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Aibell (também chamada Aíbell, Aoibheall ou Aoibhill e anglicizada como Aeval ou Eevill) é uma figura sobrenatural da tradição irlandesa associada ao norte de Munster, especialmente à região de Killaloe e à dinastia Ó Bríen. Dependendo da fonte e do período, ela é descrita como uma antiga deusa, uma mulher do síd ou uma rainha das fadas. Nas tradições preservadas, Aibell aparece principalmente como soberana de uma morada sobrenatural, protetora de uma linhagem regional e anunciadora de acontecimentos relacionados à morte.
Nome, território e morada sobrenatural
O nome Aíbell é relacionado ao antigo irlandês oíbell, termo associado a centelha, chama, calor ou brilho. Algumas interpretações populares também o aproximam de palavras irlandesas ligadas à beleza e ao encanto, embora essa derivação seja menos segura.
A residência tradicional de Aibell era Craig Liath, expressão que significa “rocha cinzenta”. O local é geralmente identificado com uma elevação próxima a Killaloe, junto ao rio Shannon. Nas tradições locais, Craig Liath era considerada o síd de Aibell. O termo irlandês síd designava originalmente uma colina ou elevação vista como morada de seres sobrenaturais. Por extensão, passou a ser empregado tanto para essas residências quanto para seus habitantes.
Aibell também aparece como figura tutelar dos Dál gCais, grupo de famílias do norte de Munster do qual surgiu Brian Boru, primeiro rei de Munster e Grande Rei da Irlanda entre 1002 e 1014. Seus descendentes formaram a dinastia Ó Bríen, que conservou uma associação tradicional com a soberana de Craig Liath.
Aibell e a Batalha de Clontarf
Uma das aparições mais antigas conhecidas de Aibell encontra-se no Cogad Gáedel re Gallaib, narrativa medieval sobre os conflitos envolvendo os Dál gCais e a Batalha de Clontarf, travada em 1014. Segundo o relato, Brian Boru soube durante a batalha que o estandarte de seu filho Murchad havia caído. Ao ser aconselhado a deixar o campo, declarou que Aibell de Craig Liath lhe aparecera na noite anterior e anunciara que ele morreria naquele dia. Ela também teria profetizado que o primeiro de seus filhos que Brian visse naquele dia seria seu sucessor. Esse filho foi identificado como Donnchad.

Outra tradição relacionada à batalha envolve Dubhlainn Ua Artigan, também chamado Dúlaing Ó hArtigáin. Em uma versão publicada por Lady Gregory no início do século XX, Dubhlainn é apresentado como um guerreiro de Munster amado por Aibell. Depois de retornar do exílio, ele decide lutar ao lado de Murchad, apesar das tentativas de Aibell de afastá-lo da batalha. Ela lhe entrega uma proteção mágica que o torna invisível, mas Dubhlainn revela sua presença ao entrar no combate. Aibell então anuncia que ele e Murchad morrerão, e ambos acabam mortos no campo de batalha.
Uma variante registrada em irlandês apresenta acontecimentos semelhantes. Nela, Aibell entrega a Dúlaing um manto de ocultação e, depois da morte dos dois guerreiros, é ouvida lamentando no campo de batalha.
A harpa de Aibell

Algumas narrativas registradas por Lady Gregory atribuem a Aibell uma harpa dourada cuja música estava associada à morte. Em uma delas, o instrumento é entregue ao filho de Meardha enquanto ele estudava numa escola do síd em Connacht. Ao saber que seu pai havia sido morto pelo rei de Lochlann, o jovem toca a harpa diante dos filhos do reiprovocando a morte daqueles que escutam sua música. Na mesma compilação, a harpa também é relacionada aos últimos momentos de Cú Chulainn. O herói teria ouvido sua música em Muirthemne pouco antes de morrer.
Relação com Clíodhna
Em uma lenda regional ligada à família O’Keeffe e registrada no século XIX, Aibell aparece com o nome Aoivil e é apresentada como irmã de Clíodhna, soberana sobrenatural associada ao sul de Munster. Segundo a narrativa, as duas seriam filhas de um druida chamado Draoi Ruadh e teriam se apaixonado por Caomh, ancestral lendário dos O’Keeffe. Caomh, porém, correspondia ao amor de Aoivil.
Movida pelo ciúme, Clíodhna lança um encantamento sobre a irmã, provoca nela uma morte aparente e a leva para uma caverna em Castlecor. Como Aoivil se recusa a abandonar seu amor por Caomh, Clíodhna a transforma em um gato branco e a obriga a guardar os tesouros de um palácio subterrâneo. Aoivil poderia recuperar temporariamente a forma humana durante uma semana no verão. O encantamento seria rompido apenas se alguém a escolhesse por amor, desprezando as riquezas que a cercavam.

Aibell na poesia do gênero aisling
Aibell também aparece na poesia do gênero aisling, palavra irlandesa que significa “visão” ou “sonho”. Esse tipo de composição tornou-se especialmente importante em Munster entre o final do século XVII e o século XVIII. Nos poemas do gênero, o narrador geralmente encontra uma mulher sobrenatural ligada simbolicamente à Irlanda. Ela lamenta a situação política do país ou anuncia a possível restauração de uma ordem considerada legítima, frequentemente associada à causa jacobita e ao retorno da dinastia Stuart.
Em um poema de Aogán Ó Rathaille, composto provavelmente no início do século XVIII, o narrador encontra um grupo de mulheres sobrenaturais liderado por Aibell. A personagem transmite uma mensagem de esperança política e assume uma função alegórica relacionada ao destino da Irlanda.

Cúirt an Mheán Oíche
A obra literária mais conhecida protagonizada por Aibell é Cúirt an Mheán Oíche, título traduzido como “A Corte da Meia-Noite”. O poema foi composto por Brian Merriman em 1780 e apresenta um debate satírico sobre casamento, sexualidade, celibato e relações entre homens e mulheres.
No início da narrativa, o poeta adormece próximo ao lago Gréine e sonha que é conduzido à presença de Aibell, apresentada como rainha das fadas. Ela preside uma corte sobrenatural organizada como uma paródia de tribunal. Uma jovem acusa os homens irlandeses de evitar o casamento, de adiar a formação de famílias e de preferir mulheres mais velhas que possuíssem dinheiro ou propriedades. Um homem idoso responde criticando as mulheres e descrevendo seus próprios problemas conjugais. A jovem rebate suas acusações, questiona sua conduta como marido e defende mudanças nas regras que controlavam o casamento e a vida sexual. O debate também aborda o celibato clerical, embora os sacerdotes não sejam imediatamente incluídos na decisão final da corte.
Aibell determina que os homens que chegassem aos 21 anos sem companheira poderiam ser capturados e punidos pelas mulheres. O próprio narrador é identificado como um dos solteiros sujeitos à sentença, mas desperta antes que ela seja executada.
An Buachaill Caol Dubh
Aibell também aparece na canção tradicional An Buachaill Caol Dubh, “O Rapaz Negro e Esbelto”, geralmente atribuída ao poeta Seán Ó Seanacháin. Na composição, o rapaz representa a bebida ou a garrafa, personificada como um companheiro que segue o narrador, consome seu dinheiro e interfere em suas atividades. A bebida é apresentada como um amigo fiel, embora sua presença prejudique a vida do poeta.
Em uma das estrofes, Aibell encontra o rapaz e o poeta caminhando pela estrada. Ela oferece ao rapaz cem homens caso ele abandone seu companheiro, mas ele recusa a proposta e declara que permanecerá ao lado do poeta enquanto este estiver vivo.

fontes:
- Aíbell. A Dictionary of Celtic Mythology, de James MacKillop. Oxford University Press. Disponível em: <https://www.oxfordreference.com/display/10.1093/acref/9780198609674.001.0001/acref-9780198609674-e-75>;
- Foclóir Gaedhilge agus Béarla: An Irish-English Dictionary, de Patrick S. Dinneen. Disponível em: <https://celt.ucc.ie/Dinneen1.pdf>;
- “Juxtaposing Cogadh Gáedel re Gallaib with Orkneyinga saga”, de Thomas A. DuBois. Oral Tradition. Disponível em: <https://journal.oraltradition.org/wp-content/uploads/files/articles/26ii/04_26.2.pdf>;
- “Aoibhell”, em Gods and Fighting Men, de Lady Augusta Gregory. Disponível em: <https://sacred-texts.com/neu/celt/gafm/gafm16.htm>;
- “Cliodhna, the Queen of the Fairies of South Munster”, de Denham Franklin. Journal of the Cork Historical and Archaeological Society, 1897. Disponível em: <https://corkhist.ie/wp-content/uploads/jfiles/1897/b1897-021.pdf>;
- “Sacral Kingship and Feminine Fecundity: Allegorical Images of Ireland in Irish-Gaelic Aisling Poetry”, de Matthew T. Apple. Disponível em: <https://www.ritsumei.ac.jp/acd/re/k-rsc/lcs/kiyou/pdf_29-4/lcs_29_4_matthew.pdf>;
- Dánta Aodhagáin Uí Rathaille, organizado por Patrick S. Dinneen e Tadhg O’Donoghue. Royal Irish Academy, Historical Irish Corpus. Disponível em: <https://corpas.ria.ie/index.php?fsg_function=4&fsg_id=2441>;
- “Love, Marriage and The Midnight Court (1780)”, de Ciarán Mac Murchaidh. Disponível em: <https://doras.dcu.ie/24762/1/Love%2C%20marriage%20and%20The%20Midnight%20Court%20%281780%29.pdf>;
- “An Buachaill Caol Dubh”, em An Lóchrann, 1918. Royal Irish Academy, Historical Irish Corpus. Disponível em: <https://corpas.ria.ie/index.php?fsg_function=5&fsg_id=2942>;
- Songs of the Irish, de Donal O’Sullivan. Disponível em: <https://www.otma.ie/wp-content/uploads/2024/08/OTMA-208-Donal-OSullivan-Songs-of-the-Irish.pdf>.
Aibell

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