13 de outubro de 2026

Máscara dos Oito Deuses do Trovão (Hachiraijin-men)

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A Máscara dos Oito Deuses do Trovão (japonês 八雷神面, Hachiraijin-men) é uma máscara religiosa preservada pelo templo Gangō-ji da seita Kegon, situado no local da antiga torre do templo, em Nara, Japão. A peça é datada entre os séculos XVI e XVII, período correspondente ao final do período Muromachi e ao início do período Edo, e possui cerca de 50 centímetros de altura.

A tradição associada à máscara está relacionada à figura lendária de Dōjō Hōshi, conhecida principalmente por meio do Nihon Ryōiki, coletânea japonesa de narrativas budistas compilada pelo monge Kyōkai por volta de 822. O episódio referente ao personagem aparece no terceiro relato do primeiro volume da obra.

Dōjō Hōshi e o demônio do Gangō-ji

Segundo o Nihon Ryōiki, durante o reinado do imperador Bidatsu, um agricultor da província de Owari encontrou uma manifestação do trovão e preparou-se para golpeá-la. A entidade pediu para ser poupada e prometeu, em troca, que o homem teria um filho dotado de força extraordinária. 

Dōjō Hōshi enfrentando a manifestação do trovão

Segundo o relato, posteriormente nasceu um menino com uma serpente enrolada duas vezes em torno da cabeça. Desde jovem, ele demonstrava força física excepcional. Mais tarde, tornou-se um dōji, termo usado para designar um jovem servidor ou acólito do Gangō-ji. Quando um ser demoníaco passou a atacar pessoas nas proximidades do campanário do templo, o jovem decidiu enfrentá-lo. Durante a luta, agarrou o ser pelos cabelos e tentou dominá-lo. 

Dōjō Hōshi agarrando o demônio pelos cabelos

Após o confronto, o demônio conseguiu fugir, deixando para trás os cabelos que haviam sido arrancados. Em episódios posteriores da narrativa, o jovem continuou demonstrando força extraordinária. Mais tarde recebeu ordenação religiosa e passou a ser conhecido como Dōjō Hōshi. O Nihon Ryōiki não menciona a máscara atualmente preservada nem afirma explicitamente que Dōjō Hōshi tenha assumido durante o combate a aparência representada nela. A associação entre o personagem e a Máscara dos Oito Deuses do Trovão desenvolveu-se posteriormente na tradição religiosa do Gangō-ji.

Formação da tradição de Hachiraijin

Ao longo dos séculos, Dōjō Hōshi passou a ser associado ao poder do trovão e à capacidade de derrotar seres considerados maléficos. Na tradição posterior do Gangō-ji, sua figura foi divinizada sob designações como Hachiraijin (八雷神), lido localmente como Yaoi-kazuchi-no-kami, e Gangōshin (元興神). Essa tradição não deve ser confundida diretamente com os oito deuses do trovão mencionados no Kojiki, uma das mais antigas compilações mitológicas do Japão. Nessa obra, os Hachiraijin são oito divindades que aparecem no episódio de Izanami no mundo subterrâneo de Yomi e possuem identidades próprias.

Em tradições posteriores do Gangō-ji, a Máscara dos Oito Deuses do Trovão passou a representar a manifestação sobrenatural associada ao poder de Dōjō Hōshi e à sua vitória sobre o demônio do campanário.

Características da máscara

A máscara possui uma estrutura incomum, formada por elementos tradicionalmente interpretados como oito faces ou manifestações. Além do grande rosto principal, a composição apresenta uma pequena figura de aspecto demoníaco na parte superior, um dragão, duas faces laterais e três faces ocultas. Estas últimas tornam-se visíveis quando a parte superior da máscara é removida. A interpretação desses elementos como um conjunto de oito manifestações faz parte da tradição iconográfica e religiosa associada ao objeto.

Culto protetor e talismãs

Durante o período Edo, a máscara tornou-se objeto de culto relacionado à proteção contra calamidades. Segundo a tradição preservada pelo Gangō-ji, atribuía-se à sua veneração a capacidade de afastar epidemias e infortúnios, proteger contra raios e incêndios e repelir espíritos e outras entidades consideradas maléficas. Nesse contexto foi produzido o Hachiraijinmen Ryaku Engi, texto destinado a explicar a origem da máscara e os poderes protetores que lhe eram atribuídos. Também foram confeccionadas matrizes de madeira destinadas à impressão de talismãs com sua imagem. Duas dessas matrizes do período Edo, uma maior e outra menor, permanecem preservadas no templo.

Segundo a tradição do Gangō-ji, o monge Mizuno Keishin, envolvido na recuperação do templo durante os períodos Meiji e Taishō, retomou posteriormente a distribuição desses talismãs utilizando antigas matrizes. No século XIX, a máscara também foi utilizada em cerimônias relacionadas a pedidos de chuva. Registros preservados pelo templo indicam que comunidades rurais da região de Nara solicitaram seu empréstimo para essas práticas. O magistrado Kawaji Toshiakira também registrou a existência da máscara durante uma visita, descrevendo-a como guardada em um zushi, pequeno armário, nicho ou relicário destinado à preservação de imagens e objetos religiosos.

Registros históricos

A máscara aparece em registros literários do período Edo. A obra Nanpō Yūgen, associada ao escritor Ōta Nanpo e compilada por Bunpōtei, contém uma seção dedicada à chamada “máscara demoníaca do Gangō-ji”, acompanhada de ilustração. Esse registro mostra que a máscara já era conhecida e descrita em obras do período Edo.

Incêndios e preservação

O antigo complexo do Gangō-ji sofreu diversas perdas ao longo de sua história. Em 1451, durante uma revolta, um incêndio atingiu o templo e destruiu o Kondō, principal salão de culto, o Zenjō-in e outras estruturas. Em 1859, outro grande incêndio destruiu a pagoda de cinco andares e o Kannon-dō, salão dedicado ao bodisatva Kannon. Uma imagem de Kannon de onze faces venerada no edifício foi perdida.

Segundo a tradição histórica preservada pelo atual Gangō-ji Kegon, a imagem de Yakushi Nyorai, o Buda da Medicina, e a Máscara dos Oito Deuses do Trovão foram retiradas do local e sobreviveram ao desastre.

Museu Nacional de Nara e retorno ao templo

Em 1950, a máscara foi depositada no Museu Nacional de Nara. Em 2025, integrou a exposição comemorativa dos 130 anos do museu, Chō Kokuhō — Inori no Kagayaki, sendo registrada no catálogo como uma obra pertencente ao Gangō-ji e produzida entre os séculos XVI e XVII. Após intervenções realizadas no templo para melhorar as condições de preservação da peça, a máscara retornou ao Gangō-ji Kegon em 24 de março de 2026, aproximadamente 76 anos depois de ter sido depositada no Museu Nacional de Nara. A peça foi novamente instalada e venerada no salão principal, onde passou a ser apresentada aos visitantes nos períodos de abertura do templo.

No mesmo contexto, foi produzida uma nova matriz destinada à impressão de uma versão contemporânea do talismã da Máscara dos Oito Deuses do Trovão. Conhecida como versão Reiwa, em referência à atual era imperial japonesa, a iniciativa deu continuidade à tradição dos antigos talismãs produzidos por meio de matrizes de madeira.


fontes:

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