25 de setembro de 2026

A Jornada ao Oeste: Capítulo LXXV

۞ ADM Sleipnir


CAPÍTULO LXXV:

O MACACO DA MENTE PERFURA O JARRO DO YIN E DO YANG. O REI DEMÔNIO RETORNA AO VERDADEIRO TAO.

Dizíamos que o Grande Sábio havia entrado corajosamente na caverna. À medida que avançava, deparava-se com montes de esqueletos que pareciam verdadeiras colinas e com tantos ossos que formavam uma floresta. Cabeças e cabelos humanos haviam sido pisoteados até se transformarem numa espécie de feltro; pele e carne apodrecidas misturavam-se à lama e à poeira. Tendões humanos estavam enrolados nos troncos das árvores, secos e reluzentes como prata. Por toda parte havia montanhas de cadáveres e mares de sangue, dos quais se desprendia um mau cheiro insuportável. No lado oriental, os demônios menores arrancavam a carne de vítimas ainda vivas; no lado ocidental, outros cozinhavam e fritavam carne humana fresca. Qualquer mortal com menos coragem que o Belo Rei dos Macacos teria dado meia-volta imediatamente. Ele, porém, continuou avançando, como se todo aquele horror não fosse capaz de fazê-lo recuar.

Ao atravessar a segunda porta, tudo mudou. O ar estava puro, sem qualquer mau cheiro, e o ambiente transmitia uma agradável sensação de paz, elegância e serenidade. Dos dois lados do caminho cresciam plantas extraordinárias e flores raríssimas. Por toda parte erguiam-se pinheiros antigos e bambus verde-jade. Depois de percorrer cerca de quatro quilômetros, chegou à terceira porta. Ocultando o corpo e espiando discretamente para o interior, viu três velhos monstros sentados em posição elevada. Todos tinham uma aparência extremamente feroz e assustadora. 


O que ocupava o centro possuía dentes semelhantes a cinzéis e serras, cabeça redonda e rosto quadrado. Sua voz ressoava como o trovão, e seus olhos lançavam clarões como relâmpagos. As narinas voltavam-se para o céu, enquanto suas espessas sobrancelhas avermelhadas pareciam arder em chamas. Quando caminhava, todas as feras tremiam de medo; quando se sentava, até os demônios mais cruéis ficavam apavorados. Era o rei entre as feras, o Demônio Leão de Pelagem Esverdeada.

O monstro sentado à esquerda possuía olhos de fênix e pupilas douradas. Suas enormes presas eram amareladas, e suas pernas, grossas e poderosas. Tinha uma longa tromba coberta por pelos prateados, tão desproporcional à cabeça que esta quase parecia uma cauda. A testa era arredondada, as sobrancelhas enrugadas, e todo o seu corpo era enorme e maciço. Apesar da aparência terrível, sua voz era fina e delicada como a de uma bela donzela. Seu rosto, porém, lembrava o de um feroz demônio com cabeça de boi. Durante muitos anos cultivara a si mesmo e preservara suas poderosas presas. Era o Antigo Elefante de Presas Amarelas.

O monstro sentado à direita possuía asas douradas, uma cabeça descomunal, semelhante à de um fabuloso monstro marinho (1), e olhos de leopardo, cujas pupilas brilhavam como estrelas. Era forte, feroz e extraordinariamente corajoso. Ao lançar-se pelos ares, fazia os dragões tremerem. Quando batia suas grandes asas, todas as aves escondiam a cabeça; quando estendia as garras afiadas, as criaturas aladas perdiam toda a coragem. Seu voo através das nuvens podia alcançar noventa mil li (2). Era o poderoso Grande Pássaro Roc.

Abaixo dos três monstros estavam dispostos mais de cem chefes, de maior e menor patente, todos completamente armados. Suas armaduras estavam em perfeita ordem, e suas expressões eram tão imponentes quanto ameaçadoras. Apesar disso, o Peregrino ficou satisfeito ao vê-los. Sem demonstrar o menor medo, avançou a passos largos, largou os instrumentos que trazia consigo, ergueu a cabeça e disse:

— Apresento meus respeitos, senhores.


— Então você voltou, Pequeno Cortador de Vento! — exclamaram os três monstros ao mesmo tempo, sorrindo satisfeitos.

— Já voltei, sim — respondeu o Peregrino, no tom mais agradável que conseguiu.

— Descobriu alguma coisa sobre o Peregrino Sun? — perguntaram os três monstros.

— Sim, mas não me atrevo a dizer isso diante dos senhores — respondeu o Peregrino.

— Por que não? — perguntou o monstro mais velho.

— Por ordem dos senhores, entrei pela montanha fazendo soar sem parar estes dois pedaços de madeira — explicou o Peregrino. — Pouco depois, encontrei alguém agachado junto a um riacho. Quando me aproximei, vi com horror que parecia a própria imagem de um deus do trovão. E isso não foi tudo. Quando se levantou, percebi que devia ter mais de trinta metros de altura. Estava recolhendo água para limpar um pesadíssimo bastão de ferro e, pelo que consegui ouvir enquanto murmurava consigo mesmo, dizia que aquela arma ainda não tivera oportunidade de demonstrar todo o seu poder mágico. Disse também que, assim que terminasse de limpá-la, viria esmagar com ela a cabeça dos senhores. Por isso concluí que só podia ser o Peregrino Sun e voltei imediatamente para avisá-los.


Um suor frio cobriu imediatamente o corpo do monstro mais velho. Tremendo, ele se virou para os irmãos e disse:

— Eu avisei que não devíamos incomodar o monge Tang. O mais velho de seus discípulos é impulsivo demais e resolveu usar contra nós seus extraordinários poderes mágicos. Até já começou a preparar sua arma. O que podemos fazer, se ninguém jamais conseguiu derrotá-lo?

Virou-se então para um dos capitães e ordenou:

— Mandem todos os soldados que estão diante da caverna entrar imediatamente e fechem as portas. Precisamos deixar o caminho livre para esses monges.

Um dos oficiais, que sabia o que havia acontecido, respondeu envergonhado:

— Receio que não tenha sobrado ninguém, senhor. Cada um fugiu para onde pôde.

— Como assim, fugiram? — exclamou o monstro mais velho. — Com certeza também ficaram sabendo do que aconteceu. Fechem as portas imediatamente!

Os capitães obedeceram sem discutir. Os três monstros ouviram claramente o estrondo das portas sendo fechadas.

Preocupado, o Peregrino pensou:

— Agora que fecharam as portas, podem começar a me fazer perguntas sobre coisas daqui de dentro das quais não sei absolutamente nada. Se eu responder errado, meu disfarce será descoberto e acabarão me capturando. Antes de me entregar feito um tolo, é melhor assustá-los mais um pouco. Assim talvez abram novamente as portas e eu consiga escapar quando chegar a hora.

Aproximou-se então um pouco mais dos monstros e acrescentou:

— Receio que o Peregrino Sun tenha dito algo ainda mais terrível.

— O quê? — perguntou o monstro mais velho, ainda mais assustado.

— Disse que, depois de capturar os senhores, arrancaria a pele do primeiro, tiraria os ossos do segundo e arrancaria os tendões do terceiro. Além disso, ouvi claramente quando afirmou que, se fechassem as portas e se recusassem a sair, usaria seus poderes de transformação para entrar à força. Como os senhores sabem, ele pode se transformar numa mosca minúscula, passar por uma fresta da porta e capturar todos vocês. O que poderiam fazer então para escapar de suas mãos?

— Precisamos tomar todas as precauções possíveis — disse o monstro mais velho aos irmãos. — Há pouquíssimas moscas nesta caverna. Se aparecer alguma, podem ter certeza de que é o Peregrino Sun.

O Peregrino pensou, divertido:

— Vou dar moscas a vocês! Assim que virem uma, vão tremer tanto que mandarão abrir todas as portas.

Mal terminou de pensar aquilo, virou-se discretamente para o lado, arrancou um pelo da nuca, soprou sobre ele uma lufada de ar imortal e exclamou:

— Transforme-se!

No mesmo instante, o pelo se transformou numa mosca dourada, que voou como uma flecha e foi bater diretamente no rosto do monstro mais velho.

— Que horror! — gritou o monstro, apavorado. — Vocês viram? Ele entrou!

Os demônios menores ficaram aterrorizados. Logo depois, porém, agarraram ancinhos e vassouras e começaram a golpear o ar desesperadamente, tentando acertar a mosca. 


Sem conseguir se controlar, o Grande Sábio caiu na gargalhada. Foi exatamente o que não deveria ter feito. Ao rir, deixou aparecer sua verdadeira aparência. O terceiro monstro saltou imediatamente sobre ele, agarrou-o e gritou:

— Fomos uns tolos! Por pouco ele não conseguiu nos enganar!
 
— Quem nos enganou? — perguntou o monstro mais velho.

— Este charlatão! — respondeu o terceiro. — Ele não é nenhum Pequeno Cortador de Vento. É o próprio Peregrino Sun! Com certeza encontrou nosso mensageiro, matou-o e veio até aqui disfarçado para nos enganar.

— Então ele me reconheceu! — pensou o Peregrino, alarmado. — Como será que conseguiu?

Passou rapidamente a mão pelo rosto e voltou a assumir as feições do demônio morto.

— Como podem dizer que sou o Peregrino Sun? — perguntou com voz trêmula. — Não estão vendo que sou apenas um Pequeno Cortador de Vento? Não tenho nada a ver com aquela fera!


— Ele tem razão — disse o monstro mais velho. — É apenas um Pequeno Cortador de Vento. Eu o conheço muito bem. Ele se apresenta diante de mim três vezes por dia. Você tem sua placa?

— Claro que tenho — respondeu o Peregrino.

Levou então a mão ao peito e mostrou a placa.

— Está vendo? — disse o monstro mais velho, convencido. — Não devemos acusar ninguém sem provas.

— Mas você não viu o que aconteceu! — insistiu o terceiro monstro. — Há pouco ele se virou para o lado e começou a rir. Nesse momento, vi claramente aparecer o focinho de um deus do trovão. Assim que coloquei a mão nele, voltou imediatamente a assumir esta aparência.

Virou-se então para os demônios menores e ordenou:

— Tragam cordas!

Os capitães obedeceram imediatamente. Antes que o Peregrino pudesse reagir, o terceiro monstro o derrubou e amarrou-lhe mãos e pés como se fosse uma peça de caça. Em seguida, levantou suas roupas. Não havia mais dúvida. Era o Pi-ma-wen. Embora dominasse as setenta e duas transformações e pudesse mudar completamente o corpo quando assumia a forma de uma ave, uma fera, uma planta, um objeto ou um inseto, o mesmo não acontecia quando se transformava em outra pessoa. Nesses casos, conseguia alterar a cabeça e o rosto, mas não o restante do corpo. Assim, ao levantarem suas roupas, os monstros viram o corpo coberto de pelos amarelos, as nádegas avermelhadas e uma cauda que não deixava margem para qualquer dúvida.


O monstro mais velho arregalou os olhos:

— Incrível! O rosto é de um Pequeno Cortador de Vento, mas o corpo é do Peregrino Sun. É ele mesmo! Tragam vinho imediatamente. Vamos oferecer uma taça ao nosso terceiro soberano para comemorar sua façanha. Agora que capturamos Sun Wukong, o monge Tang certamente acabará em nossas bocas.

— Não é prudente comemorar cedo demais — disse o terceiro monstro. — Sun Wukong é muito escorregadio e pode escapar a qualquer momento. Se isso acontecer, todos os nossos planos vão por água abaixo. Ordenem aos capitães que tragam o jarro e o prendam lá dentro sem piedade. Só então poderemos beber tranquilos.


— Excelente ideia! — respondeu o monstro mais velho, rindo.

Sem perder tempo, o monstro mais velho ordenou que trinta e seis demônios menores fossem até a sala onde guardavam as armas e trouxessem o jarro. Pelo número de demônios encarregados de carregá-lo, alguém poderia imaginar que se tratava de um recipiente gigantesco. Na verdade, media apenas cerc
a de setenta e cinco centímetros de altura. Por que, então, eram necessárias trinta e seis criaturas para transportá-lo? 
A razão era que aquele jarro constituía um tesouro formado pelas duas energias primordiais do yin e do yang.  Em seu interior estavam contidos os Sete Tesouros (3), os Oito Trigramas (4) e os Vinte e Quatro Períodos Solares (5). Para carregá-lo, eram necessários trinta e seis demônios, em correspondência com o número celeste do Tiangang (6). Sem isso, ninguém conseguia movê-lo.

Os demônios menores carregaram cuidadosamente o precioso jarro e o colocaram diante da terceira porta da caverna. Enquanto uns o retiravam da caixa onde era guardado e preparavam tudo, outros desamarraram o Peregrino, tiraram-lhe as roupas e o obrigaram a ficar diante daquele extraordinário tesouro. Um deles retirou a tampa, e imediatamente uma poderosa corrente de ar imortal saiu do interior do jarro e, com um assobio, sugou o Grande Sábio para dentro. Os demônios tornaram a colocar a tampa e a selaram cuidadosamente.


O monstro mais velho, satisfeito, disse aos irmãos:

— Agora que esse maldito macaco entrou em nosso precioso jarro, pode esquecer de uma vez por todas a sua jornada para o Oeste. Se ainda quiser adorar Buda e buscar as escrituras, só lhe resta voltar à roda da reencarnação e nascer outra vez.

Por enquanto, deixaremos os demônios celebrando sua vitória. Falemos do Grande Sábio. Assim que entrou no jarro, Wukong percebeu que o espaço o apertava por todos os lados. Por isso, reduziu um pouco o corpo e se agachou tranquilamente no interior. Depois de algum tempo, começou a sentir um frio intenso.

— Esses demônios não passam de uns mentirosos! — disse em voz alta. — Como podem afirmar que qualquer pessoa colocada neste jarro se transforma em pus e sangue em menos de três quartos de hora? Com este frio, eu poderia ficar aqui sete ou oito anos sem problema algum!

Wukong dizia aquilo porque desconhecia o verdadeiro funcionamento do tesouro. Se a pessoa aprisionada permanecesse em silêncio, o interior continuaria fresco, mesmo que passasse ali um ano inteiro. Mas, assim que alguém falava, o fogo começava a arder. O Grande Sábio não demorou a descobrir isso. Antes mesmo que terminasse de falar, o interior do jarro se encheu de chamas. 


Felizmente, ele possuía recursos suficientes para enfrentar aquele perigo. Fez com os dedos o sinal mágico para repelir o fogo e permaneceu sentado tranquilamente, sem demonstrar medo. Depois de suportar as chamas por cerca de uma hora, surgiram quarenta serpentes de todos os lados, lançando-se contra ele para mordê-lo. O Peregrino estendeu os braços, agarrou-as uma após outra e, empregando toda a sua força, partiu cada uma ao meio. Pouco depois, apareceram três dragões de fogo, que começaram a envolver seu corpo por cima e por baixo.


Dessa vez, Wukong realmente ficou preocupado.

— Todo o resto eu consigo suportar, mas esses três dragões de fogo são difíceis de enfrentar. Se continuar aqui por muito mais tempo, o calor acabará tirando minhas forças. Preciso encontrar uma maneira de sair. Vou aumentar meu corpo e arrebentar este maldito jarro!

Fez então um gesto mágico com os dedos, recitou o encantamento e gritou:

— Cresça!

No mesmo instante, seu corpo aumentou até atingir vários metros de altura. Mas o jarro cresceu junto com ele, ajustando-se perfeitamente ao seu tamanho. Wukong tornou então a diminuir o corpo, e o jarro encolheu na mesma proporção.

— Que problema! Que problema! — exclamou, assustado. — Quando eu cresço, ele cresce; quando diminuo, ele também diminui. Como vou sair daqui?


Antes mesmo de terminar de falar, sentiu uma forte dor no tornozelo. Levou imediatamente a mão até ele e percebeu, horrorizado, que o fogo o havia queimado tanto que começava a amolecer.

— O que vou fazer agora? — perguntou a si mesmo, tomado pelo medo. —  Meu tornozelo está ficando mole de tanto queimar! Se continuar assim, vou acabar aleijado!

Diante daquela situação, não conseguiu conter as lágrimas. Como sempre acontecia quando enfrentava demônios e monstros especialmente poderosos, seu pensamento se voltou para Sanzang. Era justamente nos momentos de maior perigo que mais se preocupava com o mestre.

— Ó mestre! — exclamou, com toda a força. —Desde o dia em que aceitei o conselho da Bodhisattva Guanyin, abracei o caminho correto e fui libertado do castigo celestial, quantas montanhas atravessamos juntos! Quantos monstros destruí pelo caminho! Subjuguei Bajie, encontramos o Monge Sha e suportamos sofrimentos incontáveis, sempre na esperança de chegarmos juntos ao Oeste e alcançarmos os verdadeiros frutos da virtude. Quem poderia imaginar que hoje eu encontraria estes demônios cruéis e, por minha própria imprudência, ficaria preso neste jarro, deixando o senhor sozinho no meio destas montanhas, incapaz de continuar a viagem? Talvez esta calamidade seja consequência da fama e dos excessos que acumulei no passado!

Ele continuou se lamentando por algum tempo. De repente, parou e exclamou, esperançoso:

— Espere! Quando passamos pela Montanha da Serpente Enroscada (7), a Bodhisattva me deu três pelos capazes de salvar minha vida. Será que ainda estão comigo?

Wukong apalpou rapidamente o corpo e encontrou os três pelos na nuca. Eram completamente diferentes dos demais. Muito contente, exclamou:

— Não há dúvida! São eles! Todos os outros pelos do meu corpo são macios, mas estes três são duros como lanças. Só podem ser os pelos que irão salvar minha vida!

Apertando os dentes para suportar a dor, arrancou os três pelos, soprou sobre eles uma lufada de ar imortal e gritou:

— Transformem-se!

Imediatamente, um deles se transformou em uma broca, outro numa tira de bambu e o terceiro numa corda de algodão. Wukong curvou a tira de bambu, formando um pequeno arco, amarrou a corda às extremidades e prendeu a broca. Depois começou a perfurar vigorosamente o fundo do jarro. Depois de algum tempo, conseguiu abrir um pequeno orifício, por onde entrou um feixe de luz.

— Que sorte! Agora posso sair daqui!


Quando se preparava para se transformar novamente, percebeu que o interior do jarro havia voltado a ficar fresco. Isso ocorreu porque, ao perfurar sua base, Wukong permitiu que as forças do yin e do yang escapassem. Depois de recuperar os três pelos, o Grande Sábio tornou seu corpo minúsculo e se transformou num pequeno inseto, fino como uma cerda e não maior que uma sobrancelha. Assim, passou facilmente pelo buraco. Mas, em vez de abandonar a caverna, Wukong voou diretamente até o monstro mais velho e pousou em sua cabeça. A fera bebia satisfeita quando, de repente, pousou a taça e perguntou ao terceiro irmão:

— Será que o Peregrino Sun já se desfez?

— Já passou tempo mais que suficiente, não acha? — respondeu o terceiro monstro.

O mais velho ordenou então que trouxessem o jarro. Os trinta e seis demônios menores foram buscá-lo, mas, assim que tentaram levantá-lo, perceberam que quase não pesava nada.

— Majestade! O jarro ficou leve!

— Absurdo! — respondeu o monstro mais velho. — Esse tesouro possui a força completa do yin e do yang. Como poderia ter perdido o peso?


Um dos demônios, querendo provar que dizia a verdade, pegou sozinho o jarro e o levou até a mesa.O monstro mais velho retirou a tampa e olhou para dentro. Havia luz no fundo.

— Está vazio! — gritou, alarmado.

Wukong, ainda pousado sobre sua cabeça, não conseguiu se conter:

— E eu estou aqui!

— Ele escapou! Ele escapou! — gritaram os demônios. — Fechem as portas!


O Peregrino sacudiu o corpo, recuperou as roupas que lhe haviam tirado, retomou sua verdadeira aparência e, com dois saltos, deixou a caverna.

Antes de partir, virou-se e zombou:

— Não se deem ao trabalho! Eu furei o jarro e agora ele já não consegue prender ninguém. Só serve para usar como penico!


Em seguida, subiu acima das nuvens e foi até o lugar onde havia deixado o monge Tang.

Naquele momento, Sanzang estava orando voltado para o céu, usando punhados de poeira como se fossem incenso. Ao vê-lo, o Peregrino parou e escutou. O mestre estava com as mãos unidas diante do peito e fazia a seguinte prece:

— Peço a todos os imortais que vivem entre névoas sagradas, aos devas e aos deuses da luz e das trevas, que protejam meu querido discípulo, o Peregrino, e lhe concedam poderes mágicos capazes de superar todos os obstáculos.

Ao ouvir isso, o Grande Sábio ficou profundamente comovido. Desceu do alto, aproximou-se dele e disse:

— Acabo de voltar, mestre.

— Quanto sofrimento você deve ter passado, Wukong! — respondeu o mestre, aliviado, segurando sua mão. — Não parei de me preocupar desde que o vi entrar na montanha. Diga que perigos nos esperam adiante.

— Minha missão foi bem-sucedida desta vez — respondeu o Peregrino. — Primeiro, porque as pessoas das Terras do Leste são dignas de nossos esforços. Segundo, porque as virtudes do mestre são imensas. Terceiro, porque meus poderes mágicos não ficam atrás dos de ninguém.


Então contou como havia se passado por um Pequeno Cortador de Vento, como fora preso dentro do jarro e como conseguiu escapar.

— Agora que posso ver novamente o rosto do mestre — concluiu —, sinto como se tivesse completado mais uma reencarnação.

— Você não lutou contra os monstros? — perguntou o mestre, depois de agradecer.

— Não — respondeu o Peregrino. — Não foi necessário.

— Nesse caso — concluiu o mestre —, ainda não podemos seguir com segurança.

— O que o mestre quer dizer com isso? — perguntou o Peregrino, perdendo a paciência e falando mais alto.

— Quero dizer que nada garante que eles não nos atacarão — explicou o mestre. — Tudo isso me parece confuso. Como posso me arriscar a cair nas mãos deles?

— O mestre está sendo pouco observador! — exclamou o Peregrino, rindo. — Como diz o provérbio: “um único fio não forma um novelo, assim como são necessárias duas mãos para aplaudir”. Como eu poderia lutar contra aqueles monstros sozinho, se eles eram três e ainda estavam protegidos por milhares de demônios menores?

— O menor nunca pode vencer o maior — disse o mestre. — Entendo que você sozinho não possa enfrentar tantos inimigos, mas Bajie e o Monge Sha podem ajudar. Vou pedir que acompanhem você. Assim, poderemos livrar a região dos monstros e seguir sem surpresas desagradáveis.

— Isso é verdade — reconheceu o Peregrino, pensativo. — Mesmo assim, o Monge Sha deve ficar aqui para proteger o mestre. Bajie pode vir comigo, se quiser.

— Agora é você que não está sendo muito observador — disse Bajie, visivelmente preocupado. — Não possuo tantos poderes, e meu jeito de agir é muito bruto. Além disso, meu corpo é tão pesado que até o vento me atrapalha quando caminho. Acho que, em vez de ajudar, vou acabar atrapalhando.

— Mesmo que tenha poucos poderes, você é alguém como eu, e isso basta — respondeu o Peregrino. — Como se costuma dizer, até peidos são ar. Pelo menos pode me dar ânimo, não pode?

— Está bem — concluiu Bajie. — Só espero que se preocupe comigo quando as coisas ficarem difíceis e não me deixe passar vergonha com suas brincadeiras.

— Não corra riscos desnecessários, Bajie — aconselhou o mestre. — O Monge Sha e eu ficaremos aqui.

Bajie se animou na hora e, elevando-se sobre o vento, adentrou a montanha montado numa nuvem, acompanhado pelo Peregrino. Não demoraram a chegar à entrada da caverna. A porta estava bem fechada, e não havia ninguém por perto. O Peregrino se aproximou com seu temível bastão de ferro nas mãos e gritou com voz forte:

— Abram a porta de uma vez e venham lutar contra o Rei Macaco!


Os demônios menores correram para avisar os três monstros chefes. O mais velho deles comentou, desanimado:

— Hoje descobrimos que os boatos sobre esse Peregrino ainda eram modestos.

— O que quer dizer com isso? — perguntou o segundo monstro.

— Esta manhã, quando ele apareceu aqui disfarçado de Pequeno Cortador de Vento, não conseguimos reconhecê-lo — respondeu o monstro mais velho. — Foi sorte nosso terceiro irmão perceber o engano e conseguir colocá-lo no jarro. Mas isso não adiantou muito. Ele abriu um buraco em nosso precioso tesouro e escapou bem debaixo do nosso nariz, tão bem vestido quanto quando entrou. Agora está lá fora nos desafiando para um combate. Quem desejaria enfrentar um guerreiro tão poderoso?

Ninguém se atreveu a responder. O monstro repetiu a pergunta, mas todos permaneceram calados. Pareciam mudos e surdos. Isso o deixou furioso. Ele se levantou e gritou:

— Estamos perdendo nossa honra! Não entendem que vamos virar motivo de riso para todos os que passam pelo caminho que leva ao Oeste? Por mais poderoso que Sun Wukong seja, nosso dever é enfrentá-lo e tentar lavar a afronta desta manhã. Se ninguém aqui tiver coragem, eu mesmo lutarei contra ele. Bastam três assaltos. Se eu resistir, comeremos a carne do monge Tang. Caso contrário, abriremos passagem e deixaremos que sigam viagem.

Sem perder tempo, vestiu a armadura e abriu as portas da caverna. Ao vê-lo sair, Bajie e o Peregrino perceberam imediatamente que ele era um monstro de verdade. Sua cabeça, dura como aço, estava coberta por um capacete cheio de pedras preciosas, do qual pendiam fitas coloridas. Seus olhos brilhavam como relâmpagos. Os tufos de pelo nas têmporas eram revoltos como o mar durante uma tempestade e tão avermelhados que pareciam chamas. Suas garras, afiadas e ágeis, pareciam feitas de prata. Seus dentes eram numerosos e ferozes como os de uma serra. No peito, trazia uma armadura de ouro puro. Na cintura, uma faixa com a forma de uma cabeça de dragão. Nas mãos, carregava uma cimitarra de aço tão puro que não havia outra igual no mundo.


Confiante, ele ergueu a arma e perguntou com voz de trovão:

— Quem foi o atrevido que chamou à minha porta?

— Seu respeitável vovô — respondeu o Peregrino —, o Grande Sábio, Sósia do Céu.

— Então você é Sun Wukong! — exclamou o monstro, rindo alto. — Macaco maldito! Como se atreve a me desafiar, se eu não fiz nada contra você?

— Como diz o provérbio — respondeu o Peregrino —, “as ondas só se agitam quando o vento sopra, e as águas se acalmam quando a maré baixa”. Acha mesmo que eu viria lutar se vocês não tivessem me provocado? Estou aqui porque ouvi dizer que planejam devorar meu mestre.

— Para que tantas ameaças? — zombou o monstro. — Toda essa falação quer dizer que pretende lutar?

— Exatamente — confirmou o Peregrino.


— Não seja insolente! — rugiu o monstro. — Você sabe que eu só precisaria dar uma ordem para minhas legiões de demônios saírem com tambores, bandeiras e estandartes. Mas não quero ser injusto, agindo  como um tigre que conhece o próprio terreno. Quero enfrentá-lo cara a cara, apenas com minhas forças.

O Peregrino virou-se para Bajie e disse:

— Fique de lado e não se meta. Vamos ver como ele se sai contra mim.

Bajie assentiu e se afastou.


— Aproxime-se, que vou afiar minha espada na sua cabeça — gritou o monstro, zombando. — Se conseguir resistir a três golpes da minha cimitarra, deixarei o monge Tang passar. Caso contrário, entregue-o para que eu o coma.

— Monstro maldito! — gritou o Peregrino, furioso. — Se houver papel e tinta na sua caverna, pode assinar o que acabou de dizer. Garanto que, mesmo que passe um ano inteiro golpeando minha careca com esse aço, não vai conseguir fazer um único arranhão.

O monstro firmou os pés no chão, levantou a cimitarra com as duas mãos e a deixou cair com força sobre o Grande Sábio. Para mostrar que não tinha medo, o Peregrino não se encolheu. Pelo contrário, esticou o pescoço o máximo que pôde. O golpe foi tremendo, mas a pele de sua cabeça nem sequer ficou vermelha.



Espantado, o monstro exclamou:

— Que nuca dura tem esse macaco!

— Não percebe que, nem no Céu nem na Terra, existe criatura com cabeça de bronze e cocuruto de aço como eu? — respondeu o Peregrino, sorrindo com malícia. — Não há martelo nem machado capaz de abrir uma marca nela. Como poderia ser diferente, se o próprio Lao-tzu não conseguiu derretê-la? As estrelas da Ursa Maior supervisionaram sua forja, feita pelas Vinte e Oito Moradas Celestes. Nada pode destruí-la, porque ela tem uma camada de tendões fortes como cabos. E, como se isso não bastasse, o monge Tang ainda colocou nela uma diadema de ouro.

— Pare de se gabar e prepare-se para o segundo golpe! — disse o monstro. — Desta vez, não irá sair vivo.

— Isso não foi nada — zombou Wukong. — Pode dar outro golpe, se quiser.

— Pelo visto, não conhece nada sobre esta cimitarra — retrucou o monstro. — Seu aço foi forjado por artesãos celestiais e passou inúmeras vezes pelo fogo e pelo refinamento. Sua lâmina segue os princípios das Três Estratégias (8), e sua força corresponde aos Seis Ensinamentos (9). Sua ponta é fina como a cauda de uma mosca, e sua lâmina flexível como o corpo de um dragão branco. Quando sobe às montanhas, faz as nuvens se acumularem; quando mergulha no mar, levanta ondas gigantescas. Foi polida incontáveis vezes e temperada centenas de vezes. Embora permaneça guardada nas profundezas desta montanha, jamais deixou de conquistar glória no campo de batalha. Abaixe essa cabeça raspada de monge e, com um único golpe, vou parti-la em duas como uma cabaça.

— Esse monstro está completamente cego! — disse o Grande Sábio, caindo na gargalhada. — Então acha que minha cabeça é uma cabaça? Muito bem! Não perca tempo e dê logo outro golpe.

O monstro tornou a levantar a cimitarra, e o Peregrino estendeu novamente a cabeça para recebê-la. Ouviu-se um estrondo terrível. Desta vez, porém, sua cabeça pareceu partir-se em duas e, num instante, surgiu outro Grande Sábio, idêntico ao primeiro, rolando pelo chão. O monstro, aterrorizado, recuou.


De longe, Bajie caiu na gargalhada:

— Devia golpeá-lo mais duas vezes! Assim conseguiria transformá-lo em quatro Wukongs!

— Ouvi dizer que você é mestre na arte da divisão do corpo — disse o monstro. — Mas por que resolveu usar essa magia diante de mim?

— Do que está falando? Que divisão do corpo? — perguntou o Grande Sábio.

— No primeiro golpe, você não se mexeu. Depois do segundo, transformou-se em duas pessoas. Como explica isso?

— Não tenha medo — respondeu o Grande Sábio, rindo. — Se estiver disposto a me golpear dez mil vezes, eu me multiplicarei outras tantas.

— Não duvido que possa dividir seu corpo quantas vezes quiser — respondeu o monstro. — O que duvido é que consiga reunir todas essas partes e voltar a ser um só. Se conseguir, permitirei que me dê um golpe com seu bastão.


— Nada disso! Você disse que me golpearia três vezes com a cimitarra, mas só deu dois golpes. Se eu lhe der mais de um golpe, ou sequer meio golpe a mais, deixarei de me chamar Sun!

— Muito bem! — exclamou o monstro.

O Grande Sábio abraçou seu outro eu e, com um giro, tornou a ser um só. Em seguida, empunhou o bastão de ferro e o deixou cair com força sobre o velho monstro, que ergueu a cimitarra a tempo de aparar o golpe.


— Macaco maldito! — gritou o monstro, enfurecido. — Como pode desrespeitar as regras dessa maneira? Acha certo tentar matar alguém diante da própria porta?

— A culpa não é minha — respondeu o Grande Sábio. — Antes de pedir que eu o golpeasse com este bastão, deveria ter se informado sobre as qualidades que o tornaram famoso tanto no Céu quanto na Terra.

— E que qualidades são essas? - perguntou o monstro.

— O ferro de que este bastão é feito passou pelo refinamento das nove voltas (10) e foi forjado pelo próprio Lao-tzu. O rei Yü o chamou de “tesouro sagrado” e o utilizou para medir a profundidade dos oito rios e dos quatro mares. Nele foram secretamente traçadas as constelações, e suas duas extremidades foram revestidas de ouro. As inscrições que carrega são tão profundas e misteriosas que até espíritos e deuses se espantam diante delas. Dragões e fênices estão gravados em seu corpo. Por isso, no princípio, era conhecido como Bastão do Misterioso Yang. Durante incontáveis anos permaneceu escondido nas profundezas do mar, completamente desconhecido pelos homens. Até que um dia manifestou o desejo de deixar aquele confinamento milenar, emitindo uma intensa luz multicolorida. Somente eu fui capaz de erguê-lo e levá-lo comigo para a montanha onde vivia. Foi ali que descobri seus extraordinários poderes de transformação. Quando quero, faço com que fique grosso como um tambor; quando desejo, torna-se fino como um fio de ferro. Pode crescer até parecer uma montanha ou encolher até ficar pequeno como uma agulha. Alonga-se ou se encurta obedecendo inteiramente à minha vontade. Quando o ergo, luzes coloridas sobem aos céus; quando o faço voar, relampeja pelos ares. Dele se desprende um frio penetrante, semelhante ao vento do inverno, enquanto névoas ameaçadoras cobrem o céu. Com este bastão subjuguei tigres e dragões e percorri todos os confins da Terra. Foi com ele que provoquei enorme confusão no Palácio Celeste e arruinei o Festival dos Pêssegos Imortais. Os reis celestes não conseguiram me subjugar, e até Nezha encontrou dificuldades para me enfrentar. Quando os deuses provaram a força deste bastão, não encontraram lugar seguro onde se esconder. Cem mil soldados celestiais fugiram diante de mim. Levei então a luta até o Palácio da Luz Perfeita. Conselheiros e funcionários celestiais se dispersaram em pânico. Com este bastão derrubei o Palácio da Ursa Maior e fiz tremer o recinto do Polo Sul. Ao vê-lo diante dos portões dourados do Céu, o Imperador de Jade não teve alternativa senão pedir a intervenção de Tathagata. Para um guerreiro, vitória e derrota fazem parte da batalha. Permaneci mais de quinhentos anos sob a montanha, até que a Bodhisattva Guanyin veio me mostrar o caminho. Ela me contou que, na grande corte dos Tang, havia surgido um santo monge que fizera aos Céus um extraordinário juramento: viajar até a Montanha do Espírito em busca das escrituras sagradas e libertar os espíritos que habitavam a Cidade da Morte. O caminho para o Oeste estava infestado de demônios e monstros, capazes de impedir sua missão. Sabendo que não existia no mundo outro bastão como o meu, pediu que eu acompanhasse o monge e o protegesse durante a viagem. Todos os espíritos malignos atingidos por este bastão são enviados diretamente ao Reino das Sombras, com os ossos reduzidos a pó e a carne esmagada. São milhares e milhares os monstros que já pereceram sob seu peso. Nas Regiões Superiores, ele abalou o Palácio da Ursa Maior; nas Regiões Inferiores, devastou os tribunais do Reino das Sombras. Nos Céus, pôs em fuga os Nove Luminares; no mundo subterrâneo, feriu os juízes dos mortos. Quando desce dos ares, faz tremer montanhas e rios. É com este bastão que protejo o monge Tang e elimino os monstros que ameaçam sua jornada.

Ao ouvir aquilo, o monstro começou a tremer de medo. Mesmo assim, sua honra estava em jogo. Sem se preocupar com a própria vida, brandiu ferozmente a cimitarra. Sorrindo, o Rei Macaco aparou o golpe com um simples movimento de seu bastão de extremos dourados. A princípio, os dois lutaram diante da entrada da caverna. Pouco depois, elevaram-se pelos ares e continuaram o combate entre as nuvens. Que batalha extraordinária! O bastão divino, que outrora fixara o leito do Rio Celeste, obedecia inteiramente à vontade de seu dono; a poderosa cimitarra do monstro, por sua vez, possuía extraordinários poderes mágicos. Em terra ainda havia alguma contenção; nos céus, porém, nenhum dos dois demonstrava misericórdia. Um podia mudar de forma à vontade; o outro fazia o próprio corpo crescer conforme a necessidade. O combate tornou-se tão feroz que nuvens se amontoaram no céu e a névoa cobriu toda a terra. Um estava decidido a devorar o monge Tang; o outro empregava todos os seus poderes para proteger o seu mestre. Por causa das escrituras transmitidas por Buda, o bem e o mal se enfrentavam numa luta feroz.


O monstro e o Grande Sábio lutaram por mais de trinta assaltos, sem que nenhum dos dois conseguisse obter vantagem. Vendo de baixo que o combate continuava equilibrado, Bajie não conseguiu ficar parado. Montou no vento, subiu até a altura do monstro, ergueu o ancinho com as duas mãos e o desceu com força contra o rosto do monstro. O mosntro entrou em pânico. Não sabia que Bajie não possuía poderes suficientes para sustentar por muito tempo uma batalha daquele nível e que, na verdade, apenas avançava com ímpeto para assustá-lo. Ao ver aquele focinho comprido, as enormes orelhas e o temível ancinho, imaginou estar diante de alguém dotado de uma força extraordinária. Por isso, abandonou o combate, deixou cair a cimitarra e fugiu.

— Atrás dele! — gritou o Grande Sábio. — Não deixe que escape!


Encorajado pelos gritos do companheiro, Bajie ergueu bem alto o ancinho e saiu correndo atrás do monstro. A encosta logo ficou mais íngreme, tornando a perseguição cada vez mais difícil. Quando viu que Bajie se aproximava, o velho monstro parou junto à montanha, voltou-se contra o vento, sacudiu o corpo e recuperou sua verdadeira forma. Então abriu a enorme boca, disposto a engoli-lo. Ao ver aquilo, Bajie ficou tão apavorado que se atirou de cabeça nos arbustos à beira do caminho. Não se importou com os espinhos nem com os arranhões que lhe rasgavam a cabeça e o rosto. Encolheu-se entre a vegetação, tremendo de medo, sem ousar levantar a cabeça. 


Pouco depois, o Peregrino chegou. Ao vê-lo, o velho monstro tornou a abrir sua gigantesca boca para devorá-lo, sem imaginar que era exatamente aquilo que o Grande Sábio desejava. Wukong guardou rapidamente o bastão de ferro e avançou de encontro ao monstro, que o engoliu de uma só vez, com espantosa facilidade.


Escondido entre os arbustos, Bajie ficou tão aterrorizado que começou a resmungar consigo mesmo:

— Esse Pi-ma-wen não sabe mesmo a hora de avançar nem de recuar! Quando viu que o monstro queria devorá-lo, por que não fugiu? Por que, em vez disso, correu justamente ao encontro dele? Agora foi engolido de uma só vez. Hoje ainda é um monge, mas amanhã não passará de um monte de esterco!

Só depois que o monstro deixou o campo, triunfante, Bajie teve coragem de sair dos arbustos e voltar pelo caminho por onde viera. Sanzang e o Monge Sha continuavam esperando no mesmo lugar onde Bajie os havia deixado. Ao vê-lo regressar cabisbaixo e completamente sem fôlego, Sanzang perguntou, alarmado:

— O que aconteceu para você voltar nesse estado? Onde está Wukong?

— O monstro o engoliu — respondeu Bajie, sem conseguir conter as lágrimas.

Ao ouvir aquilo, Sanzang desmaiou e caiu no chão. Só depois de algum tempo voltou a si. Então começou a bater no peito e a chutar a poeira em desespero:

— Ó discípulo! Sempre acreditei que você fosse capaz de subjugar demônios e derrotar monstros, conduzindo-me até o Paraíso Ocidental para prestar reverência a Buda. Quem poderia imaginar que acabaria perdendo a vida nas mãos de um monstro como esse? Ah! Ah! De que servem agora todos os méritos que acumulamos ao longo de nossa viagem? Tudo se transformou em algo tão inconsistente quanto a poeira!


Em vez de tentar consolar o mestre, que lamentava profundamente a perda de seu discípulo mais antigo, Bajie virou-se para o Monge Sha e disse:

— Traga a bagagem. Vamos dividi-la em duas partes iguais.

— Dividi-la? Para quê, irmão? — perguntou o Monge Sha, surpreso.

— Já que chegamos a este ponto, cada um seguirá seu próprio caminho. Você pode voltar para o Rio da Corrente de Areia e continuar devorando quem passar por lá. Eu voltarei imediatamente à Vila Gao para procurar minha esposa. Quanto ao cavalo branco, podemos vendê-lo e, com o dinheiro, comprar um caixão para o mestre. Assim, quando ele envelhecer e morrer, pelo menos não precisará se preocupar com o enterro.


Ao ouvir aquilo, Sanzang, já dominado pela angústia, ergueu seu lamento aos Céus, suplicando ajuda para conseguir levar sua grande missão até o fim. Por enquanto, deixaremos Sanzang e seus discípulos de lado. Voltemos ao monstro mais velho, que, depois de engolir o Peregrino, acreditava ter conquistado uma grande vitória. Assim que regressou à caverna, todos os demônios menores correram para recebê-lo e perguntaram como havia terminado o combate.

— Não poderia ter sido melhor — respondeu ele, orgulhoso. — Até consegui capturar um daqueles monges.

— Qual deles? — perguntou o segundo monstro, radiante.

— Engoli ninguém menos que o Peregrino Sun — respondeu o monstro mais velho.


— Você engoliu o Peregrino Sun? — repetiu o segundo monstro, horrorizado. — Não sabe que ele é indigesto?

— Exatamente! — confirmou o Grande Sábio lá de dentro. — Não há estômago capaz de me digerir. Mas não se preocupe. Comigo aqui dentro, nunca mais vai sentir fome.

Os demônios menores começaram a tremer de medo.

— Majestade, isso é terrível! — exclamou o mais atrevido. — O Peregrino Sun está falando de dentro do seu estômago!


— E quem se importa com isso? — respondeu o monstro mais velho. — Acham que, depois de devorá-lo, eu não saberei como acabar com ele? Fervam imediatamente um cântaro de água salgada. Assim que chegar ao meu estômago, ele sairá disparado como uma flecha. Depois vamos fritá-lo em fogo baixo e comê-lo acompanhando o vinho.

Os demônios menores não demoraram a voltar com meia caçarola de água salgada, recém-tirada do fogo. O monstro bebeu tudo sem pestanejar. Depois abriu a boca, esperando que o Peregrino saísse aos gritos de um momento para outro. Mas o Grande Sábio parecia ter criado raízes em seu estômago. Nem sequer reclamou da temperatura da água. Intrigado, o monstro enfiou a mão na garganta e começou a vomitar. Vomitou tanto que a vista ficou turva e sua cabeça começou a girar como a de um bêbado. Chegou a pôr bile para fora, mas o Peregrino continuou sem dar sinal de que pretendia sair.


Depois de descansar um pouco, o monstro perguntou, ofegando como um búfalo exausto:

— Vai sair ou não, Peregrino Sun?

— Receio que ainda seja um pouco cedo — respondeu o Peregrino. — Sinto muito, mas não penso em sair.

— E por quê? — insistiu o monstro.

— Dá para perceber que você não é um monstro muito inteligente — respondeu o Peregrino. — Desde que decidi me tornar monge, tenho levado uma vida difícil e cheia de privações. Como deve ter percebido, minha túnica está um pouco gasta, e começa a fazer frio lá fora. Sua barriga, por outro lado, é quente, confortável e protegida do vento. É o lugar ideal para passar o inverno.

— Ouviram isso? — gritaram os demônios menores, alarmados. — O Peregrino Sun resolveu passar o inverno dentro da sua barriga!

— Problema dele! — respondeu o monstro mais velho. — Se é isso que deseja, vou me entregar à meditação e recorrer à magia da hibernação. Não comerei absolutamente nada durante todo o inverno.  Assim, esse maldito Pi-ma-wen morrerá de fome.

— Está claro que inteligência não é o seu forte, filhinho — zombou o Peregrino. — No começo de nossa viagem em busca das escrituras sagradas, passamos por Cantão, e lá comprei uma pequena frigideira, perfeita para preparar um bom picadinho de carne (11). Acho que vou me divertir cortando pedacinhos do seu fígado, das tripas, do estômago e dos pulmões. Com tudo isso, terei comida suficiente até a primavera.

— Esse maldito macaco é perfeitamente capaz de fazer uma coisa dessas! — exclamou o segundo monstro, horrorizado. — É melhor levar suas palavras a sério!

— Entendo que ele goste de picadinho de carne — comentou o terceiro monstro —, mas não consigo imaginar onde pretende acender o fogo para colocar a frigideira.

— Como não? — respondeu o Peregrino. — Na ponta do esterno dele, é claro.

— Isso é horrível! — exclamou o terceiro monstro, voltando-se para o irmão mais velho. — Quando a fumaça chegar ao seu nariz, você não vai parar de espirrar.

— Com isso não precisa se preocupar — respondeu o Peregrino, caindo na gargalhada. — Vou abrir um buraco no crânio dele com meu bastão de extremos dourados. Assim terei uma claraboia e uma chaminé ao mesmo tempo.

Ao ouvir aquilo, o monstro mais velho começou a tremer de medo. Mesmo assim, continuou fingindo coragem e tentou tranquilizar os irmãos:

— Não se preocupem. Algumas taças de vinho medicinal serão suficientes para acabar com esse maldito macaco. Onde colocaram a garrafa?

O Peregrino pensou:

— O que será que ainda não provei nesta vida? Quando causei toda aquela confusão nos Céus, há cerca de quinhentos anos, tomei o elixir de Lao-tzu, bebi o vinho do Imperador de Jade, comi os pêssegos de Wang-Mu-Niang-Niang e provei todos os manjares preparados para o banquete. Até fígado de dragão e medula de fênix estavam entre os pratos. Duvido muito que esse vinho medicinal consiga me fazer algum mal.

Os demônios menores logo voltaram com dois odres de vinho. Encheram uma taça até a borda e a entregaram ao monstro. O aroma era tão intenso que o Grande Sábio conseguiu senti-lo mesmo estando dentro da barriga da fera.

— É melhor não deixar que ele beba isso — pensou.

Então virou levemente a cabeça e transformou a boca numa espécie de funil, posicionando-a bem abaixo da garganta do monstro. Assim, quando o monstro levou a primeira taça aos lábios, o vinho desceu diretamente para a boca do Peregrino. O mesmo aconteceu com a segunda. E assim continuou: o monstro pensava que estava bebendo, mas quem realmente aproveitava cada gole era Wukong.


Depois de repetir aquilo sete ou oito vezes, o monstro finalmente desistiu. Colocou a taça sobre a mesa e exclamou:

— Que coisa estranha! Normalmente, duas taças bastam para fazer meu estômago arder. Hoje tomei sete ou oito e nem sequer fiquei com o rosto vermelho. Acho melhor parar de beber.

Infelizmente, o Grande Sábio não era muito resistente ao vinho. Depois de sete ou oito taças, ficou tão animado que começou a saltar e dar cambalhotas dentro da barriga do monstro. E não parou por aí. Agarrou-se ao fígado do monstro e começou a se balançar e a dar pontapés para todos os lados, como se estivesse brincando nos galhos de uma árvore. 


A dor tornou-se tão insuportável que o velho monstro caiu no chão e começou a rolar de um lado para o outro, completamente fora de si. Por enquanto, não sabemos se ele morreu ou não. Quem quiser descobrir terá de ouvir com atenção o que será contado no próximo capítulo.



Jornada ao Oeste

Navegue entre os capítulos da tradução.



Notas do Capítulo LXXV
  1. A descrição faz referência ao Kun, peixe gigantesco da mitologia chinesa que, segundo o início do Zhuangzi, transforma-se na colossal ave Peng. As proporções extraordinárias e a imensa capacidade de voo desse ser mitológico estão associadas à figura do Grande Pássaro Roc;
  2. O li é uma unidade tradicional chinesa de distância, cujo valor variou ao longo da história. Considerando o padrão moderno de 500 metros, noventa mil li corresponderiam aproximadamente a 45 mil quilômetros. Aqui, porém, a expressão retoma a tradição literária do Zhuangzi e representa a extraordinária capacidade de voo do pássaro mitológico, não devendo ser interpretada como uma distância exata; 
  3. Expressão recorrente nas escrituras budistas, que designa um conjunto de materiais preciosos, entre os quais se encontram ouro, prata e lápis-lazúli. Os demais variam conforme o texto e a tradição, podendo incluir cristal, ágata, pérolas, coral e conchas. A enumeração no romance não especifica quais desses materiais constituem o jarro; 
  4.  Os Oito Trigramas (bagua) são símbolos fundamentais do I Ching, ou Livro das Mutações. Cada um é formado por três linhas contínuas ou interrompidas, associadas respectivamente ao yang e ao yin. Representam simbolicamente o céu, a terra, o trovão, o vento, a água, o fogo, a montanha e o lago, expressando diferentes aspectos e transformações da natureza; 
  5. Sistema tradicional chinês que divide o movimento anual aparente do Sol em vinte e quatro períodos, utilizados para acompanhar as mudanças das estações e orientar as atividades agrícolas. O ciclo começa com o Início da Primavera e termina com o Grande Frio. Esse conhecimento foi inscrito pela UNESCO na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2016;
  6. Termo da cosmologia e da tradição religiosa chinesa associado às forças celestes. Os Trinta e Seis Tiangang constituem um conjunto de entidades ou influências celestiais, frequentemente representadas como estrelas ou espíritos divinos. No romance, esse número estabelece a correspondência simbólica que exige exatamente trinta e seis carregadores para transportar o Jarro do Yin e do Yang;
  7. Referência ao episódio narrado no Capítulo XV. Naquela ocasião, a Bodhisattva Guanyin arrancou três folhas de seu ramo de salgueiro, colocou-as na nuca de Wukong e as transformou em três pelos dotados do poder de salvar-lhe a vida em situações desesperadas. São esses mesmos pelos que o Grande Sábio utiliza agora para escapar do jarro;
  8. Referência ao Huang Shigong Sanlüe, ou Três Estratégias de Huang Shigong, um dos Sete Clássicos Militares da China antiga. A obra, tradicionalmente atribuída ao estrategista Huang Shigong, reúne princípios de estratégia militar, liderança e organização das forças armadas. Sua menção serve para exaltar a excelência guerreira da cimitarra do demônio;
  9. Referência ao Liutao, também conhecido como Seis Ensinamentos Secretos, outro dos Sete Clássicos Militares da China. Tradicionalmente atribuído a Jiang Ziya, ou Taigong, o tratado aborda os princípios da administração política, da organização militar e da condução da guerra. No texto, a referência complementa a menção às Três Estratégias, ressaltando o poder da cimitarra;
  10. Expressão ligada à tradição da alquimia taoista e à busca da imortalidade. A edição espanhola relaciona a passagem ao chamado Elixir das Nove Voltas, ao qual se atribuía o poder de conferir a imortalidade em pouco tempo. A referência, aplicada aqui à fabricação do bastão de Wukong, ressalta a natureza extraordinária de seu processo de refinamento;
  11. No texto, a expressão traduzida como “picadinho de carne” refere-se ao tsa-suei, termo relacionado ao conhecido chop suey da culinária cantonesa. Originalmente, designava uma preparação feita com pequenos pedaços fritos de vísceras, especialmente fígado e moela de frango ou pato.


  • Tradução em pt-br por Rodrigo Viany (Sleipnir). Favor não utilizar sem permissão.
  • Tradução baseada na tradução do chinês para o espanhol feitas por Enrique P. Gatón e Imelda Huang-Wang, e do chinês para o inglês feita por Collinson Fair.
fontes consultadas para a pesquisa:
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