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Austėja é uma deusa da mitologia lituana ligada às abelhas, ao mel, à fertilidade e à vida doméstica. Embora apareça em apenas um registro histórico conhecido, ela acabou se tornando uma das figuras mais famosas da mitologia báltica moderna. Hoje, ela é vista como símbolo da maternidade, do trabalho, da organização familiar e da relação entre os seres humanos e as abelhas.
Origem e registros históricos
A única menção antiga conhecida sobre Austėja aparece em um texto do século XVI escrito pelo cronista lituano Jonas Lasickis (1534-1599). Em sua descrição das divindades lituanas, ele afirma que Austėja era a deusa das abelhas e a coloca ao lado de Žemyna, a deusa da terra. Segundo o relato, Austėja era invocada durante o período de enxameação para proteger as colmeias, atrair novos enxames e afastar os zangões. Fora esse trecho, praticamente não existem outras fontes antigas falando sobre ela.
Curiosamente, Austėja não aparece claramente nas canções, lendas ou contos populares preservados na Lituânia. Isso levou muitos pesquisadores a discutir se ela realmente foi uma deusa amplamente cultuada ou se fazia parte apenas de tradições locais ligadas à apicultura. Mesmo assim, ao longo do século XX, diversos estudiosos passaram a reconstruir sua imagem com base na língua, nos costumes antigos e em comparações com outras mitologias.
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| Arte de vikobelo |
Etimologia do nome
O nome Austėja gerou muitas discussões entre linguistas e historiadores. Algumas interpretações antigas ligavam o nome ao zumbido das abelhas. Outras tentavam associá-lo à aurora ou ao amanhecer. A explicação mais conhecida foi proposta pelo linguista e mitólogo Algirdas Julius Greimas (1917-1992). Para ele, o nome estaria relacionado ao verbo lituano austi, que significa “tecer”, mas também pode indicar um movimento constante de ida e volta.
Greimas acreditava que essa ideia combinava perfeitamente com o comportamento das abelhas. Elas voam sem parar entre flores e colmeias, constroem favos organizados e mantêm um movimento contínuo dentro do enxame. Por isso, Austėja teria sido imaginada como uma espécie de “abelha-tecelã”. Essa interpretação ganhou força porque muitas adivinhas e expressões tradicionais lituanas descrevem os favos como se fossem tecidos, costurados ou tricotados pelas abelhas.
A relação entre abelhas e mulheres
Na tradição popular lituana, as abelhas costumavam ser comparadas às mulheres trabalhadoras. A dona de casa cuidadosa e organizada era frequentemente descrita “como uma abelha”. Canções, provérbios e adivinhas associavam as abelhas a jovens mulheres, tecelãs e costureiras. Em algumas adivinhas antigas, as abelhas aparecem como “moças que tecem no escuro” ou “mulheres que costuram sem agulha”.
Com base nisso, Greimas interpretou Austėja como a imagem ideal da mulher responsável pela harmonia do lar e pela continuidade da família. Assim como uma colmeia depende da organização das abelhas, a casa dependeria do cuidado da mulher.
Austėja e Žemyna
No texto de Lasickis, Austėja aparece ao lado de Žemyna, uma das principais divindades da antiga religião lituana. Žemyna representava a terra fértil, a agricultura e a vegetação. Os pesquisadores acreditam que essa associação não foi por acaso. As flores da terra alimentam as abelhas, enquanto as abelhas ajudam a manter a fertilidade da natureza. Dessa forma, Austėja e Žemyna simbolizariam forças complementares ligadas à vida, à abundância e à prosperidade.

Comparações com outras mitologias
Vários estudiosos perceberam que a ligação entre mulheres, fertilidade e abelhas também aparece em outras culturas antigas. Na Grécia Antiga, por exemplo, mulheres ligadas ao culto de Deméter eram chamadas de melissai, palavra grega para “abelhas”. A deusa Ártemis também podia receber esse título.
Outras tradições da Europa e do Cáucaso apresentam divindades relacionadas às abelhas, ao mel, à maternidade e à fertilidade. Essas comparações ajudaram os pesquisadores a reconstruir a imagem de Austėja como uma antiga deusa associada à vida doméstica e ao mundo natural.
Interpretações modernas
A imagem moderna de Austėja foi profundamente influenciada pela arqueóloga e mitóloga Marija Gimbutas (1921-1994). Para ela, Austėja era uma antiga deusa-abelha ligada à fertilidade, às mulheres casadas e à proteção da família.
Mais tarde, a etnóloga Pranė Dundulienė (1910-1991) ampliou ainda mais essas ideias. Em seus estudos, Austėja passou a ser apresentada como uma divindade muito antiga, venerada desde tempos pré-históricos e ligada a festas do mel, rituais agrícolas e cerimônias da apicultura tradicional. Muitos pesquisadores, porém, consideram que Dundulienė misturou fatos históricos com interpretações pessoais e reconstruções pouco comprovadas. Ainda assim, suas obras ajudaram bastante a popularizar a deusa na cultura moderna.
Nem todos os estudiosos concordam sobre a importância histórica de Austėja. O folclorista Jonas Balys (1909-2011), por exemplo, acreditava que uma deusa mencionada apenas uma vez em fontes antigas não poderia ser considerada uma figura central da mitologia lituana. Outros pesquisadores defendem que muitas tradições antigas sobreviveram apenas de maneira fragmentada e que a falta de registros não significa necessariamente que a deusa fosse irrelevante. Hoje, a interpretação proposta por Greimas continua sendo a mais aceita entre os estudiosos da mitologia báltica.
Austėja atualmente
Apesar de sua presença discreta nas fontes antigas, Austėja se tornou bastante conhecida na Lituânia moderna. Seu nome passou a ser usado como nome feminino e ganhou popularidade nas últimas décadas.
Atualmente, Austėja costuma ser vista como símbolo de feminilidade, fertilidade, natureza, proteção das abelhas e harmonia familiar. Em muitos aspectos, a imagem contemporânea da deusa foi construída pelos próprios pesquisadores modernos, que transformaram uma breve referência histórica em uma das figuras mais conhecidas da mitologia lituana.

- ŁASICKI, J. De diis Samagitarum libellus. 1580;
- Razauskas, Dainius. “Iš baltų mitinio vaizdyno juodraščių: AUSTĖJA”. Liaudies kultūra, 2009, nº 2 (125), p. 16–21.
Austėja


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