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3 de março de 2021

An (Anu)

۞ ADM Sleipnir


An (sumério para "céu", conhecido como Anu em acadiano; também identificado com o deus caananita El) é o deus supremo do céu na mitologia suméria, posteriormente incorporado às religiões da Assíria e da Babilônia. Seus pais eram os deuses Ansar ("luz") e Kisar ("horizonte), netos dos deuses Apsu Tiamat. Sua consorte é a deusa da terra Antu (também conhecida como Ki ou Uras). Ao lado de seus filhos Enlil Enki/Ea, An formava uma tríade que governava os céus, a terra e o submundo (em uma versão dos mitos) ou o céu, o ar e a terra (em outra versão).

An freqüentemente recebe o epíteto de "pai dos deuses", e muitas divindades são descritas como seus filhos em um contexto ou outro. Inscrições encontradas em seu templo em Lagash nomeiam An/Anu como o pai de GatumdugBaba Ningirsu. Em textos literários posteriores, Adad, Enki/Ea, Enlil, Gibil, Nanna/Sin, Nergal Sara também aparecem como seus filhos, enquanto deusas referidas como suas filhas incluem Inana/Isthar, Nanaya, Nidaba, Ninisinna, Ninkarrak, Ninmug, Ninnibru, Ninsumun, Nungal e Nusku

An não possuía uma forma física, sendo geralmente representado na iconografia simplesmente como uma coroa solitária ou sobre um trono, simbolizando seu status como Rei dos Deuses, uma honra e responsabilidade posteriormente conferidas a Enlil, Marduk (filho de Enki) e Ashur (deus dos assírios), todos os quais se acreditava terem sido elevados por An e abençoados por ele. Embora An não possua destaque em muitos mitos, ele é frequentemente mencionado como uma figura de fundo. Isso ocorria porque, à medida que a veneração ao deus progredia, ele se tornava cada vez mais remoto. Ainda que raramente seja um personagem principal em um mito, quando An aparece, ele desempenha um papel importante, mesmo quando esse papel parece menor.

Arte de Alba Aragón


Anu no Enuma Elish

O épico babilônico da criação Enuma Elish (aprox. 1100 a.C.) é a história do nascimento dos deuses e da formação do mundo e dos seres humanos. A princípio, haviam apenas as águas turbulentas do caos que se dividiam em um princípio masculino (Apsu, simbolizado pela água doce) e um princípio feminino (Tiamat, simbolizada pelas águas salgadas). Esses dois deram à luz Lahmu e Lahamu, divindades protetoras, e Ansar e Kisar, que geraram os deuses mais jovens. Esses jovens deuses tinham pouco para fazer e, portanto, divertiam-se de várias maneiras que irritavam Apsu; ele não conseguia dormir à noite devido ao barulho que faziam, e eles o distraiam durante o dia. Após conversar com seu vizir (conselheiro), Apsu decide que ele deveria matá-los.

Tiamat ouve a conversa do marido e avisa o filho (ou neto) Enki sobre o perigo. Depois de considerar suas opções cuidadosamente, Enki coloca Apsu em um sono profundo e o mata. Tiamat fica horrorizada e repudia os deuses mais jovens, reunindo rapidamente um exército de demônios e monstros para destruí-los. Os dois exércitos se chocam, travando sucessivas batalhas nas quais os deuses mais jovens são derrotados e recuam, vez após vez. An é enviado para falar com Tiamat e tentar resolver o problema diplomaticamente.

Os deuses pareciam ter total confiança na capacidade de An, mas ao encarar Tiamat, acabou sendo intimidado por ela e voltou até os outros deuses para relatar o fracasso de sua missão. O fracasso de An, no entanto, contribuiu para a vitória final dos deuses mais jovens. Os deuses estavam confiantes no sucesso de An e, quando sua esperança foi frustrada, eles perceberam que precisavam mudar de atitude; eles não poderiam mais manter o velho paradigma de como acreditavam que o mundo devia funcionar e deviam aceitar a mudança e encontrar uma nova maneira de atingir seu objetivo. 

É nesse ponto que Marduk, filho de Enki, dá um passo à frente para se oferecer como o campeão dos jovens deuses, em troca deles o elegerem seu rei. Marduk derrota Kingu, o campeão e o novo consorte de Tiamat, além de derrotar e matar a própria Tiamat, mas ele não teria sido escolhido se An não tivesse falhado na diplomacia. An, então, inaugura a mudança na percepção que permite a vitória final dos deuses. Uma vez que a paz foi estabelecida, Marduk e seu pai iniciaram os trabalhos da criação e o mundo e os seres humanos foram estabelecidos. 

Marduk derrotando Tiamat


Anu no Mito de Adapa

O mito de Adapa (datado do séc.14 a.C.) narra a história do primeiro homem criado por Enki e dotado da sabedoria do deus. Enki amava Adapa como um filho e lhe deu todos os dons possíveis, com exceção do dom da imortalidade, pois com isso Adapa se tornaria um deus. Adapa tinha sabedoria, mas essa sabedoria o informa que um dia ele iria morrer e ele não havia nada que ele pudesse fazer a respeito. 

Adapa se contenta em servir como rei da cidade sagrada de Eridu e como sumo sacerdote no templo de Enki na mesma. Todos os dias, Adapa comparecia aos ritos religiosos. Ele assava pão e colocava mesas votivas apresentadas como ofertas aos deuses. Adapa também era pescador, e saia todos os dias em seu barco com o objetivo de capturar peixes e ofertá-los no templo.

Certo dia, quando Adapa estava pescando em seu barco, o Vento Sul desceu sobre ele e o soprou em direção à costa, quebrando seu barco em pedaços e jogando-o no mar. Enfurecido, Adapa ataca e "quebra as asas do Vento Sul"  e por sete dias, o Vento Sul ficou impossibilitado de soprar nos campos.


Notícias sobre o ocorrido logo chegaram a An, que convoca Adapa para se explicar. Não haviam indícios de que An queria punir Adapa, mas Enki, parecendo temer a ira de An, dá ao filho instruções explícitas sobre como se comportar quando chegar aos céus.

Enki diz a ele como cumprimentar os guardiões dos portões do céu, Tammuz e Gishida, o que dizer a eles, e alerta Adapa para que este não coma ou beba qualquer coisa oferecida. Enki lhe diz que An está zangado, e que lhe oferecerá a comida e a água da morte junto com o óleo para unção e uma túnica nova; o óleo e o manto devem ser aceitos, mas não a comida e a bebida.

Quando Adapa chegou nos portões, ele cumprimentou Tammuz e Gishida conforme as instruções de Enki, e os dois ficaram impressionados com ele e o recomendam a An. Como o primeiro conselho de Enki obviamente se mostrou útil, Adapa seguiu o restante. An ouve a explicação de Adapa sobre sua briga com o vento sul e ordena que o alimento da vida e a água da vida sejam trazidos para que Adapa se torne imortal. An fez isso porque ficou impressionado com a sabedoria e a honestidade de Adapa e não conseguia entender por que Enki havia criado um ser assim e não desejava que ele vivesse para sempre. Quando Adapa recusa a comida e a bebida, An fica confuso e lhe pergunta por que ele se comportou dessa forma. Infelizmente, o segundo tablete contento a história está danificado no final e o terceiro tablete está quebrado, porém de acordo com os estudos feitos, ao que parece Adapa conta a Anu os conselhos que Enki havia lhe dado e An, com muita raiva, castiga Enki.

Parece claro que Enki sabia que An ofereceria a vida eterna a Adapa e o enganou de propósito para impedi-lo de obtê-la. Embora o texto esteja danificado no segundo tablete, há evidências de que essa oferta só podia ser feita uma vez e, como Adapa a recusou, ele não teria uma segunda chance. A história é semelhante à história bíblica da queda do homem em Gênesis. Embora não seja expresso diretamente no mito, o raciocínio de Enki parece semelhante ao de Yahweh, onde, após Adão e Eva serem amaldiçoados por terem comido o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, Yahweh os expulsa antes que eles também pudessem comer do fruto da Árvore da Vida:
Eis que o homem se tornou como um de nós, para conhecer o bem e o mal; e agora, para que ele não estenda a mão e tome também a árvore da vida, coma, e viva para sempre; Portanto, o Senhor Deus o enviou do jardim do Éden. (Gênesis 3: 22-23)
Enki entende que os seres humanos não poderiam ser como os deuses porque isso perturbaria a ordem natural. Adapa deveria permanecer mortal, deveria permanecer em seu lugar, para que a criação funcionasse como deveria.  Ao oferecer a imortalidade a Adapa, An estava perturbando a ordem natural, mas ele havia feito a oferta por causa de sua compaixão; An sentia que era um desperdício Enki ter tornado Adapa sábio o suficiente para reconhecer sua mortalidade, mas incapaz de fazer qualquer coisa para escapar da morte. Essa compaixão e compreensão são características de An, como foi visto no Enuma Elish quando ele tenta trazer a paz por meio de negociações diplomáticas, em vez da guerra contínua.


Na Epopéia de Gilgamesh

Na Epopéia de Gilgamesh, os deuses recorrem a An buscando criar um rival humano que se igualasse a Gilgamesh em força e pudesse por um fim a suas loucuras. Segundo uma versão do mito, An os autoriza a criar o selvagem Enkidu, para ensinar Gilgamesh que seu poder não é ilimitado e, finalmente, mostrar-lhe sua própria mortalidade. Em outra versão do mito, o próprio An é quem cria Enkidu.

Mais tarde, Gilgamesh recusava-se a ceder às investidas da deusa Inanna/Ishtar, que desejava tê-lo como seu consorte. Profundamente insultada, Inanna/Ishtar retorna aos céus e clama a An, para que ele enviasse Gugalanna, o "Touro do Céu", para matar Gilgamesh e também destruir a cidade de Uruk. An atende o seu pedido, e Gugalanna é enviado à Uruk, onde acaba sendo derrotado pelo herói.

Mitologia Hurrita

Na mitologia hurrita, An/Anu foi o progenitor de todos os deuses. Um de seus filhos, Kumarbi, destituiu An de seu posto, e enquanto An fugia dele, teve seus genitais mordidos. O ato fez com que três divindades nascessem, dentre as quais Teshub, mais tarde destituiria o próprio Kumarbi. Essa história é bastante semelhante a de Urano, Cronos e Zeus na mitologia grega.

Arte de Douglas Deri

O Deus Altíssimo

A benevolência de Anu impregnava os outros deuses conforme ele próprio se retirava cada vez mais alto para os céus. Ele era visto como o mestre criador por trás de todos os trabalhos do universo, mas se distanciava da humanidade e dos outros deuses. A única divindade que tinha acesso a ele era seu filho Enlil, que gradualmente assumiu as características e o poder de seu pai. Mesmo após Enlil ter se tornado mais popular, An continuou a ser venerado em todo o país. Na cidade de Uruk, onde Inanna era a divindade padroeira, An foi homenageado com um grande templo que operou entre 2000 a.C. e 150 a.C. e serviu como um observatório astronômico e uma biblioteca. 

Mesmo tendo sido cultuado cada vez menos diretamente, An ainda era considerado aquele por trás do poder dos deuses. Ofertas continuaram sendo levadas ao seu templo em Uruk por muito tempo, mesmo ele não estando mais associado à vida cotidiana do povo.

Quando o Império Assírio caiu em 612 a.C., muitos dos deuses mesopotâmicos associados ao seu domínio foram abandonados. Os assírios tomaram características de muitos deuses diferentes para os seus próprios (o melhor exemplo disso é seu grande deus Ashur), e aqueles que haviam sofrido nas mãos do governo assírio descontaram sua frustração e vingança nas cidades, templos e nas estátuas dos deuses. Entretanto, alguns deuses continuaram a ser reconhecidos, e Anu estava entre eles. A adoração de Anu continuou no período helenístico da história da Mesopotâmia  e, através de sua associação com Marduk, até c. 141 a.C., quando o Império Parto controlava a região.

Arte de Brolken


fontes:
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2 comentários:



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