2 de setembro de 2026

Teseu

۞ ADM Sleipnir


Teseu (grego antigo: Θησεύς, Thēseús) é um dos principais heróis da mitologia grega e uma figura especialmente associada a Atenas e à região da Ática. Nas tradições antigas, é apresentado como filho de Etra e de Egeu, rei de Atenas, embora algumas versões também atribuam sua paternidade ao deus Poseidon. Entre seus feitos mais conhecidos estão a viagem de Trezena a Atenas, durante a qual derrota vários adversários, a captura do Touro de Maratona e a morte do Minotauro no Labirinto de Creta.

Teseu aparece em fontes gregas desde a poesia arcaica e, ao longo do tempo, tornou-se uma das principais figuras da identidade cívica ateniense. Os atenienses atribuíram a ele a unificação política da Ática e o veneraram como herói. No entanto, não existem evidências independentes que permitam considerá-lo um rei historicamente comprovado. As narrativas sobre sua vida pertencem ao ciclo mítico grego e apresentam diferenças conforme o autor, a época e a região.

Nascimento e juventude

Segundo uma tradição preservada por Plutarco, Egeu não conseguia gerar um herdeiro e consultou o oráculo de Delfos. A resposta recebida era enigmática e advertia o rei para que não “desatasse a boca do odre” antes de retornar a Atenas. Durante a viagem de volta, Egeu passou por Trezena e procurou Piteu, rei local conhecido por sua sabedoria. Piteu compreendeu o sentido do oráculo e fez com que Egeu se unisse à sua filha, Etra. Antes de partir, Egeu colocou uma espada e um par de sandálias sob uma grande pedra. Caso Etra tivesse um filho, deveria revelar sua origem quando o jovem fosse forte o bastante para levantar a pedra e recuperar os objetos.

A tradição de Trezena também atribuía a Teseu uma origem divina. Segundo Pausânias, Etra recebeu em sonho uma orientação da deusa Atena para atravessar até a ilha de Esféria e oferecer libações no túmulo de Esfero, antigo auriga de Pélops. Depois de chegar à ilha, teria se unido a Poseidon. Em lembrança do episódio, Etra teria fundado ali um santuário de Atena Apatúria e mudado o nome da ilha para Hiera, a “Ilha Sagrada”. Dessa forma, algumas tradições apresentavam Teseu simultaneamente como filho de Egeu e de Poseidon, combinando uma ascendência humana, ligada à realeza ateniense, com uma origem divina.

Teseu foi criado em Trezena por Etra e Piteu. Ao atingir a juventude, sua mãe revelou-lhe a identidade de Egeu e mostrou-lhe a pedra sob a qual estavam escondidos os objetos deixados pelo rei. Teseu conseguiu erguê-la, recuperou a espada e as sandálias e decidiu partir para Atenas.

Teseu encontrado a espada e a sandália do pai, pintura de Antonio Balestra (séc XVIII)


A Viagem de Trezena a Atenas

Após recuperar a espada e as sandálias deixadas por Egeu, Teseu decidiu partir de Trezena em direção a Atenas. Sua mãe e seu avô aconselharam-no a viajar por mar, pois a rota terrestre que atravessava o Istmo de Corinto era considerada perigosa e frequentada por ladrões e assassinos. Teseu, entretanto, escolheu seguir por terra. Segundo Plutarco, o jovem admirava os feitos de Héracles e desejava demonstrar sua própria coragem enfrentando aqueles que ameaçavam os viajantes. A jornada tornou-se um dos principais ciclos de aventuras associados ao herói. Em várias das narrativas, Teseu não apenas derrota seus adversários, mas aplica contra eles os mesmos métodos que utilizavam para matar suas vítimas.

O primeiro deles foi Perifetes, encontrado na região de Epidauro. Filho de Hefesto segundo uma tradição preservada por Pseudo-Apolodoro, ele era conhecido pelo uso de uma pesada clava de metal com a qual atacava os viajantes. A mesma fonte afirma que Perifetes tinha problemas nas pernas e utilizava a clava também como apoio.

Perifetes, arte de Ikkitouch

Quando tentou atacar Teseu, foi derrotado e morto pelo jovem. Teseu então tomou sua clava e passou a carregá-la consigo, transformando a arma do adversário em um dos símbolos de seus primeiros feitos.

Ao chegar ao Istmo de Corinto, Teseu encontrou Sínis, conhecido como o “dobrador de pinheiros”. As fontes antigas apresentam algumas diferenças sobre o método utilizado por ele contra os viajantes. Em uma versão, Sínis obrigava suas vítimas a ajudá-lo a curvar um pinheiro até o chão e, em seguida, soltava a árvore, fazendo com que fossem arremessadas violentamente. Pausânias registra uma forma ainda mais brutal da história: Sínis prendia a vítima a dois pinheiros vergados em direções opostas e, quando as árvores eram soltas, o corpo era dilacerado. Teseu derrotou Sínis e o matou utilizando contra ele o mesmo suplício que infligia aos demais. Plutarco acrescenta que, depois da morte de Sínis, sua filha Perígune fugiu e se escondeu entre a vegetação. Teseu prometeu não lhe fazer mal, e ela finalmente apareceu. Da união entre os dois teria nascido Melanipo. Essa tradição pertence aos relatos complementares sobre a passagem do herói pelo Istmo e não aparece com os mesmos detalhes em todas as fontes.

Prosseguindo pela estrada, Teseu chegou a Crômion, onde enfrentou uma enorme porca que aterrorizava a região. A criatura ficou conhecida como Porca de Crômion e também como Féa (Phaia), nome que, segundo Pseudo-Apolodoro, derivava de uma velha que a havia criado. A mesma fonte registra uma tradição segundo a qual o animal seria descendente de Tifão e Equidna, casal monstruoso associado a várias criaturas da mitologia grega. Teseu matou a porca e pôde continuar sua viagem.

Porca de Crômion, arte de Javier Bahamondes

O quarto grande adversário da jornada foi Círon (ou Escíron), ligado aos penhascos da costa de Mégara que ficaram conhecidos como Rochas Cironianas. Segundo a versão mais difundida, Círon obrigava os viajantes que passavam pelo local a lavar seus pés. Enquanto se abaixavam para cumprir a tarefa, ele os chutava ou empurrava do precipício para o mar. Algumas fontes acrescentam que, na água, os corpos eram devorados por uma enorme tartaruga. Teseu submeteu Círon ao mesmo destino reservado às suas vítimas: agarrou-o e o lançou do penhasco para o mar. Plutarco registra uma tradição atribuída a escritores de Mégara que rejeitava a imagem de Círon como ladrão. Segundo essa versão, ele seria um perseguidor de criminosos e pertenceria, por vínculos familiares, a círculos de figuras consideradas respeitáveis na tradição grega.

Depois de atravessar Mégara, Teseu chegou às proximidades de Elêusis, onde encontrou Cércion, famoso por sua força. Cércion obrigava os viajantes a enfrentá-lo numa luta corporal e os matava quando eram derrotados. Teseu aceitou o desafio e conseguiu vencê-lo em seu próprio tipo de combate. Pseudo-Apolodoro afirma que o herói ergueu Cércion e o lançou violentamente ao chão, matando-o. A vitória sobre Cércion destacou outro aspecto atribuído a Teseu nas tradições antigas: além da força física, o herói passou a ser relacionado à habilidade na luta corporal. Autores posteriores chegaram a associá-lo ao desenvolvimento da arte da luta, embora esses relatos devam ser entendidos como tradições sobre o herói, e não como informação histórica sobre a origem do esporte.

O último grande adversário antes da chegada a Atenas foi Procrustes, também chamado Damastes ou, em algumas fontes, Polipêmon. Ele vivia junto à estrada e oferecia hospedagem aos viajantes, aparentemente permitindo que descansassem em sua casa. A hospitalidade escondia, porém, uma armadilha. As versões mais conhecidas contam que Procrustes possuía camas nas quais obrigava seus hóspedes a se ajustar. Pseudo-Apolodoro menciona duas camas, uma grande e outra pequena: os viajantes baixos eram colocados na maior e tinham o corpo alongado violentamente, enquanto os mais altos eram colocados na menor e tinham as partes que ultrapassavam suas dimensões cortadas. Em outras formas da narrativa, fala-se simplesmente de uma cama à qual todas as vítimas deveriam ser ajustadas. Teseu derrotou Procrustes e aplicou-lhe o mesmo princípio de punição que o bandido empregava contra seus hóspedes, fazendo com que ele próprio fosse ajustado à cama.

Teseu matando Procrustes, arte em vaso grego

Esses confrontos formaram um ciclo próprio dentro da mitologia de Teseu e foram frequentemente comparados aos trabalhos de Héracles. Na poesia de Baquílides, a notícia das façanhas chega a Atenas antes do próprio Teseu: um mensageiro relata a Egeu que um jovem extraordinário avançava pela estrada depois de derrotar sucessivamente alguns dos mais temidos adversários da região. Antes de entrar propriamente em Atenas, Teseu ainda passou pelo rio Céfiso. Segundo Pausânias, ali foi purificado pelos Fitálidas, descendentes de Fítalo, no altar de Zeus Meilíquio. A purificação estava relacionada às mortes cometidas durante a viagem, especialmente à de Sínis, que era considerado parente de Teseu por meio de Piteu. Depois desse rito, Teseu finalmente seguiu para Atenas. 

Chegada a Atenas e o Touro de Maratona

Quando Teseu chegou a Atenas, Egeu ainda não sabia que o jovem vindo de Trezena era seu filho. A sucessão do reino permanecia incerta, enquanto os Palântidas, os cinquenta filhos de Pálas, irmão de Egeu, mantinham interesse no poder. Ao lado do rei estava também Medéia, que havia deixado Corinto. Segundo Plutarco, Medéia percebeu a identidade de Teseu antes de Egeu e convenceu o rei a envenenar o visitante. Durante um banquete, Teseu retirou a espada deixada por Egeu em Trezena, permitindo que o rei reconhecesse a arma. Ao perceber que estava diante do próprio filho, Egeu impediu o envenenamento e reconheceu Teseu como herdeiro. Pseudo-Apolodoro apresenta uma sequência diferente. Nessa versão, Medéia primeiro convence Egeu a enviar Teseu contra o Touro de Maratona, esperando que ele morra no confronto. O reconhecimento pela espada acontece somente após o retorno do herói.

Teseu e Egeu

O reconhecimento de Teseu também provocou um conflito com os Palântidas. Segundo Plutarco, eles planejaram um ataque em duas frentes, mas o plano foi revelado a Teseu por Leos, um arauto de Agno. O herói atacou o grupo que preparava uma emboscada, enquanto Pálas e seus demais seguidores se dispersaram. Outras fontes situam o confronto definitivo com os Palântidas em outro momento da vida de Teseu.

Depois disso, Teseu enfrentou o Touro de Maratona, animal que devastava parte da Ática. Algumas fontes identificam-no com o Touro de Creta anteriormente capturado por Héracles. Durante a expedição, Teseu foi acolhido por Hécale, uma mulher idosa que prometeu oferecer um sacrifício a Zeus caso ele retornasse em segurança. Teseu conseguiu capturar o touro vivo e o conduziu de volta. Ao procurar Hécale novamente, soube que ela havia morrido. A tradição relacionava sua memória às Hecalésias, celebrações em honra de Zeus Hecáleo. O episódio também se tornou tema do poema helenístico Hécale, de Calímaco.

As fontes divergem sobre o destino final do touro. Plutarco afirma que Teseu o sacrificou a Apolo Delfínio, enquanto Pausânias conserva uma tradição em que o animal é levado à Acrópole e sacrificado a Atena.

 "Teseu Vencedor do Touro de Maratona", de Charles-André van Loo (Carle Vanloo)

Teseu e o Minotauro


Pouco depois da captura do Touro de Maratona, Atenas voltou a enfrentar uma obrigação imposta pelo rei Minos de Creta imposto por Creta a Atenas era associada à morte de Androgeu, filho do rei Minos, embora as fontes apresentem versões diferentes sobre o episódio. Segundo Pseudo-Apolodoro, Androgeu havia se destacado nos Jogos Panatenaicos e foi enviado por Egeu contra o Touro de Maratona, combate no qual morreu. O mesmo autor registra outra versão, segundo a qual teria sido assassinado por competidores invejosos. Pausânias também associa sua morte ao touro, enquanto Diodoro Sículo afirma que Egeu provocou sua morte por temer uma aliança entre Androgeu e os Palântidas.

Após a morte do filho, Minos entrou em conflito com Atenas. Como parte do acordo entre as duas cidades, Atenas passou a enviar sete rapazes e sete moças a Creta. Plutarco e Diodoro afirmam que o tributo era exigido a cada nove anos, enquanto Pseudo-Apolodoro conserva uma versão em que ocorria anualmente. Na tradição mais conhecida, os jovens eram enviados ao Minotauro, criatura de características humanas e bovinas mantida no Labirinto de Creta. Segundo Pseudo-Apolodoro, o monstro era filho de Pasífae, esposa de Minos, e de um touro enviado por Poseidon. O deus teria feito Pasífae se apaixonar pelo animal depois que Minos deixou de sacrificá-lo. Com a ajuda de Dédalo, ela conseguiu unir-se ao touro e deu à luz o Minotauro, posteriormente encerrado no Labirinto construído pelo próprio artesão. Plutarco registra também interpretações racionalizadas da história. Segundo uma tradição atribuída a Filócoro, o Labirinto seria uma prisão, e os jovens atenienses seriam entregues como prêmios em jogos funerários realizados em memória de Androgeu. O principal vencedor desses jogos seria um comandante cretense chamado Taurus.


Quando chegou a ocasião do terceiro tributo, Teseu decidiu integrar a expedição. Segundo Plutarco, apresentou-se voluntariamente. Outra tradição, atribuída a Hellânico, afirmava que Minos escolhia pessoalmente os jovens e selecionou Teseu. Antes da partida, Teseu levou os jovens ao Delfínio, santuário ateniense de Apolo, onde realizou uma oferenda. Plutarco também relata que um oráculo teria aconselhado o herói a tomar Afrodite como guia durante a viagem. A embarcação utilizada pelos jovens navegava com uma vela escura. Teseu combinou com Egeu que, caso retornasse vivo, utilizaria outro sinal para indicar sua vitória. A versão mais difundida fala de uma vela branca, embora Plutarco registre uma variante em que ela seria púrpura ou escarlate.

Uma tradição preservada pelo poeta Baquílides relata que, durante a viagem, Minos tentou aproximar-se de uma jovem ateniense chamada Eribeia. Teseu interveio, e Minos o desafiou a demonstrar sua origem divina. Depois de lançar um anel ao mar, ordenou que Teseu o recuperasse. Teseu mergulhou e foi conduzido por golfinhos até a morada submarina de Poseidon. Ali encontrou as Nereidas e Anfitrite, que o recebeu e lhe ofereceu presentes. O herói retornou então à embarcação, demonstrando sua ligação com o deus do mar.

Em Creta, Ariadne, filha de Minos, apaixonou-se por Teseu e decidiu ajudá-lo. Segundo Pseudo-Apolodoro, ela prometeu auxiliá-lo desde que ele se comprometesse a levá-la consigo. Depois de consultar Dédalo, entregou ao herói um fio que permitiria encontrar a saída do Labirinto. Teseu prendeu uma extremidade do fio na entrada e passou a desenrolá-lo enquanto avançava. No interior do Labirinto, encontrou o Minotauro e o matou. As fontes não concordam sobre a forma exata do combate. Plutarco não especifica a arma utilizada, enquanto Pseudo-Apolodoro afirma que Teseu derrotou a criatura com os próprios punhos. Depois da morte do Minotauro, Teseu utilizou o fio para retornar à entrada e deixou Creta acompanhado por Ariadne e pelos jovens atenienses.


O abandono de Ariadne e o retorno a Atenas

O destino de Ariadne durante a viagem de volta apresenta numerosas variantes. Uma das referências mais antigas aparece na Odisseia. Segundo o poema, Teseu levou Ariadne de Creta, mas ela morreu na ilha de Dia, atingida por Ártemis por causa de Dioniso. O poema relaciona sua morte a Dioniso, utilizando uma expressão que pode ser entendida como “por testemunho de Dioniso”, mas não explica claramente o motivo da intervenção do deus nem as circunstâncias da morte. 

Em tradições posteriores, Dia foi identificada com Naxos, ilha especialmente associada a Ariadne e Dioniso. Pseudo-Apolodoro afirma que Dioniso se apaixonou pela princesa e a levou consigo. Nessa versão, Teseu não a abandona deliberadamente. Plutarco conserva outras narrativas. Uma delas afirma que Ariadne se enforcou depois de ser abandonada; outra diz que Teseu a deixou porque havia se apaixonado por Egle, filha de Panopeu.

O mesmo autor registra uma tradição atribuída a Péon de Amatunte, ligada a Chipre. Segundo ela, Ariadne, grávida e debilitada pela viagem, foi deixada em terra durante uma tempestade. Teseu foi arrastado novamente para o mar pelo vento, e Ariadne morreu antes de seu retorno. Quando conseguiu voltar, o herói teria estabelecido sacrifícios em sua memória. Plutarco também menciona uma tradição de Naxos que distinguia duas Ariadnes: uma ligada a Dioniso e celebrada de forma festiva, e outra associada a Teseu e lembrada por ritos de luto.

 Teseu e Ariadne (em alemão: Theseus und Ariadne), pintura atribuída à escola ferrareses ou a um artista anônimo da região de Ferrara por volta de 1540

Depois da separação de Ariadne, Teseu continuou a viagem com os jovens atenienses. Segundo Plutarco, o grupo parou em Delos, onde o herói realizou sacrifícios e dedicou uma imagem de Afrodite recebida de Ariadne. Ainda em Delos, Teseu e os jovens teriam realizado uma dança chamada Géranos, “garça”, cujos movimentos imitavam os caminhos sinuosos do Labirinto.

Quando a embarcação se aproximou da Ática, o sinal combinado com Egeu não foi utilizado. As fontes explicam o esquecimento de maneiras diferentes. Pseudo-Apolodoro e Pausânias o relacionam à tristeza de Teseu pela perda de Ariadne, enquanto Plutarco afirma que Teseu e seu piloto se esqueceram em meio à alegria do retorno. Ao ver a vela escura, Egeu acreditou que o filho havia morrido e se lançou de uma altura, morrendo. A tradição posteriormente relacionou o nome do mar Egeu ao episódio. 


Teseu desembarcou em Faleron, realizou os sacrifícios prometidos antes da viagem e, ao saber da morte do pai, seguiu para Atenas e assumiu sua posição como sucessor.

Teseu como rei e herói ateniense

Como rei, Teseu foi associado ao sinecismo da Ática, isto é, à integração política das diferentes comunidades da região em torno de Atenas. Tucídides relata que, antes de Teseu, essas comunidades possuíam seus próprios conselhos e magistrados. O herói teria concentrado as instituições políticas em Atenas, criando um conselho e um pritaneu comuns. Essa tradição não comprova, porém, que um governante histórico chamado Teseu tenha realizado pessoalmente a unificação da Ática. O sinecismo é entendido como resultado de um processo histórico mais complexo, posteriormente atribuído ao herói. Plutarco amplia essa tradição e afirma que Teseu teria percorrido a Ática para convencer suas comunidades a aceitar a união. O autor também atribui a ele a instituição das Panateneias e da Metoikia, festividade relacionada à integração das comunidades áticas.

A associação de Teseu a formas de governo popular já aparece na Atenas clássica. Em As Suplicantes, de Eurípides, o herói é apresentado defendendo a igualdade diante das leis e a participação dos cidadãos na vida política. Outras fontes antigas também o aproximam de uma limitação da autoridade monárquica.

Essas tradições refletem a maneira como os atenienses reinterpretaram Teseu à luz de suas próprias instituições. Por isso, ele pode ser considerado um símbolo mítico da organização cívica ateniense, mas não um fundador historicamente comprovado da democracia.

Amazonas, Fedra e Hipólito

Teseu também foi associado às Amazonas, embora as fontes apresentem diferentes versões sobre o episódio. Segundo uma tradição citada por Plutarco, Teseu acompanhou Héracles em sua expedição contra as Amazonas e recebeu uma delas como recompensa. Outras fontes afirmam que realizou uma campanha própria e capturou uma guerreira. A identidade dessa amazona também varia. Ela é chamada Antíope em várias fontes, Melanipe em outras e Hipólita em algumas tradições. Não é possível tratá-las simplesmente como diferentes nomes de uma única personagem.

A união de Teseu com a amazona foi relacionada à invasão da Ática pelas Amazonas, conflito conhecido como Amazonomaquia e posteriormente muito representado na arte ateniense. A amazona ligada a Teseu era geralmente considerada mãe de Hipólito. Mais tarde, Teseu casou-se com Fedra, filha de Minos e irmã de Ariadne. Pseudo-Apolodoro atribui ao casal dois filhos, Acamante e Demofonte.

A história de Fedra e Hipólito é especialmente conhecida pela tragédia Hipólito, de Eurípides, apresentada em 428 a.C. Na peça, Hipólito dedica especial devoção a Ártemis e despreza Afrodite. Como punição, Afrodite faz com que Fedra se apaixone pelo enteado. Fedra tenta resistir à paixão, mas sua ama revela o segredo a Hipólito contra sua vontade. O jovem rejeita qualquer possibilidade de união. Fedra então se mata e deixa uma acusação contra Hipólito. Teseu acredita que o filho havia desonrado Fedra e invoca contra ele uma das súplicas que Poseidon prometera atender. Quando Hipólito deixa Trezena em sua carruagem, um touro surge do mar e assusta os cavalos. O jovem é arrastado e mortalmente ferido. No final da tragédia, Ártemis revela a inocência de Hipólito. Teseu reconhece seu erro e se reconcilia com o filho antes de sua morte. 

Outras fontes apresentam detalhes diferentes. Pseudo-Apolodoro, por exemplo, atribui à própria Fedra uma tentativa direta de seduzir Hipólito antes da falsa acusação.

Hipólito, Fedra e Teseu, autor desconhecido

Pirítoo e os centauros

Uma das principais amizades atribuídas a Teseu foi com Pirítoo, rei dos lápitas. Segundo Plutarco, Pirítoo roubou parte do gado de Teseu em Maratona para testar sua reputação. Teseu partiu em perseguição, mas, quando os dois se encontraram, ficaram impressionados com a coragem um do outro e decidiram tornar-se amigos. Posteriormente, Teseu participou do casamento de Pirítoo. A noiva é chamada Deidamia por Plutarco e Hipodâmia em outras fontes.

Os centauros também estavam presentes na celebração. Depois de se embriagarem, passaram a agir violentamente contra as mulheres presentes, provocando um confronto com os lápitas. Teseu lutou ao lado de Pirítoo e ajudou a derrotá-los. O episódio ficou conhecido como Centauromaquia e tornou-se um tema recorrente da arte grega.

Outras tradições heroicas

Algumas fontes também incluem Teseu em outras grandes aventuras heroicas. Ele aparece em certas listas de participantes da Caçada ao Javali Calidoniano e, em algumas tradições, entre os Argonautas que acompanharam Jasão na busca pelo Velocino de Ouro. Essas participações não são uniformes e existem versões cuja cronologia é incompatível com a presença de Teseu nesses acontecimentos.

O rapto de Helena e a descida ao mundo dos mortos

Teseu e Pirítoo decidindo nos dados quem ficará com Helena. Pintura de Odorico Politi (1785–1846)

Segundo Pseudo-Apolodoro, Teseu e Pirítoo fizeram um pacto para se casar com filhas de Zeus. Para Teseu escolheram Helena de Esparta, filha de Zeus e Leda. Os dois a raptaram e decidiram por sorteio quem ficaria com ela. Teseu venceu e deixou Helena sob os cuidados de sua mãe, Etra, na Ática, enquanto acompanhava Pirítoo em busca de outra esposa. As fontes destacam a pouca idade de Helena. Pseudo-Apolodoro afirma que ela tinha doze anos, enquanto Plutarco, citando Helânico, diz apenas que ainda não tinha idade para o casamento.

Pirítoo decidiu tomar Perséfone, filha de Zeus e consorte de Hades. Na versão mitológica preservada por Pseudo-Apolodoro, os dois desceram ao mundo dos mortos. Hades os convidou a sentar e os prendeu a assentos dos quais não conseguiam se libertar. Quando Héracles posteriormente desceu ao Hades, conseguiu libertar Teseu, enquanto Pirítoo permaneceu aprisionado.

Pintura em vaso grego que retrata Héracles resgatando Teseu

Outros autores procuraram explicar a história de maneira racionalizada. Plutarco preserva uma tradição em que Aidoneu era um rei dos molóssios, Perséfone sua esposa, Core sua filha e Cérbero um cão feroz. Ao descobrir que Teseu e Pirítoo pretendiam raptar Core, Aidoneu matou Pirítoo e manteve Teseu prisioneiro até a intervenção de Héracles. Pausânias registra uma versão semelhante situada na Tesprócia, região onde existiam lugares chamados Aqueronte e Cócito, nomes também associados ao mundo dos mortos.

Durante a ausência de Teseu, Castor e Pólux, irmãos de Helena, invadiram a Ática e recuperaram a irmã. Etra também foi levada. Ao mesmo tempo, Menesteu, adversário político de Teseu, fortaleceu sua posição em Atenas. Pseudo-Apolodoro afirma que os Dióscuros colocaram Menesteu no governo da cidade.

A Morte de Teseu

Depois de ser libertado, Teseu retornou a Atenas e tentou recuperar sua autoridade, mas encontrou uma situação política modificada e uma oposição fortalecida. Segundo Plutarco, o herói acabou enviando seus filhos Acamante e Demofonte para Eubeia e deixou Atenas. Teseu dirigiu-se então a Esciros. Plutarco afirma que possuía propriedades na ilha e procurou o rei Licomedes para recuperá-las ou obter apoio para retomar o poder em Atenas.

Segundo uma das versões mais conhecidas, Licomedes levou Teseu até uma região elevada sob o pretexto de mostrar-lhe suas terras e o empurrou de um precipício. Plutarco registra também uma versão segundo a qual sua morte teria ocorrido por acidente. Pausânias apresenta outra tradição: Teseu pretendia viajar para Creta, mas ventos desviaram sua embarcação para Esciros, onde Licomedes teria decidido matá-lo por temer sua reputação.

Plutarco também relata uma tradição segundo a qual, séculos depois, alguns atenienses acreditaram ter visto uma aparição de Teseu combatendo ao lado deles na Batalha de Maratona, em 490 a.C. Na década de 470 a.C., o general ateniense Címon conquistou Esciros. A conquista da ilha é um acontecimento histórico registrado por Tucídides. Fontes posteriores associaram essa campanha à recuperação dos supostos restos mortais de Teseu.

Segundo Plutarco, um oráculo havia ordenado aos atenienses que encontrassem os ossos do herói e os levassem para Atenas. Durante a ocupação da ilha, Címon teria localizado uma sepultura contendo restos humanos acompanhados por uma lança de bronze e uma espada. Os ossos foram identificados como pertencentes a Teseu e transportados solenemente para Atenas. Embora a conquista de Esciros por Címon pertença à história ateniense do século V a.C., não é possível comprovar que os restos encontrados fossem realmente de Teseu. Os supostos ossos foram depositados em um santuário dedicado ao herói, que se tornou um importante centro de seu culto em Atenas. Teseu recebia sacrifícios no oitavo dia do mês de Pianépsion e também era homenageado no oitavo dia de outros meses.



fontes:

Apoie o Portal dos Mitos

Seu comentário, sugestão ou apoio ajuda o blog a continuar publicando novos conteúdos sobre mitologia, folclore e criaturas lendárias.

Um comentário:



Seu comentário é muito importante e muito bem vindo, porém é necessário que evitem:

1) Xingamentos ou ofensas gratuitas ao autor e a outros comentaristas;
2)Comentários racistas, homofóbicos, xenófobos e similares;
3)Spam de conteúdo e divulgações não autorizadas;
4)Publicar referências e links para conteúdo pornográfico;
5)Comentários que nada tenham a ver com a postagem.

Comentários que inflijam um desses pontos estão sujeitos a exclusão.

De preferência, evite fazer comentários anônimos. Faça login com uma conta do Google, assim poderei responder seus comentários de forma mais apropriada, e de brinde você poderá entrar no ranking dos top comentaristas do blog.