9 de julho de 2026

Dazhbog

۞ ADM Sleipnir


Dazhbog (também grafado Dažbog, Daždbog, Dajbog ou Dabog) é uma divindade da mitologia eslava, conhecida sobretudo por fontes eslavas orientais medievais. Ele é frequentemente interpretado como uma divindade solar ou celeste, associada à luz, à dádiva, à prosperidade e à ancestralidade. Seu nome é citado entre as divindades do panteão de Vladimir, o Grande, em Kiev, e também aparece em textos como o Códice Hipaciano e o Slovo o polku Igoreve (O Conto da Campanha de Igor ou O Poema das Hostes de Igor). Apesar dessas menções, as fontes medievais não preservam uma mitologia completa sobre Dazhbog. Grande parte de sua imagem atual resulta da combinação entre registros medievais, interpretações linguísticas, tradições folclóricas posteriores e reconstruções modernas.

Nome e etimologia

O nome Dazhbog é geralmente relacionado à forma protoeslava dadjьbogъ, composta por um elemento ligado ao verbo “dar” e pelo termo bogъ, “deus”. Por isso, costuma ser traduzido como “deus que dá”, “deus doador” ou “doador de riqueza”. Em algumas interpretações, bog também conserva um sentido antigo ligado a riqueza, fortuna ou bem-estar, o que aproxima Dazhbog da ideia de uma divindade dispensadora de prosperidade.

As variantes do nome aparecem de formas diferentes entre os povos eslavos. A forma Dazhbog é comum em tradições eslavas orientais, enquanto Daždbog, Dajbog e Dabog aparecem em outros contextos linguísticos e folclóricos.

Arte de Andrey Shishkin


Fontes medievais

Dazhbog é citado na Crônica Primária, texto compilado no início do século XII, entre os deuses cujos ídolos foram erguidos por Vladimir, o Grande, em Kiev. Segundo a crônica, Vladimir colocou em uma colina imagens de Perun, Khors, Dazhbog, Stribog, Simargl e Mokosh, indicando que essas divindades ocupavam lugar importante na religião oficial da Rus’ de Kiev antes da cristianização.

Outra referência importante aparece no Códice Hipaciano, em um trecho derivado da tradição da Crônica de João Malalas. Nesse texto, Svarog é identificado com Hefesto, e o Sol, filho de Svarog, recebe o nome de Dazhbog. A passagem é uma das principais bases para a associação de Dazhbog com o Sol, embora pertença a uma adaptação eslava de material originalmente grego.

Dazhbog também aparece no Conto da Campanha de Igor, poema épico eslavo oriental relacionado à campanha do príncipe Igor Sviatoslavich contra os cumanos/polovtsianos, em 1185. Na obra, o povo da Rus’ ou seus príncipes são chamados de “netos de Dazhbog”, expressão geralmente interpretada como sinal de uma relação simbólica entre a divindade e a ancestralidade coletiva ou guerreira da Rus’. Essa imagem aproxima Dazhbog da função de herói cultural, isto é, uma figura mítica ligada à origem, à proteção ou à identidade de uma comunidade.

Relação com Khors

A proximidade entre Dazhbog e Khors na lista do panteão de Vladimir levou alguns estudiosos a aproximar as duas divindades. Khors costuma ser interpretado como uma divindade de possível caráter solar, talvez de origem iraniana, enquanto Dazhbog aparece associado à luz, à dádiva e à força benéfica do Sol. Em algumas leituras, os dois nomes indicariam divindades solares distintas; em outras, aspectos diferentes de uma mesma esfera celeste.


Dabog no folclore sérvio

Entre os eslavos do sul, especialmente em tradições sérvias, aparece a figura de Dabog ou Daba, muitas vezes interpretada como forma posterior ou aparentada de Dazhbog. No folclore, Dabog pode surgir como personagem ambíguo, às vezes associado ao mundo inferior, aos lobos ou mesmo ao diabo cristão. Essa imagem pertence a uma camada folclórica posterior, já marcada pela cristianização. A permanência do nome Dabog no folclore sérvio, porém, mostra que a memória da divindade continuou a circular em diferentes formas.

Representações posteriores

Em compilações modernas e tradições posteriores, Dazhbog às vezes é descrito como um deus solar que percorre o céu em uma carruagem puxada por cavalos brancos ou luminosos. Algumas versões situam sua morada no Sol, no leste ou em um palácio dourado, de onde ele partiria todas as manhãs para atravessar o céu. Outras tradições associam Dazhbog ao ciclo diário do Sol. Em versões sérvias, ele pode ser descrito como uma figura que nasce jovem pela manhã, envelhece ao longo do dia e morre ao anoitecer, renascendo na manhã seguinte. Essa imagem expressa a passagem do Sol pelo céu e sua renovação diária.

Algumas compilações também relacionam Dazhbog a figuras celestes como Mesyats, a Lua, e às Zoryas, personificações da estrela da manhã e da estrela da tarde. Esses elementos pertencem a tradições e interpretações posteriores, ampliando a imagem da divindade para além das referências medievais mais antigas.

Dazhbog também aparece, em tradições folclóricas e interpretações regionais, associado ao lobo, ao fogo doméstico, à fertilidade, à chuva e ao mundo inferior. Esses aspectos mostram como sua figura foi reinterpretada ao longo do tempo, combinando características solares, ancestrais e ctônicas.

"Glória à Dazhdbog", por Boris Olshansky, c. 1990. 


fontes:
Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

2 de junho de 2026

Rugiaevit

۞ ADM Sleipnir

Arte de Miroslav Zapletal

Rugiaevit (também chamado Rugievit ou Ruyevit), era uma divindade cultuada pelos rani, um povo eslavo que habitava a ilha de Rügen, no mar Báltico. Seu nome aparece em apenas duas fontes medievais: a Gesta Danorum, do historiador dinamarquês Saxo Grammaticus (1150-1220), e a Knýtlinga saga ("Saga dos Descendentes de Canuto"), de autor desconhecido. Seu principal centro de culto localizava-se em Charenza, provavelmente a atual cidade de Garz, onde existiam templos dedicados a ele, a Porevit e a Porenut.

Segundo as descrições medievais, a estátua de Rugiaevit era feita de madeira de carvalho e possuía sete rostos humanos. O deus carregava sete espadas presas ao cinturão e uma oitava espada na mão direita. Sob sua boca havia ninhos de andorinhas, detalhe que chamou a atenção dos cronistas cristãos da época. Rugiaevit era associado principalmente à guerra, embora alguns estudiosos também relacionem seu culto à fertilidade e à sexualidade.

Fontes históricas

A principal descrição do deus foi registrada por Saxo Grammaticus ao narrar a conquista dinamarquesa de Rügen em 1168, liderada pelo rei Valdemar I e pelo bispo Absalon. Após a queda do grande templo de Svetovid em Arkona, os habitantes de Charenza decidiram se render sem resistência. Saxo descreve então a entrada dos dinamarqueses nos templos locais e a destruição das imagens sagradas.

O cronista relata que o templo de Rugiaevit era decorado com tecidos púrpura e sustentado por colunas de madeira. No interior encontrava-se o grande ídolo do deus, cuja aparência foi retratada de forma depreciativa pelos autores cristãos. As andorinhas haviam construído ninhos sob a boca da estátua, acumulando sujeira sobre seu peito, algo que Saxo utiliza para ridicularizar a divindade pagã. Apesar disso, a descrição revela que Rugiaevit era considerado um deus poderoso e ligado à guerra, comparado pelo autor ao deus romano Marte.

Após a destruição das estátuas, Saxo menciona uma crença popular segundo a qual os deuses de Charenza puniam transgressões sexuais. O relato descreve pessoas incapazes de se separar durante o ato sexual, o que teria sido interpretado como castigo divino. O texto, porém, não deixa claro se essa associação dizia respeito especificamente a Rugiaevit ou a outro deus local.

A Knýtlinga saga também menciona a divindade, embora utilize a forma distorcida “Rinvit”.

Etimologia

O significado do nome Rugiaevit ainda é debatido pelos estudiosos. A interpretação mais comum traduz o nome como “senhor” ou “governante de Rügen”. Alguns pesquisadores preferem a forma Ruyevit e relacionam a raiz do nome a antigas palavras eslavas ligadas ao cio animal, ao calor e à fertilidade. Essa interpretação aproximou o deus de outras divindades eslavas associadas à primavera e à fertilidade, como Yarovit.

O elemento “-vit” é frequentemente interpretado como “senhor” ou “governante”, aparecendo também em nomes de outras divindades eslavas.

Arte de CommanderNothing

Interpretações

As sete faces de Rugiaevit despertaram diversas interpretações. Em estudos comparativos sobre religiões antigas, figuras policéfalas costumam ser associadas a ideias cosmológicas e ao domínio sobre diferentes aspectos do mundo. As andorinhas presentes na estátua também possuem significado simbólico. Entre diversos povos eslavos, essas aves eram vistas como mensageiras da primavera e ligadas ao mundo espiritual, o que levou alguns estudiosos a associar Rugiaevit aos ciclos da natureza e da fertilidade.

Alguns historiadores consideram que Rugiaevit fazia parte de uma tríade divina cultuada em Charenza ao lado de Porevit e Porenut. Segundo essa interpretação, Rugiaevit ocuparia a posição principal, sendo o deus guerreiro e soberano dos rani, enquanto as outras duas divindades exerceriam funções complementares. Outros pesquisadores identificam Rugiaevit como uma manifestação regional de Perun, o deus eslavo do trovão e da guerra. Essa interpretação aproxima Rugiaevit de outras divindades indo-europeias associadas tanto ao combate quanto à fertilidade.


fontes:
  • DIXON-KENNEDY, M. Encyclopedia of Russian and Slavic Myth and Legend. [s.l.] ABC-CLIO, 1998;
  • BESTMIF.RU. Ругевит, Rugiaevit - Славянская мифология | Бестиарий, существа, мифология, мифы и легенды, арты. Disponível em: <https://bestmif.ru/bestiary/rugevit>;
  • WIKIPEDIA CONTRIBUTORS. Rugiaevit. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Rugiaevit>.
Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

7 de março de 2026

Pripegala

۞ ADM Sleipnir

Pripegala é o nome de uma divindade mencionada em uma carta datada de 1108, escrita por Adelgot, bispo de Magdeburgo, no contexto de uma convocação à guerra contra os veletos, um povo eslavo pagão da região polábia (atual norte da Alemanha). A fonte descreve práticas religiosas atribuídas aos veletos e associa o culto de Pripegala a sacrifícios humanos, especialmente a decapitações. O texto tem caráter fortemente hostil e propagandístico, refletindo a perspectiva cristã medieval sobre religiões pagãs.

Na carta, Pripegala é comparado a Priapo, divindade greco-romana associada à fertilidade, e a Belzebu, figura demoníaca do cristianismo medieval. Segundo o autor, os seguidores da divindade acreditavam que Pripegala "exigia cabeças”, o que justificaria a realização de sacrifícios humanos. Após tais rituais, os participantes celebrariam simbolicamente a vitória de Pripegala sobre Cristo. Essa descrição é considerada exagerada e ideologicamente tendenciosa por historiadores modernos.

Etimologia e reconstruções do nome

Há consenso entre os estudiosos de que o nome Pripegala é uma forma corrompida, resultante da transcrição germano-latina de um teônimo eslavo. A leitura mais aceita é Pribyglav ou Pribyglov. Linguisticamente, o nome pode ser analisado como a junção dos elementos proto-eslavos priby (“aumentar”, “chegar”) e golva (“cabeça”), resultando em um significado aproximado como “aquele que recebe cabeças” ou “acumulador de cabeças”.

O linguista Michał Łuczyński reconstrói a forma proto-eslava como Pribyglovъ. Outras interpretações foram propostas ao longo do tempo, incluindo tentativas de relacionar o nome a ideias como “sol abrasador”, mas essas hipóteses são hoje consideradas menos prováveis.

Relação com outras divindades

Segundo Łuczyński, Pribyglav pode ter sido um epíteto ou sinônimo de Svarozhits, divindade eslava frequentemente associada ao sol e ao fogo. Essa identificação é reforçada por relatos de que, no templo de Svarozhits-Radogost em Rethra — principal centro religioso dos veletos — eram aceitos sacrifícios de cabeças humanas. Um episódio citado é o sacrifício do bispo João de Mecklemburgo, em 1066.

A associação entre decapitação ritual e culto solar também encontra paralelos em outras culturas indo-europeias, como entre os celtas e em tradições da Índia antiga.

Possíveis vestígios toponímicos

O filólogo sérvio Aleksandar Loma sugere que a única possível ocorrência desse teônimo fora da região polábia esteja no nome da localidade sérvia Privina Glava. Registros otomanos do século XVI mencionam o local como Pribiglava, o que indica que o nome atual pode ser resultado de uma adaptação posterior. Topônimos históricos semelhantes, como Gologlava e o moderno Gola Glava, reforçam a hipótese de um antigo significado relacionado a “cabeça”.


fontes:
Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

4 de março de 2026

Obderikha

۞ ADM Sleipnir


Obderikha (em russo, обдериха, “aquela que esfola”) é um espírito feminino da casa de banhos tradicional (banya) no folclore camponês da região de Arkhangelsk, no norte da Rússia. Considerada a “dona” ou guardiã da banya, está associada à vigilância das regras e ao uso adequado desse espaço, que desempenhava um papel ritual fundamental na vida rural.

No imaginário popular, a Obderikha personifica a punição daqueles que entram na banya em horários impróprios ou desrespeitam suas normas. Segundo as crenças, ela arranha os infratores e pode até “arrancar-lhes a pele”, característica que explica seu nome, derivado de um verbo ligado à ideia de esfolar. Em diferentes regiões, a mesma entidade recebe denominações variadas, como oderyshok ou zaderikha, refletindo diferenças locais da tradição oral.


Aparência e manifestações

A aparência da Obderikha varia conforme os relatos populares. Ela pode surgir sob a forma de uma mulher adulta, com cabelos longos e soltos, dentes grandes e olhos muito afastados. Em outras narrativas, manifesta-se como uma criança, o que torna sua figura ainda mais perturbadora para os banhistas. Em geral, seu corpo combina características humanas e animais, sendo frequentemente descrita como peluda, com garras e pequenos chifres, aproximando-se de outros seres da chamada “baixa mitologia” eslava, composta por espíritos domésticos e entidades liminares.

Algumas tradições atribuem à Obderikha formas ainda mais variadas. Em certos relatos, ela aparece como um gato, geralmente ruivo ou cinza, com olhos grandes e brilhantes. Em outros casos, pode assumir formas inusitadas, como um tubo de casca de bétula rolando de uma banya para outra.


Origem, habitat e perigos

A origem da Obderikha está ligada à água, ao parto e à chamada “sujeira do nascimento”. De acordo com as crenças populares, numa banya recém-construída a Obderikha surge após o primeiro banho de um recém-nascido realizado naquele local. Em algumas regiões, acreditava-se que cada bebê lavado ali dava origem a uma nova Obderikha. Em outras, pensava-se que ela só aparecia depois que quarenta crianças fossem banhadas no mesmo espaço, número considerado simbólico na tradição local.

Dentro da banya, a Obderikha costuma habitar locais escondidos e pouco acessíveis, como debaixo do estrado, atrás da fornalha de pedras ou sob os bancos. É geralmente vista como um espírito perigoso, sobretudo para aqueles que permanecem na banya por tempo excessivo ou desrespeitam suas regras, sendo considerada particularmente ameaçadora para crianças pequenas. Algumas narrativas afirmam que a Obderikha pode “trocar” um bebê deixado sozinho na banya, explicando, no imaginário popular, doenças, deformidades ou mudanças inesperadas no comportamento infantil.

Aspecto protetor

Apesar de seu caráter temido, a Obderikha nem sempre é hostil. Em raros relatos, aparece como protetora do ser humano, defendendo-o de outras entidades consideradas impuras. Essa proteção, contudo, só ocorre quando a pessoa demonstra respeito pelo espaço da banya e por suas regras. Assim, a Obderikha expressa a dualidade típica dos espíritos domésticos do folclore eslavo: pode causar dano quando provocada, mas também oferecer proteção quando tratada com cuidado e reverência.

Arte de Tony Sart



fontes:


Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

9 de dezembro de 2025

Kutkh

۞ ADM Sleipnir

Arte de MyNeonOne


Kutkh (russo: Кутх; também grafado como Kutkha, Kootkha, Kutq, Kutcha, entre outros) é um espírito-corvo das mitologias dos povos indígenas do Extremo Oriente da Rússia. Ele é uma figura central nos mitos de criação e é considerado o "Ancestral Fértil" da humanidade, além de um poderoso xamã e trapaceiro (trickster). Apesar de sua importância na mitologia, Kutkh não é objeto de culto formal.

Kutkh é conhecido de diferentes formas entre os povos que compartilham a família linguística chukotko-kamchatkana. Entre os chukchis, é chamado Kúrkil; entre os itelmens, Kutq; entre os koryaks do sudeste, KútqI, KútqIy ou KúsqIy; e entre os koryaks do noroeste, KúykIy ou QúykIy. Na forma aumentativa koryak, aparece como KutqÍnnaku, KusqÍnnaku ou KuyÍnnaku, significando "Grande Kutkh", frequentemente traduzido como "Deus".


Mitologia

Os mitos sobre Kutkh são numerosos e frequentemente contraditórios, refletindo sua natureza ambígua. Em algumas tradições, ele é criado por um Criador; em outras, surge por conta própria, às vezes a partir de um velho casaco de pele. Ele é creditado com a formação de grandes elementos do mundo físico: a península de Kamchatka (em algumas versões, criada ao deixar cair uma pena), os oceanos, rios, lagos, montanhas e vales. Algumas lendas descrevem sua fecundidade, atribuindo-lhe a invenção do sexo e a criação de povos a partir de seus filhos e de outros espíritos animais.


Kutkh é também um trapaceiro e, ao mesmo tempo, uma figura ridícula. Muitas das bênçãos que traz à humanidade surgem de forma acidental ou como consequência de suas travessuras. Por exemplo, a luz do Sol teria sido liberada na Terra após ele quebrar as pedras que a cercavam, e a península de Kamchatka teria surgido durante uma bebedeira com um urso. Numa famosa lenda chukchi, os primeiros ratos nasceram das pegadas de Kutkh, e seu espirro subsequente criou montanhas e vales, enquanto tentativas de expulsá-los originaram oceanos e temporadas.

Ele interage frequentemente com outros espíritos animais — como lobo, raposa, urso, carcaju, rato, coruja e foca — em situações de trapaça, conflito ou rivalidade. Essas histórias destacam sua ambivalência: Kutkh engana e é enganado, pune e beneficia, sendo responsável por aspectos positivos e negativos do mundo.

A personalidade caprichosa e imprevisível de Kutkh também é refletida nos fenômenos naturais de Kamchatka, como vulcões, tempestades e rios de forte correnteza, considerados manifestações de sua vontade e humor.


Comparações culturais

As semelhanças entre Kutkh e o Corvo das mitologias indígenas da Costa Noroeste do Pacífico sugerem algum grau de contato cultural indireto entre os povos da Ásia e da América do Norte. Em ambas as tradições, o corvo é associado a truques, magia, morte e à criação de aspectos importantes do mundo.

Cultura e legado

Embora Kutkh não seja objeto de adoração formal, sua imagem permanece popular em Kamchatka. Esculturas estilizadas feitas por artesãos koryaks, frequentemente adornadas com contas e revestidas de pele, são vendidas como souvenirs. Ele também aparece em histórias e materiais de divulgação cultural, mantendo seu papel icônico na mitologia local.



fontes:

Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

27 de outubro de 2025

Berehynia

۞ ADM Sleipnir

Arte de Alexandr Leskinen

Berehynia (russo: Береги́ня, também Bereginya) é uma figura do folclore eslavo associada à proteção, especialmente das mulheres, das famílias e da própria nação. Sua origem é alvo de debates entre estudiosos: enquanto alguns a consideram uma deusa ancestral, outros a veem como um espírito ou entidade mitológica de natureza mais próxima das rusalki. No contexto ucraniano moderno, Bereginya passou por uma reinterpretação e tornou-se símbolo de identidade nacional, feminismo e neopaganismo.

Etimologia

O nome Bereginya é frequentemente relacionado, por etimologia popular, à palavra ucraniana berehty (proteger) e ao substantivo bereh (margem do rio). No entanto, linguisticamente, essas associações não têm uma raiz comum comprovada. Ainda assim, essa correlação ajudou a reforçar a imagem da figura como uma guardiã espiritual e simbólica da Ucrânia.

Arte de Дарья Казакова


Natureza e características

Bereginya é tradicionalmente descrita como uma entidade feminina ligada à luz, diferentemente das rusalkas, que habitam ambientes aquáticos. Segundo crenças populares, mulheres que morriam de forma trágica – especialmente noivas que faleciam antes do casamento ou cometiam suicídio por traição amorosa – poderiam se transformar em rusalkas ou em Bereginyas. A principal distinção entre ambas é que as rusalkas retornam às águas ao final da Semana da Rusalka (período associado à floração do centeio), enquanto as Bereginyas retornam à luz.

Além de sua associação com as rusalkas, Bereginya compartilha traços com a deusa eslava Mokosh, como a proteção das mulheres e do lar. Isso contribui para sua identificação como um arquétipo da “mãe do lar", figura central em diversas mitologias.

Arte de noldofinve

Interpretações acadêmicas

A estudiosa ucraniana Halyna Lozko defende que Bereginya era uma Grande Deusa criadora de todas as coisas. No entanto, muitos estudiosos modernos argumentam que Bereginya era originalmente um espírito e que sua elevação ao status de deusa ocorreu apenas em tempos recentes. De fato, o uso do nome no singular, sugerindo uma entidade única, tornou-se comum apenas no folclore ucraniano contemporâneo, o que reforça a tese de que se tratava originalmente de um espírito coletivo.

Comparações regionais

Entre os eslavos do sul, figuras semelhantes à Bereginya são conhecidas como Vilas. A mais poderosa delas é Vila Ravijojla, que aparece nas epopeias sérvias como uma entidade protetora e curadora de heróis, especialmente o Príncipe Marko. Embora não seja considerada uma deusa, Vila Ravijojla ocupa um papel intermediário entre espírito e fada, semelhante ao da Bereginya.

Arte de Ígor Ojiganov

O culto a Bereginya na Ucrânia

Desde a independência da Ucrânia em 1991, Bereginya passou por uma transformação simbólica significativa. Tornou-se um símbolo nacionalista e feminista, sendo reinterpretada como guardiã do povo ucraniano. Essa nova leitura surgiu a partir da década de 1980, quando escritores e pensadores ucranianos buscaram representar um ideal da mulher ucraniana por meio da figura da Berehynia.

Em 2001, foi erguido um monumento a Berehynia na Praça da Independência (Maidan Nezalezhnosti), no centro de Kiev, no mesmo local onde antes se encontrava o monumento a Lenin. A estátua de Berehynia foi concebida para atuar simbolicamente como protetora da capital, ao lado do Arcanjo Miguel, antigo patrono de Kiev, representado no brasão da cidade.

Influência contemporânea

A figura de Bereginya está presente hoje em diversas vertentes do neopaganismo eslavo e do simbolismo nacional ucraniano. Seu culto foi revivido e ressignificado em contextos modernos, sendo evocada em cerimônias culturais, atos políticos e representações artísticas como um emblema de força feminina e identidade étnica.


fonte:
Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

21 de setembro de 2025

Pássaro de Fogo (Zhar-ptitsa)

۞ ADM Sleipnir

O Pássaro de Fogo (em russo: жар-пти́ца, Zhar-ptitsa; em ucraniano: жар-пти́ця, Zhar-ptytsia; em búlgaro: Жар-птица, Zhar-ptitsa; em polonês: Żar-ptak; em tcheco: Pták Ohnivák; em eslovaco: Vták Ohnivák; em esloveno: Rajska/zlata-ptica) é uma criatura lendária da mitologia e do folclore russo e eslavo. Ela é descrita como um pássaro mágico e profético, cujas penas brilham ou parecem estar em chamas. O pássaro pode ser tanto uma bênção quanto um presságio de desgraça para quem o captura.

Características

O Pássaro de Fogo é geralmente descrito como possuindo penas douradas e olhos de cristal. Algumas fontes mencionam que suas penas emitem luzes nas cores vermelha, laranja e amarela, semelhante a um fogo que acabou de se apagar. Mesmo quando removidas, as penas continuam a brilhar, sendo capazes de iluminar salas inteiras. Em representações posteriores, o Pássaro de Fogo é retratado como um falcão de tamanho moderado, com crista na cabeça e penas da cauda decoradas com “olhos” luminosos. Em certas tradições, pérolas caem de seu bico enquanto voa, beneficiando camponeses e heróis.

Lendas e histórias

O Pássaro de Fogo desempenha um papel central em diversas histórias e contos populares da Rússia e de outros países eslavos. Em geral, aparece como o objetivo de uma difícil missão ou como um presságio de desafios, sendo tanto um presente mágico quanto um elemento de perigo.

O Pássaro de Fogo e os três filhos do czar

Em uma das histórias mais tradicionais, o Pássaro de Fogo pastava no jardim do Czar Dalmet, mas possuía uma predileção pelas maçãs douradas do jardim do Czar Vyslav Andronovich, que ocasionalmente roubava. O czar invejoso convocou seus três filhos — Dimitri, Ivan e Vasili — para capturar o pássaro.

Ivan, auxiliado por um lobo mágico, localizou e aprisionou o pássaro, mas foi emboscado e morto por seus irmãos ciumentos. Dimitri e Vasili levaram o Pássaro de Fogo ao pai, ignorando que Ivan havia conquistado o pássaro de forma legítima ao cumprir uma tarefa para o Czar Dalmet. O lobo mágico restaurou Ivan à vida e denunciou os conspiradores, que foram presos, enquanto Ivan manteve o pássaro para si.

Arte de Stepan Gilev

O Pássaro de Fogo e a Princesa Vasilisa

Outra versão da história envolve um arqueiro do rei que encontra, durante uma caçada, uma pena do Pássaro de Fogo. O cavalo do arqueiro o alerta para não tocar na pena, pois isso traria consequências negativas, mas o arqueiro ignora o conselho e a leva ao rei, esperando ser recompensado. O rei, impressionado com a pena, exige que o arqueiro capture o pássaro inteiro, ameaçando-o de morte caso falhe. O arqueiro, seguindo as instruções de seu cavalo mágico, espalha milho por um campo e se esconde em uma árvore. Quando o Pássaro de Fogo desce para se alimentar, ele consegue capturá-lo com sucesso.

Após capturar o pássaro, o rei ordena que o arqueiro leve a princesa Vasilisa para se casar com ele, sob pena de morte. O arqueiro viaja até a terra da princesa e, com auxílio do cavalo mágico, consegue trazer Vasilisa junto com seu vestido de casamento, que estava escondido sob uma rocha no meio do Mar Azul. Apesar disso, a princesa resiste a casar-se, mostrando coragem e determinação. Para cumprir sua obrigação ao rei, o arqueiro realiza um ritual que envolve imergir-se em água fervente, protegido por um feitiço do cavalo mágico, saindo mais forte e belo do que nunca. Quando o rei tenta repetir o mesmo procedimento, é morto pelo próprio método. Por fim, o arqueiro é coroado rei e casa-se com Vasilisa, e ambos vivem felizes para sempre.

Maryushka e Koschei

Em outra narrativa, contada por Suzanne Massie, uma jovem órfã chamada Maryushka vive em uma pequena aldeia, conhecida por seu talento excepcional em bordado. Sua habilidade atrai comerciantes de várias regiões, que tentam persuadi-la a abandonar sua vila para trabalhar para eles. Maryushka recusa, afirmando que venderá seus bordados apenas a quem os apreciar, mas jamais deixará sua terra natal.

O feiticeiro Koschei, o Imortal, ao ouvir sobre o talento da jovem, decide interferir. Transformando-se em um belo jovem, ele visita Maryushka para tentar seduzi-la. Ao perceber que uma simples mortal pode criar obras mais belas do que ele próprio, Koschei fica enfurecido. Tentando coagi-la, oferece torná-la rainha caso bordasse exclusivamente para ele, mas Maryushka recusa. Em retaliação, Kaschei a transforma em Pássaro de Fogo, enquanto ele próprio assume a forma de um grande falcão negro. Ele a rapta, levantando voo com Maryushka em suas garras. Durante o voo, Maryushka deixa cair suas penas mágicas, que caem espalhadas pela terra abaixo, permanecendo eternamente luminosas. Essas penas, embora encantadas, só revelam suas cores e brilho àqueles que apreciam a beleza e a arte genuína.

Paralelos em outras culturas 

No folclore iraniano, há lendas de aves mágicas com poderes proféticos ou curativos, semelhantes ao Pássaro de Fogo em seu caráter sobrenatural. Nos contos dos Irmãos Grimm, como “O Pássaro de Ouro”, o protagonista parte em uma missão para capturar um pássaro mágico, reproduzindo o esquema clássico de aventura, testes heroicos e auxílio de criaturas mágicas. No folclore armênio, no conto Hazaran Blbul, a ave não brilha, mas seu canto faz florescer a terra, apresentando uma narrativa paralela à busca por uma criatura extraordinária. No folclore tcheco, o Pták Ohnivák, ou “Pássaro Ardente”, é retratado em contos onde rouba maçãs douradas de um rei, tornando-se objeto de perseguição e aventura.

fontes:

  • ‌ROSE, C. Giants, monsters, and dragons : an encyclopedia of folklore, legend, and myth. New York: Norton, 2001.
  • DIXON-KENNEDY, M. Encyclopedia of Russian and Slavic myth and legend. Oxford: Abc-Clio, 1999.
  • Firebird (Slavic folklore). Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Firebird_(Slavic_folklore)>.
Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

9 de junho de 2025

Sadko

۞ ADM Sleipnir

Arte de Veronika Iakimenko

Sadko (em russo: Садко) é uma figura lendária da tradição folclórica russa, originalmente associada a uma antiga divindade das águas que, após a cristianização da Rússia, foi reinterpretado como um talentoso músico e mercador de Novgorod. Sua história é conhecida por misturar elementos mitológicos, aventuras marítimas e intervenções sobrenaturais, tornando-se um dos contos eslavos mais famosos. A lenda ganhou projeção internacional através da ópera Sadko, composta por Nikolai Rimsky-Korsakov em 1898.

Origens e ascensão

Sadko era originalmente um talentoso, porém pobre, músico que tocava o gusli, um antigo instrumento de cordas russo semelhante a uma cítara ou saltério. Ele ganhava a vida entretenendo os nobres e mercadores em banquetes em Novgorod, até que um dia caiu em desgraça por razões desconhecidas.

Desolado, Sadko dirigiu-se às margens do Lago Ilmen, onde passou horas tocando sua música melancólica. Sua melodia atraiu a atenção do Tsar do Mar, uma poderosa entidade aquática que governava as águas (possivelmente uma personificação do próprio lago). Agradecido pelo espetáculo musical, o Tsar do Mar ofereceu a Sadko um meio de enriquecer: ele deveria participar de um banquete com os mercadores mais ricos de Novgorod e fazer uma aposta ousada.

A aposta dos peixes dourados

No banquete, enquanto os mercadores se gabavam de suas riquezas, Sadko afirmou que conhecia um lugar no Lago Ilmen onde nadavam peixes com nadadeiras de ouro. Os mercadores, incrédulos, aceitaram a aposta: se Sadko provasse sua afirmação, ganharia suas riquezas; se falhasse, perderia sua cabeça.

Sadko lançou uma rede de seda nas águas do lago e, como prometido, pescou três peixes com nadadeiras douradas. Vitorioso, ele recebeu uma fortuna imensa, tornando-se um dos homens mais ricos de Novgorod.

A queda em desgraça e a viagem pelo mar

Anos depois, em outro banquete, Sadko fez uma afirmação ainda mais ousada: disse que tinha riqueza suficiente para comprar todas as mercadorias de Novgorod. Dois governadores da cidade, Foma Nazariev e Luka Zinoviev, aceitaram a aposta, exigindo que Sadko provasse seu feito ou pagasse uma multa de trinta mil rublos.

Por três dias, os servos de Sadko compraram tudo o que encontraram nas feiras e lojas de Novgorod. No entanto, novos produtos continuavam chegando de outras cidades, como Moscou, tornando sua tarefa impossível. Reconhecendo a derrota, Sadko pagou a multa e decidiu recuperar seu dinheiro viajando em uma frota de trinta navios para negociar em terras distantes.

A fúria do Tsar do Mar e o sacrifício

Durante a viagem de volta, após vender todas as mercadorias e acumular grandes tesouros, os navios de Sadko ficaram paralisados no meio do mar, apesar dos ventos favoráveis. Sadko compreendeu que o Tsar do Mar estava irado por não ter recebido tributo durante suas viagens anteriores.

Os marinheiros tentaram aplacar a ira do deus marinho jogando barrís de ouro e prata ao mar, mas os navios continuavam imóveis. Sadko então sugeriu que fosse realizado um sorteio para que fosse escolhido um sacrifício humano. Ele tentou enganar seus homens, escrevendo seu nome em um graveto enquanto os outros escreviam em moedas de ouro. O sacrifício seria aquele cujo nome afundasse primeiro. No entanto, para seu desespero, seu graveto afundou, enquanto as moedas permaneceram na superfície.

A descida ao reino subaquático


Resignado, Sadko escreveu seu testamento e desceu ao mar em uma jangada de carvalho, levando apenas seu gusli. Imediatamente, os navios foram liberados e seguiram para Novgorod, deixando-o à mercê do Tsar do Mar.

No fundo do mar, Sadko foi levado a um magnífico palácio subaquático, onde o Tsar do Mar ordenou que ele tocasse para seu entretenimento. A música de Sadko era tão poderosa que fez o deus dançar freneticamente, desencadeando tempestades que destruíram navios e afogaram marinheiros no mundo acima.

A intervenção divina e o retorno

Enquanto tocava, Sadko foi abordado por um velho sábio (posteriormente revelado como São Nicolau de Mozhaisk, o santo padroeiro dos marinheiros), que o instruiu a quebrar as cordas de seu gusli para interromper a dança catastrófica do Tsar do Mar. Sadko obedeceu, e as tempestades cessaram.

Para manter Sadko em seu reino, o Tsar do Mar ofereceu-lhe uma noiva entre centenas de belas donzelas. Seguindo o conselho do velho, Sadko escolheu a última delas, Chernava (ou Volkhova, em algumas versões), mas adormeceu antes de consumar o casamento. Ao acordar, ele se viu de volta às margens do Rio Chernava, com sua frota retornando são e salva a Novgorod.

Em agradecimento por sua libertação, Sadko cumpriu sua promessa e construiu uma grande catedral em honra a São Nicolau em Novgorod. Algumas versões da lenda afirmam que ele também ergueu um templo dedicado à Virgem Maria. Após essa experiência, Sadko abandonou para sempre as viagens marítimas, vivendo o resto de seus dias como um homem rico e piedoso em sua cidade natal.

Variante da lenda

Uma versão alternativa sugere que as tempestades causadas pelo Tsar do Mar afundaram os navios de Sadko, deixando-o pobre e forçando-o a trabalhar como barqueiro por doze anos. Nessa narrativa, ele eventualmente recebeu ajuda do espírito do rio, que o recompensou transformando peixes em moedas de prata, restituindo sua fortuna.

Arte de Evgeny Bashmakov


fontes:
  • DIXON-KENNEDY, M. Encyclopedia of Russian and Slavic myth and legend. Oxford: Abc-Clio, 1999.
  • KENJIK. Былина: Садко (с иллюстрациями) | Сказки Сунгиря. Disponível em: <https://l1nq.com/9zE1Z>
Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

5 de maio de 2025

Mikula Selyaninovich

۞ ADM Sleipnir


Mikula Selyaninovich (em russo: Микула Селянинович, "Mikula, o Filho do Aldeão"é um  é um herói épico russo, conhecido por sua força extraordinária e sua conexão com a Mãe Terra, Mati-Syra-Zemlya. Sua história, que surgiu possivelmente no século XV, tem raízes mais antigas, sugerindo uma origem pré-cristã, talvez associada ao deus Veles. Inicialmente retratado como uma divindade, Mikula foi posteriormente rebaixado à condição de bogatyr (herói guerreiro) após a cristianização da Rússia. A história de Mikula Selyaninovich ilustra claramente como os camponeses viam seus governantes, pois o príncipe nesta história, Volga Sviatoslavovich, é muito menos herói do que o humilde Mikula — embora Mikula não seja de forma alguma um camponês comum.

Volga Sviatoslavovich era sobrinho e afilhado do príncipe Vladimir, grão-príncipe de Kiev. Seu tio lhe dera o domínio sobre três cidades, juntamente com os camponeses que viviam nas terras ao redor. Como era seu direito, Volga periodicamente exigia e coletava impostos de seus súditos, e em uma dessas viagens pelo seu domínio, ele encontrou Mikula. Enquanto cavalgavam pelo campo, Volga e seu séquito ouviram os sons de um lavrador assobiando e chamando seu cavalo, do arado cortando o sulco e do ruído da aiveca ao atingir uma pedra. No entanto, por mais rápido que cavalgassem, não conseguiam alcançar o lavrador. Por dois dias e meio cavalgaram arduamente, perseguindo os sons elusivos, até que finalmente o encontraram.


Assobiando enquanto trabalhava, Mikula arrancava tocos de árvores que estavam em seu caminho, com raízes e tudo, e jogava para o lado grandes pedregulhos. Uma égua baia clara puxava o arado, que era feito de bordo e tinha uma relha de aço damasco, uma ponta de prata, cabos de ouro vermelho e correias de seda. O próprio Mikula é descrito como um homem de tremenda beleza, com olhos tão afiados quanto os de um falcão, cabelos em cachos apertados e sobrancelhas negras. Ele vestia uma túnica de veludo preto, um chapéu de feltro macio e botas de couro marroquino verde com pontas extremamente afiadas e saltos muito altos.

Mikula e Volga trocaram saudações amistosas. Quando Volga contou a Mikula o propósito de sua jornada, o lavrador avisou o príncipe que um bando de ladrões estava acampado ao longo de sua rota escolhida. Esses ladrões ficavam à espreita perto de uma ponte sobre o rio Smorodina, cujas tábuas haviam serrado para que os viajantes caíssem na água e se afogassem. Mikula contou ao príncipe que havia passado por ali apenas três dias antes e que esses ladrões tentaram emboscá-lo enquanto ele voltava para casa carregando dois odres cheios de sal que pesavam 100 poods (aproximadamente 3.600 libras ou 1.638 kg) cada. Quando os ladrões exigiram dinheiro de Mikula em troca de passagem segura, ele simplesmente derrubou mil de seus homens.


Ao ouvir isso, o príncipe Volga convidou Mikula a se juntar à sua comitiva. Mikula concordou de boa vontade e desatrelou seu cavalo. No entanto, após uma curta cavalgada, Mikula começou a se preocupar com seu arado, pois o deixara a céu aberto, onde poderia ser facilmente roubado. Volga enviou cinco de seus homens para esconder o arado, mas eles não conseguiram nem mesmo movê-lo. Dez homens voltaram, e eles não tiveram mais sucesso do que os cinco originais. Finalmente, toda a companhia de Volga tentou mover o arado, mas ele ainda não se moveu. 


Vendo isso, Mikula entrou no campo, levantou o arado do chão com uma mão e o escondeu atrás de um salgueiro depois de limpá-lo cuidadosamente. Com o arado seguro, Mikula incitou sua pequena égua a seguir em frente. Quando a égua começou a trotar, Volga teve que forçar seu corcel a galopar. Quando Mikula soltou as rédeas de sua égua, Volga ficou para trás. Gritando para Mikula parar, Volga finalmente o alcançou. Impressionado com a força e habilidade de Mikula, o príncipe o nomeou senhor de suas três cidades e o encarregou de coletar os impostos em seu lugar.


fontes:
  • DIXON-KENNEDY, M. Encyclopedia of Russian and Slavic myth and legend. Oxford: Abc-Clio, 1999.

Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

16 de abril de 2025

Dobrynya Nikitich

۞ ADM Sleipnir

Dobrynya Nikitich (em russo: Добрыня Никитич) é um dos mais renomados bogatyrs (cavaleiros épicos) da tradição folclórica russa, destacando-se nas bylinas — canções épicas que narram as aventuras dos heróis do período medieval da Rússia de Kiev. Embora seja uma figura lendária, Dobrynya tem raízes históricas, sendo inspirado em um verdadeiro comandante militar que serviu sob o comando de Svyatoslav, o Grande, e atuou como tutor de seu filho, Vladimir, o "Sol Brilhante" .

A história de Dobrynya Nikitich começa ao lado de seu amigo e companheiro de viagem, o bogatyr Dunai Ivanovich, com quem partiu da corte do Príncipe Vladimir, em Kiev, em direção à Lituânia. A missão dos dois era trazer a princesa Evpraksiya para que ela se tornasse esposa de Vladimir. Na Lituânia, Dobrynya demonstrou sua habilidade diplomática ao convencer o rei a permitir o casamento, apesar da baixa estima que o monarca nutria por Vladimir. Após Dunai Ivanovich partir em perseguição a um misterioso saqueador que ameaçava o acampamento durante a noite, Dobrynya retornou sozinho com a princesa para Kiev.

O confronto com Gorynych

Além de suas habilidades diplomáticas, Dobrynya é famoso por seu confronto com dragões. Certa vez, ele matou os filhotes de uma dragonesa chamada Gorynych, o que levou sua mãe, Amelfia Timofeyevna, a adverti-lo para nunca mais retornar às Montanhas Sorochinsk, onde a criatura vivia, nem se aproximar do ri'o Puchai. No entanto, Dobrynya ignorou os conselhos da anciã, considerando-os meras divagações, e acabou retornando às terras dos dragões. Cansado e coberto de poeira após uma longa jornada, Dobrynya decidiu se refrescar no rio Puchai. Ele deixou suas roupas e armas na margem, junto ao seu cavalo, e mergulhou nas águas. Mal entrou na correnteza, chamas e faíscas irromperam no ar, acompanhadas por uma espessa fumaça negra. Da névoa surgiu a dragonesa de doze cabeças, Gorynych, a mesma cuja ninhada ele havia exterminado anteriormente.

Arte de Stepan Gilev

Ao avistar Dobrynya, a dragonesa perguntou o que deveria fazer com ele. Percebendo o perigo, ele mergulhou novamente e nadou até a margem oposta a que suas roupas e armas estavam. Seu cavalo, assustado com a presença da criatura, já havia fugido. Quando tudo parecia perdido, Dobrynya avistou um chapéu de sacerdote caído na grama. Como um bogatyr, ele sabia que poderia transformar o objeto em uma arma poderosa. No entanto, ao tentar erguê-lo, percebeu que era extremamente pesado. No momento em que a dragonesa voou em sua direção, Dobrynya brandiu o chapéu com todas as suas forças e decepou as cabeças de Goryshche. Ferida e caída no chão, a dragonesa implorou por misericórdia, prometendo nunca mais atacar as terras da Santa Rússia nem sequestrar seu povo. Dobrynya, por sua vez, jurou nunca mais retornar às Montanhas Sorochinsk e, em um ato de clemência, libertou a criatura.

Sem cavalo e sem armas, Dobrynya teve que retornar a pé para Kiev. Ao chegar, descobriu que, durante sua longa ausência, uma tragédia havia ocorrido na corte do Príncipe Vladimir: a dragonesa Gorynych, que ele havia poupado anteriormente, rompeu sua promessa. Sobrevoando a cidade, a criatura capturou a princesa Zabava, sobrinha favorita de Vladimir, segurando-a entre suas mandíbulas. Vladimir, desesperado, convocou seus cavaleiros e desafiou-os a resgatar a jovem. Alyosha Popovich, filho do bispo Leôncio, sugeriu que Dobrynya era o mais indicado para a missão, já que conhecia bem a dragonesa e afirmou que a criatura o considerava como um irmão. Ao ouvir isso, Vladimir ordenou que Dobrynya trouxesse de volta a princesa ou enfrentasse a decapitação.


Preocupado, Dobrynya retornou para casa e contou à mãe sobre o ocorrido, reclamando que teria que caminhar até as Montanhas Sorochinsk, pois não possuía mais um cavalo. Sua mãe, então, revelou que o velho garanhão castanho de seu pai ainda estava nos estábulos, atolado em esterco. Ela aconselhou o filho a limpar e alimentar o cavalo, além de descansar bem durante a noite. Na manhã seguinte, Dobrynya seguiu os conselhos da mãe. Antes de partir, ela lhe entregou um chicote de seda, dizendo que, caso o cavalo enfraquecesse, ele deveria usá-lo. Guardando o chicote no bolso, Dobrynya montou o castanho, que saltou sobre os muros da cidade e disparou velozmente, sendo impossível de acompanhar com os olhos. Rapidamente, chegaram às encostas das Montanhas Sorochinsk, onde o solo fervilhava com os filhotes da dragonesa. Dobrynya atacou-os, esmagando-os com seu cavalo. Contudo, após algum tempo, a montaria começou a desfalecer devido às mordidas dos filhotes. Lembrando-se das palavras de sua mãe, Dobrynya pegou o chicote de seda e bateu suavemente entre as orelhas e patas traseiras do animal. Imediatamente, a força do cavalo foi restaurada, permitindo que seguissem até a caverna da dragonesa.

Como era de se esperar, Gorynych não ficou nada feliz ao ver Dobrynya. Ela reclamou amargamente pela morte de seus filhotes e, ainda mais, pelo fato de que Dobrynya, um cavaleiro da Santa Rússia, havia quebrado sua palavra ao retornar às Montanhas Sorochinsk. Dobrynya, no entanto, revidou, lembrando que foi a própria dragonesa quem primeiro rompeu o pacto ao atacar Kiev e sequestrar a princesa Zabava. Em seguida, exigiu que a jovem fosse devolvida. Quando Gorynych recusou, Dobrynya atacou. 

Arte de Andy Aslamov

O combate entre os dois durou três dias, até que Dobrynya finalmente saiu vitorioso. No entanto, ao olhar ao redor, percebeu que estava cercado por um imenso lago formado pelo sangue da dragonesa, um lago que a terra não conseguia absorver. Clamando pela Mãe Terra (Mati-Syra-Zemlya), Dobrynya ordenou que ela se abrisse e engolisse o sangue do monstro. Imediatamente, surgiu uma fenda gigantesca, e o lago foi drenado. 

Descendo de seu cavalo, Dobrynya entrou no labirinto de cavernas onde a dragonesa vivia. Lá dentro, encontrou e libertou centenas de russos aprisionados, até que, na última câmara, finalmente descobriu a princesa Zabava. Guiando-a para fora, Dobrynya a colocou na frente dele, sobre o cavalo, e partiu de volta para Kiev com a mesma velocidade com que havia partido. Ao retornar, Dobrynya foi aclamado como um grande herói pelo Príncipe Vladimir e por todo o povo da cidade. Em casa, ele também foi recebido por seu leal cavalo, Voroneyushka, “Pequeno Corvo”, que havia retornado ao seu estábulo. A cidade celebrou a bravura e o sucesso de Dobrynya, marcando mais um triunfo nos feitos lendários do grande bogatyr.


A busca por uma esposa

No entanto, apesar de sua popularidade e glória, Dobrynya começou a mergulhar em pensamentos melancólicos, passando horas olhando pela janela. Quando sua mãe, Amelfia Timofeyevna, perguntou o que o afligia, ele confessou que sentia que já deveria ter se casado há muito tempo, mas todas as moças da cidade já estavam comprometidas. Sua mãe, sempre sábia, sugeriu que, se ele desejasse encontrar uma esposa, precisaria viajar para além dos limites de Kiev. A ideia imediatamente o encantou, pois, mesmo que não encontrasse uma noiva, ao menos teria novas aventuras para viver. Ao se dirigir aos estábulos para preparar sua jornada, sua mãe o chamou e aconselhou-o a deixar Voroneyushka para trás, levando, em vez disso, o cavalo que havia pertencido a seu pai — o mesmo que o servira tão bem em sua missão para resgatar a princesa Zabava. Dobrynya seguiu o conselho, armou-se e partiu rumo às vastas estepes russas.

Pouco depois de iniciar sua jornada, Dobrynya encontrou rastros de outro cavaleiro e, movido pela curiosidade, decidiu segui-los. Após cavalgar por um curto tempo, avistou uma polianitsa — uma mulher-guerreira — galopando em um cavalo negro como a noite. Sem hesitar, Dobrynya sacou seu arco e disparou uma flecha. A flecha atingiu o capacete da guerreira, mas caiu no chão sem causar qualquer dano. Ele disparou uma segunda flecha, com o mesmo resultado. Ao lançar uma terceira flecha, a guerreira finalmente parou e olhou ao redor. Ao avistar Dobrynya, ela se aproximou, agarrou-o pelos cabelos e o ergueu do cavalo, colocando-o dentro de um saco profundo que sempre carregava consigo.

Por três dias inteiros, Dobrynya permaneceu em silêncio dentro do saco, remoendo sua humilhante situação enquanto era levado pelas estepes. No quarto dia, o cavalo da guerreira tropeçou e reclamou, dizendo que não conseguia mais carregar tanto peso — afinal, levava tanto uma polianitsa quanto um bogatyr' (cavaleiro lendário). A guerreira, então, desceu de seu cavalo, retirou Dobrynya do saco e exigiu saber quem ele era. Ela declarou que, se ele fosse mais velho que ela, o mataria; se fosse mais jovem, o tomaria como irmão; e se tivessem a mesma idade, deveriam se casar. Dobrynya recusou-se a responder, mas o cavalo da mulher o reconheceu e revelou que seu nome era Dobrynya Nikitich e que ele tinha exatamente a mesma idade da guerreira. Ao ouvir isso, a mulher revelou seu próprio nome: Nastasya Mikulishna. 

Nastasya Mikulishna

Concluindo que eram da mesma idade, ela declarou que deveriam se casar. Dobrynya, surpreso mas impressionado com a força e determinação da guerreira, aceitou a proposta. Juntos, eles retornaram a Kiev. Na cidade, a mãe de Dobrynya, Amelfia Timofeyevna, deu uma calorosa recepção a Nastasya, e logo uma grande festa de casamento foi organizada. O Príncipe Vladimir e sua esposa Evpraksiya compareceram às celebrações, que duraram três dias e três noites, marcando a união dos dois guerreiros. Após o casamento, Nastasya abandonou sua vida de guerreira e passou a viver com Dobrynya e sua mãe, assumindo o papel de uma esposa tradicional russa.

A partida de Dobrynya Nikitich para a Lituânia

Cerca de três anos após seu casamento, o Príncipe Vladimir organizou um grandioso banquete em Kiev, convidando todos os bogatyri (cavaleiros heróicos) para comparecer. À medida que a celebração chegava ao fim, Vladimir se dirigiu aos cavaleiros presentes, perguntando quem estaria disposto a liderar um exército contra um inimigo que havia atacado seu sogro, o Rei da Lituânia. Nenhum dos bogatyri respondeu ao chamado. O príncipe repetiu a pergunta, e desta vez Alyosha Popovich se levantou, sugerindo que ninguém seria mais qualificado para a missão do que Dobrynya Nikitich, já que ele havia servido no exército do Rei da Lituânia e conhecia bem a região. Apesar de sua relutância inicial, Dobrynya concordou em liderar a expedição e foi para casa se preparar para a batalha.

Dobrynya Nikitich e Alyosha Popovich

Lá, sua mãe, Amelfia Timofeyevna, percebeu sua inquietação e perguntou o que estava acontecendo. Com grande pesar, Dobrynya contou sobre a missão, tentando tranquilizá-la ao dizer que, se morresse, se juntaria ao pai, Nikita, no céu, e que um dia ela também se encontraria com ele lá. Tomada pela emoção, Amelfia o abençoou, mas logo correu para contar a Nastasya sobre a partida iminente de seu marido. Ao ouvir a notícia, Nastasya correu para Dobrynya, e ele explicou sua missão. Ele então pediu que ela o esperasse por doze anos. Se nesse tempo ele não retornasse, Nastasya deveria dividir sua riqueza entre a igreja e os pobres e, depois disso, buscar um novo marido. No entanto, Dobrynya aconselhou-a a não se casar com Alyosha Popovich, pois os dois haviam trocado cruzes e, aos olhos de Deus, eram considerados irmãos. Com isso, Dobrynya beijou sua esposa, montou em seu cavalo e partiu para a Lituânia.

A Espera de Nastasya 

Passaram-se três anos, e Dobrynya não retornou. Foi então que Alyosha Popovich chegou a Kiev trazendo a notícia de sua morte. Sua mãe, Amelfia Timofeyevna, chorou a perda do filho, mas Nastasya recusou-se a acreditar, mantendo sua vigilância e esperança. Mais três anos se passaram, e Alyosha Popovich mais uma vez chegou a Kiev trazendo a notícia da morte de Dobrynya Nikitich. Novamente, Nastasya recusou-se a acreditar nele. Seu coração insistia em dizer que ele ainda estava vivo, e ela continuou esperando, fiel à promessa que havia feito.

Mais seis anos se passaram antes que Alyosha Popovich retornasse à corte do príncipe Vladimir, mais uma vez trazendo a notícia da morte de Dobrynya Nikitich. Dessa vez, embora Nastasya ainda não acreditasse plenamente na morte do marido, ela sabia que já cumprira sua promessa de esperá-lo por doze anos. Assim, com o coração pesado, aceitou se casar com Alyosha Popovich. Toda a cidade de Kiev se preparou para o casamento, que seria um grande evento, repleto de celebrações. Enquanto isso, na fronteira da Lituânia, Dobrynya Nikitich dormia profundamente, mergulhado em um sono longo e misterioso, alheio ao que acontecia em sua terra natal.

O retorno de Dobrynya à Kiev

Ao despertar, Dobrynya viu duas pombas brancas entrarem em sua tenda. As aves sussurraram-lhe notícias sobre os preparativos para um casamento que acontecia naquele mesmo momento em Kiev: o casamento de Alyosha Popovich e Nastasya. Ao ouvir isso, Dobrynya se levantou de imediato, reuniu suas posses, montou seu fiel cavalo, Voroneyushka, e galopou como o vento em direção a Kiev. Sua mente estava tomada por uma mistura de urgência e determinação, pois sabia que não poderia permitir que o casamento acontecesse. Ao chegar em Kiev, Dobrynya reencontrou sua mãe, Amelfia Timofeyevna, que chorou de alegria ao ver o filho vivo e são. No entanto, ele não foi direto ao palácio para revelar seu retorno. Em vez disso, decidiu se disfarçar como um menestrel, vestindo roupas simples e pegando um instrumento musical.

Disfarçado, Dobrynya se dirigiu à festa de casamento. Ele se sentou sobre o fogão, o lugar tradicional reservado para menestréis e mendigos, e começou a cantar. Suas canções eram melodiosas, mas carregadas de emoção, entoando versos sobre amor, saudade e traição. Cada nota parecia ecoar a história de sua própria vida, e todos os presentes, incluindo Nastasya e Alyosha, ficaram hipnotizados pela voz do misterioso menestrel. A voz do menestrel tocou profundamente Nastasya, que, emocionada, pediu ao Príncipe Vladimir permissão para oferecer-lhe uma bebida. O príncipe concordou, e Dobrynya aceitou o cálice de sua esposa. Em seguida, ele pediu permissão para retribuir o gesto. O príncipe permitiu, e Dobrynya entregou a Nastasya uma taça de hidromel. Ela levou o cálice aos lábios, e algo brilhou no fundo da taça. Era o anel de casamento de Dobrynya. 

"Dobrynya Nikitich no banquete do príncipe Vladimir". Arte de Nikolay Karazin

Ao reconhecê-lo, Nastasya caiu ao chão, tomada pelo desespero, e implorou pelo perdão do marido. Um silêncio sepulcral se espalhou pelo banquete. Todos os presentes voltaram seus olhares para o menestrel e, finalmente, perceberam que ele não era um simples cantor, mas sim Dobrynya Nikitich, vivo e diante deles. O Príncipe Vladimir o recebeu com alegria, mas Dobrynya só tinha olhos para um homem naquele salão: Alyosha Popovich. 

Dobrynya perdoou sua esposa, pois sabia que ela não poderia ter adivinhado a verdade sobre seu retorno. No entanto, quando Alyosha se ajoelhou diante dele, implorando perdão, Dobrynya recusou-se a aceitá-lo. Em um surto de fúria, agarrou Alyosha pelo pescoço, lançou-o ao chão e sacou sua espada. Com os olhos ardendo de ira, ergueu a lâmina para matá-lo. Mas, antes que pudesse desferir o golpe, Ilya Muromets interveio. O lendário bogatyr segurou o braço de Dobrynya e impediu o derramamento de sangue. Respirando fundo, Dobrynda embainhou sua espada, virou-se sem dizer uma palavra e deixou o palácio, levando Nastasya consigo. A partir daquele dia, Dobrynya Nikitich nunca mais dirigiu uma única palavra a Alyosha Popovich. E assim, Dobrynya e Nastasya viveram o resto de seus dias em paz e felicidade.


fontes:
  • DIXON-KENNEDY, M. Encyclopedia of Russian and Slavic myth and legend. Oxford: Abc-Clio, 1999.=/
  • WIKIPEDIA CONTRIBUTORS. Dobrynya Nikitich. Disponível em <https://en.wikipedia.org/wiki/Dobrynya_Nikitich>.
Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.