2 de agosto de 2026

Filoctetes

Filoctetes é um herói da mitologia grega ligado às tradições sobre Héracles e à Guerra de Troia, conflito mítico entre os gregos e a cidade troiana. Reconhecido por sua habilidade como arqueiro e por possuir o arco e as flechas de Héracles, tornou-se célebre pela história de seu abandono na ilha de Lemnos após ser ferido por uma serpente e por seu posterior retorno à guerra, quando uma revelação indicou que sua presença, suas armas ou ambas seriam indispensáveis para a conquista de Troia.

O personagem aparece em poemas atribuídos a Homero, nas narrativas do antigo Ciclo Troiano e em obras de autores posteriores. A versão mais completa de sua história preservada até o presente encontra-se na tragédia Filoctetes, de Sófocles, apresentada em Atenas em 409 a.C. Nessa obra, sua trajetória reúne temas como sofrimento físico, isolamento, ressentimento, engano, compaixão e recuperação da confiança.

Nome, origem e primeiras referências

Em grego antigo, o nome do herói é escrito Φιλοκτήτης e transliterado como Philoktḗtēs. Em português, a grafia mais comum é Filoctetes, embora também sejam encontradas as formas Filóctetes e, com menor frequência, Filocteto. Em inglês e em textos de tradição latina, costuma aparecer como Philoctetes. Não existe uma tradução tradicional consensual para o nome. Na tradição mitológica, Filoctetes era filho de Peante, cujo nome também aparece como Poeas ou Poias em diferentes transliterações. Sua origem é geralmente associada à Tessália, região da Grécia.

Uma das referências mais antigas ao herói encontra-se na Ilíada. No catálogo das forças gregas reunidas para a Guerra de Troia, Filoctetes é apresentado como comandante dos guerreiros de Metone, Taumácia, Melibeia e Olizon, distribuídos em sete navios. O poema também ressalta sua habilidade excepcional com o arco. Apesar disso, Homero esclarece que ele não participava dos combates diante de Troia naquele momento. Antes da chegada do exército grego, Filoctetes havia sido abandonado na ilha de Lemnos após sofrer uma ferida provocada por uma serpente. A Ilíada acrescenta que os gregos voltariam a se lembrar dele mais tarde, antecipando sua importância para os acontecimentos finais da guerra.

Achille-Etna Michallon (1796-1822) - 'Paisagem com Filoctetes na ilha de Lemnos' - óleo sobre tela, Canberra - Galeria Nacional da Austrália

O arco de Héracles

Além de sua participação na Guerra de Troia, Filoctetes é lembrado por sua estreita ligação com Héracles, conhecido como Hércules na tradição romana. Segundo uma versão amplamente difundida do mito, Héracles desejava morrer sobre uma pira funerária erguida no monte Eta, depois de ser consumido pelo sofrimento causado pela túnica envenenada que vestia. Quando todos os presentes se recusaram a acender a fogueira, Filoctetes — ou, em algumas versões, seu pai Peante — aceitou realizar o pedido.

Como recompensa, Héracles entregou seu arco e suas flechas ao homem que o auxiliara. As tradições divergem sobre quem recebeu originalmente as armas: algumas afirmam que elas foram dadas diretamente a Filoctetes, enquanto outras relatam que Peante as herdou e posteriormente as transmitiu ao filho. Em todas as versões, porém, Filoctetes torna-se o legítimo possuidor do arco de Héracles e conquista grande reputação como arqueiro.

Em tradições relacionadas a Héracles, as flechas eram associadas ao veneno da Hidra de Lerna, criatura derrotada pelo herói. Entretanto, esse detalhe não aparece de forma consistente nas fontes antigas que mencionam Filoctetes, razão pela qual sua presença no mito varia conforme a tradição adotada.

A ferida e o abandono em Lemnos

Filoctetes participou da expedição grega organizada para atacar Troia. Durante a viagem, porém, foi ferido no pé pela picada de uma serpente. As circunstâncias desse episódio diferem conforme a fonte. Em alguns relatos, o ataque ocorreu na própria ilha de Lemnos. Em outros, aconteceu durante uma parada em um santuário ligado à figura de Crise. Há ainda uma tradição latina segundo a qual Juno, equivalente romana da deusa grega Hera, enviou a serpente como punição pela ajuda prestada a Hércules. Outras versões relacionam o ferimento à revelação do local onde Héracles havia morrido ou onde estavam seus restos mortais. Assim, não existe consenso entre as fontes antigas quanto à causa exata do ataque.

"Filoctetes sendo mordido pela serpente", por Gotthard Ringgli (séc. 17)

A ferida não cicatrizava e provocava dores intensas. Em relatos posteriores, ela também passou a produzir um odor considerado insuportável pelos demais guerreiros. Incapazes de suportar seu sofrimento e as dificuldades que ele causava durante a expedição, os chefes gregos decidiram abandoná-lo na ilha de Lemnos.

Na tragédia de Sófocles, Filoctetes vive sozinho em uma caverna durante anos, sobrevivendo principalmente da caça de aves com o arco herdado de Héracles. O abandono tornou-se o aspecto mais marcante de sua história. Isolado por muitos anos, o herói desenvolveu profundo ressentimento contra Odisseu e os demais chefes gregos que haviam permitido sua exclusão.

A necessidade de seu retorno

Após vários anos de guerra, os gregos receberam uma revelação segundo a qual Troia não poderia ser conquistada sem Filoctetes, sem as armas de Héracles ou sem a presença de ambos, dependendo da tradição considerada. A profecia transformou o herói abandonado em uma peça essencial para a vitória grega e levou os antigos companheiros a retornarem a Lemnos para convencê-lo a voltar ao conflito.

Asmus Jacob Carstens, Filoctetes apontando o arco de Hércules para Odisseu , 1790, Kupferstichkabinett, Berlim, Alemanha.

As fontes antigas, contudo, divergem quanto aos participantes dessa missão. No resumo preservado da Pequena Ilíada, poema perdido do Ciclo Troiano, Diomedes ocupa posição de destaque. No relato atribuído ao mitógrafo Pseudo-Apolodoro, a viagem é realizada por Odisseu e Diomedes. Já na tragédia Filoctetes, de Sófocles, Odisseu segue acompanhado de Neoptólemo, filho de Aquiles. Essa alteração permite ao dramaturgo desenvolver um conflito moral entre a estratégia enganosa de Odisseu e o senso de justiça do jovem guerreiro.

Também existem versões diferentes sobre a cura de Filoctetes. Segundo a Pequena Ilíada, ele foi tratado por Macaão, filho do deus da medicina Asclépio. Outras tradições atribuem a cura a Podalírio, irmão de Macaão, ou mencionam apenas, de forma geral, os filhos de Asclépio.

Recuperado da ferida, Filoctetes retornou aos combates finais da Guerra de Troia. De acordo com a Pequena Ilíada e outras fontes posteriores, foi ele quem matou Páris, príncipe troiano cuja relação com Helena desencadeou o conflito. Esse episódio não aparece na Ilíada, que encerra sua narrativa antes da morte de Aquiles, da morte de Páris e da destruição de Troia. A participação de Filoctetes nos acontecimentos finais pertence, portanto, ao Ciclo Troiano e a outras tradições posteriores.

Filoctetes na tragédia de Sófocles

Entre as versões preservadas da história, a tragédia Filoctetes, de Sófocles, oferece o relato mais completo e influente. A ação se passa inteiramente na ilha de Lemnos, onde Odisseu e Neoptólemo chegam com a missão de levar o arqueiro e suas armas para Troia. Convencido de que Filoctetes jamais ajudaria voluntariamente aqueles que o abandonaram, Odisseu elabora um plano baseado no engano. Ele ordena que Neoptólemo conquiste a confiança do herói fingindo também ter sido injustiçado pelos chefes gregos, especialmente pelo próprio Odisseu.

O estratagema funciona inicialmente. Acreditando na história do jovem, Filoctetes o recebe como aliado e, durante uma crise de dores provocada pela ferida, entrega-lhe seu arco para que o guarde temporariamente. Aos poucos, porém, Neoptólemo passa a sentir compaixão pelo sofrimento do homem abandonado e começa a questionar a legitimidade da missão.

O conflito central da tragédia vai além da disputa pelo arco de Héracles. Filoctetes precisa decidir se aceita retornar à guerra ao lado das mesmas pessoas que o condenaram ao isolamento durante tantos anos. Ao mesmo tempo, Neoptólemo enfrenta um dilema entre cumprir as ordens recebidas e agir de acordo com aquilo que considera moralmente correto. Incapaz de manter o engano, o jovem revela toda a verdade e devolve o arco ao seu legítimo dono. Mesmo assim, Filoctetes continua decidido a permanecer em Lemnos e se recusa a acompanhar os gregos.

Ulisses e Neoptólemo recebendo as flechas de Hércules de Filoctetes (François-Xavier Fabre, 1800, óleo sobre tela)


No desfecho da peça, Héracles aparece como uma figura divina (deus ex machina) e ordena que Filoctetes siga para Troia ao lado de Neoptólemo. O antigo companheiro assegura que o arqueiro será curado, conquistará grande glória na guerra e retornará à pátria coberto de honra. Essa intervenção pertence especificamente à solução dramática criada por Sófocles. Outras tradições narram o retorno de Filoctetes de maneiras diferentes e não incluem necessariamente a aparição do herói divinizado.

Importância cultural

Filoctetes ocupa uma posição particular entre os heróis da Guerra de Troia. Diferentemente de guerreiros como Aquiles, Ájax e Diomedes, sua principal narrativa não se concentra apenas em feitos militares, mas também no sofrimento causado pela doença, pelo abandono e pela perda de confiança. Sua história mostra como os mitos gregos eram modificados por diferentes autores. Homero menciona o herói ferido e sua ausência do campo de batalha. Os poemas do Ciclo Troiano desenvolvem seu retorno e sua participação na morte de Páris. Sófocles reorganiza personagens e acontecimentos para criar um drama sobre mentira, dever, lealdade e compaixão.

Ésquilo e Eurípides também escreveram tragédias sobre Filoctetes, mas essas obras não foram preservadas integralmente. Parte de seu conteúdo é conhecida por meio de fragmentos e comentários antigos, especialmente um discurso de Díon Crisóstomo que compara as versões dos três dramaturgos. Na crítica moderna, a tragédia de Sófocles é estudada por sua representação da dor, da exclusão social, da responsabilidade individual e dos conflitos entre interesse coletivo e consciência pessoal. 

Existem também indícios de tradições de culto heroico relacionadas a Filoctetes em algumas regiões do mundo grego. Esse aspecto, porém, é menos documentado do que sua presença na literatura e depende de estudos específicos sobre práticas religiosas locais.

Representações na arte antiga

Filoctetes também aparece em objetos da Antiguidade, especialmente vasos e moedas. Um lécito ático — pequeno recipiente usado para armazenar óleo — produzido por volta de 420 a.C. mostra Filoctetes sentado sob uma árvore, segurando o pé ferido e enfaixado. A peça pertence atualmente ao Metropolitan Museum of Art, em Nova York.

Moedas gregas preservadas pelo British Museum também apresentam cenas relacionadas ao mito. Em algumas imagens, o arqueiro aparece junto de uma serpente; em outras, é representado ajoelhado enquanto caça aves, atividade associada à sua sobrevivência em Lemnos.

Filoctetes em Lemnos. Lécito ático de figuras vermelhas e formato achatado. Foto: Marie-Lan Nguyen (2011). Metropolitan Museum of Art, CC BY 2.5, via Wikimedia Commons

fontes:
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