O chamado Monstro da Fazenda Três Marcos é o personagem de uma lenda de Arapoti, no estado do Paraná. A lenda foi registrada em 2005 na coletânea Lendas e contos populares do Paraná, que não informa o nome do narrador nem quando o episódio teria ocorrido. Na narrativa, ele aparece como uma sombra flutuante que depois parece assumir a forma de uma esfera de fogo.
A narrativa
Segundo a história, um homem foi enviado pelo patrão para contar as pilhas de madeira deixadas por madeireiros em uma floresta. Como o acesso era difícil, ele seguiu a cavalo. Depois de atravessar uma porteira, o cavalo começou a resistir. Enquanto avançavam por um caminho entre as árvores, o homem sentiu arrepios e ouviu gemidos. O animal também permanecia inquieto.
Quando estavam a cerca de dez metros das pilhas de madeira, uma sombra de aspecto assustador apareceu diante deles. O cavalo se ergueu, derrubou o cavaleiro e começou a relinchar e corcovear. A figura parecia flutuar pouco acima do chão. Em seguida, a sombra pareceu assumir a forma de uma esfera de fogo, embora o relato também mencione as duas manifestações separadamente.
O fogo atingiu as pilhas de madeira e passou rapidamente de uma para outra. O homem conseguiu montar novamente e fugiu a galope. O cavalo só parou ao chegar a uma pequena porteira. Quando o cavaleiro olhou para trás, já não havia sinal da aparição. No dia seguinte, ele retornou ao local com o patrão e dois peões. Embora afirmasse ter presenciado o incêndio, o grupo não encontrou nada fora do lugar. O relato termina dizendo que, depois do episódio, ninguém mais teve coragem de voltar ao local.
fonte:
AUGUSTO CARNEIRO JR., R. (ED.). Lendas e Contos Populares do Paraná. [s.l: s.n.].
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O Monstro da Panela do Candal é uma criatura lendária do folclore de Bagé, no estado do Rio Grande do Sul. Segundo a tradição popular, trata-se de uma gigantesca cobra que habitaria a Panela do Candal, uma depressão natural situada nas proximidades da atual Catedral de São Sebastião. A lenda faz parte das narrativas sobre a fundação e o desenvolvimento da cidade, atribuindo ao monstro diversos desaparecimentos ocorridos na região.
A lenda
De acordo com a tradição, a criatura vivia originalmente em um grande rio localizado nos cerros de Bagé. Apesar de seu enorme tamanho, era descrita como um animal pacífico, que não atacava pessoas nem outros seres vivos. A narrativa afirma que não possuía dentes nem garras e permanecia quase sempre nas partes mais profundas dos rios, onde seu corpo encontrava espaço suficiente. Quando se movia sob a água, provocava fortes ondulações que faziam o rio parecer estremecer.
A tranquilidade do animal teria chegado ao fim quando passou a ser perseguido pelos soldados do tenente-general Dom Diogo de Sousa. Para escapar da caça, refugiou-se na Panela do Candal, nas proximidades do arroio Bagé, onde escavou um grande túnel subterrâneo para servir de abrigo.
Enquanto isso, o povoado crescia ao redor da região. Com a formação da freguesia, foi construída uma pequena capela dedicada a São Sebastião no local onde mais tarde seria erguida a atual catedral. Segundo a lenda, a expansão da ocupação humana reduziu o espaço disponível para a criatura, dificultando sua permanência em liberdade. Em determinado momento, o monstro teria emergido de seu esconderijo, derrubado as portas da capela e destruído tudo o que encontrou pelo caminho. Durante o confronto com os moradores, um jovem soldado o feriu com uma lança, atingindo um de seus olhos. Ferida, a criatura fugiu e retornou à Panela do Candal.
Após esse episódio, a cobra passou a permanecer quase sempre dentro do túnel, deixando apenas a cabeça para fora da água para respirar. A tradição afirma que, sentindo-se constantemente ameaçada, continuou ampliando a passagem subterrânea para acomodar seu enorme corpo.
Com o passar do tempo, a criatura teria deixado de ser pacífica e começado a atacar pessoas e animais. O primeiro desses ataques teria vitimado uma carroça puxada por dois cavalos e conduzida por um jovem, que desapareceram nas águas sem deixar vestígios. A partir de então, passaram a ser atribuídos ao monstro diversos outros desaparecimentos, entre eles os de uma lavadeira, uma criança de um circo, dois militares, um pescador, tropeiros, além de bois, cavalos, novilhos, vacas e terneiros. A lenda também menciona o desaparecimento de embarcações, carroças e carretas, cujos destroços jamais teriam sido encontrados.
Tradição popular
Segundo a crença popular, o Monstro da Panela do Candal continua vivendo em um extenso túnel sob a Catedral de São Sebastião. A lenda permanece como uma das mais conhecidas tradições folclóricas de Bagé, sendo transmitida entre gerações como parte do patrimônio cultural e do imaginário popular do município.
A Lenda da Lagoa Feia é uma narrativa do folclore paranaense associada ao município de Campo Magro, no Paraná. A história está ligada à localidade de Campo Novo e procura explicar, de forma sobrenatural, a origem da lagoa que dá nome à tradição.
Segundo a versão popular, há cerca de 150 anos teria existido no local uma igreja frequentada pelos moradores da região. Em uma Sexta-feira Santa, algumas pessoas teriam organizado um baile dentro do templo, por não haver outro espaço de lazer na comunidade. Como a data é considerada sagrada pela tradição cristã, o episódio foi interpretado como um ato de desrespeito religioso.
A lenda conta que, à meia-noite, a igreja afundou repentinamente, levando consigo todos os participantes da festa. No lugar onde ficava o templo, teria surgido a Lagoa Feia. Algumas versões acrescentam que um velho teria alertado os presentes antes do desastre, mas seu aviso não teria sido ouvido.
De acordo com a tradição oral, nunca foram encontrados vestígios da igreja nem os corpos das pessoas que estavam no baile. Também se diz que o fundo da lagoa jamais foi localizado e que suas águas, escuras e turvas, podem apresentar diferentes tonalidades, variando entre o vermelho, o verde e o amarelo.
A Lagoa Feia também é cercada por relatos de assombração. Moradores afirmam que, nas noites de Sexta-feira Santa, especialmente à meia-noite, seria possível ouvir choros de crianças, murmúrios e gritos vindos das proximidades da lagoa. Em algumas versões, aparecem ainda referências a figuras religiosas e outros elementos sobrenaturais.
O Lenhador Fantasma da Ilha Redonda é uma lenda do folclore de São Francisco do Sul, no estado de Santa Catarina. A narrativa está associada à chamada Ilha Redonda, assim denominada por pescadores em razão de seu formato circular. Segundo a tradição oral, a Ilha Redonda era conhecida por ser extremamente piscosa, atraindo pescadores de diversas localidades. Apesar da abundância de peixes, poucos se arriscavam a permanecer no local durante a noite. Ao anoitecer, o clima de mistério e apreensão levava muitos a deixar a ilha às pressas, retornando ao mar antes que a escuridão se intensificasse.
Os que decidiam permanecer relatavam experiências incomuns. Em noites de lua cheia, exatamente à meia-noite, quando o silêncio se tornava quase absoluto, ouvia-se ao longe o som de um machado golpeando árvores. O ruído, descrito como firme e ritmado, sugeria a presença de um solitário lenhador trabalhando na mata. Após cerca de trinta minutos, o som cessava repentinamente, e o silêncio voltava a dominar a ilha.
O fenômeno tornava-se ainda mais intrigante ao amanhecer. Esperava-se que, após uma atividade tão intensa, houvesse sinais claros de desmatamento. No entanto, não se encontrava qualquer árvore derrubada ou indício de intervenção humana, permanecendo a vegetação completamente intacta. Mesmo indivíduos céticos, que se dirigiam à ilha com o objetivo de comprovar ou desmentir os relatos, afirmavam ter ouvido o som do machado durante a noite, o que contribuiu para a difusão e permanência da lenda na região.
fontes:
SILVA, Angela C. Histórias e lendas de São Francisco do Sul. São Francisco do Sul: Editora Letradágua, 2004;
O Porco Preto é uma entidade do folclore brasileiro associada a narrativas populares das regiões Sul e Sudeste, com registros no município de Campo Largo, no estado do Paraná, e em São Luís do Paraitinga, no estado de São Paulo. Trata-se de uma criatura descrita como um porco de grandes proporções, de coloração negra intensa, que surge em estradas durante noites escuras.
Em Campo Largo, acredita-se que o Porco Preto aparece em estradas ermas, onde persegue pessoas e animais de forma agressiva. É considerado invulnerável a ataques físicos, não sendo afetado por paus, pedras ou disparos de arma de fogo. Segundo os relatos, a perseguição persiste até que a vítima alcance uma área habitada, momento em que a entidade desaparece subitamente. Já em São Luís do Paraitinga, no antigo beco do Império (atual rua da Ponte), sobre o rio Paraitinga, a tradição descreve a aparição de um grande porco negro que, à meia-noite, atravessa repetidamente a estrada de um lado a outro, sem jamais ser capturado. Nessa variante, a entidade apresenta um caráter mais elusivo do que agressivo, ressaltando sua natureza misteriosa e inatingível.
fontes:
ALCEU MAYNARD ARAÚJO. Estórias e lendas de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Ed. Literat. 1962;
CASCUDO, L. DA C. Dicionario do folclore brasileiro. 9° Edição. 2000.
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A lenda dos Piratas Fantasmas de Itapuã (ou Lenda do Tesouro dos Piratas Ingleses) é uma narrativa popular brasileira originária da região de Rio Grande do Sul, especialmente associada à Lagoa dos Patos e à Ponta de Itapuã. Ela remonta ao século XVII, período em que navios piratas cruzavam o Atlântico Sul com o objetivo de saquear as povoações costeiras do Brasil e capturar embarcações portuguesas e espanholas. Segundo a tradição oral, a tripulação desses navios era conhecida pela extrema crueldade, cometendo assassinatos e incêndios quando suas exigências por riquezas não eram atendidas.
De acordo com a narrativa, o capitão de um desses navios acumulou considerável fortuna a bordo, o que provocou desconfiança em relação a possíveis motins. Temendo ser assassinado por seus próprios homens, ele teria se dirigido à Barra do Rio Grande de São Pedro, adentrando a Lagoa dos Patos e lançando âncoras junto à Ponta de Itapuã. Na sequência, teria organizado um banquete para comemorar a riqueza adquirida, durante o qual, em conluio com seu imediato, um marinheiro jamaicano, envenenou o rum servido, resultando na morte de toda a tripulação.
O capitão e seu imediato teriam transportado as arcas do tesouro até a margem e subido aos altos de Itapuã, onde começaram a cavar o local do enterramento. O imediato, percebendo que provavelmente teria o mesmo destino trágico dos demais tripulantes, decidiu se precaver, levando consigo uma pistola. Durante o trabalho, quando o jamaicano desceu ao buraco para acomodar as arcas, o capitão, empunhando uma pá, golpeou-lhe violentamente a cabeça. Gravemente ferido, o imediato ainda conseguiu sacar sua arma e disparar contra o capitão, atingindo-o mortalmente. O comandante tombou sobre as arcas, enquanto o imediato, agonizando por três dias, acabou sucumbindo ao ferimento. Seus corpos permaneceram enterrados no local, cobertos pelo tempo e pelos elementos naturais.
A tradição popular afirma que os espíritos dos dois piratas ainda assombram a região. Relatos descrevem que, à noite, é possível ouvir lamentos e observar luzes azuladas em áreas próximas ao suposto enterramento. A lenda sustenta que a aparição das almas penadas cessaria apenas quando um cristão descobrisse e desenterrasse o tesouro. Além disso, acredita-se que construções realizadas nesse local podem ser “compartilhadas” com os espíritos que vagam em busca de suas riquezas.
A Lenda do Caixão Branco é umalenda registradana tradição oral de Campina do Simão, município do estado do Paraná, Brasil, associada à avareza e à punição espiritual após a morte. De acordo com os relatos locais, ela remonta a um tempo em que vivia na região um homem extremamente sovina e desconfiado. Era conhecido por sua avareza exagerada — economizava até mesmo na comida e evitava qualquer gesto de hospitalidade que pudesse representar gasto. Quando recebia visitas, limitava-se a atendê-las na varanda de sua casa, recusando-se a convidá-las para o interior, a fim de não ter de oferecer alimento ou chimarrão, gesto tradicional de acolhimento no sul do país. Durante as refeições, chamava a esposa para entreter os visitantes enquanto ele se retirava à cozinha, comia rapidamente e retornava para a conversa como se nada tivesse acontecido.
Diz-se que o homem acumulou considerável riqueza com a comercialização de pinheiros, mas, desconfiado de todos, enterrava o dinheiro em algum ponto de suas terras. Com o tempo, faleceu sem revelar a ninguém o local exato do esconderijo. Após sua morte, começaram a ser relatados fenômenos estranhos nas redondezas. Moradores afirmam que, depois da meia-noite, quem passa em frente à antiga casa do sovina pode ver um caixão branco flutuando. O objeto misterioso, segundo as testemunhas, voa em direção ao local onde o dinheiro foi enterrado, repetindo o trajeto como se o espírito do falecido ainda guardasse sua fortuna.
Com o passar dos anos, as terras do tal homem foram vendidas. O novo proprietário, ao ouvir as histórias sobre o tesouro oculto, teria se dedicado inteiramente à busca do dinheiro enterrado, escavando o solo em diversos pontos da propriedade — mas, conforme diz o imaginário popular, jamais o encontrou. A lenda é frequentemente vista como uma advertência moral sobre os males da avareza e o apego excessivo aos bens materiais. O caixão branco, símbolo da morte e da penitência, representa o castigo eterno do homem que, em vida, recusou-se a partilhar o que possuía — e que, mesmo após a morte, não consegue se desprender de suas riquezas.
fonte:
Lendas e Contos Populares do Paraná, de Renato Augusto Carneiro Jr.
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O Dragão de Guabiruba é uma criatura lendária associada ao município de Guabiruba, em Santa Catarina, Brasil. A lenda surgiu na região montanhosa do bairro Lageado Alto e tornou-se popular a partir de relatos ocorridos em 1982. De acordo com os relatos, a criatura é um animal voador de grande porte, com escamas, coloração marrom e língua vermelha de aproximadamente 20 centímetros, que lembra fogo. Testemunhas afirmam que o dragão teria asas abertas e aparência ameaçadora, causando pânico imediato.
Aparições e relatos
O primeiro relato documentado é do agricultor Pedro Ismanioti, que em 1982 afirmou ter visto a criatura enquanto cortava folhas de caeté para alimentar seus animais. Segundo sua esposa, Laura Ismanioti, Pedro ficou imóvel de medo ao avistar o dragão sobre um galho, quase encostando em sua cabeça. A experiência teria sido tão impactante que Pedro passou a carregar um terço no bolso e rezar diariamente durante um ano. No dia seguinte, acompanhado de um tio, Pedro retornou ao local, mas não teve coragem de se aproximar da grota onde teria visto o dragão. Posteriormente, o local foi convertido em roça de fumo.
Outro morador, Arlindo Lana, também relatou ter avistado a criatura enquanto trabalhava com um trator, descrevendo características semelhantes às de Pedro. Segundo relatos, Arlindo não conhecia a história de Pedro e nunca havia ouvido falar dela antes de sua própria experiência. Os relatos foram publicados pelo jornal O Município em 17 de agosto de 1990 e permanecem como a principal fonte de documentação sobre o dragão.
Reportagem publicada no jornal O Município em 17 de agosto de 1990. Foto: Arquivo O Município
O dragão e a queda de um avião
A lenda também é associada a um acidente aéreo ocorrido em Guabiruba em 1995. Segundo relatos populares, o dragão teria destruído um avião Cessna Caravan da TAM que sobrevoava a região do Aymoré, resultando na morte de duas pessoas. Investigações do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) descartaram a hipótese de falha mecânica, apontando condições climáticas adversas, desvio de rota e inexperiência da tripulação como fatores principais do acidente. Apesar disso, a narrativa do dragão como responsável pelo incidente é frequentemente citada em relatos populares e páginas de internet sobre a lenda.
Impacto cultural e turístico
Quatro décadas após o primeiro relato, a lenda do Dragão de Guabiruba consolidou-se como parte da identidade cultural do município. Inicialmente motivo de chacota entre moradores da região, a narrativa passou por um processo de ressignificação e hoje é reconhecida como elemento de valorização do patrimônio imaterial local.
A partir dos anos 2000, a aceitação da história levou à sua incorporação em iniciativas turísticas, educacionais e empreendimentos comerciais. A Secretaria de Turismo e a Fundação Cultural de Guabiruba passaram a promover a figura do dragão ao lado de outros personagens folclóricos da cidade, como o Pelznickel e a Befana. Totens com imagens alusivas à criatura foram instalados em diferentes pontos da cidade, e um painel grafitado do artista Wilson Neném retrata a lenda na sede da Fundação Cultural.
A história também está presente em atividades escolares, desfiles cívicos e eventos culturais, sendo utilizada como recurso pedagógico e artístico. A Academia de Letras de Guabiruba anunciou a inclusão da lenda no livro comemorativo dos 60 anos do município, reforçando seu valor como patrimônio simbólico.
No setor privado, a lenda inspirou produtos e empreendimentos temáticos. Restaurantes e bares locais oferecem pratos e bebidas que fazem referência ao dragão, como o Dragonbrot vendido no Biergartenplatz. A marca de roupas Use Guaba lançou camisetas e moletons estampados com a criatura, acompanhados de tags explicativos sobre a origem da lenda.
O turismo também se beneficiou diretamente: a Pousada Canto do Dragão, inaugurada em 2021, explora a temática em sua decoração e identidade visual, atraindo visitantes interessados na mitologia local. Outro projeto em andamento, a Montanha Encantada Dragão de Guabiruba, prevê a construção de uma eco estalagem temática com chalés, restaurante panorâmico, labirinto do dragão e trilhas, reforçando o potencial da lenda como atrativo turístico e gerador de renda para a região.
A Lenda do Morro do Tiracisma é uma narrativa popular do município de Planalto, localizado no estado do Paraná, Brasil. Transmitida oralmente desde meados do século XX, a história está associada a um trecho íngreme de estrada de terra, próximo à ponte do rio Capanema, que representava um desafio constante para motoristas e carreiros, sobretudo durante os períodos de chuva.
O Morro do Tiracisma situa-se nas proximidades de Planalto, a aproximadamente um quilômetro da ponte do rio Capanema, ao longo de uma antiga estrada de chão que conectava os municípios de Realeza e Planalto. A estrada foi aberta por volta de 1955 e ganhou notoriedade devido à sua inclinação acentuada e ao solo escorregadio nos dias chuvosos. O nome "Tiracisma" deriva da expressão popular "tirar a cisma", que significa perder o receio ou a desconfiança — uma referência à coragem necessária para enfrentar a subida em condições adversas. Caminhões frequentemente atolavam ou deslizavam na ladeira, exigindo o auxílio de juntas de bois e, posteriormente, de tratores agrícolas para vencer o trajeto.
Em 1965, o riacho localizado na base do morro foi oficialmente batizado como Riacho Tiracisma, perpetuando o nome da localidade. Posteriormente, em 1979, com a inauguração da rodovia asfaltada PR-281, as dificuldades enfrentadas pelos condutores foram em grande parte eliminadas. Apesar disso, o trecho original da estrada permanece acessível, ainda apresentando um forte declive.
Segundo relatos populares, um acidente trágico teria ocorrido nos primeiros anos de uso da estrada. Um lenhador, que transportava madeira em um carro de boi, perdeu o controle da carga durante a descida do morro. O veículo tombou, provocando a morte do condutor. Desde então, moradores e viajantes relatam manifestações misteriosas nas proximidades do Morro do Tiracisma. Os fenômenos mais frequentemente mencionados incluem o som de madeiras rolando morro abaixo e ruídos intensos provenientes da mata ao redor. Esses relatos sustentam a crença de que o espírito do lenhador — ou os ecos do acidente — ainda assombram a região.
fonte:
AUGUSTO CARNEIRO JR., R. (ED.). Lendas e Contos Populares do Paraná. [s.l: s.n.].
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Fogo Morto é uma crença folclórica presente no Rio Grande do Sul, que envolve tabus e superstições associados ao ato de reacender uma fogueira sobre os vestígios de outra já extinta.Associada ao culto do fogo como elemento sagrado, essa prática simboliza respeito, temor e transgressão espiritual. Acender uma nova chama sobre as cinzas de outra é visto como um ato profano, capaz de atrair desgraças. Essa tradição se aproxima de práticas religiosas de outros povos antigos, como os romanos e os gregos. No culto à deusa Vesta, por exemplo, não se reacendia uma nova chama sobre as cinzas de outra. O mesmo princípio era observado em cerimônias dedicadas aos Penates, deuses domésticos da Roma Antiga. Já entre os povos indígenas mixtecos, no México, é proibido reutilizar um tição usado anteriormente, como forma de respeito à divindade Titna Nihi, "la Abuela Encantada".
Um dos relatos mais emblemáticos da tradição do Fogo Morto é narrado pelo escritor e jornalista Roque Callage (1886-1931). Ele se passa na época anterior à chegada dos trens de ferro, quando carretas cruzavam lentamente o interior do Brasil. Um carreteiro rico, viajando com sua comitiva e sua boiada, decidiu acampar ao entardecer na beira de uma restinga. Vendo os vestígios de uma fogueira feita no local por outro viajante, resolveu aproveitar os restos de lenha e carvão ainda incandescentes para reacender o fogo e preparar o jantar.
A decisão, embora prática, é recebida com horror pelo seu ajudante, um piá, que identifica o ato como um mau presságio, dizendo: "Fogão de carreteiro, em cima de outro fogão, é sinal certo de desgraça!". E, de fato, a maldição se concretiza. Durante a noite, as chamas ganharam força e consumiram as carretas e suas cargas. Apesar dos esforços para conter o incêndio, inclusive trazendo água de uma sanga próxima, tudo virou cinzas. Quando o fogo finalmente se apagou de forma misteriosa — após o arroio secar —, o estrago já estava feito. E os infortúnios não param por aí. Pouco depois, o carreteiro descobriu que seus bois haviam desaparecido e, para completar sua desgraça, sua companheira fugira com outro homem, levando consigo todo o seu dinheiro e seus cavalos.
fonte:
LUÍS DA CÂMARA CASCUDO. Dicionário do folclore brasileiro. São Paulo: Global Editora, 2012.
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Angoera é uma figura lendária do folclore do Rio Grande do Sul, associada às tradições missioneiras deixadas pelos Sete Povos das Missões (conjunto de aldeamentos guarani-jesuíticos na fronteira do Brasil com a Argentina) Essa entidade, também conhecida como Generoso, é descrita como um espírito brincalhão e alegre, que participava da vida cotidiana das estâncias gaúchas, manifestando-se através de sons, cantos e danças.
Origem do nome
Angoera é uma contração do termo guarani Anhangoéra (ou Anhã-goéra), que significa "espectro" ou "fantasma", conforme definido pelo geógrafo e historiador Teodoro Sampaio. Outra interpretação, proposta por Plínio Ayrosa, deriva de anhúnga-oéra, traduzido como "alma astuta" ou "esperta", aludindo à sua inteligência e valentia.
Lenda
Originalmente, Angoera era um índio guarani de personalidade séria e taciturna. Porém, após ser batizado pelos jesuítas, recebeu o nome de Generoso e tornou-se uma figura alegre, apaixonada por música e dança. Ele Serviu fielmente aos padres missioneiros até sua morte, que teria ocorrido de forma pacífica e feliz.
Após sua morte, o espírito de Generoso continuou a se fazer presente na vida das estâncias gaúchas, manifestando-se de formas singulares e encantadoras. Dizia-se que, quando a noite caía sobre os campos e as famílias se reuniam em torno do fogão, súbitos estalos nas madeiras do teto ou nos vimes dos balaios anunciavam sua visita. Se uma viola fosse esquecida ao relento, logo se ouvia o som de suas cordas sendo tangidas suavemente, como se Generoso revivesse as canções que alegravam seus dias em vida. Nas casas, ele assobiava pelas frestas das portas, espreitando os moradores com curiosidade, e, quando as famílias se reuniam à luz das candeias, uma brisa invisível fazia a chama oscilar, projetando sombras dançantes pelas paredes.
Mas era nos bailes que sua presença se tornava mais evidente. Durante os fandangos nas estâncias ou as chimarritas nos ranchos humildes, os dançarinos sentiam, entre o rufar das violas, pisadas compassadas que não pertenciam a ninguém visível. E quando o cantor entoava versos com especial inspiração, muitas vezes repetia uma antiga copla, atribuída ao próprio Generoso:
"Eu me chamo Generoso,
Morador em Pirapó:
Gosto muito de dançar
Co’as moças, de paletó..."
Relação com Outras Lendas
Generoso apresenta semelhanças com outras figuras folclóricas, como o Saci-Pererê e o Santos Vega (da Argentina). No entanto, sua origem é anterior à disseminação do mito do Saci no Sul do Brasil, sendo uma criação autóctone do imaginário missioneiro.
Com o tempo, a lenda de Generoso foi se diluindo, especialmente com a chegada de novas correntes migratórias e o fortalecimento de outras assombrações regionais, como o Negrinho do Pastoreio. Ainda assim, sua figura permanece como uma das mais autênticas do folclore gaúcho, representando a alegria e a herança cultural guarani-jesuítica.
A Sereia da Furna do Diamante é uma personagem do folclore do litoral gaúcho, muito conhecida na cidade de Torres, no Rio Grande do Sul. De acordo com a lenda, ela é a guardiã de um tesouro escondido na Furna do Diamante, uma caverna esculpida pelas ondas no Morro das Furnas, também chamado de Torre do Meio, situado entre a Praia da Cal e a Praia da Guarita.
De acordo com a tradição oral, a sereia protege o interior da gruta, onde estaria oculto um tesouro formado por pedras preciosas e diamantes, supostamente vindos de embarcações que naufragaram na costa. Toda sexta-feira, em noites de lua cheia, ela aparece na entrada da caverna e pede um pente a quem a encontra. Quem lhe entrega o objeto sem questionar é recompensado com a revelação do local exato onde o tesouro está escondido. Entretanto, quem não atende ao pedido corre o risco de se perder no labirinto da caverna ou mesmo encontrar a morte.
Relatos de pescadores e moradores locais alimentam a lenda, afirmando que a sereia já foi avistada em várias ocasiões, tanto no mar quanto nas proximidades do Morro das Furnas. Muitos acreditam na veracidade da história e deixam pentes no local como forma de demonstrar respeito ou evitar desventuras.
A Cabeça do Enforcado é uma lenda paranaense, oriunda da região do Imbocuí, na cidade de Paranaguá. Ela fala sobre um escravo africano, que acabou matando o seu amo devido aos maus tratos que sofreu durante muito tempo. O escravo foi rapidamente julgado e condenado à morte por enforcamento poucos dias depois.
Naquela época, era um costume cortar a cabeça dos escravos após enforcá-los, e colocá-la sob um poste em um local bem visível e frequentado por outros escravos, para que servisse de exemplo para os mesmos. A cabeça deste escravo em particular foi colocada sob a Fonte da Cambôa, local que era diariamente frequentado por outros escravos. Os escravos que iam à fonte buscar água para seus amos, ao chegarem na ladeira, baixavam a cabeça para não olhar o crânio pendurado. O pavor invadia a alma deles, cheia de crendices e medos. Tinham verdadeiro horror de descer a ladeira ao anoitecer, pois dizia-se que a visão de um corpo sem cabeça vagava desde o escurecer até a alta madrugada, enlouquecendo quem por ali passasse.
Para os senhores de escravos, essa lenda era um meio seguro de obrigar os cativos ao trabalho, ameaçando-os, caso vadiassem, de mandá-los à fonte durante a noite. Esse costume manteve-se vivo desde o século XVII, nos tempos coloniais, até 1888, quando foi proclamada a abolição da escravatura. Com a independência do país, muitas leis foram revogadas, e com isso o crânio foi removido do local. Passados mais de 300 anos, a Fonte da Cambôa é hoje um lugar agradável e muito visitado pelos turistas. Já as terríveis histórias do tempo da escravidão cada vez ficam mais distantes e esquecidas.
Fonte da Cambôa nos dias atuais
fonte:
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Segundo uma lenda do povo indígena caingangue, originário da região Sul do Brasil, em tempos remotos, o fogo era um recurso escasso e monopolizado pelo guerreiro Minarã. Apenas ele detinha o segredo do fogo, enquanto o restante da tribo sofria com a falta de calor nas noites frias e era obrigado a consumir alimentos crus.
A única oca aquecida na aldeia pertencia a Minarã e era mantida acesa por sua filha, Iaravi. Minarã, egoísta, não compartilhava o fogo com os outros membros da comunidade. Nesse cenário, um jovem inteligente chamado Fiietó decidiu tomar o controle do fogo de Minarã. Fiietó transformou-se em uma gralha chamada Xakxó e, um dia, quando Iaravi estava se banhando no rio Gôio-Xopin, ele se lançou na água disfarçado de gralha. Iaravi, cuidadosa, socorreu a gralha e a levou para a oca próxima ao fogo para secar suas penas. Xakxó, assim que suas penas secaram, pegou uma brasa com o bico e voou.
Minarã perseguiu a gralha até que ela se escondeu em uma caverna com a brasa. Minarã tentou atingir a gralha com uma vara, que acabou manchada de sangue. Pensando que havia matado a gralha, Minarã retornou à sua oca. No entanto, Fiietó, esperto, simulou o sangue ferindo o próprio nariz para enganar Minarã.
Liberto do guerreiro egoísta, Fiietó voou até um pinheiro e reacendeu a brasa quase apagada em um ramo de sapé. O vento forte espalhou o fogo pelo campo e o propagou para matas e florestas distantes. Assim, não apenas os caingangues, mas também outros povos indígenas, passaram a conhecer o fogo. Desde então, cada aldeia preserva suas brasas e tições para garantir calor em suas casas e não mais passar frio.
O Baile dos Mortos é uma lenda oriunda do sul do Brasil, e que fala sobre um baile fantasmagórico, cujos participantes são almas de pessoas que morreram há muito tempo, vítimas de uma grande confusão. Existem ao menos duas versões da lenda, uma contada na cidade de Arapoti, no Paraná e outra em Piratini, no Rio Grande do Sul.
O Baile dos Mortos (Arapoti)
Certa noite, um vaqueiro passava próximo à Fazenda Esperança, quando ouviu sons de música ao longe. Apurando o trote de seu cavalo, o vaqueiro queria saber onde havia um baile e quanto mais rápido cavalgava, mais nítido era o som da música. Cavalgando por mais de uma hora pela mata, não encontrando casa alguma, muito menos um baile, chegou até um pequeno rancho onde morava um velho senhor.
Após ser acolhido e alimentado, o vaqueiro perguntou ao seu hospedeiro se não havia algum baile por ali. Como resposta, o ancião falou que há muitos anos existia ali uma fazenda; nesta a cada noite de passagem de ano havia um grande baile de gala, reunindo toda a vizinhança e até pessoas de outras localidades. Em um desses bailes, houve uma grande briga, onde acabaram morrendo muitos dos que ali se encontravam. Daquele dia em diante, toda noite de passagem de ano ouve-se a música e gritos de socorro.
O Baile dos Mortos (Piratini)
Contam os mais velhos que na região do terceiro subdistrito de Piratini (Paredão), em uma época onde havia muitos viajantes e andarilhos nesta região, um desses vendedores que andam pelo mundo fazendo entregas em pequenos bares ou botecos vinha montando seu cavalo baio em uma noite de vento tímido em princípios de dezembro. Ele assobiava uma milonga e, já cansado, viu de longe uma luz pequena alcançar seus olhos e resolveu segui-la. Passou, então, a ouvir uma cantoria e o violão sendo bem dedilhado por uma mão certamente ligeira.
O vendedor apeou do cavalo, entrou em um galpão velho, viu o local cheio de gente e sentiu um cheiro delicioso de pastel caseiro que lhe trouxe um apetite macanudo. Chegou, pediu licença, e já foi logo abraçado por um negro de calças curtas que gritou no meio do salão:
- Toca uma polca Damásio, que chegou visita para alegrar o baile. E tu, amigo, não te envergonhas. Convida as moças para dançar e te serve de pastel e cachaça à vontade.
O homem ficou agradecido, olhou para o canto, viu uma moça de longos cabelos negros e rosto de boneca. Os dois dançaram uma ou duas marcas. Depois, ele pediu um café para acompanhar o pastel, trocou um dedo de prosa com uma gurizada, falaram sobre caçadas e carreiras. Passou a noite se divertindo e fazendo novas e valorosas amizades. Mas, o tempo passou depressa, o galo cantou e o rapaz viajante saiu até a rua para fumar um palheiro, dar água para o cavalo e pensou alto:
- Mas que sorte a minha encontrar tantas pessoas faceiras, receptivas, e aquela moça, prenda formosa e educada. Vou voltar lá.
Arrancou uma florzinha miúda da beira da estrada e seguiu para o galpão. O sol já adentrava no céu, mas, quando chegou lá, não havia galpão nenhum, como dizem, ''nem rastro''. Não havia nada no lugar!
O rapaz, assombrado, abriu um velho portãozinho, que fez um barulho de arrepiar até a alma do vivente, deu uns passos apressados e avistou túmulos e um matagal tomando conta das sepulturas. Começou a olhar, um a um, e a reconhecer aqueles com quem havia estado no tal baile, inclusive a moça bonita por quem teve um cambicho. Ela estava pálida no retrato antigo da lápide, com o mesmo vestido de cor azulada que usava na festa! O homem ficou desesperado, depressa montou a cavalo e saiu desatinado estrada afora. Quando chegou na casa dos seus tios, mal conseguia falar. Os tios, então, tranquilizaram o rapaz, dizendo-lhe que outras pessoas por ali também estiveram no tal “Baile dos Mortos”, mas, ninguém explicava porque isso acontecia.
fontes:
Lendas e Contos Populares do Paraná, de Renato Augusto Carneiro Jr.