10 de maio de 2014

A Edda Poética: Parte XV (FINAL) - Rígsþula

۞ ADM Sleipnir

Traduçaõ e notas de Márcio Alessandro Moreira.


O Rígsþula ("A Canção de Rígr") é um poema Eddico encontrado apenas no Codex Wormianus que é um dos manuscritos da Edda em Prosa de Snorri Sturlusson. Infelizmente esse poema hoje está incompleto e narra à saga sobre como Rígr (Heimdallr) fundou as bases da sociedade humana. Embora muitos estudiosos especulassem que Rígr talvez não seja Heimdallr, o poema Völuspá parece confirmar essa associação, onde os homens são chamados de "filhos de Heimdallr" (Völuspá 01/4). Rígsþula também é conhecido como Rígsmál ("Os Dizeres de Rígr").

Rígsþula

Assim dizem os homens em antigas sagas, que um dos Æsir, que é chamado Heimdallr, viajando em suas jornadas duma certa praia do mar, chegou a uma fazenda e se chamou Rígr*. Depois essa saga é cantada assim:

01-Em tempos antigos dizem que passou
por caminhos verdes,
poderoso e antigo,
o sábio Áss,
forte e bravo,
Rígr, caminhando.

02-Ele foi ao
meio do caminho*;
ele chegou a uma casa,
a porta estava no batente;
ele foi para dentro,
o fogo estava no chão;
um homem e uma mulher se sentavam ali,
grisalhos, na lareira,
Ái e Edda*,
cobertos com um capuz*.

03-Rígr sabia que
conselhos dizer;
ali se sentou
no meio,
e em ambos os lados
estavam o casal domestico.

04-Então Edda pegou
um pedaço de pão,
grande e grosso,
com farelos;
ela trouxe, além disso,
para o meio da mesa,
caldo* numa tigela,
ela sentou-se a mesa;
o bezerro cozido estava
o mais delicioso.

05-Rígr sabia que
conselhos dizer;
então ele se levantou dali,
pronto para dormir*;
ele logo foi
para o meio da cama,
e em ambos os lados
estavam o casal domestico.

06-Ali ele ficou
junto por três noites,
então ele foi
para o meio do caminho;
nisso se passaram
nove meses.

07-Uma criança gerou Edda,
na água o mergulharam*,
-- -- --
-- -- --*
de pele escura*,
e o chamaram de Þræll*.
08-Ele cresceu
e floresceu bem;
ali estavam rugas
em suas mãos,
articulações tortas,
-- -- --*
dedos robustos,
face medíocre,
costas encurvadas,
longos calcanhares.

09-Ele começou com isso,
a tentar sua força,
amarrou cordas*,
carregou cargas;
com isso ele carregava para lar
arbustos ao longo do dia.

10-Lá na habitação veio
uma serva andando,
ela estava com barro na sola dos pés,
braços queimados pela Sól*,
o nariz era curvado,
denominada Þír*.

11-No meio,
ela se sentou;
ela se sentou ao lado
do filho da casa;
falando e conversando,
prepararam a cama
Þræll e Þír,
em melancólicos dias.

12-Eles tiveram crianças,
- e eles viveram felizes, -
eu creio que as crianças se chamavam
Hreimr e Fjósnir,
Klúrr e Kleggi,
Kefsir, Fúlnir,
Drumbr, Digraldi,
Dröttr e Hösvir,
Lútr e Leggjaldi*;
eles faziam cercas,
colocavam estrume no campo,
alimentavam os porcos,
guardavam as cabras,
escavavam a turfa.

13-Suas filhas eram
Drumba e Kumba,
Ökkvinkalfa
e Arinnefja,
Ysja e Ambátt,
Eikintjasna,
Tötrughypja
e Trönubeina*.
Daí veio
à família dos escravos*.

14-Nisso Rígr foi
a caminhos retos,
ele chegou a um salão,
a porta estava semi-aberta,
ele foi para dentro,
havia fogo sobre o pavimento,
um casal se sentava ali,
ocupados com o trabalho.

15-O homem fazia ali
uma vara de tear de madeira;
a barba estava formada,
o cabelo estava volumoso em sua testa,
sua túnica apertada,
uma arca estava no chão.

16-Ali se sentava uma senhora,
girando uma roca de fiar,
com braços estendidos,
fazendo roupas;
um capuz estava sobre sua cabeça,
usando um guarda-pó sobre o peito,
um manto estava sobre o pescoço,
e um broche sobre os ombros.
Afi e Amma*
eram os donos da casa.

17-Rígr sabia que
conselhos dizer;
[ele se sentou
no meio,
e em ambos os lados
estavam o casal domestico].

18-[Então Amma pegou
-- -- --*
o bezerro cozido estava
o mais delicioso.]

19-[Rígr sabia que
conselhos dizer;]
ele se levantou da mesa,
pronto para dormir;
ele logo foi
para o meio da cama,
e em ambos os lados
estavam o casal domestico.

20-Ali ele ficou
junto por três noites;
[então ele foi
para o meio do caminho;]
nisso se passaram
nove meses.

21-Uma criança gerou Amma,
na água o mergulharam,
chamando-o Karl*,
a mulher agasalhou-o com roupas,
ele era [de rosto] avermelhado e ruivo,
com olhos trêmulos*.

22-Ele cresceu
e floresceu bem,
domesticou bois,
construiu o arado,
edificou casas de madeira
e construiu celeiro,
construiu a carroça
e conduzia o arado.

23-Então para essa casa se dirigiu
uma noiva com chaves balançado no cinto*,
com túnica de pele de cabra,
e se deu [em casamento] para Karl;
ela se chamava Snör*,
e se sentava coberta com um véu;
o casal viveu junto,
trocaram anéis,
cobriram-se com lençóis
e fizeram um lar.

24-Eles tiveram crianças,
- e viveram felizes, -
chamados de Halr e Drengr,
Hölðr, Þegn e Smiðr,
Breiðr, Bóndi,
Bundinskeggi,
Búi e Boddi,
Brattskeggr e Seggr*.

25-Mas assim que se chamavam
os nomes das outras,
Snót, Brúðr, Svanni,
Svarri, Sprakki,
Fljóð, Sprund e Víf,
Feima, Ristill*.
Daí veio
à família dos homens rústicos*.

26-Nisso Rígr foi
a caminhos retos;
ele chegou a um salão,
com a porta em direção ao sul,
a porta estava semi-fechada,
havia um anel no batente da porta.

27-Nisso ele entrou,
o pavimento estava coberto com palha;
o casal estava sentado,
olhando-se com os olhos,
Faðir e Móðir*,
que brincava com os dedos.

28-O homem da casa estava sentado
e enrolava o fio,
na curva do arco,
e preparava flechas;
mas a esposa
olhava em seus próprios braços,
alisando as roupas,
dobrando as mangas.

29-Ela tinha um véu,
havia um broche em seu peito,
um longo vestido,
uma camisa azul;
sobrancelhas brilhantes,
seios iluminados,
e pescoço branco,
mais puro do que a neve.

30-Rígr sabia que
conselhos dizer;
ele se sentou
no meio,
e em ambos os lados
estavam o casal domestico.

31-Então Móðir pegou
um pano bordado,
de linho branco,
cobriu a mesa,
nisso ela pegou
um pão fino,
de trigo branco,
e colocou sobre o pano da mesa.

32-Adiante ela trouxe
pratos cheios,
cobertos* com prata,
--* na mesa
com presunto branco
e pássaros assados,
o vinho estava no jarro,
os copos eram trabalhados;
bebiam e conversava,
o dia estava no fim.

33-Rígr sabia que
conselhos dizer;
nisso ele se levantou,
e preparou a cama.
Ali ele ficou
junto por três noites;
então ele foi
para o meio do caminho;
nisso se passaram
nove meses.

34-Um garoto gerou Móðir,
em seda embrulhou-o,
na água o mergulharam,
colocaram-lhe o nome de Jarl*;
louro* era o seu cabelo,
sua face brilhante,
e olhos penetrantes
como as das jovens serpentes.

35-Ali cresceu
Jarl, no salão,
aprendeu a sacudir o escudo,
colocar corda,
em arcos curvados,
pontas nas flechas,
atirar dardos,
sacudir a lança,
cavalgar cavalos,
caçar com cães*,
manejar a espada,
e a nadar.

36-Ali do bosque veio
Rígr andando,
Rígr andando,
ensinou-lhe runas,
transmitiu-lhe o seu nome*,
chamou-o de seu próprio filho;
ele pediu para este para que possuísse
seu patrimônio,
o patrimônio
de antigas habitações.

37-Dali ele cavalgou
através da Myrkviðr*,
sobre montanhas cinzentas,
até que ele chegou em um salão;
ele sacudiu a lança,
brandiu seu escudo,
cavalgou seu cavalo
e atirou sua espada,
guerras ele levantou,
planícies avermelhou*,
derrubou corpos,
lutou por terras.

38-Nisso ele governou sozinho
dezoito salões,
riquezas conseguiu acumular,
doou a todos
os tesouros e preciosidades,
e belos cavalos;
anéis ele distribuiu,
e cortou em pedaços os braceletes*.

39-Seus mensageiros se dirigiram
para úmidos caminhos,
chegando a um salão,
onde habitava Hersir*,
ele tinha uma filha
de dedos finos,
branca e sábia,
chamada Erna*.

40-Pediram por ela*
e se dirigiram ao lar,
e a deram [em casamento] para Jarl,
ela foi coberta com linho;
eles viveram juntos
e estavam felizes,
tiveram uma família
e viveram felizes.

41-Burr era o mais velho,
e Barn o segundo,
Jóð e Aðal,
Arfi, Mögr,
Niðr e Niðjungr,
- que se ocupavam com jogos, -
Sonr e Sveinn,
- nadavam e jogavam, -
um se chamava Kundr,
Konr* era o mais jovem.

42-Ali cresceram
os filhos de Jarl,
treinando cavalos,
empunhando escudos,
cortando flechas,
e sacudindo os freixos*.

43-Mas o jovem Konr
conhecia as runas,
runas eternas
e runas da vida;
ele conhecia mais,
que ajudavam os homens,
embotava as espadas,
e acalmava o mar.

44-Conhecia o canto dos pássaros,
aquietava o fogo,
adormecia as mentes*,
acalmava as tristezas,
ele tinha a força e resistência
de oito homens*.

45-Ele e Rígr Jarl
compartilharam runas,
mediram-se suas habilidades com ele
e sabia mais,
então venceu
e pode se dar
o nome de Rígr*,
o conhecedor das runas.

46-O jovem Konr cavalgou
pelos bosques e florestas,
atirou dardos,
aquietou pássaros.

47-Então um corvo disse isso,
que estava pousado num galho:
"Por que, jovem Konr,
tu aquieta pássaros?
Em vez disso tu poderias
cavalgar cavalos,
[manejar espadas]
e matar heróis*."

48-"Danr e Danpr*
possuem um querido salão,
altas propriedades,
mais do que tu tens;
eles sabem bem
conduzir um navio,
a usar a lâmina,
e fazer feridas*."


Notas do Rígsþula:

  • *Rígr possivelmente significa "Rei" e está certamente associado com a palavra em irlandês arcaico "ri" ou "rig" com o mesmo significado. A palavra "ríkr" em nórdico arcaico também pode ter relação, pois significa "governante" ou "poderoso".
  • 02/2* Miðgarðr.
  • 02/9* Ambos significam "Bisavô" e "Bisavó".
  • 02/10* Edda, Amma e Móðir aparecem todas cobertas com um capuz ou véu.
  • 04/7* Esse caldo era feito com a água que era cozinhada com a carne.
  • 05/4* O manuscrito tem a ordem dessas estrofes invertidas e aqui elas estão rearranjadas.
  • 07/2* Essa prática é o Ausa Vatni ("Mergulhar nas Águas"), que é um tipo de batismo pagão.
  • 07/4* O manuscrito parece indicar uma lacuna.
  • 07/5* Pele e cabelos escuros parecem indicar origem estrangeira entre os escandinavos. Saxo Grammaticus na Gesta Danorum relata que Haddingus ofertava vítimas negras em honra de Freyr. Esse festival anual era conhecido como Frøblót ("Sacrifício de Freyr").
  • 07/6* Significa "Escravo".
  • 08/6* O manuscrito parece indicar uma lacuna.
  • 09/3* Cordas feitas de certas árvores.
  • 10/4* O Sol ("Sól") é feminino no norte e a Lua ("Máni") é masculino.
  • 10/6* Þír significa "Mulher Servente".
  • 12/9* Os nomes significam: Hreimr ("Aquele Que Fala Alto"), Fjósnir ("Homem do Gado"), Klúrr ("Grosseiro"), Kleggi ("Mosca de Cavalo?"), Kefsir ("Guardião de Concubina"), Fúlnir ("Fedorento"), Drumbr ("Tronco"), Digraldi ("Gordo"), Dröttr ("Preguiçoso"), Hösvir ("Cinzento"), Lútr ("Aquele Que Está Sentado") e Leggjaldi ("Perna Longa").
  • 13/8* Os nomes significam: Drumba ("Tora"), Kumba ("Toco"), Ökkvinkalfa ("Pernas Gordas"), Arinnefja ("Que Cheira a Simples"), Ysja ("Barulhenta"), Ambátt ("Servente"), Eikintjasna ("Cavilha de Carvalho?"), Tötrughypja ("Vestida em Trapos") e Trönubeina ("A Que Estica as Pernas?").
  • 13/10* Em nórdico arcaico "Þræla Ættir".
  • 16/9* Ambos significam "Avô" e "Avó".
  • 18/2* O manuscrito está incompleto.
  • 21/3* Significa "Homem (Rústico)" ou "Camponês".
  • 21/6* É de se notar uma leve semelhança na descrição de Karl com o Deus Ruivo Þórr. Ambos possuem pele avermelhada, cabelos ruivos e modos rústicos.
  • 23/2* No poema Þrymskviða é dito que quando Þórr se disfarçou de Freyja usou chaves em seu cinto quando foi para Jötunheimr.
  • 23/5* Significa "Nora".
  • 24/8* Os nomes significam: Halr ("Homem"), Drengr ("O Forte"), Hölðr ("Proprietário"), Þegn ("Homem Livre"), Smiðr ("Artesão"), Breiðr ("O De Amplos Braços"), Bóndi ("Fazendeiro"), Bundinskeggi ("O De Barba Dividida"), Búi ("Vizinho"), Boddi ("Proprietário de Fazenda"), Brattskeggr ("O Que Carrega Grande Barba") e Seggr ("Homem").
  • 25/6* Os nomes significam: Snót ("Digna"), Brúðr ("Noiva"), Svanni ("A Esbelta"), Svarri ("A Orgulhosa"), Sprakki ("A Bela"), Fljóð ("Mulher?"), Sprund ("A Orgulhosa"), Víf ("Esposa"), Feima ("A Tímida") e Ristill ("A Graciosa").
  • 25/8* Em nórdico arcaico "Karla Ættir".
  • 27/5* Ambos significam "Pai" e "Mãe".
  • 32/3* Trabalhados.
  • 32/4* O manuscrito está danificado, mas acredita-se que a estrofe começava assim: "... os colocou..."
  • 34/4* Significa "Nobre". É de se notar que os chefes eram associados com a sabedoria das runas e ao culto de Óðinn.
  • 34/5* Os cabelos são um tom louro esbranquiçado.
  • 35/10* Estrofe meio difícil de se interpretar, pode ser uma alusão ao treinamento do cão para a caça ou de puxar o trenó.
  • 36/5* Heimdallr dá seu título de Rígr para seu filho Jarl.
  • 37/2* Significa "Floresta Negra".
  • 37/10* Com o sangue dos inimigos.
  • 38/8* Isso servia como dinheiro em tempos antigos na Escandinávia.
  • 39/4* Significa "Senhor". Em antigos dias antes do estabelecimento de um reino na Noruega, Hersir era tido como um chefe local e possuía grande autoridade.
  • 39/8* Significa "A Capaz".
  • 40/1* Pediram o consentimento para o pai dela (ou dela própria) para poder se casar
  • com Jarl.
  • 41/10* Os nomes significam: Burr ("Filho"), Barn ("Criança"), Jóð ("Criança"), Aðal ("Descendência"), Arfi ("Herdeiro"), Mögr ("Filho"), Niðr ("Descendente"), Niðjungr ("Filho"), Sonr ("Filho"), Sveinn ("Garoto"), Kundr ("Parente") e Konr ("Filho").
  • 42/6* Lanças.
  • 44/3* Também é traduzido como "adormecer o mar".
  • 44/6* Esses encantamentos são muitos semelhantes aos que são descritos no Hávamál.
  • 45/7* Konr e seu pai Rígr-Jarl mediram conhecimentos rúnicos e terminou com a vitória de Konr. Com isso ele passou a usar o título de Rígr depois de seu pai. Isso talvez indique que o filho era capaz de suceder o pai e que a herança era passada de pai
  • para filho.
  • 47/8* Também pode ser traduzido como guerreiros ou exércitos.
  • 48/1* Acredita-se que o Rígsþula possa ter sido redigido na Dinamarca. Fragmentos da Skjöldunga Saga afirmam que Rígr (ou Rigus) era casado com Dana, a filha de Danpr, o senhor de Danpsted. Conta-se que quando ele ganhou o título real de sua província, ele deixou isso como herança para Danr (ou Danum), seu filho com Dana, de onde vieram os Dinamarqueses.
  • 48/8* É uma pena, mas o manuscrito termina abruptamente.



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