10 de agosto de 2022

Tutu

 ۞ ADM Sleipnir

Tutu (de acordo com Câmara Cascudo, uma corruptela do termo africano quitutu, “ogro” ou “papão”) é uma espécie de bicho-papão, com influencias europeias e africanas e presente no folclore de várias regiões do Brasil. Aparecendo em diversas e antigas cantigas de ninar, ele é dito assombrar e devorar crianças que teimam em dormir, principalmente aquelas que choram e tentam persuadir os pais a permanecerem acordadas.

Seu nome e sua aparência costumam mudar conforme a região. Dentre os nomes pelos quais ele é conhecido estão Tutu-zambê (também cambê ou zambeta), Tutu-marabá (ou marambaia), Tutu-do-mato, Tutu-moringa, Tutu-roncador e Queixada. Geralmente sua aparência é vaga e disforme, sendo descrita como um vulto negro. Na Bahia, em particular, ele é descrito como um porco-do-mato (caititu) negro, e é dito ser parente do Bicho-Papão e da Cuca. No Nordeste, onde é conhecido como Queixada, ele apresenta dentes salientes que batem uns nos outros produzindo um ruído peculiar. 

Arte de Vinícius Galhardo

Como Tutu-moringa, ele apresenta uma barriga no formato de uma moringa de água. Este Tutu em particular é dito sair à noite procurando seus filhos, os quais foram sequestrados pelos portugueses e transformados em escravos. Ele vaga pelas florestas à procura deles, e ao encontrar uma criança, logo pensa se tratar de um de seus filhos. Conta-se que ao notar o engano, ele devora a criança sem deixar nenhum rastro dela.

Para espantar o Tutu, dizem que basta bater com o pé no chão e dizer: 

"Xô!... Tutu, vai-te embora que o menino não chora mais."

O Tutu-moringa, por sua vez, pode ser espantado ao se cantar a seguinte cantiga:

Vás-s'embora, Tutu-moringa

A toda a pressa

Pela restinga.

Corra, corra, vá ligeiro,

Tutu-moringa,

A toda pressa.

Seus filhinhos vão agora

Embarcados num veleiro.

Vá-s'embora,

Seu parola!

Arte de juliadragon

Uma cantiga oriunda do interior do Rio de Janeiro diz:

Tutu vá s’embora

Pra cima do telhado,

Deixa o nhonhô

Dormir sossegado.

Há também cantigas empregadas para "atrair" o Tutu e assim induzir a criança ao sono, como a cantiga a seguir:

Tu-ru-tu-tu

Do velho murundu,

Agarra este menino

Comei-o com angu.

ou

Tu-tu-ru-tu

Senhor Capitão,

Pegai este menino

Comei com feijão.

Tu-tu-ru-tu

Por detrás do murundu,

Pegai este menino

Comei com angu.


Cultura Popular

A série brasileira Cidade Invisível, produzida pela Netflix, trouxe vários personagens retirados folclore brasileiro, dentre os quais está o Tutu, interpretado pelo ator e cantor Jimmy London.

Arte de Iury Ribeiro

fontes:


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20 de julho de 2022

Pisadeira

۞ ADM Sleipnir

Arte de Francisco Andrade

A Pisadeira (ou Pesadeira) é uma criatura presente no folclore brasileiro, considerada a personificação do pesadelo e associada ao distúrbio conhecido como paralisia do sono. Sua lenda teria sido originária de Portugal, onde detém certa semelhança com o duende conhecido como Fradinho da Mão Furada. No Brasil, tornou-se popular principalmente no estado de São Paulo e nos arredores de Minas Gerais. 

Ela é geralmente descrita como tendo o aspecto de uma bruxa medonha, aparentando ser uma velha muito magra e de cabelo desgrenhado, pernas curtas e possuindo um enorme nariz. Seus dedos e unhas são compridos e seus olhos descritos como sendo arregalados e de cor vermelho fogo. Seu queixo é revirado para cima e sua boca está sempre escancarada, com horrorosos dentes esverdeados à mostra. 

Arte de Everton (wakwhan)

De acordo com o folclore, a Pisadeira ronda sob os telhados das casas durante a noite, observando o movimento dentro delas e atacando sempre que vê uma oportunidade. Geralmente, o seu ataque ocorre após o jantar, quando sua vítima vai dormir de barriga cheia. Conseguindo uma brecha, a Pisadeira entrará na casa sem ser vista por nenhum morador, e irá até o quarto do seu alvo. Lá, ela sobe em cima da cama e pisa no peito do mesmo, deixando-o em um estado de paralisia. Enquanto o ataque ocorre, a vítima consegue acompanhar e ver tudo o que ocorre de forma consciente, porém totalmente impotente para gritar por socorro ou reagir fisicamente.

Apesar de sua aparência frágil e esquelética, a Pisadeira apresenta um peso descomunal, assim como uma força muito grande para alguém de seu porte físico. Relatos de pessoas que alegaram terem sido atacadas por ela afirmaram não terem visto nada, sentindo somente sua presença e seu peso sobre elas. Outros relataram terem sentido e visto a Pisadeira em toda a sua feiura característica. Alguns contam ainda que enquanto a Pisadeira os asfixiava, ela costumava emitir enormes gargalhadas de prazer, que para o pavor das vítimas, somente elas podiam escutá-la. As demais pessoas da casa não escutam nada, exceto o grito de desespero da vítima quando a Pisadeira cessa o seu ataque.

Arte de Douglas Nogueira (o Reticolo)

O tempo de duração do ataque da Pisadeira costuma variar bastante, de poucos segundos a alguns minutos, e em alguns casos até mesmo horas. Existem inclusive mortes de pessoas ocorridas enquanto estavam dormindo que foram associadas à ataques da Pisadeira. Tais pessoas teriam morrido afogadas com o próprio vômito, após terem seus estômagos cheios de comida pressionados fortemente pela criatura.

Mesmo aqueles que conseguiram se desvencilhar do seu ataque assustador não podem baixar a guarda nunca, já que ela se alimenta do medo deles. Portanto, a chance de ocorrer um segundo ataque é alta.

Arte de Gustavo Rinaldi


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2 de maio de 2018

Bicho-Homem

۞ ADM Sleipnir

Arte de Rodrigo Viany (Sleipnir)

O Bicho-homem é um criatura devoradora de homens do folclore brasileiro, com variações de sua lenda por todo o Brasil. Ele é geralmente descrito como sendo uma espécie de gigante, possuindo somente um olho localizado no meio da testa e uma só perna, com um pé redondo e enorme. Os dedos de suas mãos são compridos e disformes, com unhas longas e aguçadas. Dizem que ele possui um grito desesperador e angustiante, tão alto e forte que pode ser ouvido a muitas léguas de distância.

Com seu tamanho, o Bicho-homem é capaz de derrubar uma montanha apenas com seus socos, beber um rio sozinho e transportar florestas de um lugar para outro. Vive escondido em locais de muitas serras e vales, e se alimenta de viajantes perdidos, lenhadores e de outras pessoas que porventura adentram seu território. 

Segundo algumas tribos indígenas, ele nunca desce até os povoados, pois se um dia isso acontecesse, seria o "fim do mundo".

Arte de Rodrigo Viany (Sleipnir)


fontes:

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11 de maio de 2015

Cuca

 ۞ADM Sleipnir

Arte de Rizzartt

A Cuca é um dos personagens mais famosos do folclore brasileiro, principalmente por conta da adaptação televisiva da obra "Sítio do Pica Pau Amarelo", escrita por Monteiro Lobato entre os anos de 1920 e 1947. Ela é uma espécie de bicho-papão (bogeyman), cuja lenda é utilizada pelos pais para amedrontar seus filhos e tentar fazer com que os obedeçam, sob a ameaça de serem "pegos pela Cuca" caso não o façam. 

A Cuca é descrita originalmente como uma bruxa bem velha, magra e corcunda, possuindo cabelos brancos e uma pele bem enrugada. Porém, a influência da obra de Lobato tornou a Cuca um monstro com cabeça de jacaré. Nas suas várias representações, é uma criatura perigosa e repleta de dons: por exemplo, faz feitiços, controla o sono e até invade os sonhos alheios. Ela pode ainda se transformar em criaturas noturnas, como corujas ou mariposas, para fugir ou se aproximar sem que ninguém repare.

Arte de Davi Sales

Existem muitas canções e versos sobre a Cuca. Luís da Câmara Cascudo, em seu livro Geografia dos Mitos do Brasil, cita a seguinte canção popular, muito comum no Nordeste brasileiro:

"Nana nenem
que a cuca vem pegar
papai foi pra roça 
mamãe foi trabalhar
Desce gatinho 
De cima do telhado
Pra ver se a criança
Dorme um sono sossegado"

Arte de Daniel "Daniboy" Sanches

Possível origem

Acredita-se que a lenda da Cuca seja derivada de um personagem folclórico português conhecido como Coca, e representado por um dragão que foi morto por um santo (geralmente São Jorge). A Coca até os dias de hoje costuma aparecer em procissões, como o tradicional Festival de Monção. A figura da Coca teria chegado ao Brasil junto com os portugueses durante o período da colonização, e acabou sendo modelada e transformada em um personagem completamente distinto.

Coca

fontes:

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17 de fevereiro de 2014

Anhangá

۞ ADM Sleipnir


O Anhangá (ou Anhanga, em tupi: Ahiag̃; em maué: Anhang , "espírito") é uma entidade pertencente ao folclore indígena brasileiro, sendo conhecido por diversas tribos. Ele é um espírito metamorfo, capaz de tomar a forma que ele quiser. Geralmente ele toma a forma de um veado branco com olhos em chamas, porém ele pode se transformar em outros animais e até em ser humano. Conforme a forma que ele toma, ele recebe um nome específico. Alguns dos nomes são:
  • Mira-anhangá (forma humana);
  • Suaçu-anhangá (forma de veado);
  • Tatu-anhangá (forma de tatu);
  • Tapira-anhangá (forma de boi);
  • Pirarucu-anhangá (forma de peixe pirarucu).
Anhangá é um espírito protetor da natureza. Ele persegue e pune aqueles que caçam filhotes de animais ou animais que estejam amamentando seus filhotes. Um sinal de sua chegada é o som de um assobio, e logo depois o animal caçado desaparece bem diante dos olhos do caçador. O Anhangá engana os caçadores desviando suas balas, direcionando o alvo deles para pessoas queridas a eles. Ele também pode provocar febre, visões e loucura nos caçadores.

Segundo a mitologia popular, uma pessoa pode pedir a ajuda do Anhangá, caso seja atacada por um animal selvagem, gritando ''Valha-me Anhangá!". Conta-se também que pode-se fazer um pacto com ele, oferecendo-lhe tabaco em troca de uma caça bem sucedida.

Os jesuítas consideravam-no um demônio, semelhante ao diabo cristão. Em seus relatos sobre o Anhangá, eles retratavam-no como um espírito maligno, que era temido pelos povos indígenas.


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23 de outubro de 2013

Iara

۞ ADM Sleipnir

Arte de Miqueias Silva

A Iara (também Uiara ou Yara) é uma sedutora criatura do folclore brasileiro, com origens européias. O nome Iara deriva do velho Tupi yîara = y + Iara (água + senhor / senhora), que significa "senhora do lago" ou "rainha das águas". Ela é vista tanto como uma ninfa da água, sirene, ou sereia, dependendo do contexto da história contada sobre ela. Inicialmente era um personagem masculino chamado Ipupiara, homem peixe que devorava pescadores e os levava para o fundo do rio. No século XVIII seu mito foi modificado e ele foi transformado na bela sereia.

Iara é descrita como uma linda jovem, de cabelos negros (ou verdes), olhos castanhos e pele parda, e com a parte de baixo da cintura de sereia, e que costuma ficar sentada em uma pedra à beira do rio penteando o cabelo ou cochilando sob o sol. Quando ela sente que um homem esta por perto, ela começa a cantar suavemente para atraí-lo. Uma vez sob o feitiço da Iara, um homem deixa tudo para viver com ela para sempre debaixo d'água, e acaba se afogando e sendo arrastado para o fundo do rio. Em algumas versões do mito, o homem não é morto pela Iara, mas conduzido até seus palácios subaquáticos e utilizando de seus poderes mágicos ela faz com que ele sobreviva embaixo d´água. Outros ainda dizem que vários índios mantiveram um relacionamento amoroso com a sereia, e teriam voltado para contar a história.
Iara nem sempre foi uma sereia. Antes ela era uma belíssima índia, que trabalhava muito e era muito corajosa. Ela se dedicava demais e isto acabava por despertar uma inveja de alguns membros de sua tribo, entre eles, seu próprios irmãos, pois o pai deles era o pajé e à admirava muito. Então os irmãos resolveram se livrar de Iara, e planejaram matá-la. Certa noite foram até a cabana onde ela dormia, e Iara ouviu o que os irmãos pretendiam fazer, e se defendeu, pois era uma habilidosa guerreira. Iara acabou matando os seus irmãos., e desesperada com o desfecho da história, ela resolveu fugir, porém seu pai conduziu uma implacável busca, e quando ela finalmente foi capturada, eles a atiraram no encontro dos rios Negro e Solimões. Os peixes encontraram e trouxeram o corpo de Iara para a superfície, onde ele foi banhado pela luz da lua, e então ela transformou-se numa bela sereia. Desde então ela vem seduzido suas vítimas para o mergulho sem volta. 

Dizem que a única forma de resistir ao encantamento da Iara, é fechar os olhos e tapar os ouvidos, de forma que não a enxergue e nem ouça a sua melodia mortal. Existem também alguns relatos sobre um talismã feito de escamas do boto vermelho, que pode ser usado para quebrar o feitiço da Iara. 

Arte de Michael Mendonça

A lenda da Iara costuma ser uma das explicações usuais para o desaparecimento daqueles que se aventuram sozinhos na selva. A natureza de Iara é similar a várias outras figuras femininas do folclore de outras regiões, como La Llorona do México e sudoeste dos Estados Unidos, as criaturas colombianas Patasola e Tunda e a Mulher-Cervo da América do Norte. Todos são do sexo feminino e às vezes agem como sirenes, guiando os homens para a sua morte.

Na versão em filme do romance Macunaíma, de 1969, o protagonista de mesmo nome encontra seu fim nas mãos de uma Iara. Ele a abraça avidamente e enxerga tarde demais um buraco golpe na parte de trás do pescoço dela, que revela a criatura que ela era de verdade e não a bela mulher que ele pensou que ela fosse. Esta deformidade física marcando uma mulher perfeita é um tema comum entre as figuras sirênicas das Américas, mas é geralmente relacionada aos seus pés. A Mulher-Cervo tem cascos no lugar dos pés, a Patasola e a Tunda tem pés deformados e La Llorona é frequentemente dita não possuir pés por aqueles que a vêem.

Arte de Gustavo Rinaldi


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3 de março de 2013

Curupira

۞ ADM Sleipnir

Arte de Jânio Garcia

O Curupira (do tupi: curu, "menino" e pira, "corpo"; também conhecido como Gurupira, Korupira, Currupira, Corubira, Caiçara e Matuiú) é um dos personagens mais famosos do folclore brasileiro. Ele é uma criatura similar a um duende (ou demônio segundo alguns relatos), e tido como o guardião das matas, protegendo os animais que nelas vivem e espantando índios e caçadores que não respeitam as leis da natureza, ou seja, que não respeitam o período de procriação e amamentação dos animais e que também caçam além do necessário para a sua sobrevivência. Lenhadores que fazem derrubada de árvores de forma predatória também são alvos de sua fúria.

De origem amazônica e mesclado com mitos europeus, o mito do Curupira é um dos mais antigos do nosso folclore, e foi registrado desde os primeiros tempos da colonização do Brasil - como por exemplo, pelo padre José de Anchieta, em carta de 30 de maio de 1560: 
"É coisa sabida e pela boca de todos corre que há certos demônios que os brasis chamam de Curupira, que acometem aos índios muitas vezes no mato, dão-lhe de açoites, machucam-nos e matam-nos. São testemunhas disto os nossos irmãos, que viram algumas vezes os mortos por eles. Por isso, costumam os índios deixar em certo caminho, que por ásperas brenhas vai ter ao interior das terras, no cume da mais alta montanha, quando por cá passam, penas de aves, abanadores, flechas e outras coisas semelhantes, como uma espécie de oblação, rogando fervorosamente aos Curupiras que não lhes façam mal".

Arte de Lucas Conegundes

Seu mito foi difundido por todo o Brasil, e devido a isso suas características acabam variando bastante de uma região para outra. O Curupira é geralmente descrito como um pequeno ser de cabelos compridos e vermelhos (ou em chamas), mas sua característica principal são os seus pés, que são virados para trás. Em algumas versões das suas histórias, o Curupira possui pelos e dentes verdes. Em outras tem enormes orelhas ou é totalmente calvo. Ele pode ou não portar um machado e em uma versão chega ser feito do casco de jabuti. Existem ainda características menos conhecidas ou difundidas sobre o Curupira como o fato dele não possuir orifício algum no corpo.

O Curupira solta assovios agudos e estridentes para assustar e confundir caçadores e lenhadores, além de criar ilusões, fazendo com que os intrusos se percam ou enlouqueçam no meio da mata. Ele pode transformar amigos ou familiares do caçador na própria caça, fazendo com que o mesmo acabe os matando. Outra de suas capacidades é fazer as armas dos caçadores perseguirem e atirarem contra eles próprios. Seus pés virados para trás servem para despistar os caçadores, que ao irem atrás das pegadas, acabam indo na direção errada. Para que isso não aconteça, deve-se suborná-lo com iguarias deixadas em lugares estratégicos,  ou então largar pelo caminho alguns cipós trançados ou madeiras em formas de cruzes. Distraído com tais oferendas, o Curupira acaba se esquecendo de sua perseguição.

Antes de tempestades ocorrerem, dizem que pode-se ouvir em meio as florestas o som de  batidas nos troncos das árvores, feitas pelo próprio Curupira para verificar se estão prontas para resistir a elas. Ao ouvir tais batidas, índios e caçadores ficam em alerta e podem se preparar para o que está por vir.

Curupira ou Caipora?

Em algumas regiões e até mesmo em publicações literárias, a figura do Curupira é confundida com a de outro ser protetor das matas, o/a Caipora, o qual para muitos estudiosos, é de fato uma variação regional do mesmo. As principais diferenças entre os dois é que a Caipora costuma ser grande e peluda, e dependendo da região do mito, pode ser retratada como mulher ou como um homem. Ambos podem ser retratados montados em um porco-do-mato, apesar de ser mais comum ver a Caipora retratada dessa forma.

Arte de Rapha Medeiros


Paralelos em outras culturas

Existem lendas similares a do Curupira em outras culturas da América do Sul, e uma delas é a do Chullachaki, presente no folclore indígena peruano, e a do Máguare e do Konokokuyuha, presente no folclore  de grupos indígenas venezuelanos. Há ainda o Boraro, pertencente ao folclore da região amazônica colombiana, e conhecido por se alimentar do cérebro de suas vítimas.

Existem folcloristas que afirmam que a lenda do Curupira surgiu entre os nauas, povo indígena do Norte do Brasil, e foi espalhando-se, até chegar aos tupis e aos guaranis. Falando em guaranis, localizados na porção centro-meridional brasileira, bem como em países como a Bolívia e o Paraguai, é de conhecimento dos estudiosos que a lenda do Curupira existe nesse último país, só que sendo conhecida com outro nome: Kurupi. Lá, o Curupira ainda é o guardião da floresta, mas acaba ganhando um apelo sexual, que, no Brasil, só foi encontrado em alguns povos indígenas da região Norte.

Arte de Marcus Maia


fontes:

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11 de janeiro de 2013

Mula Sem-Cabeça

۞ ADM Sleipnir


A lenda da Mula Sem-Cabeça é, certamente, uma das lendas brasileiras mais famosas. Acredita-se que ela tenha origem européia, mais precisamente em Portugal nos tempos medievais (pressupõem-se que este mito tenha nascido no século XII, época em que as mulas serviam de transporte para os padres), e que tenha sido difundida no Brasil no século XVI ou posteriormente. Alguns mitos similares como a Muladona e a Almamula, são correntes em territórios hispânicos. No Brasil, a lenda disseminou-se por toda a região canavieira do Nordeste e em todo o interior do Sudeste. A Mula-sem-cabeça, representa uma espécie de lobisomem feminino, que assombra povoados onde existam casas rodeando uma igreja.

Aparência

A aparência da criatura varia muito de região para região. A cor mais comumente atribuída a ela  é a roxa, as vezes preta com uma cruz branca pendurada no peito. Ela possui também uma ferradura de prata (ou ferro), que produz um trote sinistro, mais alto do que qualquer cavalo comum é capaz de produzir. Apesar de ser decapitada, a Mula ainda é capaz de relinchar ( geralmente muito alto) e as vezes geme como uma mulher chorando. É dito também possuir um freio ligado à sua não existente boca e também que ela expele chamas de suas narinas igualmente não existentes ( a maioria das versões afirma que o fogo é expelido diretamente do pescoço cortado).



A Maldição

Segundo esta lenda, toda a mulher que mantivesse estreitas ligações amorosas com um padre, em castigo ao seu pecado (aos costumes e princípios da Igreja Católica), tornar-se-ia uma Mula Sem-Cabeça Esta história tem cunho moral religioso, ou seja, é uma repreensão sutil ao envolvimento amoroso com sacerdotes e também com compadres. Os compadres, eram tidos como pessoas da família, e qualquer tipo de relação mantida entre eles, era considerada incestuosa. 

A metamorfose ocorreria na noite de quinta para sexta-feira, quando a mulher, em corpo de Mula Sem-Cabeça corre veloz e desenfreadamente até o terceiro cantar do galo, quando, encontrando-se exaurida e, algumas vezes ferida, retorna a sua normalidade. Homens ou animais que ficarem em seu trajeto seriam despedaçados pelas violentas patas. Ao visualizar a Mula-sem-cabeça, deve-se deitar de bruços no chão e esconder unhas, dentes e qualquer coisa que brilhe, para não ser atacado, ou então deve-se ser corajoso o suficiente para tentar tirar as suas rédeas.


Dizem que espetar um alfinete nela ou amarrá-la a uma cruz acaba com a maldição. No primeiro caso, a transformação será impedida, enquanto o benfeitor está vivo e mora na mesma paróquia em que seu feito foi realizado. No segundo caso, a mulher ficará em forma humana até que o sol amanhecer, mas vai se transformar novamente na próxima vez. Outros contos afirmam que tirar o freio de ferro que a Mula Sem-Cabeça carrega também termina com a maldição enquanto o benfeitor está vivo. Amarrando as rédeas de volta na boca da mulher voltará com a maldição.

A remoção da praga é um grande alívio para a mulher, porque a maldição inclui muitas provações, então a mulher agradecida normalmente irá arrepender-se os seus pecados e se casar com o benfeitor. Em qualquer caso, quando a mula muda de volta para a forma humana da mulher amaldiçoada será completamente nua, suada e com cheiro de enxofre.

A maldição da Mula Sem-Cabeça não pode ser transmitida (ao contrário da maldição vampírica), porque ela é adquirida como resultado de um pecado cometido deliberadamente pela mulher amaldiçoada.



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31 de outubro de 2012

Saci-Pererê

۞ ADM Sleipnir

Arte de Ursula Dorada

O Saci-Pererê é um dos personagens mais famosos do folclore brasileiro. Ele é uma assombração das matas e áreas rurais, descrito como um menino negro e perneta, que usa um gorro vermelho e fuma um cachimbo rudimentar (o pito). Seu mito teria surgido entre as tribos indígenas do sul do Brasil, porém o mais certo é que ele seja resultado da convergência e mistura das crenças das três etnias que, historicamente, entre a colonização e o Império, formaram o povo brasileiro: índios, portugueses e negros.

Entre os tupi-guaranis, relaciona-se a uma ave chamada Matinta-Perê (ou Matinta-Pereira) que, postada sobre uma só perna, emite um canto sombrio considerado de mau-agouro. Até hoje, uma das características e sinal da presença do saci é o seu assovio. A tradição, nascida no extremo sul, migrou com os índios para o centro-oeste e o sudeste chegando, eventualmente ao norte e nordeste do país. Os portugueses fundiram a idéia da ave com o Trasgo, duende doméstico do folclore europeu, que usa um gorro vermelho e possui poderes sobrenaturais. Mais tarde, os negros forneceram sua contribuição concebendo os sacis como almas penadas de crianças mestiças, bastardas, fruto das relações entre escravas e senhores, rejeitadas e freqüentemente abandonadas nas matas.


Finalmente, quando o mito se consolidava, entre os séculos XVIII e XIX, surgiu uma versão sobre o nascimento dos sacis, descrita posteriormente por Monteiro Lobato (que também era pesquisador do folclore nacional) em sua obra infanto-juvenil "O Saci". Segundo Lobato, os sacis nascem nas hastes do bambu gigante chamado Taquaruçu, onde se desenvolvem. Quando plenamente e magicamente formados, incluindo o gorro e o cachimbo, os sacis rompem as hastes e ganham o mundo passando a frequentar fazendas e vilarejos, onde praticam inúmeras travessuras. Eles goram ovos, chupam o sangue das vacas e cavalos, destes, também se ocupando em trançar-lhes as crinas, "rezam" o milho nas panelas para frustrar o desabrochar das pipocas, azedam o leite, roubam fumo, fazerm objetos sumirem para perturbar a ordem doméstica, confundem o caminho dos tropeiros e viajantes e assustam os animais com seu peculiar assovio. Os sacis fazem essas travessuras somente por diversão.


O Saci possui o poder de aparecer e desaparecer quando quer, e capturá-lo é um procedimento relativamente difícil. Segundo a tradição relatada por Monteiro Lobato, a circunstância ideal para se capturar um saci é em dias de ventania, quando aparecem redemoinhos de poeira e folhas secas. Produzir esses redemoinhos é uma das diversões dos sacis que, girando sobre a perna única, posicionam-se no centro da formação. O "caçador", munido com uma peneira de cruzeta (que tem duas faixas em cruz como reforço no bojo), uma garrafa de vidro bem escura e uma rolha também marcada com uma cruz na parte superior, deve se aproximar do redemoinho e lançar a peneira bem no meio, aprisionando assim o Saci. Em seguida, deve-se introduzir a boca da garrafa levantando minimamente a peneira. O Saci, buscando a escuridão, refugia-se dentro da garrafa que, então, deve ser rapidamente arrolhada. Lá, o Saci permanecerá invisível, numa tentativa de enganar o seu captor, fazendo com que pense que ele conseguiu escapar. No entanto, em um dia de muito calor, quando o captor tirar um cochilo, o Saci se mostrará. Conta-se que se quem capturar um Saci e conseguir se apossar de seu gorro, adquire poder sobre ele, transformando-o em seu escravo.

31 de Outubro, Dia do Saci

Com o objetivo de resgatar figuras do folclore brasileiro, em contraposição ao "Dia das Bruxas", ou Halloween, de tradição cultural celta, foi sancionado em 2003 um projeto de lei que estabeleceu o Dia do Saci. Ele é celebrado no dia 31 de Outubro, mesma data do Halloween.


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24 de outubro de 2012

Boitatá

۞ ADM Sleipnir


O nome Boitatá vem do tupi mbaeta'ta, formado de mba'e, "coisa" e ta'ta "fogo". Segundo o dicionário Houaiss, a palavra transformou-se por confusão e interferência do tupi mboya, "cobra", tornando-se "cobra de fogo". Em 1560, escrevia-se baê tatâ, em 1706 baetatá, em 1872 boitatá e em 1876, mboitátá. A entidade também é chamada (mais de acordo com a etimologia original) baitatá ou batatá no Centro-Sul. Também é denominada biatatá na Bahia, batatal em Minas Gerais e bitatá em São Paulo.

Outros nomes conhecidos são: Batatão, Batal, Jean de la foice, Jean Delafosse, Fogo-Fátuo, Embaê-tatá, Fogo-fato, Fogo-nado, Embaatatá e Emba-atalá.

O padre Anchieta, em carta de 31 de maio de 1560, informava que havia também outros (fantasmas) nas praias, que vivem a maior parte do tempo junto do mar e dos rios, e são chamados baê tatâ, que quer dizer coisa de fogo. Não se vê outra coisa se não um facho cintilante correndo por ali; ataca rapidamente os índios e mata-os, como os curupiras.

Segundo Câmara Cascudo, o Boitatá protege os campos contra aqueles que os incendeiam e as tradições figuram-no como uma pequena serpente de fogo, que de ordinário reside n'água. Às vezes, transforma-se em um grosso madeiro em brasa, denominado méuan, que faz morrer por combustão aquele que incendeia inutilmente os campos. Na maioria das vezes, o boitatá é considerado uma alma penada, "purgando os pecados". No Nordeste, conhecem-no também como fogo corredor.

Segundo o dicionário Houaiss, o boitatá é simbolizado por uma cobra de fogo ou de luz com dois grandes olhos, ou por um touro que lança fogo pelas ventas e está relacionado tanto à indicação de tesouros ocultos quanto à proteção dos campos contra incêndios.


Relâmpago globular 

Uma possível explicação das aparições do boitatá e de entidades semelhantes é o raio ou relâmpago globular (foudre en boule em francês, ball lightning em inglês, centella em castelhano): uma esfera luminosa, brilhante como lâmpada fluorescente, cujo diâmetro pode variar de alguns centímetros a vários metros. Podem aparecer perto do ponto de impacto de um raio, mas também são vistas em terremotos, erupções vulcânicas, ventanias, tornados e tempestades. Freqüentemente são acompanhadas de cheiro de ozônio, enxofre ou óxido nitroso e produzem zumbidos e estalos.

Em laboratório, o fenômeno tem sido reproduzido na forma de silício vaporizado, que ao esfriar e se condensar forma partículas aquecidas que se incendeiam em contato com o ar. Na natureza, condições semelhantes poderiam ser criadas quando um relâmpago atinge solo rico em silício (como areia).

Segundo o físico ucraniano Oleg Meshcheryakov, o relâmpago globular é formado por um aerossol, uma nuvem de milhares de partículas com diâmetro de 5 a 100 nanômetros. Cada uma delas, contendo um redutor, um oxidante e um eletrólito formados a partir de substâncias comuns no ambiente, comporta-se como uma nanobateria, que entra em curto-circuito ao descarregar energia por sua superfície. A energia térmica produzida por cada nanobateria causa a repulsão mútua dessas partículas a curta distância, impedindo-as de se agregarem. Ao mesmo tempo, a atração magnética entre elas - resultado da oxidação eletroquímica dentro de cada partícula - impede que se dispersem e as equilibra a certa distância uma das outras, moldando as bolas. As reações de oxidação e redução dessas partículas podem gerar correntes de milhares e mesmo milhões de amperes.

Geralmente os relâmpagos globulares têm forma esférica, mas ocasionalmente tomam forma de anel, oval, cilíndrica ou de lágrima. Há casos de pessoas e animais eletrocutados ou queimados por esses relâmpagos, e mais de um caso em que queimou a roupa de uma pessoa sem lhe causar mais dano. Reportaram-se casos em que seu campo magnético transportou pequenos objetos ou prenderam o badalo de um sino, impedindo o sacristão de tocá-lo.


As luzes podem ser contínuas ou intermitentes e de qualquer cor, mas amarelo e vermelho parecem ser as mais comuns e azul, violeta e verde mais raras. Podem viajar paralelamente a um condutor, perto de uma substância isolante, ou no meio do próprio ar e parecem ser sensíveis a cargas elétricas. O fenômeno pode durar de alguns segundos a vários minutos. Geralmente explodem, mas às vezes se desvanecem pouco a pouco e outras vezes desaparecem abruptamente.

Esse fenômeno pode ser responsável pelas aparições do boitatá e entidades similares em outras culturas. A partir do século XX, pode também ter sido tomado por OVNIs e extraterrestres.

Fogo-fátuo

Outra explicação mais tradicional, para o boitatá é o fogo-fátuo, luz que aparece à noite, geralmente emanada de terrenos pantanosos ou de sepulturas, supostamente devido à combustão de gases provenientes da decomposição de matérias orgânicas, principalmente metano e fosfina. Esse fenômeno, conhecido em inglês como will-o'-the-wisp, em latim como ignis fatuus, em francês como feu follet e em alemão como Irrlicht ou Sumpflichter, também é associado a fantasmas e outras entidades do folclore, tanto no Brasil como em muitos outros países.

Em uma porcentagem de aproximadamente 28%, o metano se inflama espontaneamente, sem necessidade de uma faísca. Forma uma chama azulada, de curta duração, gerando um pequeno ruído. O deslocamento do ar provocado pela tentativa de fuga pode fazer o fogo-fátuo mover-se na mesma direção da pessoa, como se a estivesse perseguindo.



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