8 de julho de 2026

Mawari e Woska

۞ ADM Sleipnir

Mawari e Woska (também registrados como Mawarye e Woxka) são personagens da tradição oral dos Hixkaryana, povo indígena falante de uma língua da família Karib que vive principalmente na região dos rios Nhamundá e Jatapu, entre os estados do Amazonas e do Pará. Suas histórias estão ligadas aos Kamarayana, grupo cujo nome é explicado como "povo-onça", a partir das palavras kamara ("onça") e yana ("povo").

Na cosmologia hixkaryana, muitos mitos se passam em um tempo primordial, quando humanos, animais, espíritos e plantas ainda não estavam separados em categorias rígidas. Seres de naturezas diferentes podiam conviver, transformar-se uns nos outros, casar entre si ou dar origem a novas formas de vida. É nesse mundo antigo que Mawari e Woska aparecem como antepassados ligados à origem dos Kamarayana, ao cultivo das plantas e à formação de certas práticas da vida coletiva.

Mawari é apresentado como um personagem de grande poder, capaz de transformar, consertar e organizar elementos do mundo. Por realizar ações que estavam além das capacidades comuns, em alguns contextos ele chegou a ser aproximado da figura de Deus. Nas narrativas hixkaryana, porém, sua atuação está menos ligada à criação de todo o universo e mais à ordenação de aspectos específicos da vida. Woska funciona como seu contraponto, associado à imitação, ao erro e à ação precipitada. Juntos, os dois ajudam a explicar por que o mundo contém formas semelhantes, mas desiguais, como plantas cultivadas e plantas do mato, seres completos e seres incompletos, ações bem realizadas e ações que se desviam de seu modelo.

O nascimento de Mawari e Woska

Em uma versão mais detalhada do mito, a história começa antes do nascimento dos dois personagens. Um casal de jabutis sai pela floresta em busca de frutos. A mulher-jabuti sobe em uma árvore para colher alimento, mas acaba cercada por outros animais. Depois disso, desce da árvore e procura pelo marido, que havia fugido. Durante a busca, a mulher-jabuti encontra uma trilha que a leva até a aldeia dos Kamarayana. Ali, é recebida por uma anciã Kamarayana, que a alerta sobre o perigo daquele lugar. Os Kamarayana eram considerados bravos e capazes de descobrir a presença de pessoas pelo cheiro. Para protegê-la, a anciã a esconde no alto da casa, em um jirau usado para guardar alimentos.

Quando os Kamarayana retornam da caça, percebem que há alguém escondido. A anciã nega, mas eles desconfiam. Primeiro, colocam um jacamim para dançar de modo engraçado, esperando que a mulher-jabuti ria ou faça algum ruído. Como isso não funciona, usam depois um tracajá de cheiro forte. A mulher-jabuti cospe por causa do mau cheiro, e os Kamarayana encontram o sinal de sua presença. A mulher-jabuti é então descoberta e morta. Dentro de seu corpo, os Kamarayana encontram vários ovos. Dois deles são entregues à anciã, que não os come. Em vez disso, ela os guarda em segredo. Em algumas versões, os ovos são escondidos debaixo de uma panela de barro; em outra variante, aparecem colocados sob uma porção de massa de mandioca. Depois de algum tempo, os ovos se quebram e deles nascem duas crianças: Mawari e Woska. A anciã passa a cuidar dos dois em segredo. Ela os alimenta e os alerta de que os Kamarayana foram os responsáveis pela morte de sua mãe. 

Em outra versão, os dois já aparecem como pequenas criaturas nascidas de ovos de jabuti. A anciã os protege e os esconde sob as folhas que cobrem o telhado de sua casa, em uma aldeia habitada por onças. Todas as manhãs, a pedido da anciã, as onças saem para caçar: a onça-pintada segue por uma trilha, enquanto a onça-vermelha toma outro caminho. A pintada volta cedo, trazendo sua caça; a vermelha retorna apenas ao entardecer. Ao entrar na aldeia, cada uma sente cheiro de gente e pergunta quem está escondido ali. A anciã sempre nega, dizendo que não há ninguém. Enquanto as onças estão fora, ela tira Mawari e Woska do esconderijo, coloca-os no chão e lhes dá alimento. Com o tempo, os dois crescem, perdem o medo das onças e passam a agir no mundo por conta própria.

Castanha, roça e aprendizado

Quando Mawari e Woska já estão maiores, a anciã pede que eles busquem castanhas como forma de retribuir o cuidado que teve ao criá-los. Na primeira vez, os dois trazem apenas uma pequena quantidade. Ela diz que deveriam trazer mais. No dia seguinte, eles voltam com uma porção maior. Em uma variante, a castanha trazida por Mawari e Woska parece pouca à primeira vista, mas se revela abundante quando é despejada em uma travessa de palha.

Depois, durante o verão, ela os orienta a abrir uma roça. O mito associa esse episódio ao aprendizado do tempo adequado para o trabalho agrícola. É a anciã quem ensina que a roça deve ser aberta na estação certa, e os dois passam a trabalhar para formar um bom roçado.

O contraste entre os dois personagens

Uma das marcas centrais do mito é a diferença entre Mawari e Woska. Mawari aparece como aquele que sabe fazer as coisas da maneira correta: planta, organiza, transforma e cria formas úteis. Woska o acompanha e tenta imitá-lo, mas suas ações costumam gerar formas menores, incompletas ou menos aproveitáveis.

Essa diferença aparece especialmente nas plantas. Mawari planta uma bacabeira; Woska planta uma bacabinha. Mawari planta uma castanheira; Woska faz surgir outra espécie, de menor valor. Mawari planta um buriti; Woska cria uma variedade inferior. Mawari planta uma bananeira; Woska produz uma banana do mato. Assim, o mito explica, por meio da oposição entre os dois personagens, a existência de formas cultivadas e formas silvestres, de coisas bem-acabadas e de coisas que se desviam do modelo original.

As companheiras de Mawari e Woska

Outro episódio narra como Mawari e Woska obtêm companheiras. Depois de encontrarem seus próprios órgãos masculinos na floresta, os dois decidem que precisam de esposas. Primeiro tentam se aproximar da ariranha, apresentada como a avó dos peixes. Ela, porém, indica que eles procurem suas netas: o aracu e a piranha. Mawari e Woska pescam os dois peixes, que se tornam suas companheiras. A ariranha avisa que, antes da relação, eles devem usar timbó, planta empregada para entorpecer peixes. Mawari segue a orientação e não sofre dano. Woska, impaciente, ignora o aviso e se aproxima de sua companheira antes do tempo. Como resultado, é ferido gravemente, tendo o seu órgão sexual decepado.

Mawari, que sabe consertar e organizar as coisas, resolve o problema usando uma semente de patauá. Depois disso, o timbó é aplicado também à companheira de Woska, e a situação se normaliza. A partir daí, Mawari e Woska passam a ter filhos. O episódio retoma a diferença entre os dois personagens: Mawari age com cuidado e conhecimento; Woska se precipita, erra e depende da intervenção do companheiro para reparar o dano.

Em outra versão, a diferença entre eles aparece na vida conjugal. A esposa de Woska começa a emagrecer porque ele não consegue alimentá-la adequadamente. Mawari troca de esposa com ele, mas o resultado se repete: a mulher que fica com Woska enfraquece, enquanto a que fica com Mawari melhora. A narrativa apresenta esse episódio como mais uma demonstração da capacidade de Mawari de fazer as coisas de modo eficaz.

A mandioca e o saber feminino

Outro episódio importante envolve a mandioca. No tempo em que Mawari ainda não tinha roça, ele buscava alimento na floresta. Havia ali uma árvore estranha, sem galhos e sem folhas, carregada de mandioca. Bastava chegar debaixo dela e sacudi-la para que os frutos caíssem do alto.

Quando a esposa de Mawari vai sozinha ao lugar indicado, não encontra nada. Mawari retorna sozinho, repete o gesto e traz a colheita para casa. A narrativa sugere que o conhecimento sobre a obtenção da mandioca não era imediato nem compartilhado de forma igual. A mulher precisou de tempo até desenvolver seu próprio modo de encontrá-la e coletá-la.

Descendência e separação

Com o passar do tempo, Mawari e Woska têm descendentes. Seus filhos também refletem a diferença entre os pais: os descendentes de Mawari aparecem ligados à capacidade de fazer, organizar e construir, enquanto os de Woska são associados à dificuldade, à imitação e à incompletude.

Quando a aldeia se torna cheia demais, Mawari e Woska decidem separar a terra. Mawari segue na direção do nascente, enquanto Woska parte para o lado do poente. Antes da separação, Mawari afirma que Woska poderia chamá-lo quando precisasse de ajuda, como alguém que sabe consertar aquilo que os outros não conseguem resolver.

Ao final da narrativa, os antepassados dos Kamarayana são apresentados como descendentes de Mawari. Criados em uma aldeia kamarayana, eles aprendem a cultivar plantas e abrir roças. Assim, o mito relaciona a origem do “povo-onça” não apenas a uma linhagem ancestral, mas também ao aprendizado de um modo de vida. A floresta, as onças, os jabutis, as plantas cultivadas e os ancestrais fazem parte dessa mesma memória, na qual os Kamarayana surgem como um povo formado em contato direto com outros seres da natureza.

fontes:

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