9 de setembro de 2026

Opletai

۞ ADM Sleipnir

Arte de Ruslan Svobodin

Opletai (russo: Оплетай, também transliterado como Opletay) é uma criatura sobrenatural do folclore russo da Sibéria, registrada no século XIX em tradições do sul da região e da antiga província de Tomsk. As fontes apresentam versões diferentes: em uma delas, é um ser de aparência humana que ataca viajantes e se alimenta de sangue; em outra, aparece como uma criatura formada por metade de um corpo humano. O seu nome está relacionado ao verbo russo оплетать (opletat’), associado a sentidos como envolver ou entrelaçar. Por isso, “o Enlaçador” pode ser usado como aproximação de seu significado, embora não seja uma tradução tradicional estabelecida.

O Opletai que ataca viajantes

Uma das descrições mais antigas foi registrada por Stepan Gulyaev, em 1848, nos Ensaios etnográficos da Sibéria Meridional. Nessa versão, o Opletai possui aparência semelhante à humana e permanece sobre árvores à espera da passagem de viajantes. Ao atacar, lança-se sobre a vítima, envolve-a com os braços e as pernas e, depois de imobilizá-la, morde seu pescoço e suga seu sangue.

Arte de Misha Tarasov

Gulyaev comparou a criatura ao upyr, figura associada ao vampirismo no folclore russo. Marina Vlasova, porém, observa que o hábito de envolver fisicamente a vítima não é característico das tradições mais difundidas sobre os upyri. O Opletai, portanto, não deve ser considerado simplesmente uma variante do upyr.

Os Opletai de meio corpo

Uma tradição registrada por Grigori Potanin, publicada em 1864 e relacionada à parte sudoeste da antiga província de Tomsk, descreve os Opletai como seres formados por apenas metade de uma pessoa. Cada um teria uma perna, um braço e um olho e, quando sozinho, não seria considerado muito perigoso. Dois Opletai, entretanto, poderiam unir-se, formando juntos algo semelhante a um corpo completo. Nessa condição, tornavam-se extremamente rápidos, a ponto de, segundo a tradição, uma pessoa não conseguir escapar deles nem mesmo a cavalo. Essa descrição pertence a uma variante diferente daquela registrada por Gulyaev. 

As fontes não permitem afirmar que os Opletai de meio corpo também se escondiam em árvores ou se alimentavam de sangue. As duas descrições correspondem, portanto, a variantes distintas da tradição.. Os registros disponíveis também não indicam uma origem mítica, função religiosa ou aparência única para a criatura.

Créditos ao /LandOfDiffusion

fontes:

Mais uma idéia de post da minha filha, Lara. Espero que um dia ela tome conta dessa missão em meu lugar.

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3 comentários:

  1. Olá! Gostaria de apresentar aqui um projeto de universo mitológico e ficcional que venho desenvolvendo chamado Abzu & Anki, posteriormente expandido para Abzu & Anki Expanded (AAE). Como o Portal dos Mitos é dedicado justamente à preservação, divulgação e exploração de mitologias, folclores, divindades, criaturas e tradições de diferentes povos, acredito que seja interessante explicar um pouco sobre a proposta.

    Antes de tudo, é importante fazer uma distinção: Abzu & Anki não pretende ser uma reconstrução histórica da religião mesopotâmica nem uma afirmação sobre aquilo em que os antigos sumérios, acádios, babilônios ou assírios realmente acreditavam. Trata-se de uma obra de ficção mitológica e especulativa contemporânea que utiliza nomes, conceitos e imagens provenientes de tradições antigas como ponto de partida para construir uma cosmologia própria. Portanto, elementos históricos e elementos originais devem ser diferenciados.

    O próprio título vem de Abzu e Anki, conceitos que, dentro da obra, recebem uma interpretação ficcional bastante diferente de qualquer definição puramente histórica. Em Abzu & Anki, Abzu representa primordialmente o Abismo, a profundidade, a escuridão primordial e uma dimensão associada à origem das coisas. Anki, por sua vez, representa o Universo, a manifestação da luz, o cosmos e a realidade organizada. A relação entre os dois funciona como uma das bases cosmológicas do universo.

    No princípio existe o chamado Ultimate Being, o Ser Supremo ou consciência primordial, concebido como uma realidade anterior à própria distinção entre luz e escuridão. Ele não é simplesmente um “deus” antropomórfico, mas uma representação da unidade absoluta anterior à criação. Em determinado momento ocorre a separação entre os princípios de luz e escuridão, dando origem à estrutura cosmológica que posteriormente será associada a Abzu e Anki.

    A partir daí surge uma mitologia própria envolvendo figuras como Nammu, Abzu, Anki, Enki, Enlil, Aya, Marduk, Anu, Isimud e outras entidades. Entretanto, essas personagens não precisam ser entendidas como cópias exatas das divindades presentes nas fontes mesopotâmicas. A obra utiliza nomes e referências tradicionais, mas reorganiza suas funções, relações e significados para construir uma nova narrativa.

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    1. Um dos conceitos mais importantes de Abzu & Anki é que os deuses não são necessariamente “pessoas gigantes vivendo em algum lugar do espaço”. Dentro da cosmologia da obra, os deuses podem ser compreendidos como frequências cósmicas e naturais, manifestações de aspectos fundamentais da realidade. Isso aproxima a mitologia da filosofia naturalista e da especulação cosmológica.

      Essa ideia se torna ainda mais importante em Abzu & Anki Expanded, ou simplesmente AAE.

      O AAE é uma expansão gigantesca do conceito original. Em vez de ser apenas uma releitura da mitologia mesopotâmica, ele procura construir um universo em que diferentes mitologias, religiões, culturas, cosmologias e sistemas simbólicos possam ser estudados e reinterpretados dentro de uma mesma estrutura ficcional.

      Um dos princípios do AAE é justamente evitar uma divisão extremamente rígida entre “mitologia”, “fantasia” e “ciência”. O universo tenta imaginar como seria uma realidade em que aquilo que diferentes culturas chamaram de “deuses”, “espíritos”, “forças”, “demônios”, “anjos” ou “entidades cósmicas” pudesse possuir algum tipo de fundamento natural.

      Por isso, o AAE possui uma característica deliberadamente naturalista e materialista. Não significa que a obra seja uma explicação científica real das religiões ou que esteja afirmando que deuses existam objetivamente no nosso mundo. É uma proposta de ficção especulativa: “e se aquilo que as antigas culturas chamavam de divino fosse uma manifestação de fenômenos naturais que ainda não compreendemos completamente?”

      Nesse sentido, a famosa ideia interna do universo de que “os deuses são frequências de coisas naturais” funciona como uma chave interpretativa. Uma divindade poderia possuir diferentes manifestações culturais sem que necessariamente todas essas manifestações fossem literalmente o mesmo personagem humanoide. A cultura funcionaria como uma espécie de “instrumento” através do qual uma frequência primordial é percebida e representada.

      Isso também permite que o AAE explore uma enorme quantidade de tradições mitológicas sem simplesmente dizer que “todos os deuses são exatamente iguais”. Pelo contrário: diferentes culturas podem interpretar fenômenos semelhantes de maneiras radicalmente diferentes. Assim, a diversidade mitológica continua existindo.

      Outro elemento importante é o conceito de polipanen­teísmo e de uma realidade composta por múltiplos níveis, frequências e manifestações. A obra procura imaginar uma cosmologia em que o divino não esteja necessariamente separado da natureza, mas também não seja reduzido simplesmente à natureza cotidiana.

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    2. O resultado é uma espécie de ficção mitológica, cosmologia especulativa e ficção científica de orientação naturalista, com elementos de horror cósmico, filosofia, história das religiões e worldbuilding.

      Uma das coisas que considero mais interessantes em Abzu & Anki Expanded é que o universo não tenta transformar todos os deuses em personagens humanos convencionais. Quanto mais profundamente uma entidade é compreendida, mais estranha ela pode parecer. Um deus pode possuir personalidade, relações e conflitos, mas sua verdadeira natureza pode ser algo muito mais abstrato: uma frequência, um processo, uma estrutura cosmológica ou uma manifestação de alguma propriedade fundamental do universo.

      Por isso, o AAE também brinca com uma espécie de paradoxo: quanto mais humano você torna um deus, menos humano ele pode acabar se tornando. A aparência antropomórfica seria apenas uma representação limitada utilizada por seres humanos para compreender algo muito maior.

      Assim, Abzu & Anki funciona como o núcleo mitológico original, enquanto Abzu & Anki Expanded transforma esse núcleo em uma cosmologia muito mais ampla, envolvendo diferentes tradições, civilizações divinas, interpretações religiosas, filosofia, ciência especulativa, horror cósmico e questões sobre a própria natureza da realidade.

      Também existe uma preocupação deliberada em distinguir história das religiões de ficção inspirada em religiões. Se eu utilizar uma divindade egípcia, grega, nórdica, mesopotâmica ou de qualquer outra tradição, isso não significa que a versão apresentada no AAE seja a versão historicamente tradicional daquela divindade. É uma interpretação ficcional inserida em uma cosmologia própria.

      Nesse sentido, vejo Abzu & Anki Expanded como uma espécie de laboratório narrativo: um lugar onde mitologias antigas podem servir de inspiração para perguntar coisas novas.

      O que aconteceria se diferentes tradições mitológicas fossem observadas dentro de uma mesma realidade?

      E se os “deuses” fossem fenômenos naturais?

      E se aquilo que chamamos de sobrenatural fosse apenas uma parte da natureza que ainda não conseguimos compreender?

      E se mitologias fossem diferentes linguagens culturais utilizadas para descrever uma realidade muito maior do que qualquer uma delas?

      Essas são algumas das perguntas que estão por trás do projeto.

      Portanto, Abzu & Anki não pretende substituir as mitologias históricas nem falar em nome das religiões antigas. Pelo contrário, utiliza parte desse enorme patrimônio cultural como inspiração para construir uma obra nova. O objetivo é justamente criar uma mitologia contemporânea que dialogue com as antigas, reconhecendo a diferença entre fonte histórica, interpretação religiosa e criação ficcional.

      E talvez seja essa a principal razão pela qual acredito que projetos como esse podem dialogar com espaços dedicados à mitologia: as antigas histórias continuam inspirando novas histórias, novas perguntas e novas formas de imaginar o universo.

      No fim, Abzu & Anki é uma história sobre origem, cosmos, luz, escuridão, natureza, divindade e conhecimento.

      Já Abzu & Anki Expanded leva essa proposta ao extremo: transforma essa mitologia inicial em uma cosmologia muito maior, na qual a pergunta central deixa de ser apenas “quais são os deuses?” e passa a ser:

      “O que realmente significa chamar alguma coisa de deus?”

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