11 de maio de 2026

Kako-u'hthé, o Espírito do Ciclone

۞ ADM Sleipnir

Kako-u'hthé (comumente chamado de Cyclone Person, "Pessoa Ciclone") é um espírito associado a tempestades e tornados pertencente às tradições dos povos indígenas Shawnee e LenapeAlgumas fontes o descrevem como masculino, como outros espíritos do vento das culturas algonquianas, enquanto outras o tratam como feminino, aproximando-o da Mulher Redemoinho (Huupirikúsu) das tradições iroquesas. Porém, é possível que originalmente ele não fosse antropomorfizado e fosse de gênero neutro.

Os tornados são vistos por esses povos como a própria manifestação de Kako-u'hthé. Os filamentos escuros do redemoinho são descritos como seus longos cabelos em movimento. Apesar de seu enorme poder destrutivo, Kako-u'hthé não é considerado uma entidade maligna. Entre os Shawnee, em especial, ele costuma ser visto de forma positiva, como um espírito próximo e até protetor. Antigamente, acreditava-se que os Shawnee não precisavam temer os tornados, pois Kako-u'hthé jamais os atacaria intencionalmente. Ainda hoje, alguns Shawnee de Oklahoma afirmam que tornados nunca atingiram suas casas dentro da reserva.

O Caçador e a Pessoa Ciclone

Uma lenda Lenape registrada no livro Mythology of the Lenape: Guide and Texts (1995) relata que certa vez um caçador saiu para caçar acompanhado do filho, ainda jovem, mas já velho o bastante para cozinhar e cuidar dos cavalos durante a ausência do pai. Depois de montar o acampamento, o homem deixou o garoto sozinho enquanto seguia pela mata em busca de caça. Algum tempo depois, percebeu ao longe a formação de um tornado que parecia avançar na direção do acampamento. Alarmado, correu de volta, mas encontrou o local completamente vazio: tanto o menino quanto o acampamento haviam desaparecido sem deixar vestígios.

Determinando a recuperar o filho, o caçador passou a seguir o rastro deixado pelo redemoinho até finalmente alcançar a própria Pessoa Ciclone. A entidade surgiu em uma forma sobrenatural e inquietante: caminhava sobre as mãos, com os pés erguidos para o céu, enquanto seus longos cabelos escuros se arrastavam pelo chão. Tudo aquilo em que os fios se enrolavam — árvores, galhos e outros objetos — era arrancado e levado pela força do ciclone.

O homem então ameaçou matar a entidade caso seu filho não fosse devolvido. Diante disso, a Pessoa Ciclone propôs um acordo: devolveria o menino e restauraria o acampamento exatamente como estava, além de prometer que não voltaria a incomodar aquele povo, desde que fosse poupada. O caçador aceitou a proposta. Quando pai e filho retornaram, encontraram o acampamento intacto, novamente em seu devido lugar, como se jamais tivesse desaparecido.

fontes:


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8 de março de 2026

Aasivarluit

۞ ADM Sleipnir

Arte de Yosquin Gilbos

Aasivarluit (“aranha-do-oceano” no idioma inuíte) é uma criatura mítica da mitologia inuíte, descrita como um ser de aparência aracnídea e de tamanho colossal, habitante das águas costeiras do Ártico. Segundo as tradições, permaneceria submersa, confundindo-se com o fundo marinho ou com bancos de areia. Um de seus traços mais característicos seria a presença de olhos gigantescos visíveis através da água. A criatura era considerada extremamente perigosa para caiaqueiros, atacando-os de surpresa ao emergir repentinamente. Na ausência de presas humanas, acreditava-se que se alimentasse de grandes mamíferos marinhos, como focas e morsas.

Relato

O relato mais conhecido sobre o Aasivarluit, preservado em fontes etnográficas do século XIX, envolve um caiaqueiro que navegava próximo à costa de Nuuk, na Groenlândia, então chamada Godthåb. O homem teria avistado uma grande massa sob a água, o que lhe causou estranheza, pois conhecia bem a região e sabia não haver bancos de areia naquele local.

Ao recordar histórias transmitidas pelos mais velhos sobre uma aranha marinha gigante, concluiu que estava diante do Aasivarluit. Ao observar com mais atenção, teria distinguido um enorme olho sob a superfície. Graças à sua habilidade como caiaqueiro, conseguiu afastar-se rapidamente e escapar com vida. As tradições afirmam que um indivíduo menos experiente dificilmente teria sobrevivido ao encontro.

Arte do Aasivarluit presente no livro The hidden : a compendium of Arctic
 giants, dwarves, gnomes, trolls, faeries, and other fantastic beings from Inuit oral history

Interpretações

Pesquisadores sugerem que o mito do Aasivarluit pode ter funcionado como um conto de advertência, destinado a desencorajar a navegação imprudente ou o afastamento excessivo da costa. Embora narrativas sobre criaturas gigantes sejam relativamente comuns na cultura inuíte, o Aasivarluit se destaca por sua forma aracnídea, incomum em ambientes marinhos reais.

Apesar da existência de organismos popularmente chamados de “aranhas-do-mar”, estes pertencem à classe Pycnogonida e não são aranhas verdadeiras, o que reforça o caráter mítico e simbólico da criatura.


fontes:
  • HINRICH JOHANNES RINK. Tales and traditions of the Eskimo. London: C. Hurst, 1974.
  • CHRISTOPHER, N.; AUSTIN, M. The hidden : a compendium of Arctic giants, dwarves, gnomes, trolls, faeries, and other fantastic beings from Inuit oral history. Iqaluit, Nunavut: Inhabit Media Inc, 2014.



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28 de fevereiro de 2026

Apistotoke

 ۞ ADM Sleipnir


Apistotoke (também grafado como Apistotoki, Apisstotoki, A’pistotooki, entre outras variações; também conhecido como Ihtsipaitapiiyo’pa ou Ihtsipatapiyohpa, frequentemente traduzido como “Fonte da Vida” ou “Criador Sagrado”, e por vezes referido como o “Grande Espírito”) é o grande deus criador na cosmologia do povo Blackfoot, também conhecidos como Niitsitapi. Atualmente, a maior parte desse povo vive no território canadense, embora ainda existam comunidades nos Estados Unidos.

Apistotoke é concebido como um espírito divino sem forma física ou atributos humanos definidos. No folclore tradicional blackfoot, ele raramente é personificado, e não possui gênero — embora escritos modernos frequentemente o descrevam como masculino, essa atribuição não está presente nos relatos tradicionais em língua siksiká (blackfoot).

O nome Apistotoke significa literalmente “Nosso Criador” na língua siksiká. Seu outro nome amplamente utilizado, Ihtsipaitapiiyo’pa, pode ser traduzido como “Fonte da Vida”. O termo Apistotoke foi empregado como tradução da palavra “Deus” nas versões da Bíblia em língua blackfoot, e atualmente muitos membros do povo Blackfoot identificam seu Criador tradicional com o deus do cristianismo, refletindo um processo histórico de sincretismo religioso.

O mito de criação blackfoot

Segundo os mitos de criação do povo Blackfoot, Apistotoke criou a Terra e tudo o que nela existe. Ele disse à Terra, chamada Ksahkomitapi, que ela seria a mãe de toda a criação, e que todos os seres vivos dependeriam dela para existir.


Em seguida, Apistotoke criou o Sol, Natosi, e a Lua, geralmente chamada Kokomikis (havendo variações de grafia conforme o dialeto e a transcrição). Ao Sol, foi confiada a tarefa de fornecer luz e calor ao mundo. À Lua, foi atribuído o papel de governar a noite, juntamente com seus filhos, as estrelas (Kakatosiiks), que iluminariam o céu noturno.

Após concluir a criação, Apistotoke reuniu todos os seres para nomeá-los e aconselhá-los. Ele os instruiu a jamais esquecerem sua herança e a se lembrarem de que descendem das chamadas “Pessoas do Céu” (Spomi’tapiiks). Em algumas versões do mito, certos seres foram destinados a viver abaixo da terra, sendo chamados Stahtsitapiiks, enquanto outros foram designados para viver nas águas, recebendo o nome de Soyitapiiks.

Por fim, em algumas tradições, Apistotoke criou o primeiro homem, Napi, e a primeira mulher, Kipitaakii. Esses personagens tornaram-se importantes heróis culturais do povo Blackfoot. Em muitas narrativas, especialmente aquelas centradas em Napi, eles são responsáveis por grande parte da organização do mundo, da criação adicional dos seres humanos e pela transmissão de conhecimentos, costumes e valores à humanidade.

fontes:




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4 de janeiro de 2026

Nihniknoovi

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Nihniknoovi é uma criatura mítica do folclore indígena norte-americano, associada aos povos Kawaiisu Tübatulabal, da região da Grande Bacia (Great Basin), no sudoeste dos Estados Unidos. Ela é descrita como um ser monstruoso de aparência aviária, semelhante a um grande falcão ou outra ave de rapina de proporções descomunais.

Segundo a tradição oral, o Nihniknoovi possui garras enormes e poderosas, com as quais captura seres humanos. A criatura é frequentemente retratada como capaz de voar longas distâncias, carregando suas vítimas presas às garras até sua morada nas montanhas. Após matar suas vítimas, ele as transporta até um poço ou lago, onde lava o sangue dos corpos antes de devorá-los.


fontes:
  • ROSE, C. Giants, monsters, and dragons : an encyclopedia of folklore, legend, and myth. New York: Norton, 2001.
  • GILL, S. D.; SULLIVAN, I. F. Dictionary of Native American Mythology. [s.l.] ABC-CLIO, 1992.

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7 de dezembro de 2025

Haakapainiži

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Haakapainiži (ou Aatakapitsi entre os Chemehuevi; também chamado Hakapainije; Nikama, "Gigante; ou Taünara, “Gafanhoto”) é uma figura monstruosa do folclore indígena do sudoeste dos Estados Unidos, particularmente entre os povos Kawaiisu e Chemehuevi. Conhecido também como “o Gafanhoto”, é caracterizado como um ogro associado à violência, ao canibalismo e ao rapto de crianças. Embora seja tradicionalmente vinculado ao sul da Califórnia, sua morada é descrita como uma rocha situada em um lago no atual estado de Nevada.

Aspectos e formas

Segundo as narrativas, Haakapainiži é um ser metamórfico, capaz de assumir diferentes aparências. Sua forma mais recorrente é a de um enorme gafanhoto antropomórfico, que caminha apoiado em duas bengalas e carrega um cesto nas costas. As pernas, dotadas de espinhos cortantes, seriam tão longas que permitiriam ao monstro percorrer grandes distâncias — como as 20 milhas entre Inyokern e Onyx — em um único passo. Em outras versões, manifesta-se como um gigante humanoide, um velho aparentemente inofensivo ou um enxame de gafanhotos. Apesar de sua natureza predatória, Haakapainiži é descrito como um ser que canta enquanto caminha, ocultando suas intenções malévolas sob uma aparência enganosa.

Função mítica

Na tradição oral, Haakapainiži é classificado como um bogeyman (ou bicho-papão), utilizado pelos adultos como figura de advertência para controlar o comportamento das crianças. Costuma-se dizer que ele captura os pequenos e os coloca em seu cesto para devorá-los posteriormente.

Lendas

Os relatos tradicionais sobre Haakapainiži descrevem uma série de episódios que evidenciam sua natureza enganosa e predatória. Em uma das histórias mais conhecidas, o ogro encontra uma jovem menina e utiliza um ardil para capturá-la. Ele cospe muco na própria mão e, fingindo gentileza, oferece-lhe o que chama de “gordura”:

— Venha pegar esta gordura, netinha — teria dito.

Quando a criança se aproxima, ele a agarra e a lança dentro do cesto que carrega nas costas, levando-a até Nevada, onde a devora. Tentando repetir o mesmo truque com um menino, Haakapainiži é enganado: o garoto segura-se em um galho e consegue escapar, frustrando o monstro.

Em outro episódio, Haakapainiži passa a noite ao lado das Irmãs Codornas, que acreditam em suas palavras amáveis. O ogro assegura que dormirá acima delas e promete não se esticar durante o sono. As irmãs acordam ilesas ao amanhecer e, confiantes, comentam sobre a bondade do estranho visitante. No entanto, Haakapainiži subitamente estica suas longas pernas espinhosas e arranca-lhes os olhos, revelando sua verdadeira natureza.

Versões paralelas dessa narrativa aparecem entre os Chemehuevi, nas quais o personagem equivalente, Aatakapitsi, engana as Moças Verme-de-Tâmara-de-Iúca. Seu marido, Kwanantsitsi, o "Falcão-de-Cauda-Vermelha", devolve a visão das esposas e parte em busca de vingança. A perseguição, porém, revela a natureza ilusória do monstro: cada vez que Kwanantsitsi se aproxima, Aatakapitsi encolhe até transformar-se em um enxame de gafanhotos. Tomado de fúria, o herói os golpeia com um bastão até que todos estejam mortos; então, ao recuar, percebe o corpo gigantesco do inimigo, agora sem vida.

A morte definitiva de Haakapainiži é atribuída ao Rato, que o engana com astúcia. O pequeno animal aquece uma pedra de afiar flechas no fogo e, fingindo oferecer alimento, diz:

— Feche os olhos e abra a boca; vou te dar um dos meus filhos.

Quando o ogro obedece, o Rato lança a pedra incandescente em sua boca, queimando-lhe o interior e provocando sua destruição. De acordo com a tradição, a antiga morada do Rato e os restos petrificados de Haakapainiži ainda seriam visíveis nas proximidades de Inyokern, na Califórnia.

Arte de Baptiste Perez

fonte:

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17 de novembro de 2025

Palulukon

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Palulukon são uma classe de serpentes aquáticas sagradas na mitologia do povo Hopi, uma nação indígena do sudoeste dos Estados Unidos. Fortemente associadas à água, à fertilidade, à natureza e ao equilíbrio cósmico, essas entidades são consideradas forças espirituais primordiais e guardiãs do mundo natural.

De acordo com a cosmologia Hopi, a Terra repousa sobre duas Palulukon, que flutuam nas águas do oceano primordial. Quando essas serpentes são perturbadas — seja pelo desrespeito humano ou pelo cansaço — elas se movem, e esse movimento gera terremotos, secas, inundações ou tempestades, afetando diretamente o equilíbrio do mundo.

Na mitologia dos Zuni, povo vizinho dos Hopi, existem entidades semelhantes conhecidas como Koloowisi — também serpentes associadas às forças elementares e à fertilidade da terra. Ambas compartilham papéis espirituais semelhantes e são reverenciadas em cerimônias e rituais tradicionais.

fontes:


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10 de novembro de 2025

Mulher Aranha

۞ ADM Sleipnir

A Mulher Aranha (conhecida entre os Hopi como Kokyangwuti ou Gogyeng Sowuhti, entre os Navajo (Diné) como Na’ashjé’ii Asdzáá, entre os Ojibwe como Asibikaashi, e referida em diversas outras tradições como Avó Aranha, Velha Aranha ou Anciã Aranha) é uma figura mitológica central e multifacetada presente em várias tradições nativas da América do Norte. Embora sua imagem varie conforme o povo e o território, ela é amplamente reconhecida como uma divindade criadora, protetora, guia espiritual, guardiã do conhecimento e tecelã do destino.

Apesar da diversidade de papéis e atributos, a Mulher Aranha costuma estar associada a temas como a criação do mundo, a transmissão do saber, a mediação entre planos espirituais e físicos, e a preservação do equilíbrio cósmico. Suas histórias vão desde a formação da vida até a invenção da cerâmica, do fogo e das artes — mas em certas culturas, ela também assume formas mais sombrias, atuando como provadora ou devoradora.

Na cosmologia dos Diné (Navajo), a Mulher Aranha é uma figura sagrada que ensinou a Primeira Mulher a tecer, introduzindo os humanos à arte da tecelagem, considerada uma expressão de harmonia e beleza espiritual (hózhǫ́). Ela também orienta os heróis e ajuda a preservar o equilíbrio do mundo natural.

Arte de itzamahel

Na Tradição Navajo (Diné)

Na cosmologia dos Diné, Na’ashjé’ii Asdzáá é uma entidade sagrada que introduziu a Primeira Mulher à arte da tecelagem. Essa prática, para os Navajo, não é apenas artesanal, mas uma expressão da harmonia universal (hózhǫ́), que conecta os seres humanos ao tecido do mundo espiritual. A Mulher Aranha também guia os heróis culturais e auxilia na manutenção do equilíbrio entre os reinos naturais e sobrenaturais.

Arte de Brett Melograno

Na Tradição Zuni

Entre os Zuni, a Avó Aranha atua como aliada mágica dos gêmeos guerreiros Ahayuta e Matsilema, ajudando-os a derrotar o Monstro Devorador de Nuvens (Lo Ikwithltchunona), uma entidade que ameaçava a humanidade ao engolir as chuvas e secar a terra. Sua ajuda foi essencial para restaurar o ciclo das águas e garantir a continuidade da agricultura e da vida.

Na Tradição Acoma

No mito de criação dos Acoma, a Mulher Aranha concede sementes sagradas às irmãs primordiais Iatiku e suas companheiras. Essas sementes germinam e se tornam as primeiras plantas do mundo novo, representando a transição do caos primordial para a fertilidade e a ordem do mundo cultivável.

Na Tradição Cherokee e Choctaw

Para os Cherokee e os Choctaw, a Avó Aranha é uma heroína cultural e portadora da luz. No início dos tempos, quando o mundo era envolto em trevas, ela se aventurou até os povos do leste, que possuíam o fogo. Por ser pequena e discreta, conseguiu roubar uma centelha, escondida dentro de um pote de barro transportado em sua teia. Assim, trouxe o fogo para a humanidade, ensinando como usá-lo com sabedoria e segurança. Em algumas versões, ela não rouba o fogo, mas o próprio Sol. Além disso, ela ensinou os humanos a fazer cerâmica, dotando-os de ferramentas fundamentais para o sustento e a cultura.

Na Tradição Hopi

Entre os Hopi, Kokyangwuti ocupa um dos papéis mais abrangentes e sagrados: o de criadora do mundo. Durante a emergência e migração dos povos para o mundo atual, é ela quem molda todos os seres vivos — incluindo os humanos — a partir da argila, soprando a vida sobre eles. Como a grande tecelã da existência, ela conecta os mundos visível e invisível através de fios espirituais, sendo a responsável por manter a ordem e o fluxo da vida.

Na Tradição Pawnee

Em contraste com suas representações mais benevolentes, a tradição Pawnee apresenta uma versão sombria da Mulher Aranha. Nesse mito, ela vive isolada com suas filhas, cultivando uma horta de milho, feijão e abóbora. Viajantes que buscavam suas sementes eram desafiados a participar de um jogo de dados — que era, na verdade, uma armadilha mortal. Durante o jogo, ela conjurava tempestades que congelavam os visitantes, pendurando depois seus crânios nas paredes de sua cabana.

Dois meninos sagrados, dotados de poder espiritual, foram enviados para pôr fim a esses horrores. Após resistirem aos alimentos envenenados — como cérebros, olhos e orelhas humanas disfarçados de comida — e aos feitiços da Mulher Aranha, eles desafiaram a entidade a dançar ao som de seus cânticos. Ao final do ritual, um enxame de gafanhotos, convocado por um canto mágico, a ergueu até o céu e a abandonou na Lua. Diz-se que até hoje sua veste pode ser vista na superfície lunar. Os gafanhotos que enxameiam no verão seriam os descendentes dessa batalha celestial.


fontes:
  • Spider Woman. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Spider_Grandmother>.
  • PATRICIA ANN LYNCH; ROBERTS, J. Native American mythology A to Z. New York, Ny: Chelsea House Publishers, 2010.
  • BASTIAN, D. E.; MITCHELL, J. K. Handbook of Native American mythology. Oxford ; New York: Oxford University Press, 2008.

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26 de outubro de 2025

Baxbakwalanuxsiwae

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Baxbakwalanuxsiwae é uma figura central do folclore dos povos Kwakiutl (auto denominados Kwakwaka'wakw), nativos da costa noroeste da América do Norte. Considerado o mais poderoso e aterrorizante dos seres de sua mitologia, ele é conhecido principalmente por sua associação com o ritual Hamatsa, também chamado de “cerimônia do canibal”.

Etimologia 

O nome Baxbakwalanuxsiwae possui várias traduções. Entre as mais comuns estão “Canibal-do-Extremo-Norte-do-Mundo” e “Aquele-que-Primeiro-Comeu-Homens-na-Foz-do-Rio”. Uma tradução mais simbólica, eufemística, é “Manifestação-Cada-Vez-Mais-Perfeita-da-Essência-da-Humanidade”. Em termos gerais, ele é frequentemente descrito como “Devorador de Homens”, uma síntese de sua natureza canibal e predatória.

Arte de @itsnoel_notnoel

Iconografia

Baxbakwalanuxsiwae é retratado como uma criatura antropomórfica ou de aparência semelhante a um urso. Seu corpo inteiro é coberto por bocas sangrentas e dentadas, que se abrem e fecham constantemente. Seu grito característico é “hap, hap, hap”, interpretado como “comer, comer, comer”. Sua morada é descrita como uma casa revestida de casca de cedro vermelho, da qual emana uma fumaça cor de sangue.

Acompanhantes

Baxbakwalanuxsiwae é servido e protegido por diversas entidades monstruosas, consideradas extensões de si mesmo, seus “olhos e ouvidos”. Entre elas estão:

  • Qominaga, sua esposa, vestida com cascas de cedro vermelho e branco;
  • Kinqalalala, seu escravo, responsável por trazer-lhe vítimas humanas;
  • Qoaxqoaxualanuxsiwae, o “Corvo-do-Extremo-Norte-do-Mundo”, que arranca os olhos das vítimas;
  • Hoxhogwaxtewae, o “Hoxhok-do-Céu”, uma garça gigante que quebra crânios com o bico e devora cérebros;
  • Gelogudzayae, o “Bico-Torto-do-Céu”;
  • Nenstalit, o “Urso-Pardo-da-Porta”, guardião de sua morada.
Arte de @keegancurrier


O nascimento dos mosquitos

De acordo com um antigo relato Kwakiutl, um sábio xamã certa vez encontrou Baxbakwalanuxsiwae enquanto caçava nas montanhas. Capturado por Qominaga, esposa do terrível canibal, ela gritou chamando seu marido: “Venha devorá-lo!”. O xamã, porém, conseguiu escapar de seu aperto, perdendo todo o cabelo durante a fuga. Baxbakwalanuxsiwae o perseguiu por florestas sombrias e cavernas profundas, até que o homem o enganou, atraindo o casal para uma armadilha em forma de fossa. Quando ambos caíram, o xamã ateou fogo, incinerando-os por completo. Em seguida, soprou sobre as cinzas, das quais surgiram os mosquitos — interpretados pelos anciãos como descendentes do sangue dos canibais.

O Hamatsa

A cerimônia Hamatsa é o principal ritual associado a Baxbakwalanuxsiwae. Durante a celebração, o espírito do canibal possui o iniciado, levando-o a um estado de frenesi no qual ele morde, rasga e grita “hap, hap, hap”. O iniciado é então exorcizado e domado simbolicamente, tornando-se membro pleno da sociedade Hamatsa. Nas apresentações, Baxbakwalanuxsiwae e seus acompanhantes são representados por máscaras ricamente entalhadas e pinturas corporais elaboradas, consideradas uma das expressões artísticas mais complexas da cultura Kwakiutl.


fonte:

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28 de julho de 2025

Deus Negro (Haashch'ééshzhiní)

۞ ADM Sleipnir

Arte de Melvin Bainbridge

Na mitologia Navajo, o Deus Negro (Haashch’ééshzhiní) é uma divindade associada ao fogo e ao firmamento, sendo tradicionalmente reconhecido como o criador das constelações e o inventor da broca de fogo. Ele é considerado uma das quatro figuras sagradas que participaram da organização do mundo, juntamente com o Primeiro Homem (Áłtsé Hastiin), a Primeira Mulher (Áłtsé Asdzą́ą́) e a Mulher Sal (Ashiih Estsan).

Representações e características

O Deus Negro é geralmente descrito como uma figura anciã, de aparência frágil, lenta e aparentemente indefesa. Em alguns mitos, assume também um aspecto de trickster — um trapaceiro mal-humorado que finge pobreza para despertar a generosidade dos outros. Essa representação contrasta com a imagem heroica frequentemente associada a outras divindades indígenas.

Ele é tradicionalmente representado com uma máscara de camurça enegrecida com carvão sagrado e decorada com símbolos celestes em tinta branca — uma lua cheia sobre a boca, uma lua crescente na testa e as Plêiades na têmpora esquerda. Essa aparência é especialmente evocada em cerimônias como a Nightway (Caminho Noturno), uma complexa celebração de cura realizada durante nove dias no inverno. No último dia do ritual, um homem aparece representando o Deus Negro, portando uma broca de fogo e casca de cedro atingido por um raio, com a qual acende diversas fogueiras cerimoniais.

Arte de Luxudus

Papel na criação do mundo e das estrelas

No mito da criação Navajo, após a emergência do povo de mundos anteriores, quatro entidades sagradas — o Primeiro Homem, a Primeira Mulher, a Mulher Sal e o Deus Negro — reuniram-se para planejar e estabelecer as condições de existência no mundo atual. Essa reunião marcou o início da ordenação do universo físico e espiritual, incluindo a organização da terra, dos seres vivos e dos elementos celestes.

Entre essas figuras, o Deus Negro destacou-se por sua íntima associação com o fogo e os corpos celestes. Ele foi encarregado de criar e posicionar as constelações no firmamento. Segundo uma versão do mito, o Deus Negro apareceu diante dos outros Povos Sagrados com a constelação das Plêiades fixada em seu tornozelo. Ao ser questionado sobre o brilho em sua perna, ele bateu vigorosamente o pé no chão, elevando as estrelas ao joelho. Um segundo golpe as levou ao quadril, e um terceiro, ao ombro. Por fim, ao bater o pé uma quarta vez, ele posicionou as Plêiades em sua têmpora esquerda e declarou solenemente: “Lá ficará!”.


Impressionados com a demonstração, os demais seres sagrados atribuíram-lhe a tarefa de adornar os céus com constelações. O Deus Negro então começou a distribuir seus cristais estelares com grande precisão, espalhando as estrelas pela escuridão superior até formar o céu noturno. Sua ação não foi aleatória: cada constelação foi cuidadosamente colocada para formar um padrão simbólico e sagrado, refletindo a ordem que os Navajos reconhecem no cosmos.

No entanto, apesar da beleza do firmamento recém-criado, as estrelas ainda não possuíam luz própria, e a escuridão predominava. Para resolver esse problema, o Deus Negro ofereceu parte de seu fogo ao céu, criando uma “estrela de ignição” que iluminou as demais constelações. Posteriormente, esse mesmo fogo foi transmitido ao sol, completando o ciclo de iluminação do mundo celeste.

Arte de Melvin Bainbridge


A intervenção do Coiote e a Via Láctea

Em uma variação amplamente difundida do mito, enquanto o Deus Negro organizava pacientemente as constelações, o Coiote — figura trickster típica da mitologia Navajo — observava impacientemente o processo. Frustrado com a lentidão, o Coiote tomou a bolsa de estrelas que o Deus Negro carregava amarrada à cintura e atirou seu conteúdo ao céu. As estrelas restantes espalharam-se aleatoriamente, formando a Via Láctea. Como o Deus Negro não teve tempo de acender essas estrelas com seu fogo, elas ficaram mais fracas, explicando por que algumas estrelas brilham menos do que outras. Em versões alternativas, porém, o próprio Deus Negro teria criado deliberadamente a Via Láctea como parte de seu trabalho cósmico.

Arte de Melvin Bainbridge


fontes:
  • Black God (Navajo mythology). Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Black_God_(Navajo_mythology)>.
  • PATRICIA ANN LYNCH; ROBERTS, J. Native American mythology A to Z. New York, Ny: Chelsea House Publishers, 2010.
  • BASTIAN, D. E.; MITCHELL, J. K. Handbook of Native American mythology. Oxford ; New York: Oxford University Press, 2008.

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17 de março de 2025

Inupasugjuk

۞ ADM Sleipnir

Os Inupasugjuk (ᐃᓄᐸᓱᒡᔪᒃ no idioma inuktitut) são uma raça de colossais gigantes do gelo pertencentes à mitologia e folclore inuíte, que passam a maior parte de suas vidas na eterna camada de gelo da região polar. Eles vêm para o sul a cada inverno para visitar "o povo pequeno", quando o gelo está suficientemente espesso para suportar o seu enorme peso. Foram as uniões entre humanos e os Inupasugjuk que produziram os primeiros Tuniit (uma raça lendária, também chamada de "cultura Dorset"), de quem a região de Tuniitaq recebeu seu nome.

Muito pouco se sabe sobre essas enormes criaturas. Os Inupasugjuk raramente são vistos e quase nunca são mencionados pelos anciãos. Parece que os machos são maiores e menos comuns do que as fêmeas, e muito pouco se sabe sobre eles. As fêmeas dos Inupasugjuk parecem ser mais comuns. Elas acham os humanos divertidos e os capturam para usá-los como brinquedos. Alguns anciãos avisam que as fêmeas podem agarrar pessoas e carregá-las em seus amoutiqs (um tipo de roupa tradicional). Conta-se que a melhor chance de escapar de ser capturado por um Inupasugjuk é evitar de ser visto, se agachando e permanecendo muito quieto.

fontes:


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13 de novembro de 2024

Dzelarhons

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Arte de Doctor Chevlong

Dzelarhons  ("mulher vulcão", também chamada Dzalarhons, Djilaqons ou Princesa Sapo) é um espírito da montanha na mitologia do povo indígena Haida, habitantes de Haida Gwaii, um arquipélago próximo à costa da Colúmbia Britânica, no Canadá. Segundo versões da história transmitida via tradição oral, ela era originalmente uma mulher mortal que, juntamente com seu povo, cruzou o Oceano Pacífico (vindos de um local desconhecido)  em busca de um clima mais quente e uma terra mais rica. Realizando a viagem em seis canoas, acabaram estabelecendo-se em território Haida.

Dzelarhons se apaixonou por um dos homens nativos, e pediu ao tio, Gitrhawn,  que arranjasse o seu casamento. Vestida com peles de lontra-marinha e couro adornado com conchas, Dzelarhons foi escoltada até a aldeia de seu escolhido. Cerimônias esplêndidas marcaram o casamento, mas Dzelarhons logo descobriu que havia se enganado quanto ao caráter de seu marido. Ele exigiu que ela passasse a primeira noite segurando uma tocha acesa acima de sua cabeça. À medida que a tocha encolhia, a mulher protegia seus braços com suas roupas, que foram chamuscadas e depois queimadas.

Na manhã seguinte, os Haida, chocados com o comportamento do jovem, avisaram-no sobre a vingança de Gitrhawn, mas o noivo continuou a exigir que Dzelarhons segurasse sua tocha até que suas roupas fossem queimadas e ela ficasse nua. Gitrhawn e seu povo então vieram resgatá-la. Eles queimaram a aldeia Haida, mas não encontraram Dzelarhons. Ao invés disso, encontraram apenas uma estátua de pedra segurando um bastão em chamas encimado por uma rã de cobre, entre cujas pernas fluía um riacho.

A partir de então, Dzelarhons se tornou uma divindade poderosa que julgava as ações das pessoas em relação aos animais. Em uma aldeia, as pessoas se acostumaram à riqueza proporcionada pelo mar e começaram a matar animais desnecessariamente. Eles capturavam salmões desovando, cortavam suas costas e inseriam galhos embebidos em piche; então acendiam as tochas e riam enquanto os peixes, enlouquecidos pela dor, nadavam iluminando o mar. Logo as pessoas ouviram terríveis estrondos. O medo tomou conta da aldeia culpada; mas era tarde demais para arrependimento, pois Dzelarhons derramou sua fúria ardente. Poucos escaparam, pois até os rios corriam quentes com sua  ira.

Curiosidades

  • Kaiti, o "deus dos ursos", é frequentemente mencionado como seu marido. Isso também é tudo o que se sabe sobre o próprio Kaiti;
  • O Monte Dzalarhons, uma montanha em Vênus, recebeu seu nome em homenagem à Dzelarhorns

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28 de agosto de 2024

Wingwak

۞ ADM Sleipnir

arte gerada com Leonardo AI

Os Wingwak (ou Wingocak, plural, singular: Wingoc) são espíritos do sono oriundos da mitologia do povo nativo americano Algonquin. Eles assumem a forma de borboletas ou moscas para atormentar as pessoas e induzi-las ao sono, geralmente cercando-as em grupos de cinco Wingwak. O termo wingoc é usado pelos algonquinos para referir-se ao sono, e como tal aparecem em algumas expressões desse povo. Wingwak ondjita manek (“há muitos wingwak”) por exemplo, significa que todos estão dormindo. Ni nisigok wingwak (“[que] os wingwak me matem”) é dito quando alguém está muito cansado.

Jean-André Cuoq (1821–1898) um padre católico romano e filólogo das línguas algonquina e mohawk, cita em seu livro Lexique de la Langue Algonquine (1886) uma lenda relacionada aos Wingwak, narrada por um missionário do séc. XVII chamado Jean Claude Mathevet. A lenda fala sobre um ser celestial que, distraído, caiu do céu e veio parar diretamente na Terra, onde se deparou com humanos dormindo. Ele ficou especialmente intrigado por um homem que dormia muito mais do que os outros e que estava cercado por um enxame de Wingwak. O ser celestial então criou um pequeno arco e flechas e, com sua pontaria infalível, começou a abater alguns dos Wingwak e espantar os outros. Com isso, o homem despertou, e o visitante celestial compartilhou sua sabedoria com os algonquinos, avisando-os sobre "a chegada de uma raça de homens barbados que traria a ruína para seu povo".

arte gerada com Leonardo AI

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29 de dezembro de 2023

Ta'xet e Tia

۞ ADM Sleipnir

Arte de @HollyJeckArt

Ta'xet e Tia são uma dupla de deuses da morte pertencentes à mitologia do povo indígena Haida, habitantes de Haida Gwaii, um arquipélago próximo à costa da Colúmbia Britânica  no Canadá. Ta'xet é o deus associado às mortes violentas, enquanto Tia, sua contraparte, é a deusa das mortes pacíficas. De acordo com o mito, as almas daqueles que encontram uma morte violenta vão para a morada de Ta'xet sem aviso, enquanto Tia deixa sinais antes de levar suas vítimas.

Ta'xet e a Lua

Segundo o folclore haida, Xuuya, o Corvo, roubou a Lua de Ta'xet durante a criação da Terra e a colocou no céu para nutrir a humanidade. Dizem que se a humanidade desagradar o corvo ao alterar o ambiente da Terra, ele devolverá a Lua a Ta'xet e deixará de proteger a humanidade de sua ira.

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