Ilustração do livro Gassire's Lute: A West African Epic, de Alta Jablow
Gassire é o personagem central de uma narrativa ligada a Wagadu (nome tradicionalmente associado ao antigo Império de Gana nas tradições soninquês da África Ocidental) e apresentada pelo etnólogo Leo Frobenius como parte do que chamou de Dausi, um ciclo de cantos e narrativas sobre reis, guerreiros e acontecimentos do passado.
A versão conhecida foi recolhida por Frobenius no início do século XX e atribuída por ele às tradições relacionadas a Wagadu. A procedência e a organização desse material foram posteriormente questionadas por pesquisadores, e a narrativa de Gassire não foi documentada de forma independente entre os soninquês da mesma maneira que outros elementos dessas tradições. Por isso, o episódio deve ser entendido principalmente como a versão preservada e publicada por Frobenius, e não necessariamente como uma narrativa transmitida de forma uniforme entre as comunidades soninquês.
A ambição de Gassire
Na narrativa, Wagadu atravessava sua primeira fase, chamada Dierra. Seu governante era o idoso Ngaanamba Fasa, pai de Gassire. Embora também já tivesse idade avançada e fosse pai de oito filhos adultos, Gassire desejava receber o escudo e a espada do rei e assumir o governo depois de sua morte.
Impaciente com a longevidade do pai, Gassire procurava saber quando Ngaanamba morreria. Por fim, consultou Kiekorro, um velho sábio de Dierra. Kiekorro declarou que o rei morreria, mas que Gassire não herdaria seus símbolos de poder. Seu destino seria carregar um alaúde, e o caminho ligado ao instrumento também estaria relacionado à perda de Wagadu.
A perdiz e a permanência da canção
Gassire recusou inicialmente esse destino. Para demonstrar sua coragem, partiu sozinho contra os Burdama. Os adversários fugiram e abandonaram suas armas, mas a vitória não resolveu a inquietação do guerreiro. Algum tempo depois, Gassire ouviu uma perdiz cantando no campo. A ave narrava sua luta contra uma serpente e afirmava que o Dausi, a canção que preservava aquele acontecimento, continuaria existindo depois da morte de reis e guerreiros.
Gassire voltou a procurar Kiekorro e perguntou se também poderia criar uma canção que não fosse esquecida. O sábio explicou que seu caminho não seria o do rei, mas o do bardo, responsável por conservar na memória as batalhas e os feitos do passado.
O coração do alaúde
Gassire pediu então a um ferreiro que fabricasse o instrumento. Depois de trabalhar a madeira, o ferreiro explicou que o alaúde ainda não poderia cantar porque não possuía um coração. Segundo ele, o instrumento precisaria receber sofrimento e sangue da própria linhagem de Gassire, tornando-se ligado à sua vida, à de seus filhos e à de seu povo.
Gassire passou então a levar seus filhos aos combates. Seu filho mais velho morreu enquanto lutava ao seu lado, e seu sangue atingiu o instrumento. As batalhas continuaram e, ao todo, sete dos oito filhos de Gassire morreram sucessivamente.
O relato não apresenta essas mortes como parte de um ritual formal de sacrifício. Gassire, porém, havia sido advertido de que o alaúde precisaria receber o sangue de sua própria linhagem e, mesmo assim, continuou conduzindo os filhos às batalhas, relacionando suas mortes ao nascimento da canção que desejava deixar para o futuro.
O exílio de Gassire
A população de Dierra passou a condenar a conduta do guerreiro. Seus habitantes afirmaram que Gassire combatia sem necessidade ou limite e que, embora não desejassem uma vida sem honra, preferiam continuar vivos à busca desmedida pela fama.
Gassire acabou sendo expulso de Dierra. Partiu acompanhado do filho mais jovem, o único que permanecera vivo, além de suas mulheres, seus companheiros, seus dependentes e seus rebanhos. Durante a travessia do deserto, o alaúde finalmente começou a cantar o Dausi. Quando isso ocorreu, Ngaanamba morreu em Dierra, a cólera de Gassire desapareceu e ele chorou. Segundo a lógica mítica do relato, Wagadu desapareceu então pela primeira vez.
Na estrutura apresentada por Frobenius, essa é a primeira das quatro perdas de Wagadu e está associada à vaidade. O episódio marca também a transformação de Gassire de guerreiro e pretendente ao trono em bardo. A permanência que procurava não é alcançada pelo governo nem pelas vitórias militares, mas pela canção que conserva a memória dos acontecimentos. Essa transformação, porém, ocorre ao custo da morte de seus filhos, do rompimento com sua comunidade e do desaparecimento da primeira Wagadu.
JABLOW, Alta. “Gassire’s Lute: A Reconstruction of Soninke Bardic Art”. Research in African Literatures, v. 15, n. 4, 1984, p. 519–529;
CONRAD, David C.; FISHER, Humphrey J. “The Conquest That Never Was: Ghana and the Almoravids, 1076. II. The Local Oral Sources”. History in Africa, v. 10, 1983.
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