5 de maio de 2025

Mikula Selyaninovich

۞ ADM Sleipnir


Mikula Selyaninovich (em russo: Микула Селянинович, "Mikula, o Filho do Aldeão") é um  é um herói épico russo, conhecido por sua força extraordinária e sua conexão com a Mãe Terra, Mati-Syra-Zemlya. Sua história, que surgiu possivelmente no século XV, tem raízes mais antigas, sugerindo uma origem pré-cristã, talvez associada ao deus Veles. Inicialmente retratado como uma divindade, Mikula foi posteriormente rebaixado à condição de bogatyr (herói guerreiro) após a cristianização da Rússia. A história de Mikula Selyaninovich ilustra claramente como os camponeses viam seus governantes, pois o príncipe nesta história, Volga Sviatoslavovich, é muito menos herói do que o humilde Mikula — embora Mikula não seja de forma alguma um camponês comum.

Volga Sviatoslavovich era sobrinho e afilhado do príncipe Vladimir, grão-príncipe de Kiev. Seu tio lhe dera o domínio sobre três cidades, juntamente com os camponeses que viviam nas terras ao redor. Como era seu direito, Volga periodicamente exigia e coletava impostos de seus súditos, e em uma dessas viagens pelo seu domínio, ele encontrou Mikula. Enquanto cavalgavam pelo campo, Volga e seu séquito ouviram os sons de um lavrador assobiando e chamando seu cavalo, do arado cortando o sulco e do ruído da aiveca ao atingir uma pedra. No entanto, por mais rápido que cavalgassem, não conseguiam alcançar o lavrador. Por dois dias e meio cavalgaram arduamente, perseguindo os sons elusivos, até que finalmente o encontraram.


Assobiando enquanto trabalhava, Mikula arrancava tocos de árvores que estavam em seu caminho, com raízes e tudo, e jogava para o lado grandes pedregulhos. Uma égua baia clara puxava o arado, que era feito de bordo e tinha uma relha de aço damasco, uma ponta de prata, cabos de ouro vermelho e correias de seda. O próprio Mikula é descrito como um homem de tremenda beleza, com olhos tão afiados quanto os de um falcão, cabelos em cachos apertados e sobrancelhas negras. Ele vestia uma túnica de veludo preto, um chapéu de feltro macio e botas de couro marroquino verde com pontas extremamente afiadas e saltos muito altos.

Mikula e Volga trocaram saudações amistosas. Quando Volga contou a Mikula o propósito de sua jornada, o lavrador avisou o príncipe que um bando de ladrões estava acampado ao longo de sua rota escolhida. Esses ladrões ficavam à espreita perto de uma ponte sobre o rio Smorodina, cujas tábuas haviam serrado para que os viajantes caíssem na água e se afogassem. Mikula contou ao príncipe que havia passado por ali apenas três dias antes e que esses ladrões tentaram emboscá-lo enquanto ele voltava para casa carregando dois odres cheios de sal que pesavam 100 poods (aproximadamente 3.600 libras ou 1.638 kg) cada. Quando os ladrões exigiram dinheiro de Mikula em troca de passagem segura, ele simplesmente derrubou mil de seus homens.


Ao ouvir isso, o príncipe Volga convidou Mikula a se juntar à sua comitiva. Mikula concordou de boa vontade e desatrelou seu cavalo. No entanto, após uma curta cavalgada, Mikula começou a se preocupar com seu arado, pois o deixara a céu aberto, onde poderia ser facilmente roubado. Volga enviou cinco de seus homens para esconder o arado, mas eles não conseguiram nem mesmo movê-lo. Dez homens voltaram, e eles não tiveram mais sucesso do que os cinco originais. Finalmente, toda a companhia de Volga tentou mover o arado, mas ele ainda não se moveu. 


Vendo isso, Mikula entrou no campo, levantou o arado do chão com uma mão e o escondeu atrás de um salgueiro depois de limpá-lo cuidadosamente. Com o arado seguro, Mikula incitou sua pequena égua a seguir em frente. Quando a égua começou a trotar, Volga teve que forçar seu corcel a galopar. Quando Mikula soltou as rédeas de sua égua, Volga ficou para trás. Gritando para Mikula parar, Volga finalmente o alcançou. Impressionado com a força e habilidade de Mikula, o príncipe o nomeou senhor de suas três cidades e o encarregou de coletar os impostos em seu lugar.


fontes:
  • DIXON-KENNEDY, M. Encyclopedia of Russian and Slavic myth and legend. Oxford: Abc-Clio, 1999.

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16 de abril de 2025

Dobrynya Nikitich

۞ ADM Sleipnir

Dobrynya Nikitich (em russo: Добрыня Никитич) é um dos mais renomados bogatyrs (cavaleiros épicos) da tradição folclórica russa, destacando-se nas bylinas — canções épicas que narram as aventuras dos heróis do período medieval da Rússia de Kiev. Embora seja uma figura lendária, Dobrynya tem raízes históricas, sendo inspirado em um verdadeiro comandante militar que serviu sob o comando de Svyatoslav, o Grande, e atuou como tutor de seu filho, Vladimir, o "Sol Brilhante" .

A história de Dobrynya Nikitich começa ao lado de seu amigo e companheiro de viagem, o bogatyr Dunai Ivanovich, com quem partiu da corte do Príncipe Vladimir, em Kiev, em direção à Lituânia. A missão dos dois era trazer a princesa Evpraksiya para que ela se tornasse esposa de Vladimir. Na Lituânia, Dobrynya demonstrou sua habilidade diplomática ao convencer o rei a permitir o casamento, apesar da baixa estima que o monarca nutria por Vladimir. Após Dunai Ivanovich partir em perseguição a um misterioso saqueador que ameaçava o acampamento durante a noite, Dobrynya retornou sozinho com a princesa para Kiev.

O confronto com Gorynych

Além de suas habilidades diplomáticas, Dobrynya é famoso por seu confronto com dragões. Certa vez, ele matou os filhotes de uma dragonesa chamada Gorynych, o que levou sua mãe, Amelfia Timofeyevna, a adverti-lo para nunca mais retornar às Montanhas Sorochinsk, onde a criatura vivia, nem se aproximar do ri'o Puchai. No entanto, Dobrynya ignorou os conselhos da anciã, considerando-os meras divagações, e acabou retornando às terras dos dragões. Cansado e coberto de poeira após uma longa jornada, Dobrynya decidiu se refrescar no rio Puchai. Ele deixou suas roupas e armas na margem, junto ao seu cavalo, e mergulhou nas águas. Mal entrou na correnteza, chamas e faíscas irromperam no ar, acompanhadas por uma espessa fumaça negra. Da névoa surgiu a dragonesa de doze cabeças, Gorynych, a mesma cuja ninhada ele havia exterminado anteriormente.

Arte de Stepan Gilev

Ao avistar Dobrynya, a dragonesa perguntou o que deveria fazer com ele. Percebendo o perigo, ele mergulhou novamente e nadou até a margem oposta a que suas roupas e armas estavam. Seu cavalo, assustado com a presença da criatura, já havia fugido. Quando tudo parecia perdido, Dobrynya avistou um chapéu de sacerdote caído na grama. Como um bogatyr, ele sabia que poderia transformar o objeto em uma arma poderosa. No entanto, ao tentar erguê-lo, percebeu que era extremamente pesado. No momento em que a dragonesa voou em sua direção, Dobrynya brandiu o chapéu com todas as suas forças e decepou as cabeças de Goryshche. Ferida e caída no chão, a dragonesa implorou por misericórdia, prometendo nunca mais atacar as terras da Santa Rússia nem sequestrar seu povo. Dobrynya, por sua vez, jurou nunca mais retornar às Montanhas Sorochinsk e, em um ato de clemência, libertou a criatura.

Sem cavalo e sem armas, Dobrynya teve que retornar a pé para Kiev. Ao chegar, descobriu que, durante sua longa ausência, uma tragédia havia ocorrido na corte do Príncipe Vladimir: a dragonesa Gorynych, que ele havia poupado anteriormente, rompeu sua promessa. Sobrevoando a cidade, a criatura capturou a princesa Zabava, sobrinha favorita de Vladimir, segurando-a entre suas mandíbulas. Vladimir, desesperado, convocou seus cavaleiros e desafiou-os a resgatar a jovem. Alyosha Popovich, filho do bispo Leôncio, sugeriu que Dobrynya era o mais indicado para a missão, já que conhecia bem a dragonesa e afirmou que a criatura o considerava como um irmão. Ao ouvir isso, Vladimir ordenou que Dobrynya trouxesse de volta a princesa ou enfrentasse a decapitação.


Preocupado, Dobrynya retornou para casa e contou à mãe sobre o ocorrido, reclamando que teria que caminhar até as Montanhas Sorochinsk, pois não possuía mais um cavalo. Sua mãe, então, revelou que o velho garanhão castanho de seu pai ainda estava nos estábulos, atolado em esterco. Ela aconselhou o filho a limpar e alimentar o cavalo, além de descansar bem durante a noite. Na manhã seguinte, Dobrynya seguiu os conselhos da mãe. Antes de partir, ela lhe entregou um chicote de seda, dizendo que, caso o cavalo enfraquecesse, ele deveria usá-lo. Guardando o chicote no bolso, Dobrynya montou o castanho, que saltou sobre os muros da cidade e disparou velozmente, sendo impossível de acompanhar com os olhos. Rapidamente, chegaram às encostas das Montanhas Sorochinsk, onde o solo fervilhava com os filhotes da dragonesa. Dobrynya atacou-os, esmagando-os com seu cavalo. Contudo, após algum tempo, a montaria começou a desfalecer devido às mordidas dos filhotes. Lembrando-se das palavras de sua mãe, Dobrynya pegou o chicote de seda e bateu suavemente entre as orelhas e patas traseiras do animal. Imediatamente, a força do cavalo foi restaurada, permitindo que seguissem até a caverna da dragonesa.

Como era de se esperar, Gorynych não ficou nada feliz ao ver Dobrynya. Ela reclamou amargamente pela morte de seus filhotes e, ainda mais, pelo fato de que Dobrynya, um cavaleiro da Santa Rússia, havia quebrado sua palavra ao retornar às Montanhas Sorochinsk. Dobrynya, no entanto, revidou, lembrando que foi a própria dragonesa quem primeiro rompeu o pacto ao atacar Kiev e sequestrar a princesa Zabava. Em seguida, exigiu que a jovem fosse devolvida. Quando Gorynych recusou, Dobrynya atacou. 

Arte de Andy Aslamov

O combate entre os dois durou três dias, até que Dobrynya finalmente saiu vitorioso. No entanto, ao olhar ao redor, percebeu que estava cercado por um imenso lago formado pelo sangue da dragonesa, um lago que a terra não conseguia absorver. Clamando pela Mãe Terra (Mati-Syra-Zemlya), Dobrynya ordenou que ela se abrisse e engolisse o sangue do monstro. Imediatamente, surgiu uma fenda gigantesca, e o lago foi drenado. 

Descendo de seu cavalo, Dobrynya entrou no labirinto de cavernas onde a dragonesa vivia. Lá dentro, encontrou e libertou centenas de russos aprisionados, até que, na última câmara, finalmente descobriu a princesa Zabava. Guiando-a para fora, Dobrynya a colocou na frente dele, sobre o cavalo, e partiu de volta para Kiev com a mesma velocidade com que havia partido. Ao retornar, Dobrynya foi aclamado como um grande herói pelo Príncipe Vladimir e por todo o povo da cidade. Em casa, ele também foi recebido por seu leal cavalo, Voroneyushka, “Pequeno Corvo”, que havia retornado ao seu estábulo. A cidade celebrou a bravura e o sucesso de Dobrynya, marcando mais um triunfo nos feitos lendários do grande bogatyr.


A busca por uma esposa

No entanto, apesar de sua popularidade e glória, Dobrynya começou a mergulhar em pensamentos melancólicos, passando horas olhando pela janela. Quando sua mãe, Amelfia Timofeyevna, perguntou o que o afligia, ele confessou que sentia que já deveria ter se casado há muito tempo, mas todas as moças da cidade já estavam comprometidas. Sua mãe, sempre sábia, sugeriu que, se ele desejasse encontrar uma esposa, precisaria viajar para além dos limites de Kiev. A ideia imediatamente o encantou, pois, mesmo que não encontrasse uma noiva, ao menos teria novas aventuras para viver. Ao se dirigir aos estábulos para preparar sua jornada, sua mãe o chamou e aconselhou-o a deixar Voroneyushka para trás, levando, em vez disso, o cavalo que havia pertencido a seu pai — o mesmo que o servira tão bem em sua missão para resgatar a princesa Zabava. Dobrynya seguiu o conselho, armou-se e partiu rumo às vastas estepes russas.

Pouco depois de iniciar sua jornada, Dobrynya encontrou rastros de outro cavaleiro e, movido pela curiosidade, decidiu segui-los. Após cavalgar por um curto tempo, avistou uma polianitsa — uma mulher-guerreira — galopando em um cavalo negro como a noite. Sem hesitar, Dobrynya sacou seu arco e disparou uma flecha. A flecha atingiu o capacete da guerreira, mas caiu no chão sem causar qualquer dano. Ele disparou uma segunda flecha, com o mesmo resultado. Ao lançar uma terceira flecha, a guerreira finalmente parou e olhou ao redor. Ao avistar Dobrynya, ela se aproximou, agarrou-o pelos cabelos e o ergueu do cavalo, colocando-o dentro de um saco profundo que sempre carregava consigo.

Por três dias inteiros, Dobrynya permaneceu em silêncio dentro do saco, remoendo sua humilhante situação enquanto era levado pelas estepes. No quarto dia, o cavalo da guerreira tropeçou e reclamou, dizendo que não conseguia mais carregar tanto peso — afinal, levava tanto uma polianitsa quanto um bogatyr' (cavaleiro lendário). A guerreira, então, desceu de seu cavalo, retirou Dobrynya do saco e exigiu saber quem ele era. Ela declarou que, se ele fosse mais velho que ela, o mataria; se fosse mais jovem, o tomaria como irmão; e se tivessem a mesma idade, deveriam se casar. Dobrynya recusou-se a responder, mas o cavalo da mulher o reconheceu e revelou que seu nome era Dobrynya Nikitich e que ele tinha exatamente a mesma idade da guerreira. Ao ouvir isso, a mulher revelou seu próprio nome: Nastasya Mikulishna. 

Nastasya Mikulishna

Concluindo que eram da mesma idade, ela declarou que deveriam se casar. Dobrynya, surpreso mas impressionado com a força e determinação da guerreira, aceitou a proposta. Juntos, eles retornaram a Kiev. Na cidade, a mãe de Dobrynya, Amelfia Timofeyevna, deu uma calorosa recepção a Nastasya, e logo uma grande festa de casamento foi organizada. O Príncipe Vladimir e sua esposa Evpraksiya compareceram às celebrações, que duraram três dias e três noites, marcando a união dos dois guerreiros. Após o casamento, Nastasya abandonou sua vida de guerreira e passou a viver com Dobrynya e sua mãe, assumindo o papel de uma esposa tradicional russa.

A partida de Dobrynya Nikitich para a Lituânia

Cerca de três anos após seu casamento, o Príncipe Vladimir organizou um grandioso banquete em Kiev, convidando todos os bogatyri (cavaleiros heróicos) para comparecer. À medida que a celebração chegava ao fim, Vladimir se dirigiu aos cavaleiros presentes, perguntando quem estaria disposto a liderar um exército contra um inimigo que havia atacado seu sogro, o Rei da Lituânia. Nenhum dos bogatyri respondeu ao chamado. O príncipe repetiu a pergunta, e desta vez Alyosha Popovich se levantou, sugerindo que ninguém seria mais qualificado para a missão do que Dobrynya Nikitich, já que ele havia servido no exército do Rei da Lituânia e conhecia bem a região. Apesar de sua relutância inicial, Dobrynya concordou em liderar a expedição e foi para casa se preparar para a batalha.

Dobrynya Nikitich e Alyosha Popovich

Lá, sua mãe, Amelfia Timofeyevna, percebeu sua inquietação e perguntou o que estava acontecendo. Com grande pesar, Dobrynya contou sobre a missão, tentando tranquilizá-la ao dizer que, se morresse, se juntaria ao pai, Nikita, no céu, e que um dia ela também se encontraria com ele lá. Tomada pela emoção, Amelfia o abençoou, mas logo correu para contar a Nastasya sobre a partida iminente de seu marido. Ao ouvir a notícia, Nastasya correu para Dobrynya, e ele explicou sua missão. Ele então pediu que ela o esperasse por doze anos. Se nesse tempo ele não retornasse, Nastasya deveria dividir sua riqueza entre a igreja e os pobres e, depois disso, buscar um novo marido. No entanto, Dobrynya aconselhou-a a não se casar com Alyosha Popovich, pois os dois haviam trocado cruzes e, aos olhos de Deus, eram considerados irmãos. Com isso, Dobrynya beijou sua esposa, montou em seu cavalo e partiu para a Lituânia.

A Espera de Nastasya 

Passaram-se três anos, e Dobrynya não retornou. Foi então que Alyosha Popovich chegou a Kiev trazendo a notícia de sua morte. Sua mãe, Amelfia Timofeyevna, chorou a perda do filho, mas Nastasya recusou-se a acreditar, mantendo sua vigilância e esperança. Mais três anos se passaram, e Alyosha Popovich mais uma vez chegou a Kiev trazendo a notícia da morte de Dobrynya Nikitich. Novamente, Nastasya recusou-se a acreditar nele. Seu coração insistia em dizer que ele ainda estava vivo, e ela continuou esperando, fiel à promessa que havia feito.

Mais seis anos se passaram antes que Alyosha Popovich retornasse à corte do príncipe Vladimir, mais uma vez trazendo a notícia da morte de Dobrynya Nikitich. Dessa vez, embora Nastasya ainda não acreditasse plenamente na morte do marido, ela sabia que já cumprira sua promessa de esperá-lo por doze anos. Assim, com o coração pesado, aceitou se casar com Alyosha Popovich. Toda a cidade de Kiev se preparou para o casamento, que seria um grande evento, repleto de celebrações. Enquanto isso, na fronteira da Lituânia, Dobrynya Nikitich dormia profundamente, mergulhado em um sono longo e misterioso, alheio ao que acontecia em sua terra natal.

O retorno de Dobrynya à Kiev

Ao despertar, Dobrynya viu duas pombas brancas entrarem em sua tenda. As aves sussurraram-lhe notícias sobre os preparativos para um casamento que acontecia naquele mesmo momento em Kiev: o casamento de Alyosha Popovich e Nastasya. Ao ouvir isso, Dobrynya se levantou de imediato, reuniu suas posses, montou seu fiel cavalo, Voroneyushka, e galopou como o vento em direção a Kiev. Sua mente estava tomada por uma mistura de urgência e determinação, pois sabia que não poderia permitir que o casamento acontecesse. Ao chegar em Kiev, Dobrynya reencontrou sua mãe, Amelfia Timofeyevna, que chorou de alegria ao ver o filho vivo e são. No entanto, ele não foi direto ao palácio para revelar seu retorno. Em vez disso, decidiu se disfarçar como um menestrel, vestindo roupas simples e pegando um instrumento musical.

Disfarçado, Dobrynya se dirigiu à festa de casamento. Ele se sentou sobre o fogão, o lugar tradicional reservado para menestréis e mendigos, e começou a cantar. Suas canções eram melodiosas, mas carregadas de emoção, entoando versos sobre amor, saudade e traição. Cada nota parecia ecoar a história de sua própria vida, e todos os presentes, incluindo Nastasya e Alyosha, ficaram hipnotizados pela voz do misterioso menestrel. A voz do menestrel tocou profundamente Nastasya, que, emocionada, pediu ao Príncipe Vladimir permissão para oferecer-lhe uma bebida. O príncipe concordou, e Dobrynya aceitou o cálice de sua esposa. Em seguida, ele pediu permissão para retribuir o gesto. O príncipe permitiu, e Dobrynya entregou a Nastasya uma taça de hidromel. Ela levou o cálice aos lábios, e algo brilhou no fundo da taça. Era o anel de casamento de Dobrynya. 

"Dobrynya Nikitich no banquete do príncipe Vladimir". Arte de Nikolay Karazin

Ao reconhecê-lo, Nastasya caiu ao chão, tomada pelo desespero, e implorou pelo perdão do marido. Um silêncio sepulcral se espalhou pelo banquete. Todos os presentes voltaram seus olhares para o menestrel e, finalmente, perceberam que ele não era um simples cantor, mas sim Dobrynya Nikitich, vivo e diante deles. O Príncipe Vladimir o recebeu com alegria, mas Dobrynya só tinha olhos para um homem naquele salão: Alyosha Popovich. 

Dobrynya perdoou sua esposa, pois sabia que ela não poderia ter adivinhado a verdade sobre seu retorno. No entanto, quando Alyosha se ajoelhou diante dele, implorando perdão, Dobrynya recusou-se a aceitá-lo. Em um surto de fúria, agarrou Alyosha pelo pescoço, lançou-o ao chão e sacou sua espada. Com os olhos ardendo de ira, ergueu a lâmina para matá-lo. Mas, antes que pudesse desferir o golpe, Ilya Muromets interveio. O lendário bogatyr segurou o braço de Dobrynya e impediu o derramamento de sangue. Respirando fundo, Dobrynda embainhou sua espada, virou-se sem dizer uma palavra e deixou o palácio, levando Nastasya consigo. A partir daquele dia, Dobrynya Nikitich nunca mais dirigiu uma única palavra a Alyosha Popovich. E assim, Dobrynya e Nastasya viveram o resto de seus dias em paz e felicidade.


fontes:
  • DIXON-KENNEDY, M. Encyclopedia of Russian and Slavic myth and legend. Oxford: Abc-Clio, 1999.=/
  • WIKIPEDIA CONTRIBUTORS. Dobrynya Nikitich. Disponível em <https://en.wikipedia.org/wiki/Dobrynya_Nikitich>.
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9 de abril de 2025

Ilya Muromets

۞ ADM Sleipnir

Arte de Stepan Gilev

Ilya Muromets (ou Ilya Murometz, em russo: Илья Муромец, também conhecido como Ilya de Murom) é um dos mais famosos bogatyrs, ou cavaleiros heróicos, das  bylinas — canções épicas que narram as aventuras dos heróis do período medieval da Rússia de Kiev. Embora sua origem pareça remontar a tempos pré-cristãos, associada a figuras como o gigante Svyatogor, há certa confusão nesse ponto. Uma das histórias, por exemplo, coloca Ilya Muromets e Svyatogor juntos, o que sugere que não se tratam da mesma pessoa.

Nascimento, maldição e cura

"Ilya Muromets e seus parentes", por Andrey Klimenko

Ilya nasceu na vila de Karacharovo, filho de um camponês chamado Ivan, razão pela qual recebeu o patronímico Ivanovich. Seu sobrenome "Muromets" é, na verdade, um epíteto que indica a origem de Ilya: a cidade de Murom, localizada não muito longe de Moscou. Ilya nasceu aleijado e era tão fraco que não conseguia se mover. No entanto, aos 33 anos, ele foi milagrosamente curado por um grupo de homens conhecidos como kaleki ou peregrinos. Em algumas versões da história, esses peregrinos são identificados como Jesus Cristo e dois apóstolos. Eles deram a Ilya uma bebida feita de mel, que o curou instantaneamente.


Após a cura, os peregrinos deram conselhos a Ilya sobre como conduzir sua vida. Eles o advertiram para evitar confrontos com três figuras poderosas: Svyatogor, Mikula Selyaninovich e Volga Yaroslavich. Em relação a este último, embora reconhecessem que Ilya pudesse derrotá-lo em batalha, os peregrinos alertaram que a astúcia de Volga certamente o venceria no final. Depois de dar esses conselhos, os peregrinos desapareceram, e Ilya correu para encontrar seus pais para celebrar sua cura.

O juramento e a viagem para Kiev

Logo após sua recuperação, Ilya jurou viajar para Kiev para oferecer seus serviços ao Príncipe Vladimir, o "Sol Brilhante" e sua esposa Evpraksiya. Antes de partir, ele participou de uma missa em Murom e fez um voto: não lutaria nem derramaria sangue antes de chegar a Kiev naquela mesma noite, onde assistiria novamente à missa. Para cumprir seu juramento, Ilya precisava percorrer mais de 500 milhas em um único dia — um feito impossível para um cavalo comum. No entanto, ele contava com seu extraordinário cavalo, Sivushko, que galopava como o vento e saltava montanhas com um único pulo. Algumas fontes afirmam que um único salto de Sivushko cobria cinquenta verstas (cerca de 33 milhas, considerando que uma versta equivale a aproximadamente dois terços de uma milha).

Armado com seu sabre, arco e flechas, uma imensa maça e uma lança longa e afiada, Ilya partiu pela rota mais direta para Kiev. Essa rota passava pela cidade de Chernigov, embora algumas fontes identifiquem a cidade, nesse episódio específico, como Smolensk.

O cerco a Chernigov

Ao se aproximar da cidade, Ilya descobriu que ela estava sob cerco por hordas pagãs. Rezando a Deus para ser liberado de seu voto de não derramar sangue antes de chegar a Kiev, ele investiu contra os invasores e dizimou todo o exército inimigo. 

Arte de Flick-the-Thief

O povo de Chernigov o recebeu como um herói e ofereceu-lhe o trono como tsar. No entanto, Ilya recusou a oferta e, em vez disso, pediu que lhe mostrassem a estrada mais direta para Kiev. Os habitantes de Chernigov atenderam ao pedido de Ilya, mas o alertaram sobre os perigos que o aguardavam no caminho:
  • O Pântano Negro: Um local traiçoeiro que puxava as pessoas para suas profundezas;
  • O Rio Smorodina: Um rio tempestuoso e violento, difícil de cruzar;
  • A Floresta de Briansk: Local onde ele sofreria uma emboscada de Solovei Rakhmatich, filho de Rakhmat, um terrível bandoleiro meio homem, meio pássaro, conhecido como Nightingale (Rouxinol).
Sem medo, Ilya seguiu pela estrada coberta de vegetação, que estava abandonada há trinta anos devido aos ataques de Nightingale, que matava todos que tentavam passar. Com a ajuda de seu cavalo Sivushko, Ilya superou os desafios. Com um único salto, Sivushko atravessou o Pântano Negro. Em seguida, o cavalo saltou sobre a correnteza furiosa do rio Smorodina. Finalmente, Il'ya chegou a um riacho chamado Smorodinka, onde, em um ninho no alto de uma árvore (algumas fontes dizem que o ninho era tão grande que cobria o topo de sete árvores), vivia Solovei Rakhmatich, o temível Nightingale.

Nightingale

O confronto contra Nightingale e seus parentes

Ao ver Ilya Muromets se aproximar, Nightingale soltou um assobio poderoso. A força do som derrubou árvores e a grama, e a rajada foi tão intensa que até mesmo o cavalo de Ilya tropeçou. Repreendendo o animal para que se reerguesse, Ilya disparou uma flecha que atingiu Nightingale na têmpora, derrubando-o de seu poleiro. Ilya saltou de seu cavalo e rapidamente amarrou Nightingale antes que ele recobrasse os sentidos. Em seguida, prendeu-o ao estribo de Sivushko e continuou sua jornada.

"Nightingale, o Salteador, caiu de seu ninho nos velhos carvalhos", arte de Frank C. Papé (1916)

Pouco depois, Ilya chegou à casa onde moravam as filhas e genros de Nightingale. A casa era sustentada por sete pilares e cobria uma área de sete verstas por sete verstas (aproximadamente cinco milhas de comprimento por cinco milhas de largura). Ao verem Nightingale amarrado ao estribo do cavalo de Ilya, eles correram para atacar. No entanto, Nightingale ordenou que baixassem as armas e convidassem Ilya para ser seu hóspede. Ilya percebeu que, assim que entrasse na casa, seria atacado, então não perdeu tempo: matou todas as filhas de Nightingale e seus maridos.

A chegada à Kiev e o fim de Nightingale

Finalmente, Ilya chegou a Kiev e se apresentou ao príncipe Vladimir. No entanto, ele havia chegado tarde demais para assistir à missa, como planejara. Quando contou a Vladimir tudo o que havia acontecido naquele dia, o príncipe não acreditou nele. Para provar sua história, Ilya levou Vladimir até o pátio, onde Nightingale ainda estava amarrado ao seu cavalo. Vladimir ordenou que Nightingale assobiasse, mas ele se recusou, afirmando que, como havia sido derrotado de maneira justa, apenas Ilya poderia lhe dar ordens. Ilya então ordenou que Nightingale assobiasse, mas apenas com metade de sua força. Ignorando o comando, Nightingale assobiou com força total, causando um impacto devastador. Todos os guardas e cortesãos caíram mortos, e o próprio Príncipe Vladimir foi lançado pelo pátio, arrastado pela força do assobio. 

Após esse episódio, Vladimir reconheceu Ilya como um grande cavaleiro e o aceitou como membro de sua corte, honrando-o por sua bravura e habilidades excepcionais. Ilya então levou Nightingale para a estepe e o decapitou. A metade humana de seu corpo foi jogada aos lobos, enquanto a metade de pássaro foi lançada aos corvos necrófagos. Após esse feito, Ilya retornou a Kiev, onde passou a viver como um membro respeitado da corte do Príncipe Vladimir. No entanto, sua natureza aventureira o levava a frequentemente partir em novas jornadas, cruzando as vastas estepes em busca de feitos heroicos.

O encontro com Svyatogor

Em uma ocasião, Ilya Muromets viajou para as Montanhas Sagradas. Algumas fontes sugerem que esses eventos ocorreram enquanto ele estava a caminho de Murom para Kiev, logo após sua cura milagrosa. Nas Montanhas Sagradas, Ilya encontrou um enorme pavilhão branco sob um carvalho. Dentro do pavilhão, havia uma cama gigantesca, que algumas fontes descrevem como tendo dez braças de comprimento e seis de largura (aproximadamente 24 metros por 14 metros). Curioso para saber quem era o dono daquela cama, Ilya amarrou Sivushko ao carvalho e deitou-se nela, onde dormiu por três dias e três noites. No terceiro dia, a terra começou a tremer. Sivushko, alertando seu dono, pisoteou o chão e avisou que o poderoso Svyatogor estava voltando para sua tenda. Ilya imediatamente saltou da cama, desamarrou seu cavalo para que ele pudesse se esconder e subiu no carvalho para observar.

Arte de Ivan Bilibin

Do alto da árvore, Ilya viu Svyatogor se aproximar do pavilhão, carregando um baú de cristal sobre o ombro. Ao chegar, o gigante colocou o baú no chão, destrancou-o com uma chave de ouro pendurada em seu pescoço e retirou de dentro uma bela mulher — sua esposa. O casal fez uma farta refeição, após a qual Svyatogor foi dormir, enquanto sua esposa decidiu dar um passeio. Durante seu passeio, a esposa de Svyatogor avistou Ilya escondido na árvore. Ela ordenou que ele descesse e, sob ameaça de acordar Svyatogor, forçou Ilya a deitar-se com ela. Depois disso, ela o escondeu no bolso de Svyatogor e foi dormir ao lado do gigante.

Na manhã seguinte, Sviatogor colocou sua esposa de volta no baú de cristal e partiu para cavalgar pelas Montanhas Sagradas. No entanto, seu cavalo tropeçou pela primeira vez na vida. Irritado, Svyatogor repreendeu o animal, mas o cavalo respondeu:
"Antes, eu carregava um bogatyr' e sua esposa, mas agora sou forçado a carregar uma esposa e dois bogatyri."
Imediatamente, Svyatogor percebeu que havia sido traído. Furioso, ele retirou sua esposa do baú e a decapitou. Em seguida, enfiou a mão no bolso, puxou Ilya Muromets e, sem dizer uma palavra, os dois seguiram viagem juntos, com Sivushko seguindo a uma distância segura. Logo, os dois se depararam com um enorme caixão de pedra. Curioso, Ilya deitou-se no caixão, mas achou-o grande demais e sugeriu que Svyatogor o experimentasse. Embora Ilya suplicasse para que ele não fechasse a tampa, Svyatogor fez exatamente isso. Quando Ilya tentou remover a tampa, descobriu que ela estava extremamente pesada. Ilya golpeou a tampa três vezes com sua maça, mas, a cada golpe, uma faixa de aço se fechava ao redor do caixão, travando-a ainda mais. Svyatogor, tentando ajudar, soprou um pouco de sua força em Ilya para que ele pudesse usar uma espada gigante. No entanto, isso só piorou as coisas: a cada golpe com a espada, duas faixas de aço se fechavam ao redor do caixão.Aceitando seu destino, Svyatogor pediu que Ilya amarrasse seu cavalo ao carvalho, para que ele morresse ao lado de seu mestre. Ilya cumpriu o pedido e partiu tristemente, sabendo que Svyatogor, o último dos gigantes, em breve não existiria mais.


Os ultimos atos de Ilya Muromets

Após muitos anos servindo fielmente ao Príncipe Vladimir em Kiev, Ilya Muromets percebeu que seu fim estava próximo. Decidido a cavalgar por sua amada terra natal uma última vez, ele deixou a cidade e chegou a um cruzamento com três estradas, cada uma marcada por um aviso: A primeira estrada levava à morte certa; a segunda estrada levava ao casamento certo. a terceira e última estrada levava à riqueza certa. Como já era velho, Ilya sabia que não tinha razão para casar e não precisava de riquezas. Assim, escolheu a primeira estrada, que parecia a mais apropriada para ele.

"Cavaleiro na Encruzilhada". (1878), arte de Viktor Mikhailovich Vasnetsov (1848-1926).

Ilya esporeou Sivushko e cavalgou por três horas, cobrindo uma distância de trezentos versts (aproximadamente duzentas milhas). Ele chegou a um enorme palácio, que era a casa de mais de quarenta mil ladrões. Os ladrões o atacaram, mas Ilya, com sua força e habilidade, passou por eles e os matou todos. Após limpar a estrada de perigos, ele voltou ao cruzamento e alterou a inscrição da placa, garantindo que qualquer viajante soubesse que a estrada agora estava segura.

Ilya então seguiu pela segunda estrada, cavalgando mais três horas e trezentos versts. Ele parou em frente a um segundo palácio, onde uma bela donzela o convidou para jantar e passar a noite. Ela prometeu que, se ele aceitasse, ficaria com ela para sempre como seu marido. Ilya comeu com ela, mas, ao ser conduzido ao quarto, suspeitou de uma armadilha. Em vez de deitar-se, ele pegou a donzela e a jogou na cama. Como ele previra, a cama se abriu, e a donzela caiu nos calabouços abaixo. Ilya pegou as chaves da donzela, desceu aos calabouços e libertou os muitos prisioneiros que ela havia capturado dessa maneira. Ele deixou a donzela trancada em seus próprios calabouços e retornou ao cruzamento, onde alterou a inscrição da placa para informar que a estrada agora estava segura.

Finalmente, Ilya viajou pela terceira estrada, novamente cavalgando três horas e trezentos versts. Ele chegou a uma grande rocha no meio de um campo. A rocha pesava 270 poods (cerca de 9.720 libras), mas Ilya a ergueu com facilidade, revelando um tesouro de ouro, prata e pedras preciosas. Ilya distribuiu as riquezas entre os pobres e usou parte do tesouro para construir uma pequena igreja. Ele então retornou ao cruzamento e alterou a inscrição da placa pela última vez, informando a todos sobre o que havia feito. 

Arte de Stepan Gilev

Após isso, Ilya voltou a Kiev. Sua última ação foi construir uma catedral em Kiev. Quando a catedral foi concluída, Ilya morreu, e seu corpo se transformou em pedra. Algumas versões da história dizem que ele se tornou a última pedra necessária para completar o edifício, selando seu legado como um dos maiores heróis da Rússia.

Ilya Pechersky, o possível protótipo de Muromets

Alguns sugerem que o protótipo de Ilya Muromets foi Ilya Pechersky, um monge do século XII do Mosteiro de Kiev-Pechersk, nascido em Karacharovo, próximo a Murom, e canonizado em 1643. De acordo com sua hagiografia, antes de tomar seus votos monásticos, Ilya Pechersky era um guerreiro famoso por sua força. Seu apelido era "Chobotok", que significa "(pequena) bota", dado a ele após um incidente em que, pego de surpresa, ele lutou contra inimigos usando apenas sua bota. Em 1988, arqueólogos soviéticos exumaram os restos mortais de Ilya Pechersky, que estavam armazenados no mosteiro, e os estudaram. O relatório sugeriu que pelo menos algumas partes da lenda podem ser verdadeiras: o homem era alto, e seus ossos apresentavam sinais de doença espinhal na juventude e marcas de numerosas feridas, uma das quais foi fatal.

Arte de Galina Kalinina


fontes:
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26 de julho de 2021

Alyosha Popovich

۞ ADM Sleipnir

Arte de Feig

Alyosha Popovich (russo: Алёша Попович, literalmente "Alexei, filho do padre", também conhecido como Alesha Popovich), é um herói popular do principado de Kiev. Dito ser filho de Leôncio, bispo de Rostov, ele é o mais novo dos três principais bogatyri (cavaleiros errantes) do folclore russo; os outros dois são Dobrynya Nikitich e Ilya Muromets. Todos os três são representados juntos na famosa pintura de Viktor Vasnetsov, "Bogatyrs"

Viktor Vasnetsov, "Bogatyrs"

Alyosha é o mais novo dentre os três, porém enquanto os outros bogatyri são conhecidos por sua força física e sua destreza ao combater os inimigos da Rússia, ele é conhecido por sua agilidade, inteligência, engenhosidade, desenvoltura e por sua atração por mulheres e por cortejá-las. Alyosha no entanto se destaca mesmo por sua capacidade de usar truques e enganar os outros, seja inimigos ou aliados (como veremos a seguir).

Passando a perna em Dobrynya Nikitich

Certa vez, Alyosha recomendou Dobrynya Nikitich ao príncipe Vladimir, como sendo o homem adequado para ir em auxílio do rei da Lituânia, que se encontrava sitiado pelos seus inimigos. Alyosha no entanto, tinha o desejo oculto de se livrar de Dobrynya e se casar com sua esposa Nastasya Nikulichna. Dobrynya ficou anos longe, e por várias vezes Alyosha espalhou que ele havia morrido e também constantemente pedia que Nastasya se casasse com ele. 

Arte de Stepan Gilev

Ela porém sempre recusava o pedido, dizendo que preferia esperar mais três anos a aceitar se casar novamente. Depois de muito esperar, Nastasya acaba finalmente aceitando se casar com Alyosha, e os preparativos para o casamento foram feitos. A notícia da cerimônia iminente chegou à Dobrynya Nikitich, que retornou a Kiev disfarçado e até cantou canções de celebração ao casal durante a mesma. No momento que o casamente estava pra ser sacramentado, Dobrynya revelou sua identidade, reunindo-se com sua esposa novamente e dando uma bela surra em Alyosha.

Em outra ocasião, quando a princesa Zabava foi sequestrada pelo dragão Zmey Gorynych, Alyosha contou a Vladimir que o dragão era amigo de Dobrynya, e isso fez com que o príncipe Vladimir designasse o bogatyr a ir resgatá-la, sob a pena de ser decapitado.

Alyosha e Tugarin


A história mais famosa envolvendo Alyosha Popovich envolve seu duelo contra Tugarin Zmeyevich, um monstro descrito ora como um gigante, ora um dragão antropomórfico ou dragão completo, e que personifica o mal e a crueldade. Nesta história, Alyosha Popovich e seu escudeiro Yekim foram até Kiev para se encontrar com o príncipe Vladimir. Quando eles chegaram, Vladimir estava promovendo um banquete e ofereceu à Alyosha um assento próximo a ele na cabeceira da mesa. Alyosha recusou a oferta, escolhendo sentar-se em um ponto ao lado do fogão, o qual era geralmente ocupado por servos. Pouco depois após refeição começar, a porta do salão foi aberta e uma criatura gigante e bruta entrou. Era Tugarin Zmeyevich, que sem prestar nenhum respeito a Vladimir, sentou-se entre o príncipe e sua esposa.


Assistindo a cena, Alyosha se perguntava o que havia entre o príncipe e sua esposa para permitir que uma criatura como aquela se sentasse entre eles ( algumas versões dessa história sugerem que isso ocorreu porque Tugarin e a esposa de Vladimir estavam tendo um caso). Tugarin cravou a lâmina de sua faca em um cisne assado que estava colocado diante dele e o comeu inteiro, cuspindo os ossos enquanto engolia a carne. Alyosha então provocou Tugarin, dizendo que seu pai uma vez teve um cachorro vira-lata que morreu sufocado com um osso de cisne e que esperava que Tugarin fizesse o mesmo. Tugarin ignorou Alyosha e devorou ​​uma enorme torta com uma única mordida. Alyosha resolveu provocá-lo mais uma vez, dizendo que seu pai tinha uma velha vaca que tinha remexido na terra em busca de comida e morreu sufocada. Disse ainda que esperava que as más maneiras de Tugarin o levassem ao mesmo destino.

Desta vez Tugarin mordeu a isca e perguntou ao príncipe Vladimir quem era o camponês ignorante que o insultava. Quando ele soube que era ninguém menos que Alyosha - pois até mesmo Tugarin já havia ouvido falar dele - ele atirou sua longa faca nele. Porém, o ágil escudeiro Ekim pegou a faca pelo cabo. Tugarin então empurrou a mesa e desafiou Alyosha a encontrá-lo na estepe próxima do rio Safat.

Alyosha aceitou o desafio e imediatamente partiu a pé. Enquanto se dirigia ao local do duelo, ele encontrou um peregrino que carregava um pesado cajado. Alyosha trocou de roupas com o peregrino, e também pediu emprestado o cajado. Logo depois, ele avistou Tugarin montado em um cavalo e voando acima dele (em uma versão as asas não são originais dele, mas feitas de papel, em outras versões, são de fato asas de dragão, porém bem finas).


Alyosha orou por uma forte chuva, e sua oração foi atendida quase que imediatamente. Assim que a chuva caiu, as asas de papel de Tugarin se desintegraram e ele caiu no chão (na versão em que são asas de verdade, Tugarin não consegue manter o voo por causa do peso das asas que ficaram molhadas). Tugarin percebeu quem era o peregrino e galopou em sua direção, com a intenção de esmagá-lo sob os cascos de seu cavalo. Ayosha esquivou-se agilmente do cavalo apressado e se escondeu sob sua juba esvoaçante. Enquanto Tugarin procurava por Alyosha, o bogatyr o atacou com o cajado, golpeando sua cabeça e derrubando no chão. Usando a faca que Tugarin tinha atirado contra ele, Alyosha o decapitou. Em seguida, empalou a cabeça com a ponta do cajado e retornou a Kiev montado em seu cavalo. Curiosamente, quando a esposa de Vladimir fica sabendo da morte de Tugarin, ela fica triste e repreende Alyosha Popovich pela morte de seu "querido amigo" (reforçando a teoria que de fato os dois eram amantes).


Alyosha como um personagem real

Alyosha Popovich pode ter sido baseado em um personagem real de Rostov chamado Alexandre Popovich, que  de acordo com a Crônica de Nikon, serviu ao príncipe Usevolodo, o Grande Ninho e morreu em 1223 na Batalha do Rio Kalka contra os tártaros. Há porém quem afirme que tal personagem não existiu.

Arte de Stepan Gilev

fontes:
  • https://en.wikipedia.org/wiki/Alyosha_Popovich
  • https://brickthology.com/2012/11/18/alyosha-popovich
  • Encyclopedia of Russian & Slavic Myth and Legend, de Mike Dixon-Kennedy
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15 de janeiro de 2020

Volga Vseslavyevich

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Arte de Stepan Gilev

Volga Vseslavyevich ou Volkh Vseslavyevich (russo: Волх Всеславьевич) é um dos mais antigos bogatyri (heróis) dos épicos russos. Um poderoso mago e caçador, filho da csarevna (princesa) Martha Vseslavievna e uma serpente, que a engravidou após ela ter acidentalmente pisado nela. Seu nascimento foi saudado como o de um grande homem, pois o céu foi iluminado pela lua mais brilhante já vista, e um enorme terremoto abalou a terra e fez todos os animais da terra e do mar procurarem um esconderijo seguro.

Martha Vseslavievna e a serpente

Com apenas uma hora e meia de vida, Volga pronunciou suas primeiras palavras, dizendo à mãe para não envolvê-lo, mas para equipá-lo com uma armadura brilhante e um capacete de ouro maciço. Ele também disse a ela para lhe dar uma maça pesada de chumbo. Aos dez anos de idade, Volga já era totalmente educado e possuía muitas habilidades especiais, como a capacidade de mudar de forma à vontade. Aos doze anos, começou a reunir um exército de jovens, tarefa que levou três anos. Aos quinze anos, ele havia reunido um exército de cerca de sete mil soldados - todos da mesma idade que ele.

Pouco tempo após Volga ter reunido seu exército, chegou a Kiev um boato de que o rei da Índia estava ameaçando invadir a Rússia. Imediatamente, Volga e seu exército partiram rumo a Índia. Todas as noites, enquanto suas tropas dormiam, Volga se transformava em um lobo ou em um falcão e caçava os animais necessários para alimentar seu exército. 


Ao se aproximar da fronteira da Índia, Volga se transformou em um boi selvagem e se afastou de seu exército para examinar a terra à frente. Quando eles cruzaram a fronteira, Volga se transformou em um falcão e voou direto para o palácio do rei Saltyk, a quem ouviu conversando com sua esposa, que estava avisando-o sobre a aproximação de Volga e seu exército. Sabendo que seu avanço na Índia havia sido relatado, Volga se transformou em um furão e correu por todo o palácio, procurando os armamentos do rei. Ele roeu as cordas do arco, tirou a munição das armas de fogo e as enterrou, e arruinou o máximo que pôde encontrar. Então ele se transformou novamente em um falcão e voou de volta para onde seus homens o aguardavam.


Marchando implacavelmente pelo coração da Índia, eles finalmente chegaram às muralhas da capital. Parecia não haver entrada, mas Volga transformou a si mesmo e todo o seu exército em formigas, e eles rastejaram por pequenas brechas até estarem todos dentro da cidade. Depois de trazer seus homens de volta à sua forma humana, ele ordenou que matassem todos, exceto sete mil lindas donzelas - uma para cada uma deles. O próprio Volga foi direto para o palácio real. Lá, ele forçou o caminho para a câmara do rei Saltyk, jogou-o no ar e o esmagou no chão, quebrando seus ossos. Volga então se torna o rei, dividindo os despojos da batalha entre seus homens, que se casaram com as sete mil donzelas que haviam sido poupadas, enquanto Volga tomou para si como esposa a rainha do finado rei Saltyk.


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12 de novembro de 2014

Svyatogor

۞ ADM Sleipnir

Arte de Stepan Gilev

Svyatogor (ou Sviatogor, russo: Святого́р) é um bogatyr ("cavaleiro errante") gigante da mitologia e do folclore russo, conhecido como "O último dos gigantes". Seu nome é um composto de duas raízes: sviat, ou "santo"; e gor, "das montanhas", portanto significa "Santo das Montanhas" ou "Montanha Sagrada" Ele e seu poderoso corcel são tão grandes que, conforme Svyatogor cavalga, a crista de seu capacete varre as nuvens. Svyatogor é o mais velho dos bogatyri (plural de bogatyr) da Rússia, e de muitas maneiras, ele é o mais triste. Seus dias de glória ficaram no passado, e ele é retratado na maioria dos poemas épicos (byliny) como um guerreiro velho e cansado, condenado a desaparecer.

Existem dois contos sobre como Svyatogor encontrou seu fim. No primeiro, Ilya Muromets, outro famoso bogatyr russo, tinha ouvido falar sobre a grande força de Svyatigor e então decide partir em sua busca para desafiá-lo, mesmo tendo sido aconselhado a não fazê-lo. Enquanto cavalgava pela estrada, Ilya Muromets encontra um gigante adormecido em um cavalo igualmente gigante. Ilya atinge o gigante três vezes com sua maça, mas seus golpes não têm um efeito maior que a picada de um mosquito sobre ele. Depois de ser golpeado pela terceira vez,  o gigante acorda, pega Ilya pelos cabelos e o coloca no bolso.


Depois de um curto período de tempo, o corcel de Svyatogor reclama que o peso de dois heróis poderosos é demais para qualquer montaria transportar. Ilya então revela sua identidade para o gigante e descobre que o mesmo era Svyatogor, e os dois acabam se tornando grandes amigos. 

Ilya e Svyatogor seguiram viagem juntos durante dias e num momento se deparam com um caixão de pedra maciça. Apesar das premonições malignas, ambos se sentem instigados a deitarem no mesmo. O caixão é muito grande para Ilya, mas Svyatogor se encaixa perfeitamente nele. Após Svyatogor deitar-se no caixão, ele fechou sua tampa, apesar de Ilya implorar-lhe para não fazê-lo. Um tempo depois Svyatogor pede para Ilya remover a tampa, e ao tentar, ele nota que a tampa era pesada demais. Ele então golpeia o caixão três vezes com sua maça, e em cada acerto, uma banda de aço selava o caixão.

Através de uma fenda na pedra, Svyatogor expira uma pequena parte de sua força sobre Ilya para que ele pudesse usar a sua própria espada mas isso só piorou a situação, pois a cada acerto com a espada de Svyatogor, duas bandas de aço selavam o caixão. 


Svyatogor logo percebeu que ele estava destinado a permanecer preso no caixão para sempre. Ele então pediu a Ilya que amarrasse seu corcel a um carvalho perto do caixão, para que ambos pudessem perecer juntos. Com tristeza em seu coração, mas também com uma fração da força de Svyatogor vivendo nele, Ilya abandona o seu amigo e continua sua jornada.

A segunda história sobre o fim de Svyatogor é provavelmente a mais velha das duas. Svyatogor muitas vezes se gabava de sua grande força, chegando a afirmar que ele poderia até mesmo suspender o mundo. Um dia, enquanto ele cavalgava, acabou se deparando com uma pequena bolsa caída em seu caminho. Incapaz de movê-la com a ponta de sua lança, Svyatogor desceu do seu corcel, e após um tremendo esforço, conseguiu elevar a bolsa até a altura de seus joelhos. Ao fazer isso, ele suou tão fortemente que seu suor tornou-se sangue. A bolsa continha o peso do mundo, e mesmo com toda força de Svyatogor, ele jamais conseguiria suspende-la totalmente do chão. Sua teimosia o impedia de soltar a bolsa, e o peso da mesma o fazia afundar na terra. Dessa forma, Svyatogor acabou sendo engolido pela terra.

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