18 de dezembro de 2023

A Jornada ao Oeste: Capítulo XVII

۞ ADM Sleipnir

Arte de Moyi Zhang

CAPÍTULO XVII:


O O PEREGRINO SUN PERTUBA A PAZ DA MONTANHA DO VENTO NEGRO. A BODHISATTVA GUANYIN SUBJULGA O URSO

Ao ver o Peregrino saltando tão alto, os monges, os dhutas, os jovens noviços e os estudiosos do taoísmo ficaram tão aterrorizados que, prostrando-se no chão, exclamaram:

- Agora sabemos que sois um deus encarnado, capaz de cavalgar sobre a névoa e navegar acima das nuvens! Com razão não sofrestes nenhum dano durante o incêndio. Quão cego foi nosso velho patriarca! Ele usou sua inteligência para trazer ruína sobre nossas cabeças.

- Levantai-vos imediatamente - instigou-os Sanzang. - Não há tempo para arrependimentos. Se conseguirem encontrar a túnica, tudo ficará bem. Caso contrário, temo que tenham que dizer adeus ao mundo dos vivos. Meu discípulo tem um caráter muito irascível e acabará com todos vós num piscar de olhos.

Quando os monges ouviram isso, caíram no pânico e suplicaram ao Céu que os ajudasse a encontrar a túnica, para que todos pudessem permanecer vivos.


Enquanto isso, o Grande Sábio Sun, depois de subir alto e mover ligeiramente o corpo, chegou à Montanha do Vento Negro. Olhou atentamente e verificou que era um lugar realmente esplêndido, especialmente naquela época do ano. Inúmeros riachos fluíam por toda parte entre penhascos de beleza inalterável. Os pássaros eram contados aos milhares, mas não havia o menor vestígio humano. Até as árvores emitiam aroma, como se fossem flores. Quando chovia, a atmosfera se cobria com um manto de umidade azulada, enquanto os pinheiros pareciam biombos de jade sacudidos pelo vento. Onde quer que se olhasse, a vida brotava (flores e ervas selvagens, árvores cobertas de botões, glicínias...(1)) em uma paisagem onde se entrelaçavam planaltos e penhascos. Era impossível imaginar que não houvesse nenhum lenhador por ali. As garças bebiam em pares nos riachos, enquanto os macacos não se cansavam de brincar sobre as rochas. Por toda parte, os galhos das árvores espalhavam seu exuberante verde sobre a luminosa névoa da montanha.

O Peregrino estava apreciando a beleza da paisagem quando, de repente, ouviu vozes que pareciam vir de um campo próximo. Escondeu-se silenciosamente atrás de uma rocha e começou a espiar cuidadosamente. Assim, descobriu três monstros sentados no chão: o do meio era muito moreno, o da esquerda não podia negar que era taoísta, e o da direita era, sem dúvida, um homem de letras. Os três mantinham uma conversa animada, discutindo sobre a purificação dos objetos usados na alquimia (2), o refinamento do mercúrio e a obtenção da neve branca, temas prediletos do taoísmo heterodoxo. 

O moreno mudou inesperadamente de assunto e disse:

- Como sabem, depois de amanhã é meu aniversário. Querem acompanhar-me nesta data tão especial?

- Todos os anos celebramos juntos essa data - respondeu o letrado. - Como poderíamos faltar precisamente neste ano?

- Ontem - acrescentou o moreno, visivelmente satisfeito - encontrei um tesouro, que não hesito em considerar a túnica bordada de Buda. É extremamente elegante e pretendo usá-la no dia do meu aniversário. Quero dar um esplêndido banquete, no qual convidarei todos os nossos amigos taoístas das diferentes montanhas. Acho que não seria nada mal chamar esse banquete de Festival da Túnica de Buda. O que acharam da ideia?

- Fantástico, sinceramente fantástico! - exclamou o taoísta. - Será uma esplêndida ocasião para nos reunirmos.

O Peregrino não teve que pensar muito para perceber que a túnica da qual falavam não podia ser outra senão a de seu mestre. Incapaz de controlar a raiva, saiu de seu esconderijo e avançou sobre os três amigos perplexos, gritando enquanto brandia ameaçadoramente o bastão de ferro:

- Maldito monstro! Então foi você quem roubou o tesouro do meu mestre? Eu te mostrarei o verdadeiro Festival da Túnica de Buda! Devolve-a imediatamente, e nem tente fugir, porque não te servirá de nada!

Antes que ele terminasse de falar, desferiu um tremendo golpe em suas cabeças. O moreno conseguiu escapar, montando o vento; o mesmo fez o taoísta, cavalgando numa nuvem; apenas o letrado foi incapaz de fugir. O golpe o atingiu em cheio e ele morreu instantaneamente. 


Quando o Peregrino o virou, viu que não passava do espírito de uma cobra com manchas brancas. Após despedaçá-la, adentrou-se na montanha em busca do moreno. Escalou picos altíssimos que o conduziram a uma caverna aberta à beira de um precipício. Uma espessa névoa protegia sua boca, disfarçada pela sombra verde de ciprestes e pinheiros. A caverna estava situada em um lugar que, de alguma forma, lembrava a beleza do Monte Penglai (3).

O Peregrino chegou até a porta e a encontrou firmemente fechada. No dintel, havia uma laje de pedra na qual se podia ler: "Montanha do Vento Negro. Caverna do Vento Negro". 

Sun Wukong bateu na porta com seu bastão, gritando:

- Abra imediatamente!

- Quem é você para ousar chamar assim em nossa caverna imortal? - perguntou um pequeno demônio que parecia estar de guarda.

- Besta maldita! - insultou-o o Peregrino. - Que tipo de lugar é este para que arrogues, sem mais, o título de imortal? Essa é uma palavra que não mereces nem mesmo pronunciar! Entre imediatamente e diz a esse moreno para tirar imediatamente a túnica do meu mestre. Se o fizeres, pouparei a vida de todos vocês.


- Grande Rei! - informou o pequeno demônio ao seu senhor. - Receio que não poderá celebrar o Festival da Túnica de Buda. Lá fora, há um monge com o rosto totalmente coberto de pelos e uma voz de trovão que exige a entrega imediata dessa peça.

O moreno acabara de chegar à caverna. Nem mesmo teve tempo de se sentar.

- Eu me pergunto de onde veio esse sujeito - pensou - , tão arrogante que ousou aparecer fazendo exigências na minha porta!

Pediu sua armadura e, depois de ajustá-la ao corpo, saiu da caverna com uma lança negra nas mãos. 

O Peregrino o esperava de um lado da porta com seu bastão de ferro. O monstro apresentava-se verdadeiramente marcial com seu elmo negro de aço polido, sua couraça de ouro negro que brilhava como o próprio sol, uma túnica de seda negra com mangas chamativamente largas, e uma faixa com franjas igualmente negras. Na mão segurava uma lança negra e, como se isso não bastasse, calçava botas de couro negro. Estranhamente, tinha olhos de pupilas douradas que lembravam o chicote do raio. Era assim que chamavam o Rei do Vento Negro.

- Esse tipo - pensou o Peregrino prestes a soltar uma risada - parece um mineiro ou alguém que trabalha em uma fornalha. Deve se dedicar a vender carvão. Do contrário, não entendo como pode ser tão negro.

- Que tipo de monge és tu para ousar ser tão insolente? - repreendeu-o o monstro com voz potente.

- Deixe de falar bobagens! - replicou o Peregrino, lançando-se contra ele com seu bastão de ferro. - Fale menos e devolva imediatamente a túnica do meu mestre.

- De que monastério você é, e onde perdeu a túnica da qual você fala, para vir até aqui exigir que eu a devolva? - perguntou o monstro.

- Minha túnica estava nos aposentos atrás do Templo de Guanyin, ao norte daqui. Aproveitando-se da confusão criada pelo incêndio, você se apoderou dela e agora pretende organizar um Festival da Túnica de Buda para celebrar teu aniversário. Você não pode negar. Devolva-a e perdoarei sua vida. Caso contrário, invadirei a Montanha do Vento Negro e destruirei  sua caverna. E eu garanto que nenhum de seus demônios sobreviverá.

- Que valente você é! - replicou o monstro, rindo com desprezo. - Foi você quem provocou o fogo, avivando o vento do alto do telhado. Admito que levei a túnica. E daí? O que pretende fazer para que eu a devolva? Não sei de onde você é e nem como se chama. Que poderes possui, além disso, para vir até aqui exigir isso com palavras tão descaradas como as que acabou de usar?

- Então, não me reconhece! - respondeu o Peregrino. - Sou discípulo do mestre Sanzang, irmão do governante da Grande Nação Tang. Meu nome completo é Sun Wukong, e quanto aos meus poderes, digo-lhe que são suficientes para te fazer tremer como uma folha.

- Nesse caso - zombou o monstro -, me conte sobre suas habilidades.

- Pois prepare-se e ouça atentamente - afirmou o Peregrino - , pois agora mesmo irei contá-las. Desde minha mais tenra juventude, possuo habilidades mágicas, capaz de me transformar em algo tão etéreo quanto o vento. Não satisfeito com isso, iniciei o estudo do Tao e consegui escapar à roda do karma. Minha busca pela Verdade me levou ao Monte Ling-Tai (4), onde residia um imortal ancião, que acabara de completar cento e oito mil anos. Não demorou a se tornar meu mestre. A ele devo o conhecimento do segredo da longevidade. Ele me ensinou que em nosso próprio interior está a resposta para todos os mistérios, tornando-me assim partícipe da ciência dos deuses. Se não fosse por ele, não teria conseguido avançar em meu empenho. Foi ele quem fez brilhar minha luz interior, fazendo com que o sol e a lua (5) copulassem dentro de mim. Isso me livrou de todos os meus pensamentos e desejos. Como resultado, meu corpo se fortaleceu, e meus seis sentidos (6) foram purificados. Que perto eu estava do mundo dos sábios! Três anos sem perder uma única gota de minhas essências corporais me conferiram uma natureza semidivina e me colocaram acima dos sofrimentos normais de um mortal. Movia-me livremente entre os Dez Ilhéus e as Três Ilhas (7), chegando até mesmo ao Céu. Então, no entanto, ainda não havia ascendido ao Nono Paraíso. Era apenas um domador de dragões que conseguiu adquirir o inestimável tesouro de um bastão com pontas de ouro, Senhor da Montanha das Flores e Frutos, que reuniu ao seu redor um grande número de monstros na Caverna da Cortina de Água. Não é de surpreender que o Imperador de Jade me tenha concedido o título supremo de Sósia do Céu. Por três vezes, mergulhei o Palácio da Névoa Divina na mais completa confusão. Em uma delas, apropriei-me de todos os pêssegos de Xiwangmu. Isso fez com que mais de cem mil guerreiros celestiais fossem enviados contra mim, armados até os dentes com lanças e espadas. O Príncipe Nezha sofreu uma derrota vergonhosa, e o Devaraja teve que retornar sem honra aos Céus. Com o Mestre Hsien-Shang (8), foi diferente. Também conhecia todos os segredos da metamorfose, e nosso encontro foi memorável. Lao-Tse, Guanyin e o Imperador de Jade o contemplaram, impacientes pelo resultado, da Porta Sul. Vendo que as coisas não iam de acordo com seu gosto, Lao-Tse decidiu ajudar Hsien-Shang, e fui levado à corte celestial. O juiz determinou que eu fosse amarrado a uma coluna para esquartejar monstros e que meu corpo fosse reduzido a pequenos pedaços. Mas machados e facas não puderam nada contra mim. Em seguida, ordenaram que eu fosse exposto ao poder destrutivo dos raios, mas foram igualmente incapazes de me ferir. Fui então colocado no forno de Lao-Tse, obtendo resultados idênticos. Assim que levantaram a tampa, escapei e golpeei com minha barra de ferro todos os que ousaram interpor-se em meu caminho, sem que ninguém pudesse me deter. Os Trinta e Seis Céus conheceram o poder destrutivo de minha ira. No final, Tathagata conseguiu me dominar e me aprisionou sob a Montanha das Cinco Fases, onde permaneci por quinhentos anos, após os quais Tripitaka me libertou, e agora sigo com ele em direção ao Oeste para me encontrar com o de Sobrancelhas de Jade (9) no Palácio do Trovão. Se não acredita em mim, pergunte aos quatro pontos do cosmos, e eles te falarão de minha fama e de minhas proezas.

- Então, tu és o "pi-ma" que mergulhou os céus em total desordem? - exclamou o monstro, soltando uma risada.

Não havia nada que irritasse mais o Peregrino do que esse nome. Assim que o ouviu, ficou furioso e gritou, fora de si:

- Maldito monstro! Tens a obrigação de devolver a túnica que roubaste, e em vez disso, insultas um monge santo. Não fuja, pois eu quero que prove o sabor do meu bastão!

O monstro se esquivou por pouco, segurando firmemente a lança, e avançou contra seu adversário, iniciando uma esplêndida luta. Os dois lutadores exibiram todo o seu sabor guerreiro diante da caverna, multiplicando os golpes direcionados à cabeça e ao coração. Felizmente, a técnica de ambos era perfeita, e eles se esquivavam uma e outra vez. Enquanto um abria a garra como um tigre escalando uma montanha, o outro se revolvia pelo chão como um dragão brincando. Não em vão eram o Grande Sábio, Sósia do Céu, e o Grande Rei Negro, dois monstros com poderes divinos lutando até a morte pela posse de uma túnica. Mais de dez vezes as armas se cruzaram sem que, ao meio-dia, um claro vencedor se destacasse. 

Aproveitando-se da lança para imobilizar temporariamente o bastão de ferro, o monstro respirou e disse:

- Deixemos as armas de lado por enquanto e vamos comer algo. Depois, continuaremos a batalha. Tudo bem?

- Maldita besta! - exclamou o Peregrino. - Quer se fingir de herói? Que herói pensa em comer depois de lutar por apenas metade de um dia? Pense no velho Macaco, aprisionado sob a montanha por quinhentos anos sem sequer uma gota d'água! Então, o que quer dizer com esta história de fome? Não me venha com desculpas e não fuja! Devolva a túnica e eu o deixarei ir comer.

Mas o monstro só conseguiu dar mais uma investida fraca com sua lança antes de se correr para o interior da caverna e fechar suas portas de pedra. 

Sem se importar com os protestos do Peregrino, chamou seus servos e ordenou que preparassem um banquete, encarregando-se pessoalmente de escrever os convites para os Reis Monstros das outras montanhas. Enquanto isso, o Peregrino fez o que pôde para derrubar a porta, mas todos os seus esforços foram inúteis, e ele teve que voltar ao Templo de Guanyin. Os monges já haviam enterrado o velho monge e estavam reunidos em um dos aposentos posteriores, servindo a comida a Sanzang, que havia terminado o café da manhã há pouco. Ao ver o Peregrino, pararam de despejar a sopa e inclinaram respeitosamente a cabeça, dando-lhe as boas-vindas.

- Então voltaste, Wukong! - exclamou Sanzang. - E quanto à minha túnica?

- Encontrei quem a roubou - respondeu o Peregrino. - Ainda bem que não matei nenhum desses monges, porque, como suspeitávamos, o ladrão foi o monstro da Montanha do Vento Negro. Como se recordarão, fui em busca dele e o encontrei em um prado lindíssimo, conversando animadamente com um letrado vestido de branco e um ancião taoísta. Sem ser torturado, ele estava fazendo, de certa forma, uma confissão. Disse que em dois dias seria seu aniversário e que planejava convidar todos os monstros da região. Também mencionou que na noite passada havia encontrado uma túnica bordada de Buda, motivo pelo qual daria um esplêndido banquete, ao qual pretendia chamar de Festival da Túnica de Buda. Ao ouvir isso, saí do meu esconderijo e desferi um golpe com meu bastão sobre eles, mas tanto o sujeito moreno quanto o taoísta conseguiram escapar. Não teve a mesma sorte o letrado vestido de branco, que caiu no chão fulminado, transformando-se numa serpente manchada. Sem perder tempo, corri em perseguição ao monstro, que conseguiu se refugiar em sua caverna. Exigi que saísse para lutar, e embora tenha reconhecido ter roubado a túnica, nos envolvemos numa batalha que durou aproximadamente meio dia, sem que nenhum dos dois saísse vencedor. Inesperadamente, o monstro voltou para sua caverna, alegando que estava com fome e queria comer. Fechou a porta com força e se recusou a continuar lutando, então decidi vir ver como estavam as coisas por aqui e informar sobre o que aconteceu. De qualquer forma, agora que sei onde está a túnica, não me preocupa se ele quer devolvê-la ou não.

- Bendito seja Amitaba! - exclamaram aliviados os monges, alguns ajoelhando-se no chão. - Isso significa que nossas vidas não correm mais perigo. O paradeiro da túnica foi finalmente encontrado!

- Não cantem vitória tão cedo - aconselhou o Peregrino. - Saber onde está não significa que a tenha recuperado. Além disso, meu mestre ainda está aqui. Se mostrarem indiferença a ele, lembrem-se de que terão que lidar comigo. Deram a ele os manjares mais requintados? E o que fizeram com o cavalo? Deram a ele toda a palha que quis?

- Sim, sim, sim! - apressaram-se a responder os monges. - Garantimos que nenhum deles ficou sem nada.

- Isso é verdade - confirmou Sanzang. - Veja, você esteve fora apenas meio dia, e me serviram chá três vezes e me deram pratos vegetarianos duas vezes. Garanto que não poderiam ter sido mais diligentes. Você deveria se apressar em recuperar a túnica para evitar tantos transtornos quanto estou causando a eles.

- Não há pressa - replicou o Peregrino. - Agora que sei onde ela está, pode ter certeza de que vou devolvê-la. Fique tranquilo.

Enquanto falavam, o guardião do monastério trouxe algumas iguarias vegetarianas para Sun Wukong. O Peregrino comeu um pouco e, montando na nuvem, partiu em busca do monstro. 

Enquanto voava, avistou um demônio com uma caixa de madeira de pereira debaixo do braço. Suspeitou imediatamente que poderia estar carregando algo importante e, erguendo o bastão de ferro, o deixou cair com força sobre a cabeça do demônio, que foi reduzido a carne moída. 

O Peregrino abriu a caixa e descobriu que havia um convite em seu interior, onde se lia:

"Vosso discípulo e servidor, o Urso, dirige-se respeitosamente a vós, o respeitável decano do Estanque Dourado. Estou profundamente agradecido pelos magníficos presentes que me enviastes em diferentes ocasiões. Lamento não ter podido ajudar-vos na noite passada, quando fostes visitado pelo Deus do Fogo. Espero que vossa eminência não tenha sido afetada por ele de modo algum. Por pura casualidade, chegou até minhas mãos uma túnica de Buda e pensei que tanta boa sorte merecia uma celebração. Preparei, portanto, um vinho de altíssima qualidade, que desejo compartilhar com vossa respeitável eminência. O evento a que vosso discípulo e servidor se refere terá lugar dentro de dois dias."

Ao terminar de ler, o Peregrino riu e disse: 

- Essa velha carcaça! Ele não perdeu nada com a morte! Então ele era amigo do monstro! Não me surpreende que ele tenha vivido até os duzentos e setenta anos! Imagino que esse monstro deva ter ensinado a ele algum pequeno truque mágico como ingerir sua respiração, e assim pode desfrutar de tamanha longevidade. Ainda me lembro de como ele parecia. Vou me transformar nele e ir até a caverna para ver onde está a túnica. Tentarei recuperá-la sem desperdiçar minha energia.

Após recitar um encantamento e virar-se para o vento, ele se transformou instantaneamente assumindo a aparência do velho monge. Escondendo seu bastão de ferro, aproximou-se da entrada da caverna e gritou:

- Abram a porta!

Assim que o demônio que guardava a porta o viu, correu para informar seu senhor:

- Senhor, o Ancião do Lago Dourado chegou!

- Que estranho! - exclamou, surpreso, o monstro. - Acabei de enviar-lhe um convite. Ele nem teve tempo de recebê-lo. Como pode um homem tão idoso como ele ter vindo tão rapidamente? O mais certo é que Sun Wukong tenha pedido a ele que venha pegar a túnica. Então escondam-na imediatamente e não o deixem ver.

Depois de ultrapassar a porta principal, o Peregrino viu o verde dos pinheiros e bambus que cresciam no pátio interno, os pessegueiros e ameixeiras que pareciam competir em beleza, e as mil espécies de flores que enchiam até o último canto daquele lugar privilegiado. O ar estava totalmente impregnado com o aroma das orquídeas. Era verdadeiramente uma caverna celestial. Nas jambas de uma segunda porta, Sun Wukong viu coladas duas tiras de papel onde se lia:

"Um retiro no interior da montanha, onde as preocupações mundanas não alcançam. Uma caverna divina isolada, onde se desfruta da serenidade."

- Dá para perceber que este monstro - pensou o Peregrino - conhece perfeitamente o destino de tudo que vive e faz o que pode para se afastar da sujeira e da lama.

Ele atravessou uma terceira porta e deparou-se com uma construção com beirais ricamente decorados e amplas janelas adornadas. O monstro não demorou a aparecer. Vestia uma túnica de seda verde escuro, usava um gorro da mesma cor na cabeça e calçava um par de botas de couro. Ao ver o Peregrino entrar, ajustou suas roupas e, saindo ao seu encontro, disse em tom de boas-vindas:

- Meu querido amigo, quanto tempo faz desde que nos vimos! Sente-se, por favor!

O Peregrino retribuiu a saudação e os dois se sentaram para tomar chá. Assim que terminaram, o monstro se inclinou reverentemente e disse:

- Acabei de enviar-lhe um convite para vir à minha humilde mansão depois de amanhã. A que devo a honra de desfrutar de sua companhia tão cedo?

- Decidi vir prestar meus respeitos após me deparar com seu mensageiro - respondeu o Peregrino. - Ao saber que planeja celebrar o Festival da Túnica de Buda, não pude conter a impaciência e corri para ver essa maravilha.

- Você deve estar enganado, meu caro amigo - exclamou o monstro, soltando uma gargalhada. - Essa túnica originalmente pertenceu ao monge Tang, que, pelo que sei, é seu hóspede. Por que você quer tanto vê-la, já que certamente teve a sorte de apreciar sua beleza antes?

- Esse pobre monge - respondeu Peregrino - a tomou emprestado, sim, mas não teve a oportunidade de examiná-la antes de ser levada pelo Grande Rei. Além disso, o nosso monastério, incluindo todos os nossos pertences, foi destruído por um incêndio, e o discípulo daquele Monge Tang estava bastante beligerante a respeito do assunto. Em toda aquela confusão, não consegui encontrar a túnica em lugar nenhum, sem saber que o Grande Rei, em sua boa sorte, a encontrou. É por isso que vim especialmente para vê-la.

Enquanto falavam, um dos demônios que tinham saído em patrulha retornou e informou ao seu senhor:

- Que horrível desgraça, Grande Rei! O oficial que enviastes para entregar os convites foi assassinado por Peregrino Sun, e seu corpo jaz sem vida à beira do caminho. Suspeito, portanto, que nosso inimigo tomou a forma do ancião do Estanque Dourado e está tentando roubar a túnica de Buda.

- Então é ele? - alarmou-se o monstro. - Já desconfiava que ele tinha vindo rápido demais.

Sem perder tempo, ele agarrou sua lança e a lançou contra o Peregrino. Sun Wukong, felizmente, bloqueou o golpe com a barra de ferro e assumiu sua forma habitual. 

Sem parar de lutar com ferocidade, passaram do salão de visitas para o pátio e, de lá, para fora da caverna. Todos os monstros que lá habitavam, sem distinção de posição ou idade, tremeram de terror. A batalha foi, de fato, a mais feroz que ocorreu nessas montanhas. Não à toa, o Rei dos Macacos transformado em monge e o monstro ladrão de túnicas eram dois excelentes lutadores. Seus reflexos os faziam responder aos golpes com uma precisão murmurada. Quanto valor aquele tesouro inestimável tinha para eles! Se o demônio da patrulha não tivesse falado, nenhum dos dois teria despendido tanta energia. A lança e a barra se chocavam repetidamente, preenchendo todo o espaço com o rugido da guerra. Eles eram rivais dotados de poderes idênticos, pois, enquanto Wukong dominava a arte das transformações, o monstro conhecia uma infinidade de fórmulas mágicas. Um estava empenhado em devolver a túnica ao seu mestre, enquanto o outro a queria para celebrar seu aniversário. Como poderiam desistir dela de boa vontade? Não é de surpreender que, desta vez, a luta parecesse interminável. Nem mesmo Buda pessoalmente teria sido capaz de detê-la.

Sem parar de guerrear por um segundo sequer, os dois chegaram ao topo da montanha. Mas não pararam por aí, continuaram erguendo as armas acima das nuvens. Levantando ondas de vento, névoa e pedras, lutaram sem parar até que o sol se pôs a oeste. No entanto, nenhum dos dois obteve uma vantagem apreciável. Nesse momento, o monstro sugeriu:

- Ei, Sun! Que tal deixarmos isso para amanhã? Está ficando muito tarde, e não podemos continuar lutando. Se você concordar, retomaremos a luta assim que amanhecer. Combinado?

- Se quiser lutar - replicou o Peregrino -, comporte-se como um guerreiro e não me venha com desculpas de que está ficando tarde.

Mal tinha terminado de dizer isso, desferiu uma chuva de golpes na cabeça de seu adversário, mas o monstro se transformou mais uma vez, tornando-se uma brisa leve e se refugiou na caverna. Em seguida, fechou firmemente as portas de pedra e se recusou a sair de lá. Ao Peregrino não restou alternativa senão retornar ao Templo de Guanyin. 

Sanzang ficou muito feliz em vê-lo, mas, ao perceber que não trouxe a túnica, temeu o pior e perguntou:

- Por que ainda não trouxe a túnica de volta? 

O Peregrino então tirou da manga o convite e o entregou a Sanzang, dizendo: 

- Mestre, por acaso descobri que o monstro e aquele velho ancião eram amigos. Inclusive, ele enviou um de seus pequenos demônios com um convite para que o ancião participasse do grande Festival da Túnica de Buda. Eu matei o demônio e assumi a forma do velho monge para poder entrar na caverna. Consegui enganá-lo, mas, quando pedi para me mostrar a túnica, ele se recusou categoricamente. Enquanto tomávamos chá, um de seus patrulheiros chegou e o informou de tudo o que aconteceu, após o qual nos envolvemos em um violento combate. A batalha durou até o início da noite e, como aconteceu da primeira vez, terminou em empate. Quando o monstro viu que já era tarde, esquivou para dentro da caverna e trancou as portas de pedra, então não me restou outra alternativa senão retornar.

- Como é a sua habilidade como lutador comparada à dele? - perguntou novamente Sanzang.

- Não muito melhor - respondeu o Peregrino. - Estamos bem equilibrados.

Sanzang leu mais uma vez o convite, entregou-o ao guardião do monastério e perguntou:

- Quais são as chances de seu mestre ser um espírito monstro?

- Nenhuma - respondeu imediatamente o guardião, caindo de joelhos. - De fato, ele era totalmente humano. Uma vez que o Rei Negro atingiu o grau de humanidade que agora possui através da meditação, vinha frequentemente ao monastério discutir as escrituras sagradas com meu mestre. Em troca, ensinava-lhe algumas práticas mágicas, como o domínio da respiração e o cultivo de suas próprias essências. Foi assim que se tornaram grandes amigos.

- Esses monges não parecem monstros - comentou o Peregrino. - Todos têm, de fato, uma cabeça redonda apontando para o céu e um par de pés firmemente plantados na terra. Talvez sejam um pouco mais altos e pesados que eu, mas, com certeza, não são monstros. Vocês notaram a assinatura do convite? "Vosso servo, o Urso". Daí deduzo que essa criatura deve ser um urso negro que se tornou um espírito.

- Ouvi dizer dos antigos - afirmou Sanzang - que o urso e o macaco pertencem à mesma família. Em outras palavras, ambos são bestas. Como esse urso pode ter se tornado um espírito?

- Eu também sou uma besta - disse o Peregrino, rindo. - No entanto, tornei-me o Grande Sábio, Sósia do Céu. Qual é a diferença entre homens e animais ? Todos os seres deste mundo que possuem as nove aberturas podem se tornar imortais, praticando a Grande Arte.

- Você mesmo acabou de admitir que ambos possuem habilidades semelhantes - Sanzang o repreendeu. - Como pretende derrotá-lo e recuperar minha túnica?

- Não se preocupe com isso - tranquilizou-o o Peregrino. - Eu sei como farei isso.

Enquanto discutiam sobre isso, os monges lhes serviram o jantar. Após a refeição, Sanzang pediu algumas tochas e se retirou para descansar no salão Zen. A maioria dos monges passou a noite sob toldos apoiados nos muros deteriorados, reservando os aposentos da parte de trás para os monges de maior dignidade. A hora estava muito avançada. A Via Láctea brilhava como se fosse um riacho de prata, o ar era puríssimo e o céu estava pontilhado de estrelas brilhantes. Todos os sons haviam se dissolvido na placidez da noite, como se as montanhas tivessem sido repentinamente esvaziadas de pássaros. Nos rios distantes, as luzes dos pescadores estavam se apagando uma a uma, enquanto as lâmpadas dos pagodes se tornavam cada vez mais fracas. Há muito tempo, os tambores e sinos haviam se calado, às vezes dando a impressão de ouvir soluços distantes de bestas desconhecidas.

Sanzang passou a noite muito inquieto, pensando em sua túnica. Como poderia dormir bem? Em uma de suas muitas voltas na cama, viu que as janelas estavam gradualmente se tingindo de luz e, levantando-se imediatamente, gritou para seu discípulo:

- Já é dia, Wukong, então vá imediatamente buscar a túnica.

O Peregrino pulou de sua cama e viu que os monges estavam trazendo água para as abluções matinais.

- Cuidem bem do meu mestre como ele merece - ordenou o Peregrino. - Preciso me ausentar, e espero que o sirvam sem relutâncias.

- Posso saber para onde você vai? - perguntou Sanzang, agarrando-se a ele.

- Todo este assunto demonstra claramente a irresponsabilidade da Bodhisattva Guanyin - respondeu o Peregrino. - É incompreensível que tenha desfrutado das ofertas das pessoas deste lugar e, ao mesmo tempo, permitido que um monstro andasse rondando por aqui. Vou aos Mares do Sul para ter uma pequena conversa com ela e pedir que venha aqui exigir do monstro a imediata devolução de vossa túnica.

- E quando estará de volta? - perguntou Sanzang novamente.

- Provavelmente depois do café da manhã - respondeu o Peregrino. - No máximo, estarei de volta por volta do meio-dia, quando tudo estiver resolvido. Vocês - repetiu, dirigindo-se aos monges - cuidem bem do meu mestre. Mal tinha acabado de dizer isso, quando desapareceu de sua vista. 

Num piscar de olhos, chegou aos Mares do Sul. Parou na nuvem em que viajava e, olhando ao redor, viu a imensa extensão do oceano, onde a água e o céu pareciam se fundir ao longe. Uma luz suave, repleta de bons presságios, parecia envolver toda a terra, enchendo-a com o brilho do sagrado. As ondas, coroadas por uma espuma tão branca que parecia neve, quebravam na costa, elevando-se incessantemente. O constante rugido da água lembrava o rolar da tempestade. A montanha cheia de tesouros em que habitava a Bodhisattva parecia estar envolta em um arco-íris, destacando-se as cores vivas do vermelho, amarelo, verde, roxo e azul. Que lugar esplêndido era Potalaka, nos Mares do Sul! A agulha rochosa do pico da montanha se assemelhava a uma faca que cortava limpidamente o espaço. Nela cresciam milhares de flores exóticas e mais de cem tipos de ervas sagradas. O vento sacudia as árvores, enquanto o sol reverberava nos lotos dourados. O Templo de Guanyin aparecia coberto de ladrilhos multicoloridos. Em frente à Caverna do Som da Maré, incontáveis conchas de tartaruga foram espalhadas. Dentro dela, à sombra dos salgueiros, os papagaios cantavam; os pavões lhes respondiam, escondidos entre o bambu. Os guerreiros encarregados de defender tão paradisíaco lugar estavam postados atrás das rochas. Entre eles, destacava-se, solene e heroico, Muzha, sempre atento a um mar de cornalina.

O Peregrino não conseguia tirar os olhos de tanta beleza. No entanto, ele se virou para descer de sua nuvem e dirigir-se à floresta de bambu. As diferentes divindades que lá estavam saíram imediatamente para recebê-lo, dizendo:

- Há certo tempo, a Bodhisattva nos informou de vossa conversão, feito pelo qual todos nos parabenizamos. No entanto, tínhamos entendido que você estava acompanhando o monge Tang. Por que abandonou suas responsabilidades para vir até aqui?

- Não o fiz - defendeu-se o Peregrino. - Se vim a este lugar sagrado, foi precisamente porque encontrei uma tremenda dificuldade, que espero que a Bodhisattva possa resolver. Assim, agradeceria se anunciassem minha chegada.

As divindades assim o fizeram, e a Bodhisattva concordou imediatamente em se encontrar com ele. Sem perder tempo, o Peregrino ajoelhou-se diante do lótus coberto de joias.

- Posso saber o que veio fazer aqui? - perguntou Guanyin.

- Há dois dias - explicou o Peregrino - meu mestre chegou a um de vossos templos Zen, um daqueles pagodes onde as pessoas lhe oferecem sacrifícios e incenso. O que não entendo é por que permitiu que um Espírito Urso vivesse por perto. O resultado é que ele roubou a túnica do meu mestre e, embora eu tenha tentado recuperá-la várias vezes, todos os meus esforços foram infrutíferos. Então, espero que resolva o problema.

- Cuidado com tua insolência! - exclamou a Bodhisattva. - Por que vieste pedir minha ajuda, quando é provável que esse Urso tenha se apoderado da túnica de teu mestre por tua mania de querer mostrá-la a todo mundo? Além disso, você tem sua parcela de culpa, pois pediu que o vento intensificasse o fogo, e fez com que meu templo incendiasse por completo. É incrível que agora venha até mim pedir satisfações.

Ao ouvi-la falar assim, o Peregrino compreendeu que a Bodhisattva possuía o conhecimento do passado e do futuro. Baixou a cabeça com inesperada humildade e disse:

- Suplico que perdoe minha maneira de falar. Tudo aconteceu como você acabou de dizer. Tenho que confessar que fiquei muito chateado que o monstro se recusasse a me devolver a túnica. Além disso, meu mestre está sempre me ameaçando com o encantamento. Não suporto a terrível dor de cabeça que isso causa! Daí eu ter me comportado da forma como o fiz. Tende piedade de mim e ajude-me a capturar o monstro; assim recuperaremos a túnica e poderemos continuar nossa jornada para o Oeste.

- Esse monstro possui muitos poderes mágicos - afirmou a Bodhisattva. - De fato, é tão forte quanto você. Você não merece que eu te ajude, mas vou fazê-lo pelo monge Tang.

Agradecido, o Peregrino inclinou a cabeça ainda mais e pediu à Bodhisattva que não se demorasse. Montaram nas nuvens sagradas e logo chegaram à Montanha do Vento Negro, onde seguiram um caminho que conduzia diretamente à caverna. 

Pouco depois, viram um taoísta descendo pela encosta da montanha com uma bandeja de cristal, sobre a qual podiam-se ver duas pílulas mágicas. O Peregrino correu em sua direção, brandiu o bastão de ferro e o deixou cair com força sobre a cabeça daquele infeliz. O golpe destruiu seu crânio e causou uma hemorragia terrível no pescoço.

Horrorizada, a Bodhisattva exclamou:

- Você continua tão irracional quanto sempre! Posso saber por que você o matou? Não foi ele quem te roubou a túnica. Além disso, ele não tinha feito nada a você. Por que teve que tirar sua vida?

- Acredito que você não o reconheça - respondeu o Peregrino. - Ele é um dos amigos do Urso Negro. Eu os vi ontem conversando no campo com um literato vestido de branco. Estavam falando sobre a celebração do Festival da Túnica de Buda e do aniversário do espírito que nos roubou. Aliás, esse taoísta disse que pretendia passar o dia de hoje com seu amigo, longe do barulho que, sem dúvida, haverá amanhã. Por isso o reconheci. É muito provável que estivesse indo celebrar o aniversário do monstro.

- Nesse caso - concluiu a Bodhisattva -, não tenho nada a objetar.

O Peregrino se aproximou do taoísta e descobriu que se tratava de um lobo cinzento. Na bandeja, que havia caído ao seu lado, podia-se ler uma inscrição que dizia: "Fabricada por Lin Hsü-Tse (10)".

- Que sorte! - exclamou o Peregrino, animado. - Isso vai nos poupar muitas dificuldades e energias. Sem ser submetido a tortura, esse monstro acabou de nos fazer uma confissão valiosa, que pode levar à sepultura hoje mesmo seu desprevenido amigo.

- Pode-se saber do que você está falando? - perguntou a Bodhisattva.

- Costumo mencionar muito um provérbio que diz: "Todo plano deve ser contrariado com outro" - respondeu o Peregrino. - Não sei, porém, se você está disposta a aceitar minha estratégia.

- Fale de uma vez! - instigou a Bodhisattva.

- Como pode ver - disse o Peregrino -, nesta bandeja há duas pílulas mágicas, que vamos presentear ao monstro. É sorte que nela esteja gravado que foi fabricada por Lin Hsü-Tse. Se fizermos o que tenho em mente, podemos dispensar as armas e até mesmo desistir da luta. Num piscar de olhos, o monstro encontrará a morte, e nós recuperaremos a túnica de Buda. Se, por outro lado, recursar seguir meu plano, podemos considerar esse tesouro como perdido, e Sanzang terá feito uma viagem tão longa em vão.


- Nota-se que não te falta lábia - exclamou a Bodhisattva, rindo.

- Não posso reclamar - admitiu o Peregrino, satisfeito. - De qualquer forma, trata-se apenas de um plano sem nenhuma importância.

- Se importaria de explicá-lo? - insistiu a Bodhisattva.

- Com muito gosto - respondeu o Peregrino. - Levando em consideração a inscrição nesta bandeja, deduzo que o tal Lin Hsü-Tse não é outro senão o taoísta que acabei de matar. Se não tiver objeções, você poderia adotar a sua personalidade. Eu comerei uma das pílulas e me transformarei em outra um pouco maior que a que sobrar. Você a colocará então na bandeja e a oferecerá ao monstro como presente de aniversário. Eu me encarregarei de que ele nos devolva a túnica assim que ele a engolir. Se ele se recusar a fazê-lo, sou capaz de tecer uma nova com as suas próprias entranhas.

A Bodhisattva achou o plano excelente e concordou várias vezes com a cabeça.

-  Bem. O que está esperando? - perguntou o Peregrino, sorrindo.

A Bodhisattva não perdeu tempo em mostrar sua misericórdia e poder ilimitado. Usando sua infinita capacidade de transformação, sintonizou a mente com a vontade e instantaneamente assumiu a forma do imortal Lin Hsü-Tse.

- Fantástico! - exclamou o Peregrino ao vê-la. - Verdadeiramente extraordinário! O monstro é a Bodhisattva, ou a Bodhisattva é o monstro?

- Wukong, a Bodhisattva e o monstro cabem em um simples pensamento, pois no início não eram nada - afirmou a Bodhisattva, sorrindo.

Iluminado por essas palavras, o Peregrino se virou e se transformou em uma pílula mágica. Ninguém conhecia sua fórmula, embora fosse brilhante e tão perfeita quanto uma pérola. Dentro dela estavam escondidos os hexagramas do "seis por seis" e do  "três por três" (11) como se tivesse sido criada com a ajuda de Shao Wang (12) ou formada nos Montes Goulou (13) . Possuía o brilho do mosaico e do ouro amarelo; sua luz era a do sol e parecia emanar de seu próprio interior. Uma camada de mercúrio a protegia dos ataques exteriores, embora seu poder fosse tão imenso que na realidade não precisava de proteção.

A pílula em que o Peregrino se transformou era um pouco maior que a outra. A Bodhisattva observou isso e, pegando a bandeja de cristal, dirigiu-se à caverna do monstro. Antes de chegar, olhou ao redor e viu uma série impressionante de precipícios e penhascos. As nuvens se amontoavam como rebanhos no cume da montanha. Por toda parte, o verde de pinheiros e ciprestes era azotado impiedosamente pelo vento. Este era verdadeiramente um lugar para monstros, não para homens, embora alguém pudesse pensar que não poderia haver um lugar melhor para um eremita buscar o Caminho. Pelas encostas da montanha, um riacho se precipitava; suas águas lembravam o suave murmúrio de um alaúde. Nenhum som poderia ser mais adequado para purificar os ouvidos. Um cervo descansava sobre uma rocha, enquanto ao longe se ouvia, perdido na espessura da floresta, o canto das garças. Era tão melodioso que imediatamente elevava o espírito, como se fosse a própria música das esferas. A beleza da paisagem parecia agradar profundamente à Bodhisattva, que disse:

- Se essa besta foi capaz de escolher como morada um lugar tão extraordinário, significa que está plenamente capacitada para receber a iluminação do Tao.

Assim, ela já estava inclinada à misericórdia. Ao se aproximar da entrada da caverna, foi reconhecida pelos demônios que montavam guarda e que gritaram, jubilosos, ao vê-la:

- Acaba de chegar o imortal Lin Hsü-Tse!

Enquanto alguns corriam para anunciar sua chegada, outros a saudaram com respeito incomparável. O monstro não demorou a aparecer.

- Que grande honra fazeis com a vossa presença a um lugar tão humilde como este! - exclamou o monstro, dando-lhe as boas-vindas.

- Só vim trazer-vos uma pílula mágica como presente de aniversário - replicou a Bodhisattva.

Inclinaram-se respeitosamente e se sentaram. O monstro fez vários comentários sobre o que acontecera no dia anterior, mas a Bodhisattva nada disse. Apenas pegou a bandeja e sugeriu ao seu anfitrião:

- Aceitai, vos suplico, esta prova de reconhecimento por parte de um taoísta sem importância - escolheu a pílula maior e, oferecendo-a ao monstro, acrescentou -: Esta pequena maravilha vos fará viver por mais de mil anos.

- Nesse caso - concluiu o monstro, entregando a outra à Bodhisattva -, gostaria de compartilhar esta outra convosco.

O monstro a levou à boca, mas não fez o menor esforço para engoli-la, porque ela mesma deslizou garganta abaixo. 

O Peregrino não demorou a fazer suas travessuras dentro do corpo da besta. O monstro caiu no chão, incapaz de suportar a dor. A Bodhisattva recuperou então a forma que lhe era habitual e arrancou do monstro a túnica de Buda. 

Em seguida, o Peregrino saiu de seu corpo pelo nariz, mas, temendo que pudesse usar alguma artimanha, a Bodhisattva lhe atirou na cabeça uma pequena coroa de ferro. Assim que se pôs de pé, o monstro tentou, de fato, pegar a lança e atacar o Peregrino pelas costas. Ao vê-lo, a Bodhisattva elevou-se no ar e recitou um feitiço. Imediatamente, o monstro sentiu uma dor insuportável e, jogando a lança de lado, contorceu-se desesperadamente no chão. O Rei dos Macacos deu um salto e quase morreu de rir ao ver o sofrimento do Urso Negro.

- Maldita besta! - exclamou a Bodhisattva. - Não pensa em desistir?

- Eu me rendo! - respondeu o monstro, sem pensar duas vezes. - Liberte-me dessa dor o mais rápido possível!

Temendo que todo seu esforço fosse desperdiçado, o Peregrino acabar com ele ali mesmo, mas a Bodhisattva o deteve, dizendo: 

- Não o machuque, pois eu penso em lhe dar uma missão.

- Uma missão? - repetiu o Peregrino. - Este monstro só serve para ser pasto dos vermes.

- A parte de trás da Montanha Potalaka está desguarnecida - explicou a Bodhisattva - e quero que ele se encarregue de protegê-la. Não duvido que ele gostaria de ser nomeado Deus Guardião da Montanha.

- Você é realmente uma deusa salvadora e cheia de misericórdia - disse o Peregrino, sorrindo. - Incapaz de causar o menor dano a qualquer ser vivente. Se eu conhecesse um feitiço como esse, o recitaria pelo menos dez mil vezes. Assim acabaria com todos os ursos negros que há por aqui.

O monstro levou bastante tempo para recuperar a consciência. A dor era tão insuportável que, assim que voltou a si, lançou-se com o rosto no chão e disse:

- Perdoe-me a vida! Estou disposto a me submeter de bom grado à Verdade!

A Bodhisattva abandonou a sagrada luminosidade de sua nuvem e, tocando suavemente a cabeça dele, o transformou em seu servo. Dessa forma, o Urso Negro abandonou sua louca ambição de poder, tornando-se escravo da virtude.

- Você já pode ir, Wukong - ordenou a Bodhisattva ao Peregrino. - Procure não causar mais problemas e certifique-se de que não falte nada ao monge Tang.

- Agradeço que tenha vindo de tão longe para nos ajudar - replicou o Peregrino, respeitoso. - Por isso, penso que é meu dever acompanhar-vos de volta à vossa residência.

- Creio que não será necessário - respondeu a Bodhisattva.

O Peregrino inclinou-se diante dela e partiu. A Deusa da Misericórdia, por sua vez, não demorou em voltar ao Grande Oceano, acompanhada pelo urso. Sobre tudo isso trata um poema, que afirma:

"Uma luz de mil cores envolve sua figura, que possui a perfeição do ouro. Ela é a doce auxiliadora da humanidade, vigiando o curso do mundo de seu Lótus de Ouro. Veio em auxílio do buscador de escrituras, retirando-se, casta e pura, para sua morada assim que o resgatou do perigo. Transformou o inimigo em discípulo e retornou à sua morada aquática, uma vez recuperada a túnica bordada de Buda."

 

Não sabemos o que aconteceu depois. Quem quiser descobrir terá que ouvir com atenção o que é dito no próximo capítulo.


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Notas do Capítulo XVII

  1. Uma planta selvagem que cresce em áreas elevadas;
  2. O mais importante de todos era o ting, que possuía três patas e simbolizava as cavidades internas do corpo humano.
  3. O Monte Penglai é uma das três montanhas onde, de acordo com a mitologia, habitavam os imortais.
  4. O Monte Ling-Tai é a Montanha do Coração e da Mente, onde Wukong conheceu o patriarca Subodhi.
  5. De acordo com os princípios da alquimia interna, o sol refere-se ao coração, elemento masculino, e a lua aos rins, elemento feminino. Quando suas energias estão em perfeito equilíbrio, o elixir interno é produzido, alcançando assim a imortalidade.
  6. Para alcançar o objetivo alquímico, era essencial conservar dentro do corpo as energias, ou "chi", dos diferentes órgãos;
  7. Esses ilhéus e ilhas eram moradas dos imortais.
  8. Hsien-Shang era um dos nomes pelo qual o deus Erlang Shen era conhecido;
  9. A crença popular afirmava que Buda possuía sobrancelhas luminosas de jade de cor branca.
  10. Li Hsü-Tse é o "Mestre do Vazio Transcendente".
  11. "Três por três" e "seis por seis" são os hexagramas "chien" e "kuen" do I Ching ou Livro das Mudanças, que fazem referência direta aos princípios masculinos e femininos, ou seja, ao yin e ao yang.
  12. Shao-Wang foi um mago originário do reino de Chi.
  13. Os montes Goulou, localizados ao norte da província de Kwangsi, são famosos pela rede de cavernas que os atravessa. Segundo a lenda, o alquimista Ke-Hung (283-343) realizou muitos de seus trabalhos lá.


  • Tradução em pt-br por Rodrigo Viany (Sleipnir). Favor não utilizar sem permissão.
  • Tradução baseada na tradução do chinês para o espanhol feitas por Enrique P. Gatón e Imelda Huang-Wang, e do chinês para o inglês feita por Collinson Fair.
fontes consultadas para a pesquisa:
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15 de dezembro de 2023

Shamhat

۞ ADM Sleipnir

Arte de LiigaKlavina

Shamhat (romanizado, em acadiano 𒊩𒌑𒉺, Šamḫat, "a exuberante" ou "a voluptuosa"; também chamada Shamkat) é uma personagem feminina que aparece nas Tábuas I e II da Epopéia de Gilgamesh e é mencionada na Tábua VII. Ela é uma harimtu, uma espécie de "prostituta sagrada" associada a um templo e responsável por desempenhar papéis religiosos específicos. Uma harimtu era diferente das prostitutas comuns, pois sua atividade sexual era considerada parte de práticas rituais ou cultuais em honra a uma divindade.

Na epopéia, Shamhat desempenha um papel significativo na Tábua I, domesticando o homem selvagem Enkidu, criado pelos deuses para rivalizar com o poderoso Gilgamesh. Foi solicitado a ela que usasse seus atributos para atrair Enkidu da natureza, domando sua selvageria e civilizando-o por meio de relações sexuais sagradas e contínuas. Ela foi levada a uma fonte de água onde Enkidu havia sido avistado e se expôs a ele. 

Arte de Rebecca Yanovskaya

Enkidu desfrutou de Shamhat por "seis dias e sete noites" (um fragmento do mito encontrado em 2015 revelou que eles tiveram duas semanas de relações sexuais, com uma pausa dedicada a discutir sobre a futura vida de Enkidu em Uruk).

Infelizmente para Enkidu, após esse longo processo de civilização por meio do sexo, seus antigos companheiros, os animais selvagens, o abandonaram com medo no local de bebedouro onde costumavam se reunir. Shamhat então o persuade a segui-la e ingressar no mundo civilizado na cidade de Uruk, onde Gilgamesh é rei, rejeitando sua antiga vida na natureza com os animais selvagens das colinas. A partir desse momento, Gilgamesh e Enkidu tornam-se os melhores amigos e passam por muitas aventuras.

Amaldiçoada e abençoada por Enkidu 

Em seu leito de morte, Enkidu expressa sua raiva contra Shamhat por tê-lo civilizado, culpando-a por tê-lo conduzido ao novo mundo de experiências que levou à sua morte e amaldiçoando-a para se tornar uma pária. O deus Shamash então intervém e lembra Enkidu de que Shamhat o alimentou e vestiu antes de apresentá-lo a Gilgamesh. Enkidu então acaba voltando atrás e a abençoa, dizendo que todos os homens a desejarão e lhe oferecerão jóias como presente.

Arte de Petr Donát


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13 de dezembro de 2023

Nornas

۞ ADM Sleipnir

As Nornas (do nórdico antigo Nornir) são na mitologia nórdica seres femininos responsáveis por criar e controlar o destino, o que as tornam umas das mais poderosas entidades do cosmos. De acordo com uma descrição das Nornas presente no poema nórdico antigo Fáfnismál ("os ditos de Fafnir"), existem muitas delas, e ninguém conhece o seu número exato. Além disso, o texto afirma que "algumas delas vêm dos deuses, outras dos elfos e ainda outras dos anões". O Völuspá, primeiro poema da Edda Poética, no entanto, apresenta uma descrição diferente e mais grandiosa delas, que veio a se tornar a imagem padrão associada às Nornas nos dias atuais. Nele as Nornas são seres misteriosos que não parecem pertencer a nenhum dos tipos reconhecidos de seres que povoam o outro mundo nórdico. Existem exatamente três delas, e seus nomes sugerem a capacidade delas de moldar o conteúdo do tempo: 

  • Urd (nórdico antigo Urðr, "passado", também uma palavra que significa "destino");
  • Verdandi (nórdico antigo Verðandi, "presente");
  • Skuld (nórdico antigo Skuld, "futuro").

As três são ditas viverem em um salão junto a um poço (Urðarbrunnr, "Poço do Destino") sob Yggdrasil, a poderosa árvore no centro do outro mundo nórdico, que sustenta os Nove Mundos em seus galhos e raízes. 

Arte de Anastasia Marchi

Embora seus nomes sugiram que elas sejam associadas respectivamente ao passado, ao presente e ao futuro, não existem fundamentos na mitologia nórdica que sustentem a noção de que elas sejam especificamente associadas a esses aspectos do tempo. O mais certo é que as três representam o destino conforme ele está entrelaçado com o fluxo do tempo. Além disso, foram propostas teorias de que a ideia de que existem três nornas principais pode ser devida a uma influência tardia da mitologia grega e romana, onde também existem deusas giratórias do destino (Moiras e Parcas). 

Diferentes imagens são usadas para representar a atividade de tecelagem do destino das Nornas ao longo da literatura nórdica antiga. As três mais comuns são lançar sortes de madeira, tecer um pedaço de pano e esculpir símbolos - provavelmente runas - na madeira.

Não existem evidências de que as Nornas tenham sido adoradas, embora seja possível que elas tenham sido reverenciadas ou respeitadas. Lamentar o próprio destino é um elemento relativamente comum na literatura nórdica antiga, e na literatura germânica antiga e medieval de maneira mais ampla, então podemos ter certeza de que se os vikings achassem possível pedir às Nornas para mudar seus destinos, eles o teriam feito. Mas, na visão nórdica, o destino era cego e absolutamente implacável. Não era possível alterá-lo; tudo o que restava era decidir a atitude com a qual você enfrentaria o que quer que o destino trouxesse.

Arte de Livia de Simone

Cultura Popular
  • As Nornas são os personagens principais do mangá e anime Oh My Goddess!. Verdandi (aqui chamada de Belldandy devido à transliteração japonesa) é a protagonista feminina da série. Sua irmã mais velha, Urd e sua irmã mais nova, Skuld, são personagens de apoio importantes na história.
  • A banda de death metal Amon Amarth lançou em 2004 um álbum intitulado Fate of Norns;
  • No bestseller Magic Tree House, Jack e Annie encontram as Nornas em uma de suas aventuras;
  • No game Shin Megami Tensei: Devil Children 2, conhecido na América do Norte como Demikids, as Nornas aparecem individualmente como guardiãs do tempo e são demônios recrutáveis no pós-jogo. Se todas forem coletadas, podem ser fundidas para formar um demônio singular e poderoso conhecido como "Norn", que compartilha características dos três demônios individuais que a compõem e tem acesso aos três elementos que suas partes individuais possuem.
Nornas em Oh My Goddess!
  • As Nornas estão presentes no livro Galactic Pot-Healer de Philip K. Dick, como entidades que guardam um livro onde o futuro já está escrito.
  • No romance American Gods, de Neil Gaiman, as Nornas são representadas como três mulheres (uma muito alta, uma de altura média e a última uma anã) que ajudam Shadow em sua vigília por Wednesday (Odin) na árvore freixo, depois ficam em uma cabana próxima; elas revivem a esposa morta de Shadow usando a água do poço de Urd; e profetizam a Mr. Town, um associado de Mr. World, que seu pescoço será quebrado.
  • As Nornas aparecem na história em quadrinhos The Wicked + The Divine, de Kieron Gillen e Jamie McKelvie, de 2014 a 2018.
As Nornas em The Wicked + The Divine

  • As Nornas são mencionadas no jogo God of War (2018), o oitavo episódio da série God of War, que marcou a incursão da franquia na mitologia nórdica. À medida que o protagonista Kratos e seu filho, Atreus, partem em uma jornada pelo reino de Midgard, eles continuamente encontram baús conhecidos como Nornir Chests, cada um dos quais pode ser aberto localizando três selos de runas escondidos e os atingindo rapidamente com o Leviathan Axe. Cada um dos Nornir Chests contém colecionáveis que gradualmente aprimoram os medidores de Saúde e/ou Fúria de Kratos. Na sequência God of War Ragnarök (2022), Kratos, Freya e a cabeça de Mimir viajam até as Nornas para descobrir o que Atreus está fazendo em Asgard. Eles conseguem alcançar as Nornas e descobrir que Heimdall (Guardião de Asgard) está planejando matar Atreus. Ao contrário das Moiras encontradas em God of War II, o jogador não enfrenta as Nornas.
  • O MMO Guild Wars 2 tem uma raça de pessoas com tema viking chamada norn; sua história e etimologia se inspiram na mitologia e culturas vikings.
Nornas em God of War

fontes:

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11 de dezembro de 2023

Maui

۞ ADM Sleipnir

Arte de Mark Leo Mendoza

Maui (Māui) é o grande herói cultural da mitologia polinésia, e histórias sobre suas façanhas são contadas em quase todas as terras do Pacífico. Na maioria delas, ele é considerado como sendo um deus completo ou como um semideus; mas em alguns lugares, ele é considerado como sendo alguém meramente humano. Embora as nuances de suas histórias possam diferir entre localidades, a notável similaridade entre elas leva a maioria dos estudiosos a considerar Maui como um personagem unificador, desempenhando feitos extraordinários em ilhas separadas por milhares de quilômetros de oceano.

Existe uma grande variação nas representações de Maui de uma região para outra, desde a de um belo jovem a um velho e sábio sacerdote errante. Embora muitas vezes seja descrito como malandro, suas ações aparentemente maliciosas frequentemente visavam a melhoria da vida de seus semelhantes. Desde obter o fogo a erguer o céu e capturar o sol, Maui é um herói cujo legado perdurou por mais de 1.000 anos, enquanto suas histórias viajaram 4.000 milhas pelo oceano Pacífico.

Diversas lendas e mitos ressaltam os poderes sobrenaturais de Maui. Na mitologia havaiana, ele é considerado um membro da classe de seres com habilidades sobre-humanas conhecidos como Kupua. Na Nova Zelândia, ele possuía como ferramenta um osso maxilar mágico pertencente a um de seus ancestrais, enquanto no Havaí ele possuía um poderoso anzol chamado Manaiakalani. Independente da versão, Maui é retratado com características notavelmente humanas: habitando casas de palha, cuidando de sua mãe, e brincando com seus irmãos e irmãs, muitas vezes envolvendo-os em todo o tipo de aventuras.

Parentesco

Os parentes de Maui variam de acordo com a região da Polinésia onde a história é contada. Na mitologia havaiana, Maui é mais conhecido como sendo filho de Hina, a deusa da lua, e de um mortal chamado Akalana, embora uma lenda aponte seu pai como sendo chamado Ru. Hina em particular também pode aparecer como sua esposa ou irmã, dependendo da lenda e da região onde é contada. Na mitologia maori, Maui é filho de Taranga com Makeatutara, um guardião do submundo. Na mitologia de Mangareva,  seu pai chama-se Ataraga e sua mãe, Uaega.

Mitologia 

Nascimento

De acordo com a mitologia maori, Maui nasceu prematuro, então sua mãe Taranga cortou um tufo de cabelo, envolveu Maui nele, e depois jogou-o na arrebentação e entregou-o à Tangaroa, o oceano. Algumas criaturas marinhas cuidaram dele, escondendo-o em algas até que uma tempestade o mandou de volta à praia. Seu avô,  Tama-nui-a-rangi , o encontrou e o trouxe de volta à vida, e o educou. 


Encontrando sua Família

Muitas estações se passaram e o bebê se tornou uma criança. A criança era inteligente e agora conhecia tanta magia da terra e do céu quanto o velho e sábio Tame-nui-ke-ti-Rangi. Então, um dia, Tame-nui-ke-ti-Rangi disse para ele procurar sua família, pois seu tempo com ele havia acabado. Então Maui deixou Tame-nui-ke-ti-Rangi e, transformando-se num pombo, embarca em uma jornada para encontrar sua família. 

Ao chegar à aldeia onde sua família vivia, seus irmãos mais velhos duvidam de sua identidade, mas Maui, persistente, revela sua história desde o nascimento à beira-mar até os cuidados de Tame-nui-ke-ti-Rangi. Reconhecido por sua mãe, Taranga, como Maui-tikitiki-a-Taranga, ele se integra à família. No entanto, Taranga desaparece todas as manhãs, intrigando Maui. Ao descobrir uma passagem subterrânea, ele voa transformado em pombo e acaba chegando ao submundo, onde encontra sua mãe e seu pai, Makeatutara. Taranga o apresenta ao seu pai, que realiza então o ritual dedicatório de seu filho. Porém, Makeatutara cometeu erros durante ritual, e por isso, Maui tornou-se fadado a morrer um dia.

Elevando o céu


Quando jovem, Maui notou que as pessoas estavam sendo pressionadas pelo céu. Elas não conseguiam ficar de pé, tendo que rastejar de um lugar para o outro, e o fato do céu ser baixo também inibia o crescimento de plantas e árvores. Vendo o sofrimento do povo, Maui resolveu fazer algo a respeito.

Existem várias versões desta lenda, mas aqui estão duas originárias do Havaí. Na primeira, Maui procura a ajuda de seu pai, Ru, para que juntos possam erguer o céu. Maui se deita no chão e começa a empurrar o céu para cima com sua grande força. Ele então sinaliza a Ru para começar a empurrar também, e juntos pai e filho empurram o céu alto o suficiente para que as pessoas, plantas e árvores possam crescer altas e fortes. Alguns dizem que se Maui e Ru não tivessem trabalhado juntos, o céu teria caído completamente, tornando a terra inabitável. Trabalhando em conjunto, os dois salvaram a humanidade.


Outra versão tem o semideus visitando um kahuna (sacerdote e curandeiro havaiano) para ajudá-lo a resolver a questão do céu baixo. O kahuna tatuou Maui com um símbolo mágico em seu antebraço, o qual lhe conferiu grandes poderes. Maui também procurou uma kapuna (anciã) e bebeu de sua cabaça, recebendo assim a força necessária para erguer o céu. Após uma grande luta, Maui empurrou o céu a uma altura acima das montanhas, onde ele permanece até os dias de hoje. Dizem que quando nuvens de tempestade se acumulam sobre o vulcão Haleakala, elas têm medo de ficar por muito tempo, por medo de Maui pega-las e arremessa-las tão longe que nunca mais possam voltar.

A captura do Sol

Arte de Lincoln Moa

O próximo feito de Maui é novamente em prol de ajudar a humanidade. A história de Maui capturado o sol é contada em toda a Polinésia. No mito havaiano, a mãe de Maui, Hina reclama que seu kapa (um tecido feito com casca batida) não seca direito devido ao fato de naquele tempo o sol não ficar muito tempo no céu e por isso o dia era mais curto. Maui então resolve subir até o topo do vulcão Haleakala, e aguardar escondido na borda da cratera o próximo nascer do sol.

No momento em que o sol apareceu, Maui o laçou usando uma corda mágica confeccionada com seu cabelo (ou usou seu anzol mágico, conforme outras versões) e então o puxou para perto ameaçando espancá-lo caso não reduzisse a velocidade de seu trajeto nos céus. O sol cede ao pedido de Maui, e assim não só sua mãe, como o resto da humanidade passou a se beneficiar com o aumento do tempo de luz do sol. Variações desta história incluem Maui sendo ajudado por sua avó e seus irmãos. É uma prova de quão importante é a família na cultura havaiana e polinésia.

Maui e os irmãos capturando Tama-nui-te-rā, a personificação do sol na mitologia maori

A formação das ilhas do Pacífico
Uma das histórias mais comuns de Maui presentes por toda a Polinésia está relacionada a como Maui pescou as ilhas do Pacífico do fundo do oceano. Existem várias versões desta história aplicadas a diferentes ilhas dependendo da sua constituição natural. No Havaí, por exemplo, uma versão do mito conta que Maui lançou seu anzol mágico no fundo do oceano, e após fisgar o seu solo, enganou seus irmãos dizendo-lhes que ele havia fisgado um enorme peixe e pedindo que eles remassem o mais forte e rápido que pudessem para ajudá-lo a puxá-lo. Ao invés de um peixe, o que eles acabaram puxando para a superfície foi uma massa de terra que deu origem a uma ilha. Os irmãos de Maui no entanto não perceberam o que ocorrera, e Maui repetiu o truque diversas vezes, formando assim todas as ilhas havaianas.


Na versão maori do mito, os irmãos mais velhos de Maui nunca o deixavam pescar com eles. Uma noite, Maui teceu para si uma linha de pesca de linho e a encantou para dar-lhe força. À ela, Maui prendeu o anzol mágico feito da mandíbula de sua/seu avó/avô Muri-ranga-whenua e então se escondeu na canoa de seus irmãos. 

Na manhã seguinte, quando a canoa já estava muito longe da terra para retornar, Maui emergiu de seu esconderijo. Todos ficaram bravos com ele e o culparam por não estarem conseguindo pescar nenhum peixe. Maui ordenou que seus irmãos jogassem suas linhas de pesca na água e aguardassem ele recitar um karakia (uma espécie de prece/encantamento), após o qual eles foram capazes de encher a embarcação de peixes. Maui então pediu que os irmãos lhe dessem uma isca para que ele próprio pudesse pescar, mas seus irmãos ainda estavam bravos com ele e se negaram a ajudá-lo. Maui então golpeou seu próprio nariz e banhou seu anzol com seu sangue, enquanto seus irmãos riam dele.

Maui se posicionou na frente da canoa e girou sua linha acima de sua cabeça enquanto recitava seu karakia. Ele lançou seu anzol mágico no mar, arrastando sua linha até as profundezas do oceano, até que ela repentinamente ficou tensa. Seus irmãos pararam de rir e seguraram-se firmemente ao lado da canoa enquanto começavam a acelerá-la através do oceano. Eles gritavam para Maui cortar a linha, enquanto tremiam de medo que seja o que fosse que havia mordido a isca de Maui acabasse virando a canoa. Maui segurou firme sua linha e, lentamente, um peixe gigante  chamado Hahau-whenua foi puxado para a superfície.

Maui pediu aos irmãos para que o aguardassem enquanto ele ia até a terra firme buscar um tohunga (uma espécie de sacerdote) para realizar as cerimônias apropriadas antes de partilhar sua pesca. Eles, porém, não esperaram o retorno de Maui e começaram a cortar o peixe, que se contorceu em agonia, fazendo-o se dividir em montanhas, penhascos e vales. Se os irmãos tivessem ouvido Maui, a ilha seria uma planície plana e as pessoas poderiam viajar com facilidade em sua superfície.

Derrotando a enguia Kuna Loa

A história de Maui e da enguia é outra que pode ser ouvida em todo o Pacífico, do Havaí à Nova Zelândia. A versão havaiana do mito conta que um dia Hina foi até um riacho para se banhar, onde acabou sendo abordada por uma grande enguia. No Havaí, essa enguia é conhecida como Kuna Loa, e ela ansiava pela beleza e companhia de Hina. Após ter seus avanços rejeitados por Hina, Kuna Loa se torna vingativo e cria uma barragem no riacho, fazendo com que a caverna onde Hina e sua família viviam começasse a inundar. Após ouvir o pedido de socorro da mãe, Maui chega e consegue romper a barragem e liberar o fluxo de água.


Kuna Loa continuou a assediar Hina, e sempre que a encontrava na margem do riacho a atingia e depois a cobria com lodo. Após isto ocorrer algumas vezes, Hina resolver contar a Maui, que decide por um fim na enguia. Maui então coloca armadilhas por todo o riacho, e logo Kuna Loa acabou caindo e sendo preso em uma delas. Usando um machado, Maui matou Kuna Loa e cortou seu corpo em pedaços. Após jogá-los no mar, cada pedaço do corpo de Kuna Loa deu origem a novas criaturas marinhas, incluindo as enguias de água salgada. O sangue de Kuna Loa que fluiu para o riacho se transformou nas enguias de água doce. A cabeça de Kuna Loa em particular foi enterrar por Maui perto da costa, e no local nasceu a primeira palmeira, da qual nasceram os primeiros cocos.

Outras versões da lenda nomeiam a enguia como Tuna, e o alvo dos seus assédios são as esposas de Maui.

Descobrindo como produzir fogo


São várias as versões de como Maui descobriu o segredo de como produzir fogo. A versão havaiana desse mito conta que, cansado de viver à base de peixe cru e vegetais, Maui desejava comer comida cozida, além de prover a sua mãe a capacidade de cozinhar e se aquecer com uma fogueira. Certo dia enquanto pescava com seus irmãos, o semideus testemunhou uma pequena nuvem de fumaça branca ao longo da costa. Determinado a descobrir sua origem, ele foi até o local e descobriu uma 'alae' ula (galinha-d'água havaiana, também conhecida como Gallinue) pisando e tentando esconder uma pequena fogueira.

Maui resolveu esperar escondido para observar a 'alae' ula acender outra fogueira. No dia seguinte, a ave percebe a ausência de Maui na canoa com seus irmãos e assim não tenta acender uma fogueira. Percebendo que estava sob suspeita, Maui colocou um grande tronco moldado na forma de um humano na canoa com seus irmãos, enquanto se escondeu próximo ao local onde as 'alae' ula estavam.  Acreditando que Maui estava junto aos irmãos, a 'alae' ula se sentiu a vontade para acender sua fogueira, e então começou a juntar gravetos e folhas para acende-lo. Enquanto isso, Maui observa as 'alae' ula esfregando os gravetos. Saindo de seu esconderijo, ele captura uma delas pelo pescoço, exigindo que ela o ensinasse a fazer fogo.

A princípio, a 'alae' ula tenta enganar Maui, instruindo-o a esfregar plantas aquáticas, depois galhos molhados, o que acaba resultando em tentativas mal-sucedidas. Cansado de suas mentiras, Maui aperta o pescoço da ave e a força a revelar o seu segredo. A 'alae 'ula finalmente cede e o instrui a esfregar um pedaço de madeira seca em um pedaço de casca de sândalo e fibras de hau até que uma chama apareça. Tendo finalmente conseguido produzir fogo, Maui decide punir a ave por sua trapaça. Maui queima a crista no topo da cabeça da ave, e é por isso que nos dias de hoje a 'alae' ula adulta possui uma crista vermelha.

Já de acordo com a versão maori do mito, Maui queria saber de onde vinha o fogo, então uma noite ele foi entre as aldeias de seu povo e apagou todas as chamas. Sua mãe, Taranga, disse que alguém teria que pedir mais a Mahuika, a deusa do fogo e avó de Maui. Então, Maui se ofereceu para ir até ela. Mahuika vivia em uma caverna em uma montanha em chamas nos confins da terra. Chegando lá, ele recebe dela uma de suas unhas em chamas para reacender o fogo em sua aldeia, mas Maui extinguiu unha após unha até que Mahuika ficou com raiva e enviou fogo para perseguir Maui, que sobreviveu chamando Tāwhirimātea, o deus do clima, para apagá-lo com sua chuva. Mahuika jogou sua última unha em Maui, mas errou e atingindo algumas árvores. Maui trouxe galhos secos dessas árvores para sua aldeia e mostrou ao seu povo como esfregar os galhos e produzir fogo. 

Arte de Tommy Fanggidae

A morte de Maui

Existem várias histórias acerca da morte de Maui. Desde ser derrubado por um sacerdote até ter uma montanha desmoronando enquanto cavava um túnel, em todas elas a natureza travessa de Maui sempre o leva a sua ruína. As histórias mais conhecidas de sua morte são oriundas da Nova Zelândia.

Depois de superar muitos obstáculos e derrotar com sucesso muitos inimigos, Maui ansiava pela vitória sobre a morte. Ele acreditava que a imortalidade deveria ser um presente concedido à humanidade. No entanto, seu pai o avisou que o tempo de seu fracasso e morte certamente chegaria. Maui então perguntou ao pai: “Quem poderia me vencer?” e seu pai respondeu: “Há alguém tão poderosa que nenhum truque lhe será útil”. O pai de Maui então conta a ele sobre sua ancestral, Hine-nui-te-po, a deusa das trevas e da morte, e aquela que detinha o destino final de todos os homens. Mesmo advertindo o filho de que a morte era inevitável, até mesmo para ele, Maui estava determinado a provar o contrário ao pai.

Após persuadir seus irmãos a acompanhá-lo, Maui viajou rumo a morada de Hine-nui-te-po. Lá, ele transformou os irmãos em pássaros para que não fossem descobertos pela deusa. Enquanto seus irmãos ficariam só observando, Maui planejava entrar no corpo da deusa enquanto ela dormia através de sua vagina, cortando seu coração e saindo por sua boca. Se obtivesse êxito, a morte de Hine-nui-te-po traria o dom da imortalidade para a humanidade. 

Uma vez que Hine-nui-te-po dormiu, Maui se transformou em um lagarto, e entrou em sua vagina. No entanto, assim que o fez, um de seus irmãos em forma de pássaro soltou uma risada, alta o suficiente para acordar Hine-nui-te-po. Ao sentir o lagarto rastejando dentro de sua vagina, Hine-nui-te-po tratou de esmagá-lo até a morte, usando os dentes de obsidiana que possuía na mesma.


Cultura Popular

Maui aparece como um personagem principal no filme Moana (2016) da Disney, onde é dublado pelo ator Dwayne Johnson. Abandonado por seus pais humanos quando era bebê, os deuses tiveram pena dele e fizeram dele um semideus e lhe deram um anzol mágico que lhe dá a habilidade de mudar de forma. Ele passou a realizar milagres para reconquistar o amor da humanidade, cada um dos quais lhe rendeu uma tatuagem animada. Diz-se que ele roubou o coração de Te Fiti, uma poderosa deusa da ilha que cria a vida. A protagonista do filme, Moana , o convence a ajudá-la a devolvê-lo. Em sua música "You're Welcome", composta por Lin-Manuel Miranda , Maui menciona e leva o crédito por vários dos feitos que lhe são creditados no folclore. Esta versão de Maui incorpora elementos de diversas narrativas polinésias.

Maui também foi o tema da música "Maui Hawaiian Sup'pa Man" de Israel Kamakawiwoʻole em seu álbum mais conhecido, Facing Future, que é o álbum havaiano mais vendido de todos os tempos.

Ainda, Maui é um dos deuses presentes no moba SMITE, integrando seu host desde outubro de 2022.

Maui e sua Golden Skin em SMITE

fontes:
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7 de dezembro de 2023

Moça do Anel de Brilhantes

۞ ADM Sleipnir

Arte de Rodrigo Viany (Sleipnir)

A Moça do Anel de Brilhantes é uma aparição que, de acordo com o folclorista Alceu Maynard Araújo (1913-1974), foi relatada assombrar uma ponte no município de São Luiz de Paraitinga, São Paulo, localizada num local onde outrora existiu a primeira fábrica de algodão do estado.

Sob a forma de uma bela mulher vestida de branco, esta aparição é dita manifestar-se durante a noite no local, exibindo um dedo adornado por um anel de brilhantes para aqueles que cruzam o seu caminho.  Dizem que ela pede para aqueles que passam por ela para que tirem o anel de brilhantes do seu dedo. Contudo, até hoje, ninguém demonstrou coragem suficiente para fazê-lo, e portanto, desconhece-se o que acontece caso o pedido seja atendido.


fontes:
  • Estórias, de Alceu Maynard Araújo
  • https://www.consciencia.org/lendas-de-sao-luis-do-paraitinga-sp
  • https://lendasestorias.blogspot.com/2012/11/a-moca-do-anel-de-brilhantes.html



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