8 de março de 2014

A Edda Poética: Parte VI - Hárbarðsljóð

۞ ADM Sleipnir

Tradução e notas de Márcio Alessandro Moreira.


O Hárbarðsljóð ("A Canção de Hárbarðr") é um dos mais fascinantes poemas Eddicos. Ele nos mostra a complexidade existente entre os Deuses Þórr e Óðinn. O Hárbarðsljóð foi preservado no Codex Regius e no manuscrito AM 748 I 4to. Algumas passagens desse poema possuem notável semelhança com o Lokasenna.

Hárbarðsljóð

Þórr estava viajando do leste quando chegou a um canal. No outro lado do canal estava
um barqueiro com seu barco.
Þórr o chamou:

01-"Quem é o servente dos serventes,
que está do outro lado do canal?"

O Barqueiro disse:
02-"Quem é o camponês dos camponeses,
que chama através das ondas?"

Þórr disse:
03-"Me atravesse através do canal,
eu ti alimentarei de manhã;
eu tenho um cesto sobre minhas costas
com a melhor comida;
eu me alimentei no descanso,
antes de eu sair de casa*,
de arenque e bode*;
eu me saciei com isso."

O Barqueiro disse:
04-"Tu gabas apressadamente
de ter feito a tua refeição;
tu não sabes claramente o que está na sua frente*;
abatido está o teu lar,
morta, eu creio, que tua mãe está*."

Þórr disse:
05-"Isso que tu disseste agora,
a todos parece
ser o mais indesejável de se saber,
que minha mãe está morta."

O Barqueiro disse:
06-"Embora tu não tenhas
três boas acomodações*;
tu tens as pernas nuas
e os acessórios de mendigo,
tu ainda nem usa calças."

Þórr disse:
07-"Traga esse barco aqui,
eu ti mostrarei aonde ancorar,-
mas de quem é o barco
que tu tens do outro lado?"

O Barqueiro disse:
08-"Ele se chama Hildólfr*,
quem me ordenou ocupa-lo*,
um guerreiro sábio em conselhos,
que vive no canal Ráðsey;
ele me ordenou para não atravessar ladrões
e nem ladrões de cavalos,
apenas os bons [homens]
e então, aqueles que eu conheço bem;
diga-me teu nome,
se tu desejas atravessar o canal."

Þórr disse:
09-"Eu diria o meu nome,
mesmo que eu fosse um criminoso,
e todo o meu parentesco:
eu sou filho de Óðinn,
irmão de Meili*,
e pai de Magni,
o Poderoso Líder dos Deuses,
com Þórr tu estás falando aqui!
Agora eu desejo perguntar,
como tu és chamado."

O Barqueiro disse:
10-"Eu sou chamado Hárbarðr*,
raramente eu escondo meu nome."

Þórr disse:
11-"Por que esconderia o teu nome,
a menos que tu tenhas culpa*?"

Hárbarðr disse:
12-"Embora eu tivesse culpa*,
então eu guardaria minha vida
contra os que são iguais a tu,
a menos que eu estivesse condenado."

Þórr disse:
13-"Eu sentirei vergonha
por causa disso,
porque terei de nadar através das ondas até ti
e molharei minha roupa por baixo;
eu pagarei um tributo
por tua infantil
zombaria*,
se eu vier a atravessar o canal."

Hárbarðr disse:
14-"Aqui eu ficarei
e daqui irei ti esperar;
tu não encontrarás um homem tão robusto
depois da morte de Hrungnir*."

Þórr disse:
15-"Agora tu recordas,
quando eu combati contra Hrungnir,
que era um Jötunn* orgulhoso,
que tinha a cabeça de pedra;
ainda eu o matei
e ele caiu na minha frente.
O que tu fazia então enquanto isso, Hárbarðr?"

Hárbarðr disse:
16-"Eu estava com Fjölvar*
por cinco invernos inteiros
sobre aquela ilha,
que é chamada Algroen*,
nós combatemos vigorosamente ali
e derrubamos os mortos,
muitas coisas provamos,
donzelas seduzimos."

Þórr disse:
17-"Como suas mulheres confortavam vocês?"

Hárbarðr disse:
18-"Nós tínhamos mulheres animadas,
se elas falassem gentilmente para nós;
sábias mulheres nós possuíamos,
se a nós fossem fiéis;
de fora da areia elas
enrolavam cordas,
e de profundos vales
cavavam a terra;
eu fui mais sábio que todas elas
em conselho;
eu dormi junto com essas sete irmãs*,
e eu tive afeição com todas elas e prazer.
O que tu fazia então enquanto isso, Þórr?"

Þórr disse:
19-"Eu matei Þjazi*,
o mal-humorado Jötunn,
eu atirei para o alto os olhos
do filho de Alvaldi*,
no céu brilhante;
eles são os maiores sinais
de minhas realizações*,
eles que todos os homens veem desde então.
O que tu fazia então enquanto isso, Hárbarðr?"

Hárbarðr disse:
20-"Poderosas poções de amor
eu usei contra as Mirkriður*,
quando eu as tirei de seus maridos;
um feroz Jötunn
eu creio que Hlébarðr* foi,
ele me deu um Gambanteinn*
e eu lhe tirei a razão."

Þórr disse:
21-"Com um malvado coração
então tu recompensou o bom presente."

Hárbarðr disse:
22-"Esse carvalho que eu possuo,
foi tirado de outro,
cada um por si em tais casos.
O que tu fazia então enquanto isso, Þórr?"

Þórr disse:
23-"Eu estava no leste
e combatia detestáveis
noivas dos Jötnar*,
que andavam pelas montanhas;
grande seria a tribo dos Jötnar,
se todas vivessem,
os homens nada seriam
sob Miðgarðr*.
O que tu fazia então enquanto isso, Hárbarðr?"

Hárbarðr disse:
24-"Eu estava em Valland*
e acompanhava batalhas,
eu incitei príncipes a combater,
mas nunca a se reconciliar;
Óðinn tem os Jarlar*
quando caem mortos em batalha,
mas Þórr tem a raça dos Þrælar*."

Þórr disse:
25-"Injustamente tu dividirias
o povo* com os Æsir,
se tu tivesses muito poder."

Hárbarðr disse:
26-"Þórr tem força suficiente,
mas não de coração;
com medo e assustado
tu andava na luva*,
e tu não parecia então que era Þórr;
tu não ousaste então,
por medo,
nem espirrar nem peidar,
para que Fjalarr* não ti ouvisse."

Þórr disse:
27-"Hárbarðr, seu covarde,
eu ti atiraria no Hel*,
se eu pudesse ti alcançar através do canal."

Hárbarðr disse:
28-"Para que alcançar o canal,
quando não há ofensa?
O que tu fazia então, Þórr?"

Þórr disse:
29-"Eu estava no leste
e guardava o rio*,
quando me emboscaram
os filhos de Svárangr*;
eles atiravam pedregulhos em mim,
pouca alegria, todavia eles lucraram,
não obstante eles vieram perante mim
pedindo por paz.
O que tu fazia então enquanto isso, Hárbarðr?"

Hárbarðr disse:
30-"Eu estava no leste
e falava com uma mulher,
eu enganei a donzela de linho branco
e tivemos um encontro secreto;
eu alegrei aquela que brilha como ouro,
a donzela estava feliz em se divertir."

Þórr disse:
31-"Tu tiveste boa sorte em teu caso amoroso ali então."

Hárbarðr disse:
32-"Tua ajuda
eu estava então precisando, Þórr,
para eu segurar firme a donzela de linho branco."

Þórr disse:
33-"Eu teria então ti ajudado nisso,
se eu estivesse perto."
Hárbarðr disse:
34-"Eu teria então acreditado em ti,
a menos que tu me enganasses."

Þórr disse:
35-"Eu não sou um mordedor de calcanhar*,
como um velho sapato de couro na primavera."
Hárbarðr disse:
36-"O que tu fazia então enquanto isso, Þórr?"

Þórr disse:
37-"Noivas Berserker
eu combatia em Hlésey*;
elas tinham feito o pior,
enganando todos os povos."

Hárbarðr disse:
38-"Tu agiste covardemente então, Þórr,
quando tu combateste mulheres."

Þórr disse:
39-"Elas eram Vargynjur*,
mulheres malvadas,
elas bateram em meu navio,
quando eu tinha colocado na praia,
me ameaçaram com clavas de ferro
e perseguiram Þjálfi*.
O que tu fazia enquanto isso, Hárbarðr?"

Hárbarðr disse:
40-"Eu estava no exército,
quando fui enviado para cá,
levantando bandeiras,
avermelhando lanças [com sangue]."

Þórr disse:
41-"Agora tu desejas relatar isso,
que tu nos trouxeste a ameaça do combate?"

Hárbarðr disse:
42-"Compensarei ti então
com um anel* de mão,
tal como os juízes doam,
quando eles desejam nos reconciliar."

Þórr disse:
43-"Onde tu encontraste
estas palavras de zombaria,
que eu nunca ouvi
em provocações?"
Hárbarðr disse:
44-"Eu as aprendi de homens,
que são antigos,
que habitavam em casas na floresta."

Þórr disse:
45-"Porém tu deste um bom nome para as sepulturas,
quando tu as chamaste de casas na floresta*."
Hárbarðr disse:
46-"Assim eu falo de tais coisas."

Þórr disse:
47-"Tua língua afiada
ti trará mal,
se eu decidir atravessar as ondas;
mais alto que um lobo
eu creio que tu uivarás,
se tu receber o golpe do meu martelo."

Hárbarðr disse:
48-"Sif tem um amante no lar*,
com ele tu desejarias encontrar,
com ele testar tua força,
isso é o que tu deves fazer."

Þórr disse:
49-"Tua boca diz conselhos,
que para mim parecem o pior,
homem covarde,
eu creio que tu és um mentiroso."

Hárbarðr disse:
50-"Eu creio que disse a verdade;
devagar tu fazes sua jornada,
longe tu estarias chegando agora, Þórr,
se tu viajasses de barco."

Þórr disse:
51-"Hárbarðr, seu covarde,
me mantendo aqui tu me atrasas."

Hárbarðr disse:
52-"Ása-Þórr, eu nunca
pensei que
um barqueiro ti enganaria em sua jornada."

Þórr disse:
53-"Um conselho eu ti darei agora;
reme teu barco para cá,
cesse as ameaças,
venha até o pai de Magni."

Hárbarðr disse:
54-"Saia do canal,
eu negarei a ti conduzir."

Þórr disse:
55-"Mostre-me agora o caminho,
já que tu não desejas me transportar sobre as ondas."

Hárbarðr disse:
56-"Pouco é negar,
mas longe é para viajar;
uma pequena distancia em direção aos troncos,
outra em direção as pedras*,
mantenha assim o caminho para a esquerda,
até tu chegares a Verland*;
ali Fjörgyn*
encontrará Þórr, seu filho,
e ela mostrará a ele o caminho da descendência*
até as terras de Óðinn."

Þórr disse:
57-"Eu chegarei lá em um dia?"

Hárbarðr disse:
58-"Com dificuldade e trabalho chegara lá,
quando a Sól nascer,
então eu suponho que sim*."

Þórr disse:
59-"Nossa conversa agora será breve,
desde que tu me respondeste com apenas insultos;
eu ti recompensarei por me negar a atravessar,
se nós dois nos encontrarmos de novo."

Hárbarðr disse:
60-"Vá agora,
onde todos os demônios possam ti ter."


Notas do Hárbarðsljóð:
  • 03/6* Þórr habita em Þrúðheimr ou Þrúðvangr (Grímnismál verso 04, linhas 04 e 05; Gylfaginning cap. 21 e 47; Ynglinga Saga cap. 05). Seu salão se chama Bilskirnir (Gylfaginning cap. 21).
  • 03/7* Possivelmente Þórr se refere aos seus bodes, os quais o Deus mata, come e depois os reanima com o martelo. Snorri relata um episódio similar no Gylfaginning cap. 44, da Edda em Prosa. Outras traduções trazem: "... arenque e aveia".
  • 04/3* Óðinn aparentemente parece dizer para Þórr, que ele não reconhece seu pai que está diante dele.
  • 04/5* Óðinn disse isso para atacar Þórr. Também é possível que seja uma referência ao inverno, onde a terra morre para então renascer no verão.
  • 06/2* Óðinn se refere aos trajes de Þórr.
  • 08/1* Hildólfr é um dos filhos de Óðinn no Nafnaþulur 18 da Edda em Prosa. Seu nome significa "Lobo de Guerra".
  • 08/2* O barco.
  • 09/5* Meili é um dos filhos de Óðinn no Nafnaþulur 18 da Edda em Prosa.
  • 10/1* Hárbarðr significa "Barbas Grisalhas" ou "Barbas Cinzentas". Esse nome aparece no poema Grímnismál verso 49 linha 10, da Edda Poética. Óðinn também aparece como barqueiro na Völsunga Saga. Outro curioso exemplo disso se encontra no Livro II, da Gesta Danorum, de Saxo Grammaticus. Aqui Óðinn é chamado de "Plutão", que enche o submundo com as almas dos nobres, mas recusa os serviçais.
  • 11/2* Outra tradução é possível: "... a menos que tu tenhas feito algum crime".
  • 12/1* Outra tradução é possível: "Embora eu tivesse feito um crime".
  • 13/7* Outra tradução desse trecho é: "... tua brincadeira de criança".
  • 14/4* Hrungnir é o Gigante que apostou corrida de cavalo contra Óðinn em Sleipnir. Seu cavalo era Gullfaxi. Perdendo e tendo entrado em Ásgarðr começou ameaçar os Deuses até Þórr chegar. Depois de marcarem um duelo Þórr o matou com a ajuda de Þjálfi. A perna do Gigante caiu sobre Þórr que só foi libertado graças a Magni, seu filho com a Giganta Járnsaxa. Como recompensa Þórr deu para ele o cavalo de Hrungnir, Gullfaxi. Esse episódio aparece em detalhes no Skáldskaparmál cap. 24, da Edda em Prosa.
  • 15/3* Jötunn significa "Gigante".
  • 16/1* Nada se sabe sobre esse personagem, além do nome.
  • 16/4* Significa "Toda Verde" e parece se referir a Jörð.
  • 18/11* Nada se sabe sobre elas.
  • 19/1* Þjazi é o pai de Skaði. Depois de ter roubado Iðunn e suas maçãs (com a ajuda de Loki), ele foi morto pelos Deuses. Esse episódio é contado no Skáldskaparmál cap. 02 e 03.
  • 19/4* Alvaldi é o pai de Þjazi, Iði e Gangr, segundo o Skáldskaparmál cap. 04, da Edda em Prosa.
  • 19/7* No Skáldskaparmál 04, Óðinn é dito ser o criador dessas estrelas. Embora não se saiba com certeza quais eram essas estrelas, acredita-se que sejam as da constelação de Gêmeos.
  • 20/2* "As Que Cavalgam Pela Noite", são supostamente feiticeiras que cavalgavam sobre lobos na escuridão da noite.
  • 20/5* Nada se sabe sobre esse personagem, além do nome.
  • 20/6* Gambanteinn é um talismã de madeira. Um talismã semelhante aparece no Skírnismál verso 32, linha 03 e 04.
  • 23/3* Jötnar são os Gigantes.
  • 23/8* Þórr confirma sua função de protetor do mundo, dizendo que se não fosse por ele Miðgarðr estaria cheia de Gigantes.
  • 24/1* Valland significa tanto "Terra da Morte" e (possivelmente) pode ser outro nome do Valhöll, como "Terra dos Estrangeiros".
  • 24/5* Os Nobres.
  • 24/7* Os Escravos, porém essa palavra também era usada no sentido de abuso para denotar homens que serviam a outros mais poderosos. Provavelmente Óðinn estava se referindo aos camponeses.
  • 25/2* Os homens. Hárbarðr quis insinuar que Óðinn recebe os mortos em batalha, enquanto Þórr fica com os serventes. Outras divindades também possuem sua cota de mortos: Freyja fica com metade dos guerreiros mortos em combate (Grímnismál 14), Gefjon recebe as virgens e mulheres solteiras (Gylfaginning cap. 35) enquanto Ægir e Rán ficam com os que morrem afogados (Skáldskaparmál cap. 41).
  • 26/4* A luva de Skrýmir/Útgarðr-Loki. No Poema Lokasenna, Loki diz as mesmas palavras para Þórr. Esse episódio é relatado no Gylfaginning cap. 45, da Edda em Prosa.
  • 26/9* Fjalarr aparentemente é outro nome de Skrýmir, porém é possível que se trate do galo Fjalarr (Völuspá verso 42, linhas 4-8), que fica perto do Gigante Eggþér, que toma conta de uma Giganta no Jötunheimr. Esse Fjalarr é o galo guardião dos Gigantes, Gullinkambi (Völuspá verso 43, linhas 1-3) é o galo guardião dos Deuses e Víðófnir poderia ser o galo guardião do Hel citado no Völuspá (verso 43, linha 7).
  • 27/2* No sentido de matar.
  • 29/2* Possivelmente o rio Ífing, que separa a terra dos Gigantes da terra dos Deuses.
  • 29/4* Possivelmente Gigantes.
  • 35/1* Com certeza Þórr quis dizer que não era um traidor e que mantém sua palavra.
  • 37/2* Mulheres furiosas. Hlésey é onde o Gigante do mar, Ægir, habita. Essa ilha é identificada com a ilha Dinamarquesa Läsö em Kattegat.
  • 39/1* Mulheres tidas como lobos.
  • 39/6* Criado de Þórr, e irmão de Röskva. A história de Þjálfi e Röskva é narrada no Gylfaginning cap. 44.
  • 42/2* Óðinn doa anéis para uma Völva no Völuspá, verso 29, linha 01 e 02.
  • 45/2* Abrigos mortuários.
  • 48/1* Loki também acusa Sif de trair Þórr no Lokasenna 54. Possivelmente Loki e Óðinn afirmam isso pelo fato de Sif ter gerado Ullr com uma divindade que nunca foi mencionada. Alguns acreditam que Ullr seja filho de Óðinn enquanto outros afirmam que ele seja filho de Týr. Até Loki e Hrungnir são vistos como possíveis candidatos a pai de Ullr. Embora sejam apenas suposições. Sif parece ser uma Deusa do lar e da família e os kenningar parecem indicar seu ótimo casamento com Þórr.
  • 56/4* Essa passagem quer dizer "um longo caminho".
  • 56/6* Significa "Terra dos Homens".
  • 56/7* Jörð.
  • 56/9* Provavelmente é uma referencia a ponte Bifröst, que é o caminho que leva até Óðinn.
  • 58/3* Também pode ser traduzido como: "eu creio que estará descongelando
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7 de março de 2014

Hine-nui-te-po

۞ ADM Sleipnir

Arte de Jericho Benavente

Hine-nui-te-po é a deusa maori das trevas e da morte, e a governante de Rarohenga, o submundo maori. Seu nome pode ser traduzido como "Grande Dama da Noite". Hine-nui-te-po originalmente era chamada de Hine-titama, que significa "Senhora do Amanhecer", e ela era a filha do deus das florestas Tane com Hine-ahu-one, "Vestido criado de terra", a primeira mulher da mitologia maori. Hine-titama casou com Tane, sem saber que ele era seu pai, e eles tiveram vários filhos.

Um dia, Hine-titama perguntou ao marido se ele sabia quem era seu pai, e ele pediu para ela perguntar aos pilares da casa. Ela sabia que seu marido havia construído a casa, e então percebeu que seu marido era, na verdade, seu pai. Envergonhada, ela fugiu para o submundo, onde foi impedida de entrar por Te Ku-watawata, o guardião do portão. Ele aconselhou-a a voltar e permanecer no mundo de luz e vida, mas ela insistiu em seguir em frente. Assim como ela estava prestes a descer para a escuridão , Tane-matua a envolveu, mas ela lhe deu as costas, dizendo-lhe que ele deveria voltar e cuidar de seus filhos no mundo da luz, enquanto ela iria cuidar deles no mundo das trevas. Foi neste momento que ela mudou seu nome para Hine-nui-te-po, simbolizando sua descida ao submundo .

Arte de Ralph Maheno

A descida de Hine-nui-te-po também marcou o início do fluxo da humanidade para o submundo. Certa vez, o grande herói Maui tentou obter a imortalidade para os seres humanos. Ele iria rastejar por dentro do corpo de Hine-nui-te-po enquanto ela dormia, entrando por sua vagina e saindo por sua boca, e dessa forma a mataria. Maui tinha três pássaros como companheiros, e quando ele se transformou em um lagarto e entrou na vagina de Hine-nui-te-po, uma das aves riu, despertando a deusa. Ao sentir o lagarto rastejando dentro de si, ela esmagou-o até a morte, usando os dentes de obsidiana que possuia em sua vagina. Maui tornou-se assim o primeiro homem a morrer, selando o destino de toda a humanidade, que sempre foi destinada a morrer e ser recepcionada no submundo por Hine-nui-te-po.



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6 de março de 2014

Dian Cecht

۞ ADM Sleipnir

Arte de Mike O'Dwyer

Na mitologia irlandesa, Dian Cecht, também conhecido como Cainte e Canta, era o deus celta da medicina e da cura. Ele era o curandeiro-mestre dos Tuatha Dé Danann e pai de Cian, Cu e Cethé. Seus outros filhos eram Miach, Airmed, Etan e Ochtriullach.

Dian Cecht é uma figura famosa por seu temperamento explosivo e invejoso. Como um dos mais antigos de seu panteão, ele é tratado com respeito e gratidão pelos Tuatha Dé Danann, que muitas vezes necessitam de suas artes de cura, mas mesmo eles reconhecem que o comportamento dele de vez em quando passa dos limites. Dian Cecht, juntamente com sua filha Airmed, é o zelador da maravilhosa fonte de Sláine, cujas águas podem curar qualquer ferida ou doença exceto decapitação total ou morte. 

Mitos

Dian Cecht e Miach

Após o grande rei Nuada perder um dos braços em batalha, ele teve que ceder a coroa para o fomoriano Bres, pois segundo as leis da tribo, o rei não podia ser incompleto. Quando se tornou evidente que os Tuatha Dé Dannan estavam sofrendo sob o domínio de Bres, Nuada procurou Dian Cecht e perguntou-lhe se algo poderia ser feito para curá-lo. Usando todos os segredos e habilidades de cura à sua disposição, Dian Cecht projetou uma mão de prata e a implantou em Nuada, com tal astúcia que ela agia exatamente como uma mão real, permitindo-lhe mais uma vez assumir o trono. 

No entanto Miach, filho de Dian Cecht, também desejava ajudar o Grande Rei, e depois de muitas noites de trabalho árduo, descobriu uma forma de regenerar a própria mão de Nuada, fazendo renascer nele uma mão verdadeira de carne e sangue. Nuada ficou muito feliz com o retorno de sua mão, mas Dian Cecht ficou furioso com essa afronta ao seu orgulho, e em um ataque de ciúmes matou seu filho por se atrever a ser um curandeiro maior do que ele. Quando Miach foi enterrado, sua irmã, Airmed , chorou sobre o seu túmulo. Airmed também era uma deusa da cura, e onde suas lágrimas caíram cresceram todas as ervas curativas do mundo, as quais ela começou a coletar. Furioso que ela, também competia com ele, Dian Cecht golpeou as ervas e as espalhou aos quatro ventos, fazendo com que a humanidade nunca seja capaz de encontrar todas elas novamente.


Dian Cecht e o rio Barrow

Morrigan, a deusa feroz e guerreira, certa vez deu à luz a um filho do deus Dagda. Quando ele nasceu, ele era tão terrivelmente horrível que os outros deuses o levaram para Dian Cecht para perguntá-lo se algo estava errado com ele e se ele podia fazer algo. Dian Cecht, não menos repugnado pela aparência do bebê do que eles, imediatamente declarou que a criança era uma criatura do mal e que deveria ser destruída antes que pudesse crescer. Ele então rasgou o peito dela e ao abrir o coração, três serpentes venenosas saltaram e o atacaram. Ele matou as serpentes, queimou seus corpos e depois jogou as cinzas próximo ao rio Barrow, o que fez o rio ferver para todo o sempre. Depois ele declarou que o bebê havia sido eliminado e já não era uma ameaça.



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5 de março de 2014

Azeman

۞ ADM Sleipnir


A Azeman é uma criatura vampírica cuja lenda é oriunda do Suriname, país localizado ao norte do Brasil. Segundo a lenda, trata-se de uma vampira capaz de se metamorfosear em um morcego, embora alguns relatos afirmem que ela também pode assumir outras formas animais, como a de um lobo. Durante o dia, a Azeman assume a forma de uma bela mulher, sendo capaz de caminhar à luz do sol como qualquer ser humano comum, o que a torna indistinguível das pessoas ao seu redor.

Embora  pertença ao folclore sul-americano, acredita-se que a lenda da Azeman tenha recebido forte influência dos colonizadores europeus, pois suas semelhanças com os vampiros da tradição europeia são evidentes, especialmente no conceito de transformação em morcego.


Outra semelhança com os mitos de vampiros europeus pode ser encontrada nas formas como as pessoas podem se proteger contra a Azeman. De maneira semelhante à muitos vampiros europeus, a Azeman é obcecada com a contagem. Ao colocar uma vassoura na entrada de uma porta, a Azeman normalmente não será capaz de passar por ela, uma vez que ela será forçada a contar todas as cerdas da vassoura antes que ela possa passar. Uma outra maneira de se proteger contra ela é espalhar sementes pelo chão. Ao passar por elas, a Azeman será obrigada a contar cada semente antes que possa fazer qualquer coisa, e se as sementes forem suficientes para prender a Azeman até o amanhecer, ela irá voltar à sua forma humana, revelando assim a sua identidade, e possibilitando que ela possa ser morta.


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4 de março de 2014

Zéfiro

۞ ADM Sleipnir

Zéfiro em um afresco antigo em Pompéia

Zéfiro (em grego Ζεφυρος, "vento oeste") é um dos Anemoi, deuses que personificam os quatro ventos na mitologia grega, sendo o deus que personifica o vento oeste. Ele é também o mensageiro da primavera, e dos quatro ventos, é o mais suave, considerado uma brisa suave e agradável. Zéfiro é filho dos titãs Astreu e Eos, e seus irmãos são Bóreas (vento norte), Noto (vento sul) e Eurus (vento leste), além de Éosforo e Héspero. Suas consortes são a ninfa Clóris (Flora na mitologia romana) e a deusa Íris (segundo os poetas Alceu e Nonnus), com quem gerou Potos. O seu equivalente romano é o deus Favônio. 

Nos primórdios, Zéfiro era considerado um deus violento, capaz de destruir tudo com o seu sopro indomável: arrasava plantações, provocava naufrágios e causava grandes danos aos seres humanos. O que cessou esse ímpeto destrutivo de Zéfiro foi sua súbita paixão pela ninfa Clóris. Como rainha da primavera, a personalidade de Clóris era totalmente o oposto da de Zéfiro, e isso fez com que a deusa o rejeitasse. O amor de Zéfiro por Clóris era tão intenso e sincero, que para conquistá-la, Zéfiro transformou sua personalidade, convertendo-se em um vento suave e incapaz de causar a destruição. Com essa transformação, Zéfiro se tornou o mensageiro da primavera, e sua relação com Clóris produziu um filho, Carpo (fruto).

Zéfiro e Clóris, liustrados na obra "Nascimento de Vênus", de Sandro Botticelli

O mito mais famoso envolvendo Zéfiro trata sobre a sua rivalidade com o deus Apolo, pelo amor de Jacinto, um príncipe espartano. Zéfiro e Apolo competiam pelo amor de Jacinto, e no fim, este escolhe Apolo, o que fez Zéfiro ser tomado por um ciúme doentio. Um dia, ao avistar Jacinto e Apolo praticando lançamento de discos em um prado, Zéfiro tem um ataque de fúria e sopra uma rajada de vento na direção do casal, fazendo com que o disco que jogavam saísse de seu curso e atingisse Jacinto violentamente em sua cabeça, matando-o instantaneamente. Apolo, mergulhado em sua tristeza, transforma o príncipe morto numa flor que carrega o mesmo nome que ele.

Arte de Walter Crane

Zéfiro também foi o responsável por tornar possível a história de amor de Eros e Psique, transportando a mortal até a morada do deus do amor.

Na arte clássica, Zéfiro era retratado como um belo jovem alado. Nas pinturas dos vasos gregos, figuras de um deus alado abraçando um jovem às vezes são identificadas como Zéfiro e Jacinto - embora estudiosos associem essas figuras com Eros (amor) e um jovem genérico. Nos mosaicos greco-romanos, o deus normalmente aparece como a personificação da primavera, carregando uma cesta de frutas verdes.

Zéfiro e Psiquê, Arte de Kinuko Carft


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3 de março de 2014

Gulon

۞ ADM Sleipnir


O Gulon (também conhecido como Jerff na Suécia e Vielfras na Alemanha), é uma criatura originária do folclore escandinavo, geralmente descrito como uma criatura com o corpo de um cão de grande porte, a cabeça, as orelhas e as garras de um gato, uma espessa camada de pelos castanhos desgrenhados e uma cauda como a de uma raposa. O Gulon é frequentemente associado com a gula, ou usado como o símbolo da gula, devido a seus estranhos hábitos alimentares. Dizem que seu sangue possui propriedades afrodisíacas, e que costumavam servi-lo com mel nos casamentos.

Segundo a lenda, o Gulon costuma matar animais às vezes muito maiores do que ele, para em seguida se alimentar da carne até ficar inchado e incapaz de comer mais. Quando  o Gulon atinge esse estado, ele procura por duas árvores que estejam bem próximas uma da outra e se espreme por entre elas, forçando a defecação para que a carne recém-comida seja expelida do seu corpo, e com isso liberando o espaço necessário para que ele possa consumir o restante do que ele era incapaz de comer.

Alguns estudiosos modernos acreditam que as histórias sobre o Gulon são produto dos primeiros avistamentos humanos de um carcaju (conhecido como Wolverine em inglês), um predador voraz que também possui o costume de atacar animais maiores que ele, geralmente enquanto estes estão presos em armadilhas. Ele também ataca sem medo outros animais para roubar-lhes a presa.



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1 de março de 2014

A Edda Poética: Parte V - Skírnismál

۞ ADM Sleipnir

Tradução e Notas de Márcio Alessandro Moreira.


O Skírnismál ("Os Dizeres de Skírnir") é um dos poemas da Edda Poética. O poema foi preservado no século 13 d. c., nos manuscritos Codex Regius e AM 748 I 4to mais pode ter sido originalmente composto em tempos pagãos ao redor do século 9 ou 10 d. c.. Acredita-se que o poema era encenado, talvez em um tipo de hiéros gamos ("casamento sagrado"). Esse poema é também conhecido como För Skírnismál ("A Viagem de Skírnir"). A Edda em Prosa narra uma versão levemente diferente dessa mesma história. O poema Skírnismál é rico em descrição do poder da magia nórdica.

Skírnismál

Freyr, o filho de Njörðr, um dia tinha se sentado no Hliðskjálf, e visto todos os mundos.  Ele olhou em Jötunheimr, e ali viu uma linda donzela, quando ela estava indo do salão de seu pai até o armazém. Desde então ele caiu em uma profunda depressão. Skírnir se chamava o servente de Freyr. Njörðr o mandou para falar com Freyr. Então Skaði disse:

01-"Levante-se agora, Skírnir,
e vá pedir
ao nosso filho* que fale
e pergunte isso,
com quem o sábio está
muito bravo."

Skírnir disse:
02-"Palavras ruins
eu terei de seu filho,
se eu for falar com o rapaz
e perguntar,
com quem o sábio está
muito bravo."

03-"Diga-me, Freyr,
líder de batalha dos Deuses,
e eu desejo saber:
por que tu sentas sozinho,
no vasto salão,
meu senhor, todos os dias?"

Freyr disse:
04-"Como eu ti direi,
jovem homem,
a minha tristeza?
É porque Álfröðull*
brilha durante todos os dias
e não em meu coração."

Skírnir disse:
05-"Teu sentimento
eu não acho que seja tão grande,
que tu, senhor, não possa me dizer,
quando ambos éramos jovens
em dias de outrora,
podíamos confiar um no outro tão bem."

Freyr disse:
06-"Na corte de Gymir
eu vi andando
a donzela que eu desejo;
os seus braços brilhavam
e daí
todo o ar e mar."
07-"A donzela é mais desejada por mim
do que para qualquer
jovem homem de outrora;
Æsir e Álfar*,
nenhum homem deseja
que nós fiquemos juntos."

Skírnir disse:
08-"Me de o cavalo então,
que me carregue sobre a escuridão
em direção ao fogo chamejante*,
e essa espada,
que combate sozinho
contra a tribo dos Jötnar*."

Freyr disse:
09-"Eu te darei o cavalo,
que ti carregara através da escuridão
em direção ao fogo chamejante,
e essa espada
que combaterá sozinha
se quem a tiver for sábio."

Skírnir disse ao cavalo:
10-"É escuro lá fora,
eu digo que é hora de nós viajarmos
acima das montanhas nebulosas*,
acima da raça dos Þursar*;
ambos de nós voltaremos,
ou ambos de nós seremos pegos
pelo poderoso Jötunn."

Skírnir cavalgou para Jötunheimr até a corte de Gymir. Ali estavam cães ferozes e
amarrados na frente do portão do recinto, que circulava o salão de Gerðr. Ele cavalgou
onde um pastor estava sentado sobre um monte e falou para ele:

11-"Diga-me, pastor,
tu que senta sobre o monte da colina
e guarda todos os caminhos:
como eu chego a falar
com a jovem donzela
longe dos cães cinzentos de Gymir?"

Hirðir* disse:
12-"Tu está morto
ou está partindo?
-- -- --
privado de conversa
tu sempre será
com a boa filha de Gymir."

Skírnir disse:
13-"Escolher é melhor
do que se lamentar,
por aqueles que desejam partir;
um dia
minha vida foi gerada
e toda minha vida determinada."

Gerðr disse:
14-"Que barulho é esse
que eu ouço agora em
nosso salão?
A Terra treme,
e tudo sacode ao redor
da corte de Gymir."

Ambátt** disse:
15-"Um homem está lá fora,
desmontou das costas do cavalo,
e deixou o cavalo no pasto."

Gerðr disse:
16-"O convide para entrar
em nosso salão
e beber do melhor hidromel;
embora eu tema
que do lado de fora
seja o assassino do meu irmão*."

17-"Quem é esse dos Álfar
ou dos filhos dos Æsir
ou dos sábios Vanir?
Por que tu vieste sozinho
sobre o fogo selvagem
para ver nosso lar?"

Skírnir disse:
18-"Eu não sou dos Álfar
nem dos filhos dos Æsir
nem dos sábios Vanir;
embora eu tenha vindo sozinho
sobre o fogo selvagem
para ver o seu lar."

19-"Onze maças
eu tenho aqui, todas de ouro*,
eu as ti darei, Gerðr,
para ganhar o teu amor,
para que tu digas que Freyr
é o mais querido dos viventes."

Gerðr disse:
20-"Onze maças
eu nunca aceitarei
por amor de qualquer homem,
e nem eu e Freyr,
viveremos juntos
enquanto nossas vidas durarem."

Skírnir disse:
21-"Eu ti darei o anel,
que foi queimado
com o jovem filho de Óðinn*;
oito anéis de peso igual
pingam dele
a cada nove noites."

Gerðr disse:
22-"Eu não aceitarei,
embora ele tenha sido queimado
com o jovem filho de Óðinn;
eu não sinto falta de ouro
na corte de Gymir,
pois compartilho a riqueza de meu pai."

Skírnir disse:
23-"Tu vês essa espada, donzela,
afiada, ornamentada,
que eu tenho aqui em minha mão?
Eu cortarei
sua cabeça de seu pescoço,
a menos que tu concordes comigo."

Gerðr disse:
24-"Sofrer opressão
eu nunca quis,
pela paixão de um homem;
todavia eu creio
que se Gymir te encontrar,
não relutara em ti combater,
contra tu desejara lutar."

Skírnir disse:
25-"Tu vês essa espada, donzela,
afiada, ornamentada,
que eu tenho aqui em minha mão?
Perante essa lâmina
o velho Jötunn cairá,
seu pai será condenado à morte."

26-"Eu ti golpearei com o cajado*,
e eu ti dominarei,
donzela, para fazer minha vontade;
tu irás ali
onde os filhos dos homens
não te verão mais."
27-"Sobre a colina da águia
tu se sentará *,
olhando o mundo de baixo,
ansiosa do Hel;
a comida será mais repugnante para ti
do que para os homens
é a brilhante serpente*."

28-"Tu se tornará um espetáculo,
quando tu sair para fora;
Hrimnir* ti olhará,
todos os espíritos ti olharão;
tu serás mais conhecida
que o guardião dos Deuses,
tu bocejará através do portão*."

29-"Loucura e lamentação,
grilhões encantados e impaciência
cresceram em ti com lágrimas de tristeza;
tu ti sentarás,
mas eu ti ordenarei
grande sofrimento
e dupla aflição."

30-"Demônios ti atormentaram
ao longo dos dias
na corte dos Jötnar;
no salão dos Hrímþursar*
todos os dias tu
rastejará sem escolha,
rastejará sem esperança;
lágrimas por diversão
tu terá em troca
e repugnância com lágrimas de tristeza."

31-"Com o Þurs* de três cabeças
tu sempre habitarás
ou ficarás sem marido;
tua mente será possuída,
tu serás atormentada;
tu serás como o cardo*
que é tirado
no último tempo [das colheitas]."

32-"Eu andei nos bosques,
em florestas úmidas
para conseguir o Gambanteinn*;
o Gambanteinn eu consegui."

33-"Óðinn está furioso contigo,
Ásabragr* está furioso contigo,
Freyr ti odiará,
donzela maldosa,
tu terá ganhado
a mágica fúria dos Deuses."

34-"Me ouçam Jötnar,
me ouçam Hrímþursar,
filhos de Suttungr*,
e os próprios campeões dos Æsir,
como eu proíbo,
como eu impeço
a alegria dos homens para a donzela
e o prazer dos homens para a donzela."

35-"O Þurs chamado Hrímgrímnir,
ti terá
abaixo do Nágrindr*;
para ti os escravos,
nas raízes da árvore,
ti darão urina de cabra;
tu nunca mais
tomarás bebida melhor,
donzela, isto é por teu próprio desejo,
donzela, é por meu próprio desejo!"

36-"Eu esculpirei [a runa] Þurs* para ti
e três letras,
ergi* e loucura e impaciência;
do mesmo modo como eu tiro os riscos*,
como eu os dou origem,
se isso for necessário."

Gerðr disse:
37-"Seja bem vindo agora, rapaz,
e tome o copo fresco
cheio de antigo hidromel;
embora eu nunca tivesse pensado
que eu sempre
amaria o Vaníngi*."

Skírnir disse:
38-"Toda minha incumbência
eu desejo saber,
antes que eu cavalgue daqui par o lar,
quando tu aceitarás
se encontrar com o forte
filho de Njörðr?"

Gerðr disse:
39-"Barri* se chama,
onde ambos nós sabemos,
o bosque de silenciosos caminhos;
e depois de nove noites,
ali com o filho de Njörðr,
Gerðr aceitará o amor."

Então Skírnir cavalgou para o lar. Freyr estava lá fora e falou com ele e perguntou por
novidades:

40-"Diga-me, Skírnir,
antes que tu pules da sela do cavalo,
e que tu de um passo a frente:
o que tu conseguiste
em Jötunheimr
por seu e meu prazer?"

Skírnir disse:
41-"Barri se chama,
onde ambos nós sabemos,
o bosque de silenciosos caminhos;
e depois de nove noites,
ali com o filho de Njörðr,
Gerðr aceitará o amor."

Freyr disse:
42-"Uma noite é longa,
duas é mais longa ainda,
como resistirei três?
Frequentemente um mês
me parecia mais breve
que a metade de uma noite de núpcias."


Notas do Skírnismál:
  • 01/3* Skaði chamou Freyr de seu filho, embora isso seja contraditório. A Ynglinga Saga cap. 4 relata que quando os Deuses Æsir e Vanir fizeram as pazes, os Vanir enviaram Njörðr junto com Freyr e Freyja para os Æsir, porque Njörðr teve seus dois filhos em Vanaheimr com sua própria irmã (que nunca foi nomeada, embora, talvez, seja Jörð). O Gylfaginning cap. 24, da Edda em Prosa, relata que Njörðr teve seus dois filhos depois que se separou de Skaði. Assim podemos deduzir que Skaði não é mãe de Freyr nem de Freyja, mas ela pode tê-lo chamado assim, porque, talvez, ela o tenha criado. O poema Grímnismál estrofe 5, da Edda Poética, conta que os Deuses deram Álfheimr para Freyr como dádiva do dente. Esse relato parece indicar que Freyr era muito jovem quando foi enviado aos Æsir. Assim é muito provável que Skaði o tenha criado como se fosse seu próprio filho.
  • 04/4* Álfröðull é a Sól.
  • 07/4* Æsir e Álfar são respectivamente os Deuses e os Elfos.
  • 08/3* Parece ser um círculo mágico de fogo ao redor do lar de Gymir.
  • 08/6* Jötnar são os Gigantes.
  • 10/3* Montanhas são abundantes em Jötunheimr.
  • 10/4* Þursar são os Gigantes.
  • *Hirðir significa "Pastor".
  • **Ambátt significa "Donzela Servente".
  • 16/6* Seria Beli esse irmão? Beli foi morto por Freyr.
  • 19/2* As maçãs são símbolos da fertilidade e imortalidade.
  • 21/3* O anel é Draupnir e o filho de Óðinn em questão é Baldr.
  • 26/1* O Cajado talvez seja um bastão rúnico ou outro talismã mágico.
  • 27/2* Parece ser a montanha onde Hræsvelgr se senta na forma de águia.
  • 27/7* Jörmungandr?
  • 28/3* Hrímnir é um Gigante.
  • 28/7* Estrofe de difícil interpretação.
  • 30/4* Hrímþursar significam "Gigantes de Gelo".
  • 31/1* Þurs significa "Gigante".
  • 31/6* Cardo é uma planta de folhas espinhosas.
  • 32/3* Gambanteinn significa "Talismã Mágico".
  • 33/2* Ásabragr é outro nome de Þórr, segundo Snorri.
  • 34/3* Suttungr é um Gigante de quem Óðinn roubou o hidromel dos poetas.
  • 35/3* Nágrindr significa "Portões da Morte".
  • 36/1* Þurs é a terceira runa do Fuþark (alfabeto) viking. Essa runa é dita no poema
  • rúnico norueguês ser a "a tortura das mulheres".
  • 36/3* Ergi significa "Homem Efeminado", talvez Skírnir usasse essa letra para fazer
  • com que Gerðr não arrumasse marido se ela não aceitasse Freyr.
  • 36/4* Os "riscos" possivelmente são runas.
  • 37/6* Um dos nomes de Freyr.
  • 39/1* Barri significa "Cevada".

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