17 de novembro de 2025

Palulukon

۞ ADM Sleipnir


Palulukon são uma classe de serpentes aquáticas sagradas na mitologia do povo Hopi, uma nação indígena do sudoeste dos Estados Unidos. Fortemente associadas à água, à fertilidade, à natureza e ao equilíbrio cósmico, essas entidades são consideradas forças espirituais primordiais e guardiãs do mundo natural.

De acordo com a cosmologia Hopi, a Terra repousa sobre duas Palulukon, que flutuam nas águas do oceano primordial. Quando essas serpentes são perturbadas — seja pelo desrespeito humano ou pelo cansaço — elas se movem, e esse movimento gera terremotos, secas, inundações ou tempestades, afetando diretamente o equilíbrio do mundo.

Na mitologia dos Zuni, povo vizinho dos Hopi, existem entidades semelhantes conhecidas como Koloowisi — também serpentes associadas às forças elementares e à fertilidade da terra. Ambas compartilham papéis espirituais semelhantes e são reverenciadas em cerimônias e rituais tradicionais.

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16 de novembro de 2025

Dapu

۞ ADM Sleipnir


Dapu é uma divindade primordial da mitologia dos kapampangan, povo etnolinguístico das Filipinas. Conhecida também como Indung Tíbuan (“a mãe da qual viemos e crescemos”), Dapu é representada como um crocodilo gigantesco que habita as profundezas de Indung Láwut (“Mãe Oceano”).

Segundo as tradições kapampangan, Dapu sustenta Yátu, a Terra, em suas costas. Seus movimentos nas águas profundas são responsáveis pelos terremotos e, quando se enfurece, acredita-se que provoca enchentes nos rios. Para apaziguá-la e restaurar o equilíbrio natural, realizavam-se procissões fluviais chamadas líbad, rituais de oferenda às águas e de renovação da vida no início da estação chuvosa.

Com a chegada do cristianismo, essas antigas celebrações aquáticas foram reinterpretadas dentro da nova fé. O antigo ciclo de renovação ligado a Dapu e às chuvas passou a ser associado à festa de São Pedro (conhecido localmente como Ápung Irû), apóstolo pescador e guardião dos mares e rios. A procissão fluvial de São Pedro em Apalit, realizada anualmente de 28 a 30 de junho, preserva muitos elementos das práticas rituais dedicadas a Dapu — mantendo viva, sob forma cristianizada, a antiga reverência kapampangan às águas e às forças da natureza.

Arte de Devi Villanueva

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15 de novembro de 2025

Montu

۞ ADM Sleipnir


Montu (também Mentu, Monthu, Mentju, Montju, Menthu, Ment, Month, Mont, Minuthi) foi uma divindade egípcia associada ao sol e à guerra, personificando a vitalidade conquistadora do faraó. Seu nome, representado em hieróglifos como mntw, significa “nômade”. Ele era particularmente venerado no Alto Egito, especialmente no distrito de Tebas, e em centros religiosos como Armant (Hermonthis), Medamud, Tod (Tuphium) e Karnak.

Função e características

Montu era originalmente uma manifestação do efeito escaldante do sol (), sendo chamado Montu-Rá. Essa característica destrutiva levou à associação com a guerra, tornando-o um deus militar reverenciado. Os egípcios acreditavam que Montu atacava os inimigos de Maat, garantindo a ordem cósmica e inspirando feitos heroicos em batalhas. Ele também era considerado protetor da vida familiar e conjugal, sendo invocado em documentos matrimoniais para assegurar o cumprimento de compromissos; a infidelidade era descrita como “a abominação de Montu”. Ainda, Montu era uma das divindades que protegiam Ra em sua jornada noturna através do submundo, e na luta contra a serpente do caos, Apep

A fusão simbólica de Montu-Rá e Atum-Rá pode ter representado os reinados do Alto e do Baixo Egito, e quando associado a Hórus, recebia o epíteto “Hórus do Braço Forte”. Além disso, Montu inspirava os faraós em campanhas militares, que se autodenominavam “Touro Poderoso”, “Filho de Montu” ou Montu com o Braço Forte/Direito (Montuherkhepeshef).


Iconografia

Montu era retratado como homem com cabeça de falcão ou touro, adornado com disco solar, uraeus (simples ou duplo) e duas plumas. Empunhava várias armas, como espada curva, lança, arco, flechas ou facas. O falcão simbolizava o céu e o touro, a força e a guerra. Montu também podia aparecer como o touro sagrado Buchis, branco de focinho negro, reverenciado em Armant. Durante o Período Tardio (séculos VII–IV a.C.), a representação com cabeça de touro tornou-se comum.

Exemplos notáveis da iconografia militar incluem os “quatro Montu”, representados pisoteando inimigos com lanças nos principais centros de culto (Tebas, Armant, Medamud e El-Tod), e o machado de batalha cerimonial da Rainha Ahhotep II, representando Montu como grifo alado.

Estátua de Montu com cabeça de boi, datada do período ptolomaico (305 a.C. a 30 a.C.) 

Culto e centros religiosos

O Templo de Montu em Medamud, construído por Senusret III (12ª Dinastia), aproveitava um local sagrado pré-existente. O pátio abrigava o touro vivo Buchis. O templo passou por ampliações durante o Novo Império e nos períodos ptolomaico e romano.

O complexo de Armant data da 11ª Dinastia e foi ampliado na 12ª e 13ª Dinastias, e durante o Novo Reino, especialmente por Tutmés III. Ramsés II e Merneptah acrescentaram colossos e estátuas. No Período Tardio, o templo foi desmantelado; Nectanebo II e os Ptolomeus reconstruíram partes, e Cleópatra VII erigiu um mammisi e um lago sagrado para Ptolomeu XV Cesarião. O Bucheum, necrópole dos Buchis, manteve sepultamentos até a era do imperador romano Diocleciano.

Em Karnak, Amenhotep III construiu recinto sagrado para Montu, ao norte do Templo de Amon. Outro templo foi erguido em Uronarti, próximo à Segunda Catarata do Nilo, durante o Império Médio.

Relação com os faraós

Montu foi especialmente associado aos faraós da 11ª Dinastia, considerados seus protegidos e inspirados por ele em campanhas militares. Quatro faraós adotaram nomes em referência ao deus:
  • Mentuhotep I (c. 2135 a.C.) — possivelmente figura semi-lendária;
  • Nebhepetre Mentuhotep II (c. 2061–2010 a.C.);
  • Sankhkare Mentuhotep III (c. 2010–1998 a.C.);
  • Nebtawyre Mentuhotep IV (c. 1998–1991 a.C.).
Tutmés III (c. 1479–1425 a.C.) era descrito como “Valente Montu no Campo de Batalha”. Amenhotep II (1427–1401 a.C.) era elogiado por disparar flechas enquanto dirigia carruagem, demonstrando força atribuída a Montu. Amenhotep III autodenominou-se “Montu dos Governantes”, mesmo durante um reinado pacífico. Ramsés II, na Batalha de Kadesh (c. 1274 a.C.), autodenominou-se “Montu das Duas Terras”.

Relações com outras divindades

Montu teve várias consortes, incluindo as deusas tebanas Tenenet e Iunit, e a deusa solar Raet-Tawy. Quando Amon tornou-se deus nacional, Montu e sua esposa foram às vezes descritos como filhos adotivos de Amon e Mut. Montu foi identificado pelos gregos com Ares, e ocasionalmente com Apolo, devido à sua associação solar.


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13 de novembro de 2025

O Monstro Apagador de Rostos (Muo Liên Guái)

۞ ADM Sleipnir

O Monstro Apagador de Rostos (em chinês: 抹脸怪, pinyin: Mǒ liǎn guài, lê-se Muo Liên Guái) é uma criatura sobrenatural da mitologia chinesa registrada em documentos antigos como o Shu Yi Ji ( chinês 述异记, “Registros das Coisas Estranhas”) e o Guizhou Tongzhi (chinês 贵州通志, “Crônica Geral de Guizhou”). Classificado como um yaoguai — um espírito maligno ou criatura demoníaca —, ela é uma entidade que circula entre os humanos disfarçada, atacando suas vítimas de forma silenciosa e fatal ao apagar seus rostos.

Aparência

A aparência do Monstro Apagador de Rostos é indistinguível da de uma pessoa comum. Ele fala, veste-se e age como um cidadão qualquer, o que lhe permite se misturar perfeitamente à população. Costuma aparecer tanto em ambientes urbanos quanto rurais, podendo surgir sozinho, em pequenos grupos ou mesmo em bandos numerosos. Testemunhos históricos mencionam que essas criaturas às vezes cavalgavam por desfiladeiros e áreas montanhosas com destreza sobrenatural. Em outras ocasiões, transformavam-se em pequenas esferas que se infiltravam pelas frestas dos telhados, girando no ar até expandirem-se e assumirem forma humana. Sua presença é furtiva e imprevisível, surgindo e desaparecendo sem deixar rastros.

Método de ataque

O ataque do Monstro Apagador de Rostos é súbito e quase imperceptível. A simples aproximação ou contato com a criatura é suficiente para causar colapso imediato da vítima, que desaba no chão como se golpeada por uma força invisível. Ao examinar o corpo, nota-se que a face desapareceu parcial ou completamente, restando apenas a parte posterior do crânio. Esses eventos ocorriam com maior frequência nos meses de agosto e setembro do calendário lunar, causando pânico em cidades e vilarejos por onde a criatura passava. Em algumas regiões, relatos indicam que milhares de pessoas foram atingidas durante um único ciclo de aparições.

Propósitos e teorias

As intenções por trás dos ataques do Monstro Apagador de Rostos não são claras, mas algumas teorias tentam explicar a motivação da criatura. Uma delas sugere que os rostos humanos eram coletados como oferendas para espíritos demoníacos ou usados em rituais de magia negra conhecidos como yansheng (厌胜), práticas voltadas à manipulação espiritual ou submissão de entidades ocultas. Outra hipótese associa o fenômeno a tradições obscuras de certos grupos étnicos do sul da China, como os Miao, Man e Yao, cujos espíritos ou demônios surgiriam especialmente em anos bissextos. Também existem registros históricos que mencionam o uso desse tipo de magia por militares rebeldes, como o general Sun Kewang, que teria ordenado a coleta de dez mil rostos humanos como sacrifício ritual para garantir vitória em batalha.

Relatos 

Um dos relatos mais macabros envolvendo o Monstro Apagador de Rostos menciona a entrada de vários deles em uma cidade carregando um grande barril de madeira. Quando os soldados tentaram cercá-los, eles desapareceram misteriosamente, deixando para trás apenas o barril. Ao abri-lo, encontraram mais de cem rostos humanos armazenados e preservados em cal viva. O episódio aumentou ainda mais o pânico nas comunidades atingidas.

Diante da ameaça constante, a população local organizou rondas armadas e patrulhas noturnas. Autoridades civis e militares passaram a circular intensivamente pelas cidades. Moradores eram instruídos a bater tambores e sinos de bronze durante a noite, um método tradicional chinês para repelir espíritos malignos. A tensão durava meses, e apenas com o fim das aparições, geralmente ao final do outono, a vida nas cidades começava a voltar ao normal.

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12 de novembro de 2025

Sapucaia-Oroca

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Sapucaia-Oroca, também chamada Sapucaia-Roca  (termo que se traduz por “galinheiro”) é uma antiga lenda da Amazônia associada ao povo Mura e à região do rio Madeira. A história narra o desaparecimento de uma cidade engolida pelas águas como punição por sua decadência moral, tornando-se um relato exemplar de caráter espiritual e pedagógico. Misturando crenças indígenas e influências cristãs trazidas por missionários, a tradição foi transmitida como advertência contra o orgulho e a desmedida. Sua estrutura mítica guarda semelhanças com narrativas universais sobre civilizações perdidas, como Atlântida, Eldorado e Paitíti — mundos de esplendor destruídos pela própria arrogância.

A lenda

Segundo as versões populares, Sapucaia-Oroca teria sido uma cidade de beleza e riqueza incomparáveis, diferente de qualquer aldeia conhecida. As construções eram descritas como palácios dourados, e as ruas, cobertas de pedras preciosas. O povo, entregue ao luxo e à fartura, vivia em festas contínuas, desinteressado do trabalho e do convívio com a natureza. 

Diante desse excesso, Tupã, o criador, teria se entristecido. Enviou avisos por meio dos pajés, mas ninguém os escutou. A insensatez do povo levou-o a um castigo inevitável: durante dias, uma chuva intensa fez o Madeira transbordar até submergir a cidade inteira.

Apesar da destruição, a divindade, movida por compaixão, não teria condenado os Mura à morte. Acredita-se que continuaram a viver no fundo das águas, e que, nas noites silenciosas, ainda se pode ouvir o canto de galos vindo do leito do rio — lembrança viva dos antigos habitantes. É esse som misterioso que teria inspirado o nome do lugar, Sapucaia-Oroca, em alusão ao “galinheiro” oculto sob o rio.

A versão mais conhecida da história foi registrada em 1873 pelo cônego Francisco Bernardino de Souza, em sua obra, Lembranças e Curiosidades do Vale do Amazonas, e posteriormente reunida por Luís da Câmara Cascudo em sua obra Lendas Brasileiras. Nessa narrativa, os Mura celebravam festas dedicadas a Tupana, mas suas danças e cantos tornaram-se tão profanos que fizeram chorar os angaturamas, espíritos protetores do povo. Os pajés, intérpretes dos desígnios divinos, advertiram sobre um castigo iminente, porém foram ignorados. No auge de uma dessas celebrações, a terra tremeu e o rio ergueu-se, tragando a cidade e seus habitantes. As altas barrancas ainda visíveis seriam o vestígio do abismo aberto naquele dia.

Com o tempo, uma nova aldeia surgiu próximo ao local desaparecido. Os moradores, descendentes dos antigos Mura, começaram a escutar, vindos das profundezas, os mesmos galos que um dia cantaram na cidade perdida. Para os pajés, esses sons eram vozes dos angaturamas, que relembravam a catástrofe e exortavam a nova geração a não repetir os erros do passado. Assim, o nome Sapucaia-Oroca manteve viva a lembrança da cidade submersa — um lembrete perene da fronteira entre a abundância e a ruína, entre o orgulho humano e a força implacável das águas.

Arte de Marcio Luiz Quedinho

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11 de novembro de 2025

Rogo-tumu-here

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Rogo-tumu-here é um polvo demoníaco da mitologia do arquipélago de Tuamotu, no Oceano Pacífico. Ele é conhecido por sequestrar Hina-a-rauriki e levá-la para as profundezas do oceano, dando início a uma jornada heroica para resgatá-la.

O Sequestro de Hina

Um dia, o deus do mar Tangaroa viajou para a terra de Faumea, uma mulher com enguias uma mulher que possui enguias em sua genitália capazes de matar homens. Com sua ajuda, ele aprende a atraí-las para fora e consegue dormir com Faumea, resultando no nascimento de dois filhos: Tu-nui-ka-rere (ou Ratu-nui) e Turi-a-faumea.

Turi-a-faumea posteriormente se casa com Hina-a-rauriki, e juntos compartilham momentos de lazer, incluindo a prática do surfe. No entanto, durante uma dessas sessões, Rogo-tumu-here surge das profundezas e arrasta Hina para seu covil submarino. Desolado, Turi-a-faumea chora a perda de sua esposa.

A Caça a Rogo-tumu-here e  a Libertação de Hina

Determinados a resgatar Hina, Tangaroa, Tu-nui-ka-rere e Turi-a-faumea constroem um barco para enfrentarem Rogo-tumu-here. Tangaroa entoa um canto ritual para lançar a canoa ao mar, enquanto Faumea controla os ventos, guardando-os no suor de sua axila e liberando-os por meio de um encantamento.

Durante a jornada, Faumea tenta agarrar o cinto de Tu-nui-ka-rere, que escapa e ascende ao céu, desaparecendo. Turi-a-faumea e Tangaroa seguem para a morada de Rogo-tumu-here e preparam uma isca especial, utilizando penas vermelhas sagradas. O plano funciona, e Rogo-tumu-here é atraído até a canoa.

Com o monstro preso, Tangaroa inicia uma batalha mortal, cortando um a um os tentáculos de Rogo-tumu-here. Eventualmente, a cabeça do polvo emerge das águas, momento em que Tangaroa a decepa, encerrando a ameaça da criatura. Quando o corpo do polvo é aberto, Hina-a-rauriki é retirada de dentro dele, coberta de lodo, mas viva. 

Arte de Matheus Felinto

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10 de novembro de 2025

Mulher Aranha

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A Mulher Aranha (conhecida entre os Hopi como Kokyangwuti ou Gogyeng Sowuhti, entre os Navajo (Diné) como Na’ashjé’ii Asdzáá, entre os Ojibwe como Asibikaashi, e referida em diversas outras tradições como Avó Aranha, Velha Aranha ou Anciã Aranha) é uma figura mitológica central e multifacetada presente em várias tradições nativas da América do Norte. Embora sua imagem varie conforme o povo e o território, ela é amplamente reconhecida como uma divindade criadora, protetora, guia espiritual, guardiã do conhecimento e tecelã do destino.

Apesar da diversidade de papéis e atributos, a Mulher Aranha costuma estar associada a temas como a criação do mundo, a transmissão do saber, a mediação entre planos espirituais e físicos, e a preservação do equilíbrio cósmico. Suas histórias vão desde a formação da vida até a invenção da cerâmica, do fogo e das artes — mas em certas culturas, ela também assume formas mais sombrias, atuando como provadora ou devoradora.

Na cosmologia dos Diné (Navajo), a Mulher Aranha é uma figura sagrada que ensinou a Primeira Mulher a tecer, introduzindo os humanos à arte da tecelagem, considerada uma expressão de harmonia e beleza espiritual (hózhǫ́). Ela também orienta os heróis e ajuda a preservar o equilíbrio do mundo natural.

Arte de itzamahel

Na Tradição Navajo (Diné)

Na cosmologia dos Diné, Na’ashjé’ii Asdzáá é uma entidade sagrada que introduziu a Primeira Mulher à arte da tecelagem. Essa prática, para os Navajo, não é apenas artesanal, mas uma expressão da harmonia universal (hózhǫ́), que conecta os seres humanos ao tecido do mundo espiritual. A Mulher Aranha também guia os heróis culturais e auxilia na manutenção do equilíbrio entre os reinos naturais e sobrenaturais.

Arte de Brett Melograno

Na Tradição Zuni

Entre os Zuni, a Avó Aranha atua como aliada mágica dos gêmeos guerreiros Ahayuta e Matsilema, ajudando-os a derrotar o Monstro Devorador de Nuvens (Lo Ikwithltchunona), uma entidade que ameaçava a humanidade ao engolir as chuvas e secar a terra. Sua ajuda foi essencial para restaurar o ciclo das águas e garantir a continuidade da agricultura e da vida.

Na Tradição Acoma

No mito de criação dos Acoma, a Mulher Aranha concede sementes sagradas às irmãs primordiais Iatiku e suas companheiras. Essas sementes germinam e se tornam as primeiras plantas do mundo novo, representando a transição do caos primordial para a fertilidade e a ordem do mundo cultivável.

Na Tradição Cherokee e Choctaw

Para os Cherokee e os Choctaw, a Avó Aranha é uma heroína cultural e portadora da luz. No início dos tempos, quando o mundo era envolto em trevas, ela se aventurou até os povos do leste, que possuíam o fogo. Por ser pequena e discreta, conseguiu roubar uma centelha, escondida dentro de um pote de barro transportado em sua teia. Assim, trouxe o fogo para a humanidade, ensinando como usá-lo com sabedoria e segurança. Em algumas versões, ela não rouba o fogo, mas o próprio Sol. Além disso, ela ensinou os humanos a fazer cerâmica, dotando-os de ferramentas fundamentais para o sustento e a cultura.

Na Tradição Hopi

Entre os Hopi, Kokyangwuti ocupa um dos papéis mais abrangentes e sagrados: o de criadora do mundo. Durante a emergência e migração dos povos para o mundo atual, é ela quem molda todos os seres vivos — incluindo os humanos — a partir da argila, soprando a vida sobre eles. Como a grande tecelã da existência, ela conecta os mundos visível e invisível através de fios espirituais, sendo a responsável por manter a ordem e o fluxo da vida.

Na Tradição Pawnee

Em contraste com suas representações mais benevolentes, a tradição Pawnee apresenta uma versão sombria da Mulher Aranha. Nesse mito, ela vive isolada com suas filhas, cultivando uma horta de milho, feijão e abóbora. Viajantes que buscavam suas sementes eram desafiados a participar de um jogo de dados — que era, na verdade, uma armadilha mortal. Durante o jogo, ela conjurava tempestades que congelavam os visitantes, pendurando depois seus crânios nas paredes de sua cabana.

Dois meninos sagrados, dotados de poder espiritual, foram enviados para pôr fim a esses horrores. Após resistirem aos alimentos envenenados — como cérebros, olhos e orelhas humanas disfarçados de comida — e aos feitiços da Mulher Aranha, eles desafiaram a entidade a dançar ao som de seus cânticos. Ao final do ritual, um enxame de gafanhotos, convocado por um canto mágico, a ergueu até o céu e a abandonou na Lua. Diz-se que até hoje sua veste pode ser vista na superfície lunar. Os gafanhotos que enxameiam no verão seriam os descendentes dessa batalha celestial.


fontes:
  • Spider Woman. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Spider_Grandmother>.
  • PATRICIA ANN LYNCH; ROBERTS, J. Native American mythology A to Z. New York, Ny: Chelsea House Publishers, 2010.
  • BASTIAN, D. E.; MITCHELL, J. K. Handbook of Native American mythology. Oxford ; New York: Oxford University Press, 2008.

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9 de novembro de 2025

Big Ears

۞ ADM Sleipnir

Big Ears (“Orelhas Grandes”) é uma criatura lendária do folclore das Terras Altas da Escócia, descrita como um gato demoníaco de proporções aterrorizantes. Segundo a tradição, possui orelhas desproporcionais, olhos amarelos e luminosos e pelagem negra, às vezes com uma mancha branca no peito. Big Ears estaria associado a antigos rituais de adivinhação, especialmente o taghairm, prática de magia que envolvia a tortura de gatos para invocar espíritos ou demônios.

O taghairm 

O taghairm era um ritual de ailuromancia — adivinhação pela tortura de gatos — realizado em locais isolados das Highlands. A forma mais temida, chamada taghairm nan cat, consistia em:

  • Construir um abrigo improvisado, como um celeiro ou cabana remota;
  • Espetar um gato vivo no fogo até a morte, evitando ferimentos imediatos em órgãos vitais;
  • Repetir o ato com outros animais, sem pausa ou alimentação dos participantes;
Após até quatro dias de sacrifícios contínuos, acreditava-se que Big Ears surgia para revelar segredos, oferecer oráculos ou conceder pedidos.

Relatos Históricos

As primeiras menções ao taghairm datam do século XVII, quando cronistas como o reverendo Robert Kirk relataram em seus diários religiosos que “cozer gato ao forno” era prática utilizada para invocar espíritos sombrios capazes de revelar segredos ocultos. No início do século XVIII, o etnógrafo Martin Martin descreveu variantes do rito nas ilhas Hébridas, incluindo a forma mais cruel — o taghairm nan cat — praticado em cabanas isoladas de Mull e Skye. 

Registros orais na região de Lochaber corroboram a existência de pelo menos três ocasiões, entre 1690 e 1730, em que grupos de gaélicos realizaram sacrifícios consecutivos de gatos por até quatro dias, interrompendo completamente a alimentação, até que uma aparição demoníaca de olhos amarelos e orelhas descomunais se manifestasse para proferir oráculos. Esses relatos, preservados em manuscritos religiosos e transcrições de clãs locais, enfatizam o horror e o arrependimento dos participantes ao testemunharem a materialização de Big Ears, descrita como uma entidade de voz rouca e caráter enganoso.


fontes:
  • MARTIN, Martin. A Description of the Western Isles of Scotland. Edinburgh: Andrew Anderson; London: William Creech, 1703.
  • KIRK, Robert. The Secret Commonwealth of Elves, Fauns and Fairies. Edinburgh: James Watson, 1815 (orig. 1691).
  • ‌ROSE, C. Giants, monsters, and dragons : an encyclopedia of folklore, legend, and myth. New York: Norton, 2001.
  • WIKIPEDIA. Taghairm. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Taghairm>.
  • Big Ears | Facts, Information, and Mythology. Disponível em: <https://pantheon.org/articles/b/big_ears.html>.
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