31 de dezembro de 2025

Toshigami

۞ ADM Sleipnir

Toshigami (japonês 年神 ou 歳神; literalmente “deus do ano”), também conhecido como Ōtoshi-no-kami (大年神, “grande deus do ano”), é um kami (deus) do xintoísmo associado ao ciclo anual, às colheitas, à prosperidade e às celebrações do Ano Novo japonês (Shōgatsu). De acordo com a tradição, Toshigami visita os lares humanos no início de cada ano para conceder bênçãos, boa sorte e fertilidade à terra, sendo visto como uma divindade ligada à renovação do tempo e da vida.

Algumas tradições afirmam que Toshigami habita a ilha de Shimokoshiki-shima, situada ao largo da costa da atual província de Kagoshima, em Kyushu. A partir desse local, a divindade desceria simbolicamente todos os anos para visitar os lares humanos durante o Ano Novo.

Origem e parentesco

Segundo o Kojiki (古事記, Registros dos Assuntos Antigos), Toshigami é filho do deus Susanoo e de sua segunda esposa, Kamuo Ichihime. É apresentado como o irmão mais velho de Ukanomitama, divindade relacionada aos grãos e à fertilidade agrícola, o que reforça sua ligação com a produção de alimentos e os ciclos naturais.

Toshigami teve numerosos filhos com três esposas diferentes, muitos deles associados à terra, às montanhas, aos campos e ao espaço doméstico. Com Ino-hime, teve Ōkuni-mitama, Kara-kami, Sofuri-kami, Shirahi-no-kami e Hijiri-no-kami. Com Kaguyo-hime, gerou Ōkaguyama-tomi e Mitoshi-no-kami, este último também ligado ao ciclo anual e às colheitas. Com Amechikarumizu-hime, teve, entre outros, Oyamakui-no-kami, deus das montanhas, além de divindades associadas ao solo, às residências e aos campos agrícolas.

Natureza e interpretações folclóricas

No folclore japonês, Toshigami possui uma natureza múltipla e ligada às estações do ano. Em várias tradições regionais, ele se manifesta como Ta no Kami, o deus dos campos de arroz durante a primavera e o verão, e como Yama no Kami, o deus das montanhas no outono e no inverno.

O folclorista Kunio Yanagita (1875–1962) interpretou Toshigami como uma divindade que reúne três funções principais: protetor do lar, deus da colheita e manifestação dos espíritos ancestrais que retornariam temporariamente ao mundo dos vivos durante o Ano Novo.

Culto e práticas do Ano Novo

Para receber Toshigami, as famílias realizam uma limpeza ritual da casa (susuharai) a partir de meados de dezembro, pois acredita-se que a divindade não entra em locais considerados impuros. Três elementos decorativos são tradicionalmente preparados:

  • Kadomatsu (門松), arranjos de pinheiro e bambu colocados na entrada das casas para orientar a chegada da divindade;
  • Shimekazari (注連飾り), cordas sagradas que indicam um espaço purificado;
  • Kagami mochi (鏡餅), bolos de arroz empilhados onde Toshigami é simbolicamente acolhido durante o período do Ano Novo.

Período de estadia (Oshōgatsu)

A presença de Toshigami no mundo humano começa em 1º de janeiro e tradicionalmente se estende até o sétimo dia do mês. A véspera do Ano Novo, em 31 de dezembro, é marcada pelo consumo do toshikoshi soba, associado à longevidade. No Dia do Ano Novo, são consumidos pratos considerados auspiciosos, como ozōni e osechi-ryōri, geralmente preparados com mochi. Entre os dias 1º e 3 de janeiro ocorre o hatsumōde, a primeira visita do ano a templos e santuários.

O encerramento desse período ritual acontece com o Nanakusa no Sekku (Festival das Sete Ervas) e, posteriormente, com a queima cerimonial das decorações (dondoyaki), que simboliza o retorno do espírito de Toshigami ao mundo divino.

Sincretismo

Durante o período medieval, Toshigami foi parcialmente associado a Toshitokujin, uma divindade de origem chinesa ligada às direções auspiciosas do ano (ehō). Embora ambas estejam presentes nas celebrações do Ano Novo, estudiosos consideram o culto a Toshigami mais antigo e profundamente ligado às práticas agrícolas tradicionais do Japão.

Toshitokujin


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30 de dezembro de 2025

Chinnamasta

۞ ADM Sleipnir

Arte de Maryna Schcherbakova

Chinnamasta (sânscrito : छिन्नमस्ता, Chhinnamastā, "a decapitada"é uma deusa da mitologia hindu, amplamente conhecida como uma das Dasa Mahavidyas (aspectos da deusa Durga ou Kali na tradição esotérica tântrica). Ela é uma divindade associada a temas como autossacrifício, transcendência do ego, domínio do desejo e à relação paradoxal entre vida e morte, sendo considerada uma das figuras mais complexas e impactantes do panteão hindu.

Etimologia

O nome Chinnamasta deriva do sânscrito chinna ("cortado", "separado") e masta ("cabeça"). A deusa também é conhecida por diversos epítetos que ressaltam diferentes aspectos de sua natureza, entre eles Prachanda Chandika ("a feroz"), Ranjaitri ("vitoriosa na guerra") e Madanatura ("aquela que domina Kama", o desejo).

No budismo tibetano, Chinnamasta é conhecida como Chinnamunda ou Vajramunda, sendo associada a divindades como Vajrayogini e Vajravarahi, mantendo simbolismos semelhantes aos da tradição hindu.

Iconografia

Chinnamasta é tradicionalmente representada nua, segurando sua própria cabeça decepada em uma das mãos e uma espada curva (khatri) na outra. De seu pescoço brotam três jatos de sangue: um que flui para a boca de sua própria cabeça e dois que são bebidos por suas acompanhantes, Dakini (à esquerda, de coloração escura) e Varnini (à direita, de coloração avermelhada).

A deusa costuma ser representada de pé sobre um casal em união sexual, identificado como Kamadeva e Rati, deuses do amor e do desejo. Outros elementos recorrentes incluem serpentes (usadas como fio sagrado), guirlandas de crânios e símbolos associados à energia vital (kundalini). Frequentemente, um crematório aparece ao fundo da representação.

Mitologia

As narrativas míticas associadas a Chinnamasta variam conforme as tradições textuais, mas compartilham o tema central do autossacrifício consciente. Uma versão relata que, após derrotar demônios em uma batalha cósmica, a deusa entrou em um estado de fúria incontrolável e se decapitou para impedir que sua própria energia destrutiva ameaçasse o equilíbrio do universo.

Outra narrativa, encontrada na Pranotasani Tantra, descreve Chinnamasta decapitando-se para alimentar suas acompanhantes, Dakini e Varnini, quando estas foram acometidas poe uma fome extrema após um banho no rio Mandakini. Nessa versão, o ato enfatiza seu aspecto compassivo e maternal. Há ainda relatos que a associam ao mito da Samudra Manthan (agitação do oceano de leite), nos quais sua autodecapitação impede que forças demoníacas obtenham o néctar da imortalidade.

Significado Religioso e Simbólico

Na tradição tântrica, a autodecapitação de Chinnamasta simboliza a renúncia do ego (ahamkara) e a superação da identidade individual limitada. Sua iconografia expressa a ideia de que a libertação espiritual exige a ruptura com a percepção dualista da realidade. Nesse sentido, o sacrifício do ego é representado pelo corte da cabeça, permitindo que a consciência pura transcenda a morte e o sofrimento.

A deusa também é associada ao conceito de criação e destruição simultâneas, segundo o qual a vida é sustentada por processos de morte e transformação contínuas. As três cores representadas em sua iconografia — branco (Chinnamasta), preto (Dakini) e vermelho (Varnini) — correspondem aos três gunas (qualidades fundamentais da existência): sattva, tamas e rajas, respectivamente.

Chinnamasta ocupa um papel importante nas interpretações tântricas relacionadas ao despertar da kundalini, a energia espiritual latente. Os três jatos de sangue são frequentemente associados aos principais canais energéticos (nadis) do corpo sutil. Ela é primariamente associada ao Ajna Chakra (terceiro olho), embora algumas escolas a vinculem também ao Manipura Chakra (Chakra do Plexo Solar), sendo invocada em práticas meditativas avançadas voltadas à transformação interior e ao despertar da consciência.

No Budismo Tibetano

No budismo Vajrayana, Chinnamasta aparece como Chinnamunda, mantendo simbolismos semelhantes aos da tradição hindu, como o domínio sobre o desejo e a superação do ego. Ela é mencionada em textos como o Sadhanamala (datado de aproximadamente 1156 d.C.) e está associada a linhagens de práticas meditativas transmitidas por mestras espirituais. Segundo os textos budistas, a adoração de Chinnamunda está ligada à história de duas mestres, Mekhala e Kankhala, que cortaram suas próprias cabeças como oferta ao seu guru.

Culto e Adoração

A adoração de Chinnamasta é considerada uma das mais intensas entre as Mahavidyas e está tradicionalmente associada a práticas tântricas avançadas. Historicamente, seu culto foi relacionado a ideais de coragem, disciplina e autossacrifício, sendo frequentemente associado a guerreiros e yoguis.

O principal templo dedicado a Chinnamasta é o Templo de Rajrappa (também conhecido como Chinnamastika Mandir), localizado em Rajrappa, no distrito de Ramgarh, no estado de Jharkhand, Índia. Este templo está situado à confluência dos rios Damodar e Bhera e é considerado uma importante Shakti Peeth (local sagrado da deusa Shakti). Outros locais de culto importantes incluem o complexo do Templo de Kamakhya, em Assam (onde existe uma capela dedicada a Chinnamasta), e templos no Nepal, especialmente em Katmandu.

Arte de Sourav Dhar


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29 de dezembro de 2025

Ob-Obanan

۞ ADM Sleipnir


Ob-Obanan é uma divindade da mitologia do povo bontoc (ou bontok), encontrado nas porções central e leste da Província da Montanha, na ilha de Luzon, nas Filipinas. Considerada uma deusa do submundo, Ob-Obanan é uma figura associada à decadência, punição e aos males que afligem a humanidade. Seu nome significa literalmente “cabelo branco”, e, segundo a tradição, seus longos fios são habitados por insetos, formigas, centopeias e todas as pragas que incomodam o ser humano. 

Um mito conhecido envolvendo Ob-Obanan narra o episódio da origem dos insetos e répteis. De acordo com o mito, dois irmão, um rico e um pobre, são postos à prova pela deusa. O irmão pobre, demonstrando humildade e respeito, é recompensado, enquanto o rico, agindo com arrogância, recebe de Ob-Obanan um cesto repleto de insetos e répteis. Ao abri-lo, o homem liberta todas essas criaturas sobre a terra.

Arte de beejowell

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28 de dezembro de 2025

Boroboroton

۞ ADM Sleipnir

Arte de nightmareSyrup

Boroboroton (em japonês: 暮露暮露団 ou ぼろぼろとん, "futon esfarrapado") é um yokai do folclore japonês, descrito pela primeira vez pelo estudioso Toriyama Sekien em sua obra Gazu Hyakki Tsurezure Bukuro (百器徒然袋, "A Bolsa Ilustrada dos Cem Demônios Aleatórios" ou " Uma Horda de Utensílios Assombrados"). Trata-se de uma criatura do tipo tsukumogami (付喪神 – “espírito de objeto”), originado a partir de um futon antigo e desgastado que, apesar do estado precário, permaneceu em uso ou foi conservado por longo período, vindo a adquirir forma animada, com olhos e membros constituídos de algodão e fragmentos de tecido.

Ao contrário de muitos yokai tradicionais, o Boroboroton não possui registros em lendas populares nem em narrativas da tradição oral, sendo geralmente considerado uma criação literária de Sekien, inserida no contexto artístico e intelectual do período Edo.

Ilustração do Boroboroton no Gazu Hyakki Tsurezure Bukuro


Interpretação e influências literárias

A coletânea Hyakki Tsurezure Bukuro reúne diversos yokai cuja concepção parece inspirada no Tsurezuregusa (徒然草, "Ensaios sobre a Ociosidade"), ensaio de Yoshida Kenkō, escrito no final do período Kamakura. No caso do Boroboroton, a explicação apresentada por Sekien menciona o termo “boroboro”, utilizado para designar monges mendicantes e errantes, posteriormente associados aos monges komusō da seita Zen Fuke.

No Tsurezuregusa, especialmente no parágrafo 115, Kenkō descreve os boroboro como indivíduos que afirmavam ter abandonado o mundo secular, mas que frequentemente se envolviam em disputas e conflitos, apesar de demonstrarem pouco apego à própria vida ou morte. Com base nessa passagem, considera-se que Sekien tenha concebido o Boroboroton a partir de um jogo semântico e visual, associando os boroboro — monges errantes — a um futon boroboro, isto é, completamente gasto e em farrapos.



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27 de dezembro de 2025

Ánimas de Cucao

۞ ADM Sleipnir

As Ánimas de Cucao ("Almas de Cucao") são entidades fantasmagóricas pertencentes à mitologia chilota, associadas aos arredores da localidade de Cucao, situada na comuna de Chonchi, na Região dos Lagos, no sul do Chile.

Segundo a tradição oral de Chiloé, sua presença é vinculada à área costeira de Punta Pirulil, na costa ocidental da Ilha Grande de Chiloé. Nessa região, especialmente nos penhascos da baía e nos rochedos do setor de Pirulil, seriam ouvidos lamentos, choros e súplicas que se misturam aos sons do mar. Tais manifestações sonoras são atribuídas a almas em pena que vagariam pelo local, incapazes de alcançar o descanso definitivo.

A lenda relata que essas almas clamam pelo balseiro Tempilcahue, figura mítica encarregada de conduzir os mortos ao além. No entanto, Tempilcahue não atenderia aos seus chamados, impedindo-as de alcançar o lugar de repouso eterno, descrito como um espaço de felicidade e bem-aventurança. Como consequência, essas almas permaneceriam no mundo dos vivos, ainda presas a sentimentos e experiências humanas, como amargura, ódio, rancor e dor, o que lhes nega a paz.

A tradição popular também estabelece advertências associadas a essas entidades. Acredita-se que aqueles que ouvem seus lamentos não devem tentar se comunicar com elas nem chamá-las pelo nome de Ánimas de Cucao, pois tal ato atrairia a morte, levando a pessoa, após o período de um ano, a tornar-se um novo espírito integrado a esse conjunto de almas errantes.

Arte de Chistopher Alvarado

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25 de dezembro de 2025

Olentzero

۞ ADM Sleipnir

Arte de Aritz Aizpurua

Olentzero (basco: olents̻eɾo, também Onenzaro, Onentzaro, Olentzaro, Ononzaro e Orentzagoé uma figura tradicional do folclore basco, associada às celebrações do Natal no País Basco, em Navarra e em regiões vizinhas do sudoeste da França. Tradicionalmente representado como um carvoeiro ou camponês das montanhas, Olentzero passou a desempenhar, na atualidade, o papel de portador de presentes às crianças na madrugada de 24 para 25 de dezembro. Ao longo do século XX — especialmente a partir das décadas de 1970 e 1980 — consolidou-se como um dos principais símbolos da identidade cultural basca.

Origem

As origens de Olentzero são consideradas complexas e continuam sendo objeto de debate entre pesquisadores. De modo geral, há consenso de que a figura possui raízes em tradições pré-cristãs ligadas ao solstício de inverno, período que, em muitas culturas europeias antigas, simbolizava o fim do ano velho e o início de um novo ciclo natural. No entanto, não é possível determinar com precisão quando o mito surgiu nem qual teria sido sua forma original.

As primeiras referências documentais claras aparecem no século XVII. O escriba navarro Lope de Isasti registrou a tradição ao mencionar que, na noite de Natal, chamava-se onenzaro de “a estação dos bons” (la sazón de los buenos). Documentos posteriores dos fueros de Navarra confirmam que o termo continuou a ser utilizado ao longo dos séculos XVII e XVIII.

A vila de Lesaka, em Navarra, é frequentemente apontada como um dos centros mais antigos da tradição. Registros etnográficos do início do século XX — especialmente um informe de 1928 reunido pelo pesquisador Julio Caro Baroja — descrevem a confecção de um boneco de palha chamado Olentzero, que era levado em procissão e depois queimado em praça pública. Essa prática está ligada a rituais europeus de destruição simbólica associados à passagem das estações.


Etimologia

A origem do nome Olentzero admite várias interpretações. A explicação mais aceita pelos estudiosos relaciona o termo a elementos do euskera: on (“bom”), combinado com um sufixo genitivo plural, e -zaro (“tempo” ou “estação”). O significado resultante seria algo como “tempo das coisas boas” ou “estação dos bons”, estrutura semelhante à ideia expressa em nochebuena (“noite boa”), em espanhol.

Outras hipóteses — hoje consideradas pouco prováveis — sugerem ligações com o francês Noël, com expressões cristãs como “O Nazareno” ou com construções como oles-aro (“estação das esmolas”). Pesquisadores como Julio Caro Baroja rejeitaram essas interpretações por falta de base histórica ou coerência linguística.

Mitologia

Jentilak e origens pagãs

Na mitologia basca, Olentzero é frequentemente associado aos jentilak, gigantes ancestrais dotados de grande força e ligados aos ciclos naturais e à vida agrária. Segundo uma narrativa difundida, os jentilak teriam visto no céu uma estrela ou nuvem luminosa incomum, interpretada como sinal do nascimento de Jesus Cristo. Diante desse acontecimento, os gigantes desapareceriam: alguns teriam se lançado de penhascos, outros se escondido sob a terra. Olentzero, geralmente descrito como o mais velho ou o único que aceitou a nova era, teria permanecido como o último representante daquele mundo antigo.

Cristianização e sincretismo

Com o avanço do cristianismo no território basco, Olentzero passou a ser reinterpretado como anunciador do nascimento de Cristo. A figura, antes ligada ao fim dos ciclos naturais e à destruição simbólica do ano velho, passou a representar a passagem das trevas para a luz, tanto em sentido religioso quanto simbólico. Esse processo é frequentemente citado como exemplo de sincretismo, no qual crenças pagãs foram incorporadas e ressignificadas pela tradição cristã.


Narrativas alternativas

Existem também versões lendárias diferentes sobre sua origem. Uma delas descreve Olentzero como uma criança abandonada na floresta, encontrada por uma fada que lhe concedeu força e bondade. A fada o teria entregue a um casal idoso sem filhos. Já adulto, Olentzero torna-se um carvoeiro generoso, conhecido por fabricar brinquedos de madeira e distribuí-los às crianças da aldeia.

Em versões mais elaboradas, ele realiza um ato de sacrifício — como salvar crianças de um incêndio — e, como recompensa, recebe a imortalidade da fada, podendo retornar todos os anos para levar alegria e presentes. Essas narrativas reforçam sua associação moderna com valores como solidariedade e altruísmo.

É importante destacar que essas histórias variaram bastante conforme a região e a época. Muitas delas foram organizadas ou reforçadas durante o século XX, como parte de esforços conscientes de valorização e revitalização cultural.

Iconografia

Tradicionalmente, Olentzero é representado como um homem robusto, de aparência rústica, vestindo roupas típicas do camponês basco das montanhas. Entre os elementos mais comuns estão a txapela (boina), o colete, as calças grossas e o lenço no pescoço. Seu rosto e suas roupas costumam aparecer sujos de fuligem, em referência direta ao ofício de carvoeiro. Barba grisalha, cachimbo e um grande saco — originalmente de carvão e, mais tarde, de presentes — completam sua imagem.

Seu corpo grande e corpulento simboliza abundância, generosidade e a personificação do “ano velho”, que precisa ser consumido para dar lugar ao novo ciclo.



Evolução da imagem moderna

Durante muito tempo, Olentzero teve uma imagem ambígua ou até ameaçadora em algumas localidades. Em certos lugares, era usado para assustar crianças ou associado a comportamentos considerados excessivos. Em Areso, por exemplo, dizia-se que Olentzero pegava crianças que ficavam na rua à noite; em Larraun, era descrito como um bêbado de olhos vermelhos; em Dima, aparecia armado com uma foice, sendo usado para impor obediência ao jejum antes do Natal.

Ao longo do século XX, especialmente a partir das décadas de 1970 e 1980, essa imagem foi sendo suavizada e transformada, aproximando-se da figura do “bom velhinho” natalino. Um marco importante ocorreu em 1952, quando o grupo Irrintzi Elkartea, da cidade de Zarautz, iniciou um processo consciente de revitalização da tradição, eliminando aspectos mais assustadores e tornando Olentzero mais adequado ao público infantil. A partir de 1956, essas versões revitalizadas começaram a se espalhar para além da região de Gipuzkoa. Nos anos 1970, Olentzero consolidou-se como distribuidor de presentes, tornando-se uma alternativa cultural basca aos Reis Magos e ao Père Noël francês.

Celebrações contemporâneas

Atualmente, Olentzero é uma das figuras centrais do Natal em muitas comunidades bascas. Na noite de 24 de dezembro, realizam-se procissões e desfiles chamados kalejiras, que combinam encenações, música tradicional e a coleta de alimentos, bebidas ou doces entre os moradores — prática que remete a antigos costumes de pedir esmolas. Embora tenham raízes históricas, essas celebrações se expandiram e se organizaram de forma mais sistemática a partir das décadas de 1970 e 1980, dentro de um movimento mais amplo de revitalização cultural.

Em muitas localidades, Olentzero é acompanhado por Mari Domingi, uma figura feminina inspirada em tradições mitológicas e em uma canção natalina basca. Sua presença nas festividades tornou-se mais comum a partir de 1994. Vestida com trajes tradicionais, Mari Domingi representa a dimensão feminina das celebrações do solstício e contribui para uma maior paridade de gênero entre as figuras que distribuem presentes no Natal basco.


Significado cultural

Além de seu papel festivo, Olentzero adquiriu forte importância cultural e identitária no século XX. Durante a ditadura franquista (1939–1975), expressões da cultura basca foram amplamente reprimidas, e as celebrações tradicionais sofreram restrições. Como símbolo da identidade basca, Olentzero foi diretamente afetado por esse contexto de repressão cultural.

Após a Transição Espanhola e a restauração da autonomia regional, Olentzero foi recuperado e promovido como emblema da continuidade cultural basca. Esse resgate não significou apenas a retomada de uma tradição antiga, mas também sua adaptação consciente às realidades contemporâneas.

Pesquisadores destacam que a importância atual de Olentzero resulta tanto de tradições folclóricas antigas quanto de processos modernos de reinterpretação e construção identitária. Assim, Olentzero é compreendido como uma figura de síntese, que reúne elementos pagãos pré-cristãos, camadas cristãs medievais e práticas contemporâneas, permanecendo como um dos símbolos mais vivos e reconhecíveis do Natal na cultura basca.



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24 de dezembro de 2025

Hans Trapp

۞ ADM Sleipnir

Arte de Thomas Lergenmuller

Hans Trapp é um temido bogeyman (bicho-papão) das regiões de Alsácia e Lorena, no nordeste da França. No folclore local, ele acompanha São Nicolau durante o período natalino, desempenhando um papel análogo ao de figuras como o Knecht Ruprecht na Alemanha ou o Père Fouettard na Lorena. Enquanto o santo recompensa as crianças boas, Hans Trapp ameaça e pune as desobedientes. Quando o Natal se aproxima, basta ouvir "Hans Trapp está vindo" para que as crianças da Alsácia empalideçam.

A Lenda

A origem de sua lenda situa-se no século XV. De acordo com as tradições folclóricas, Hans Trapp era um homem extremamente rico e influente, mas também vaidoso, cruel e inescrupuloso. Sua vida girava em torno de abusos, violência e ganância. Muitos acreditavam que ele adorava Satanás e praticava magia negra para enriquecer e manter seu poder.

Quando a Igreja Católica tomou conhecimento de suas práticas — segundo a narrativa lendária — Hans foi levado até o Papa em Roma e excomungado por sacrilégio e envolvimento com o ocultismo. Ao retornar à Alsácia, foi rejeitado pelos habitantes, que fugiam dele como de um animal selvagem. Suas terras e bens foram confiscados, deixando-o sem nada. Expulso, Hans se refugiou na floresta, isolando-se nas cercanias do Palatinado, onde construiu um abrigo improvisado. A solidão e o ódio o levaram à loucura. Obcecado por vingança e mergulhado cada vez mais no satanismo, desenvolveu um desejo diabólico: comer carne humana. Ele passou a vagar pelo campo disfarçado de espantalho, enchendo roupas esfarrapadas com palha e escondendo-se em plantações à espera de uma vítima.

Um dia, viu um jovem pastor de dez anos passando pela mata. Salivando diante da ideia de provar sua carne, Hans atacou o menino com um bastão afiado, matou-o e levou o corpo para seu casebre. Ali o esquartejou e assou em pedaços. Quando estava prestes a dar sua primeira mordida, um raio caiu do céu e o matou instantaneamente — punição divina, segundo a tradição, que impediu que seu crime se repetisse. Desde então, diz-se que seu espírito retorna no Natal, vestido como o mesmo espantalho sinistro, perambulando de casa em casa em busca de crianças travessas, ansiando pela carne que jamais pôde provar.

Inspiração em um personagem real

Apesar do dramatismo folclórico, a figura tem base histórica. Hans von Trotha — o provável modelo de Hans Trapp — nasceu por volta de 1450 e morreu em 26 de outubro de 1503. Cavaleiro poderoso, chegou a controlar o castelo de Berwartstein e suas dependências, próximo à Floresta do Palatinado, entre a França e a Alemanha. Tornou-se célebre por um violento conflito com o abade de Wissembourg, envolvendo represamento de rios, inundações e acusações mútuas que culminaram com sua excomunhão pelo Papa Júlio II e posterior banimento imperial.

Apesar dos conflitos religiosos, a trajetória histórica de Hans von Trotha tomou um rumo bem diferente da lenda. Graças a seus talentos diplomáticos, foi enviado à corte do rei francês Luís XII, onde foi agraciado com o prestigioso título de Chevalier d'Or (Cavaleiro de Ouro) — uma honraria que demonstra seu estatuto político real. Após sua morte, todas as acusações foram retiradas, mas sua reputação contribuiu para que sua figura se transformasse em lenda.

Arte de Andréa Boloch

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23 de dezembro de 2025

Con Rit

۞ ADM Sleipnir

Arte de @sandwichbagz1

Con Rit é um criptídeo marinho associado a relatos históricos e ao folclore do Vietnã, mencionado em registros dos séculos XIX e início do XX. A criatura é tradicionalmente associada às águas do sudeste do Vietnã e, até o momento, não possui reconhecimento científico formal, sendo classificada no campo da criptozoologia. O nome Con Rit deriva do vietnamita e significa “centopeia”. A denominação foi atribuída em razão da aparência segmentada descrita nos relatos históricos associados à criatura.

Relatos 

Os registros mais antigos relacionados ao Con Rit datam de 1833, quando uma carcaça teria sido encontrada na costa do Vietnã por um Tran Van Con. Novos relatos surgiram em 1883, na região de Hong Gai, onde uma carcaça decapitada foi encontrada na praia e posteriormente rebocada ao mar devido ao forte odor.

Em 1899, um relato semelhante foi registrado fora do Sudeste Asiático. Marinheiros do navio britânico HMS Narcissus afirmaram ter observado, próximo ao Cabo Falcon, na costa da Argélia, uma grande criatura marinha que acompanhou a embarcação por cerca de 30 minutos antes de submergir.

Arte de Kronosaurus82

Descrição

Com base exclusivamente nos relatos disponíveis, o Con Rit é descrito como um organismo marinho de grande porte, com comprimento médio estimado em cerca de 18 metros nos avistamentos vietnamitas, embora alguns relatos mencionem dimensões significativamente maiores. O corpo seria alongado e composto por múltiplos segmentos rígidos, descritos como placas ósseas articuladas ao longo de toda a extensão.

A coloração atribuída à criatura varia entre tons escuros no dorso e coloração mais clara ou amarelada no ventre. Também é descrita a presença de numerosas nadadeiras semelhantes às de peixes, distribuídas ao longo do corpo, utilizadas para a locomoção e responsáveis por sua velocidade na água.

Pesquisas e hipóteses explicativas

Na década de 1920, relatos sobre o Con Rit foram reunidos pelo Dr. A. Krempf, diretor do Serviço Oceanográfico e de Pesca da Indochina, que coletou depoimentos de testemunhas e registros históricos. Apesar dessas investigações, não foram obtidas evidências físicas verificáveis, como espécimes preservados ou documentação científica conclusiva.

Diversas hipóteses foram propostas para explicar a possível natureza do Con Rit. Algumas sugerem que poderia se tratar de uma forma primitiva de cetáceo com características anatômicas incomuns, enquanto outras apontam para a possibilidade de um grande invertebrado marinho segmentado ainda desconhecido pela ciência, como um crustáceo ou artrópode adaptado ao ambiente oceânico profundo.

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22 de dezembro de 2025

Senoi, Sansenoi e Semangelof

۞ ADM Sleipnir


Senoi (hebraico סנוי; também grafado Snvi ou Senoy), Sansenoi ( hebraico סנסנוי; também grafado Snsnvi, Sansenoy ou Sensenoy) e Semangelof (hebraico סמנגלוף; também grafado Smnglof ou Semanglef) são três anjos da tradição judaica associados à proteção de grávidas, parturientes e recém-nascidos contra Lilith e seus descendentes demoníacos. No relato preservado no Alfabeto de Ben Sirá (séc. X) e em outras fontes rabínicas, eles são enviados pelo próprio Deus após Lilith, considerada a primeira esposa de Adão, fugir do Éden

Tendo sido criada do mesmo pó (adamah) que Adão, Lilith recusou-se a ser submissa e, ao pronunciar o Nome Inefável, elevou-se aos céus e foi encontrada pelos anjos no meio do mar, local onde gerava espíritos e demônios (shedim). Ali, ela declarou possuir poder sobre recém-nascidos — até o oitavo dia no caso de meninos e até o vigésimo no caso de meninas.

Ao receber o comando divino para retornar ao Éden, Lilith recusou-se novamente. Os três anjos a encontraram no meio do mar e, percebendo sua rebeldia, ameaçaram afogá-la à força. Lilith implorou por sua vida e, diante disso, os anjos cederam — mas anunciaram a punição estabelecida por Deus: todos os dias, cem de seus próprios filhos demoníacos morreriam, já que ela não retornara a Adão. Para preservar-se, Lilith fez então um juramento solene em nome de Deus: sempre que encontrasse os nomes, imagens ou representações dos três anjos em um quarto onde houvesse um bebê, ela não o tocaria.  Esse pacto tornou-se a base do uso apotropaico dos nomes dos três anjos na tradição judaica.


Os nomes de Senoi, Sansenoi e Semangelof passaram a figurar em amuletos destinados a proteger gestantes, mães e recém-nascidos. Tais amuletos podiam incluir representações iconográficas dos anjos ou apenas nomes escritos. O Sefer Raziel também preserva fórmulas destinadas a afastar Lilith, reforçando a associação entre os três anjos e a proteção infantil. Em achados arqueológicos, como tigelas de encantamento judaicas de Nippur (séculos I–VIII d.C.), aparecem nomes similares — Soney, Sosoney e Senigly — usados para aprisionar ou repelir demônios.

Sincretismo

Em tradições cristãs posteriores, especialmente no Mediterrâneo Oriental, as figuras de Senoi, Sansenoi e Semangelof foram reinterpretadas e associadas a santos protetores contra demônios e doenças: Senoi foi identificado com Santo Sisoe, um eremita egípcio venerado por seu poder de exorcizar espíritos malignos; Sansenoi tornou-se equivalente a Sisínios, um santo folclórico presente em textos mágicos bizantinos que combate demônios femininos nocivos a gestantes; e Semangelof foi relacionado a Sinidoro, figura da tradição apócrifa cristã oriental lembrada como um guardião espiritual e protetor de crianças contra forças maléficas.

Amuleto com representações, da direita para a esquerda, de Senoi, Sansenoi e Semangelof 

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21 de dezembro de 2025

Kronak

۞ ADM Sleipnir


Kronak (russo/bielorrusso: Кронак) é uma entidade demoníaca presente no folclore da região pantanosa de Yelnya, no norte da Bielorrússia. Considerado um espírito maligno de origem infernal, ele é descrito como uma criatura cega, grotesca e extremamente hostil a seres humanos e animais. Sua figura tornou-se uma das mais temidas da tradição local, especialmente entre aldeias próximas aos pântanos.

Aparência

Os relatos descrevem o Kronak como um humanoide colossal, medindo cerca de três metros de altura. Sua cabeça assemelha-se a um crânio de cavalo negro e alongado, totalmente desprovido de carne, do qual se projeta um único chifre afiado no topo. Sua boca exibe fileiras de caninos escurecidos, e as órbitas vazias revelam o ferimento que o tornou cego.

Seu corpo é coberto por uma pele negra quase sem pelos, marcada por úlceras purulentas que exalam um muco escuro e fétido. Os braços são longos e desproporcionais, alcançam quase o solo e terminam em mãos ossudas com garras afiadas, utilizadas tanto para se locomover quanto para dilacerar suas vítimas.

Arte de Artur Basak

Origem e Lenda

Segundo a tradição oral, o Kronak não é uma criatura natural, mas um demônio oriundo do submundo. Ele teria surgido no mundo mortal durante a Noite de Kupala, festividade eslava associada ao solstício de verão, quando a fronteira entre os mundos se torna mais tênue. A lenda relata que o demônio pretendia retornar ao submundo antes do amanhecer, pois a luz do sol lhe é fatal. Contudo, um homem corajoso o enfrentou durante os rituais da noite e conseguiu perfurar-lhe os olhos com um pedaço de madeira em brasa retirado da fogueira cerimonial. 

Cego e desorientado, o demônio não conseguiu reencontrar o portal que o levaria de volta às profundezas. Para escapar dos primeiros raios solares, refugiou-se nas regiões mais sombrias do pântano de Yelnya, onde permanece aprisionado desde então.

Comportamento 

O Kronak é uma entidade estritamente noturna. Privado da visão, desenvolveu uma audição sobrenatural capaz de captar a respiração ou até mesmo o batimento cardíaco de quem se aproxima. De acordo com a tradição local, a única forma de sobreviver a um encontro com a criatura é permanecer em silêncio absoluto, já que ela depende inteiramente do som para localizar presas.


Naturalmente agressivo, o Kronak é descrito como sádico e impiedoso. Muitas narrativas atribuem a ele o desaparecimento de viajantes e animais perdidos no pântano, cujos restos seriam encontrados em estado irreconhecível.

A simples presença do Kronak afetaria diretamente o ecossistema do pântano. Árvores tocadas por ele — especialmente amieiros — desenvolveriam manchas de mofo negro que se espalhariam até provocar a morte da planta. Essas marcas são, segundo o folclore, um indício de que o demônio circulou pela região recentemente.

Avistamentos e Tradição Contemporânea

Apesar de sua natureza claramente lendária, algumas narrativas situam encontros com o Kronak em momentos históricos. O caso mais célebre teria ocorrido em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, quando moradores afirmam ter visto a criatura emergir dos pântanos após intensos bombardeios alemães na área de Yelnya.

Atualmente, o Kronak permanece como figura central nas histórias de terror contadas por guias e habitantes locais, reforçando o imaginário sombrio associado aos pântanos da região.


fonte:

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20 de dezembro de 2025

Yeongno

۞ ADM Sleipnir

Arte de hanghul

O Yeongno (영노) é uma criatura mítica do folclore e do teatro popular coreano, especialmente proeminente nas danças dramáticas mascaradas (talchum, yaryu e ogwangdae), transmitidas principalmente na província de Gyeongsangnam-do. Trata-se de um espírito monstruoso de origem celeste, expulso ou descido do céu como punição, conhecido por punir os yangban (os nobres e oficiais corruptos), simbolizando o anseio popular por justiça e igualdade social.

Descrito como um ser semelhante a um dragão, o Yeongno é descrito como possuindo escamas, chifres curtos e rombudos e ausência de membros (embora a maioria das artes o represente com inúmeros braços), aproximando-se da forma serpentina do imugi (이무기), o dragão menor ou proto-dragão da mitologia coreana. Seu apetite é insaciável: ele devora tudo o que encontra, inclusive pessoas, objetos e até elementos da natureza. Apesar dessa voracidade, é visto de modo positivo por servir como instrumento de punição contra a ganância e a hipocrisia da elite.

Em certas versões das danças, o Yeongno carrega uma flauta (possivelmente de salgueiro) e produz um som ameaçador conhecido como "bibi", motivo pelo qual também é chamado de Bibi, e sua máscara, de "máscara Bibi". No Dongnae Yaryu (coreano:  동래야류), tradição teatral mascarada da cidade de Dongnae, Busan), a máscara é pintada de vermelho, cor associada ao yang] (陽), símbolo da energia positiva que expulsa os maus espíritos — metáfora para os nobres corruptos. Já na performance Tongyeong Ogwangdae (coreano 통영오광대놀이; variação do teatro mascarado da cidade portuária de Tongyeong), o Yeongno é representado com características de dragão e corpo elaboradamente decorado.

Seu comportamento, contudo, não é inteiramente destrutivo. Em versões como o Goseong Ogwangdae (coreano 고성오광대; versão local do teatro de máscaras de Goseong), o Yeongno demonstra complexidade moral, ocasionalmente exibindo princípios de hyo] (효) — a piedade filial —, o que revela uma ironia central: o monstro encarna virtudes éticas que a elite fingidamente professa. Essa caracterização o coloca em posição moralmente superior aos próprios nobres confucionistas que tenta devorar.

Em versões do Suyeong Yaryu (coreano 수영야류;  teatro mascarado tradicional da região de Suyeong, Busan), o Yeongno é retratado como tendo descido à Terra após cometer uma falta no Céu. Segundo a narrativa tradicional, o personagem procura devorar nobres para cumprir uma missão antes de retornar ao paraíso. Quando um yangban tenta enganá-lo, afirmando ser de linhagem nobre, o Yeongno o consome sem hesitar — um ato simbólico de purificação e ascensão.


fontes:

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18 de dezembro de 2025

Bullebak

۞ ADM Sleipnir


Bullebak é uma criatura lendária do folclore holandês, descrita como um espírito aquático que habita lagos, rios e canais. O nome vem de bulderen (“bramir”) e bak (“recipiente” ou “embarcação”), termo que passou a designar tanto uma pessoa ameaçadora quanto um ser sobrenatural usado para assustar crianças. Sua figura é conhecida desde o século XVII e servia como aviso contra o perigo das águas — uma forma de proteger crianças em uma época em que poucos sabiam nadar e os afogamentos eram comuns.

Aparência

A aparência do Bullebak varia conforme a região e o narrador. Ele já foi descrito como touro, um sapo gigante, um monstro verde e viscoso ou um ser humanoide com traços animais. Em comum, as histórias mencionam olhos brilhantes, dentes afiados, rugidos assustadores e, às vezes, um anzol com o qual ele agarra suas vítimas.

Distribuição Geográfica e Variedades Regionais

O Bullebak é mencionado principalmente nas províncias do norte e do leste da Holanda, como Noord-Holland, Groningen, Friesland, Gelderland, Drenthe e Overijssel. Sua presença é especialmente marcante na Frísia Ocidental (West-Friesland), em Noord-Holland, onde o nome aparece em expressões populares e histórias transmitidas de geração em geração. Ele faz parte de um conjunto mais amplo de espíritos aquáticos usados para assustar crianças, semelhante ao bogeyman (bicho-papão) e ao antigo arquétipo do Nekker/Nikker, comum nas mitologias germânicas e escandinavas.

Entre as principais variações regionais do Bullebak estão:
  • Boezehappert (ou Boesjappert): Encontrada em Friesland e Groningen, é descrita como uma criatura feminina das águas, de grande tamanho, com olhos verdes brilhantes, dentes pontiagudos, chifres, escamas e garras.
  • Boesjeude: Presente em Groningen e Drenthe, é vista como um espírito feminino das profundezas que atraía e raptava crianças desatentas.
  • Krolleman: Relato típico de Noord-Holland, menos documentado, mas com a mesma função de advertir os pequenos sobre o perigo das águas.
A eclusa Bullebaksluis

Um dos lugares mais associados à lenda do Bullebak é a Bullebaksluis, uma eclusa construída em Amsterdã entre os canais Lijnbaansgracht e Singelgracht. Entre os séculos XVII e XIX, acreditava-se que o monstro vivia nos redemoinhos próximos, arrastando para o fundo quem se aproximasse demais da água. Relatos antigos mencionam rugidos, ondas agitadas e olhos flamejantes surgindo sobre o portão da eclusa.

Após a demolição da antiga estrutura em 1844, o mito perdeu força na capital, mas permaneceu vivo no folclore holandês. Uma nova ponte foi erguida no local em 1930, e em 2023 uma escultura da criatura, criada pela artista Martie van der Loo, foi instalada ali, reacendendo o interesse pela lenda.


fontes:
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Ruby