16 de junho de 2026

Segsag

۞ ADM Sleipnir

Segsag (sumério: šeg-saĝ-6, "carneiro de seis cabeças") é uma criatura da mitologia suméria mencionada no poema O Retorno de Ninurta a Nippur. Descrito como um carneiro dotado de seis cabeças, ela figura entre os seres extraordinários associados às montanhas que aparecem na narrativa das façanhas do deus Ninurta.

No poema "O Retorno de Ninurta a Nippur", Segsag é citado duas vezes. Na primeira, ele aparece listado entre um grupo de  seres combatidos e derrotados por Ninurta durante sua campanha. Alguns dos demais citados na narrativa sãoo pássaro Anzu, a Serpente de Sete Cabeças (muš sag-imin), o Dragão Guerreiro (Ušum) e a "Sereia dos confins do céu e da terra" (Kuli-ana). Na segunda passagem, após a vitória do deus, os seres vencidos são exibidos como troféus de guerra. O Segsag ocupa uma posição de destaque entre os despojos, sendo pendurado na parte frontal da carruagem de Ninurta como símbolo de seu triunfo.

Fora essas breves menções, nada se sabe sobre a criatura, uma vez que não foram preservadas informações sobre sua origem, suas capacidades ou sua presença em outras tradições míticas.


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12 de março de 2026

Lugalirra & Meslamtaea

۞ ADM Sleipnir

Lugalirra (“poderoso senhor”, também Lugal-irra, Lugalira, Lugalgirra, Lugalerra) e Meslamtaea (“aquele que vem do Meslam”, também Meslamta-ea, Meslamtae, Mešlamtae) são duas divindades da antiga religião da Mesopotâmia ligadas ao submundo. Nos textos cuneiformes, seus nomes quase sempre aparecem juntos. Por isso, os estudiosos modernos costumam chamá-los de “Gêmeos Divinos”. Ambos são associados ao deus do submundo Nergal e, em tradições posteriores, passam a ser descritos como guardiões das entradas do mundo dos mortos.

Características e funções

Lugalirra e Meslamtaea são deuses ligados à morte, ao submundo e à proteção contra forças malignas. Em textos mágicos e rituais do primeiro milênio a.C., especialmente na série de encantamentos chamada Maqlû, eles aparecem como divindades guardiãs de grande poder. Esses textos dizem que eles podem “arrancar o coração e comprimir os rins”, uma forma simbólica de mostrar sua função de punir espíritos hostis ou pessoas que praticam feitiçaria.

Durante o período neoassírio, há evidências de que pequenas estatuetas desses deuses eram enterradas nas entradas das casas. Acreditava-se que essas figuras protegiam o local contra espíritos malignos e outras influências sobrenaturais perigosas. Alguns textos também indicam uma divisão simbólica entre os dois. Lugalirra seria associado ao lado direito, enquanto Meslamtaea estaria ligado ao lado esquerdo. 

Origem e relações divinas

Meslamtaea é a divindade mais antiga entre os dois nas fontes históricas. Ele já aparece no período Dinástico Inicial IIIa com o nome Lugalmeslama, que pode ser entendido como “Rei do Meslam”, uma referência ao templo Meslam. Com o tempo, Meslamtaea passou a ser associado ou identificado com Nergal, uma das principais divindades do submundo mesopotâmico. Lugalirra, por outro lado, só aparece de forma clara a partir do período paleobabilônico. Foi nessa época que os dois passaram a ser vistos como um par de deuses gêmeos.

Uma lista de deuses do período paleobabilônico, conhecida como lista de Genouillac, sugere possíveis companheiras para ambos. Nela, Lugalirra aparece ligado a uma divindade chamada Ku’annesi, enquanto Meslamtaea é associado a Ninshubur, conhecida como a mensageira da deusa Inanna ou do deus An. No entanto, não é possível afirmar com certeza se essas associações indicam casais divinos ou apenas uma proximidade na organização da lista.

Culto

Ao que tudo indica, Lugalirra e Meslamtaea eram originalmente divindades protetoras da cidade de Kisiga. Durante o período paleobabilônico, passaram também a ser ligados à cidade de Durum, perto de Uruk. Uma evidência dessa ligação aparece em uma carta atribuída a Ninshatapada, filha de Sin-kašid, rei de Uruk. Nessa carta, ela afirma ser sumo-sacerdotisa de Meslamtaea, o que indica que existia um culto organizado dedicado ao deus.

O culto de Meslamtaea também é registrado na cidade de Kutha, um importante centro religioso ligado ao deus Nergal. Essa presença provavelmente se deve à associação entre Meslamtaea e essa divindade do submundo.

Mesmo sem ocupar uma posição central no panteão mesopotâmico, ambos continuaram a ser mencionados em textos religiosos e mágicos por muitos séculos. Seus nomes ainda aparecem em obras eruditas e mágicas do período selêucida, mostrando que sua tradição permaneceu viva por bastante tempo.


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23 de outubro de 2025

Uridimmu

۞ ADM Sleipnir

Uridimmu (cuneiforme: 𒌨𒅂 UR.IDIM, "cachorro louco" ou "cão horrível", às vezes soletrado Urdimmu) é uma criatura pertencente à mitologia suméria, listado no épico Enuma Elish como um dos onze monstros gerados pela deusa primordial Tiamat para confrontar os deuses e vingar a morte de seu consorte Apsu. Posteriomente, Uridimmu e os demais monstros, além de Tiamat, acabam sendo derrotados pelo deus Marduk. Após sua derrota, a imagem de Uridimmu passou a ser usada como elemento apotropaico, esculpido em portas e enterrado nos alicerces de construções com o objetivo de afastar o mal.

A aparência de Uridimmu é descrita como oposta à de Ugallu, outro dos monstruosos filhos de Tiamat. Enquanto Ugallu possuía corpo humano e cabeça de leão, Uridimmu era representado com corpo de cão ou leão e uma cabeça humana. Em representações iconográficas, ele é mostrado em posição ereta, usando uma tiara com chifres e segurando um bastão encimado por um uskaru, ou crescente lunar.

Em artefatos mesopotâmicos posteriores, Uridimmu aparece frequentemente ao lado de Kusarikku ("Homem-Touro"), uma figura antropomórfica semelhante, ambos atuando como assistentes do deus solar Utu (ou Shamash). Uma escultura representando Uridimmu como figura guardiã foi encontrada em um portal do palácio norte do rei Assurbanípal, em Nínive.

Durante o período neobabilônico, Uridimmu foi particularmente venerado no templo Eanna, em Uruk, onde assumiu funções rituais e cultuais. Documentos indicam que sua adoração perdurou até o 29º ano do reinado de Dario I.

Na astronomia mesopotâmica, Uridimmu foi associado à constelação conhecida pelos gregos como Lobo (Lupus), sendo identificado pelos logogramas MUL-UR.IDIM ou dUR.IDIM.


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23 de setembro de 2025

Sumugan

۞ ADM Sleipnir


Sumugan (Šumugan, sumério: 𒀭𒄊, também grafado como Šamagan, Šumuqan ou Šakkan) foi uma divindade pastoril cultuada na antiga Mesopotâmia e na Síria. Deus dos rebanhos, da fertilidade dos campos e da vida nômade nas estepes, era associado especialmente a animais como jumentos, ovelhas selvagens e mulas. Era descrito como protetor dos campos e da vegetação, recebendo epítetos como “pastor de tudo”, “deus da lã”, “deus dos herbívoros” e “deus dos bebedouros”.

Sumugan tinha fortes vínculos com a prosperidade agrícola, aparecendo frequentemente ao lado de divindades como Ezina (deusa dos cereais) e Ninkasi (deusa da cerveja). Seu nome também podia ser usado de forma metafórica para designar um garanhão dominante. Acreditava-se que habitava as estepes, ambiente que o conectava simbolicamente ao mundo dos mortos — relação evidenciada em encantamentos e no poema A Morte de Gilgamesh. Seus atributos incluem um cajado com cabeça de carneiro, um velo ou manta de lã e o número sagrado 14, também relacionado a Nergal, deus do submundo.


Culto

O culto a Sumugan teve alcance limitado na Baixa Mesopotâmia, embora tenha sido venerado em cidades como Kish, Ur, Lagash e Fara. Durante a Idade do Ferro, foi adorado em Assur no templo Urmashtur (“curral dos leões e feras selvagens”), ao lado do deus Urmah. No oeste mesopotâmico, sob o nome Šamagan, foi amplamente cultuado em Ebla, onde recebia sacrifícios de supervisores de mulas e tinha como principal centro a cidade de ME.NE, no reino de Nagar. Também foi venerado em Nabada e aparece em nomes teofóricos de figuras políticas como Ilam-Šamagan (rei de Ibubu) e Iku-Šamagan (rei de Mari).

A ampla difusão de seu culto entre os povos da Síria levou o pesquisador Alfonso Archi a propor que Sumugan tenha se originado na região siro-mesopotâmica entre falantes de um proto-acádio, sendo mais tarde incorporado à religião do sul da Mesopotâmia. Na lista de deuses Anu ša amēli, Šamagan é equiparado a Šaršar, deus dos nômades Suteus, considerado uma manifestação regional de Sumugan.

Relações com outras divindades

Sumugan tinha como esposa a deusa da lã, Ellamesi, embora raramente fosse representado em contextos românticos, diferentemente de Dumuzi. Em algumas tradições, era considerado filho do deus solar Utu (Shamash), ou seu servidor. Seu deus-atendente era Edinmugi (“ele que assegura as planícies”), e aspectos seus podiam ser representados por outras divindades como Martu e Šaršar, segundo a lista de deuses Anu ša amēli.

Na Epopeia de Gilgamesh, o personagem Enkidu, ainda selvagem, é descrito como “vestido como Šakkan”, reforçando a imagem de Sumugan como divindade ligada à vida nas estepes e à existência nômade.

Equivalentes em outras culturas

Em fontes hititas, o logograma SUMUQAN (ou GÌR) é utilizado para representar o deus Miyatanzipa, sugerindo uma possível correspondência funcional entre Sumugan e divindades da Anatólia, talvez por meio de sincretismo religioso.



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13 de janeiro de 2025

Papsukkal

۞ ADM Sleipnir

Arte de FranXOo


Papsukkal (em escrita cuneiforme: 𒀭𒉽𒈛) era uma divindade mesopotâmica, atuando como vizir dos deuses Anu e Antu em Uruk durante o período selêucida. Antes disso, estava associado ao deus Zababa. Seu nome combina os termos sumérios pap ("irmão mais velho") e sukkal ("mensageiro"). Ele assumiu esse papel devido ao sincretismo com Ninshubur, consolidando-se como o mensageiro principal de Anu e uma das divindades centrais de Uruk.

Inicialmente, Papsukkal era vinculado a Zababa, o deus protetor da antiga cidade de Kish, e era descrito como seu filho. Em textos posteriores, tornou-se filho de Anu e, em alguns hinos, foi associado ao deus Enmesharra, sugerindo uma linhagem ancestral ligada ao panteão celeste. Ele também era identificado com a constelação de Órion, chamada Sipazianna pelos mesopotâmicos, e seu símbolo incluía um pássaro em movimento, associado ao francolim (ittidû). Em Uruk, durante o período selêucida, ele era o guardião do parakku (trono de Anu) e do portão principal do templo Bīt Rēš.

Papsukkal também tinha uma esposa chamada Amasagnudi, uma figura pouco documentada que pode ter sido uma divindade menor ou um epíteto de Ninshubur. Além disso, ele possuía cinco filhas, cujos nomes remetem simbolicamente a portais e entradas: Pappap, Hedu, Ninhedu, Ninkita e Mišaga.

Apesar de sua identidade distinta, Papsukkal foi sincretizado com outros mensageiros divinos além de Ninshubur, como Kakka e Ilabrat. Esse sincretismo, contudo, só foi plenamente consolidado no período selêucida, quando ele se tornou o vizir exclusivo de Anu e Antu, mas não de Ishtar, como Ninshubur. Ele assume o papel de Ninshubur em uma adaptação acadiana do mito da Descida de Inanna, mas, diferentemente de Ninshubur, ele não é diretamente designado como servo de Ishtar, sendo declarado no texto que ele serve "os grandes deuses" como um coletivo, sem vínculos exclusivos com a deusa.

Representações de Papsukkal, baseadas em figuras de terracota dos períodos neoassírio e neobabilônico, mostram um homem em pé, com barba, usando um chapéu com chifres e segurando um cajado longo. Essas figuras eram geralmente encontradas em templos de outras divindades, colocadas debaixo das estátuas sagradas, refletindo o papel do deus como assistente.

As primeiras menções ao culto de Papsukkal surgiram em Kish, onde ele possuía um templo chamado E-Akkil. Ele também era venerado na Babilônia, em Arbela, em Assur e em Bīt-Bēlti. Em Uruk, seu culto foi introduzido no período selêucida, com um festival em sua honra realizado no décimo sétimo dia do mês de Tašritu. Nomes teofóricos ligados a ele são raros, mas aparecem em períodos como o neobabilônico e o selêucida.



fontes:
  • Ancient Mesopotamian Gods and Goddesses - Papsukkal (god). Upenn.edu, 2019.
  • WIKIPEDIA CONTRIBUTORS. Papsukkal.
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9 de dezembro de 2024

A Epopéia de Gilgamesh - Tábua XII (FINAL)

 ۞ ADM Sleipnir

Arte de MarmaduX para o moba SMITE


TÁBUA XII

Descrição de uma árvore fabulosa, cujas raízes abrigam uma serpente, no topo uma águia e um demônio feminino (ou uma gaivota, segundo alguns comentaristas) dentro do tronco oco. Gilgamesh derruba a árvore, ordena que sua madeira seja usada para fazer um trono e uma cama para Inanna-Ishtar, e com as ramas e raízes, são fabricados dois instrumentos musicais de poder mágico. Devido a um erro no rito da cerimônia, esses dois instrumentos caem na Grande Morada das Sombras. A desesperação de Gilgamesh. Enkidu, ou seu espírito, se oferece para ir buscar os instrumentos perdidos e lhe diz o que deve fazer para não irritar os espíritos dos mortos. Gilgamesh desobedece, talvez para incitar os espíritos a saírem e, assim, reencontrar Enkidu. Por fim, Nergal, deus dos infernos, permite que o espírito de Enkidu suba à terra por uns instantes. Gilgamesh pede ao seu amigo que lhe revele qual é a lei do mundo subterrâneo. Enkidu concorda, e sua descrição é desconsoladora. Aqui termina o poema. 


(Texto sumério)

(Descreve seguramente a árvore que, após a criação do universo, cresceu às margens do Eufrates e foi arrancada pelo vento do sul. Inanna (Ishtar) tomou o tronco flutuante e o plantou em seu jardim de Uruk, com a intenção de usá-lo, com o tempo, como madeira para seu leito. Quando alguns seres hostis se opuseram ao plano de Inanna, Gilgamesh ajudou a deusa, que, agradecida, construiu com o tronco um pukku (tambor mágico) e com a copa um mikku (provavelmente as baquetas do instrumento).

A serpente "que nunca descansa" havia feito seu ninho entre as raízes;
o pássaro da tempestade havia colocado seu filhote na copa;
o demônio, Lilla, construiu sua casa...

(Lacuna)

Gilgamesh empunhou seu machado
e golpeou com ele a serpente "que nunca descansa";
o pássaro da tempestade, que aninhava-se na copa da árvore,
fugiu para a montanha com seu filhote.
Gilgamesh destruiu a casa de Lilla
e espalhou os escombros.
Derrubou a árvore pela raiz,
golpeou sua copa
e então o povo da cidade veio cortá-la.
Deu o tronco à brilhante Inanna,
para que com a madeira fosse feito um leito e uma cadeira,
e com as raízes construiu-se um pukku
e com a copa um mikku.

(Gilgamesh realiza alguns ritos mágicos com o pukku e o mikku. Ele traça um círculo em torno do pukku. Todos ficam em silêncio, exceto uma menina, que solta um grito, e então...)

O pukku e o mikku caíram na Grande Morada.
Gilgamesh estendeu a mão, mas não conseguiu alcançá-los;
colocou o pé, mas não conseguiu alcançá-los.
Diante do palácio dos deuses subterrâneos,
Gilgamesh se sentou e chorou, com o rosto pálido.
"Ó meu pukku! Ó meu mikku!
Meu pukku, cujo poder era irresistível!
Quem resgatará meu mikku do mundo subterrâneo?"

Enkidu, seu servo, lhe disse:
"Por que choras, meu senhor? Por que está triste o teu coração?
Hoje irei buscar teu pukku do mundo das sombras,
irei resgatar teu mikku..."


Coluna I

(Texto assírio)

(Um mago, ou o próprio Enkidu, dá conselhos a Gilgamesh sobre a conduta a seguir durante o luto, para não irritar os espíritos.)

“Não coloque uma vestimenta limpa, nem se unja com óleo,
porque os espíritos dos mortos, atraídos pelo cheiro,
se lançariam sobre você.
Não coloque seu arco no chão,
porque os espíritos daqueles que morreram pela arma
o cercariam;
não empunhe seu bastão,
porque os espíritos dos mortos o acorrentariam;
não calce suas sandálias,
para não fazer barulho ao andar.
Se ama sua esposa, não a beije;
se está furioso com ela, não a bata;
Se ama seu filho, não o beije;
se está furioso com ele, não o bata.
Porque o lamento do mundo das sombras o pegaria...
A morta que jaz,
a morta que jaz,
a mãe que jaz de Ninazu,
jamais cobrirá novamente seus ombros,
jamais cobrirá novamente seus seios em forma de redoma.”

Coluna II


Gilgamesh foi ao templo,
vestiu uma roupa limpa,
se ungiu com óleo puro
e os espíritos o cercaram.
Colocou seu arco no chão
e os espíritos daqueles que haviam morrido pela arma
o cercaram,
empunhou seu bastão,
calçou suas sandálias
e fez barulho ao andar.
Aproximou-se de sua esposa e a beijou;
enfureceu-se contra ela e a bateu;
cheio de ternura, beijou seu filho;
enfurecido contra ele, o bateu,
e o luto da terra o dominou.
A morta que jaz,
a morta que jaz,
a mãe que jaz de Ninazu,
jamais cobrirá novamente seus ombros,
jamais cobrirá novamente seus seios em forma de redoma.
Que Enkidu possa subir do mundo das sombras!
O destino não se apoderou dele,
nenhum espectro o prendeu,
a terra o pegou.
Não foi um súdito do inflexível Nergal quem o prendeu,
foi a terra quem o pegou.
Foi o pó do campo de batalha dos valentes que o mordeu,
foi a terra quem o pegou.
O filho de Ninsun lamenta Enkidu;
ele se dirige sozinho ao templo de Enlil e diz ao deus:
“Ó pai, ó Enlil, eis que o pukku e o mikku
caíram no mundo das sombras!"

Coluna III


Que Enkidu possa subir do mundo das sombras,
porque o destino não se apoderou dele,
nenhum espectro o prendeu,
a terra o pegou.
Não foi um súdito do inflexível deus Nergal que o prendeu,
foi a terra quem o pegou.
Ele não mordeu o pó no campo de batalha dos valentes,
foi a terra quem o pegou.”

Enlil, o pai, não respondeu;
ele foi sozinho até o deus Sin e disse:
“Ó pai, ó Sin, eis que o pukku e o mikku
caíram no mundo das sombras!
Que Enkidu possa subir do mundo das sombras,
porque o destino não se apoderou dele,
nenhum espectro o prendeu,
a terra o pegou!
Ele não mordeu o pó no campo de batalha dos valentes!”

O pai Sin não respondeu;
então ele foi sozinho até o deus Ea e disse:
“Ó pai, ó Ea, eis que o pukku e o mikku
caíram no mundo das sombras!
Que Enkidu possa subir do mundo das sombras,
porque o destino não se apoderou dele,
nenhum espectro o prendeu,
a terra o pegou!
Ele não mordeu o pó no campo de batalha dos valentes,
foi a terra quem o pegou!”

Ea, o pai, dirigiu-se ao esforçado herói Nergal:
“Agora abra a passagem que leva ao mundo das sombras,
e que o espírito de Enkidu retorne
para que possa conversar com seu irmão!”

O esforçado herói Nergal abriu a passagem
que leva ao mundo das sombras,
e o espírito de Enkidu, como um sopro, emergiu.
Enkidu e Gilgamesh começaram a conversar.


Coluna IV


—Diga-me, meu amigo, diga-me, meu amigo,
conte-me a lei do mundo subterrâneo que você conhece.
—Não, eu não lhe contarei, meu amigo, eu não lhe contarei;
se eu lhe dissesse a lei do mundo subterrâneo que conheço,
eu o veria sentar-se para chorar.
—Está bem. Quero sentar-me para chorar.
—Aquilo que você amou, aquilo que acariciou e agradava ao seu coração,
como uma roupa velha, agora está roído pelos vermes.
Aquilo que você amou, aquilo que acariciou e agradava ao seu coração,
agora está coberto de poeira.
Tudo isso está mergulhado na poeira,
tudo isso está mergulhado na poeira.

(Faltam o final da Coluna IV e a Coluna V)

—Aquele que morreu de… você o viu?
—Eu o vi; está deitado sobre o leito e bebe água fresca.
—Aquele que caiu na luta, você o viu?
—Eu o vi; seu pai e sua mãe seguram sua cabeça erguida,
e sua esposa o estreita em seus braços.
—Aquele cujo cadáver está abandonado na planície, você o viu?
—Eu o vi; seu espírito não encontra repouso no mundo das sombras.
—Aquele diante de cujo espírito ninguém presta culto, você o viu?
—Eu o vi; ele come os restos das panelas e as sobras
dos pratos jogados na rua…




FIM DA TÁBUA XII


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2 de dezembro de 2024

A Epopéia de Gilgamesh - Tábua XI

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TÁBUA XI

Desejoso, sem dúvida, de demonstrar a Gilgamesh a fragilidade humana, Ut-Napishtim recomenda ao herói que tente permanecer acordado durante seis dias e sete noites. Mas Gilgamesh adormece assim que se deita para descansar. Ut-Napishtim acorda Gilgamesh e o despede, mas, a pedido de sua esposa, que se compadece do homem, chama Gilgamesh novamente para lhe dizer que no fundo da água ele encontrará a planta da eterna juventude. Gilgamesh mergulha na correnteza e consegue pegar a planta, que mais tarde lhe é roubada por uma serpente enquanto ele se banha em uma fonte. Gilgamesh retorna a Uruk, com sua jornada inútil encerrada, e mostra a Ursanabi a muralha de sua cidade.
 


(Texto assírio)

Gilgamesh dirigiu-se ao distante Ut-Napishtim com estas palavras:
“Eu te admiro, Ut-Napishtim,
e em nada vejo diferença entre nós;
verdadeiramente, em nada te vejo distinto de mim:
tens um coração valente e disposto à luta
e repousas deitado de costas.
Como conseguiste apresentar-te diante da assembleia
dos deuses para pedir a imortalidade?”

Ut-Napishtim respondeu a Gilgamesh:
“Vou revelar-te, Gilgamesh, algo que permaneceu oculto,
um segredo dos deuses vou contar-te:
Shuruppak, uma cidade que conheces
e que se estende às margens do Eufrates,
era uma cidade antiga, como os seus deuses,
quando estes decidiram desencadear o dilúvio.
Lá estava Anu, o pai dos deuses,
o valente Enlil, seu conselheiro,
Ninurta, seu arauto,
Ennuge, o guardião dos canais de irrigação,
e também estava presente Ninigiku-Ea,
que, em nome dos deuses, disse à cabana de junco:
‘Cabana! Cabana! Parede! Parede!
Cabana, escuta! Parede, presta atenção!
Homem de Shuruppak, filho de Ubartutu,
derruba esta casa e constrói uma embarcação,
abandona as riquezas e busca a vida,
despreza toda propriedade e preserva a alma viva!
Reúne na embarcação a semente de toda coisa viva.
Que as dimensões da embarcação que irás construir
fiquem bem estabelecidas:
sua extensão deve ser igual à sua largura;
como ao Apsu, dá-lhe um teto.’
Eu compreendi e disse a Ea, meu senhor:
‘Será uma honra para mim, ó senhor!’”
executar o que ordenaste,
mas o que direi à cidade, ao povo, aos anciãos?’
Ea abriu a boca e me respondeu,
a mim, seu humilde servo:
‘Diga-lhes o seguinte:
Soube que Enlil é meu inimigo,
e, assim, não posso viver em nossa cidade
nem pisar no território de Enlil.
Portanto, irei para as águas profundas
para viver com meu senhor Ea.
Mas ele vos dará abundância:
as aves mais nobres, os peixes mais raros,
a terra com suas ricas colheitas.
Aquele que, ao crepúsculo, governa os cereais
vos enviará torrentes de trigo.’

(Lacuna)

Os pequenos encarregaram-se de transportar betume,
enquanto os mais velhos trouxeram tudo o que era necessário.
No quinto dia, ergui a estrutura,
cujo fundo tinha um acre de extensão.
Cada lado tinha dez dúzias de côvados de altura,
e a cobertura quadrada também media dez dúzias de côvados em cada lado.
Modelei os dois lados e os uni.
Dei à embarcação seis coberturas,
dividindo-a em sete partes.
Dividi sua planta em nove seções.
Examinei as estacas e preparei os suprimentos.
Derramei seis cargas de betume no forno
e também derramei três cargas de asfalto.
Os transportadores trouxeram três cargas de óleo em cestos,
além da carga consumida pelos calafateadores
e das duas que o barqueiro estocou.
Sacrifiquei bois para o povo
e degolei cordeiros todos os dias.Mosto, vinho tinto, óleo e vinho branco
forneci aos trabalhadores, assim como água do rio,
para que celebrassem o dia do Ano-Novo.
No sétimo dia, a embarcação estava concluída.
Seu lançamento na água foi muito difícil,
pois foi necessário retirar as pranchas de baixo e de cima,
até que dois terços da embarcação estivessem na água.

Tudo o que eu possuía foi carregado a bordo.
Tudo o que eu possuía de prata foi carregado a bordo.
Tudo o que eu possuía de ouro foi carregado a bordo.
Tudo o que eu possuía de criaturas vivas foi carregado a bordo.
Toda a minha família e parentes foram carregados a bordo.
Os animais do campo, as feras selvagens do campo
e todos os artesãos, ordenei que subissem a bordo.
Shamash havia marcado a hora para mim:
‘Quando aquele que governa o tempo noturno
desatar uma grande tempestade,
sobe a bordo e fecha a escotilha.’
Observei o estado do tempo
e vi que ameaçava uma tormenta.
Subi na embarcação e fechei a escotilha principal,
enquanto Puzur-Amurri, o barqueiro,
fechou as outras e assumiu o comando.


Quando despontou a aurora,
uma nuvem negra cobria o horizonte.
Dentro dela, Adad (1) trovejava,
enquanto Shallat e Hanish (2) iam à frente,
correndo como arautos por colinas e planícies.
Erragal (3) arrancava as estacas dos diques,
e Ninurta precipitava as águas.
Os anunnaki erguiam suas tochas,
iluminando o céu com chamas ardentes.
e incendiavam a terra com suas chamas.
Por causa de Adad, o terror alcançava os céus,
pois tudo o que antes era luz tornou-se escuridão.
A vasta terra era agitada como uma panela.
Durante um dia inteiro, a tempestade soprou do sul,
cada vez mais veloz, submergindo as montanhas,
atingindo a todos como uma batalha.
Ninguém podia ver seu companheiro,
nem do céu era possível reconhecer as pessoas.
Os deuses estavam aterrorizados com o dilúvio
e, tremendo, retornaram ao céu de Anu.
Os deuses, como cães amedrontados,
se agacharam junto à muralha.
Ishtar gritava como uma mulher em trabalho de parto;
a amante dos deuses, de voz doce, agora clamava:
‘Ai de mim! Os dias antigos transformaram-se em lama,
pois falei maldosamente na assembleia dos deuses.
Como pude falar maldosamente na assembleia dos deuses,
aconselhando a luta para a destruição do meu povo,
quando eu mesma dei à luz meu povo,
que é como pequenos peixes do mar?’
Os anunnaki choravam por ela,
os deuses, tomados de humildade, soluçavam sentados,
com os lábios apertados...
Durante seis dias e seis noites,
o vento do dilúvio soprou,
a tempestade do sul varreu a terra.
No sétimo dia,
a tormenta começou a diminuir,
como um exército em retirada na batalha.
O mar acalmou-se, a tempestade amainou,
e o dilúvio cessou. Observei o tempo: reinava a calma,
e a humanidade havia se transformado em lama.
A paisagem estava lisa como um teto.
Abri uma escotilha, e a luz caiu sobre meu rosto.
Inclinei-me, reverente, sentei-me e chorei.As lágrimas escorriam pelas minhas faces.
Busquei com o olhar a linha da costa
na vastidão das águas.Em cada uma das catorze regiões
surgia uma montanha.
A embarcação parou no monte Nisir.
O monte Nisir reteve firmemente a embarcação ,
não permitindo que ela se movesse.
Um dia, dois dias, o monte Nisir reteve firmemente a embarcação ,
não permitindo que ela se movesse.
Três dias, quatro dias, o monte Nisir  reteve firmemente a embarcação ,
não permitindo que ela se movesse.
Cinco dias, seis dias, o monte Nisir  reteve firmemente a embarcação ,
não permitindo que ela se movesse.
Quando chegou o sexto dia,
soltei uma pomba.
A pomba voou, mas retornou:
não encontrou onde pousar.
Então soltei uma andorinha.
A andorinha voou, mas retornou:
não encontrou lugar onde pousar.
Então soltei um corvo.
O corvo voou, viu que as águas haviam baixado,
andou, bicou, crocitou e não voltou.
Então fiz com que tudo saísse, para os quatro ventos.
Ofereci um sacrifício no topo da montanha,
preparei sete fogueiras para o incenso.
Na base delas, amontoei junco, cedro e mirto.
Os deuses perceberam o aroma
e vieram como uma nuvem de moscas,
cercando o sacrificador.
Quando a grande deusa Ishtar chegou,
ela fez tilintar suas ricas joias, obra de Anu, e disse:
"Ó deuses que estais aqui reunidos:
tão certo como nunca me esqueço deste colar de lápis-lazúli,
jamais esquecerei destes últimos dias!
Que os deuses participem do sacrifício,
mas que Enlil se mantenha afastado,
pois, impensadamente, desencadeou o dilúvio
e lançou meu povo à destruição."

Quando Enlil chegou
e viu a embarcação,
enfureceu-se contra os deuses do céu.
"Uma alma humana escapou?
Nenhum homem deveria ter sobrevivido à destruição!"
Ninurta abriu a boca e disse:
"Quem, além de Ea, pode elaborar planos?
Somente Ea sabe de tudo."
Ea abriu a boca e disse ao valente Enlil:
"Ó tu, herói, o mais sábio dos deuses!
Como pudeste, sem motivo, desatar o dilúvio?
Castiga o pecador por seu pecado
e o transgressor por sua transgressão!
Contudo, sê indulgente,
para que ele não seja exterminado;
sê paciente, para que não seja desarraigado.
Em vez de desatar o dilúvio,
teria sido melhor que um leão reduzisse a humanidade.
Em vez de desatar o dilúvio,
teria sido melhor que um lobo reduzisse a humanidade.
Em vez de desatar o dilúvio,
teria sido melhor que a fome reduzisse a humanidade.
Em vez de desatar o dilúvio,
teria sido melhor que a peste reduzisse a humanidade.
Não fui eu quem revelou o segredo dos grandes deuses.
Permiti que o sábio Ut-Napishtim tivesse um sonho
e nele penetrasse no segredo dos deuses.
Agora, reflete sobre o que deves fazer com ele."
Ao ouvir isso, Enlil subiu à embarcação,
onde me tomou pela mão;
depois tomou a mão de minha esposa
e fez com que ela se ajoelhasse ao meu lado.
Colocando-se entre nós, tocou nossas testas e nos abençoou:
"Até agora, Ut-Napishtim, foste apenas humano;
mas, a partir deste momento, tu e tua esposa sereis como deuses.
Ireis viver distantes, na foz dos rios!"
Após isso, levou-nos para longe,
para viver na foz dos rios.
Quanto a ti, quem reunirá os deuses
para que obtenhas a vida que procuras?
Vamos! Tenta dormir
por seis dias e seis noites."

Assim que Gilgamesh se agachou,
o sono o envolveu como um furacão.
Ut-Napishtim disse à sua esposa:
"Olha o homem forte que deseja a imortalidade:
o sono, como um vento furioso, o envolveu."
A esposa do distante Ut-Napishtim respondeu ao marido:
"Desperta esse homem para que acorde
e volte em segurança por seus passos.
Que atravesse novamente, de volta ao seu país,
o portal do mundo que cruzou."
Ut-Napishtim respondeu à sua esposa:
"A tristeza desse homem te comove.
Muito bem, prepara comida e deixa-a junto à sua cabeça."

E enquanto Gilgamesh dormia no terraço,
a esposa preparava a comida, dizendo ao marido:
“Primeiro, aqui está o monte de farinha,
que começo a amassar e espalhar;
agora é hora de borrifar;
já está branca a torta,
coloco-a no forno, já está assada, e, finalmente...”
Nesse momento, Ut-Napishtim despertou Gilgamesh,
que se dirigiu ao anfitrião com estas palavras:
“Uau! O sono me invadiu,
e, de repente, você me sacudiu para me despertar.”
Ut-Napishtim respondeu a Gilgamesh:
“Minha esposa estava enumerando o que fazia
enquanto preparava sua comida.
No momento em que disse: ‘finalmente...’, eu o acordei.”
Gilgamesh disse ao distante Ut-Napishtim:
“O que você está fazendo, Ut-Napishtim? Para onde devo ir?
Um demônio tomou conta do meu corpo;
a morte se hospeda no lugar onde durmo;
onde quer que eu vá, lá está a morte!”

Ut-Napishtim dirigiu-se então ao barqueiro Urshanabi:
“Volte pelo caminho de onde veio, Urshanabi,
e prepare para embarcar este homem que se debate na margem;
esse homem que você foi buscar, não estará com o corpo sujo
ou com uma pele de animal ocultando a beleza de seu corpo?
Vá com ele, Urshanabi, e leve-o até a fonte,
para que lave a sujeira de suas vestes
e as jogue no mar, permitindo que seu corpo seja admirado;
que a faixa que envolve sua cabeça seja trocada
e que sejam dadas novas vestes e um cinturão.
Até que ele retorne à sua cidade,
até que chegue ao fim de sua jornada,
que sua roupa não se desgaste, que permaneça sempre nova.”

Urshanabi conduziu Gilgamesh até a fonte,
onde ele lavou e limpou suas roupas,
jogou ao mar as peles com que estava coberto, o mar as levou,
e seu corpo pôde ser admirado.
A faixa de sua cabeça foi trocada,
e, além do cinturão, foi coberto com uma roupa que,
até o dia em que chegasse à sua cidade,
até o final de sua jornada,
não se desgastaria, permaneceria nova.
Gilgamesh e Urshanabi subiram à embarcação,
colocaram-na na água e começaram a navegar.
A esposa de Ut-Napishtim disse ao marido:
“Gilgamesh veio de muito longe, esforçou-se muito,
o que você lhe dará antes que ele retorne ao seu país?”

Enquanto isso, Gilgamesh, usando sua vara,
fez com que a embarcação se aproximasse da margem.
Ut-Napishtim se dirigiu a Gilgamesh e lhe disse:
“Ó Gilgamesh, você veio de longe, se esforçou muito!
O que te darei antes que retorne ao seu país?
Escute, Gilgamesh, vou te revelar um segredo…

(Lacuna)

No fundo da água, há uma planta semelhante ao licorice espinhoso,
que fura, como uma roseira, e machuca suas mãos;
se seus dedos a pegarem, você possuirá a imortalidade!”


Gilgamesh, após ouvir essas palavras,
amarrou pedras pesadas aos seus pés,
mergulhou até o fundo das águas
e arrancou a planta, embora ela tenha ferido sua mão;
depois cortou as cordas que amarravam as pedras aos seus pés
e retornou à margem.
Então Gilgamesh falou ao barqueiro:
“Urshanabi, essa é uma planta famosa;
graças a ela, o homem renova seu sopro de vida.
A levarei para Uruk, farei com que comam dela,
compartilharei com os outros.
Seu nome será: ‘o velho se torna jovem’.
Comerei da planta e voltarei aos tempos da minha juventude!”

Após vinte léguas, comeram um pouco;
trinta léguas depois, descansaram.
Então Gilgamesh encontrou uma fonte de água fria,
desceu até ela e se banhou.
Enquanto isso, uma serpente percebeu o cheiro da planta,
saiu de sua toca e a levou.
Ao perceber o que aconteceu,
Gilgamesh sentou-se e chorou;
as lágrimas corriam por suas bochechas.
Tomando a mão do barqueiro, disse:
“Para que, Urshanabi, me ferir os dedos?
Para que derramar o sangue do meu corpo?
Nenhum benefício eu obtive:
trabalhei para um réptil.
E agora o ladrão da planta está a vinte léguas daqui.
Quando ver a marca, prepararei minhas coisas e desembarcarei,
deixarei o barco na margem.”

Após vinte léguas, comeram um pouco;
trinta léguas depois, descansaram.
Quando chegaram à muralha de Uruk,
Gilgamesh disse a Urshanabi:
“Suba, Urshanabi, à muralha de Uruk
e, passeando, examine sua construção.
Não está construída de tijolos cozidos
e tem sete camadas de asfalto?
Um sar (4) de terra foi retirado da cidade,
outro sar vem dos jardins,
outro sar são destroços do templo de Ishtar;
total: três sars que amontoei
para terminar a muralha.”

FIM DA TÁBUA XI



Notas:
  1. Deus da tempestade
  2. Deus sumério do vento; sua parceira é Hanish, alento celestial.
  3. Deus sumério do submundo.
  4. "sar" é uma unidade de medida suméria utilizada para quantificar grandes volumes de terra ou outros materiais, geralmente relacionados à construção de muros ou obras de grande escala. Um sar correspondia a cerca de 3.600 metros cúbicos de material. 


TÁBUA XII EM BREVE


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25 de novembro de 2024

A Epopéia de Gilgamesh - Tábua X

 ۞ ADM Sleipnir

Arte de MarmaduX para o moba SMITE


TÁBUA X

Gilgamesh chega à morada da taberneira Siduri, próxima ao mar. Siduri aconselha Gilgamesh a abandonar suas lamentações e a entregar-se aos prazeres da vida. Gilgamesh pergunta a Siduri como pode alcançar a casa de Utnapishtim, seu ancestral, o único homem que conseguiu atingir a imortalidade. Gilgamesh embarca na embarcação de Ursanabi, o barqueiro de Utnapishtim. Eles atravessam as Águas da Morte. Ao encontrar Utnapishtim, este revela a Gilgamesh que a imortalidade não pertence ao domínio dos humanos.

 
Coluna I

(Texto Babilônico)

Shamash, apiedado, diz a Gilgamesh:
"Ó Gilgamesh! Por que vagueias de um lugar a outro?
A vida que persegues, não alcançarás."
Gilgamesh responde assim ao valente deus Shamash:
"Depois de buscar meu caminho na planície,
no coração da terra sem luz de astros,
onde me pareceu que minha marcha durava anos,
quero que meus olhos contemplem o sol
e que me inundem torrentes luminosas.
A escuridão recua quando tua luz brilha.
Que os mortos vejam os raios do sol!"

(Lacuna)


Coluna I


(Texto Assírio)

Siduri, a taberneira, vive perto do mar profundo.
Fizeram-lhe uma vasilha, um lagar de ouro.
Um teto a protege.
Gilgamesh corre em direção a Siduri;
está coberto com uma pele de fera;
embora seu corpo seja, em parte, divino,
a dor aperta-lhe as entranhas
e seu rosto é como o de alguém que vem de muito longe.
A taberneira, vendo-o aproximar-se, pergunta a si mesma:
"Aquele que se aproxima, não será um assassino?
Para onde ele está indo...?"

E Siduri tranca a porta;
sim, ela tranca a porta.
E ele, Gilgamesh, entende sua intenção,
ergue a cabeça e, dirigindo-se à mulher,
diz estas palavras:
"Taberneira, o que viste
que te fez trancar a porta?
Eu destruirei o batente..."

(Lacuna)

A taberneira diz a Gilgamesh:
"Por que tua força está esgotada e tua cabeça inclinada?
Por que teu coração está doente e teu rosto desfigurado?
Por que a dor corrói tuas entranhas?
Teu rosto se assemelha ao de um homem que retorna de uma longa jornada;
a desolação é visível em tua figura,
e vagueias pela planície."

Gilgamesh responde:
"Como minha força não estaria esgotada e minha cabeça inclinada,
meu coração doente e meu rosto desfigurado,
minhas entranhas corroídas pela dor,
e meu rosto semelhante ao de um homem que retorna de uma longa jornada;
como a desolação não estaria estampada em minha figura
e como não vagaria pela planície,
se meu amigo, meu querido amigo, com quem caminhei
por montes e vales,
Enkidu, meu jovem amigo,
com quem capturei o Touro Celestial
e matei Humbaba, que vivia na Floresta dos Cedros,
e exterminei os leões;"

Coluna II

"Enkidu, que me acompanhava em todos os perigos,
meu amigo mais amado,
partiu para o que é o destino dos humanos?
Dia e noite chorei por ele,
antes de colocá-lo em sua tumba.
Por sete dias e sete noites,
como um verme, jazeu com o rosto no chão,
e não recuperou a saúde.
Então, corri pela planície como um caçador.
E agora, taberneira, estando diante de ti,
não mais verei a morte que temo."

Siduri respondeu a Gilgamesh com estas palavras:

Coluna III


"Ó Gilgamesh! Por que vagueias de um lado para o outro?
Não alcançarás a vida que persegues.
Quando os deuses criaram os homens,
decretaram que estavam destinados a morrer
e guardaram a imortalidade em suas próprias mãos.
Quanto a ti, ó Gilgamesh, enche tua barriga;
festeja dia e noite;
que cada noite seja uma celebração para ti;
entrega-te ao prazer dia e noite;
veste roupas bordadas,
lava a cabeça e banha-te,
regozija-te ao ver teu filhinho agarrando-se a ti,
e alegra-te quando tua esposa te abraçar..."

Coluna II


(Texto Assírio)

Gilgamesh disse ainda a Siduri:
"E agora, taberneira, diga-me qual é o caminho que leva
a Utnapishtim.
Qual sinal me permitirá reconhecê-lo? Diga-me o sinal.
Se for possível, atravessarei o mar;
se for impossível, irei por terra."

A taberneira respondeu a Gilgamesh:
"Ó Gilgamesh, nunca existiu tal caminho,
e a ninguém foi dado, desde tempos antigos,
cruzar as águas do mar.
O grande Shamash as cruzou. Mas, além de Shamash,
quem poderia atravessar as águas salobras?
A travessia é difícil, e o caminho, penoso,
pois as águas da morte são profundas.
Que rota seguirias para superar as ondas?
Uma vez chegado às águas da morte, o que farias?
Ouça, Gilgamesh: Urshanabi é o barqueiro de Utnapishtim,
e ele está acompanhado por 'os de pedra'(1).
Agora, ele está no bosque colhendo urnu.
Que você encontre graça aos olhos dele;
se for possível, faça a travessia com ele;
se não for, retorne ao teu caminho."

Quando Gilgamesh ouviu isso,
brandiu o machado, sacou o punhal
e, como uma flecha, lançou-se contra 'os de pedra'.



(Lacuna de 15 versos)


Coluna IV

(Texto Babilônico)

Então, em sua fúria, Gilgamesh destruiu 'os de pedra'
e depois voltou o rosto para Urshanabi.
Urshanabi o olhou nos olhos,
e falou a Gilgamesh,
dizendo estas palavras:
"Me diga, qual é o seu nome?
Eu sou Urshanabi, o homem do distante Utnapishtim."

Gilgamesh respondeu a Urshanabi nestes termos:
"Meu nome é Gilgamesh,
e vim de Uruk, morada dos deuses.
Atravessei as montanhas
e percorri o longo caminho do sol.
Agora, Urshanabi, estando diante de ti,
revela-me a morada do distante Utnapishtim."

Urshanabi respondeu a Gilgamesh, dizendo:

(Lacuna)

Coluna III

(Texto Assírio)

"Por que tua força está exaurida e tua cabeça inclinada?
Por que teu coração está doente e teu rosto transtornado?
Por que a dor corrói tuas entranhas?
Teu rosto se assemelha ao de um homem que retorna de uma longa viagem;
a desolação está estampada em tua figura,
e tu vagueias pela planície."

O divino Gilgamesh respondeu:
"Como não estaria minha força exaurida e minha cabeça inclinada,
meu coração doente e meu rosto transtornado,
minhas entranhas corroídas pela dor,
e meu rosto semelhante ao de um homem que retorna de uma longa viagem?
Como não se leria a desolação em minha figura
e como não vagaria eu pela planície,
se meu amigo, meu querido amigo,
com quem percorri montes e vales,
com quem capturei o Touro Celeste
e matei Humbaba, que vivia na Floresta de Cedros,
e exterminei leões,
e que me acompanhava em todos os perigos,
chegou ao fim de seu destino?

Seis dias e seis noites o lamentei,
e depois o depositei em sua tumba.
E fiquei com medo; temi a morte
e fugi através dos campos.
As últimas palavras de meu amigo são um fardo que me oprime.
Quero ir para longe, pela planície, muito longe.
Não sei como silenciar, não sei como gritar!
Meu dileto amigo não é mais que lama.
Não me deitarei, como ele, para nunca mais me levantar?

E agora, Urshanabi, diga-me qual é o caminho que leva a Utnapishtim.
Qual sinal me fará reconhecê-lo? Diga-me o sinal.
Se for possível, atravessarei o mar;
se não for, irei por terra."

Urshanabi respondeu assim a Gilgamesh:
"Com tuas próprias mãos, ó Gilgamesh,
quebrastes 'os de pedra'.
Agora, ó Gilgamesh, empunha o machado que pende de teu lado,
vai até a floresta e corta varas de sessenta côvados cada,
alcatrão-as e afia-as, e depois traga-as para mim."

Após ouvir essas palavras,
Gilgamesh empunhou o machado, sacou o punhal
e dirigiu-se à floresta, onde cortou as varas,
alcatrão-as, afiou-as e depois as trouxe para Urshanabi.

Gilgamesh e Urshanabi embarcaram,
e durante um mês e quinze dias navegaram.
E ao final de mais três dias, Urshanabi olhou
e percebeu que haviam chegado às águas da morte.

Coluna IV

Urshanabi falou a Gilgamesh nestes termos:
"Chega-te aqui, Gilgamesh; pega em uma vara,
e que as águas da morte não toquem tuas mãos.
Pega uma segunda, uma terceira e uma quarta vara,
ó Gilgamesh!
Pega uma quinta, uma sexta e uma sétima vara,
ó Gilgamesh!
Pega uma oitava, uma nona e uma décima vara,
ó Gilgamesh!
Pega uma décima primeira e uma décima segunda vara,
ó Gilgamesh!"

Ao chegar à centésima vigésima, ele ficou sem varas,
então retirou sua vestimenta e a fixou no mastro,
que levantou com as mãos.

Ut-Napishtim observava o horizonte
e, enquanto falava consigo mesmo,
perguntava-se:
"Por que o barco está à deriva?
Por que alguém que não é parte da tripulação está nele?
O que chega aqui não é um homem!
Eu o observo: não, não é um homem!
Eu o observo: não, não é um homem!"

(Lacuna de 22 versos, onde provavelmente se narrava o desembarque de Gilgamesh.)



Coluna V


Gilgamesh falou assim a Ut-Napishtim:
"Eu disse: quero ir ver o distante e famoso Ut-Napishtim.
Percorri todas as terras,
atravessei montes escarpados,
cruzei todos os mares
e não encontrei nada que trouxesse felicidade.
Condenei-me à miséria, e meu corpo tornou-se um saco de dores.
Antes de chegar à morada da taberneira,
minhas vestes estavam em farrapos,
vivi com o pássaro kasu,
o leão, a pantera, o chacal, o cervo, as feras da planície,
e me alimentei com suas carnes e vesti suas peles".

Ut-Napishtim respondeu assim a Gilgamesh:

(Lacuna)

Coluna VI

"Acaso construímos casas para sempre
e para sempre selamos o que nos pertence?
Acaso os irmãos compartilham para sempre?
Acaso o ódio divide para sempre?
Acaso a cheia do rio dura para sempre?
Acaso o pássaro kulilu e o pássaro kirippu
voam para sempre no céu olhando para o sol?
Aqueles que dormem e os que estão mortos são iguais.
O nobre e o servo não diferem
quando cumprem seu destino.

Desde sempre, os anunnaki, os grandes deuses, se reúnem,
e a deusa Mammitu, criadora do destino, com eles fixa os destinos.
Os deuses decidem sobre nossa morte e nossa vida,
mas não revelam o dia de nossa morte."



FIM DA TÁBUA X



Notas:
  1. Estátuas mágicas de pedra que serviam para propiciar a viagem através das águas da morte.



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