7 de setembro de 2026

Atalanta

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Arte de stevce lazarevski

Atalanta (grego antigo: Ἀταλάντη, Atalántē, "igual em peso") é uma heroína da mitologia grega, conhecida principalmente por suas habilidades como caçadora, arqueira, corredora e lutadora. Ligada sobretudo às tradições da Arcádia e da Beócia, aparece em diferentes ciclos míticos, especialmente na caçada ao Javali Calidônio e na história da corrida em que seus pretendentes disputavam sua mão em casamento.

As fontes antigas apresentam versões diferentes sobre sua origem. Segundo Pseudo-Apolodoro, Atalanta era filha de Íaso e Clímene, filha de Mínias. O mesmo autor registra, porém, outras genealogias: Hesíodo a considerava filha de Esqueneu, enquanto Eurípides a apresentava como filha de Mênalo. Essas divergências refletem diferentes tradições locais associadas à heroína.

Infância e vida como caçadora

Segundo Pseudo-Apolodoro, o pai de Atalanta desejava filhos homens e, por esse motivo, abandonou-a ainda bebê. Uma ursa encontrou-a e passou a amamentá-la até que caçadores encontraram a criança e a criaram entre eles. Já adulta, Atalanta decidiu permanecer virgem e passou a viver como caçadora nas regiões selvagens, sempre armada.

Sua ligação com Ártemis, deusa da caça e das regiões selvagens, é antiga. No Hino a Ártemis, Calímaco chama Atalanta de filha do arcadiano Íaso e afirma que a deusa admirava sua velocidade e lhe ensinara a caça com cães e o manejo do arco.  A atividade de caça e a decisão de permanecer virgem aproximam a heroína de características tradicionalmente associadas a Ártemis.

Pseudo-Apolodoro também relata que os centauros Reco e Hileu tentaram violentar Atalanta enquanto ela caçava nas regiões selvagens. A heroína reagiu e matou ambos com suas flechas. O episódio também era conhecido por Calímaco e aparece posteriormente em outras fontes antigas, como Eliano.

A caçada ao Javali Calidônio

O episódio mais conhecido de Atalanta é sua participação na caçada ao Javali Calidônio. A história do animal já aparece no Livro IX da Ilíada, embora Homero não mencione Atalanta entre os caçadores. Segundo o poema, Eneu, rei de Cálidon, deixou de oferecer a Ártemis as primícias da colheita, embora tivesse homenageado os demais deuses. Irritada, a deusa enviou um enorme javali que devastou os campos e pomares da região. Meleagro, filho de Eneu, reuniu caçadores e cães de várias cidades e matou o animal. Após a caçada, surgiu uma disputa entre os etólios e os curetes pela cabeça e pela pele do javali.

Meleagro oferece a cabeça do Javali Calidônio a Atalanta, por Giovanni Battista Crosato, c. 1747   

Em versões posteriores, Atalanta passa a integrar o grupo de caçadores e assume um papel central no episódio. Pseudo-Apolodoro menciona entre os participantes Teseu, Jasão, Castor e Pólux, Peleu, Telamon, Pirítoo, Anfiarau, Cefeu e Anceu, além de outros heróis. Cefeu, Anceu e alguns companheiros inicialmente se recusaram a participar da caçada ao lado de uma mulher, mas Meleagro os obrigou a aceitá-la. O mitógrafo acrescenta que Meleagro desejava ter um filho com Atalanta, apesar de já ser casado com Cleópatra, filha de Idas e Marpessa.

A caçada teve consequências fatais para alguns participantes. Segundo Pseudo-Apolodoro, o javali matou Hileu e Anceu, enquanto Peleu atingiu acidentalmente Eurítion com sua lança. Esse Hileu, participante da caçada, não deve ser confundido com o centauro de nome semelhante que, em outro episódio, tentou atacar Atalanta e foi morto por ela.

Atalanta foi a primeira a ferir o javali, acertando-lhe as costas com uma flecha. Anfiarau foi o segundo a atingi-lo, com uma flecha no olho, e Meleagro finalmente matou o animal com um golpe no flanco. Como prêmio pela morte do javali, Meleagro recebeu sua pele e decidiu entregá-la a Atalanta. Os filhos de Téstio, irmãos de Alteia, mãe de Meleagro, recusaram-se a aceitar que uma mulher recebesse o troféu. Alegaram também que, caso Meleagro abrisse mão do prêmio, a pele lhes pertenceria por direito de parentesco. Eles então tomaram o troféu de Atalanta. Enfurecido, Meleagro matou os filhos de Téstio e devolveu a pele à caçadora. Segundo uma das versões transmitidas por Pseudo-Apolodoro, Alteia, tomada pela dor após a morte dos irmãos, queimou uma madeira à qual a vida de Meleagro estava magicamente ligada, provocando sua morte. O mesmo autor registra outra tradição, próxima em alguns aspectos do relato homérico, na qual o conflito pela pele desencadeia uma guerra entre os calidônios e os curetes. Nessa versão, Meleagro acaba morrendo em combate.

Nas Metamorfoses, Ovídio desenvolve de maneira mais extensa a relação entre Atalanta e Meleagro. O herói se apaixona por ela assim que a vê entre os caçadores. Durante a caçada, Atalanta é novamente a primeira a ferir o javali, atingindo-o com uma flecha abaixo da orelha. Meleagro é o primeiro a perceber o sangue e chama a atenção dos demais para a façanha da caçadora. Depois de matar o animal, entrega a Atalanta sua pele e sua cabeça. Os filhos de Téstio, Plexipo e Toxeu, tomam-lhe os troféus, e Meleagro os mata em seguida.

Diodoro Sículo preserva uma variante diferente. Em seu relato, Meleagro é o primeiro a atingir o javali com sua lança e recebe, por decisão dos participantes, a pele do animal como prêmio de bravura. Apaixonado por Atalanta, ele abre mão tanto do troféu quanto da honra da vitória em favor dela. Os filhos de Téstio consideram a decisão uma afronta aos laços familiares e, quando Atalanta retorna à Arcádia, armam uma emboscada e tomam-lhe a pele. Meleagro, indignado com o tratamento dado à caçadora, mata-os.

Atalanta e Meleagro, arte de Ivan-Laio Ruíz - Díaz Dausà

Atalanta como atleta

Além de caçadora, Atalanta era conhecida por sua força e velocidade. Pseudo-Apolodoro afirma que ela participou dos jogos funerários realizados em homenagem a Pélias, rei de Iolco. Durante as competições, enfrentou Peleu, futuro pai de Aquiles, em uma luta e o derrotou. O episódio também foi representado na cerâmica grega antiga, mostrando que a imagem de Atalanta como lutadora não se restringia à literatura.

Sua fama como atleta aparece ainda no Livro X da República, de Platão. No chamado Mito de Er, as almas escolhem as vidas que terão em uma nova existência. A alma de Atalanta, atraída pelas honras associadas à vida de um atleta, escolhe essa condição para sua próxima vida.

A corrida e o casamento

A Corrida entre Hipómenes e Atalanta, por Noël Hallé, 1765, Museu do Louvre

As tradições antigas também apresentam diferentes versões sobre o casamento de Atalanta. Segundo Pseudo-Apolodoro, depois de reencontrar seus pais, Atalanta foi pressionada pelo pai a se casar. Para afastar os pretendentes, estabeleceu uma condição: eles deveriam enfrentá-la em uma corrida. O pretendente recebia uma vantagem inicial e partia antes dela. Atalanta o perseguia enquanto corria armada. Se o alcançasse, ele seria morto; se conseguisse chegar ao fim sem ser alcançado, receberia sua mão em casamento. Muitos pretendentes morreram antes que alguém conseguisse derrotá-la.

Na versão de Pseudo-Apolodoro, o vencedor é Melânion. Apaixonado por Atalanta, ele pediu ajuda a Afrodite, que lhe deu maçãs de ouro. Durante a corrida, Melânion lançava as frutas ao chão sempre que Atalanta se aproximava. A heroína parava para recolhê-las e acabou perdendo tempo suficiente para que ele vencesse. Outras tradições identificam o vencedor como Hipômenes. O próprio Pseudo-Apolodoro registra que Eurípides utilizava esse nome, que também aparece nas Metamorfoses de Ovídio.

Na versão ovidiana, Atalanta havia recebido de um oráculo uma advertência para evitar o casamento. Hipômenes inicialmente observa as corridas e não compreende por que tantos jovens estão dispostos a arriscar a vida por ela. Depois de vê-la, porém, decide participar também. Hipômenes pede auxílio a Afrodite e recebe três maçãs de ouro. Durante a corrida, Atalanta demonstra certa atração por ele e chega a reduzir sua velocidade em alguns momentos. Ainda assim, consegue alcançá-lo repetidamente. Hipômenes então lança as maçãs, fazendo com que ela se desvie para recolhê-las. Na última delas, a intervenção de Afrodite aumenta a vantagem do jovem e permite sua vitória.

A tradição da corrida também foi associada a lugares específicos. Pausânias afirma que, nas proximidades de Esqueno, na Arcádia, eram mostrados locais conhecidos como os “percursos de corrida de Atalanta”. A região era ligada a Esqueneu, considerado pai da heroína em algumas versões.

Arte de Arthur Le Normand


Transformação em leões

O destino de Atalanta e de seu marido também possui versões diferentes. Segundo Pseudo-Apolodoro, Atalanta e Melânion entraram durante uma caçada em um recinto sagrado de Zeus e mantiveram relações sexuais no local. Como punição pelo sacrilégio, foram transformados em leões.

Ovídio apresenta uma versão diferente. Depois de vencer a corrida graças à ajuda de Afrodite, Hipômenes deixa de agradecer à deusa. Ofendida, ela desperta no casal um desejo sexual enquanto os dois estão próximos de um santuário da Mãe dos Deuses, identificada com Reia ou Cibele. Após profanarem o local, ambos são transformados em leões. Essas versões pertencem a tradições diferentes e explicam por que as fontes variam tanto quanto ao nome do marido, à divindade ofendida e às circunstâncias da transformação.

Atalanta e Hipômenes transformados em leões (1732), pintura de Jean-Baptiste Oudry (1686-1755)

Partenopeu

Atalanta também é apresentada como mãe de Partenopeu, um dos guerreiros que participaram da expedição conhecida como os Sete contra Tebas. A identidade de seu pai varia conforme a fonte. Pseudo-Apolodoro afirma que Partenopeu seria filho de Melânion ou do deus Ares, enquanto outras tradições o apresentam como filho de Meleagro.

Em autores posteriores, especialmente na Tebaida de Estácio, a relação entre Atalanta e Partenopeu recebe maior desenvolvimento. O jovem é descrito como um guerreiro veloz, estabelecendo uma continuidade entre suas habilidades e a fama atlética da mãe.

Atalanta e os Argonautas

A participação de Atalanta na expedição dos Argonautas, liderada por Jasão em busca do Velocino de Ouro, também varia conforme a fonte. Pseudo-Apolodoro a inclui entre os participantes da viagem. Já Apolônio de Rodes, na Argonáutica, afirma que Atalanta desejava integrar a expedição, mas Jasão não permitiu que ela embarcasse, temendo que a presença de uma mulher entre tantos homens provocasse disputas.

Atalanta na Arcádia e em Tégea

A associação de Atalanta com a Arcádia não se limitava aos relatos literários. Pausânias registra tradições e objetos ligados à heroína e à Caçada Calidônia na cidade de Tégea. No Templo de Atena Alea, reconstruído no século IV a.C. segundo projeto do escultor e arquiteto Escopas de Paros, um dos frontões representava a Caçada ao Javali Calidônio. O animal ocupava a posição central, cercado por Atalanta, Meleagro, Teseu, Telamon, Peleu, Pólux, Anfiarau, Pirítoo e outros personagens.

O templo também conservava aquilo que os habitantes identificavam como a pele do javali calidônio. Quando Pausânias visitou o local, no século II d.C., afirmou que a pele ainda era exibida, embora estivesse deteriorada e já não conservasse os pelos. As presas do animal também teriam sido mantidas em Tégea. Segundo Pausânias, o imperador Augusto levou-as para Roma juntamente com uma antiga imagem de Atena Alea. Uma delas ainda era exibida nos jardins imperiais durante a época do escritor. A tradição é anterior a Pausânias. Calímaco já mencionava que os troféus da Caçada Calidônia haviam sido levados para a Arcádia e que as presas do javali eram conservadas na região.

Atalanta na arte

Atalanta aparece com frequência na arte grega antiga, principalmente em cenas relacionadas à caça e às competições atléticas. Uma de suas representações mais importantes encontra-se no Vaso François, grande cratera ática de figuras negras produzida por Ergótimo e pintada por Clítias no século VI a.C. Uma das faixas decorativas representa a Caçada ao Javali Calidônio, com vários participantes identificados por inscrições. Atalanta aparece entre os caçadores, mostrando que sua participação no episódio já estava estabelecida na iconografia do período arcaico.

Outra representação era encontrada na chamada Arca de Cípselo, obra descrita por Pausânias no santuário de Olímpia. Entre suas numerosas cenas mitológicas apareciam Melânion e Atalanta, esta segurando um jovem cervo. A luta entre Atalanta e Peleu nos jogos em homenagem a Pélias também foi representada na cerâmica grega. 


fontes:
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