4 de outubro de 2025

Pedra Misteriosa do Lago Winnipesaukee

۞ ADM Sleipnir


A Pedra Misteriosa do Lago Winnipesaukee (Lake Winnipesaukee Mystery Stone) é um artefato arqueológico de origem desconhecida, encontrado em 1872 no estado de New Hampshire, Estados Unidos. De formato oval e semelhante a um ovo de ganso, apresenta superfície polida, furos perfurados em ambas as extremidades e diversas gravuras simbólicas. O objeto é considerado um dos achados mais enigmáticos do estado, sendo alvo de diferentes hipóteses sobre sua função e procedência.

Descoberta

O artefato foi encontrado em 1872, quando trabalhadores contratados pelo empresário local Seneca A. Ladd cavavam um buraco para a instalação de um poste de cerca próximo às margens do lago Winnipesaukee. A peça estava a cerca de 1,8 metro de profundidade, envolta em argila.

Após sua descoberta, a revista American Naturalist descreveu-o como “uma notável relíquia indígena”. Documentos e jornais atestam que Ladd manteve o objeto em posse até sua morte em 1892. Em 1927, sua filha, Frances Ladd Coe, doou a pedra à Sociedade Histórica de New Hampshire, em Concord, onde permanece sob custódia. Atualmente, está exposta no Museu de História de New Hampshire.

Características do artefato

A pedra mede aproximadamente 10,2 centímetros de comprimento, 6,4 centímetros de largura, pesa cerca de 510 gramas e possui tonalidade escura. Foi identificada como sendo composta de quartzito ou milonito. Seu formato é semelhante a um ovo de ganso, com superfície polida. O objeto apresenta furos em ambas as extremidades, perfurados de forma reta e regular, sem afunilamento. 

As laterais e superfícies da pedra exibem símbolos variados. Entre eles, aparecem setas invertidas, uma lua acompanhada de pontos e uma espiral. Em outra face há a representação de uma espiga de milho com dezessete grãos. Na parte inferior, observa-se um círculo com três figuras, incluindo uma forma semelhante à perna de um cervo e a imagem de um animal de grandes orelhas. Em outra área, há um tipi com quatro hastes, um oval e um rosto humano estilizado, cujo nariz se mantém rente à superfície e cujos lábios formam uma expressão definida.


Teorias sobre a origem

Diversas hipóteses foram propostas para explicar a origem e a função da pedra. Em 1872, o American Naturalist sugeriu que a peça poderia comemorar um tratado entre tribos nativo-americanas. Mais tarde, alguns estudiosos a interpretaram como uma ferramenta antiga de uso ritual ou utilitário. Em 1931, uma carta enviada à Sociedade Histórica de New Hampshire propôs que se tratava de uma “pedra do trovão”, objeto associado a mitos universais de pedras caídas do céu.

Estudos mais recentes levantaram a hipótese de adulteração ou fraude. Em 1994, uma análise oficial indicou que os furos regulares do objeto são compatíveis com tecnologia moderna, o que sugere que tenham sido feitos no século XIX e não em tempos pré-colombianos.

Outras interpretações sugeriram que poderia ter origem celta ou inuíte. Em 2018, o historiador indígena Joe Graveline defendeu a hipótese de que o artefato teria sido uma pedra de nascimento, utilizada por parteiras nativo-americanas para facilitar partos difíceis. Segundo ele, poderia ter sido usada em nascimentos de líderes espirituais ou políticos, além de possivelmente servir como oferenda funerária.

Estado atual

A Pedra Misteriosa de Lake Winnipesaukee permanece sem origem definida. O único consenso entre os especialistas é que foi confeccionada com algum tipo de maquinário. O objeto encontra-se em exposição permanente no Museu de História de New Hampshire, em Concord, apresentado em uma vitrine rodeada de espelhos para permitir a observação de todos os seus detalhes.


fonte:
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3 de outubro de 2025

Atargatis

۞ ADM Sleipnir

Arte de inneryoung

Atargatis é uma deusa da mitologia síria, associada à fertilidade, às águas e à proteção das cidades, cujo culto se expandiu para a Mesopotâmia, a Grécia, Roma e outras regiões do Mediterrâneo. Sua denominação original permanece incerta. Nas fontes gregas aparece como Derketo ou Ceto, enquanto em Roma era invocada como Dea Syria (“a Deusa Síria”). Filólogos sugerem que o nome derive de formas aramaicas como 𐡏𐡕𐡓𐡏𐡕𐡄 (ʿAttarʿattā), possivelmente significando “divina Ata”. Outros a relacionam etimologicamente a Ishtar e Astarte, antigas deusas mesopotâmicas e fenícias da fertilidade e do amor.

Ao longo da tradição, Atargatis recebeu múltiplos epítetos e variantes: Atarate, Atergatis, Ataryatis, Atharate, Derketo, Tar-Ata e Ata, possivelmente seu nome mais antigo. Em certos cultos tardios, foi também identificada a Afrodite sob o epíteto Hagne. Alguns estudiosos sugerem que sua figura resultou da fusão de diferentes deusas do Levante, como Anat, Astarte e Asherah, herdeiras das tradições religiosas de Ugarit na Idade do Bronze.

Iconografia

As representações de Atargatis variavam conforme a região. Em Ashkelon, predominava a forma de sereia, com corpo de peixe e torso humano. Já em Hierápolis, era retratada de forma antropomórfica: entronizada, ladeada por leões, com coroa mural, cetro e fuso — símbolos de soberania, destino e fertilidade. Moedas e relevos a mostram cavalgando leões, coroada com golfinhos ou emergindo das águas, sempre com forte ênfase em sua ligação com o mar e a fecundidade. Seus olhos, muitas vezes incrustados com pedras preciosas, conferiam às imagens aspecto vivo e vigilante.


Mitologia

Segundo o mito sírio, Atargatis teria descido dos céus na forma de um ovo cósmico, do qual emergiu como uma mulher-peixe — união simbólica dos elementos celestes e aquáticos. Por essa narrativa, é considerada a “mãe das sereias”.

Outra tradição conta que, invejada por uma rival, foi amaldiçoada a se apaixonar por um belo mortal, com quem teve uma filha: Semíramis, a futura rainha assíria. Após o nascimento, deixou a criança no deserto para ser alimentada por pombas, suas aves sagradas, e lançou-se em um lago, transformando-se na mãe-peixe onipotente. Em honra a essa metamorfose, os sírios antigos abstinham-se de comer peixes e pombas, consagrando-os como animais invioláveis.

Além de deusa das águas, Atargatis também foi venerada como soberana da vegetação, coroada por muralhas e ladeada por leões; como deusa celeste, cercada de águias; ou como divindade marinha coroada por golfinhos. Alguns mitógrafos a mencionam como consorte do deus Hadad, o senhor das tempestades, reforçando sua ligação com a fertilidade da terra.

O mito de Combabus

O escritor Luciano de Samósata preservou um célebre episódio ligado à fundação do templo de Hierápolis. A rainha assíria Estratonice recebeu em sonho a ordem de reconstruir o santuário de Atargatis. Para acompanhá-la, foi designado o nobre Combabus. Temendo a reputação da rainha, ele castrou-se voluntariamente e guardou seus genitais preservados em mel como prova de castidade.

Quando a rainha, apaixonada, foi dissuadida pela revelação de sua mutilação, rumores de adultério levaram Combabus a julgamento. Ao apresentar a caixa selada ao rei, provou sua inocência. Em seguida, dedicou sua vida à deusa, tornando-se sacerdote e estabelecendo o modelo do clero eunuco que marcaria o culto de Atargatis.

Culto e sacerdócio

Os templos dedicados à Atargatis eram caracterizados por tanques com peixes sagrados e pombais em árvores consagradas. O santuário de Hierápolis (antiga Bambyce) tornou-se um dos mais célebres do Oriente, descrito como magnífico e adornado com ouro, prata e pedras preciosas. Seu sacerdócio era formado por eunucos devotos que, em rituais extáticos, dançavam, tocavam música e se autoflagelavam. O ato de castração, inspirado no exemplo de Combabus, simbolizava a entrega total à deusa.

Fora de Hierápolis, templos foram erguidos em Ashkelon, Edessa, Dura-Europos, Palmira e Petra. Entre os nabateus, Atargatis ocupava posição central, refletindo a importância do princípio feminino em sua religiosidade.

Sincretismo e expansão

Atargatis foi amplamente sincretizada com divindades do mundo mediterrânico, aproximando-se de Afrodite, Cibele, Reia e Hera. Essa flexibilidade permitiu que seu culto florescesse sob o Império Romano, expandindo-se como o da Dea Syria. Sacerdotes itinerantes difundiram sua devoção por diversas províncias, chegando à Sicília, Delos e Roma. Assim, Atargatis consolidou-se não apenas como deusa das águas e da fertilidade, mas também como guardiã universal das cidades, da ordem cósmica e do destino.


fontes:
  • CHARLES RUSSELL COULTER; TURNER, P. Encyclopedia of ancient deities. Oxford ; Toronto: Oxford University Press, 2001.
  • MONAGHAN, P. Encyclopedia of goddesses and heroines. Novato, California: New World Library, 2014.
  • Atargatis, the Phoenician Great Goddess. Disponível em: <https://www.thaliatook.com/OGOD/atargatis.php>.
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2 de outubro de 2025

Luideag

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Luideag (em gaélico escocês, "O Trapo" ou "A Mulher Desgrenhada") é uma figura sobrenatural do folclore escocês, descrita como uma aparição feminina misteriosa e sinistra associada à região da Ilha de Skye. Considerada um tipo de athach (espírito ou criatura feérica maligna), ela era frequentemente avistada nas proximidades do Lochan na Dubh Breac ("Lago da Truta Negra"), entre as cidades de Broadford e Sleat.

De acordo com as narrativas tradicionais, a Luideag aparecia à noite, geralmente perto de estradas, sob a forma de uma mulher jovem, mas de aspecto desalinhado, com longos cabelos emaranhados ou um casaco cobrindo a cabeça. Sua presença era silenciosa e inquietante — ela nunca respondia quando abordada, independentemente do idioma (inglês ou gaélico), e desaparecia tão subitamente quanto surgia.

Relatos sugerem que sua aparição era um presságio de má sorte ou morte. Em uma história conhecida, um fiscal de impostos (exciseman) tentou comunicar-se com ela, sem sucesso. Pouco depois, um homem foi encontrado morto no mesmo local, e, após esse incidente, a Luideag nunca mais foi vista.

A Luideag compartilha características com outros seres do folclore gaélico, como as ban-sìth (mulheres-feéricas) ou espíritos ligados a corpos d'água. Alguns estudiosos sugerem que ela pode representar um fantasma de uma mulher que sofreu uma morte trágica, um espírito guardião associado ao lago ou uma manifestação de antigas crenças em criaturas feéricas malignas.


fontes:
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1 de outubro de 2025

Dragão de Ipu

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O Dragão de Ipu é uma criatura mítica do folclore brasileiro, associada à região da Bica do Ipu, no município de Ipu, no estado do Ceará. A lenda foi registrada pelo naturalista Antônio Bezerra de Menezes (1841–1921), que a documentou por volta de 1884, contribuindo para a preservação do mito no folclore cearense. Segundo a tradição oral, o dragão habitaria uma extensa caverna nos arredores da bica, guardando um tesouro ancestral trazido por povos vindos da Cordilheira dos Andes.

A aparência do dragão varia conforme as versões da tradição oral. Dizem que sua pele é coberta por escamas amareladas e acinzentadas, semelhantes às rochas de sua gruta, o que lhe permite camuflar-se como um predador. Seus olhos são descritos como globos vermelhos e incandescentes, verdadeiras bolas de fogo que brilham na escuridão e anunciam sua presença. Ele também possui uma mandíbula aterrorizante, capaz de triturar exploradores, e uma língua bifurcada, típica de sua natureza reptiliana. Por fim, diz-se que o dragão emana um calor infernal de seu corpo, solta estrondos pelas narinas e é capaz de afugentar até os mais corajosos aventureiros.

O Tesouro de Ipu

A história mais conhecida associada ao Dragão de Ipu envolve um personagem misterioso, lembrado apenas como “O Holandês”, vinculado à presença neerlandesa no Nordeste brasileiro durante as invasões do século XVII. Segundo a tradição, o estrangeiro adentrou as matas da Serra da Ibiapaba, surpreendendo-se com abismos de pedra e exuberantes cachoeiras até alcançar a caverna onde o dragão habitava. Logo na escuridão, dois globos vermelhos e incandescentes se acenderam: eram os olhos flamejantes da criatura. Diante do tesouro que brilhava sob sua guarda, o monstro abriu lentamente a mandíbula para devorar o explorador.

O holandês, porém, possuía conhecimentos secretos — uns dizem magia pagã, outros acreditam em uma oração de contrição — que fizeram o dragão sucumbir a um sono temporário. Foi assim que ele conseguiu escapar ileso, levando consigo parte do tesouro. Desejando proteção divina para a riqueza conquistada, o homem enterrou o montante em uma praça, diante das primeiras paredes da capela que se tornaria a Igreja de São Sebastião, padroeiro do município de Ipu. Dessa forma, colocou o tesouro sob a guarda celestial do santo.

A cobiça, no entanto, falou mais alto. Dominado pela ambição, o holandês retornou à caverna para tentar obter o restante do ouro e da prata. Lá, encontrou novamente o brilho dos tesouros misturado às labaredas dos olhos do dragão. Nem o calor sufocante da gruta, nem o rugir das narinas, nem o sibilar da língua bifurcada o fizeram recuar. Mas o monstro, desta vez, não foi enganado. Aproveitando-se da fraqueza do aventureiro, devorou-o cruelmente em meio às chamas, selando seu destino trágico.

Décadas mais tarde, o sertanejo João da Costa Alecrim, major do sertão, descobriu e desenterrou o tesouro deixado pelo holandês sob a proteção de São Sebastião. Rapidamente, tornou-se um homem rico. Entretanto, sua fortuna trouxe condenação. Considerado um profanador por ter violado um bem sagrado, passou a ser rejeitado por todos, vivendo como um pária até a morte. Assim, sua história serve como segundo aviso moral da lenda: a riqueza adquirida de forma impura ou sacrílega traz consigo não prosperidade, mas desgraça.

Arte de Thaís Câmara Tavares

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30 de setembro de 2025

Aillén Mac Midgna

۞ ADM Sleipnir


Aillén Mac Midgna (ou simplesmente Aillén) era na mitologia celta/irlandesa um monstro cuspidor de fogo, ora descrito como sendo uma fada, ora como um goblin. Também chamado de “O Incendiário”, Aillén era um músico membro da tribo dos Tuatha Dé Danann, os antigos deuses e heróis da Irlanda pré-cristã. Ele hipnotizava suas vítimas ao tocar uma melodia encantadora em sua harpa de fada, fazendo com que todos ao redor caíssem em um sono profundo e inescapável.

Durante 23 anos consecutivos, Aillén aterrorizou o local mais sagrado da Irlanda: a colina de Tara, sede do Grande Rei da Irlanda. A cada véspera de Samhain — o festival celta que marca o fim do verão e o início do ano novo — Aillén surgia em Tara, tocava sua harpa mágica com fervor e, quando todos os presentes adormeciam, ele incendiava os grandes salões reais com sua respiração flamejante. Depois de reduzir tudo a cinzas, retornava tranquilamente ao seu monte encantado em Sídh Finnachaid, deixando o povo para reconstruir tudo, apenas para repetir a tragédia no ano seguinte.


Ninguém conseguia detê-lo, pois o feitiço de sua música impedia qualquer tentativa de defesa ou ataque. Isso perdurou até que surgiu Fionn mac Cumhaill, o herói lendário da Irlanda. Após provar seu valor e conquistar um lugar entre os guerreiros Fianna, Fionn soube das atrocidades de Aillén e decidiu enfrentá-lo. Detentor do conhecimento absoluto adquirido ao provar o Salmão da Sabedoria, Fionn pediu ao Rei Supremo a liderança dos Fianna, prometendo derrotar Aillén em troca. Como nenhum guerreiro havia conseguido sequer resistir ao monstro, o rei aceitou o acordo.

Sabendo que não era imune à música mágica de Aillén, Fionn buscou uma solução. Outro guerreiro, Fiacha, possuía uma lança envenenada, mas não sabia usá-la. Fionn, com sua sabedoria, sabia exatamente como manipulá-la. 


Na véspera do Samhain, ele inalou os vapores tóxicos da lança, que eram tão potentes que o mantiveram desperto e protegido contra o encantamento de Aillén. Quando o mesmo apareceu e começou a tocar sua harpa, todos ao redor adormeceram — exceto Fionn. Ele esperou o momento certo, aproximou-se sorrateiramente e, com um golpe preciso, transpassou Aillén com a lança envenenada, matando-o e libertando Tara de sua maldição anual.

Fiel à sua palavra, o rei concedeu a Fionn o comando dos Fianna. Goll mac Morna, líder do grupo até então e antigo inimigo de Fionn, renunciou ao seu posto e jurou lealdade ao novo capitão. Assim, Fionn mac Cumhaill iniciou sua jornada como um dos maiores heróis da mitologia irlandesa, marcando o fim de uma era de terror e o início de uma nova liderança lendária.

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29 de setembro de 2025

Inari

۞ ADM Sleipnir


Inari (japonês: 稲荷; ou Inari-Ōkami, japonês 稲荷大神; também chamado de Oinari) é o kami (deus) xintoísta associado à agricultura e as raposas, sendo o protetor dos alimentos e o provedor da prosperidade. Ela é uma das divindades mais veneradas do Japão, com mais de 40.000 santuários dedicados a seu culto por todo o país.

Etimologia e Nomes

O nome Inari deriva da palavra japonesa ine (稲), que significa "muda de arroz", podendo ser traduzido como "portador do arroz". A divindade é também conhecida por outros nomes e títulos, como Ta-no-kami (田の神, "deus do arrozal", Susshe Inari – "Inari do Sucesso", Manzoku Inari – "Inari da Satisfação" e Ukanomitama-no-kami – "deus do sustento".

Inari é frequentemente associado à deusa da alimentação Ukemochi e, no sincretismo com o budismo japonês, é identificado com Daikiniten (versão japonesa da deidade hindu Dakini), também associada à cozinha e aos Cinco Grãos. No contexto budista, Inari é considerado discípulo de Buda e é conhecido como Inari Daimyojin.

Inari Daikiniten

Iconografia 

Uma divindade complexa com muitas faces, Inari é referida como uma divindade masculina, feminina e andrógina dependendo do contexto,  das tradições regionais e crenças individuais, podendo ainda ser vista como um coletivo de três deuses (Inari sanza) ou cinco (Inari goza). 

Em algumas representações, aparece com barba, vestes da corte, segurando um saco de arroz, uma Cintamani (joia flamejante que realiza desejos), ou uma chave de celeiro.  Porém, frequentemente aparece como uma mulher, carregando dois fardos de arroz e montada em uma raposa raposa ou seguida por duas delas.


Inari e a Raposa

A raposa (kitsune) é um elemento central no culto a Inari. Acredita-se que seja mensageira da divindade e protetora dos santuários. Muitas esculturas de raposas aparecem adornadas com babadores vermelhos, segurando uma chave de celeiro na boca. Os templos dedicados a Inari costumam ter pequenas aberturas nas paredes para permitir a entrada e saída simbólica do espírito da raposa.

É comum que fiéis deixem oferendas específicas para agradar a raposa, como o inari-zushi — arroz envolto em tofu frito, embebido em licor doce de arroz. Acredita-se que, se a raposa estiver satisfeita com a oferenda, intercederá positivamente junto ao deus em favor do fiel.


Origens e Expansão do Culto

A veneração a Inari teria começado no século VIII d.C., quando um homem chamado Hata no Irogu, ao praticar arco e flecha usando bolinhos de arroz (mochi) como alvo, atingiu um que se transformou magicamente em uma pomba branca. A ave voou até um pico do Monte Inari, chamado Mitsumine, onde Irogu encontrou arroz crescendo espontaneamente. O evento foi interpretado como manifestação espiritual, dando origem ao culto a Inari como kami (deus) do arroz e da fertilidade.

Durante o Período Yayoi (300 a.C. – 250 d.C.), com a introdução do cultivo do arroz no Japão, Inari tornou-se central nas práticas agrícolas e festividades ligadas ao plantio e à colheita. Sua importância cresceu com o tempo, estendendo-se além do meio rural e incorporando funções como: protetor dos alimentos; patrono dos comerciantes, artesãos e ferreiros; protetor de casais e amantes; solucionador de problemas e provedor de prosperidade e sucesso material.

No século IX, o monge budista Kukai (Kobo Daishi), fundador da escola Shingon do budismo japonês, declarou Inari como divindade guardiã do templo To-ji, em Heiankyo (atual Quioto). Segundo relatos, Kukai teria encontrado um velho carregando arroz no Monte Inari e interpretado o encontro como uma manifestação do deus. Quando o imperador adoeceu gravemente, sua recuperação teria ocorrido após a concessão de um posto de prestígio a Inari na corte.

Durante o Período Edo (1603–1868), Inari passou a ser associado ao comércio e às finanças, refletindo as transformações da sociedade japonesa. Na Era Meiji (1868–1912), com o avanço da industrialização, consolidou-se como kami da economia, posição que ainda ocupa para muitos fiéis atualmente.

Arte de Hatsumi Neon

Santuário Fushimi Inari Taisha

O principal centro de culto a Inari é o Santuário Fushimi Inari Taisha, situado ao sul de Quioto. Fundado em 711 d.C. pelo clã Hata, foi originalmente construído no topo do Monte Inari e transferido para sua localização atual no século IX. O templo era administrado por monges budistas até a separação oficial entre xintoísmo e budismo em 1873.

O complexo é famoso por seus milhares de portões vermelhos (torii), doados por devotos em busca de bênçãos. Os portões se alinham formando caminhos cobertos, sendo mais de 5.000 no total. O preço para doar um torii varia, partindo de aproximadamente 3.000 dólares. O prédio principal foi destruído em 1468 durante as Guerras de Onin e reconstruído em 1499. No centro do templo, uma grande pedra simboliza o shintai (a presença espiritual) de Inari, ladeada por estátuas de raposas.

O santuário é visitado ao longo de todo o ano, com picos durante o Hatsumode (primeira visita ao templo no Ano-Novo) e no início de fevereiro, durante o Hatsuuma Taisai, festival tradicional em honra a Inari.

Arte de Matteo Spirito


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28 de setembro de 2025

Barbmoáhkka

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Bárbmoáhkká ("esposa das aves migratórias" na língua sami) é uma deusa da mitologia sámi, responsável pela proteção e supervisão das aves migratórias. Segundo a tradição dos antigos sámi, Bárbmoáhkká vivia em uma terra distante ao sul, conhecida como Barbmoriika ou “Terra de Barmol”, onde o sol sempre brilhava e para onde as aves migratórias se retiravam durante o inverno no norte da Escandinávia. Ela convocava as aves deste país do sul para retornarem à Sápmi na primavera.

Na mitologia sámi, a grou (Guorga) era considerada o rei das aves e responsável por registrar quantas aves migratórias chegavam e quantas morriam durante a viagem. A grou também anunciava a chegada da primavera, funcionando como um presságio da estação. Bárbmoáhkká, por sua vez, decidia quantas aves permaneceriam com ela e quantas seriam distribuídas pelo mundo, garantindo a sobrevivência das espécies e o suprimento para os caçadores.

O culto a Bárbmoáhkká está intimamente ligado à observação da natureza e à prática da caça, refletindo a relação simbiótica entre os sámi e a fauna migratória da região de Varanger e do norte da Escandinávia. O tema aparece em estudos de etnografia e mitologia, sendo preservado em registros de tradições orais e trabalhos acadêmicos sobre a cultura sámi.

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27 de setembro de 2025

Espada Yuchang

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A Espada Yuchang (em chinês: 鱼肠剑; literalmente, "espada intestino de peixe") é uma arma lendária da China antiga, célebre por ter sido utilizada no assassinato do rei Liao de Wu em 515 a.C. Segundo a tradição, a lâmina recebeu esse nome porque fora ocultada dentro de um peixe para enganar os guardas. Algumas versões afirmam que os padrões da lâmina lembravam as vísceras de um peixe cozido; outras sugerem que a espada era tão pequena que podia ser escondida em seu interior.




Origem e forja

De acordo com os relatos, a espada foi forjada pelo renomado ferreiro Ou Yezi, sob ordens do rei de Yue, em algum momento entre o final do século VI a.C. e o início do século V a.C. Para sua confecção, utilizou-se minério do Monte Chi Jin (赤堇山) e bronze do Rio Ruo Ye (若耶溪), sendo trabalhada em meio a tempestades intensas.

Quando concluída, foi examinada pelo especialista Xue Zhu, que previu um destino trágico para a arma:

“Ministros matarão seus senhores com ela. Filhos matarão seus pais com ela.”

Posteriormente, o reino de Yue presenteou Wu com a espada, que acabou nas mãos de Helü de Wu, junto com outras lâminas lendárias, como a Shengxie e a Zhanlu.

Contexto histórico

Na mesma época, viveu Zhuan Zhu (专诸), natural de Magang (马港), que trabalhava como açougueiro. Era descrito como homem de força extraordinária — de olhos fundos, boca larga, costas como as de um tigre e cintura espessa como a de um urso —, sendo ainda reconhecido por sua devoção filial e espírito de justiça. Em 522 a.C., Wu Zixu fugiu do Estado de Chu após a execução de sua família pelo rei Ping de Chu. Refugiado em Wu, tomou conhecimento das habilidades de Zhuan Zhu e, ciente das ambições de Helü, que conspirava contra seu tio, o rei Liao, apresentou-o ao príncipe.

O cenário dinástico de Wu era conturbado: o pai de Helü, rei Zhufan, tivera três irmãos — Yuji, Yu Mei e Ji Zha. Embora Ji Zha fosse o mais talentoso, recusara o trono. Após a morte de Yu Mei, seu filho Liao assumiu o reinado (c. 526 a.C.), o que alimentou o ressentimento de Helü e o motivou a buscar a usurpação.

O assassinato do rei Liao

No nono ano do reinado de Liao, após a morte do rei Ping de Chu, Wu lançou uma campanha militar contra Chu. Contudo, seu exército foi cercado, e a situação expôs fragilidades internas. Aproveitando-se disso, Helü tramou a morte do tio. Em 515 a.C., organizou um banquete e convidou o rei Liao, sob rígida vigilância. 

Durante o evento, fingiu sofrer de uma dor no pé e deixou a sala, enquanto Zhuan Zhu se preparava para o ataque. A espada Yuchang foi escondida dentro de um peixe servido ao monarca. No momento oportuno, Zhuan Zhu golpeou e matou o rei. Logo em seguida, foi morto pelos guardas reais. Ainda naquele ano, Helü de Wu assumiu o trono e recompensou o filho de Zhuan Zhu com uma posição de prestígio em seu governo.

Após o assassinato, não há registros claros sobre o paradeiro da espada; em vez disso, ela sobreviveu na tradição literária e histórica como um emblema de traição, heroísmo e inevitável tragédia — cumprindo a profecia de Xue Zhu.

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