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4 de maio de 2022

A Origem da Bacaba

 ۞ ADM Sleipnir

A Bacaba, também chamada de Bacaba-açu ou Bacaba-verdadeira, é uma palmeira nativa da Amazônia, cujo fruto é bastante parecido com o açaí, embora seja menos popular. Segundo uma lenda indígena oriunda do estado do Amapá, essa palmeira teve sua origem no conflito entre um jovem índio chamado Bacaba e Catamã, uma entidade maligna inimiga de Tupã.

Bacaba, Arte de Rodrigo Viany (Sleipnir)

De acordo com a lenda, existiu na Serra do Tumucumaque uma tribo de índios conhecidos como Badulaques. Essa tribo era pequena e não possuía muitos guerreiros, sendo assim considerada uma tribo fraca e sem valor. Devido a isso, seu líder, o cacique Carnaúba, preferia mante-la em paz, evitando criar conflitos e vivendo às margens do Grande Conselho das tribos. Certo dia, porém, a desgraça se abateu sobre todas as tribos da serra. 

Poucos se lembravam da grande batalha travada entre o deus Tupã e Catamã, na qual diziam os anciãos, tinha sido devastada uma grande área além da Serra do Tumucumaque. A luta entre o bem e o mal durou muitas luas até que Tupã, usando toda sua magia, conseguiu aprisionar Catamã no topo da serra, por um período de cem anos. Diziam ainda os anciãos que depois desse tempo a guerra, a fome e a doença atingiriam as tribos, prenunciando a volta de Catamã, que tentaria reerguer seus domínios por toda a terra, mas que um guerreiro, nascido em uma tribo pequena, se sobressairia dentre todos os seus irmãos em caçadas e lutas, podendo vencer o mal e lançá-lo novamente à sua prisão. Os prenúncios da desgraça chegariam quando Catamã já tivesse cumprido três terços de seu exílio, e assim ocorreu. Primeiro, uma grande doença se abateu sobre as tribos. Ela atacava principalmente os pés e as mãos, impossibilitando os guerreiros, assim como mulheres e crianças, de se locomoverem. Logo não puderam mais segurar o arco e a flecha para caçar e centenas morreram de fome. 

Arte de Rodrigo Viany (Sleipnir)

Cinco luas se passaram até a doença desaparecer por completo. Os sobreviventes choraram seus mortos, reunindo-se ao redor das fogueiras, pintando o corpo com sumo de jenipapo e clamando ao deus Tupã que lhes fizesse visível o inimigo, para que assim poderem combatê-lo. Depois vieram as guerras. Tribo contra tribo, as mortes se sucedendo e as nações indígenas enfraquecendo cada vez mais. Na época também a tribo dos Badulaques foi atingida e mulheres morreram. Tarirã, uma das esposas do cacique Carnaúba, estava grávida de muitas luas e ele temia que ela fosse atingida pelas pragas ou morta pelas lanças dos guerreiros inimigos. Naquela noite Tupã foi até ele em sonho e disse-lhe:

Teu filho será um bravo, irá se sobrepor a todos os guerreiros e se chamará Bacaba. Somente ele poderá salvar a nação do mal e destruir para sempre a encarnação da perversidade.

Por três noites os membros da tribo dançaram, agradecendo a dádiva de Tupã. Duas luas depois nasceu o menino, que quando cresceu foi treinado nas mais diversas práticas de combate, assimilando com incrível facilidade os ensinamentos dos pajés e anciãos. Manejava o arco e a flecha como se tivesse nascido para caçar. Sua grande vitória foi quando o conselho o designou chefe de todas as nações. Enquanto isso, as maldições de Catamã continuavam. Naquela noite o perverso feiticeiro apareceu na forma de lobo, entrando na tenda do chefe e matando Tarirã, que já se encontrava em idade avançada. Pela manhã o corpo da índia foi encontrado dilacerado e Bacaba entoou seu canto de morte, que atravessou os vales. Estava iniciado o confronto. 

Pela manhã Bacaba reuniu-se com o Grande Conselho, anunciando que iria enfrentar Catamã no topo da serra. O pajé, tocado pelo deus Tupã, deu-lhe um saquinho de couro contendo a mistura de muitas ervas, que deveria ser jogada no olho da divindade, tornando-a cega. Depois de despedir-se de seus irmãos de sangue, Bacaba armou-se de uma lança, arco e seus apetrechos de guerra, saindo rumo à serra. Quando alcançou o topo, a figura de um imenso lobo atravessou-lhe a frente. A fera, com os olhos injetados de sangue, investiu contra o índio, iniciando a batalha. Embaixo, milhares de guerreiros assistiam a tudo. Tupã proveu Bacaba de poderes para fazer frente à divindade do mal e o local da batalha transformou-se em uma imensa clareira, tamanha a ferocidade da luta. 

Bacaba x Catamã, arte de Rodrigo Viany (Sleipnir)

Durante duas noites o confronto prosseguiu e depois o silêncio foi total. Os guerreiros, temerosos, esperavam que o vencedor se manifestasse. O silêncio, no entanto, reinava no cume da Serra do Tumucumaque. O cacique Carnaúba reuniu seus bravos e subiu à serra, seguindo os rastros de destruição, até que sobre um amontoado de pedras encontraram um imenso lobo, com os olhos arrancados e uma lança cravada no peito. A seu lado, jazia o corpo do guerreiro, dilacerado pelas garras do monstro. Bacaba havia vencido, mas sua façanha lhe custou a vida. Seu corpo foi sepultado ao lado da mãe, em um cortejo que reuniu milhares de guerreiros, todos lhe prestando uma última homenagem. 

Muitas luas se passaram até que o cacique Carnaúba, sentindo a perda do filho, foi vê-lo. No local onde tinha sido sepultado, havia, por benevolência e homenagem de Tupã ao mais bravo guerreiro da face da terra, uma palmeira solitária, de espique anelado, folhas em forma de lanças, da qual sobressaiam-se flores de cor branca e amarela – e frutos pequenos avermelhado-escuros, dos quais se fez vinho, que foi chamado de bacaba. De seu caule, forte como os braços do guerreiro, ainda hoje são feitos lanças e arcos que, dizem as lendas, serem abençoados por Tupã.


fonte:
  • Mitos e Lendas do Amapá, de Joseli Dias (Edição Póstuma)
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6 comentários:

  1. Interessante! Por incrível que pareça a cidade onde moro recebeu este nome! Não sabia a realidade da lenda, gostei muito!

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    1. Enquanto pesquisava sobre o mito encontrei textos falando justamente sobre a cidade ter recebido seu nome em homenagem a essa lenda. Acabei deixando de fora do post, porque queria focar na fruta.

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  2. Bem legal, lendo lembrei da lenda vitória régia. Têm post sobre essa lenda aqui no blog e sobre tupã.

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    1. Temos sim, a lenda da vitória régia se não me engano está dentro do post sobre Jaci, e a postagem sobre Tupã foi revisada recentemente, trazendo um pouco da pesquisa de Câmara Cascudo sobre a influência jesuíta no mito.

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    2. Blz Sleipnir, mais tarde vou procurar

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  3. INTERESSANTE COMO ESSAS LENDA SÃO PARECIDAS.
    GUARANA, AÇAI, MANDIOCA, VITORIA REGIA E AGORA O BACABA.
    HISTORIA DE MORTE E RENASCIMENTO.
    TUPA GOSTA DE TRANSFORMAR ALGUEM EM PLANTA.
    NÃO LEMBRO SE A LENDA DO PIRARUCU TEM ESSE PADRÃO.
    NEM SABIA Q EXISTIA ESSA FRUTA.
    NÃO TEM AQUI NO RIO DE JANEIRO.
    PARABENS

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