arduina, Arduinne ou Arduinnae) foi uma deusa da religião gaulesa, associada à Floresta das Ardenas e às regiões montanhosas da antiga Gália, área que atualmente corresponde a partes da Bélgica, Luxemburgo, França e Alemanha. Seu culto é atestado principalmente durante o período gálo-romano, quando passou a ser identificada com a deusa romana Diana.

Etimologia

O nome Arduinna deriva do termo gaulês arduo, que significa “altura”, “elevação” ou “planalto”, indicando uma relação com áreas elevadas e densamente florestadas. A raiz do nome também está presente em diversos topônimos europeus associados a regiões montanhosas e florestais.


Características e culto

Arduinna era associada à natureza selvagem, à caça e às florestas. Fontes arqueológicas e interpretações modernas sugerem que era concebida como uma divindade caçadora, protetora tanto dos animais quanto dos caçadores. Um de seus principais atributos simbólicos é o javali, animal recorrente na iconografia e de grande importância na cultura celta.

Durante o período romano, seu culto foi sincretizado com o de Diana, prática comum na Gália romanizada. Apesar dessa associação, Arduinna manteve características próprias, especialmente sua ligação com o javali, ausente na iconografia clássica de Diana.

Representações arqueológicas

Existem pelo menos duas estatuetas de bronze, datadas da Antiguidade, tradicionalmente associadas a Arduinna. Uma delas encontra-se no Museu Nacional de Antiguidades, na França, e representa uma figura feminina montada lateralmente sobre um javali, segurando uma faca. A outra está preservada no British Museum, em Londres, e apresenta características semelhantes.

Nenhuma dessas estatuetas possui inscrições que identifiquem explicitamente a figura representada. A atribuição a Arduinna, proposta no século XIX, baseia-se principalmente na presença do javali, animal característico da região das Ardenas.



Inscrições

O nome de Arduinna é conhecido por meio de duas inscrições antigas. Uma foi encontrada em Düren, na atual Alemanha, dedicada à deusa Ardbinnae. A outra inscrição, localizada em Roma, apresenta o nome Arduinne; no entanto, alguns estudiosos questionam essa leitura, sugerindo que o texto possa referir-se a Saturno.

Apesar do número limitado de inscrições, essas evidências indicam que o culto à deusa não se restringia exclusivamente à região das Ardenas.

Declínio do culto

O declínio do culto a Arduinna está relacionado ao processo de cristianização da Europa Ocidental. No século VI, o missionário cristão Walfroy (ou Wulfilaich) teria promovido a destruição de um santuário dedicado a “Diana” nas Ardenas, conforme relatado por Gregório de Tours. Pesquisadores modernos consideram possível que esse local fosse originalmente dedicado a Arduinna, reinterpretada sob influência romana.

Legado

O nome de Arduinna sobrevive em diversos topônimos, como as Ardenas (na Bélgica, França e Luxemburgo) e a Floresta de Arden, na Inglaterra. O nome também aparece em registros onomásticos antigos, como Arduunus e Arda.

Na cultura contemporânea, Arduinna inspirou o nome do asteroide 394 Arduina, descoberto em 1894, e é mencionada na série televisiva francesa Black Spot (Zone Blanche), que faz referência à deusa por meio de um grupo fictício chamado “Os Filhos de Arduinna”.

Arte de Cyrril Barreaux

fontes:
  • PETER BERRESFORD ELLIS. Dictionary of Celtic mythology. New York: Oxford University Press, 1994.
  • GIENNA MATSON. Celtic mythology A to Z. New York: Facts On File, 2004.
  • MONAGHAN, P. The Encyclopedia of Celtic Mythology and Folklore. [s.l.] Infobase Publishing, 2014.
  • WIKIPEDIA CONTRIBUTORS. Arduinna. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Arduinna>.

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4 de novembro de 2025

Finnbennach

۞ ADM Sleipnir

Finnbennach (também grafado como Findbennach, Finnbhennach ou Fionn Bheannach) é uma criatura mítica do folclore irlandês, descrita como um magnífico touro de chifres brancos. Ele figura principalmente no Ciclo do Ulster, aparecendo na epopeia conhecida como Táin Bó Cúailnge ("A Invasão do Gado de Cooley").

Origem mitológica

Segundo a tradição, Finnbennach era a reencarnação de um porcineiro chamado Rucht, que mantinha uma rivalidade eterna com outro porcineiro chamado Friuch. Após suas mortes, ambos começaram a reencarnar sucessivamente em diferentes formas de animais, sempre reatando a disputa. Lutaram como corvos no céu, como veados nas florestas e, mais tarde, como vermes d’água em lagos distantes.

Na forma de vermes, impossibilitados de se enfrentarem fisicamente, os dois começaram a planejar suas próximas encarnações. Rucht sussurrou à rainha Medb, da província de Connacht, que se casasse com Ailill mac Mata, enquanto Friuch influenciou o rei de Cuailnge a se preparar para um conflito envolvendo um touro. Posteriormente, os dois vermes se colocaram em posição para serem ingeridos por vacas, o que permitiu que renascessem como touros.

Rucht reencarnou como Finnbennach, o touro mais imponente de Connacht. Contudo, ele rejeitava ser propriedade de uma mulher, e por isso abandonou Medb, indo se juntar ao rebanho de Ailill mac Mata, seu consorte. Essa mudança provocou um desequilíbrio de poder entre Medb e Ailill, motivando a rainha a buscar um touro igualmente grandioso para restaurar sua posição.

Conflito com Donn Cuailnge

A busca de Medb levou à descoberta de Donn Cuailnge, o "Touro Marrom de Cooley", que vivia sob os cuidados de Daire, um rei menor do Ulster. Medb enviou emissários com uma proposta generosa, oferecendo grande riqueza e até mesmo seus favores sexuais em troca do empréstimo do touro por um ano. No entanto, a proposta fracassou quando Daire soube que os homens da rainha planejavam roubar o animal. Isso resultou em uma negativa furiosa por parte do rei.

O episódio desencadeou a Táin Bó Cúailnge, uma famosa guerra mitológica entre Connacht e Ulster. No desenlace da história, Finnbennach e Donn Cuailnge se encontram e, ao se verem, entram em combate imediato. Finnbennach acaba sendo morto por Donn Cuailnge, mas não sem antes ferir mortalmente seu oponente. Donn Cuailnge sucumbe pouco tempo depois aos ferimentos causados pela luta.



fontes:
  • MONAGHAN, P. The Encyclopedia of Celtic Mythology and Folklore. [s.l.] Infobase Publishing, 2014.
  • ‌BANE, T. Encyclopedia of Beasts and Monsters in Myth, Legend and Folklore. [s.l.] McFarland, 2016.
  • ‌PETER BERRESFORD ELLIS. Dictionary of Celtic mythology. New York: Oxford University Press, 1994.

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5 de outubro de 2025

Caturix

۞ ADM Sleipnir

Arte de Jose Muñoz

Caturix (gaulês, “rei da batalha”) foi um deus da guerra venerado pelos Helvécios, povo celta da região correspondente à atual Suíça. Posteriormente, foi incorporado ao panteão romano como Mars Caturix, uma forma local de Marte. Não há mitos conhecidos associados a essa divindade, mas seu culto foi significativo na Helvécia romana, com templos identificados em Avêntico (atual Avenches) e Nonfoux, além de inscrições votivas em locais como Yverdon. Ao todo, seis inscrições dedicadas a Caturix foram registradas, a maioria na Suíça, com um exemplar isolado em Böckingen, Alemanha, sugerindo que seu culto se difundiu por meio de soldados ou mercadores.

O nome Caturix deriva da raiz gaulesa catu- (“batalha”) e -rix (“rei”), e variações ligadas a ele incluem Caisivus e possivelmente Cicollus. Alguns estudiosos sugerem que Caturix teria sido originalmente um epíteto de Toutatis, outra divindade guerreira celta. A tribo dos Caturiges (“reis da batalha”), que habitava a região alpina da atual França, provavelmente derivava seu nome desse deus. Sua capital, Eburodunum (atual Embrun), compartilha o nome com Eburodunum (Yverdon), indicando possíveis laços culturais ou migratórios entre os Caturiges e os Helvécios.


fonte:


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30 de setembro de 2025

Aillén Mac Midgna

۞ ADM Sleipnir


Aillén Mac Midgna (ou simplesmente Aillén) era na mitologia celta/irlandesa um monstro cuspidor de fogo, ora descrito como sendo uma fada, ora como um goblin. Também chamado de “O Incendiário”, Aillén era um músico membro da tribo dos Tuatha Dé Danann, os antigos deuses e heróis da Irlanda pré-cristã. Ele hipnotizava suas vítimas ao tocar uma melodia encantadora em sua harpa de fada, fazendo com que todos ao redor caíssem em um sono profundo e inescapável.

Durante 23 anos consecutivos, Aillén aterrorizou o local mais sagrado da Irlanda: a colina de Tara, sede do Grande Rei da Irlanda. A cada véspera de Samhain — o festival celta que marca o fim do verão e o início do ano novo — Aillén surgia em Tara, tocava sua harpa mágica com fervor e, quando todos os presentes adormeciam, ele incendiava os grandes salões reais com sua respiração flamejante. Depois de reduzir tudo a cinzas, retornava tranquilamente ao seu monte encantado em Sídh Finnachaid, deixando o povo para reconstruir tudo, apenas para repetir a tragédia no ano seguinte.


Ninguém conseguia detê-lo, pois o feitiço de sua música impedia qualquer tentativa de defesa ou ataque. Isso perdurou até que surgiu Fionn mac Cumhaill, o herói lendário da Irlanda. Após provar seu valor e conquistar um lugar entre os guerreiros Fianna, Fionn soube das atrocidades de Aillén e decidiu enfrentá-lo. Detentor do conhecimento absoluto adquirido ao provar o Salmão da Sabedoria, Fionn pediu ao Rei Supremo a liderança dos Fianna, prometendo derrotar Aillén em troca. Como nenhum guerreiro havia conseguido sequer resistir ao monstro, o rei aceitou o acordo.

Sabendo que não era imune à música mágica de Aillén, Fionn buscou uma solução. Outro guerreiro, Fiacha, possuía uma lança envenenada, mas não sabia usá-la. Fionn, com sua sabedoria, sabia exatamente como manipulá-la. 


Na véspera do Samhain, ele inalou os vapores tóxicos da lança, que eram tão potentes que o mantiveram desperto e protegido contra o encantamento de Aillén. Quando o mesmo apareceu e começou a tocar sua harpa, todos ao redor adormeceram — exceto Fionn. Ele esperou o momento certo, aproximou-se sorrateiramente e, com um golpe preciso, transpassou Aillén com a lança envenenada, matando-o e libertando Tara de sua maldição anual.

Fiel à sua palavra, o rei concedeu a Fionn o comando dos Fianna. Goll mac Morna, líder do grupo até então e antigo inimigo de Fionn, renunciou ao seu posto e jurou lealdade ao novo capitão. Assim, Fionn mac Cumhaill iniciou sua jornada como um dos maiores heróis da mitologia irlandesa, marcando o fim de uma era de terror e o início de uma nova liderança lendária.

fontes:

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23 de junho de 2025

Pryderi

۞ ADM Sleipnir

Arte de Trejoeeee

Pryderi fab Pwyll ("Pryderi, filho de Pwyll") é um dos grandes heróis da mitologia galesa, filho de Pwyll, rei de Dyfed, e Rhiannon, uma figura ligada ao Outro Mundo. Ele é o único personagem que aparece em todos os quatro ramos do Mabinogion, uma coleção de histórias medievais galesas, o que sugere sua importância na tradição mitológica. Sua vida é marcada por eventos extraordinários, desde um nascimento misterioso até uma morte trágica, envolvendo magia, guerras e aventuras no reino dos mortais e no Outro Mundo.

Nascimento e Infância

Pryderi nasceu em Arberth, capital de Dyfed. Na noite de seu nascimento, seis damas de companhia de Rhiannon foram encarregadas de vigiá-lo. Porém, ao amanhecer, o bebê havia desaparecido. Temendo a ira de Pwyll, as mulheres conspiraram para culpar Rhiannon: sacrificaram um filhote de cão e esfregaram seu sangue no rosto da rainha adormecida, acusando-a de ter devorado o próprio filho. Como punição, Rhiannon foi condenada a carregar visitantes nas costas como uma égua — humilhação que durou anos.

Enquanto isso, o verdadeiro destino do bebê era mais extraordinário. Teyrnon, senhor de Gwent Is-Coed, tinha uma égua que, toda primavera, paria um potro que misteriosamente desaparecia. Determinado a resolver o mistério, Teyrnon montou guarda no estábulo e testemunhou uma cena aterradora: uma mão gigantesca e peluda surgiu pela janela, agarrando o potro recém-nascido. 



Teyrnon cortou a mão com sua espada e, ao sair, encontrou um bebê envolto em seda dourada. Ele e sua esposa criaram a criança como seu próprio filho, nomeando-a Gwri Wallt Euryn ("Gwri dos Cabelos Dourados"), devido aos seus cachos brilhantes como ouro.

Em poucos anos, Gwri atingiu a força e a estatura de um adolescente. Sua semelhança com Pwyll tornou-se inegável, e Teyrnon, reconhecendo sua origem real, devolveu-o a Dyfed. Rhiannon, liberta de sua penitência, batizou-o de Pryderi ("Preocupação"), declarando:
"Meu sofrimento acabou, mas meu cuidado (pryder) por ele nunca cessará."
Ascensão ao Trono e a Expansão de Dyfed

Após a morte de Pwyll, Pryderi tornou-se rei de Dyfed, e o seu reinado foi marcado por sua ambição militar. Pryderi expandiu seu domínio, conquistando as regiões de Ystrad Tywi e Ceredigion, unificando boa parte do sul do País de Gales. Sua esposa e rainha foi  Cigfa, filha de Gwyn Gohoyw, embora poucos detalhes de seu matrimônio sobrevivam nos textos.

Um episódio pouco explorado, mas significativo, é sua anexação de Morgannwg (atual Glamorgan). Diferentemente de outras conquistas, essa campanha não é narrada no Mabinogion, mas é mencionada em genealogias medievais, sugerindo que Pryderi consolidou Dyfed como um reino poderoso antes dos eventos trágicos que se seguiram.

A Guerra da Irlanda e a Cabeça Falante de Bran

Pryderi participou de uma das guerras mais épicas da mitologia galesa: o conflito entre Bendigeidfran (Bran, o Abençoado) e Matholwch, rei da Irlanda. Tudo começou quando Branwen, irmã de Brân, foi oferecida em casamento a Matholwch para selar uma aliança. Porém, Efnisien, meio-irmão de Branwen, enfureceu-se por não ter sido consultado e mutilou os cavalos irlandeses. Para reparar a ofensa, Brân presenteou Matholwch com um caldeirão mágico capaz de ressuscitar mortos — ironicamente, o mesmo objeto que mais tarde seria usado contra os britânicos.

Na Irlanda, Branwen foi maltratada e enviou um pássaro treinado como mensageiro para pedir ajuda a Bran. Pryderi uniu-se ao exército que cruzou o mar. Bran era tão colossal que andou sobre as águas, enquanto os navios transportavam seu exército.

Os irlandeses, fingindo submeter-se, construíram uma enorme casa para Bran, mas esconderam guerreiros em sacos de farinha. Efnisien, desconfiado, esmagou os crânios dos inimigos ocultos. No banquete que se seguiu, ele lançou Gwern, filho de Branwen e Matholwch, numa fogueira, desencadeando um massacre. Os irlandeses usaram o caldeirão para reviver seus mortos, mas Efnisien destruiu-o, sacrificando-se no processo.

Daquele conflito, apenas sete homens sobreviveram, incluindo Pryderi e Manawydan, irmão de Bran. O rei gigante, mortalmente ferido, ordenou que sua cabeça fosse cortada e levada para a Britânia. A cabeça de Bran manteve-se consciente, entretendo os sobreviventes com conversas e canções durante 80 anos em Gwales (identificada como a ilha de Grassholm), onde o tempo parecia não passar. Quando finalmente a enterraram em Londres, ela se tornou um talismã contra invasões estrangeiras.


O Encantamento de Dyfed e o Castelo de Ouro

De volta a Dyfed, Pryderi convidou Manawydan para viver em seu reino e o casou com sua mãe, Rhiannon. Durante um banquete em Arberth, uma névoa sobrenatural envolveu a terra, e todos os habitantes — exceto Pryderi, Rhiannon, Manawydan e Cigfa — desapareceram. As plantagens morreram, os animais sumiram, e Dyfed tornou-se um deserto.

Os quatro viajaram para a Inglaterra, onde trabalharam como artesãos, mas foram perseguidos por invejosos. Ao retornarem, caçaram um javali branco que os levou a um castelo dourado. Ignorando os avisos de Manawydan, Pryderi entrou e viu um cálice de ouro flutuando no ar. Ao tocá-lo, ficou paralisado e mudo. Rhiannon, tentando resgatá-lo, sofreu o mesmo destino. Ambos desapareceram junto com o castelo.

Manawydan descobriu que o responsável era Llwyd ap Cil Coed, um poderoso feiticeiro que buscava vingança pela humilhação de seu amigo Gwawl ap Clud — antigo pretendente de Rhiannon, derrotado por Pwyll anos antes. Usando astúcia, Manawydan capturou a esposa de Llwyd e forçou-o a libertar Pryderi e Rhiannon, desfazendo a maldição sobre Dyfed.

A Traição de Gwydion e a Morte de Pryderi

O destino final de Pryderi foi selado por Gwydion, um mago e guerreiro de Gwynedd. Disfarçado de bardo, Gwydion enganou Pryderi, roubando-lhe os porcos do Outro Mundo — presentes de Arawn, rei de Annwn. Em retaliação, Pryderi invadiu Gwynedd, mas foi derrotado em três batalhas sucessivas.

Para evitar mais mortes, aceitou um duelo singular contra Gwydion em um lugar chamado  Y Velen Rhyd. O combate foi desigual: Gwydion usou ilusões e encantamentos, enquanto Pryderi confiou apenas em sua força. Derrotado, Pryderi foi morto, e seus homens fugiram para Dyfed, lamentando a morte de seu senhor.


Pryderi sendo morto em combate por Gwydion. Arte de E. Wallcousins.


Referências na Literatura

Pryderi aparece em diversos textos medievais galeses, como as Triades Galesas, onde é chamado de um dos "Três Poderosos Guardiões de Porcos da Britânia". Também é mencionado no poema Preiddeu Annwfn, que fala de uma fortaleza mágica chamada Caer Sidi, associada ao Outro Mundo. Seu nome sobreviveu na tradição oral e até em obras modernas, como a série As Crônicas de Prydain, onde um rei traiçoeiro leva seu nome.

fontes:

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